Mostrando postagens com marcador Personagens Bíblicos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Personagens Bíblicos. Mostrar todas as postagens

sábado, 21 de março de 2026

Quem foi Arão na Bíblia?

 


O Primeiro Sumo Sacerdote de Israel

Arão, uma figura central na narrativa bíblica, serviu como o primeiro sumo sacerdote dos israelitas. Sua história é relatada principalmente nos livros de Êxodo, Levítico e Números. Conhecido em hebraico como אַהֲרֹן (Aharon), Arão nasceu na tribo de Levi durante o período de escravidão dos israelitas no Egito.

Ele era o irmão mais velho de Moisés e Miriã, filho de Anrão e Joquebede, e marido de Eliseba. A linhagem familiar de Arão e sua herança levítica o colocaram em uma posição única para desempenhar um papel crucial na vida religiosa e comunitária de seu povo.

Arão aparece é uma figura complexa: líder religioso, mediador entre Deus e Israel, homem sujeito a falhas, mas sustentado pela graça. Seu legado não apenas estruturou o culto israelita, mas também antecipou reflexões teológicas sobre expiação, intercessão e redenção, que encontram plenitude na vida e obra redentora de Jesus Cristo.

O Papel e as Responsabilidades de Arão

Primeiros anos e chamado divino     
Arão aparece pela primeira vez no relato bíblico em Êxodo 4:14, quando é designado por Deus para ser o porta-voz de seu irmão Moisés. Esse papel foi essencial durante as difíceis negociações com o faraó para a libertação dos israelitas do Egito.

Mas ele não é apenas um auxiliar, mas um mediador da palavra divina diante de faraó. No seu chamamento há uma dupla característica relevante: Deus reconhece tanto a limitação de Moisés (sua dificuldade em falar) quanto a necessidade de apoio humano na missão.

Liderança e sacerdócio

Como sacerdote, as funções de Arão eram amplas e fundamentais para o estabelecimento da religião israelita. Ele tinha a responsabilidade de realizar sacrifícios, manter o Tabernáculo e ensinar as leis que Deus havia entregue a Moisés. O sacerdócio de Arão, instituído em Êxodo 28–29, estabeleceu as prerrogativas para as práticas de culto e os deveres sacerdotais, enfatizando a mediação entre Deus e o povo por meio do sacrifício e da oração.

Mas o exercício sacerdotal extrapolava as funções do Tabernáculo, pois ele tinha a função pedagógica de ensinar a Torá para o povo, instruindo o povo na prática da aliança.

Em perspectiva cristã, o sacerdócio de Arão é visto como uma figura (ou sombra) do sacerdócio perfeito de Cristo, que, segundo Hebreus, oferece um sacrifício único e definitivo, superando a repetição dos rituais levíticos.

O episódio do bezerro de ouro
Um dos momentos mais desafiadores da vida de Arão foi o incidente do bezerro de ouro, descrito em Êxodo 32. Enquanto Moisés estava em comunhão com Deus no Monte Sinai, Arão enfrentou enorme pressão do povo e acabou permitindo a criação do bezerro de ouro, um ato de idolatria. Isso ressalta que o sacerdócio não era apenas ritual, mas exigia firmeza moral e fidelidade à aliança.

Graça e continuidade: Apesar da falha, Arão não foi destituído de seu ofício. Biblicamente, isso aponta para a misericórdia divina e para a ideia de que o sacerdócio é sustentado pela graça de Deus, não pela perfeição humana. Mais ainda, a falha dele e dos demais que o sucederam reforça a necessidade de um sacerdócio superior e perfeito, cumprido somente em Cristo, que não falhou diante da pressão humana e ofereceu um sacrifício definitivo.

Esse episódio torna-se central para entender a fragilidade humana na liderança espiritual e, ao mesmo tempo, a fidelidade de Deus em manter sua aliança.

O papel no deserto        
Durante a jornada pelo deserto, Arão foi fundamental na liderança dos israelitas, frequentemente intercedendo em favor deles e enfrentando diversas rebeliões e desafios. Sua liderança nos assuntos religiosos foi crucial para manter a relação de aliança da comunidade com Deus.

Desta forma, Arão no deserto nos lembra que a caminhada espiritual exige intercessão constante e fidelidade mesmo em meio às pressões e murmurações. O deserto é uma figura que se relaciona com provação e escassez, mas também é lugar de aprendizado e dependência de Deus. Lembrando que Jesus foi conduzido pelo Espírito para o deserto, como preparação para o início do ministério terreno.

Arão, ao interceder pelo povo, mostra que a liderança espiritual não é apenas conduzir, mas suportar e perseverar. Sua missão de preservar a aliança inspira-nos a cuidar da nossa comunhão diária com Deus, lembrando que a fidelidade mantém viva a relação com Ele. Assim, quando atravessamos nossos próprios desertos — crises, dúvidas ou dificuldades — somos chamados a manter o olhar em Deus e a apoiar uns aos outros em oração e serviço.

O Sacerdócio de Arão e Seu Significado Simbólico

O trabalho sacerdotal de Arão simbolizava o papel mais amplo de mediação entre Deus e a humanidade. Isso se manifestava de forma vívida no Dia da Expiação (Yom Kippur), descrito em Levítico 16, quando Arão entrava no Santo dos Santos para oferecer sacrifícios pelos pecados do povo, destacando os temas de expiação, purificação e reconciliação.

O escritor de Hebreus vai interpretar esse momento relacionando-o com a pessoa e obra de Cristo. Que é apresentado como Sumo Sacerdote perfeito, não segundo a ordem de Arão, mas “segundo a ordem de Melquisedeque” (Hebreus 7:11–17). Ele não entrou no Santo dos Santos terreno, mas no próprio céu, oferecendo um sacrifício único e eterno. Enquanto Arão simbolizava a mediação, Cristo realiza plenamente essa mediação, reconciliando de uma vez por todas Deus e e todo aquele que nele crer (Hebreus 9:11–12).

Referências no Novo Testamento      
O legado de Arão se estende ao Novo Testamento, onde é mencionado em várias passagens:

·        Lucas 1:5 – A linhagem sacerdotal de Arão é citada em relação a Zacarias, pai de João Batista.

·        Atos 7:40 – O discurso de Estêvão relembra o episódio do bezerro de ouro como parte da história de Israel.

·        Hebreus 5:4; 7:11; 9:4 – Esses textos discutem o contraste entre o sacerdócio de Arão e o sacerdócio superior de Jesus Cristo, descrito como sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, que ofereceu um sacrifício único e definitivo pelos pecados.

Conclusão

A vida e o ministério de Arão oferecem profundas lições sobre liderança, responsabilidade e a graça de Deus. Seu papel como primeiro sumo sacerdote sublinha a importância da obediência, da expiação e da intercessão na vida espiritual.

A história de Arão é um testemunho da capacidade humana tanto para o erro quanto para a redenção, servindo como modelo de fidelidade diante dos desafios. Seu sacerdócio não apenas estabeleceu um padrão para o culto litúrgico em Israel, mas também prefigurou a reconciliação definitiva entre Deus e a humanidade por meio de Cristo, o eterno Sumo Sacerdote.

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

me.ivanguedes@gmail.com

Outro Blog

Historiologia Protestante

http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br//

Texto

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Apoie a continuidade deste blog

 

Artigos Relacionados
Síntese Bíblica – Levítico
https://reflexaoipg.blogspot.com/2016/02/sintese-biblica-levitico.html?spref=tw
Levítico: O Coração do Antigo Testamento https://reflexaoipg.blogspot.com/2025/08/leitura-devocional-levitico-o-coracao.html?spref=tw
Pentateuco: Introdução Geral
https://reflexaoipg.blogspot.com/2016/02/pentateuco-introducao-geral.html
Visão geral dos livros do Primeiro Testamento
https://reflexaoipg.blogspot.com/2018/10/visao-geral-dos-livros-do-primeiro.html
A Bíblia Hebraica e o Antigo Testamento Cristão
https://reflexaoipg.blogspot.com/2016/11/a-biblia-hebraica-e-o-antigo-testamento.html
Referências Bibliográficas      
ALTER, Robert e KERMODE, Alter (Orgs.). Guia Literário da Bíblia. Tradução Raul Fiker tradução; Revisão de tradução Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997. - (Prismas).
GARDNER, Paul. Quem é quem na Bíblia SagradaTradução Josué Ribeiro. São Paulo. Editora Vida,1999.    
DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo. Vida Nova, 1995.
TENNEY, Merrill C. (Org.). Enciclopédia da BíbliaSão Paulo. Cultura Cristã, 2008. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Personagens Bíblicos: Quem Foi Abigail?



Abigail é uma daquelas figuras bíblicas raramente mencionada ou estudada do Antigo Testamento. De fato, há muitas histórias bíblicas que deixam os leitores desnorteados. Mas quando olhamos pelo prisma da Providência de Deus conseguimos aperceber de que apesar das limitações de seus personagens e das particularidades da narrativa, é possível encontrarmos aspectos positivos de sabedoria, coragem e devoção a Deus.

Temos duas mulheres chamadas Abigail conhecidas na família de Davi, cada uma desempenhando papéis importantes na história bíblica. A esposa de Nabal que estamos abordando e uma irmã do próprio Davi.

Abigail, esposa de Nabal

Ela aparece pela primeira vez na narrativa de 1 Samuel 25 onde é apresentada como a esposa de Nabal, um homem rico, mas arrogante e tolo. A palavra hebraica nabal indica mais do que um "simplório inofensivo, mas indica alguém que é radicalmente materialista e egocêntrico. Em contraste o nome da esposa, Abigail (אֲבִיגַיִל em hebraico), significa "alegria de meu pai" ou "fonte de alegria". Desta forma os nomes, dentro desta estrutura literária, revelam muito mais do que uma superficial leitura da história sugere.

Davi está naquele período de andarilho (1 Samuel 25) entre a perseguição implacável do rei Saul (1 Samuel 24) e a morte posterior do rei (1 Samuel 26-31). Por algum tempo ele esteve acampado no monte Carmelo e ali conviveu pacificamente com os pastores que cuidavam dos rebanhos de Nabal, inclusive os preservando de ataques de bandidos ou invasores.

Mas Davi não está mais naquela região e com a aproximação da festa da Páscoa, ele envia um pequeno grupo de homens para solicitar educada e gentilmente que Nabal pudesse ceder alguns animais (lembrando que Nabal possui enormes rebanhos) para que Davi e seus homens pudessem igualmente celebrarem a Páscoa e se alimentarem (lembrando um pouco dos discípulos enviados por Jesus para os preparativos da última Ceia).

Mas Nabal, ainda que fosse descendente da tribo de Calebe, não apenas recusou a solicitação de Davi, como escarneceu dele e o desafiou: quem pensa que é esse Davi, um fugitivo do rei Saul. Da boca do insensato/tolo não saem palavras construtivas (Pv 17.7). Os mensageiros enviados por Davi retornam e narram as palavras de Nabal, o que ascendeu a ira e indignação de Davi, que marcha imediatamente para confrontar e demonstrar a Nabal quem era ele.

É neste contexto de pré-guerra e eminente massacre, que vai resplandecer o caráter e sabedoria da então esposa dele – Abigail.

Abigail vai ao Encontro de Davi

Ao tomar conhecimento das atitudes impensadas do marido, uma característica natural dele, Abigail, tendo consciência do grande perigo iminente, age rapidamente. De imediato prepara um generoso banquete, do que tinha de melhor em casa, bem como muitos suprimentos e sai com seus servos ao encontro de Davi. Ao encontrá-lo com seus soldados prontos para a confrontação, antes de qualquer coisa ela se humilha e apela para a misericórdia de Davi. Ela o lembra de seu chamado divino e da importância de evitar derramamento de sangue desnecessário. Seu discurso, marcado pela humildade e sabedoria, convence Davi a abandonar seu plano de vingança. Mais do que isso Davi a abençoa, por conseguinte, toda sua família. Aqui Abigail vivencia o ensino de Provérbios de uma mulher cheia de sabedoria e do Espírito de Deus “abre a boca para falar com sabedoria; a instrução na fidelidade está na sua língua” (31.26).

Imaginemos por alguns instantes uma igreja cujos membros são caracterizados pelas virtudes reveladas aqui na pessoa de Abigail. Quantas desavenças, intrigas e rupturas eclesiásticas não seria evitada. Quantas vidas não seriam preservadas e abençoadas. Por outro lado, quantas vidas cristãs destruídas e arrebentadas por atitudes como a de Nabal e reações de represálias, como as iniciais de Davi.

Os argumentos de Abigail para mudar o rumo da prosa e ação de Davi foram simples e diretos. O lembrou de seu chamado, de sua unção como futuro rei, das prerrogativas que ele deveria cultivar ali e que deveriam nortear suas atitudes quando assumisse o trono de Israel. Palavras de sabedoria, bom senso, sem qualquer ranço de maldade ou segundas intenções.

Nabal não era um bom marido. Na maioria das vezes rude e quantas vezes ela havia visto suas reações, como está, iracundas e impensadas. Era, diferentemente da esposa, destituído de sabedoria e bom sendo. Arrogante, prepotente e violento, uma fórmula altamente explosiva e destrutiva. E sabendo disto tudo Abigail interveio de maneira sutil, sem alarde, prudentemente, demonstrando ser uma mulher com conhecimento e discernimento.

Esta primeira parte da história nos coloca diante de três personagens que podem refletir o que somos de fato e de verdade:

Nabal representa a nossa natureza humana decaída, centrada nas ações e reações carnais. Ele é apresentado em relação às suas posses.

Abigail é o modelo positivo de um crente que se reveste com o manto da sabedoria e humildade, que utiliza seu conhecimento para edificar seu lar e abençoar sua família e as pessoas. Ela é apresentado em relação ao seu caráter, o que implica que o que somos é mais importante do que qualquer riqueza que venha a obter.

E Davi nos ensina, que mesmo os melhores crentes, podem dar vazão à ira e indignação e correr o risco de transcender seu chamado cristão para amar e perdoar. Mas Davi é um crente de verdade e ouvindo as argumentações de Abigail repensa suas ações e em vez de amaldiçoar a vida dela e dos demais, incluindo Nabal, torna-se um canal de bênção para eles.

A pergunta que precisamos fazer é: a quem nos assemelharemos? Qual destes personagens nos representa de fato e de verdade?

O casamento de Abigail com Davi (1 Samuel 25.39-42)

Mas a história de Abigail não terminou ali. Deus que tudo acompanhou vai honrar suas palavras e atitudes sábias.

Ao contrário da esposa Nabal vai sofrer as consequências de suas palavras e ações. Pouco tempo depois ele morreu e a narrativa deixa claro que foi um ato de juízo da parte de Deus. Os poderosos e tolos deste mundo perecerão e tudo que adquiriram, muitas vezes com terror, não lhes servira de absolutamente nada.

A história de Abigail é registrada aqui para ilustrar que a sabedoria é mais poderosa do que a grandeza e as riquezas, e é mais desejável. Nabal morre, mas Abigail não apenas continua a viver, como é grandemente abençoada por Deus.

Davi tomou conhecimento de que Abigail havia ficado viúva e casou-se com ela e deste relacionamento conjugal vai nascer um filho chamado Quileabe (2 Samuel 33) ou Daniel (1 Crônicas 3.1) com ele. Aqui temos ao menos dois detalhes interessante:

Primeiro, visto que a bênção da maternidade era altamente considerada no antigo Israel, tanto que a falta de filhos era considerada uma maldição (1 Samuel 1). Não se encontra registro de filhos do casamento de Nabal e Abigail, de maneira que o narrador dá a entender que Abigail foi abençoada, com a gestação, em seu relacionamento com Davi.

Segundo: que ao se casar com Abigail, Davi estabelece um elo político relevante para os próximos anos em que terá que reinar sobre as doze tribos, pois Abigail faz parte do clã calebita de Judá e será justamente em Hebrom, capital do território calebita, que Davi será ungido rei.

Para Reflexão

Viva com Sabedoria – todo crente é desafiado a vivenciar a genuína sabedoria em todos os seus relacionamentos. A começar no casamento no que tange o relacionamento conjugal e na criação e condução dos filhos. Tiago em sua carta ensina de que se nos falta sabedoria, podemos livremente pedir a Deus, que nos dará liberalmente.

Seja um Pacificador - o papel desta mulher é o modelo do que como crentes devem ser. Ela interveio para evitar conflitos, demonstrando o valor de se buscar a paz e a reconciliação, ainda que tenha que se humilhar. Jesus disse que somos chamados para sermos pacificadores e que quando agimos assim, somos bem-aventurados.

Confie em Deus Sempre – é impossível não visualizarmos a confiança de Abigail na justiça de Deus e em Sua proteção, no transcorrer de toda a narrativa. Apesar das atitudes tolas do marido, ela permanecesse confiando em Deus e age de forma sábia (a tolice do outro não justifica a minha própria tolice).  A Sociedade vive tola e loucamente, mas como cristãos somos chamados para vivermos na plena convicção de que Deus sempre está no controle, independente das circunstâncias.

 

A Providência de Deus – como facilmente nos esquecemos de que Deus sempre agirá providencialmente em todas e quaisquer circunstâncias da nossa vida. Diferentemente de Abigail nossa tendência é entrar em desespero como os discípulos, que forma posteriormente repreendidos por Jesus: pessoas de pouca fé! Nesta narrativa em nenhum momento vemos uma Abigail desesperada, mas calma e inteligentemente ela providencia uma solução para o problema sério que surgiu. Assim como Deus usou a vida dela para evitar que Davi pecasse, e preservou toda a sua família, Deus continua usando pessoas, como eu e você, para abençoar e preservas vidas.

O Juízo de DeusAssim como podemos contemplar a graça e misericórdia de Deus sobre Abigail e o próprio Davi, também podemos contemplar a manifestação da ira e juízo de Deus sobre a arrogância e estupidez humano emaranhada em seus delitos e pecados. O livro de Apocalipse é a ilustração final e definitiva desta verdade da Graça que preserva e salva a Igreja e o Juízo de Deus que é derramada sobre todo o mal deste mundo.

Relação com o Senhor Jesus – é linda a percepção que o texto nos proporciona de contemplarmos nas ações de Abigail as ações de Jesus Cristo como nosso Advogado junto ao Pai. Da mesma forma com que Abigail intercede em favor de sua família, Jesus intercede em favor dos crentes, garantindo sua salvação e reconciliação com Deus (1 João 2.1).

Uma outra característica dela que expressa em grau, gênero e número o caráter de Cristo é a genuína humildade dela diante de Davi. Característica que os discípulos tiveram, e nós temos, de apreenderem. Somos chamados não para sermos servidos (infelizmente não é isso que vemos), mas para servir (Mateus 20:28).

Conclusão

A história de Abigail é um quadro magnifico que precisa ser contemplado periodicamente com calma e atenta observação, para percebemos seus detalhes e nuances. Essa mulher é um perfeito modelo para todo crente vivenciar uma vida cristã autêntica, e não artificial e religiosa. Abigail é uma crente que produz figos e não apenas folhas; que vivencia a fé e não apenas acredita; que se coloca em lugar de outros e não vive apenas em função de si mesma. Como o apostolo Paulo ela podia tranquilamente dizer: “sede meus imitadores, assim como sou de Cristo”.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante


 

Artigos Relacionados
Personagens Bíblicos: Quem Foram Bezalel e Aoliabe?
https://reflexaoipg.blogspot.com/2021/12/personagens-biblicos-quem-foram-bezalel.html?spref=tw
Personagens Bíblicos: Quem Foi Abisague?
https://reflexaoipg.blogspot.com/2021/12/personagens-biblicos-quem-foi-abisague.html?spref=tw
Companheiros de Paulo – Barnabé
https://reflexaoipg.blogspot.com/2018/09/companheiros-de-paulo-barnabe.html?spref=tw
ATOS – Quem foi Teófilo
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/01/atos-quem-foi-teofilo.html
Epafras – Crente para os tempos de crise
https://reflexaoipg.blogspot.com/2023/06/epafras-crente-para-os-tempos-de-crise.html?spref=tw
Paulo: Sua Conversão
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/07/paulo-sua-conversao.html
Abraão em Três Tempos: Judaísmo
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/09/abraao-em-tres-tempos-judaismo.html

Referências Bibliográficas
ALTER, Robert e KERMODE, Alter (Orgs.). Guia Literário da Bíblia. Tradução Raul Fiker tradução; Revisão de tradução Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997. - (Prismas).
BALDWIN, Joyce G. Introdução e Comentário Bíblico 1 e 2 Samuel. São Paulo: Vida Nova [Série Cultura Bíblica].
GARDNER, Paul. Quem é quem na Bíblia Sagrada. Tradução Josué Ribeiro. São Paulo. Editora Vida,1999.
DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo. Vida Nova, 1995.
JAMIESON, Robert, FAUSSET, A. R. e BROWN, David. Comentário exegético e explicativo da bíblia. Tradução e digitação Carlos Biagini.
MELLISH, Kevin J. Novo Comentário Bíblico Beacon: 1 e 2 Samuel. Tradução Elias Santos Silva. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2015.
PHILLIPS, Richard D. Estudos bíblicos expositivos em 1Samuel. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2016.
SIMEON, Charles. Devocional sobre 1 Samuel. Editora Felipe Chavarro Polanía INC, 2023.
TENNEY, Merrill C. (Org.). Enciclopédia da Bíblia. São Paulo. Cultura Cristã, 2008.

OBS.: Se o material deste blog tem abençoado sua vida divulgue em suas mídias eletrônicas e contribua para a continuidade deste trabalho.

quarta-feira, 7 de junho de 2023

Epafras – Crente para os tempos de crise

 


Podemos dizer que a grande maioria dos personagens bíblicos são referidos em poucas linhas ou pequenos parágrafos. O Espírito Santo não precisa de muitas páginas para destacar a vida de um crente. Um exemplo é Enoque que cuja história se estende por 365 anos, mas que foi sintetizada em duas frases: "Enoque andou com Deus; e já não era, porque Deus o tomou para si" (Gn 5.24.). Que breve! Mas ainda assim quão completo! quão abrangente! O Espírito Santo fala muito em tão pouco!

          Andar com Deus, cultivar uma vida de comunhão com Deus é o aspecto distintivo do genuíno crente, sem a qual as ações mais vistosas não passarão de fugo e refugo.

          Quando lemos pausadamente as páginas do Novo Testamento encontramos um personagem extraordinário, cuja alusões a ele são muito breves, mas incisivas e preciosas.

          Ele não surge na narrativa como um pregador poderoso, um escritor laborioso, um grande missionário, ainda que ele possa ter sido tudo isso. Mas como sempre faz em todas as narrativas bíblicas, o Espírito Santo, nos apresenta esse personagem de forma singular e de uma maneira calculada para enfatizar a importância dos valores morais e espirituais.

O nome dele surge apenas três vezes na literatura neotestamentária, apenas em duas cartas de Paulo: uma para a igreja em Colossos e outra para seu amigo Filemom.

No entanto, nesses três singelos versos encontramos um esboço precioso do caráter piedoso de Epafras. Somos informados de que ele é da cidade de Colossos e faz parte da igreja estabelecida ali, provavelmente por ele. Ele não apenas ensina as pessoas sobre Jesus, mas as encoraja a crescer em sua fé.

Paulo apresenta Epafras como um servo querido e ministro fiel de Jesus, parte integrante da rede de amigos e colaboradores desenvolvida por Paulo ao longo de seus anos como missionário.

Mas há mais uma característica distintiva deste cristão – ele ora - incessantemente, é um intercessor inveterado. Suas orações não são apenas ocasionais ou mesmo ou frequentemente, mas Paulo diz que Epafras ora sem cessar em favor dos crentes de Colossos. Ouçamos o testemunho pessoal do apostolo sobre esse amigo e irmão: "Saúda-vos Epafras, que é um de vós, servo de Cristo, trabalhando sempre fervorosamente [agonizando] por vós nas orações, para que permaneçais perfeitos e completos em toda a vontade de Deus. Um grande zelo por vós, e pelos que estão em Laodiceia e pelos que estão em Hierápolis" (Cl 4.12, 13.).

Em todos os tempos a Igreja sempre careceu de crentes de oração. Evidentemente que necessitamos igualmente de pregadores, escritores, missionários na causa de Cristo; mas precisamos de crentes de oração, de joelhos constante no chão, crentes como Epafras, pois as orações que seguram as cordas, que fortalecem os pés e mãos; que renovam os ânimos e mantém as vocações.

Um espírito de oração - fervorosa, agonizante e perseverante. Sem isso, nada pode prosperar. Um crente sem oração é um crente sem vida. Um pregador sem oração é um pregador fadado ao fracasso. Um escritor sem oração produzira páginas estéreis. Um evangelista sem oração pouco fará. Carecemos urgentemente de crentes de oração - como Epafras - cujas paredes do quarto testemunham suas orações agonizantes. Esses são, inquestionavelmente, os crentes para o momento atual.

A oração é um trabalho invisível aos olhos dos outros, da própria comunidade. São realizados em retiro, na santificada e subjugadora solidão da presença divina, fora do alcance da visão mortal. Jesus levantava-se de madrugada, enquanto seus discípulos ainda dormiam e se afastando orava, se derramava diante do Pai. Também ensinou seus discípulos o ministério da oração – “entra no teu quarto e ali orem ao teu Pai em secreto” – sem holofotes, sem mídia, sem olhares de admiração.

Paulo está informando os crentes de Colossos de que Epafras estava segurando as cordas de todas as atividades daquela igreja e do próprio trabalho missionário de Paulo e todos os demais companheiros que estavam atuando em tantos outros lugares.

Um terrível erro tem sido perpetuado entre nós de que o ministério é medido pelo ativismo, pelas estatísticas, pelos monumentos erigidos. Esse tem sido um falso padrão. O genuíno padrão é um amor pelas almas, um amor por Cristo, que somente pode ser desenvolvido no quarto solitário da oração, como Epafras, em favor do povo de Deus, "para que sejam perfeitos e completos em toda a vontade de Deus".

O precioso tempo de oração não exige nenhum dom especial, nenhum talento peculiar, nenhuma capacidade mental preeminente (mestrado, doutorado). Todo e cada cristão pode dedicar-se a ele. Um crente pode não ter a capacidade de pregar, ensinar, escrever ou atuar em campo missionário; mas todo crente pode orar. Por vezes ouve-se falar de um dom de oração. É uma expressão que cai mal ao ouvido. Muitas vezes significa uma mera expressão fluente de certas verdades conhecidas que a memória retém e os lábios emitem. Este é um trabalho pobre para se fazer. Não era assim com Epafras. Não é disso que carecemos agora mesmo. O que a Igreja necessita hoje com urgência é de crente que ore com perseverança e fervorosamente diante do trono da graça.

A oração pode ser exercida, em todos os momentos, e sob todas as circunstâncias. De manhã, ao meio-dia, à tarde ou à meia-noite; o coração pode subir ao trono, em oração e súplica, a qualquer momento. Os ouvidos do Pai estão sempre abertos; Sua presença está sempre acessível. Ele está sempre pronto a ouvir, pronto a responder. Jesus nos ensina e incentiva: “Peça – busque – bata!”; “ore sempre sem desfalecer”, “pois, tudo que pedirem, crendo, recebereis”. Estas palavras são para todos os crentes em todas as época e lugares.

Epafras recebe o epíteto de "um servo de Cristo", em conexão com suas fervorosas orações pelo povo de Deus. Este é o motivo mais elevado. Cristo está empenhado em favor do Seu povo. Ele deseja que eles "permaneçam perfeitos e completos em toda a vontade de Deus"; e todo aquele que respira a intercessão têm o privilégio de desfrutar de profunda comunhão com o grande intercessor – o Espírito Santo. Pessoas tão pequenas, limitadas e fracas como eu e você, podem adentrar à glória celeste e tomar parte dos pensamentos e interesses do Senhor de toda glória!

Ponderemos ainda que por alguns instantes o exemplo de Epafras. Humildemente imitemo-lo. Fixemos nossos olhos nas necessidades e carências de nossa comunidade e dos campos missionários. O momento atual de nosso país é profundamente solene. "As coisas estão a chegar a uma crise; e as pessoas estão a tomar partido: e está tudo bem. Já não temos dúvidas sobre quem servirá o Senhor e quem não servirá. Que o Senhor abra o seu próprio caminho no coração de muitos e prepare o seu povo para sofrer e fazer a sua santa vontade".

Cada dia deve fazer-nos sentir a necessidade urgente de crentes como Epafras. As poucas e econômicas referências neotestamentárias o apresentam como um crente de oração (Cl 4.12); e como um companheiro de sincero amor e cuidado para com seus irmãos (Fm 23.) Que o Senhor desperte entre nós um espírito de oração e intercessão sinceras. Que Ele levante muitos daqueles que serão moldados no mesmo molde espiritual de Epafras. Estes são os crentes para o tempo de crise.

Não importa a extensão e profundidade do vale tenebroso que estejamos para enfrentarmos – nosso Deus é maior! Não importa o quão terrivelmente escuro e caóticos serão os próximos dias, ainda ouviremos as palavras do Deus eterno – haja luz!

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

 

 

Artigos Relacionados

Personagens Bíblicos: Quem Foram Bezalel e Aoliabe?

https://reflexaoipg.blogspot.com/2021/12/personagens-biblicos-quem-foram-bezalel.html?spref=tw

Personagens Bíblicos: Quem Foi Abisague? https://reflexaoipg.blogspot.com/2021/12/personagens-biblicos-quem-foi-abisague.html?spref=tw

Companheiros de Paulo - Barnabé https://reflexaoipg.blogspot.com/2018/09/companheiros-de-paulo-barnabe.html?spref=tw

ATOS – Quem foi Teófilo

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/01/atos-quem-foi-teofilo.html

Paulo: Sua Conversão

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/07/paulo-sua-conversao.html

Abraão em Três Tempos: Judaísmo

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/09/abraao-em-tres-tempos-judaismo.html

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Personagens Bíblicos: Quem Foi Abisague?

 

A história de um velho rei e uma bela jovem solteira. Abisague é um personagem bíblico silencioso envolvido na história da luta pelo poder entre os filhos do rei Davi imediatamente antes e depois da morte de Davi. Não se sabe muito sobre ela, sua idade, sua família e o que ela fez enquanto viveu no palácio real com Davi. Seu nome é encontrado também com a grafia de Abisag, (do hebraico אֲבִישַׁג [Avishag], que significa “meu pai é um nômade”.) sendo natural da cidade de Suném e sua história é narrada no Primeiro Livro dos Reis. Todavia, há poucos detalhes sobre sua participação na trama histórica da sucessão do trono de Davi em que foi envolvida.

A história bíblica não e ficcional, mas esta estabelecida em fatos reais. Davi não foi um super-homem, mas uma pessoa que além de rei teve que enfrentar uma série de problemáticas de ordem pessoal e familiar. A jovem Abisague é inserida nessa história no transcorrer dos últimos dias da vida de Davi, agora com idade avançada e com problemas de saúde. Na medida em que o tempo vai passando Davi tem abrir mão de várias atividades reais, incluindo de liderar o exercito quando em guerra. Desta forma cria-se uma situação muito delicada e explosiva – quem vai sucedê-lo no trono e dois nomes estão na disputa, nos bastidores palacianos.  

A jovem de Suném

            É neste momento de muita pressão politica que entra em cena, ou melhor, é trazida à cena, uma jovem de nome Abisague, do vilarejo de Suném, ao norte de Jezreel e do monte Gilboa, no território de Issacar. (Josué 19.17-23), que foi o local onde os filisteus acamparam antes da batalha contra o rei Saul em Gilboa. Dois termos são utilizados para identificar a jovem e sua condição como mulher - na'arāh, uma palavra hebraica que indica uma jovem em idade de casar e o outro termo é betûlāh, que indica que além de jovem e solteira não havia ainda tido relações sexuais (virgem). É descrita também como sendo de beleza encantadora. A narrativa bíblica se cala em declarar se ela se tornou uma das esposas e/ou concubina do rei, mas que ela viveu os dias agitados do final do reinado de Davi, com todas as suas tramas e reviravoltas da sucessão do trono.

            Na medida em que essa jovem interiorana vai convivendo na intimidade cotidiana do rei ela passa a ser vista como alguém que possa fazer pender a balança da sucessão entre Salomão e seu meio irmão Adonias. Enquanto Davi estava vivo ela tem uma participação mais ativa, e mesmo após a morte do rei ela continua participando do drama sucessório, pois o jogo político sempre foi cruel e sanguinário.  

Abisague e Davi

Como mencionado acima à participação dessa jovem na história bíblica se passa durante os dias finais do reinado de Davi. Ele havia assumido o trono, após a morte do rei Saul, com aproximadamente trinta anos reinou sobre a nação israelita por quarenta anos (2Samuel 5.4), de maneira que o rei estava com aproximadamente setenta anos. Davi exerceu um papel fundamental não apenas na estabilidade do reino, mas também em sua expansão territorial, com suas sucessivas vitórias contra seus inimigos. Essa inteligência e força física, que tanto lhe ajudaram, agora com a chegada da velhice, começam a declinar rapidamente.

A preocupação com as condições declinantes de Davi fica evidente no fato de que seus liderados e que perfaziam a guarda pessoal do rei, lhe recomendaram que não se fizesse mais presente em meio às batalhas, visto que na última o rei havia quase havia sido morto, por um guerreiro chamado Isbibenob, descendente dos gigantes. Mas no momento derradeiro Abisai, um de seus comandantes, veio em seu socorro e venceram o inimigo. Após esse incidente eles disseram literalmente a Davi: “Nunca mais sairás conosco à batalha, para que a lâmpada de Israel não se apague” (2Samuel 21.17). Eles estavam preocupados com seu bem-estar e temiam que ele pudesse ser morto em batalha.

            Com o passar dos anos o corpo de Davi perdeu a capacidade de se aquecer, mesmo quando bem agasalhado (1Reis 1.1), provavelmente alguma enfermidade relacionada à circulação sanguínea ou alguma outra não identificada. Com o rigor do frio no inverno isso se tornou um problema, pois poderia evoluir para uma pneumonia.

            Diante desse quadro declinante das condições de saúde do rei chegou-se à conclusão de que uma medida precisa ser tomada. Então o procuraram e disseram: “É preciso encontrar uma jovem virgem para nosso amo, o rei, para cuidar das necessidades do rei e servir como sua ama. Ela também pode dormir com você e manter nosso mestre, o rei, aquecido” (1 Reis 1.2).

            Esse pequeno texto é um prato cheio para os futriqueiros de textos bíblicos de plantão. O historiador está registrando os fatos como aconteceram e seguindo costumes que vigoravam naqueles dias e que hoje não são mais aprováveis. A expressão “não a conhecia”, para alguns interpretes significa que a jovem não foi inserida entre as concubinas do rei e, portanto, não implica no fato de que Davi estivesse com problemas de impotência sexual. Para eles Abisague não foi trazida para o palácio para ter relações sexuais com o rei Davi.

            É preciso esclarecer que está questão sexual do rei não era apenas em relação ao prazer dele, mas estava ligado também à sua capacidade viril ou sua força física (GRAY 1970, p. 77). Sendo assim ao trazerem a jovem para as dependências do palácio colocava-se em xeque a capacidade viril do rei. Desta forma a expressão “não a conhecia” toma uma conotação sexual de impotência. A conclusão óbvia é de que o rei não tinha mais condições físicas para exercer suas funções reais e precisava-se estabelecer um sucessor. Quaisquer outras discussões do texto são meras especulações, que em muitas das vezes servem apenas para depreciar a narrativa bíblica. A partir deste ponto a presença de Abisague torna-se uma questão politica explosiva.  

Abisague e Adonias

            O contexto é a disputa pela sucessão do trono entre Salomão (filho de Bete-Seba) e seu meio-irmão Adonias (filho de sua quarta esposa, Hagite). Na lógica de Adonias, com as mortes de seus outros irmãos Amom e Absalão, e provavelmente Quileabe, ele torna-se o próximo na sucessão ao trono, de maneira que começa a mexer as peças do tabuleiro sucessório, fazendo uma reunião com líderes militares e religiosos onde se declara como o sucessor imediato ao trono (1Reis 1.5), pois imaginava que a morte de Davi era eminente. Nesse comportamento ele se assemelha ao seu outro meio irmão Absalão, que acabou tendo um fim trágico. Mas os planos de Adonias foram frustrados, pois Davi sendo influenciado por Bete-Seba e o velho profeta Natã antecipa o processo sucessório e declara Salomão como o novo rei. O texto diz explicitamente que a jovem Abisague está presente na sala quando Bate-Seba e Davi conversam sobre a sucessão ao trono e, portanto, torna-se testemunha da decisão do rei.

            Mas Adonias era persistente em sua sanha ao poder e após os cerimoniais e posse de Salomão, ele investe agora na rainha mãe Bate-Seba. Em sua audiência ele faz um pedido aparentemente inocente: “Você sabe que o reinado ia tornar-se meu e que foi em mim que todo o Israel fixou a sua face para eu me tornar rei; porém, o reino mudou e passou a ser de meu irmão, pois era dele da parte do Senhor. E agora tenho um pedido a fazer a você; não me recuse”. E continuou ele: “Por favor, peça ao rei Salomão - ele não recusará - que me dê Abisague, a sunamita, como minha esposa”. Bate-Seba disse: 'Muito bem; Falarei ao rei em seu nome '”(1 Reis 2.13–18).

            Mas as reais intenções de Adonias era utilizar-se desse casamento para tomar o trono. Adonias não havia engolido o fato de Davi ter nomeado Salomão como rei. O pedido de Adonias tinha dupla intensão: reivindicar o trono e expor a rainha mãe como traidora. Ele não estava sozinho nesse plano, pois tinha dois aliados de peso - Abiatar (sacerdote) e por Joabe, filho de Zeruia - irmã de Davi, o principal comandante do exército de Davi ao longo de seu reinado (1Crônicas 2.15-16), e irmão de Abisai e Asael (2Samuel 2.18) igualmente comandantes do exército do rei Davi”. (1Reis 2.22). Portanto, Adonias tinha apoio religioso e militar. Mas não teve apoio de outras lideranças influentes junto a Davi como o sumo sacerdote Zadoque, o profeta Natã, de Simei, Reí e dos valentes de Davi, que sempre estiveram ao lado do rei e viam em Salomão uma melhor solução para o reino.

            Entretanto, o jogo de Adonias vai acabar mal para ele. Bete-Seba coloca diante de Salomão o pedido de Adonias, mas ela faz questão de fazê-lo em um lugar público, na sala do trono, na frente de testemunhas. E Salomão reage da única maneira possível para salvar seu governo. Salomão tinha consciência dos movimentos políticos de seu meio-irmão e conhecia bem seu caráter e ambições. Embora Davi não tenha tido relações com ela, Abisague era considerada sua concubina e, segundo os costumes da época, ela seria propriedade apenas do herdeiro legal de Davi. Portanto, Salomão sabe que no pedido de Adonias se esconde sua reivindicação ao trono e que essa situação permaneceria enquanto vivesse. A decisão de Salomão é radical – cortar o mal pela raiz: “E agora eu juro pelo nome do Senhor, que me estabeleceu no trono de meu pai Davi, e, conforme prometeu, fundou uma dinastia para mim, que hoje mesmo Adonias será morto! (1Reis 2.24-25).

Conclusão

O relato envolvendo a jovem Abisague reflete o contexto da vida das mulheres naqueles tempos. Abisague fora tirada da casa de seus pais e se viu morando no palácio real com todas as suas tensões. Seus sonhos e planos foram mudados radicalmente. Nós não ouvimos a voz dela em nenhum momento, pois as decisões que a envolviam eram sempre decidido por outras vozes, predominantemente masculinas, ainda que certamente Bete-Seba tenha aconselhado ela em algum momento, como sendo uma mulher mais velha e experiente do jogo politico palaciana.

Fazer de Abisague um objeto sexual para um rei velho é empobrecer demais a narrativa histórica e desfigurar completamente o caráter dessa jovem, cujo texto não deixa transparecer qualquer atitude moral ou ética negativa por parte dela. Ela soube se equilibrar em meio a um período extremamente delicado e tenso dos bastidores palaciano. Ela havia sido trazida para ajudar Davi a manter o controle do trono, mas as condições físicas dele estavam além de sua ajuda.  

Assim como Abisague podemos ser envolvidos em muitas circunstâncias das quais nós não temos o mínimo controle. Quando isso acontece devemos nos manter sóbrios, prudentes e orarmos para que Deus nos dê sempre discernimento do nosso papel a ser desempenhado. A narrativa bíblica não nos informa o que aconteceu com ela, mas também não diz que ela sofreu qualquer consequência das tramas orquestradas por Adonias. 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante

 

Artigos Relacionados
Leitura & Reflexão Bíblica: Êxodo Capítulo 1
https://reflexaoipg.blogspot.com/2018/11/leitura-reflexao-biblica-exodo-capitulo.html?spref=tw
Síntese Bíblica – Êxodo
https://reflexaoipg.blogspot.com/2016/02/sintese-biblica-exodo.html?spref=tw
Visão geral dos livros do Primeiro Testamento
https://reflexaoipg.blogspot.com/2018/10/visao-geral-dos-livros-do-primeiro.html
Pentateuco: Introdução Geral
https://reflexaoipg.blogspot.com/2016/02/pentateuco-introducao-geral.html
A Bíblia Hebraica e o Antigo Testamento Cristão
https://reflexaoipg.blogspot.com/2016/11/a-biblia-hebraica-e-o-antigo-testamento.html
História do Antigo Israel: Uma Revisão desde a Divisão do Reino – Judá.
https://reflexaoipg.blogspot.com/2016/12/historia-do-antigo-israel-uma-revisao.html
Abraão em Três Tempos: Judaísmo.
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/09/abraao-em-tres-tempos-judaismo.html
Referências Bibliográficas
BRUEGGEMANN, Walter. 1 e 2 Kings . Macon: Smyth & Helwys Publishing, 2000.
GARDNER, Paul. Quem é quem na Bíblia Sagrada. Tradução Josué Ribeiro. São Paulo. Editora Vida,1999.
GRAY, John. I & II Kings: A Commentary. Louisville: Westminster John Knox Press, 1970.
DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo. Vida Nova, 1995.
HOFF, Paul. O Pentateuco. São Paulo: Editora Vida, 1995.
NELSON, Richard D. First and Second Kings. Louisville: Westminster John Knox Press, 1987.
SCHEARING, Linda S. “Abisague (Pessoa),” The Anchor Yale Bible Dictionary. Nova York: Doubleday, 1992.
TENNEY, Merrill C. (Org.). Enciclopédia da Bíblia. São Paulo. Cultura Cristã, 2008.
ZADOFF, Efraim. Enciclopedia de la historia y la cultura del pueblo judío. E.D.Z. Nativ Ediciones, 2009.

NOTA: Você gostou deste artigo? Você acha que outras pessoas gostariam de ler este artigo? Certifique-se de compartilhar esta postagem no Facebook e um link no Twitter ou Tumblr para que outras pessoas também possam ler!
Seria muito bom ouvir de você! Deixe-me saber o que você achou desta postagem, deixando um comentário abaixo.