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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Grandes Termos da Bíblia: Condenação

CONDENAÇÃO

Começar pela palavra “condenação” é algo intencionalmente provocativo. O desconforto que ela causa revela como nossa cultura — inclusive no ambiente eclesiastico — tende a suavizar ou até silenciar termos que expõem a gravidade da condição humana em seu estado de pecado e miséria diante de Deus.

A Bíblia, porém, não evita essa linguagem. Pelo contrário, ela a coloca em primeiro plano: “condenado” e “condenação” aparecem repetidamente, lembrando que há um juízo real e que o ser humano, por si mesmo, não pode escapar dele. Ignorar o termo não elimina a realidade que ele descreve.

Esse silêncio contemporâneo é perigoso, porque, se deixamos de falar sobre condenação, também esvaziamos o sentido da justificação. Afinal, só faz sentido ser declarado justo (tsadaq) quando antes se reconhece que se estava sob culpa (rasha‘). O apóstolo Paulo desenvolverá sua teologia exatamente sobre esse contraste: todos estão condenados, mas, em Cristo, há justificação.

No contexto do Antigo Testamento

O Antigo Testamento não trata apenas da condenação justa do culpado; ele também denuncia a condenação injusta. Em Salmo 94:21, homens perversos “condenam o inocente à morte”. Nesse caso, a condenação deixa de ser expressão da justiça divina e se torna abuso humano, uma grave distorção moral.

Aqui se encontra um dos maiores paradoxos da história da redenção: a condenação injusta de Cristo, o Justo, que foi declarado culpado sem ter culpa e, justamente por isso, se tornou o meio pelo qual Deus justifica os pecadores.

Isso nos leva a um ponto ainda mais profundo: no Antigo Testamento, Deus não é apenas o Legislador; Ele é também o Juiz supremo, aquele que condena com justiça e que reverte condenações injustas. Em Isaías 50:8–9, o Servo pode dizer: “Quem me condenará?”, porque o Senhor é quem o vindica.

No contexto do Novo Testamento

No Novo Testamento, o conceito é desenvolvido a partir dessa base veterotestamentária. Herdado do universo forense do Antigo Testamento, ele é aprofundado à luz da pessoa e da obra de Cristo. O que antes já significava “declarar culpado” agora ganha contornos ainda mais intensos no que diz respeito à condição humana diante de Deus. Assim, o Novo Testamento retoma a estrutura “condenação versus justificação” e a aplica decisivamente ao problema do pecado e da salvação.

A condenação mantém seu caráter jurídico; não se reduz a uma emoção subjetiva. Em João 3:18, a sentença é clara: quem crê em Cristo não é condenado, mas quem não crê já está condenado. Isso mostra que não se trata apenas de um juízo futuro, mas também de uma condição presente diante de Deus.

O apóstolo Paulo expressa essa verdade de forma contundente em Romanos 8:1: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.” O contraste é decisivo: fora de Cristo, permanece a condenação; em Cristo, ela é removida. Essa oposição entre condenação e justificação está no centro da mensagem paulina.

O vocabulário grego do Novo Testamento confirma essa dimensão forense da condenação. Há uma relação entre o verbo krinō, que significa julgar, e o substantivo katakrima, que se refere diretamente à sentença condenatória. Essa distinção não é acidental; ela mostra que a condenação, no Novo Testamento, deve ser entendida como um processo judicial completo. Primeiro, há o veredito de culpa pronunciado pelo juiz; depois, a sentença que decorre desse veredito; e, em certos contextos, a própria pena aplicada como consequência inevitável. Assim, a literatura do Novo Testamento não suaviza o peso da condenação, mas a apresenta como realidade judicial diante de Deus. No entanto, o evangelho irrompe como boa notícia: em Cristo, essa sentença é anulada, e o veredito passa da condenação para a justificação.

Paulo também compreendeu essa verdade de maneira extraordinária em Romanos 8:3, ao declarar que Deus “condenou o pecado na carne” ao enviar o seu Filho. Isso é decisivo: a condenação não desaparece por mera anulação moral nem por um ato de indulgência divina; ela é enfrentada judicialmente na cruz. E essa realidade não pode ser tratada com indiferença ou protelada — exige resposta imediata. É hoje o tempo de reconhecer que a justiça de Deus foi satisfeita em Cristo e de acolher, sem demora, a graça que liberta e salva.

A mensagem da salvação não significa que Deus abriu mão de sua justiça ou a ignorou. Significa, antes, que sua justiça foi plenamente satisfeita em Cristo. A condenação recai sobre o próprio Filho, que assumiu o lugar do culpado. Desse modo, todo aquele que crê em Cristo pode ser declarado livre da condenação, sem que a santidade e a justiça de Deus sejam comprometidas.

Portanto, o termo “condenação” tem raízes profundas no Antigo Testamento e alcança seu pleno desenvolvimento no Novo. No AT, ele se insere primariamente no campo da justiça forense: condenar é declarar culpado, em oposição a justificar. Contudo, essa culpa diante de Deus não permanece apenas na esfera judicial; ela também possui uma dimensão cúltica e relacional, como se vê de modo especial em Levítico, onde o pecador necessita de expiação sacrificial para que sua culpa seja tratada e sua comunhão com Deus seja restaurada. No NT, esse quadro é ampliado e levado ao seu clímax em Cristo, que assume judicialmente a condenação do seu povo e, ao mesmo tempo, realiza de modo definitivo aquilo que o sistema sacrificial do AT apenas prefigurava: a remoção da culpa e a reconciliação com Deus.

Aqui cabe, porém, uma exortação séria: ignorar ou minimizar o estado de condenação diante do tribunal de Deus é um erro fatal. Muitos, por indiferença ou rejeição consciente, desprezam o sacrifício de Jesus Cristo. No entanto, a Escritura é clara: quem não crê já está condenado (João 3:18). Não se trata apenas de uma ameaça futura, mas de uma realidade presente.

Rejeitar o evangelho — sejam quais forem os motivos — é permanecer sob o veredito de culpa e carregar sobre si a sentença e a pena que somente Cristo pode remover. A cruz não foi um gesto simbólico, mas o lugar em que a condenação foi tratada de modo justo. Negligenciar isso é desprezar a única saída oferecida por Deus.

Por isso, a mensagem evangélica não pode ser suavizada: fora de Cristo, há condenação; em Cristo, há vida e justificação. Quem insiste em ignorar essa verdade permanece diante do tribunal divino sem defesa; mas quem se rende ao Filho encontra plena absolvição e paz.

Esse é o chamado urgente, inadiável, inescapável: não endureça o coração, não adie a decisão! A justiça de Deus é real, e a condenação igualmente — mas a graça também é real, e está disponível agora, neste instante, em Cristo Jesus. A Escritura declara com autoridade: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração (Hebreus 3:7–8). O “hoje” de Deus não é uma promessa vaga para o futuro, mas o momento presente em que a salvação pode ser recebida e a condenação removida. Ignorar esse chamado é persistir na rebelião contra Deus; acolhê-lo é entrar imediatamente no descanso e na vida eterna que Cristo conquistou na cruz.

Não há tempo a perder!

Não há espaço para indiferença!

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

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segunda-feira, 14 de abril de 2025

Vocabulário Bíblico Teológico - Anticristo



 Este é um termo eminentemente joanino epistolar (1João 2.18; 2.22 e 4.3; 2João 1.7). Primeiramente é preciso corrigirmos o equívoco de que o velho apostolo esteja se referindo alguma figura unicamente escatológica relacionado à Parousia e/ou Segunda Vinda de Jesus Cristo. Em suas epístolas o anticristo uma figura presencial, uma realidade ativa que os cristãos devem rejeitar e confrontar com discernimento e fidelidade.

“Anticristo” é uma palavra nova, provavelmente cunhada pelo apostolo João.[1] No singular, torna-se um personagem que atuará mais enfaticamente no mundo no momento da Vinda do Senhor (1João 2.18, 43). Ele negará que Jesus é o Cristo (1João 2.22). Ele é o Enganador (2João 1.7). O apostolo utiliza o plural como que indicando que surgirão muitos anticristos (1João 2.18), até à Volta de Cristo. Portanto, querer identificar um único Anticristo, como foi muito popular na década de 70, é um equívoco exegético-hermenêutico.[2]

É um termo composto por uma preposição – anti -, que aqui indica duas possibilidades: ser “contra”, ou ainda, “em vez de”. Assim, este elemento se constitui em um “pseudocristo”, um “falso Cristo” (em vez de), mas também traz a ideia de um opositor ao verdadeiro Cristo (“contra”). Desta forma o Anticristo afirmar que ele mesmo é Cristo e/ou afirma que não há Cristo.[3]

De maneira que este termo grego “anticristo” pode estar fazendo referência a uma pessoa e/ou ser maligno que não está apenas lutando contra Jesus, mas que empreende todo seu esforço e poder para alcançar a mesma posição que Jesus. De maneira que, sua pretensão é a de ser um “Cristo substituto”. No Apocalipse essa figura almeja receber a adoração que somente Jesus Cristo recebe. Aqueles que rejeitam a Cristo adorarão o Anticristo como sendo um deus (“todos os que habitam na terra o adorarão” – Ap. 13.7-8).

O apostolo Paulo o identifica pela expressão “o Homem do Pecado”, um impostor que se assenta no Templo de Deus, na verdade um pseudo - do grego (ψευδής) falso" ou "enganoso" (cf. segundo capítulo de Tessalonicenses).

A Didaquê, um documento cristão que não foi incluído no Canon, interpreta que a manifestação (ou como vimos) a proliferação de Anticristos, anuncia a proximidade da Segunda Vinda do Senhor e que ele vem caracterizado como o Cristo e/ou o Filho de Deus (Did. 16[4]).

Alguns dos primeiros estudiosos cristãos (Orígenes, Tertuliano, Teofilato) entendiam que o Anticristo não era tanto um impostor quanto o um opositor (inimigo de Deus, portanto dos cristãos e da Igreja). Desta forma, para eles e muitos cristãos que foram perseguidos e mortos, primeiramente pelo Império e posteriormente pela própria Igreja Romana, o(s) Papa(s) encarnavam essa figura do Anticristo.

Em vários momentos distintos da História Cristã essa figura foi identificada com os mais terríveis personagens, como Hitler. Mas não devemos limitar uma figura tão significativa à curta vida de qualquer geração em particular. Certamente não é a melhor hermenêutica-exegética vincularmos esse terrível personagem bíblico a uma única figura, por mais terrível e destrutiva que ela seja.

A Bíblia, como um GPS, nos fornece as diversas direções em que ele se move, e sempre com acuidade e bom senso podemos identificar para incidentes históricos isolados como sinais de suas ações maléficas. Neste sentido é possível identificarmos características de Anticristo em um líder e em um governo déspota auto deificado (cf. Ap 13), pois muitos anticristos aparecerão. O que não estamos autorizados a fazer é definir que este ou aquele é o Anticristo definitivo.

Nos dias atuais, não faltam figuras diversas que se apresentam como capazes de estabelecer na terra uma ordem social ideal, um salvador alternativo, um Anticristo. Isso representa uma distorção severa da escatologia cristã genuína, uma fé secularizada fundamentada no poder econômico, tecnológico e científico, que busca construir na terra uma nova ordem para a sociedade humana (exemplo disso é o grupo que orbita em torno do magnata Soros). Esses elementos, quando comparados ao Senhor Jesus Cristo, o verdadeiro Salvador e Senhor do mundo, são tanto "pseudo" quanto "anti".

Aventurar-se pelas especulações e interpretações dos termos, sem um estudo criterioso de seu contexto exegético-hermenêutico, tem produzido elaborações absurdas e antibíblicas, que tem surgido ao longo dos séculos e continuam a atrair cristãos neófitos ou despreparados no estudo sério das Escrituras. Além disso, essas elaborações também seduzem religiosos que se dedicam apenas a discussões frívolas e estéreis. Consequentemente, surgem conjecturas, suposições e hipóteses fundamentadas em evidências insuficientes, meros palpites ou simples deduções.

Mediante a tudo que vimos a conclusão de Warfield é a mais coerente na harmonia das referências bíblicas: "O Anticristo não é um fenômeno futuro, mas um fenômeno presente; não uma coisa a ser esperada com pavor sem nome, mas uma coisa a ser corajosamente enfrentada em nossa vida cotidiana. João faz essa afirmação com a máxima ênfase (iv. 3), p. 72”. Essa é a principal questão do tema do "anticristo" joanino.

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Referências Bibliográficas

TURNER, Nigel. Christian Words. Edinburgh: T. & T. Clark Ltd., 1980.

WALLACE, Daniel. Greek Grammar Beyond the Basics (Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1996. p. 364.

WARFIELD, Benjamin B. “Antichrist” in John. E. Meeter, ed. Selected Shorter Writings of Benjamin B. Warfield Volume I. (Nutley, New Jersey: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1970. 356.

Verbete – Antichrist. The Interrprete’s Dictionary of the Bible. Abingdon Press: Nashville, 1996.

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[1] Estudiosos tem empreendido pesquisas nas literaturas judaicas antigas, todavia, não encontram substancialmente relações diretas deste termo. Nas fontes judaicas, o messias tem oponentes políticos, mas a figura do Anticristo cristão é eminentemente uma figura religiosa. B. B. Warfield observou: "O Antigo Testamento não nos diz nada sobre o Anti-Messias. Não foi descoberto em nenhum dos fragmentos da literatura judaica pré-cristã que chegaram até nós”. (WARFIELD, 1970, p.356)

[2] Todo o período entre a primeira e a segunda vinda de Jesus é chamado de "última hora" e "últimos dias". Ver Atos 2.17; 2 Timóteo 3.1; Hebreus 1.2; 1 Pd 1.20 (cf. 1 Cor. 10.11). Assim, a "última hora" em 1 João 2.18 não é uma referência aos últimos dias que precedem o retorno de Cristo, mas uma referência a toda a era da igreja em que vivemos agora.

[3] De acordo com Daniel Wallace, a preposição anti tem dois significados básicos e um discutível. Pode expressar substituição (em vez de, no lugar de); pode expressar troca/equivalência (para, como, no lugar de); e também pode expressar causa (por causa de), embora esta última categoria seja debatida. (WALLACE, 1996, p. 364).

[4] “Então o sedutor do mundo aparecerá, como se fosse o Filho de Deus, e fará sinais e prodígios. A terra será entregue em suas mãos e cometerá crimes como jamais foram cometidos desde o começo do mundo”.


quinta-feira, 11 de abril de 2024

Você é um Parepidemos?



        Após a última ordem de Jesus dada aos seus discípulos: Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho – no cume do monte das Oliveiras quando de sua ascensão, a mensagem cristã se espalha por toda região do Império Romano. Podemos acompanhar esta expansão virtualmente através do livro de Atos (Jerusalém, Judéia, Samaria e até os confins da terra).

          No grande mundo que abrange todo o Mediterrâneo, a província romana da Ásia Menor (onde se encontra a atual Turquia) é o palco principal da expansão do cristianismo. Algumas correspondências de Paulo, como aos Gálatas, Éfeso e Colossenses são dirigidas às respectivas comunidades que ali foram implantadas e desenvolvidas. As sete correspondências, contidas nos dois primeiros capítulos do Apocalipse, são endereçadas às igrejas que estão nesta área geográfica da Ásia Menor.

          Saindo da esfera da literatura canônica, no início do século II o governador romano Plínio, responsável pelas províncias do Ponto e da Bitínia, escreve ao imperador Trajano expressando sua grande preocupação com o rápido crescimento do número de cristãos (ele foi o primeiro a nomeá-los por este título), a ponto de esvaziarem os templos dedicados aos outros deuses, afetando todo o comercio religioso daquela região (o que implica em menos arrecadação de impostos públicos).

    O apostolo Pedro vai escrever esta sua carta circular direcionada às comunidades que estão localizadas justamente nesta região geográfica ... Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1.1). Ele inicia se referindo aos leitores como sendo parepidemos (Παρεπιδήμοι) neste mundo. Ainda que o termo grego seja originalmente um adjetivo, nos documentos neotestamentários ele é utilizado com a função de substantivo, trazendo um significado de alguém que é um “estranho”, “peregrino”, “alienígena” (1Pe 1.1; 2.11; Hb 11.13) uma vez que em Cristo eles passam a viver temporariamente neste mundo uma vez que a sua morada/cidadania permanente/definitiva está no céu (Fp 3.20). A exortação é de que o cristão não deve sentir-se demasiado confortável com a vida aqui nesta terra, pois ela dura pouco tempo; a verdadeira vida permanente e eterna está no Reino glorioso de Cristo.

          Abaixo algumas das muitas traduções que esta palavra oferece:

residentes temporários

refugiados

peregrinos

os que estão longe de suas casas

peregrinos

viver como estrangeiros

aqueles que se estabeleceram ao lado de uma população incrédula (Wuest)

os que residem temporariamente no estrangeiro

          Quanto a tradução “exilados” utilizada por alguns tradutores, ainda que seja possível, dentro da perspectiva de Pedro e outros escritores bíblicos não se ajusta ao contexto cristão, pois o cristão faz uma escolha pessoal de viver como peregrinos neste mundo. No espírito da oração intercessora de Jesus ao Pai em favor daqueles que ainda haveriam de crer: “não peço que os tire do mundo, mas que os preserve do mal” (João 17.15).

Desta forma o cristão não é simplesmente alguém que está de passagem, (ainda que pela perspectiva da eternidade a nossa vida aqui seja um “breve pensamento”), mas um estrangeiro/peregrino que se estabelece, seja por pouco ou longo tempo, ao lado ou entre outros povos, etnias, culturas, sem, todavia, se deixar moldar por elas.  

Que retrato do crente no meio de uma geração corrupta e corruptora! Parepidemos é alguém que não espera e nem busca torna-se um igual entre aqueles que vivem ao seu redor. Está foi a proposta de Deus para o povo de Israel desde o início, mesmo antes de entrarem na terra de Canaã; os quarenta anos no deserto deveria ter-lhes ensinado esse princípio, todavia, o comportamento imediato e posterior vai demonstrar que eles nunca realmente entenderam a vontade de Deus para suas vidas.

O livro de Juízes é um triste testemunho da rebeldia deles, o grito deles ao velho sacerdote e profeta Samuel, que tanto entristeceu seu coração, revela que eles nunca entenderam o conceito de serem parapidermos entre todos os povos da terra - “queremos um rei, IGUAL a todos os povos que estão ao nosso derredor”. Eles não queriam ser parepidemos, mas iguais aos demais povos canaanitas.

Foi quando Ló abriu mão, escolheu deixar de ser um parapidermos (como Abraão) e se tornou um residente permanente em Sodoma (Gn 13.1-18), com direito a sentar-se à porta da cidade (reconhecimento de igual), que ele perdeu sua consagração, seu testemunho e tudo o que adquiriu ao longo de toda sua vida, e que em poucas horas se transformou em fumaça, literalmente (Gn 19.1-29). O comportamento de Ló e de uma parcela crescente do evangelicalismo brasileiro atual nos faz parar e pensar nas palavras de Jesus na parábola do rico insensato: “Louco, hoje mesmo te pediram a tua alma. E o que lutou tanto para acumular, de que te servirá?” (Lc 12.16-21). Este é o final para todos aqueles, de dentro das igrejas, que se recusam a viver como parepidemos neste mundo tenebroso e se moldam e se deixam moldar (Rm 12.2) por esta Sociedade promiscuas e perniciosa influenciada pelo inferno.

Os “evangélicos/crentes” brasileiros lutaram por décadas para não serem parepidemos na sociedade corrupta brasileira, e hoje conseguiram um lugar à porta da Sociedade brasileira. O resultado pode ser visto na deterioração crescente do evangelicalismo nacional. O crescimento nominal não corresponde a um maior impacto transformador da Sociedade brasileira. Pois, na mesma proporção em que os evangélicos desistem voluntariamente de serem parepidemos eles assimilam de forma crescente e rápida os conceitos da Sociedade em que estão inseridos. Desta forma ocorre uma inversão terrível de valores, os evangélicos absorvem cada vez mais os conceitos permissivos e libertinos da Sociedade – o novo normal do evangelicalismo, enquanto a Sociedade continua cada vez mais afundando no atoleiro da depravação física, moral e espiritual.

Devemos nos lembrar cotidianamente de que somos parapidemos neste mundo tenebroso. É neste sentido que Jesus disse que somos “luz do mundo e sal da terra”.  Entretanto, quando deixamos de ser parapidemos, nos tornamos luz embaixo da mesa e sal insipido – perdemos a nossa função de luz/sal na Sociedade e nos tornamos cada vez mais semelhantes aos filhos das trevas e passamos a desenvolvemos uma vida sem sabor, sem as qualidades distintivas dos temperos do cristianismo vivo e transformador.

Quais as Implicações em ser um Parapidemos?

          Na epistola aos Hebreus (11.8-16) o escritor faz um retrato falado de um parapidemos:

Obediente ao chamado (11.8)

Nunca se acomoda (11.9)

Procura uma cidade eterna (11.10)

Tem visão telescópica (11.13)

Professa sua fé abertamente (11.13)

Nunca retrocedem ao velho estilo de vida (11.15)

Almeja por uma terra melhor (11.16)

Está disposto a morrer por sua fé (11.13)

          Quantos cristãos no século XXI se ajustam dentro deste quadro pintado no século I?

 

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Guedes, Ivan Pereira

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sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Vocabulário Bíblico Teológico: Perseverança (ὑπομονή)

 


A palavra em si (ὑπομονή) é encontrada apenas uma vez no Novo Testamento (Ef 6.18) e esta relacionada diretamente à determinação de orar sem se descuidar:  "Ore o tempo todo no Espírito, com toda oração e súplica. Para isso, fique atento com toda perseverança, fazendo súplica por todos os santos"(Ef 6.18).

Mas o termo é muito rico na teologia e possui uma longa história nos debates teológicos da Igreja Cristã. O conceito de que todo genuíno crente haverá de perseverar até o fim, ou seja, cruzará vitorioso alinha de chegada para adentrar à vida eterna permeia os relatos bíblicos: Jesus dá garantias de que cada uma de suas ovelhas permaneceram: "Meu Pai, que os deu, é maior do que tudo, e ninguém é capaz de arrancá-los da mão do Pai" (João 10.29), nada e ninguém pode impedir que um salvo se perca;  o apóstolo Paulo escrevendo sobre o chamado de Deus para a salvação declara: "os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis" (Rm 11.29), jamais será mudado; assim também o fez em sua epistola anterior aos filipenses: "Tenho certeza de que aquele que começou um bom trabalho em você vai trazê-lo à conclusão no dia de Jesus Cristo" (Fp 1.6; cf. 2 Ts 3.3; 2Tm 1.12; 4.18), o Espírito Santo inicia e conclui o processo da Salvação. É a partir deste contexto das Escrituras que a teologia reformada defende com veemência que uma pessoa "uma vez salva, permanecera salva"; de maneira que aqueles a quem Deus elegeu/escolheu, que foram redimidos no sacrifício de Cristo no calvário e que foram selados com o Espírito Santo, efetivamente perseverará até o fim.

Desta forma, a perseverança do crente está intimamente relacionada com a eleição e a predestinação. Mas em qualquer pensamento teológico onde o ser humano tem participação efetiva no processo da salvação o conceito de perseverança acaba sendo diluído e torna-se imperceptível.

Evidentemente que a perseverança, como todo o processo da redenção é uma ação graciosa de Deus, e não apenas um esforço humano, pois o Espírito Santo efetua a conversão e permanentemente mantém a fé salvadora até o final definitivo na glorificação. Desta forma o crente persevera até o fim porque ele é mantido pelo próprio Deus que o salva, de maneira que unicamente a Deus se deve toda honra e toda glória.

Os críticos deste pensamento teológico buscam em alguns textos um argumento contraditório. O escritor de Hebreus parece indicar que uma pessoa, mesmo depois de seu novo nascimento, pode apostatar e virar as costas para Deus e sua salvação: “Pois é impossível restaurar novamente o arrependimento daqueles que já foram iluminados, que provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a bondade da palavra de Deus e os poderes da época vindoura, se então cometerem apostasia, uma vez que crucificam o Filho de Deus por conta própria e o expõem ao desprezo” (Hb 6.4-6); ainda em outro momento o escritor bíblico declara: “Pois se pecarmos deliberadamente após recebermos o conhecimento da verdade, não resta mais um sacrifício pelos pecados, mas uma perspectiva temerosa de julgamento, e uma fúria de fogo que consumirá os adversários” (Hb 10.26, 27).

É preciso, portanto, examinar com muito cuidado as afirmações contidas em Hebreus, pois elas precisam estar em harmonia com o que Jesus afirmou e foi registrado por João, conforme acima citado. Uma regra áurea da boa hermenêutica é de que se dois textos bíblicos estão aparentemente se contradizendo ou estamos interpretando um dos textos equivocadamente ou estamos interpretando ambos os textos erroneamente.

Há dois aspectos aqui que precisam serem levantados: 1) a pessoa que caiu não experimentou de fato uma genuína conversão (novo nascimento), o que é possível e ocorre com frequência; 2) e que todo aquele que verdadeiramente “nasceu de novo”, deve produzir os resultados efetivos desta nova vida em Cristo. Spurgeon caminhava na calçada com um conhecido, quando se depararam com um homem embriagado caído à calçada. Imediatamente o acompanhante disse: eis aí um dos membros de sua igreja! Ao que Spurgeon tranquilamente respondeu: de fato ele é um membro de minha igreja, porque se fosse membro da igreja de Cristo, jamais estaria nestas terríveis condições.

Não é a perseverança que resulta em fé, mas a fé é que produz a perseverança. Deus exige dos cristãos não apenas que eles creiam no evangelho, mas também que eles perseveram em viver em conformidade com o evangelho, independentemente das dificuldades que encontram, pois, a perseverança é a prova da autenticidade da fé e leva à maturidade espiritual. Todo aquele que foi regenerado haverá de produzir frutos dignos desta nova vida.

Desta forma, todo genuíno crente, mesmo diante de suas próprias limitações, persevera diária e conscientemente em viver de forma agradável a Deus e de realizar a vontade de seu Salvador e Senhor. Ainda que como Davi, Pedro e tantos outros, venhamos a cair ou ainda que a nossa velha natureza se manifeste com mais frequência do que desejamos, e venhamos a clamar como Paulo “miserável homem que sou”, isso não caracteriza apostasia. Nos cento e cinquenta salmos abundam as orações para que Deus em sua misericórdia perdoe os pecados praticados e firme os passos para que não venha a desviar-se da Torah, as preciosas instruções de Deus. E não em poucas ocasiões o salmista está vendo a morte diante de seus olhos.

A perseverança é uma das virtudes mais lindas e extraordinárias da vida cristã, pois ela é a força motriz do espírito humano que nos impulsiona à prática diária das demais virtudes espirituais e morais. É o adorno de toda a vida virtuosa. Quando Paulo exorta – nunca deixe de fazer o bem – o que é bom, benéfico que abençoa a vida de outras pessoas, isso exige por parte deste cristão – perseverança. É a perseverança que distingui o cristão maduro do cristão imaturo e essa maturidade somente é possível na vida daqueles que perseveram, mesmo diante das contrariedades e adversidades da vida. Nas orientações finais de sua segunda carta aos crentes em Corinto o apostolo declara: "Seja firme e inabalável [perseverante], sempre abundando na obra do Senhor, sabendo que seu trabalho não é em vão no Senhor" (1Co 15.58).

A razão pela qual Paulo e Barnabé não fizeram a segunda viagem missionária juntos foi o jovem João Marcos. Antes mesmo da metade da primeira viagem, João Marcos retorna, ou seja, não permaneceu firme, não perseverou, ainda que não saibamos os motivos; agora Paulo se recusa a leva-lo na nova viagem. Mas posteriormente, em algum momento Paulo e João Marcos se reconciliaram e o velho apostolo, preso em Roma e antevendo seu martírio, escrevendo seu último documento (canônico) traz esse testemunho: “Solicite a João Marcos que venha me ver, pois ele é extremamente útil no ministério”; e o próprio apóstolo, escrevendo aos Coríntios, sintetiza de forma maravilhosa o conceito de perseverança cristã: “Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos;” (2Co 4.8,9). Certamente esse era o grito de guerra dos primeiros cristãos enquanto era levados acorrentados ao Coliseu romano para serem lançados às bestas feras e aos gladiadores sedentos para derramarem o sangue deles.

Tiago em sua epistola coloca Jó como exemplo de um crente perseverante em meio às mais duras e implacáveis adversidades da vida. Enquanto os profetas eram exemplos de paciência, a experiência de Jó exemplifica vividamente a perseverança. Ele permaneceu firme em situações muito difíceis, mas no final Deus manifesta sua grande compaixão e misericórdia para com seu servo (5.11; cf. Jó 42.10,12).

A perseverança no livro do Apocalipse é de grande relevância, por se referir ao período derradeiro da história humana. O Jesus glorioso escreve às suas igrejas, em todos os lugares e tempos, representativo nas Sete Igrejas localizadas na Ásia Menor. O substantivo hupomonē é usado sete vezes no livro de Apocalipse (outra vez o sete). Ele se refere à forma com que o cristão (igreja) deve responder quando sua fé (vida) é ameaçada. Em Apocalipse 1.9, refere-se à experiência de João e das igrejas para as quais escreve. Eles eram coparticipantes no sofrimento, no reino e na “paciente perseverança”. Em sua unidade com Cristo eles suportaram corajosamente os sofrimentos e aflições, enquanto esperavam pelo Reino de Deus. Jesus destaca a perseverança em duas delas - Éfeso e Tiatira (Ap 2.2-3,19). Primeiro Jesus declara que sabe, vê, tem conhecimento de que eles têm perseverado na fé e no ensino recebidos, mesmo diante das pressões das ideologias contrárias transvestidas de verdade, como também diante das pressões decorrentes das perseguições legais efetuadas pelo Império Romano. Quer fossem pressões internas ou externas aquelas igrejas estavam permanecendo firmes, perseverando em meio às adversidades e por isso estavam sendo aprovadas.

Resumidamente podemos dizer que a Palavra de Deus nos exorta a sermos perseverante na vida cristã da mesma maneira e/ou forma com que iniciamos - pela fé que nos foi outorgada pela graça de Deus - e não em decorrência do nosso esforço pessoal, pois as nossas melhores boas obras são apenas trapos de imundícia. A nossa perseverança é tão somente uma continuidade da graça de Deus que permanentemente opera em nós, nos capacitando a respondermos positivamente ao chamado e vocação de Deus. Como tão bem afirma o apostolo Paulo: aquilo que começou em nós pela ação do Espírito Santo, não pode ser prosseguida e/ou pelo esforço da carne.

Algumas questões para aprofundar mais o tema da perseverança: (1) Como um Deus absolutamente soberano age e interage com seres moralmente responsáveis? (2) Que garantia qualquer pessoa tem em um universo onde Deus não está completamente no controle? Que certeza alguém pode ter da sua salvação, se depende do seu esforço próprio para perseverar?

  

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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