terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Teologia: A Ira de Deus

Introdução

          Um filme sem apelação comercial e por isso pouco conhecido trás um tema instigante – “Coisas que perdemos pelo caminho”. Sem entrar no mérito do filme o tema reflete bem a nossa vida, pois todos nós continuamente perdemos coisas na trajetória de nossas vidas. Não perdemos apenas coisas irrelevantes e desnecessárias, mas muitas vezes perdemos coisas de valor incalculável e fundamentais.

          Como cristão perdemos muitas coisas preciosas no transcorrer de nossa caminhada cristã. Uma dessas lamentáveis perdas é o conhecimento dos chamados Atributos de Deus. A bíblia jamais tem a pretensão de definir Deus, pois se assim o fizesse colocaria um limite em Deus e nada e ninguém pode limitar o que Deus é.

Todavia, Deus não nos deixou ignorante sobre si mesmo. Ele vai se revelando progressivamente nas páginas das Escrituras. Na proporção que vamos estudando a Bíblia tomamos conhecimento de muitas das características que Deus possui e que na somatória nos permite conhecermos, dentro de nossas limitações, o que podemos chamar de Caráter de Deus. Evidente que jamais o conheceremos em sua totalidade, mas aquilo que podemos apreender das Escrituras são suficientes para nos habilitar a um correto relacionamento com Deus, com temor e tremor.

A irreverência crescente com que incrédulos e até mesmo grande parcela do cristianismo atual tratam a questão de Deus demonstra apenas a ignorância que possuem sobre quem Ele é. Está é uma das razões pela qual a mensagem cristã tem sido esvaziada em seu poder de impactar a vida das pessoas.

Sem duvida alguma um dos atributos de Deus que foi propositalmente perdido pelo caminho dos séculos foi o da Sua Ira. Atualmente, mas em construção há muito tempo, se construiu uma imagem falsa de Deus, como sendo um deus (com letra minúscula mesmo) bonachão e fofinho, que passa a mão na cabeça do ser humano independentemente do que fazem. Nesta construção infernalmente elaborada, deus torna-se uma figura patética e completamente esvaziado de poder e glória, um personagem figurativo que pode ser facilmente manipulado ao bel prazer dos seres humanos. Um deus com apelo religioso comercial, para se construir templos cada vez mais luxuosos e produzir milhares de títulos editoriais. Tornou-se um tabu referir-se a Ele como um Deus de ira. O deus ficcional manifesta apenas graça, amor, perdão, jamais haverá de manifestar juízo e ira. Grande parte da juventude cristã do século XXI jamais ouviu falar da Ira ou do Juízo de Deus. Não se razão temos uma das piores gerações humana de todos os tempos.

Uma grande e crescente parcela da chamada geração evangélica tratam as questões relacionadas ao céu ou inferno como se fossem tão somente histórias da carochinha criadas para explicar às crianças cousas que elas ainda não podem compreender. Tais pessoas não querem pensar sobre a Ira de Deus, preferindo apenas pensar e falar do amor de Deus. Aqueles que acreditam que Deus é um Deus de ira como também um Deus de amor preferem pensar sobre Sua ira apenas como uma manifestação do passado. Muitos parecem acreditar que a ira de Deus é uma verdade apenas do Primeiro Testamento, e que com a vinda de Cristo, podemos pensar em termos de Deus apenas em amor e graça.

O exímio comentarista bíblico e teólogo  A. W. Pink, já em séculos anteriores, escrevendo sobre os Atributos de Deus faz uma peculiar observação:

É triste ver tantos cristãos professos que parecem considerar a ira de Deus como uma coisa pela qual eles precisam pedir desculpas, ou, pelo menos, parece que gostariam que não existisse tal coisa. Conquanto alguns não fossem longe o bastante para admitir abertamente que a consideram uma mancha no caráter divino, contudo, estão longe de vê-la com bons olhos, não gostam de pensar nisso e dificilmente a ouvem mencionada sem que surja em seus corações um ressentimento contra essa ideia. Mesmo dentre os mais sóbrios em sua maneira de julgar, não poucos parecem imaginar que há na questão da ira de Deus uma severidade terrificante demais para propiciar um tema para consideração proveitosa. Outros dão abrigo ao erro de pensar que a ira de Deus não é coerente com a Sua bondade, e assim procuram bani-la dos seus pensamentos.

Sim, muitos há que fogem de visualizar a ira de Deus, como se fossem intimados a ver alguma nódoa no caráter divino, ou algum defeito no governo divino. Mas, o que dizem as Escrituras? Quando a procuramos nelas, vemos que Deus não fez tentativa alguma para ocultar a realidade da Sua ira. Ele não se envergonha de dar a conhecer que a vingança e a cólera Lhe pertencem (PINK, 1985, p.85).

 

Quando fazemos uso de uma concordância bíblica séria facilmente perceberemos que o tema da ira de Deus não é apenas um pequeno e imperceptível tópico, mas é princípio fundamental e proeminente nas Escrituras, em todas as suas partes. Não faltam exemplos práticos da manifestação da ira Divina sobre toda sorte de pecados e malefícios: o dilúvio, Sodoma e Gomorra, os povos canaanitas, bem como os próprios israelitas e judeus que sofrem os terríveis desterros, em decorrência de seus pecados.  Veremos também que nas páginas do Segundo Testamento não faltam ilustrações da manifestação do juízo de Deus sobre todos aqueles que escolhem permanecerem na incredulidade e rebelião contra Deus: o próprio Jesus trata sobre isso; nas correspondências paulinas encontramos esse tema e no último livro que encerra o cânon de toda Escritura encontramos as mais terríveis descrições do juízo implacável de Deus sobre todo pecado e mal que se manifesta cada vez mais abertamente contra Cristo e Sua Igreja.

A ira é um atributo de Deus tanto como qualquer outro atributo, um atributo sem o qual Deus seria menos que Deus.

A ira de Deus é tanta uma perfeição Divina como é Sua graça, fidelidade, poder ou misericórdia. Deve ser assim, para que não exista nenhuma lacuna, nenhum defeito no caráter de Deus.

Mas o que vem a ser a ira de Deus? Uma vez mais utilizaremos a obra de Pink, quando ele procura definir o que seja a ira de Deus:

A ira de Deus é a Sua eterna ojeriza por toda injustiça. É o desprazer e a indignação da divina equidade contra o mal. É a santidade de Deus posta em ação contra o pecado. É a causa motora daquela sentença justa que Ele lavra sobre os malfeitores. Deus está irado contra o pecado porque este é rebelião contra a Sua autoridade, um ultraje à Sua soberania inviolável. Os insurgentes contra o governo de Deus saberão um dia que Deus é o Senhor. Serão levados a sentir quão grandiosa é aquela Majestade que eles desprezaram, e como é terrível aquela ira de que foram ameaçados e a que não deram a mínima importância. Não que a ira de Deus seja uma retaliação maldosa e mal-intencionada, infligindo agravo só pelo prazer de infringi-lo, ou devolver a ofensa recebida.  Não; embora seja verdade que Deus vindicará o domínio como Governador do universo, Ele não será revanchista (PINK, 1985, p.85).

Quando procuramos em um dicionário uma definição de ira encontraremos que ela é: cólera, raiva contra alguém; indignação; desejo de vingança. Mas para alinharmos com o propósito deste pequeno artigo uma definição mais concisa seja suficiente:

A ira Divina é a indignação e o castigo íntegro de Deus, provocado pelo pecado.

OBS.: Em próximos artigos veremos – a Ira de Deus no Primeiro Testamento e/ou Antigo Testamento e Segundo Testamento e/ou Novo Testamento (Jesus Cristo é aquele que sofre a plenitude da ira de Deus; mas também será aquele que executara a ira de Deus no tempo do julgamento derradeiro.

 

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas

DEFFINBAUGH, Robert. Let Me See Thy Glory - A Study of the Attributes of God. Biblical Studies Press, 1995.

TOZER, A. W. The Knowledge of the Holy. New York: Harper and Row, Publishers, 1961.

PINK, A.W. Os Atributos de Deus. São Paulo: ed. PES, 1985.

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segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Páscoa – Conciliação dos Eventos Relacionados à Crucificação de Jesus


          Todas as narrativas evangélicas contidas no Novo Testamento culminam com a Cruz. Toda pregação neotestamentária é centrada na Cruz. Paulo sintetiza toda sua teologia e pregação ao escrever aos Corintos: “nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos,” e “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado”. (1Co 1.23; 2.2) e aos Gálatas: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu, para o mundo” (Gl 6.14), não por acaso duas das mais complicadas comunidades neotestamentária.

         A Igreja Cristã inicia sua decadência na mesma proporção de que se afasta da Cruz de Cristo. Os cristãos de antigamente de refugiavam na Cruz de Cristo, hoje as igrejas pós-modernas escondem a Cruz. Não se prega, fala ou se vive a cruz. Se para os evangelistas, Paulo e todos os crentes dos primeiros séculos a mensagem do Evangelho que Salva o pecador culminava na Cruz, hoje o evangelho líquido renega a cruz à um amuleto.

         O simples fato de que todos os quatro evangelistas concluem suas narrativas com os eventos relacionados à cruz é motivo suficiente para pararmos e fazermos uma profunda reflexão sobre os valores que tem sido predominantes em nossa vida cristã hoje.

         Abaixo você encontrará uma pequena relação coordenada dos eventos finais da jornada de Jesus Cristo à Cruz. Enquanto lemos cada referência façamos uma revisão do lugar que a cruz tem ocupado em nosso viver cotidiano.

1. Jesus chegou ao Gólgota (Mateus 27.33; Marcos 15.22; Lucas 23.33; João 19.17).

2. Ele recusou a oferta de vinho misturado com mirra (Mateus 27.34; Marcos 15.23).

3. Ele foi pregado na cruz entre os dois ladrões (Mateus 27.35-38; Marcos 15.24-28; Lucas 23.33-38; João 19.18).

4. Da cruz deu o primeiro grito: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que estão fazendo” (Lucas 23.34).

5. Os soldados levaram as vestes de Jesus, deixando-O nu na cruz (Mateus 27.35; Marcos 15.24; Lucas 23.34; João 19.23).

6. Os expectadores judeus zombaram de Jesus (Mateus 27.39-43; Marcos 15.29-32; Lucas 23.35-37).

7. Ele conversou com os dois ladrões (Lucas 23.39-43).

8. Ele declara ao ladrão arrependido: “Eu te digo a verdade. hoje você estará com Eu no paraíso” (Lucas 23.43).

9. Ele fala consolando Maria: “Mulher, aqui está o seu filho” (João 19.26-27).

10. As trevas cobrem toda a terra em pleno meio-dia às 15h. (Mateus 27.45; Marcos 15.33; Lucas 23.44).

11. Ele clama ao Pai: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste” (Mateus 27.46-47; Marcos 15.34-36).

12. Uma vez mais Jesus clama: “Estou com sede” (João 19.28).

13. Oferecem-lhe “vinagre ou vinho azedo” (João 19.29).

14. Jesus declara: “Está consumado” (João 19.30).

15. Sua boca é umedecida com vinagre de vinho numa esponja (Mateus 27.48; Marcos 15.36).

16. Ele clamou pela última vez. “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lucas 23.46).

17. Ele entrega Seu espírito por um ato de Sua própria vontade (Mateus 27.50; Marcos 15.37; Lucas 23.46; João 19.30).

18. A grossa cortina do templo se rasga de cima abaixo (Mateus 27.51; Marcos 15.38; Lucas 23.45).

19. Diante de tudo que viram os soldados romanos declaram: “Certamente Ele era o Filho de Deus” (Mateus 27.54; Marcos 15.39).

 

Resgatemos para nós mesmos o valor incomparável da Cruz!

 

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quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

EVANGELHOS EM IMAGEM – Parábola do Semeador


Os três primeiros relatos evangélicos contidos no nosso Novo Testamento (Segundo Testamento) são chamados de “sinóticos”, pois os escritores registram o mesmo acontecimento, mas cada um deles o faz por uma ótica distinta, utilizando um vocabulário próprio (ainda que bastante semelhante) e o faz dentro da organização literária própria. Portanto, eles não utilizam apenas tipo - cópia e cola -, mas na leitura de cada uma temos lições próprias a serem extraídas (para isso é necessário examinar atentamente o contexto em que são inseridas).

PARABOLA DO SEMEADOR

Mateus 13.1-9

Marcos 4.1-9

Lucas 8.4-8

1-No mesmo dia, tendo Jesus saído de casa, sentou-se à beira do mar

2-e reuniram-se a ele grandes multidões, de modo que entrou num barco, e se sentou e todo o povo estava em pé na praia.

3-E falou-lhes muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis que o semeador saiu a semear.

4-e quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho, e vieram as aves e comeram.

5-E outra parte caiu em lugares pedregosos, onde não havia muita terra: e logo nasceu, porque não tinha terra profunda

6-mas, saindo o sol, queimou-se e, por não ter raiz, secou-se.

7-E outra caiu entre espinhos e os espinhos cresceram e a sufocaram.

8-Mas outra caiu em boa terra, e dava fruto, um a cem, outro a sessenta e outro a trinta por um.

9-Quem tem ouvidos, ouça.

 

1-Outra vez começou a ensinar à beira do mar. E reuniu-se a ele tão grande multidão que ele entrou num barco e sentou-se nele, sobre o mar e todo o povo estava em terra junto do mar.

2-Então lhes ensinava muitas coisas por parábolas, e lhes dizia no seu ensino:

3-Ouvi: Eis que o semeador saiu a semear

4-e aconteceu que, quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho, e vieram as aves e a comeram.

5-Outra caiu no solo pedregoso, onde não havia muita terra: e logo nasceu, porque não tinha terra profunda

6-mas, saindo o sol, queimou-se e, porque não tinha raiz, secou-se.

7-E outra caiu entre espinhos e cresceram os espinhos, e a sufocaram e não deu fruto.

8-Mas outras caíram em boa terra e, vingando e crescendo, davam fruto e um grão produzia trinta, outro sessenta, e outro cem.

9-E disse-lhes: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

 

4-Ora, ajuntando-se uma grande multidão, e vindo ter com ele gente de todas as cidades, disse Jesus por parábola:

5-Saiu o semeador a semear a sua semente. E quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho e foi pisada, e as aves do céu a comeram.

6-Outra caiu sobre pedra e, nascida, secou-se porque não havia umidade.

7-E outra caiu no meio dos espinhos e crescendo com ela os espinhos, sufocaram-na.

8-Mas outra caiu em boa terra e, nascida, produziu fruto, cem por um. Dizendo ele estas coisas, clamava: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

 

 

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sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Jesus Cristo Conclui o Antigo Testamento e Abre o Novo Testamento

               As literaturas bíblicas antes de qualquer outro motivo ou razão é eminentemente teológicas. Cada frase, capítulo e livro, bem como suas duas bibliotecas tem como propósito comunicar a nós JESUS CRISTO e sua obra redentora. Todo e qualquer outro assunto, assunto ou proposta que se possa inferir dos textos bíblicos são secundários e muitos supérfluos e irrelevantes.

               O Espírito Santo não compôs a Bíblia, denominada pelas gerações anteriores de crentes de Sagradas Escrituras, para ser uma enciclopédia de curiosidades excêntricas, ou para ser uma fonte interminável de especulações exotéricas cristãs ou como atualmente um reduto de produções literárias religiosas. A Bíblia é, foi e continuara sendo até o último dia desta dispensação final, o meio pelo qual o pecador pode conhecer e reconhecer Jesus Cristo como único Senhor e Salvador de suas vidas. Ele é o Alfa e o Ômega das Escrituras. A Bíblia somente tem sentido com e nele, e se tirarmos Jesus da Bíblia ela se torna um livro sem sentido e sem propósito.  

Mateus deixa isso claro desce as primeiras linhas de sua narrativa evangélica. Ao final da genealogia que utiliza para abrir seu registro histórico, no verso 17, o evangelista faz uma observação peculiar sobre o nascimento de Jesus: "Assim, todas as gerações, de Abraão a Davi, são quatorze; de Davi à deportação para a Babilônia, quatorze; e da deportação para a Babilônia para Cristo, quatorze".

Mateus gosta muito de usar a numerologia três e sete no desenvolvimento de sua narrativa. Uma razão é de que ambos os números carregam a simbologia de totalidade ou perfeição quando referidos à pessoa e ações de Deus. E ao utilizar três grupos de sete gerações ele está indicando desde as primeiras linhas que Jesus é o início e a conclusão da História humana escrita pelo próprio Deus desde antes do mundo e o ser humano virem a existir (como dirá Paulo ao escrever a epístola aos Efésios 1.4).

A genealogia apresentada por Mateus é deliberadamente esquemática, pois ele não esconde ou camufla sua intenção teológica. Esse arranjo ensina que a história do Antigo Testamento pode ser concentrada ou sintetizada em três períodos de eventos críticos:

1º iniciado com o estabelecimento da Aliança de Deus com Abraão e estendendo-se até o estabelecimento da Monarquia israelita;

2º da dinastia iniciada com Davi até a queda e rompimento do sistema monárquico com o exílio babilônico;

3º a partir do exílio e o retorno dos judeus até a vinda propriamente dita do Messias na pessoa e obra de Jesus Cristo, o único que poderia restaurar o Reino e de se assentar no trono definitivo.

               Mateus deixa claro, portanto, que Jesus é “a conclusão” no que se refere à história do Antigo Testamento (ainda que muitos tentam esticar esta história). Jesus percorreu toda jornada preparatória para isso, e finalmente seu objetivo e clímax foram alcançados.

As páginas do Primeiro Testamento estão prenhas de esperanças futuras. Toda história veterotestamentária aponta para Aquele que viria. Este movimento escatológico (do grego eschaton, "evento final" ou "conclusão final"), é irreversível e nem uma força humana ou infernal podia detê-la, nem mesmo a incredulidade dos israelitas (reino do Norte) e dos judeus (reino do Sul) foram capazes de anulá-la, pois Deus manteve em todo o tempo uma raiz que voltaria a brotar seu renovo escatológico até a vinda de Jesus Cristo.   Esse projeto Redentivo estava fundamentado no conceito do próprio Deus como Aquele que nunca deixou de estar continua e constantemente ativo dentro da história, com um propósito definido, trabalhando na direção de Seu objetivo desejado para Seu povo escolhido e para a própria humanidade.

Desta forma, Mateus sintetiza toda essa história da salvação na forma de uma genealogia, e na conclusão dela no verso 17 ele deixa claro que o propósito histórico de Deus foi plena e perfeitamente alcançado em Jesus. A genealogia proclama a todos que queiram ouvir: a preparação está completa! O Messias chegou! Nesse sentido, Jesus é o Ômega, a conclusão, o fim. A partir de então, Mateus vai fazer ecoar essa maravilhosa notícia (boas novas) do Evangelho, primeiramente aos judeus e ao final expandido para todas as nações, povos e etnias da Terra.

"O tempo se cumpriu, o reino de Deus está próximo, já chegou, está em vós."

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Referências Bibliográficas

BROADUS, John A. El Evangelio Segun Mateo. Traducción Sarah A. Hale. Casa Bautista Publicações. [Comentario Expositivo sobre el Nuevo Testamento, Tomo 1].

DURVALL, J. Scott & VERBRUGGE, Verlyn D. (Editors). Devotions on the Greek New Testament. Zondervan, Grand Rapids, Michigan: 2012. [Roy E. Ciampa - Learning from Joseph’s Righ teous ness].

GIBSON, John Monro. The gospel of St. Matthew. London: Hodder and Stoughton, 1935. [The Expositor’s Bible].

HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Mateus, v.1. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001. 

HUIZENGA, Leroy A. The New Isaac Tradition and Intertextuality in the Gospel of Matthew. BRILL, Leiden, Boston, 2009. [Supplements to Novum Testamentum ; v. 131].

MOUNCE, Robert H. Novo comentário bíblico contemporâneo – Mateus. São Paulo: Editora Vida, 1996.

RIENECKER, Fritz. Evangelho de Mateus – comentário esperança. Tradução Werner Fuchs. Curitiba-PR: Editora Evangélica Esperança, 1998.

SADLER, M. F. The Gospel According to St. Matthew, 3ª ed. Nova York: James Pott & Cia., 1887.

 

domingo, 31 de dezembro de 2023

Jesus Cristo nas Escrituras (Levítico)

 E o sacerdote queimará tudo isso no altar. É um holocausto, oferta preparada no fogo, de aroma agradável ao Senhor — Levítico 1.9, NVI

          No livro de Gênesis temos o quadro terrível da queda da raça humana. O ser humano criado à imagem e semelhança de Deus escolhe confrontá-lo e acaba rompendo sua comunhão com seu Criador. Mas Deus já de antemão providencia um caminho de volta Gn 3.15. Esta promessa será o fio condutor de toda a história bíblica sendo concluída apenas no livro do Apocalipse onde o ser humano é reinserido no Jardim de Deus.

          No livro do Êxodo temos a formação da nação de Israel e por meio dela Deus efetivará seu plano redentor. O simbolismo salvífico de Deus está presente em todo o desenvolvimento deste livro tendo sua apoteose no sacrifício do cordeiro pascoal – o qual Jesus Cristo – o cordeiro pascoal definitivo vai se revestir integralmente na cruz do calvário.

          O livro de Levítico segue o fim condutor estabelecido nos livros anteriores. Em Gênesis o ser humano afasta-se de Deus; em Êxodo Deus resgata o ser humano escravizado pelo pecado e em Levítico esse ser humano resgatado é capacitado a se relacionar novamente com seu Criador.

O livro de Levítico somente faz sentido para aqueles que foram reconciliados com Deus. Seu ensino, à luz do Novo Testamento, é para aqueles que já reconheceram seu estado de pecador, que reconheceram Cristo como seu resgatador e agora estão habilitados buscarem a presença de Deus. O livro nos mostra a perfeita santidade divina e a absoluta impossibilidade do pecador se aproximar de Deus, exceto por meio da expiação.

Uma vez estabelecido o tema central o livro passa a ilustrá-lo. Ele nos coloca frente a frente com a grande questão do sacrifício em prol do pecado. A ênfase continua no sacrifício destina-se a impactar fortemente o leitor/ouvinte sobre o quão terrível é o pecado aos olhos de Deus. Para aqueles que não entendem a seriedade do pecado e quão terrível são suas consequências, o livro não passa de uma lista interminável e horrenda de sacrifícios.

Como um grande farol construído sobre a rocha que é Cristo, o livro conduz o ser humano entre os rochedos do pecado de maneira que suas vidas não sejam despedaçadas e venham a naufragar no mar da vida.

          O que só temos em ilustrações virtuais em Levítico, vemos em realidade na cruz de Cristo. A cruz torna-se verdadeiramente uma manifestação do amor imensurável de Deus; O amor de Deus Pai revelado em plenitude por meio do Filho que, "Por um espírito eterno, ofereceu-se imaculado a Deus" Hebreus 9.14. Mas ela fez mais do que isso, pois revela que Deus está de fato e de verdade comprometido em resgatar o pecador.

A Cruz de Cristo revela as duas faces do pecado humano: revela a total aversão que Deus tem do pecado (em todas as suas nuances) o que fica evidente no calvário; e o amor imensurável de Deus que vai às últimas consequências para, entregando-se a si mesmo no Filho, para salvar o pecador João 3.16.

Embora nosso intelecto não possa compreender o mistério da Expiação, nossos corações e consciências são habilitados a proclamá-la com eficiência. Tendo reestabelecido a paz pelo sangue de sua cruz Colossenses 1.20. Consolo sem medida tem sido estas palavras para as almas em aflição em todos os lugares e épocas! Somente aqueles que experimentam verdadeiramente toda a agonia e dor produzida pelo pecado, que tão tenazmente nos acedia, reconhece o valor imensurável da Cruz de Cristo.

Os primeiros capítulos de Levítico descrevem cinco tipos de ofertas. Uma apenas não seria suficiente para renderizar a ideia da perfeição do sacrifício do Cristo.

O primeiro aspecto que atrai a nossa atenção é que em cada oferta, temos três objetos distintos: a oferta, o sacerdote, e o ofertante (aquele que traz a oferta). Portanto, é preciso compreender-se o significado ou abrangência destas três figuras, pois Jesus Cristo está representado em cada uma delas:

·       Cristo é a oferta. "A oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todosHebreus 10.10.

·       Cristo é o sacerdote. "Temos um Sumo Sacerdote, Jesus, o Filho de DeusHebreus 4.14.

·                 Cristo é quem oferece. "Ele se entregou para nós, a fim de nos redimir de todos iniquidade" Tito 2.14.

As ofertas são divididas em duas classes principais: aromas suaves/agradáveis, entre os quais o holocausto (o sacrifício consumido pelo fogo) é o mais importante, pois era oferecido em expiação pelo pecado. A vítima era completamente queimada no altar no pátio do Tabernáculo. Era um sacrifício integral, completo, inteiro – nada era reservado. 

Aqui temos a representação da vida de perfeita obediência de Cristo à vontade de seu Pai, em favor de nós, não apenas como Aquele que carrega nossos pecados, mas como Ele próprio se constituindo na oferta perfeita a Deus que é suficiente para satisfazer plenamente a justiça de Deus: uma vida de completo abandono, coração, mente e vontade, oferecidos sem reservas a Deus Efésios 5.2. Na oferta, de farinha fina e do óleo representa-se o cumprimento do dever ao próximo.

Jesus, como Homem, cumpriu estas duas oferendas em sua vida humana perfeita na terra. Na flor de farinha triturada, reduzida a pó e oferecida pelo fogo, vemos uma imagem de Jesus, machucado, dia após dia, por aqueles a quem Ele fez o bem, pelo qual se doou continuamente, suportando a contradição dos pecadores.

A oferta pelo pecado se distingue do holocausto. Ela era especificamente oferecida em expiação pelo pecado. A gordura queimada no altar de brasa, mostrava que o sacrifício fora aceito, mas todo o resto era queimado fora do acampamento indicando a extrema gravidade do pecado aos olhos de Deus. O Senhor Jesus tornou-se está "oferta pelo pecado" por nós: "Agora, no final dos tempos, apareceu apenas uma vez para abolir o pecado por seu sacrifício. Hebreus 9.26. Jamais poderemos imaginar a angústia desse contato com o pecado para a alma imaculada do nosso Redentor, a angústia causada pelo abandono de Deus, quando Ele foi "feito pecado por nós". (Ele Coríntios 5:21).

Na consagração de Arão como Sumo Sacerdote e em seus deveres ao longo deste livro, temos um símbolo do nosso grande soberano Sacerdote. Na consagração de seu filho e dos levitas, devemos ver o sacerdócio de todos os verdadeiros crentes em Jesus. Na terrível cena em que dois filhos de Arão Nadab e Abihu não levam a sério as ordenanças em relação ao tabernáculo e oferecem fogo estranho em seus incensários e ali são consumidos pelo fogo do altar, fica o alerta para todos aqueles que acham que podem adorar a Deus de qualquer maneira.

Os incensários dos sacerdotes deveriam ser acesos no altar dos holocaustos cf. Levíticos 16.12 e Números 16.46, somente esta era a forma correta pela qual eles deveriam servir no altar do Senhor. Da mesma forma somente com base na obra expiatória de Cristo as orações podem subir a Deus como perfume agradável a Ele. No culto quem deve ser agradado não é o ofertante, mas aquele que está sendo adorado.

Muitos capítulos de Levítico são relacionados às leis da vida cotidiana dos israelitas. Aqui temos duas verdades paralelas – essas leis revelam o quanto Deus se preocupa com o bem-estar físico e moral de seus filhos. Mas também demonstraram que o serviço do Senhor extrapola os espaços do tabernáculo e invadem os espaços cotidianos dos ofertantes. A expressão tão cara ao livro de Levítico - "Sereis santos, pois eu, o SENHOR, teu Deus, eu sou santo" - implica que santidade não apenas momentos estáticos de culto, mas um estilo de vida que deve distinguir aqueles que tem um compromisso com Deus e aqueles que vivem descompromissados Dele. As palavras santo e santidade, permeia toda a narrativa deste livro. O apostolo Paulo compreendeu muito bem este princípios e escreve aos cristãos em Corinto: “Assim seja se você está comendo, bebendo ou fazendo qualquer outra coisa, tudo deve ser feito como que para a glória de Deus. Tendo, portanto, tais promessas, Amados, vamos nos purificar de todos contaminação da carne ou do espírito, na conclusão do Nossa santificação no temor de Deus1Coríntios 7.1.

No símbolo da lepra (Capítulos 13 e 14), temos o alerta de que o pecado nos priva da comunhão com Deus. Somente depois de ter sido examinados e constatado de que não há quaisquer vestígios da doença (da cabeça aos pés, ou seja, em sua totalidade) é que a pessoa era declarada limpa e apta para oferecer sacrifícios ao Senhor e estaria livre para participar das celebrações. João escreve de forma maravilhosa esse princípio com base no sacrifício remidor de Jesus Cristo: “Se confessarmos os nossos pecados (declararmos que somos de fato e de verdade culpados), Ele [Cristo] é fiel e justo para nos perdoar os pecados (todos e cada um) e nos purificar de toda injustiça1João 1.9.

Assim como o sacerdote tinha que sacrificar os dois pombos ou passarinhos como ofertas pelo pecador purificado, assim Jesus Cristo morreu por nossas transgressões e ressuscitou por nossas ofensas, para a nossa justificação. Quanto a previsão divina é Misericordiosa! Os pardais estavam ao alcance dos mais pobres: assim o ato de fé está disponível a todos igualmente.

Todavia, antes do leproso já purificado retomar seu lugar na comunidade ele precisa tomar um banho completo. O simbolismo de consagração e separação de toda imundícia do pecado. Agora ele estava livre para se apresentar diante do Senhor e lhe oferecer seu sacrifício.

De todo calendário religioso contido no livro de Levítico – o grande Dia da Expiação (Capítulo 16) é sem dúvida alguma o ápice. Era um Dia da humilhação. Todo o povo era conclamado a confessar a Deus os seus pecados. Só acontecia uma vez por ano, igualmente, registra o escritor de Hebreus 9.28 "Cristo ofereceu-se uma única vez para carregar [sobre si] os pecados de muitos [os nossos pecados]”. O sacrifício de Jesus Cristo não será repetido jamais.

Neste dia o Sumo Sacerdote adentrava ao Santos dos Santos e ali oferecia sacrifício [sangue de touro] por si mesmo, por sua família.  A oferta pelo Pecado do povo consistia em dois bodes. Lançada sorte um era imolado e o sangue dele era aspergido no propiciatório e diante do propiciatório, por sete vezes (número do completo). O outro bode, denominado de emissário, o Sacerdote colocava a mão sobre a cabeça dele confessando o pecado do povo, e depois era conduzido para o deserto "com a ajuda de um homem que tinha esse cargo – ouçamos as palavras testemunhais de João Batista em relação a Jesus Cristo - "Eis que o Cordeiro de Deus tira os pecados do mundo;”; agora as palavras do profeta Isaías “o SENHOR pôs sobre Si a iniquidade de Todos nósJoão 1.29; Isaías 53.6.

Evidente que nenhum animal grande ou pequeno (ou mesmo milhares) poderiam substituir perfeitamente o pecador. Mas todo o livro de Levito é sombra daquele sacrifício perfeito que Jesus Cristo ofereceria em nosso favor. Por esta razão ele assume a plenitude de nossa humanidade - "Deus em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo 2Coríntios 5.19. Assim Cristo como sendo perfeitamente humano e perfeitamente divino expiou os nossos Pecados de uma vez por todas Hebreus 1.2-3 e 2.14.

A nossa salvação e o perdão de nossos pecados estão relacionados diretamente com o sacrifício de Jesus Cristo no calvário. Não sem motivo o apostolo Pedro escreve: “Pois vocês sabem que não foi por meio de coisas perecíveis como prata ou ouro que vocês foram redimidos da sua maneira vazia de viver, transmitida por seus antepassados, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha e sem defeito1Pedro 1.18-19.

O PRECIOSO SANGUE DE CRISTO
Redenção através do sangue - 1 Pedro 1.18-19.
Perdão através do sangue - Efésios 1.7.
Justificação pelo sangue - Romanos 5.9.
Paz através do sangue - Colossenses 1.20.
Purificação pelo sangue - 1 João 1.7.
A Libertação do pecado pelo sangue - Apocalipse 1.5.
Santificação pelo sangue - Hebraico 13.12.
Entrada gratuita pelo sangue - Hebreus 10.19.
Vitória através do sangue - Apocalipse 12.11.
Glória Eterna através do sangue - Apocalipse 7.14-15.

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

me.ivanguedes@gmail.com

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