“Alma” [psyché] nas Epístolas Paulinas
Observe. Descubra. Aprenda. Viva.
Observe
Quando
lemos a Bíblia, frequentemente utilizamos palavras que parecem familiares e
conceitos que fazem parte de nosso cotidiano. Falamos de “alma”, “espírito”,
“mente”, “personalidade”, “identidade”, “consciência” e “interioridade” como se
seus significados fossem universais e permanecessem inalterados ao longo da
história.
Mas
será que eram compreendidos da mesma maneira pelos autores bíblicos?
Essa
pergunta nos conduz a um dos desafios mais importantes da interpretação das
Escrituras: o anacronismo interpretativo.
Chamamos
de anacronismo a atribuição a uma época, pessoa ou texto de conceitos, ideias
ou categorias que pertencem a outro período histórico. Na interpretação
bíblica, isso acontece quando transportamos para os textos antigos conceitos
desenvolvidos posteriormente e passamos a ler os autores bíblicos como se eles
pensassem exatamente como nós.
O
problema é sutil. Muitas vezes, utilizamos uma palavra bíblica conhecida e
imaginamos que ela possui o mesmo significado que atribuímos a ela hoje.
Entretanto, uma palavra pode atravessar séculos e conservar sua forma, mas
mudar de significado, ampliar seu campo semântico ou assumir novas conotações.
Por
isso, uma das primeiras tarefas da exegese é perguntar:
O que essa palavra significava no mundo do autor bíblico?
Antes
de perguntar o que o texto significa para nós, precisamos procurar compreender
o que ele significava para seus primeiros leitores.
Descubra
O
termo “alma” é um excelente exemplo.
No
Novo Testamento, a palavra grega geralmente traduzida por “alma”
é psyché. Nas epístolas paulinas, ela aparece 13 vezes, enquanto ocorre
aproximadamente 101 vezes em todo o Novo Testamento. O adjetivo psychikos,
derivado do mesmo campo semântico, aparece quatro vezes.
À
primeira vista, poderíamos simplesmente ler psyché como “alma” e
transportar imediatamente para o texto o significado que essa palavra possui em
nossa cultura ou em determinadas tradições filosóficas.
Mas
a exegese exige cautela. Paulo escreve em grego, mas sua teologia
está profundamente vinculada às Escrituras do Antigo Testamento. Por isso, o
campo semântico de psyché deve ser considerado também à luz do hebraico nephesh,
termo frequentemente traduzido por psyché na Septuaginta [versão grega].
No
Antigo Testamento, nephesh possui um campo semântico amplo. Pode
referir-se à vida, à pessoa, ao indivíduo, ao ser vivente ou à própria
existência concreta.
Gênesis
2.7 é particularmente importante: “E o homem passou a ser alma vivente.”
A ideia bíblica não parece ser a de que Deus criou primeiro um corpo e depois
colocou dentro dele uma “alma” como uma entidade independente. O ser humano,
vivificado pelo sopro de Deus, torna-se um ser vivente.
Essa
perspectiva é importante para compreendermos Paulo. Em Romanos 16.4, por
exemplo, ele afirma que Priscila e Áquila “arriscaram a própria vida”
por ele. Em Filipenses 2.30, Epafrodito colocou sua vida em
risco pela obra de Cristo. Nesses textos, psyché significa
essencialmente vida. Mas em outros contextos, o termo pode
designar a própria pessoa, como em Romanos 2.9 e 13.1. Desta forma
o mesmo termo grego pode significar mais de um significa, de maneira que nem
sempre corresponde à ideia moderna de uma entidade espiritual separada
do corpo. O contexto é que vai determina o sentido (DUNN, James D. G., [2006],
pp. 54–60; BETZ, Hans Dieter, 1979, pp. 240–245).
Aqui encontramos nosso primeiro alerta contra o
anacronismo interpretativo:
Não
devemos presumir que uma palavra bíblica significa exatamente aquilo que a
mesma palavra significa em nosso vocabulário contemporâneo.
Aprenda
O
perigo torna-se ainda maior quando introduzimos conceitos modernos de
psicologia, sociologia, antropologia ou filosofia diretamente nos textos
bíblicos.
Não
há problema algum em dialogar com essas áreas do conhecimento. O problema surge
quando suas categorias são projetadas sobre os autores bíblicos como se eles
próprios tivessem pensado dentro dessas mesmas estruturas.
Por
exemplo, podemos utilizar conceitos como “personalidade”, “subconsciente”,
“identidade”, “trauma”, “estrutura social” ou “consciência” para estabelecer
diálogos contemporâneos com a Bíblia. Porém, não devemos afirmar
automaticamente que Paulo estava descrevendo essas mesmas categorias quando
utilizava palavras como psyché, kardía ou pneuma (THISELTON,
Anthony C., 2000, pp. 1227–1235).
Essa
diferença é fundamental. Uma coisa é dizer: “A psicologia moderna pode nos
ajudar a refletir sobre determinada experiência humana descrita na Bíblia.”
Outra, muito diferente, é afirmar: “Paulo estava ensinando psicologia
moderna.”
Na
primeira afirmação procura se estabelecer um diálogo legítimo entre o texto
bíblico e a realidade presente. Todavia, na segunda se corre o risco de cometer
um anacronismo. Este mesmo princípio se aplica à sociologia, à antropologia, à
filosofia e às categorias políticas contemporâneas.
É
legítimo perguntar como os ensinamentos bíblicos dialogam com questões atuais. Mas,
é preciso evitar fazer afirmações categóricas de que os autores bíblicos
estavam utilizando conceitos que surgiram muitos séculos depois em que os
textos foram produzidos. A saldável interpretação segue uma ordem diferente:
Primeiro
compreendemos o texto em seu contexto.
Depois
dialogamos com o nosso contexto.
Quando
nos aproximamos dos texto bíblicos desta forma, evitamos um erro recorrente em
muitas exegeses: transformar a Bíblia em um espelho no qual encontramos apenas
nossas próprias categorias.
O
perigo da leitura anacrônica
O
anacronismo interpretativo não é simplesmente um erro acadêmico. Ele pode
alterar profundamente a mensagem do texto.
Quando
colocamos categorias modernas dentro de textos antigos, acabamos por:
- atribuir
ao autor uma ideia que ele nunca teve;
- transformar
uma palavra bíblica em um conceito que surgiu posteriormente;
- ignorar
o contexto histórico original;
- interpretar
uma afirmação fora do universo cultural em que foi produzida;
- transformar
uma aplicação contemporânea em significado original;
- fazer
o texto confirmar nossas ideias em vez de permitir que ele confronte
nossas ideias.
Esse
último ponto é especialmente importante. Pois, a Bíblia não foi escrita para
simplesmente confirmar nossas categorias culturais. Muitas vezes, ela
faz exatamente o contrário: confronta, corrige e transforma nossas
categorias. Por isso, o intérprete precisa estar disposto a ouvir o
texto antes de tentar utilizá-lo.
Psyché e a
teologia de Paulo
Retornando
ao nosso exemplo, percebemos que Paulo não utiliza psyché para construir
uma teoria filosófica abstrata sobre a alma. Seu vocabulário é determinado pelo
contexto de cada passagem, de maneira que Psyché pode significar vida,
pessoa, indivíduo ou existência. Em determinados contextos, aproxima-se da
dimensão interior da pessoa, envolvendo afetividade, disposição e vontade, como
por exemplo em Filipenses 1.27, em que Paulo exorta uma comunidade que
permaneça firme “com uma só alma”. A expressão comunica unidade,
concordância e propósito comum. Por outro lado, em 1 Tessalonicenses 2.8, Paulo
afirma que estava disposto a compartilhar com os tessalonicenses não apenas o
evangelho de Deus, mas também a própria vida. Em ambos os casos, psyché
não precisa ser entendida como uma “parte” isolada do ser humano. O termo
participa de uma linguagem mais ampla sobre a vida e a existência da pessoa.
Mas
é em 1 Coríntios 15, que a questão assume uma dimensão decisiva. O
apostolo fala do “corpo natural” (sōma psychikón) e do “corpo
espiritual” (sōma pneumatikón). O detalhe importante é que: Paulo
não diz que o corpo é deixado para trás para que o espírito seja libertado, mas
diz: “Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo
espiritual.” O substantivo continua sendo corpo,
o que muda é sua condição. Paulo está se referindo a transformação da
existência humana na ressurreição:
O
primeiro Adão recebeu vida; Cristo, o último Adão, comunica vida. De maneira
que o primeiro pertence à ordem natural e mortal; Cristo inaugura a realidade
da nova criação. Por isso, a esperança cristã não
consiste simplesmente na sobrevivência de uma alma imaterial. A esperança
cristã é a ressurreição. A vida recebida em Adão encontra
sua consumação em Cristo.
Aqui
percebemos como uma leitura anacrônica poderia alterar completamente o
argumento de Paulo. Quando se interpreta 1 Coríntios 15 pela ótica de uma
concepção filosófica de alma separada do corpo, perdermos o centro da
argumentação do apóstolo. Pois, em hipótese alguma, Paulo está ensinando uma
fuga do corpo. Mas, está proclamando a vitória de Cristo sobre a morte.
Viva
O
estudo de psyché nos ensina uma importante lição hermenêutica. Quando
encontramos uma palavra bíblica que parece familiar, devemos resistir à
tentação de preencher seu significado imediatamente com nossas próprias concepções
contemporâneas. Antes, devemos perguntar:
Como
essa palavra era compreendida no contexto bíblico?
Qual
era seu campo semântico?
Como
ela era utilizada nas Escrituras do Antigo Testamento?
Como o
autor bíblico a empregou naquele contexto específico?
Estou
compreendendo o texto ou simplesmente colocando dentro dele uma ideia que já
possuo?
Essas
perguntas não tornam a Bíblia distante ou irrelevante. Pelo contrário. Elas nos
ajudam a ouvi-la com mais fidelidade. Pois uma interpretação
bíblica genuína começa quando aprendemos a respeitar
a distância entre o mundo do texto e o nosso mundo. Somente depois de percorrermos
essa distância haveremos de construir uma ponte segura entre os dois.
Em
síntese podemos resumir assim:
Não devemos
começar com o que queremos que o texto diga.
Devemos
começar com o que o texto realmente diz.
E,
no caso de Paulo, compreender psyché exige reconhecer que sua linguagem
não pode ser reduzida automaticamente às categorias da filosofia posterior, da
psicologia moderna ou de qualquer outra disciplina contemporânea. Pois, antes
de aplicar nossas categorias à Bíblia, precisamos permitir que a
própria Bíblia nos ensine suas categorias.
Pausa
para Reflexão
1.
Quando você lê a palavra “alma” na Bíblia, qual significado você
automaticamente atribui a ela?
2.
Você já percebeu como palavras bíblicas podem ter significados diferentes
daqueles que possuem em nosso vocabulário atual?
3.
Qual é o perigo de interpretar um texto bíblico antigo utilizando conceitos
modernos sem antes verificar seu contexto original?
4.
A Bíblia deve confirmar nossas categorias ou também pode confrontá-las e
corrigi-las?
Continue
Caminhando…
O
estudo de psyché nos mostrou que interpretar a Bíblia exige mais do que
conhecer palavras. É necessário compreender mundos, contextos e categorias.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/
Se este artigo lhe foi útil
contribua para a manutenção deste blog
Para
Aprofundar
James
D. G. Dunn – The Theology of Paul the Apostle, 1998 (Eerdmans;
reimpressão 2006), pp. 54–60 - Dunn observa que Paulo
raramente usa psyché e, quando o faz, é para indicar a vida concreta ou
o indivíduo. Ele enfatiza que Paulo não adota o dualismo grego entre corpo e
alma, mas mantém a visão hebraica integral do ser humano.
Anthony
C. Thiselton – The First Epistle to the Corinthians (NIGTC), 2000
(Eerdmans), pp. 1227–1235 - Thiselton comenta 1Co 15:44–46,
destacando que psychikos refere-se ao ser humano em sua condição
terrena, ligada ao primeiro Adão, em contraste com o ser espiritual em Cristo.
Ele reforça que não se trata de uma “alma imortal” no sentido platônico.
Gordon
D. Fee – Paul’s Letter to the Philippians (NICNT), 1995 (Eerdmans), pp.
270–272 – O autor interpreta Fp 2:30 (Epafrodito arriscando a psyché)
como “vida”, mostrando que o termo não carrega conotação metafísica, mas
prática e existencial.
C.
K. Barrett – A Commentary on the Epistle to the Romans, 1957 (A & C
Black; edição revisada 1991, Hendrickson), pp. 284–286 – Em seu
comentário de Rm 16:4 e Rm 2:9, afirma que psyché aqui significa “vida”
ou “pessoa”, sem sugerir uma parte imaterial distinta do corpo.
Hans
Dieter Betz – Galatians: A Commentary on Paul’s Letter to the Churches in
Galatia (Hermeneia), 1979 (Fortress Press), pp. 240–245 - Ele
observa que Paulo evita o uso filosófico de psyché e prefere termos como
pneuma e kardía para falar da interioridade, preservando a
antropologia bíblica unitária.
Artigos
Relacionados
GUEDES,
Ivan Pereira. Hermenêutica: REFLEXÃO
BÍBLICA: Hermenêutica - Texto & Contexto – Introdução
GUEDES,
Ivan Pereira. Hermenêutica: Reflexão
Bíblica – Hermenêutica: Síntese do Desenvolvimento Histórico.
GUEDES,
Ivan Pereira. Hermenêutica: Reflexão
Bíblica – Hermenêutica: Síntese dos Métodos de Interpretação.
GUEDES,
Ivan Pereira. Hermenêutica: Reflexão
Bíblica – Hermenêutica: As Primeiras Escolas de Interpretação – Antioquia.
