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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Babel - o Epicentro da Arrogância Humana (Gênesis 11:1-9)

 

Nada ilustra mais nitidamente a arrogante estupidez humana do que a tentativa de construção da chamada Torre de Babel. Suas primícias são todas antideus – irmanados em uma linguagem comum, decidem construir uma torre que “alcance os céus”. Querem construir um nome para si e, assim, confrontar Deus, recusando-se a espalhar-se pela terra.

É muito provável que o salmista tenha esse triste quadro em mente quando compôs o Salmo 2.1-3 (Paráfrase)

Por que as nações se levantam em tumulto,
e os povos gastam energia em planos inúteis?
Os reis da terra se posicionam em desafio,
e os governantes se unem contra o Senhor e contra o seu Ungido, dizendo:
“Vamos romper suas correntes
e nos livrar de suas amarras!”.

Mas Deus destrói seus planos com apenas um gesto – confunde-lhes a língua.

Incapazes de se entender, eles são forçados a abandonar o projeto e a se espalhar pela face da terra, como Deus lhes havia determinado.

Este capítulo fornece uma explicação narrativa para a origem das diversas línguas e nações que existem na Terra. As palavras podem, e são muitas vezes, mal interpretadas e a palavra unanimidade é uma delas. Quantas coisas erradas tem se feito na história humana utilizando-se esta palavra. Devemos discernir com muita prudência e discernimento entre união e conspiração; entre identidade e mera associação para um determinado objetivo. Devemos, em todas essas coisas, colocar a questão moral: Sobre o que é a unanimidade? Essa unanimidade está se movendo na direção da vontade de Deus expressa em Sua Palavra? A unanimidade que afasta você da verdade da Palavra de Deus, não vem do céu, mas do mais profundo do inferno – rejeite-a. Babel é uma unanimidade e, no entanto, é um movimento sistêmico na direção errada.

Análise do Texto

Em Babel, cada termo da narrativa revela a profundidade da arrogância humana diante de Deus:

·        A unidade não é neutra; quando divorciada da obediência, torna-se instrumento de rebelião coletiva. O relato de Babel revela que qualquer unidade sem Deus é perigosa e mortal. Na política, quando governos e nações se unem em ideologias que rejeitam a soberania divina, a unidade se torna instrumento de opressão e idolatria. Na tecnologia, o avanço científico sem referência ao Criador ergue torres modernas de autossuficiência, onde o ser humano acredita poder controlar tudo. Na cultura, movimentos antropocêntricos e ignoram a realidade de Deus e os Seus valores acabam em confusão e vazio. Assim como em Babel, o que parece progresso pode ser arrogância coletiva; somente a unidade teocêntrica torna-se verdadeiramente frutífera.

·        O nome buscado não visa a glória do Criador, mas a autopromoção da criatura. O propósito explícito do projeto de Babel é revelado: “façamos para nós um nome”. O problema não está no desejo de realização, mas na fonte desse propósito. Eles querem construir reputação e segurança à parte de Deus, transformando a glória em um projeto humano autogerado. Vivemos hoje o que pode ser chamado democratização da soberba, na qual a sociedade se envolve na exaltação de si mesma em oposição à glória divina. O texto revela que a busca por um nome próprio é, na verdade, a recusa de viver sob o nome do Senhor. Mas como o próprio texto mostra, toda glória que não nasce do compromisso com o projeto salvífico de Deus está fadado à frustração.  

·        A torre encarna a ambição desmedida de alcançar os céus por meios humanos. É o grito da humanidade desafiando Deus. A expressão de uma mentalidade que busca ultrapassar os limites estabelecidos por Deus. A torre representa o esforço humano de alcançar segurança, permanência e transcendência por meios próprios, sem dependência do Senhor. Como declara o Eclesiastes: não há nada de novo debaixo do sol. Apesar de todos os fracassos acumulados pela humanidade, os seres humanos continuam reelaborando suas torres.

·        A descida de Deus ironiza a pretensão humana e expõe sua real pequenez. O escritor bíblico utiliza a linguagem antropomórfica como recurso literário de ironia teológica. A construção que, aos olhos humanos, parecia grandiosa, aos olhos de Deus é tão diminuta que Ele precisa “descer” para poder enxergá-la (Gn 11:5). A descida divina relativiza imediatamente a pretensão humana de alcançar os céus. Eles não podem chegar aos céus, mas Deus pode e virá confrontar suas ações arrogantes e afrontosas.

O livro de Apocalipse retoma esse tema: é o registro de Cristo glorificado descendo à terra para demolir, de uma vez por todas, as torres da prepotência humana (Ap 19:11-16). Aquilo que começou em Babel encontra seu desfecho na queda da grande Babilônia, representativa do sistema mundial de arrogância contra Deus (Ap 18:2). Mas, assim como em Babel, o que parecia invencível — impérios, sistemas, culturas — é reduzido a pó diante do poder soberano de Cristo Jesus (Ap 11:15).

·        A confusão das línguas manifesta os limites da soberba e a fragilidade dos projetos autônomos. Deus não precisa mobilizar seus milhares angelicais nem destruir a torre iniciada; bastou retirar um elemento essencial — a comunicação — para que um projeto aparentemente invencível entrasse em colapso (Gn 11:7-8). A fragmentação linguística, embora dolorosa, limita o alcance do pecado e suas consequências maléficas, preservando espaço para a futura obra redentora de Deus na história. Essa obra seria realizada por meio de um homem chamado Abrão: “Farei de ti uma grande nação, e abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção... farei a tua descendência como as estrelas dos céus e como a areia que está na praia do mar” (Gn 12:2; 22:17).

·        A dispersão não frustra o propósito divino; ao contrário, cumpre o mandato criacional apesar da resistência humana. A tentativa humana de centralização é superada pela fidelidade divina ao seu desígnio original (Gn 11:8, cf. 1:28; 9:1). O que os construtores temiam — “para que não sejamos espalhados” — torna-se inevitável justamente por causa da desobediência. Mesmo quando o homem resiste ao mandato divino, o Senhor conduz os acontecimentos de modo que sua vontade prevaleça. Em Apocalipse temos Cristo assentado no trono, triunfando sobre toda resistência, derrubando definitivamente os sistemas de arrogância que se levantam contra Deus (Ap 18:2; 19:11-16). A História inteira caminha para o momento em que o Cordeiro reinará soberano, e toda torre de orgulho será destruída diante de Sua glória (Ap 11:15).

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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domingo, 4 de janeiro de 2026

Gênesis 1 – Verbos Principais e Relevância Textual – בָּדַל (badal)

 

Céu com estrelas e planetas

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Gênesis 1:6 — interlinear

וַיֹּאמֶר

אֱלֹהִים

יְהִי

רָקִיעַ

בְּתוֹךְ

הַמָּיִם

וִיהִי

מַבְדִּיל

בֵּין

מַיִם

לָמָיִם

e disse

Deus

haja

firmamento

no meio de

as águas

e seja

separando

entre

águas

e águas

Gênesis 1:7 — interlinear

וַיַּעַשׂ

אֱלֹהִים

אֶת־הָרָקִיעַ

וַיַּבְדֵּל

בֵּין

הַמַּיִם

e fez

Deus

o firmamento

e separou

entre

as águas

אֲשֶׁר

מִתַּחַת

לָרָקִיעַ

וּבֵין

הַמַּיִם

אֲשֶׁר

מֵעַל

לָרָקִיעַ

וַיְהִי־כֵן

que

debaixo de

o firmamento

e entre

as águas

que

acima de

o firmamento

Como vimos no artigo anterior (cf. artigos relacionados) os verbos no hebraico bíblico carregam não apenas ação, mas também nuances de tempo, aspecto e relação com Deus. Desta forma o hebraico bíblico trabalha com uma lógica mais ligada ao aspecto da ação (se ela está completa ou em andamento) do que à cronologia linear.

Neste segundo artigo veremos o verbo בָּדַל (badal) sua conexão com o verbo anterior בָּרָא (bara) e algumas de suas implicações teológicas.

Gênesis 1:6–13

(texto hebraico)

Gênesis 1:6–13 — Hebraico 

6. וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים יְהִי רָקִיעַ בְּתוֹךְ הַמָּיִם וִיהִי מַבְדִּיל בֵּין מַיִם לָמָיִם׃

7. וַיַּעַשׂ אֱלֹהִים אֶת־הָרָקִיעַ וַיַּבְדֵּל בֵּין הַמַּיִם אֲשֶׁר מִתַּחַת לָרָקִיעַ וּבֵין הַמַּיִם אֲשֶׁר מֵעַל לָרָקִיעַ וַיְהִי־כֵן׃

8. וַיִּקְרָא אֱלֹהִים לָרָקִיעַ שָׁמָיִם וַיְהִי־עֶרֶב וַיְהִי־בֹקֶר יוֹם שֵׁנִי׃

9. וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים יִקָּווּ הַמַּיִם מִתַּחַת הַשָּׁמַיִם אֶל־מָקוֹם אֶחָד וְתֵרָאֶה הַיַּבָּשָׁה וַיְהִי־כֵן׃

10. וַיִּקְרָא אֱלֹהִים לַיַּבָּשָׁה אֶרֶץ וּלְמִקְוֵה הַמַּיִם קָרָא יַמִּים וַיַּרְא אֱלֹהִים כִּי־טוֹב׃

11. וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים תַּדְשֵׁא הָאָרֶץ דֶּשֶׁא עֵשֶׂב מַזְרִיעַ זֶרַע עֵץ פְּרִי עֹשֶׂה פְּרִי לְמִינוֹ אֲשֶׁר זַרְעוֹ־בוֹ עַל־הָאָרֶץ וַיְהִי־כֵן׃

12. וַתּוֹצֵא הָאָרֶץ דֶּשֶׁא עֵשֶׂב מַזְרִיעַ זֶרַע לְמִינֵהוּ וְעֵץ עֹשֶׂה־פְּרִי אֲשֶׁר זַרְעוֹ־בוֹ לְמִינֵהוּ וַיַּרְא אֱלֹהִים כִּי־טוֹב׃

13. וַיְהִי־עֶרֶב וַיְהִי־בֹקֶר יוֹם שְׁלִישִׁי׃

מַבְד  v.6) – “aquele que separa”, indicando ação em curso conforme a palavra divina.

וַיַּבְדֵּל  (v.7) – ação efetivada por Deus, cumprindo o decreto criacional.

Hebraico: בָּדַל

Transliteração: badal

Traduções: separou, distinguiu, dividiu

Comentário Textual

No primeiro capítulo de Gênesis, o verbo בָּרָא (bara’) aparece apenas no início (Gn 1.1), indicando o ato criador soberano de Deus que inaugura o universo. Exegeticamente, neste verso, ele ainda não traz a ideia de ação continuada.  Entretanto, a ausência de sua repetição ao longo do capítulo não dilui seu relevante significado, ao contrário, revela que a criação não é apenas um evento pontual, e sim um processo contínuo, desdobrado em atos de ordenação e separação. É nesse contexto que surge o verbo בָּדַל (badal), usado para descrever como Deus organiza o que foi criado, separando luz das trevas, águas de cima e de baixo, terra firme e mares.

Gerard Van Groningen, em sua expressiva obra, propõe que a criação deve ser entendida como um movimento dinâmico e não estático que vai da origem ao propósito final. Nesta perspectiva, o ato criador não se encerra em Gn 1.1, mas se prolonga ao longo das etapas subsequentes da narrativa bíblica, demostrando que Deus conduz o cosmos rumo à consumação. Assim, bara’ e badal não são verbos isolados, mas complementares: Deus cria e continua a ordenar. Enquanto o primeiro descreve o ato criador de Deus, o segundo descreve a ordenação progressiva dessa criação. De maneira que, a narrativa bíblica quer enfatizar estas duas verdades – Deus cria e continua interagindo com está criação a conduzindo ao propósito por Ele mesmo estabelecido.

Nesse ponto, é possível estabelecer uma relação analógica com o ato salvador realizado pelo Espírito Santo na vida dos pecadores. Assim como a criação não se limita ao ato inicial, mas avança rumo à sua consumação, a obra salvífica do Espírito não se restringe ao momento único da conversão; ela se desenvolve continuamente, conduzindo o crente até o estágio final da glorificação (Romanos 8.29–30).

A perspectiva de Calvino é particularmente oportuna. Para ele, as ações subsequentes de separar luz e trevas, águas e firmamento são expressões da sabedoria divina que dá forma ao mundo. Assim, a criação não consiste apenas em trazer algo à existência, mas também em dispor todas as coisas em ordem, de modo que o ser humano, que ainda será criado, encontre um cosmos apto a ser habitado e que, simultaneamente, reflita a glória do Criador.

Hansjörg Braumer, em seu comentário, destaca que este mesmo verbo (badal) é utilizado na elaboração fecundante da Legislação de Israel, fazendo distinção entre o que deve ser santo e o que permanece comum (Levítico 10.10). Então ele faz o link com a criação: o Deus que organiza o cosmos é o mesmo que organiza a comunidade, chamando-a a viver em santidade.

Por estas perspectivas podemos concluir que Gênesis 1 nos apresenta uma teologia da criação que harmoniza origem e ordenação, existência e santidade. Desta forma, Bara’ inaugura a realidade, e badal a estrutura; revelando que Deus não apenas nos dá vida, mas igualmente nos dá propósito.

Leitura Devocional

Em Gênesis 1 vemos que Deus não somente cria (bara’), mas continua interagindo ordenando e separando (badal), de maneira que transforma o caos em cosmos, preenchendo o vazio e trazendo luz onde havia apenas escuridão.  E quando adentramos ao Novo Testamento essa verdade ganha ainda mais profundidade. O mesmo Deus que criou o mundo é aquele que, em Cristo, está realizando uma Nova Criação.

O apostolo Paulo faz uma conexão preciosa quando declara: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura [criação]; as coisas antigas já passaram; eis que tudo se fez (2 Coríntios 5:17). Aqui, o ato criador de Deus se prolonga na vida espiritual: Ele não apenas nos chama à existência (conversão, novo nascimento), mas nos separa para viver em santidade, trazendo paz onde havia caos, luz onde havia trevas e propósito onde havia vazio.

Para Reflexão

Pense em áreas do seu coração ou da sua rotina que ainda estão em “caos” ou “sem forma”. Tem orado pedindo que Deus traga ordem, luz e propósito, assim como fez na criação?

______________________________________________________________________________________________________________________________
Como você pode viver hoje de forma consciente dessa obra contínua de Deus, usufruindo da ação santificador do Espírito Santo?

_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas

BRAUMER, Hansjörg. Comentário Esperança Antigo Testamento – Gênesis. Volume 1. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2014.

CALVINO, João. Comentário sobre o Livro de Gênesis. São Paulo: Editora Paracletos, 1999.

VAN GRONINGEN, Gerard. From Creation to Consummation. Chicago: Moody Press, 1996.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Gênesis 1 – Verbos Principais e Relevância Textual – בָּרָא (criou)

 Céu com estrelas e planetas

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Hebraico

בְּרֵאשִׁית

בָּרָא

אֱלֹהִים

אֵת

הַשָּׁמַיִם

 

וְאֵת

הָאָרֶץ

Português

no princípio

criou

Deus

(obj.) *

os céus

 

e (obj.) *

a terra

*Está partícula não tem tradução apenas indica o objeto do verbo.

Os verbos no hebraico bíblico são fundamentais porque carregam não apenas ação, mas também nuances de tempo, aspecto e relação com Deus. Diferente do português, onde pensamos em passado, presente e futuro, o hebraico bíblico trabalha com uma lógica mais ligada ao aspecto da ação (se ela está completa ou em andamento) do que à cronologia linear.

Neste primeiro artigo veremos alguns verbos importantes no desenvolvimento do primeiro capítulo de Gênesis e algumas de suas implicações teológicas.

Gênesis 1:1–5

(texto hebraico)

1. בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ׃

2. וְהָאָרֶץ הָיְתָה תֹהוּ וָבֹהוּ וְחֹשֶׁךְ עַל־פְּנֵי תְהוֹם וְרוּחַ אֱלֹהִים מְרַחֶפֶת עַל־פְּנֵי הַמָּיִם׃

3. וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים יְהִי אוֹר וַיְהִי־אוֹר׃

4. וַיַּרְא אֱלֹהִים אֶת־הָאוֹר כִּי־טוֹב וַיַּבְדֵּל אֱלֹהִים בֵּין הָאוֹר וּבֵין הַחֹשֶׁךְ׃

5. וַיִּקְרָא אֱלֹהִים לָאוֹר יוֹם וְלַחֹשֶׁךְ קָרָא לָיְלָה וַיְהִי־עֶרֶב וַיְהִי־בֹקֶר יוֹם אֶחָד׃

Verbo בָּרָא - Transliteração: bara

Traduções: criou, trouxe à existência, originou

Comentário Textual

Em Gênesis 1:1, o verbo בָּרָא (bara’) ocupa a posição central da perícope inicial (1:1–5), afirmando de modo categórico que Deus é o Criador absoluto. A expressão “céus e terra” abrange toda a realidade criada, deixando claro que nada existe fora da ação divina. O texto não abre espaço para dúvidas: aquilo que não havia passou a existir porque Deus trouxe tudo à existência pela sua palavra e vontade soberana. O apóstolo Paulo não apenas crê nessa declaração inicial de Gênesis, como também conecta Cristo como aquele por meio de quem todas as coisas foram criadas e em quem tudo subsiste, mostrando que a criação não apenas teve um início, mas continua sustentada e conduzida pelo poder divino (Colossenses 1:16–17).

Na continuidade do capítulo, esse verbo não reaparece em cada dia da criação; o escritor optou por utilizar outros verbos para descrever o processo de ordenar, separar e preencher, como: āmar (“disse”), asah (“fez”) e natan (“colocou/deu”). Dessa forma, a análise exegética mostra que bara’ não é o centro de todo o capítulo 1, mas sim da abertura, funcionando como a afirmação inicial de que Deus é o Criador. O desenvolvimento posterior expande esse ato inaugural por meio de verbos que revelam como Deus organiza e dá forma ao cosmos, transformando o caos inicial em um mundo ordenado e habitável.

Na Bíblia Hebraica, o verbo בָּרָא   têm Deus como seu único sujeito explícito, ocorre cerca de cinquenta vezes e descreve atos criadores únicos e soberanos, próprios da iniciativa divina. Seu uso ressalta que a criação não é resultado de processos naturais nem da ação de outros agentes criadores intermediários, mas procede exclusivamente da vontade e do poder de Deus, que chama à existência novas realidades segundo seu propósito.

Esse ensino bíblico contrasta com as concepções filosóficas antigas. Platão, por exemplo, falava de um demiurgo, um artesão divino que moldava a matéria preexistente. Para ele, o mundo não surgia do nada, mas era organizado a partir de algo eterno. Mais tarde, os gnósticos reinterpretaram esse conceito, descrevendo o demiurgo como um ser inferior, responsável por um mundo imperfeito, distinto do Deus supremo espiritual. Marcião, no século II, quando ainda a teologia cristã estava sendo formulada, distorceu esse conceito e levou ainda mais longe, afirmando que o Deus criador (demiurgo) do Antigo Testamento seria um demiurgo mau, em contraste com o Deus bom revelado em Cristo.

Mas estamos vendo que, não apenas neste primeiro verso de Gênesis, mas também nas demais Escrituras subsequentes, há uma firme contraposição contra essas distorções: não há dois deuses, nem uma matéria eterna ao lado de Deus. Há apenas um Criador, que pela sua palavra trouxe tudo à existência e que, em Cristo, revela o seu amor e sustento contínuo. O contraste entre a filosofia antiga e a revelação bíblica nos lembra que nossa fé não repousa em especulações humanas, mas na certeza de que “no princípio, Deus criou” e que “em Cristo tudo subsiste”.

Enquanto o demiurgo da filosofia é um artesão limitado — e, no caso de Marcião e dos gnósticos, considerado “mau” — que apenas organiza o que já existe, o Criador bíblico é o Senhor que chama à existência o que não havia. Essa diferença nos oferece total segurança: não vivemos em um mundo fruto do acaso ou de um ser limitado (mau), mas em uma criação que nasceu da palavra e da vontade de um Deus bom, que em Cristo revela seu amor e cuidado.

É importante realçar que em Gênesis 1:1 (e no desenvolvimento desta perícope inicial – 1 a 5) não se deve traduzir ou interpretar diretamente o verbo bara’ como se fosse uma afirmação explícita da “criação continuada” (creatio continua). Exegeticamente, isso seria ir além do que o texto bíblico apresenta, pois o foco aqui está no ato inaugural de Deus como Criador absoluto.

Mas essa leitura não é contraditória à teologia bíblica mais ampla, já que em outras passagens das Escrituras há abundância de argumentos favoráveis à doutrina da creatio continua, especialmente quando se conecta o ato criador inicial com a providência divina que sustenta e renova continuamente todas as coisas.

A observação se faz necessária porque alguns intérpretes afirmam que o próprio bara’ em Gênesis 1:1 já traria de forma clara esse conceito teológico, quando na verdade o texto aponta para o início absoluto da criação, e somente em diálogo com o restante da revelação bíblica podemos fundamentar a ideia de criação continuada.

Para Reflexão

O que significa para você que Deus criou tudo com propósito e ordem?

______________________________________________________________________________________________________________________________________________________
Escreva o que você sente ao pensar que sua vida também foi criada com propósito. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

 

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Referências Bibliográficas
BRAUMER, Hansjörg. Comentário Esperança Antigo Testamento – Gênesis. Volume 1. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2014.
CALVINO, João. Comentário sobre o Livro de Gênesis. São Paulo: Editora Paracletos, 1999.
VAN GRONINGEN, Gerard. From Creation to Consummation. Chicago: Moody Press, 1996.