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terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Jesus Cristo nas Escrituras: Êxodo

 


Há uma fonte cheia de sangue, Tirado das veias de Immanuel,
E pecadores mergulhados sob esse dilúvio
Perder todas as suas manchas culpadas: Perder todas as suas manchas culpadas,

Hino "There is a Fountain" Escrito: William Cowper

[Disse Deus a Moisés] "Reúna a assembleia de Israel e diga: 'Vejam o que temos que fazer no dia dez deste mês. Cada um vai pegar um cordeiro. Dentro dos grupos de famílias, terá de ser um cordeiro para cada família” (v.3).

“Agora, o cordeiro não pode ter defeito físico. Em vez de cordeiro, pode ser um cabrito. Cada um guardará o animal até o dia quatorze deste mês. Nesse dia, no fim da tarde, cada cordeiro ou cabrito será morto. E o seu sangue será colocado no alto e nos lados das portas das casas onde comerem desses animais sacrificados” (vs.5-7).

“O sangue vai servir de sinal nas casas em que vocês estiverem. Quando Eu enxergar sangue nas portas, passarei por alto, sem ferir ninguém ali. Assim, a praga de destruição com a qual vou ferir o Egito, não atingirá vocês” (v.13).

Êxodo 12.3, 5-7, 13

É impossível para um estudante da bíblia, ainda que iniciante, ler o livro de Êxodo e não o relacionar às narrativas evangélicas. Os versos acima mencionados é apenas uns entre tantos outros que se relacionam diretamente  à vida e ministério de Jesus Cristo.

Até hoje os judeus mais conservadores celebram a Páscoa, dentro da perspectiva judaica, onde se recorda a libertação do povo israelita da escravidão imposta pelos egípcios.

Na noite da Páscoa toda a família senta-se à mesa para a refeição do Seder. A mesa de jantar estão todos os elementos para lembrar a libertação da escravidão de seus antepassados. Há a perna de osso de cordeiro, ervas amargas, água salgada e todos os outros elementos que oferecem uma expressão visual de sua jornada, de maneira a transmitir visualmente a antiga tradição de geração a geração. Há mais de 3.500 anos, o caçula da família se senta à mesa e faz quatro perguntas ao pai: Por que esta noite é diferente das outras, e só comemos pão ázimo? Por que comemos todos os tipos de ervas em outras noites, mas esta noite comemos apenas ervas amargas? Por que é que todas as noites não precisamos de molhar os nossos vegetais uma única vez, mas esta noite fazemo-lo duas vezes? Por que nos reclinamos em nossas cadeiras à mesa esta noite? O pai então passa a ler a antiga Hagadá [Hagadah] do hebraico הגדה, o livro da Páscoa, onde é explicado que o pão ázimo os lembra da pressa com que tiveram que deixar o Egito; as Ervas amargas lembram a amargura da servidão e da escravidão; a imersão da salsa em água salgada representa a libertação através do Mar Vermelho e como o exército egípcio se afogou em perseguição. E, finalmente, inclinar-se para trás na mesa expressa sua liberdade em que eles não são mais escravos.

O fato de faraó não os libertar já nas primeiras pragas tinha um duplo propósito - didático e teológico. O didático era para deixar claro aos israelitas que era Deus quem os estava libertando e não Moisés, ou seus próprios esforços ou qualquer vestígio de bondade de faraó; o teológico está mais enfaticamente revelado na última praga, em que os primogênitos dos egípcios são mortos e os dos israelitas preservados. Todavia, a preservação dos infantes israelitas estava simbolicamente representado na morte do cordeiro e cujo sangue deveria ser aspergido sobre as vergas e os umbrais de suas casas, de maneira que o anjo da morte ao passar e vendo o sangue ali não entrava naquela casa. Portanto, fica bem claro, que a preservação da vida dos primogênitos israelitas não era méritos deles ou de seus pais, mas unicamente a graça de Deus que aceitou provisoriamente o sacrifício substitutivo do cordeiro anteriormente imolado.

Uma cena extraordinária da narrativa evangélica é a de João Batista se referindo ao senhor Jesus: eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo Jo 1.29. Enquanto o pregador faz esta declaração lá no templo de Jerusalém os sacerdotes estavam imolando os cordeiros que seriam oferecidos em sacrifício para remissão dos pecados.

O cordeiro tornou-se o modelo perfeito do Libertador vindouro (anunciado por João Batista), o Senhor Jesus Cristo. Assim como Ele estava na plenitude de Sua vida quando foi para a cruz, o cordeiro de um ano e sem mancha ou defeito estava na plenitude de seu vigor. O apostolo Pedro recordo todos estes fatos, ao escrever sua primeira carta, e referindo-se ao sacrifício substitutivo de Cristo declara que fomos salvos pelo "precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mácula e sem defeito" 1Pe 1.19.

No livro de Êxodo, a descrição detalhada do sacrifício deste cordeiro pascal é dada, incluindo instruções específicas de que nenhum de seus ossos deveria ser quebrado Ex 12.46. Em perfeito sincronismo na narrativa evangélica quando os soldados se aproximaram de Cristo na cruz, o evangelista destaca: "Mas quando chegaram a Jesus, quando o viram já morto, não lhe quebraram as pernas... Pois estas coisas aconteceram para que a Escritura se cumprisse: Seu osso não será quebrado" Jo 19.33, 36.

Tanto aqueles primeiros israelitas, quanto nós hoje, somos salvos pelo sangue do cordeiro morto.

Os israelitas foram salvos naquela noite cheia de morte pela fé, ao aplicaram o sangue do cordeiro nos umbrais de suas casas. Nós somos salvos hoje pela fé em Jesus Cristo que derramou seu precioso e puro sangue em nosso favor na cruz do calvário. A Bíblia diz: "A alma que pecar morrerá" Ez 18.20. A única maneira de sermos salvos e preservados da ira de Deus sobre todo pecado é aspergindo pela fé o sangue de Jesus Cristo em nossos corações.

Mil e quinhentos anos depois daquela primeira Páscoa, Jesus reuniu seus discípulos em um cenáculo no Monte Sião, na cidade de Jerusalém, para comemorar a Páscoa com os mais próximos e queridos a ele. Ele sabia, quando partiu o pão e levantou o cálice, que em mais algumas horas seu próprio corpo seria partido por eles (nós) e seu próprio sangue derramado para abrir o caminho para eles (nós) ao céu. A aplicação de sangue nos umbrais daquelas casas israelitas significava duas coisas: libertação da escravidão e libertação da morte. Semelhantemente ao aplicarmos o sangue de Cristo em nossas vidas significa as mesmas duas coisas: libertação da escravidão do pecado, que tem seu modo de nos prender e escravizar, e libertação da morte espiritual. O apostolo Paulo compreendeu perfeitamente esta verdade e escreve aos cristãos estabelecidos na cidade de Roma: "Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom de Deus é a vida eterna por meio de Cristo Jesus, nosso Senhor" Ro 6.23.

É por estas razões mencionadas acima que o Senhor confrontava os líderes religiosos céticos declarando-lhes: "Examinai as Escrituras; porque nelas tendes a vida eterna; e são elas que testificam a meu respeito" Jo 5.39. Quando examinamos cada livro da Bíblia, haveremos de encontra Jesus em cada um deles, mas certamente o livro de Êxodo é particularmente uma minienciclopédia sobre Jesus Cristo e sua obra redentora na cruz.  Neste precioso livro encontramos Jesus, nosso Cordeiro pascal.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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domingo, 27 de fevereiro de 2022

Êxodo Capítulo 1 – Os Movimentos da Providência de Deus

 

Êxodo Capítulo 1 – Verdades Fundamentais

Este primeiro capítulo pode ser divididos em três micros blocos literários, sendo o último verso uma conclusão. O primeiro bloco descreve o contexto dos filhos de Israel após a morte de José. Jacó/Israel quando foi abençoar seus filhos incluiu os dois filhos de José (Manassés e Efraim), agora eles se tornaram as doze tribos de Israel, expandindo-se de setenta pessoas e a família de José já no Egito para se tornarem "frutíferos e multiplicados" (Êxodo 1.7). A terra estava "cheia" com o povo israelita. Aqui começa o cumprimento da bênção de Deus sobre a vida de Abraão que lhe daria uma descendência semelhante às estrelas dos céus e a areia do mar (Gênesis 12.1–3).

Síntese do Livro

O livro de Êxodo estabelece o relacionamento da Aliança de Deus com a nação de Israel de pleno direito. Os descendentes de Abraão prosperam depois de se estabelecerem no Egito, apenas para serem escravizados por um faraó egípcio temeroso e odioso.

Deus não apenas preserva seu povo como designa Moisés para liberta o povo que estava vivendo em estado de escravidão.

Moisés como instrumento e porta-voz de Deus, lança sobre as egípcias sucessivas pragas como demonstração do juízo de Deus, de maneira que Faraó não teve alternativa a não ser deixar o povo israelita saírem do Egito. pois o Senhor traz pragas e julgamentos sobre o Egito, levando à libertação de Israel.

O período de tempo entre o último capítulo de Gênesis e o primeiro de Êxodo é de aproximadamente 400 a 430 anos. No transcorrer destes anos o Egito tornou-se a maior potência na área do Oriente Médio e Norte da África. As dinastias egípcias viveram dias de riqueza, poder e poderio militar até então nunca vistos.   

No segundo bloco do texto, versos 8 a 14, uma nova dinastia assume o trono no Egito e eles não reconhecem os privilégios que José e seus descendentes receberam anteriormente. Há por parte destas atuais autoridade uma preocupação com o crescente numero de israelitas vivendo praticamente dentro do Egito, temendo que pudessem a vir a se unirem a seus inimigos e tomarem o poder no Egito. A partir de então começa o longo e doloroso período de escravidão dos israelitas. São nomeados capatazes sobre eles e suas aflições são crescentes. Eles recebem "fardos pesados" (Êxodo 1.11). Os israelitas fazem parte dos milhares que participaram diretamente dos construtores das cidades de Ramsés e Pitom. O trabalho deles incluía fabricação de tijolos e todo tipo de trabalho de campo (Êxodo 1.14). Mas quanto mais Faraó os oprimia, mais eles cresciam em numero, o que vai levar Faraó a elaborar novos e terríveis decretos legais contra eles (qualquer semelhança com a cúpula judiciária brasileira não é mera coincidência).

Capítulo Contexto

Êxodo capítulo 1 descreve a difícil realidade enfrentada pelos israelitas ainda em seus primórdios, antes mesmo de se tornarem uma grande nação. No final do Gênesis, os descendentes de Abraão estavam finalmente seguros. Nesta passagem, eles se tornam prósperos e se expandem rapidamente. Isso, no entanto, resulta em medo e ódio da dinastia real egípcia, que não conheceram José. Decretam um programa de escravidão e infanticídio contra os hebreus. Isso prepara o cenário para a inserção do maior líder de Israel,  Moisés, que falará da parte de Deus durante todo o este tempo de libertação dos israelitas, até chegarem em segurança nas fronteiras de Canaã, de onde Jacó e José haviam saído, e terra que Deus havia prometido a Abraão o ancestral com o qual Deus havia feito uma Aliança.

O terceiro bloco deste capítulo, versos 15-21 revela a forma cruel com que Faraó tentara parar o crescimento dos israelitas. Como não havia hospitais eram as parteiras que auxiliavam as grávidas nos partos. É ordenado especificamente a duas delas, Sifrá e Puá (egípcias) que nascendo o bebê e sendo do sexo masculino, ele deveria ser jogado nas águas do rio Nilo (as atuais leis pró-aborto  é ainda mais cruel e terrível, pois permite a matança de milhares bebês de ambos os sexos antes mesmo de nascerem). O objetivo do faraó era parar o rápido crescimento populacional dos judeus que na perspectiva dele ameaçavam os egípcios. Isso não pode ser feito sem que algo muito interior seja negado, sem afetar definitivamente o caráter da pessoa, aquilo com o que ela se compromete. De maneira que estas parteiras temendo ao Deus dos israelitas se recusam (secretamente) a obedecer a uma ordem tão cruel e abominável como esta. E Deus honra essas parteiras e abençoa tanto elas quanto suas famílias (versos 20-21). Quão diferente das pessoas de hoje que sai às ruas para comemorem o fato de que podem matar bebês sem qualquer constrangimento, pois nestas pessoas não há qualquer vestígio do temor a Deus, mas cada um destes genocidas legalizados, tanto os que autorizam quanto os que exercem a função de carrascos destas vidas terão que enfrentar a ira de Deus – o autor da vida.

O último verso (22) é o ápice da maldade inerente do ser humano sem discernimento e temor de Deus. Faraó percebe que sua ordem anterior não está surtindo efeito, então estende a ordem para todas as pessoas, para que joguem os bebês masculinos judeus para serem devorados pelos crocodilos que povoavam o rio Nilo. A malignidade humana não tem limites no que tange ao esforço coordenado do inferno para destruir a Criação de Deus e principalmente aqueles que foram feitos à imagem e semelhança Dele e que foram separados para adora-lo e louvá-lo, como declara o apostolo Paulo – “povo de exclusividade de Deus”. Os israelitas passam a viver com está sombra maligna e assassina sobre suas vidas. O apóstolo Pedro atualiza está terrível verdade escrevendo que Satanás ruge como um leão espreitando os cristãos, pronto para ataca-los e destrui-los, mas Deus não permite e o apostolo João escrevendo o Apocalipse descreve Satanás como um grande e terrível dragão que sai à caça dos cristãos no mundo inteiro para destruí-los, mas, diz João, Deus leva seu povo para o Deserto (consegue fazer o link com o livro de Êxodo) e os esconde da ira do Dragão e seus comparsas o Anticristo e o  Falso Profeta. 

DEUS PRESERVOU, DEUS PRESERVA E DEUS CONTINUARÁ PRESERVANDO SEU POVO ATÉ O DIA FINAL.

Esse contexto assustador nos prepara para os próximos capítulos em que temos a narrativa do nascimento de Moisés e a preservação dos israelitas, que se constitui na manifestação real e maravilhosa da graça e do poder de Deus, na preservação da vida e na aplicação do seu juízo sobre todo o mal transvestido de autoridade quer seja civil ou religiosa – Moisés e seu povo viveram, mas Faraó e seu exército morreram. E aqui esta uma perfeita ilustração do Salmo primeiro: “O Senhor conhece o caminho do justo, mas o caminho dos ímpios perecerá”.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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quarta-feira, 2 de junho de 2021

As Dez Palavras de Deus – Introdução

E Deus falou todas essas palavras, dizendo:”
(Êxodo 20.1)
            Estamos no século XXI porque devemos estudar um código de leis que foi criado a milênios de anos atrás? É possível que tenha alguma utilidade nos dias atuis, em um mundo em que as pessoas não querem sim ou não, mas vivem uma vida no mais ou menos? O mundo dos dias de Moises era menos complicado do que o nosso mundo? As pessoas e as sociedades daquela época eram mais obtusas do que as do século XXI? Como afirma Kevin DeYoung: “Estudar os Dez Mandamentos revela exatamente o que está no cerne da rebelião humana: não gostamos que Deus nos diga o que podemos e o que não podemos fazer”. Creio que a pergunta mais relevante seja: A quem Deus falou estas palavras e que deveriam se constituir em regra de fé e prática?
            Inicialmente creio ser necessário lembrarmos a tríplice divisão do conjunto das Dez Palavras dadas por Deus para reger as diversas instâncias da vida dos israelitas. [1] As leis civis se referiam às questões legais, como por exemplo as relacionadas à questão dos impostos; as leis cerimoniais estavam focadas nas questões religiosas, quer fossem individuais, familiares ou coletivas; e a lei moral, cuja a síntese está nesse Decálogo,[2] implicava na responsabilidade individual de cada israelense.
Deste modo, podemos resumir da seguinte forma: os requisitos civis podem ser utilizados pelos governos modernos, as atividades cerimoniais foram cumpridas na cruz e, portanto, não devem ser adotadas pela igreja, e a lei moral é permanente.[3] Mas ainda resta uma pergunta: "Para quem a lei moral é permanente?" A Bíblia faz referências a pelo menos quatro grupos diferentes a quem as Dez Palavras se relacionam:
As Dez Palavras se Relaciona a Todas as Pessoas
            O apostolo Paulo tratando sobre esta questão com os cristãos estabelecidos em Roma (Rm 2.14-16) ele diz que mesmo aqueles que vivem fora das normativas divinas, vivem debaixo das leis que eles mesmo criam, pois segundo Paulo essas leis estão estabelecidas em seus próprios corações e o palco são suas próprias consciências que se lhes tornam seus próprios promotores de acusação.
            É preciso deixar bem claro que embora esses princípios ressoem na consciência humana (individual e coletivamente), eles certamente não são a única influência sobre nosso pensamento e comportamento. Precisamos saber que existe um Deus que espera certo comportamento moral e que há consequências de obedecer ou desobedecer a esses comandos.
            Para o velho apostolo todas as pessoas sabem a diferença entre o certo e o errado; essa característica foi forjada em sua criação de maneira que Adão e todos os seus descendentes, mesmo depois da Queda, estabeleceram e viveram por leis, mesmo antes das proferidas no Monte Sinai e transmitidas por meio de Moisés;[4] a sociedade por mais primitiva que seja não vive sem lei; dentro da perspectiva da Nova Aliança a Lei é um instrumento de evangelização, pois demonstra na prática a incapacidade do ser humano viver em harmonia com Deus, por si mesmos, de maneira que carece de um Mediador que é Jesus Cristo. E por fim Paulo deixa bem claro que os que vivem sem a justiça de Cristo, serão julgadas pela Lei no Dia do Juízo Final.
As Dez Palavras e Israel
A Lei foi promulgada a todas as pessoas, mas especificamente aos israelitas a partir do Monte Sinai. Eles agora são um Povo, posteriormente serão uma Nação, e torna-se indispensável que eles tenham um conjunto de leis que possam regê-los, por esta razão os Dez Mandamentos são elaborados dentro da linguagem pactual: em primeiro lugar, o Soberano declara quem ele é e o que ele fez por seus súditos e, em segundo lugar, ele lista suas exigências em relação a eles.
O tempo vai demonstrar a incapacidade dos israelitas em responder positivamente às expectativas de Deus. Os profetas de forma geral traziam à memória de seus ouvintes, israelitas e judeus, que eles estavam vivendo em transgressão às leis dadas por Deus dentro da Aliança estabelecida a partir do Sinai. Diante da permanente rebeldia e displicência deles, o profeta Jeremias declara que Deus fará um Novo Pacto, mas esse será distinto, pois será de dentro para fora: “colocarei minha lei dentro deles, e escreverei em seus corações. E eu serei o Deus deles, e eles serão o meu povo. E não mais cada um ensinará seu vizinho e cada seu irmão, dizendo: ‘Conheça o SENHOR’, pois todos me conhecerão, desde os menores até os maiores, declara o SENHOR. Pois perdoarei sua iniquidade, e não me lembrarei mais do pecado deles” (Jr 31.31-34). De acordo com o escritor de Hebreus esse é a Nova Aliança em que todos aqueles que creem no Senhor Jesus estão inseridos hoje (Hb 8.1-13).
            O apostolo Paulo traz mais um esclarecimento sobre essa questão, pois em sua correspondência com os crentes da Galácia, que estavam sendo perturbados por judaizantes que pressionavam para que retornasse à prática ritualística do judaísmo, Paulo relembra que Abraão[5] foi feito justo pela fé, pois viveu antes da Lei mosaica e de que a função da Lei, até Cristo, foi de guardiã, preservando do juízo divino, todos aqueles que viviam genuinamente comprometido com os termos da Aliança, pois tinham a Lei escrita em seus corações e muitas vezes essa é a oração dos Salmista, cujo Salmo 119 é o maior e mais extraordinário exemplo de amor pela Lei de Deus. Infelizmente esses israelitas que amavam a Lei do Senhor nunca foram a maioria e por esta razão a Lei tornou-lhes guardiã de uma obediência pela fé.
            Onde os israelitas falharam é exatamente onde nós também falhamos, todavia, mediante a manifestação da graça de Deus, somos mantidos obedientes em decorrência da obediência de Cristo e pela ação continua do Espírito Santo que nos capacita a vivenciar a vontade de Deus (Rm 8.1-4).
As Dez Palavras Revelam o Nosso Pecado
Conforme o apostolo Paulo explica uma função importante da lei é que ela convence o ser humano de seus pecados: “Assim é que a condenação de Deus cai pesadamente sobre aqueles que vivem debaixo da lei, visto eles serem responsáveis pela guarda das leis divinas, em vez de fazerem todas essas coisas más. Nenhum deles tem desculpa; de fato, o mundo inteiro sente-se culpado e fica mudo diante do Deus Todo-poderoso.Vocês podem ver agora? Ninguém pode jamais ser declarado justo aos olhos de Deus por fazer o que a lei ordena. Quanto mais conhecemos as leis de Deus, mais claro fica que não as obedecemos, pois que suas leis nos fazem ver que somos pecadores(Rm3.19-20). Uma vez que a lei de Deus é o padrão perfeito, convence-nos do nosso fracasso em mantê-la. Esta convicção irá variar em grau de intensidade em diferentes pessoas.
O fato de uma pessoa reconhecer seu pecado é um passo, mas ainda não é uma conversão. O remorso carrega uma dose forte de consciência do pecado e tristeza pelas consequências advindas, mas diferentemente da verdadeira conversão ela não motiva a pessoa a depositar sua confiança em Jesus. Somente no e pelo Evangelho é possível experimentar uma conversão total e plena da nossa vida, pois o Evangelho não apenas nos revela que somos pecadores (transgressores da Lei), mas nos fornece o remédio - o sacrifício de Jesus Cristo.
As Dez Palavras e os Cristãos
Se estamos dentro da Nova Aliança, porque nos preocuparmos com a Lei? Simples, o que Jesus fez por nós na cruz foi não apenas nos salvar da condenação da Lei, mas nos capacitar a vivencia-la na nossa vida cotidiana. A Lei é a expressão da vontade de Deus para as nossas vidas. Em nenhum momento Jesus cancelou a validade da Lei, ao contrário, ele aprofunda a aplicação e o sentido da Lei.
Uma vez que a Lei está escrita em nossos corações, ela deve produzir os efeitos para o qual foi estabelecida. O Evangelho não transforma a Lei em legalismo, ao contrário, nos torna livres não apenas para obedecermos voluntariamente aos preceitos divinos, mas para amar a Lei de todo o nosso coração, mente e forças, pois em Cristo recebemos um novo coração do Pai, coração regenerado, transformado, inspirado por Jesus.[6]
Ao resumir os Mandamentos em dois: amor a Deus e amor ao próximo – Jesus deixou claro que toda a Lei é uma expressão de amor: amamos Deus adorando-o e usando seu nome corretamente; amamos nossos pais honrando-os; amamos nossos cônjuges sendo fiéis; amamos nossos vizinhos protegendo suas vidas, respeitando suas propriedades, e dizendo-lhes a verdade. Estas Palavras foram pronunciadas por um Deus que é amor, que espera que seu povo que o ame e que compartilhe esse amor com os outros. Como Jesus disse: "Quem tem meus mandamentos e os obedece, é esse quem me ama" (Jo 14.21; 1 Jo 5.3). Desta forma, é totalmente impossível separamos a Lei de Deus do amor de Deus. E todos aqueles que tentam fazer isso tornam-se loucos. Disse Jesus: “Eu vim para cumprir a Lei e não para revoga-la”.
A relação da Trindade com as Dez Palavras
Primeiro, eles nos possibilitam apreciarmos a inteligência e amabilidade do Legislador. A Lei aponta o holofote sobre o caráter de Deus. Não apenas estas Dez Palavras, mas toda Palavra de Deus não só mostra o que Ele quer; ela nos revela o que Deus é.  A Lei é elaborada pelo Legislador para proporcionar segurança, não apenas para mim, mas para toda a comunidade (sociedade) em que estou inserido. Cada uma das Dez Palavras nos diz algo sobre o caráter de Deus, e nós os consideraremos no devido tempo.
Segundo, igualmente poderemos apreciar as qualidades do caráter de Jesus Cristo. Jesus na sua humanidade é o nosso exemplo e ele cresceu obedecendo a Palavra de Deus, pois ela estava em seu coração e ele sempre fez as coisas que agradavam ao Pai. Em nenhum momento ele torna-se transgressor da Palavra, como o fez Adão e fazemos nós, mas ele a cumpre integralmente. Quando ele resume toda a Palavra em dois pontos fundamentais é porque em todo o tempo ele amou a Deus e ao próximo.
Terceiro, a nossa obediência à toda Palavra de Deus é a obra iniciada pelo Espírito Santo, a partir da nossa conversão. Ele sempre vai querer que eu mantenha a Palavra de Deus, o que significa que ele nunca vai me levar a ignorar uma só das Palavras ou desobedecer a uma delas. O objetivo do Espírito Santo será me conformar com os requisitos da Palavra de Deus.
Essa Palavra de Deus continua sendo as balizas pelas quais devemos vivenciar a nossa fé cristã. Elas indicam a maneira pela qual Deus deseja que vivamos em relação à comunidade cristã, mas também em relação à Sociedade de forma geral. As Palavras estabelecidas por Deus transcendem o espaço e o tempo e continuam tão vividas hoje como foram nos dias de Moisés e dos israelitas.
Conclusão
Assistimos diariamente a triste realidade de uma Sociedade que ignora por completo os Mandamentos de Deus, tendo a total cumplicidade de um evangelicalismo morno e insonso que produz ânsia de vômito em Jesus Cristo (Ap 3.15,16).  As ondas crescentes e destruidoras da violência, da promiscuidade; da corrupção e da mortalidade tem devastado e continuará devastando milhões de vidas em todo o mundo.
            Nestes dias de tensas trevas o estudo cuidadoso destas Dez Palavras de Deus sintetizadas e inseridas no contexto geral das Escrituras, torna-se indispensável para mantermos não apenas a integridade de nossa fé e vida cristã, mas da nossa própria sanidade mental em meio a uma Sociedade transloucada e a beira da esquizofrenia.
Perguntas para Reflexão
1.    As Dez Palavras são importantes para você? Porquê?
2.    Você poderia citar de memória as Dez Palavras?
3.    Você tem ensinado seus filhos ou netos as Dez Palavras?
4.    As Dez Palavras fazem parte do seu conjunto de fé e prática?
 
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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas
ALLEN, J. C. (Ed.). Gênesis-Êxodo. Rio de Janeiro: Junta de Educação religiosa e Publicações, 1986. (Comentário Bíblico Broadmann).
ALTER, Robert e KERMODE, Alter (Orgs.). Guia Literário da Bíblia. Tradução Raul Fiker tradução; Revisão de tradução Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997. - (Prismas).
COELHO FILHO, Isaltino Gomes. A Atualidade dos Dez Mandamentos. São Paulo: Êxodus, 1997.
COLE, R. Alan. Êxodo: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1990.
COX, Leo G. O livro de Êxodo. Tradução Luís Aron de Macedo. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. [Comentário Bíblico Beacon, v. 1].
DeYOUNG, Kevin. Os Dez Mandamentos: significado, importância e motivos para obedecer. tradução de Abner Arrais e Ubevaldo G. Sampaio. São Paulo: Vida Nova, 2020.
DREHER, C. “As tradições do Êxodo e do Sinai”. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 16, p. 52-68, 1988.
FILHO, João Coimbra e COIMBRA, Deise Peres. Um estudo exegético em Êxodo 20.1-6. Monografia (Bacharel em Teologia). Faculdade de Educação Teológica da Amazônia – FAETAM. Belém, Pará: 2009. [Orientadora: Profª. Ana Patrícia Araújo Campos da Rocha].
SILVADO, Luiz Roberto Soares. A Ética Cristã nos Dez Mandamentos. Curitiba: A.D. Santos Editora, 2017.
SOARES, Esequias. Os Dez Mandamentos: valores divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Rio de Janeiro: CPAD.
THIEL, Bob. The Ten Commandments - The Decalogue, Christianity, and The Beast. Grand Avenue, Grover Beach, California: Nazarene Books, 2019.
WADE, Loron. Os Dez Mandamentos: Princípios divinos para melhorar seus relacionamentos. Tradução Eunice Scheffel do Prado. 2ª ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2010.
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Pentateuco: Introdução Geral
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A Bíblia Hebraica e o Antigo Testamento Cristão
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[1] O Código de Hammurabi é outro conjunto bem conhecido de leis e princípios deste mesmo período aproximado. Há algumas semelhanças entre a Lei dos Dez Mandamentos/Mosaico e o Código de Hammurabi, mas as diferenças são ainda mais profundas. Enquanto Hammurabi menciona os deuses da Babilônia, a ênfase está claramente nele como o rei e o legislador (com autoridade divina, é claro). O Código de Hammurabi começa com página após página de quão maravilhoso Hammurabi é e o quanto ele conseguiu. Hammurabi está claramente acima de sua própria lei desde que ele era a personificação da lei. Não é assim com Moisés; a ênfase é clara: Deus falou todas essas palavras, Ele é o próprio Legislador e nenhuma pessoa está acima da lei. O próprio Moisés, assim como todo o povo, deve se submeter às Palavras estabelecidas por Deus.
[2] Curiosamente, eles nunca são chamados de Dez Mandamentos, pois a expressão hebraica, que ocorre três vezes no Primeiro Testamento (Ex 34.28; Dt 4.13; 10;4), literalmente significa "dez palavras". É por isso que Êxodo 20 é frequentemente referido como o Decálogo, deka sendo a palavra grega para "dez" e logos que significam "palavra". Estas são as Dez Palavras que Deus deu aos israelitas no Monte Sinai — as Dez Palavras que Deus quer que todos nós obedeçamos (cf. DeYOUNG, 2020).
[3] João Calvino entendia a função da parte moral da lei mosaica como sendo tríplice: convencer as pessoas de sua injustiça, restringir as pessoas pelo medo do castigo, e educar o povo a respeito da vontade de Deus para eles.
[4] Em seu livro The Abolition of Man, C.S. Lewis explicou como certamente há uma moralidade universal entre os homens. Ele deu exemplos concretos de como todas as culturas no passado foram capazes de concordar com o básico da moralidade porque esses princípios são implantados no coração e na mente da humanidade.
[5] Abraão tinha conhecimento, ainda que em forma oral, dos princípios que deveriam reger sua vida e o seu relacionamento com Deus: “porque Abraão me obedeceu e guardou meus preceitos, meus mandamentos, meus decretos e minhas leis” (Gn 26.5). De maneira que Deus não estava dando a Moisés uma nova lei no Monte Sinai. Ele estava apenas dando uma versão codificada, ou formal, de Sua lei para que pudesse ser usada para governar a nação emergente de Israel. Outra razão pela qual sabemos que estes princípios eram conhecidos, ainda que em forma oral, antes de Moisés e do Monte Sinai é que há diversas referências ao pecado (Gênesis 4:7; 13:13; 18:20; 39:9; 42:22; 50:17; etc.), de maneira que havia normas religiosas e morais preestabelecidas. No livro de Jó que se passa nos dias dos patriarcas israelitas, havia o conhecimento da necessidade de sacrifício, para remissão de pecados (Jó 1.5).
[6] Historicamente a Igreja Cristã colocou os Dez Mandamentos no centro de seu ministério de ensino, especialmente para crianças e novos crentes. Por séculos, a instrução dos catecúmenos esteve fundamentada em três conteúdos: o Credo dos Apóstolos, o Pai Nosso e os Dez Mandamentos. Os primeiros reformadores mantiveram esta ênfase e elaboraram catecismos onde abordavam cada um dos mandamentos. A situação mundana e hedonista do evangelicalismo do século XXI tem sua origem no abandono destas práticas. Temos gerações de jovens que nunca memorizaram um único Mandamento e milhares de novos membros que não tem o mínimo conhecimento do Decálogo. 

domingo, 18 de novembro de 2018

Leitura & Reflexão Bíblica: Êxodo Capítulo 1



Síntese Capítulo 1
A importância e relevância do livro de Êxodo esta em que os alicerces fundamentais da teologia que norteou a vida do povo de Israel estão aqui firmemente estabelecidos: os Dez Mandamentos, o calendário religioso, a Constituição civil que vai legislar todas as esferas da sociedade israelita.
O Desenvolvimento da Redenção no livro de Êxodo
A necessidade de redenção (caps. 1-6)
O Poder do Redentor          (caps. 7-11)
O Método da Redenção           (caps. 12-18)
Os Deveres dos redimidos (caps. 19-24)
As Provisões para os redimidos (caps. 25-40)
(Adaptado de Arthur Pink, Gleanings in Exodus - Chicago: Moody, n.d.1 p. 8).
Mas nesse livro os cristãos encontram também pilares que dão sustentação ao ensino do Evangelho. Para o apóstolo Paulo tudo que está registrado concernente à história israelita é para o nosso ensino (1Co 10.11): a escravidão no Egito ilustra nossa antiga escravidão no pecado; Moisés é semelhante a Jesus Cristo em muitos aspectos (Dt 18.15; Atos 3.22; 7.37); a libertação de Israel e sua passagem pelo Mar Vermelho foi um “batismo para Moisés” e ilustra nosso “batismo em Cristo” (1Co 10. 2; Gl 3.27); até mesmo as falhas de Israel em sua peregrinação pelo deserto foram registradas para que nos servisse de alerta do perigo da desobediência (Hb 4.1); e projeto, construção e utilização do tabernáculo, que ocupada lugar proeminente no texto (Êxodo 25-40), esta intimamente relacionado com a obra de Cristo (Hb 9.9).
A literatura desse livro irradia verdades profundas sobre o caráter de Deus como poucas literaturas bíblicas o fazem: aqui temos o perfeito equilíbrio entre a misericórdia e graça de Deus que é tardio em irar-se e abundante em benignidade e verdade; e sua perfeita justiça e juízo, pois de modo algum compactua com a injustiça e o pecado (Êx 34.6,7). O Decálogo continua sendo ainda hoje a espinha dorsal dos Códigos de leis das sociedades modernas.
Êxodo começa com "Agora", que pode ser traduzido "E", sugerindo que o livro não foi originalmente independente de Gênesis, mas constituiu uma parte dele. Isto é verdade para todos os primeiros cinco livros da Bíblia, que originalmente eram um volume ininterrupto e conhecido como "A Lei" ou "A Lei de Moisés" (Lc 16.31; 24.44).
O livro de Gênesis conclui com a subida de Jacó e seus filhos  para morar no Egito e eles foram recebidos com honras de Estado visto a posição elevada que José havia sido elevado no governo egípcio. Entre o final de Gênesis e o primeiro capítulo de Êxodo temos aproximadamente 200 anos que Jacó havia se estabelecido com seus descendentes (os 430 anos mencionados são desde os dias de Abraão), nesse período a situação dos israelitas mudou radicalmente. A nova dinastia egípcia  “não conhecia José”, “Conhecer” no hebraico geralmente tem um tom harmônico de relacionamento, de maneira que a relação de amizade e serviço estabelecida entre José e a dinastia anterior havia sido esquecida.
No discurso do rei (vv. 9 e 10) o escritor enfatiza a ironia do Faraó que exagera propositalmente o número de israelitas e a expressão "usemos de astucia [sabedoria] para lidar com eles”, na prática foi opressão e extermínio. Essa atitude hostil tem duas razões: uma de ordem política, os inimigos do Egito ao nordeste da fronteira estavam se armando para a guerra e os israelitas poderiam se unir a eles – os israelitas esta na fronteira do Egito com Canaã; e outra de ordem econômica, pois as terras (Goshen) e gado israelita lhes dava poder econômico e prosperidade. Mas agora a terra do Egito se tornou para os israelitas uma casa de servidão (1.8-14).
O objetivo desse primeiro capítulo é vinculá-lo à narrativa anterior do Gênesis, como mencionado acima, e demonstrar que Deus manteve sempre Sua palavra empenhada na Aliança estabelecida com Abraão e renovada com Isaque e Jacó.
O capítulo está inserido dentro de uma perícope maior (Ex 1.1-15.21) onde temos o desenvolvimento da narrativa em três temáticas: a opressão (1.1-7.7), mediação (7.8-13.16) e libertação dos israelitas (13.17-15.21). A leitura revela uma perfeita unidade literária em que cada uma das partes está sincronicamente entrelaçada com a próxima em um ritmo crescente culminando com o clímax da libertação dos israelitas.
Os personagens protagonistas vão entrando em cena: Israel (c.1), Moisés (c. 2) e Yahweh (cc. 3-4) e os principais antagonistas: Faraó e Egito (c.1). As cenas são preenchidas por outros personagens secundários, com funções limitadas, porém significativas: as parteiras (c.1), Miriam, irmã de Moisés, e a filha do faraó (c.2), Aarão (c. 4), etc. Sem dúvida, o personagem chave é Yahweh e a partir do momento em que entra em cena, assume o controle e dá sentido as ações de todos os personagens envolvidos, sejam os protagonistas ou antagonistas.
Os movimentos geográficos da narrativa têm seu inicio no Egito e continua na paisagem desértica de Midiã, culminando no monte Horebe, onde Deus se revela e vocaciona a Moisés. Então retorna para o Egito, lugar de opressão israelita e palco da libertação efetuada por Deus.

Reflexões do Capítulo 1
v  O verso 6 demarca o fim de uma geração (representada na morte de José e seus irmãos) e o verso 7 o inicio de uma nova geração (nascida no Egito). Aqui temos duas coisas importantes: o cumprimento da promessa de que dos patriarcas surgiria um grande povo (nação) e a partir deste ponto eles serão identificados não mais como filhos de Jacó (v. 6), mas como povo de Israel. A mudança é relevante: da história de uma família (Jacó) passasse à história de um povo (faltam ainda território e Constituição – para ser uma nação).
v  Deus os havia conduzido ao Egito para preservá-los, mas o lugar definitivo deles era em Canaã. A nova geração israelita havia se acomodado no conforto e prosperidade do Egito e se esquecido da Aliança, mas agora, diante da opressão crescente sua memória começa a ser reestabelecida. Todas as vezes que a Igreja usufrui tempos de paz e segurança ela se esquece da “Aliança” e se ajusta confortavelmente na sociedade presente; mas quando sobrevêm as perseguições se lembram de que sua pátria não é aqui, mas na eternidade. As aflições em nossas vidas são para nos fazer lembrar que nosso lugar definitivo não é neste mundo, mas no céu.
v  Os israelitas e os egípcios representam aqui toda a humanidade. A inimizade entre eles revela a inimizade entre o povo de Deus e as demais nações que se rebelam contra a vontade de Deus. O texto é um alerta perpetuo de que acomodar-se na falsa segurança do Egito (mundo) ou assentar-se confortavelmente às portas de Sodoma e Gomorra (sociedade depravada) é se colocar em risco eminente de experimentar a opressão, o juízo e a ira de Deus.
v  “Vamos lidar com eles com sabedoria (astucia)”. Jesus alerta seus discípulos declarando que "Os filhos deste mundo são mais sábios em sua geração do que os filhos da luz". Satanás aproxima-se astutamente de Eva e a conduz suavemente à desobediência e ao pecado. O mal sempre vem revestido de uma fina capa de bondade e beneficio, mas o resultado final é a opressão e a morte. Outra vez Jesus alerta: “A amizade com o mundo é inimizade contra Deus”. Mas como essa geração de israelitas também nos sentimos confortáveis no Egito e até sentimos saudades de seus temperos.
v  O infanticídio proposto por Faraó para inibir o crescimento dos israelitas, mas que foi frustrado pelo temor das parteiras das mulheres hebreias em relação a Deus, que haviam sido encarregadas desse ato indescritível, mas que foi efetuado pelo louco Herodes em sua tentativa frustrada de matar o novo “rei dos judeus” (Jesus), quando mandou assassinar os meninos de dois anos para baixo na pequena vila de Belém e continua sendo executado hoje pelos abortistas e seus movimentos espalhados pelo mundo inteiro. Onde não há temor de Deus o mal efetua livremente seu infanticídio.
v  As parteiras receberam ordens diretas do Faraó para que matassem os meninos hebreus, mas elas optaram por não cumprir tais ordens. Normalmente, devemos obedecer àqueles que têm autoridade sobre nós, incluindo o governo, mas às vezes precisamos desobedecer aqueles que têm autoridade sobre nós, quando suas ordens entram em contradição direta com a nossa consciência cristã. Quando os apóstolos foram ordenados a parar de pregar o Evangelho, eles responderam: “Então Pedro e os outros apóstolos responderam e disseram: Devemos obedecer a Deus e não aos homens” (Atos 5.29). Matinho Lutero diante das maiores autoridades religiosas e civis de sua época, tendo sua vida por risco, declarou com convicção: “não posso ir contra a minha consciência e meu entendimento das Escrituras”. O que falta nos dias atuais é crente que esteja disposto a contrariar a maioria e o politicamente correto e se posicionar biblicamente. Se não defendermos o que é certo e piedoso, a sociedade nunca perceberá o erro do que está acontecendo. Alguém disse que tudo o que é necessário para a sociedade se destruir é que homens e mulheres piedosos se calem e não façam nada.
v  Nesse primeiro capítulo temos a manifestação da soberania de Deus. Ele mesmo havia conduzido Jacó e seus filhos para o Egito, a fim de preservá-los da absorção da cultura e religião canaanita através dos casamentos mistos. Ele mesmo os preservou e abençoou no Egito de maneira que se multiplicaram e se tornaram um grande povo. Mesmo diante da perseguição e opressão de Faraó os israelitas continuavam a crescerem e se fortalecerem, pois Deus os guardava. Assim ocorre conosco, pois o Egito é uma figura do mundo e Faraó uma figura de Satanás, de maneira que vivemos em um mundo hostil a tudo e qualquer pessoa que ouse servir a Deus – “no mundo tereis aflições” - e permanentemente Satanás faz uso de todos os meios “legais” para nos destruir – mas quem nos guarda e preserva é Deus. Não precisamos nos apavorar quando as circunstâncias mudam para pior, quando um “novo” Faraó se levanta, pois todas as coisas cooperam para o nosso bem. Foi assim com José e será assim com os israelitas e também conosco. A mensagem de Êxodo 1 é clara: os propósitos de Deus para o seu povo não serão frustrados.
v  Nenhuma palavra de desprezo pela grandeza do Egito é encontrada nos registros bíblicos (diferentemente da Babilônia). O Egito tipifica esse mundo e seu sistema político-econômico-social que quando adequadamente usufruído torna-se uma bênção, mas quando mal utilizado torna-se uma maldição. Deus mesmo tornou o Egito o celeiro do mundo através de José e Deus mesmo trouxe toda a família de Jacó para ali morar, se multiplicar e prosperar. Aqui os israelitas aprenderam muitas coisas que lhes foram uteis quando ocuparam a terra de Canaã; aqui Moisés foi preparado em toda ciência e conhecimento humano que o capacitou a ser um grande líder. Por outro lado, é preciso tomar cuidado para não transformarmos o Egito (mundo) em nossa Canaã (céu); de nos rendermos às seduções deste mundo maligno, a ponto de perdermos nosso conhecimento de Deus e Sua Aliança; de desperdiçarmos nossa herança dissolutamente a ponto de desejar comer a lavagem dos porcos (como o filho pródigo); de nos tornarmos escravos desse mundo e seu sistema; de construirmos nossas vidas nas areias deste mundo e não na rocha que é Jesus Cristo; de deixarmos nossos nomes gravados nas ruínas deste mundo, mas não nos fundamentos da cidade celestial eterna. Quando nos esquecemos Dele e de Sua Aliança, absorvidos por este mundo, Deus mesmo endurece o coração de Faraó e somos oprimidos e multiplicam-se nossas dores até que nos voltemos a Ele e clamemos por sua graça e misericórdia.
v  Estamos fazendo história mesmo quando não nos apercebemos disso. Aquilo que parece pequeno e insignificante hoje pode vir a se constituir em elos de uma corrente que se revelará em grandes eventos no futuro; a venda de um menino como escravo pelos próprios irmãos se constituiu no grande projeto que transformou o Egito no celeiro do mundo e na preservação de uma família e na fecundação de um numero povo e posteriormente uma nação, através da qual Deus trouxe salvação para o mundo inteiro – através de Jesus Cristo. O que fazemos hoje vai contribuir positiva ou negativamente daqui a dez ou cem anos, portanto, façamos o nosso melhor para que a nossa contribuição seja abençoadora às gerações futuras.
v  Nesse momento histórico nosso país esta experimentando uma mudança de governo. Um “novo” presidente estará tomando posse a partir de primeiro de janeiro. Apesar das grandes expectativas geradas por esta mudança em momento algum devemos colocar nossa confiança e esperança nos governantes e/ou nas circunstâncias, mas unicamente em Deus e seus propósitos eternos. Faraó tem sua própria agenda para os israelitas, mas está em confronto com a agenda de Deus. Faraó vai se utilizar de seu poder para impor sua agenda aos israelitas, mas o poder de Deus é soberano. Faraó já perdeu, mas ainda não sabe disso. Deus fala através da boca do profeta Isaías: “Meu propósito permanecerá, e farei tudo o que me agrada” (46.10). A agenda de Deus para nossa vida prevalecerá, sobre o mundo e sobre Satanás.
Quão grande é o seu Deus?
Existe em toda a história um espetáculo mais surpreendente que o Êxodo? Uma revelação mais augusta e solene de Deus do que no Sinai? Uma peça de arquitetura mais significativa que o tabernáculo israelita? Uma figura humana maior que o homem Moisés? Uma época nacional mais influente do que a fundação da teocracia de Israel? Todos estes são encontrados neste segundo livro das Escrituras.
J Sidlow Baxter

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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[1] Os filhos estão agrupados em relação às suas mães: primeiro os filhos das esposas oficiais (Lía e Raquel) e depois os filhos das servas (Bilá e Zilpá); dentro dos grupos segue a ordem de nascimento (cf. Gn 35.23-26).
[2] Atualmente, a generalidade dos estudiosos egípcios identifica esse faraó com Ramsés II, mas todas as condições da narrativa são cumpridas na pessoa de Amosis I (ou Aahmes), o chefe da 18ª Dinastia.