sábado, 3 de dezembro de 2022

Eclesiastes - Introdução ao Livro


Total de capítulos: 12
                       Total de versículos: 222 
Tempo aproximado de leitura: 35 minutos

O livro de Eclesiastes é um dos cinco livros poéticos do Antigo Testamento. Compreendendo uma porção significativa da literatura sapiencial bíblica, esses livros — Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares de Salomão — possuem caráter profundamente pessoal e contêm algumas das reflexões mais densas e penetrantes da história humana.

Muitos estudiosos não hesitaram em enumerá-lo entre os livros mais difíceis do Cânon Sagrado. No período da Antiguidade e no transcorrer da Idade Média, na ausência de expositores mais cuidadosos, abundaram comentários alegóricos extravagantes, que mais confundiram os leitores do que os ajudaram a compreender a mensagem do livro.

O reformador João Calvino não produziu nenhum comentário específico sobre Eclesiastes, ainda que tenha feito inúmeras citações dele em suas obras. Martinho Lutero, por sua vez, reconheceu que Eclesiastes é “um dos livros mais difíceis de toda a Escritura” e criticou os comentários anteriores por terem obscurecido o propósito do livro, tanto por falta de compreensão do objetivo do autor quanto por dificuldades relacionadas à língua hebraica e ao estilo peculiar do texto (LUTHER, 1972, p. 3).

Quando se lê Eclesiastes pela primeira vez, pode-se achá-lo confuso e difícil de entender. À primeira vista, parece uma estranha mistura de fé e fatalismo. Em alguns momentos, o escritor parece resignado diante da frustração e da futilidade da vida; em outros, parece sugerir que se deve aproveitar tudo o que oferece alguma satisfação. Entretanto, quando se lê o livro com mais atenção, percebe-se que o escritor está fazendo um alerta: Deus sabe o que está acontecendo, e um dia responderemos diante dele.

Dessa forma, a grande pergunta do livro é: qual é o sentido da vida? Onde Deus entra na equação da sua existência?

Uma das razões pelas quais os evangélicos dos séculos XX e XXI minimizam ou menosprezam a leitura e o estudo de Eclesiastes é que o escritor expõe, de forma clara e sem subterfúgios, a abordagem superficial e triunfalista de parte do cristianismo contemporâneo. O livro confronta os leitores com os problemas reais de vivermos em uma sociedade hedonista e materialista.

Eclesiastes é um discurso inoportuno para os ouvidos sensíveis das atuais gerações evangélicas.

Se, nas gerações de meus pais e avós, muitas pessoas deixavam tudo para desfrutar do Evangelho, no tempo presente muitos “crentes” — como se tivessem esquecido o fim para o qual foram salvos — estão prontos para deixar o Evangelho e mergulhar de corpo e alma nos prazeres deste mundo. O escritor de Eclesiastes descreve, em imagens vívidas, que tudo o que essa sociedade oferece é tão somente vaidade, sim, vaidade das vaidades.

O livro inteiro confronta a tendência do ser humano de querer ser Deus em vez de confiar em Deus. Eclesiastes nos ensina que só podemos nos aproximar de Deus com base em quem ele é, e não com base naquilo que “definimos” que ele seja. As pessoas, de forma geral, e um número crescente de evangélicos, vivem como quem pode ter tudo, saber tudo, experimentar tudo, alcançar tudo, ser feliz em tudo e ter todas as respostas para tudo. Mas a realidade é que somente Deus pode ser e fazer tudo isso; nós não somos ele.

A chave para compreender corretamente esse livro está na frase: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 9.10). A verdadeira sabedoria consiste em reconhecer a nossa própria limitação e aprender continuamente a confiar no Deus soberano, que conhece e sabe todas as coisas. Como em toda a Bíblia, a fé é indispensável, pois sem ela pouca coisa — ou nada — faz sentido nas Escrituras.

Unidade do livro

As aparentes contradições levam muitos a afirmar precipitadamente que o livro é uma obra de vários autores, cada um apresentando sua própria visão da vida. Mas, quando estudado sem preconceito ideológico, percebe-se claramente que o mesmo escritor examina a vida humana sob diversos aspectos. Ele não tem dúvidas, porém, sobre a direção certa a ser tomada, e afirma isso com todas as letras.

Título e autoria

O título do livro, “Eclesiastes”, é a tradução grega da palavra hebraica Qoheleth ou Koheleth, que deriva da palavra hebraica qahal, “assembleia” ou “congregação”. Desse modo, Qoheleth é aquele que se dirige à assembleia.

O termo refere-se a um pregador ou professor que está diante de seu auditório para expor ou ensinar suas teses. Essa palavra é encontrada nos dois primeiros versículos, bem como em Ec 1.12; 7.27; 12.8-10: “Palavras do Pregador, filho de Davi, rei em Jerusalém. Vaidade das vaidades, diz o Pregador, vaidade das vaidades; tudo é vaidade” (Ec 1.1-2).

Embora o nome de Salomão não apareça no livro, os dois primeiros versículos o identificam como “filho de Davi, rei em Jerusalém”. Tanto judeus quanto os primeiros cristãos atribuíram o livro a ele. Além disso, as referências à sua grande sabedoria em Ec 1.16, aos seus vastos projetos de construção em Ec 2.4-6 e à sua abundante riqueza em Ec 2.7-9 reforçam essa identificação, em diálogo com a narrativa bíblica sobre Salomão em 1Rs 3.12; 7.1-12 e 2Cr 9.3-28.

Data de escrita

O conteúdo do livro sugere que Salomão o escreveu em idade mais avançada, provavelmente por volta de 930-945 a.C., quando faz uma retrospectiva de sua própria vida.

Em Ec 2.1-11, ele descreve suas grandes obras, riquezas, indulgências e prazeres. Nos capítulos 11 e 12, escreve sobre experiências relacionadas ao envelhecimento. Em seguida, aplica essas experiências aos jovens, especialmente em Ec 11.9—12.1, para que eles aprendam com sua trajetória.

Tema

Em suas declarações iniciais e finais, Salomão destaca a vaidade e a futilidade da vida. Sem Deus, a vida é vazia e sem sentido. Ele utiliza duas expressões-chave — “vaidade” e “debaixo do sol” — que aparecem ao longo do livro como uma espécie de refrão. “Vaidade” traduz a palavra hebraica hebel, que significa sopro, vapor, transitoriedade ou vazio. Dessa forma, o escritor deixa claro que uma vida na qual Deus está fora da equação é sem sentido e vazia.

O escritor pretende levar seus ouvintes e leitores a uma reflexão sobre o sentido da vida: como você está vivendo? Salomão teve tudo do bom e do melhor; portanto, tinha meios e recursos para explorar todos os caminhos em sua busca por satisfação. Mas o resultado não foi aquilo que ele esperava, pois uma vida sem Deus é uma completa ilusão. A morte é implacável: “Então, o pó voltará à terra, como era, e o espírito voltará a Deus, que o deu. Vaidade das vaidades, diz o Pregador; tudo é vaidade” (Ec 12.7-8).

O escritor conclui sua obra com uma nota sóbria. A felicidade e a satisfação reais e verdadeiras estão somente em Deus: “teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem. Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más” (Ec 12.13-14).

Há uma linha divisória entre o crente e o incrédulo. Os crentes sabem que vivem esta vida “sob as mãos de Deus” (Ec 9.1) e que Deus está no controle de todas as coisas. Há muitas realidades acontecendo além daquilo que os olhos podem ver e que os sentimentos podem perceber. O incrédulo vive alienado de Deus e, portanto, sem o discernimento correto das coisas, preferindo viver na ilusão a encarar a realidade nua e crua da vida.

Assim, uma vida com propósito e significado somente é encontrada por aqueles que aprendem a discernir a vontade de Deus e a confiar nele. Foi por isso e para isso que Cristo morreu na cruz: para que o ser humano perdido e desorientado pudesse chegar novamente a Deus.

O pecado danificou totalmente o “GPS” do ser humano, de modo que ele, por si só, não é capaz de encontrar o caminho certo que o leve a Deus. Por isso, Jesus Cristo precisou vir ao mundo: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6).

Propósito

Em seu comentário sobre Eclesiastes, Gary H. Everett destaca alguns propósitos do livro, organizando sua leitura em dimensões doutrinária, histórica, didática e exortativa (EVERETT, 2013).

Propósito doutrinário e apologético: estabelecer e defender a reivindicação central do Pentateuco de que YHWH é o Deus verdadeiro.

Propósito histórico: registrar uma expressão antiga da literatura de sabedoria, revelando aspectos da mentalidade da cultura hebraica e das culturas em meio às quais Salomão produziu literatura sapiencial.

Propósito didático: instruir e aconselhar os jovens acerca do verdadeiro significado da vida. O jovem costuma ser caracterizado por uma paixão por explorar e experimentar a existência. Pode pensar, por exemplo, que a verdadeira sabedoria consiste em acumular grande quantidade de experiências e conhecimento. Salomão, porém, acumulou vasta sabedoria e descobriu que isso não era suficiente. Talvez o jovem também suponha que a vida seja mais bem aproveitada quando alguém vive despreocupadamente e se entrega aos prazeres. Salomão igualmente experimentou isso e não encontrou satisfação.

O Pregador ensina que servir ao Senhor e obedecer aos seus mandamentos é a verdadeira essência da vida. Ele mostra que devemos viver nossa breve estada nesta terra com alegria, aprendendo a encontrar propósito nas tarefas diárias enquanto caminhamos no temor do Senhor. Devemos reconhecer os dons desta vida — sabedoria, alegria, trabalho e riqueza — como bênçãos de Deus.

Eclesiastes nos ensina quão pouco este mundo pode satisfazer a alma humana separada do serviço a Deus. O livro afirma que, em meio às injustiças, anormalidades e lutas da vida que estão além do nosso controle, existe um Deus que interage continuamente com os assuntos da humanidade. Podemos nos consolar com o fato de que haverá um dia de prestação de contas para todos. Nenhum livro das Sagradas Escrituras aprofunda essa verdade de modo tão incisivo quanto Eclesiastes.

Propósito exortativo e querigmático: exortar os filhos de Israel a servirem ao Senhor Deus de todo o coração, obedecendo aos seus mandamentos por meio do temor do Senhor. Israel foi chamado a testemunhar às nações sobre o Deus vivo e verdadeiro por meio das bênçãos divinas resultantes de sua obediência.

A relevância de Eclesiastes para hoje

Eclesiastes é relevante porque trata de temas que continuam atuais: injustiça contra os pobres (Ec 4.1-3), política desonesta (Ec 5.8), líderes incompetentes (Ec 10.6-7), impunidade que encoraja novas práticas perversas (Ec 8.11), materialismo (Ec 5.10) e nostalgia idealizada pelos “bons velhos tempos” (Ec 7.10).

Enquanto passamos por Eclesiastes, algumas orientações práticas devem nos acompanhar:

  1. Não enterre a cabeça na areia, fingindo que os problemas não existem.
  2. Encare a vida honestamente, mas veja-a da perspectiva de Deus.
  3. Use a sabedoria dada por Deus, mas não espere resolver todos os problemas nem responder a todas as perguntas.
  4. Obedeça à vontade de Deus e desfrute de tudo o que ele lhe dá.
  5. A morte está chegando; portanto, esteja preparado.
  6. Moisés resume bem essa necessidade: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” (Sl 90.12).

A pergunta que permanece é: sua vida é uma rotina monótona ou uma aventura diária vivida diante de Deus?

 

Utilização livre desde que citando a fonte.

Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
me.ivanguedes@gmail.com

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Referências bibliográficas

EVERETT, Gary H. The Book of Ecclesiastes. In: Study Notes on the Holy Scriptures: Using a Theme-based Approach to Identify Literary Structures. January 2013 Edition. Disponível em: https://www.studylight.org/commentaries/eng/ghe/ecclesiastes.html. Acesso em: 30 abr. 2026.

LUTHER, Martin. “Notes on Ecclesiastes”. In: Luther’s Works. v. 15. Edited by Jaroslav Pelikan and Hilton C. Oswald. Translated by Jaroslav Pelikan. St. Louis: Concordia Publishing House, 1972. p. 3-187.

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