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sábado, 24 de agosto de 2024

Paulo: Alegria e a Tribulações Paradoxo de uma Vida Cristã Autêntica


Poucos cristãos de fato conhecem a vida do apostolo Paulo. O livro de Atos tem uma proposta ampla de registrar a expansão da Igreja e do Evangelho e ainda que Paulo seja o personagem relevante da segunda parte desta narrativa histórica de Lucas, e por esta proposta o historiador não se detém em muitos detalhes peculiares da vida do apostolo dos gentios.

Para construirmos um desenho mais detalhado de Paulo é necessário nos debruçarmos em suas epístolas. Serão nelas que encontraremos momentos em que o apostolo abre seu coração e derrama sua alma, compartilhando suas alegrias e dissabores no exercício de seu ministério apostólico de missionário itinerante.

Certamente será em sua segunda carta aos crentes de Corinto que poderemos ouvi-lo em seus momentos mais agudos. Evidente que ele não entra nos mínimos detalhes de cada situação aflitiva que teve que enfrentar, mas os leitores primários desta correspondência tinham pleno conhecimento de muitos destas particularidades.  

Em sua correspondência anterior (1Coríntios 15.32) Paulo se refere como que “lutando com feras[1] referindo-se às tribulações enfrentadas em seu longo ministério na cidade de Éfeso.[2]

A natureza da crise não é especificada na epístola, mas os coríntios sabiam bem a que ele estava se referindo, pois eles devem se consolar e esperar no sofrimento e libertação de Paulo (2 Coríntios 1.3-7). Ele está ansioso para abrir seu coração para eles sobre o assunto e dizer-lhes sobre a alegria e tribulações que estão inseparável e paradoxalmente unidas na vida de todos que se dispõem à pregação do Evangelho.

Ele registra nesta epístola uma pequena biografia onde menciona parte de sofrimentos e dificuldades suportados por causa do Evangelho (2Co 11.23-29). Em outras correspondências ele fala de Prisca e Áquila que arriscaram seus pescoços por ele (Rm 16.4); alerta Timóteo de seu adversário Alexandre, o latoeiro, que lhe fez muito mal (2Tm 4.14-17); e descreve seu trabalho em Éfeso em termos de “uma porta aberta. . . e muitos adversários” (1Co 16.9).

As batalhas dele chegaram ao auge na experiência compartilhada aqui nesta epístola (1.8-10). Ele chega a contemplar a própria morte e pensou que havia chegado ao final de sua jornada. E quando a libertação veio, ele reconhece a ação milagrosa de Deus atendendo as orações e a compara a uma ressurreição.

Mas em vez desistir de seu ministério, a fraqueza e o sofrimento que experimentou serviram para fazê-lo confiar e depender ainda mais do poder de Deus, que trabalha nele e por meio dele, e para não confiar em si mesmo (2Co 4.7-5.10).

Abaixo uma pequena síntese de suas lutas mencionadas:

·       O motim de Demétrio (At 19.23-41), aqui o sistema judiciário romano ficou ao lado do apostolo e não deram atenção às acusações de seus adversários.

·       Lutando com feras” (1Co 15.32). Aqui ele usa uma imagem muito conhecida, pois as arenas estavam repletas de pessoas sendo destroçadas por feras selvagens para delírio das multidões. Certamente tratava-se de pessoas extremamente violentas ou que usaram de extrema violência contra sua vida. Sua determinação e persistência em proclamar o Evangelho trouxe risco para sua vida e outros que com ele estavam associados. Esta é uma experiência representa um presságio do que estaria por vir e que quase acabou com a vida e a obra de Paulo em Éfeso.

·       Julgamento em Tribunal Estadual. Ele faz referência a numerosas prisões (2Co 11.23). A comunidade judaica em Éfeso se associa aos opositores de Paulo, os mercadores da deusa Diana, para explorar a situação e acusarem o apostolo de ser fomentador de tumultos. Se tivessem obtido êxito, seguido de condenação, poderia ter levado Paulo à sentença de morte.

·       Açoitamento em uma corte judaica. Não conseguindo condenar Paulo em um tribunal romano, os judeus mesmos, reunidos em um tribunal eclesiástico puramente judaico, aplicaram-lhe a sentença (espúria) de trinta e nove chicotadas (2Co 11.23).

·       Doença. É possível que esse perigo fosse uma doença que quase mostrou-se fatal. Certamente ele enfrentou muitas enfermidades, mas está que ele não identifica foi extremamente grave (2Co 12.7-10). É possível associar um estresse e consequente depressão após a amarga humilhação da "dolorosa visita" (2 Coríntios 2.1). Uma dupla terrível capaz de prostrar o mais valente dos cristãos enfermidade/depressão. O profeta Elias experimentou algo semelhante, mas da mesma forma com que Deus sustentou seu profeta do passado, sustentou e renovou as forças e animo do precioso apostolo e missionário.

·       Problemas nas Igrejas (2Co 11.28), as fontes era as mais diversas, desde legalistas, libertinos, falsos irmãos e outros. Paulo era constantemente pressionado em seu ministério apostólico-missionário. Um exemplo clássico é a relação conflitante com a própria Igreja em Corinto, em algum momento aqui o apostolo enfermo e exaurido emocionalmente (foi humilhado, e até sua aparência foi motivo de críticas – sem porte físico, eloquência/oratória fraca, calvo...) quase levando-o ao colapso potencial de seu campo missionário.

·       O ódio dos judeus. Eles nunca o perdoaram por ter abandonado as fileiras do judaísmo. E mais do que isso, suas pregações e testemunho alcançava a menina dos olhos dos judeus da diáspora (viviam fora de Jerusalém) os chamados “prosélitos” (gentios que se submetiam aos rituais judaicos, incluindo a circuncisão) e os “tementes a Deus” (que mesmo adotando o judaísmo não se submetiam à circuncisão – mormente oficiais romanos). Além das mulheres gentias que se refugiavam na religião judaica, para fugirem dos rituais das religiões que as sujeitavam à rituais regados à libertinagem sexual. Todos esses segmentos ao ouvirem a mensagem do Evangelho pregado por Paulo abandonavam o judaísmo e formavam as primeiras comunidades cristãs. Isto fica evidente quando fala à igreja em Éfeso - ele fala de "provações que me sobrevieram por causa das tramas dos judeus" (At 20.19); e quando de sua última visita a Jerusalém (para entregar as ofertas recolhidas), foram “judeus da Ásia” (At 21.27) que incitaram as multidões do templo a linchar Paulo (e por muito pouco não conseguiram). O apostolo foi salvo pelas tropas romanas que o retiraram de suas terríveis mãos de ódio.

    Sua pregação da salvação pela graça confrontava o judaísmo legalista e aguerrido ao cumprimento dos rituais da Lei. O seu desejo de alcançar seus contemporâneos étnicos o motivava a entrar de cidade em cidade primeiramente nas sinagogas e anunciar o Evangelho. Essa atitude transtornava seus adversários que utilizavam dos meios lícitos e ilícitos para mata-lo.

    Ainda mais, os chamados judaizantes de Jerusalém (queriam fazer uma mistura de judaísmo e cristianismo – de Graça e Lei), que discordavam da pregação de Paulo “somente pela fé mediante a graça” saíram de Jerusalém, municiados com cartas de credenciamento, para corrigir o que acreditavam ser as interpretações errôneas de Paulo (Gl 2.2; Co 10-13).

Em outra frente, Paulo teve que lidar com chamados libertinos que desejavam amalgamar o Evangelho da graça com os princípios emanados de um gnosticismo libertino, desvirtuando a genuína liberdade em Cristo.

Todavia, apesar das provações e tribulações, a mensagem proclamada por Paulo prevaleceu e continua prevalecendo até os dias deste século 21. Mas no pico desta crise compartilhada aqui (2Co 1.8), todo projeto da missão gentia estava em jogo, Paulo estava em risco de morte, de maneira que sua peculiar mensagem do Evangelho corria o risco de ser varrido pelas diversas perseguições acima mencionadas.

Mas a graça de Deus sempre foi maior do que todas as ameaças e pressões sofridas por Paulo e sobreviveu à provação para consolidar seu trabalho e a cada provação ele descobria que o Evangelho era eficaz tanto na fraqueza quanto na força.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas

KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento - 2 Coríntios. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2019.

KRUSE, Colin. 2 Coríntios. São Paulo: Edições Vida Nova, 1994. [Série Introdução e Comentário].

MILLOS, Samuel Pérez. 2 Coríntios - Comentario Exegético Al Texto Griego del Nuevo Testamento. Vida Publishers, 2020. [Edição Espanhol].

ROBERTSON, A. T. Épocas na vida de Paulo. Tradução A. Bem Oliveira, 3ª ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1987.

REID, Daniel G., HAWTHORNE, Gerald F., MARTIN, Ralph P. (Orgs.). Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Paulus Editora, 2008.

SANDERS, E. P. Paulo, a Lei e o Povo Judeu. Traduzido do inglês por José Raimundo Vidigal. São Paulo: Paulus, 1990.



[1] Pode ser uma referência tirada das terríveis cenas dos Coliseus romanos, onde prisioneiros e posteriormente milhares de cristãos foram destroçados pelas feras selvagens.

[2] Lucas registra mais particularmente o grande tumulto causado por Demétrio, o ourives (At 19. 23-41).

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Paulo sua vida & teologia

 


            Quando estudamos a vida de Paulo é impossível não se referir à sua teologia e quando falamos da teologia paulina torna-se fundamental conhecer os fatos sobre a vida de Paulo. Isso acontece porque a teologia dele não foi elaborada em uma confortável sala universitária, mas foi forjada na bigorna da vida. Os temas mais celestiais desenvolvido pelo apostolo dos gentios em suas preciosas epístolas estão plenamente conectadas com as realidades cotidianas dele e, de seus leitores. As correspondências paulinas não são exotéricas, místicas ou de auto ajuda, mas teológicas pastorais onde a compreensão dos temas teológicos deve ser compreendida e aplicada em todas as esferas da vida humana.

               Esta conexão direta de sua vida com o desenvolvimento de seu pensamento teológico pode ser percebida no fato de que ele valoriza sua história, não apenas após a conversão no caminho para Damasco, mas até mesmo antes, em relação à sua origem judaica. De maneira que não é possível, como os acadêmicos liberais tentam fazer, separar os extratos autobiográficos de Paulo de sua teologia epistolar.

            Escrevendo aos crentes da Galácia (4.12) ele se coloca como modelo de crente para eles; na primeira carta aos Corintos (9.1) ele declara que foi o instrumento da conversão deles; ao Filipenses (1.12) ele recorda que todas as dificuldades pelas quais passou, desde sua conversão e no transcorrer de seu ministério apostólico itinerante, serviu para promover o Evangelho; assim também escreve aos crentes em Roma (15.18) onde declara que seu ensino era autenticado por tudo quanto Cristo realizara em sua vida. Paulo esperava que esses pequenos extratos de sua trajetória pessoal pudessem de alguma forma contribuir para a autenticação de seu ensino e pregação.

            Desta forma, se para o apóstolo Paulo essas informações pessoais eram relevantes dentro do escopo de seu ministério apostólico, quando estudamos suas correspondências não podemos simplesmente ignora-las ou minimizá-las, pois tais informações contribuirá para uma melhor compreensão do contexto histórico do qual suas cartas e teologia podem melhor serem compreendidas e interpretadas.

            Reforça o argumento suscitado acima o fato de que cada epístola escrita por Paulo está prenha das circunstâncias imediatas, visto que elas são ocasionais, ou seja, elas são produzidas na medida em que fatos vão ocorrendo e ele precisa tratar destas questões o mais rapidamente possível. Elas são endereçadas a comunidades e pessoas especificas e em um momento histórico-temporal especifico.  

Outro aspecto peculiar é que suas correspondências são uma extensão de seu trabalho pastoral. Diante das limitações espaço-temporais Paulo faz de suas correspondências um substituto para sua presença. A linguagem é a mais próxima possível de uma pastoral, sermão ou aula audível. Toda sua teologia esta voltada para as necessidades prementes de seus leitores, fossem comunidade ou pessoais. Seu objetivo primário era de os leitores fossem fortalecidos na fé e na prática de uma vida cristã dinâmica e frutífera.

Por esta razão as cartas de Paulo não podem ser colocadas dentro da moldura da retórica epistolar antiga. Em uma mesma correspondência podemos encontrar diversas características epistolares, pois ele não estava preocupado com a forma, mas sim em verbalizar por meio da escrita o seu pensamento e sentimentos em relação ao contexto e a vida de seus leitores primários. Ainda que ele mantenha em suas cartas um padrão semelhante às correspondências daquela época: identificação de quem escreve; para quem escreve; saudação inicial e saudação final (trato deste aspecto em artigo especifico).

O epistolário de Paulo não textos crus que devem ser estudados somente a através das ferramentas gramaticais exegéticas adequadas, mas para serem lidas, estudadas e pregadas em harmonia com a vivência do apostolo. A primeira epístola saída da pena do apóstolo, que defendo ser a dirigida aos Gálatas, revela um Paulo ainda sob o impacto de sua conversão e zeloso quanto ao conteúdo da mensagem do Evangelho,  o que transparece na forma contundente e veemente trata os desvios doutrinários daqueles crentes da Galácia do Sul, provavelmente ainda como resquícios de seus muitos anos de fariseu extremista.

Mas na medida em que vai amadurecendo na sua caminha cristã Paulo vai aprendendo a dosar sua linguagem e nas epístolas mais maduras, ainda que trate de temas teológicos mais complexos e profundos, seu vocabulário vai se revestindo de um tom cada vez mais pastoral e mesmo quando escreve uma série de cartas aos Corintos, certamente a comunidade mais difícil e problemática das que ele havia estabelecido, ele os corrige com firmeza, mas sem a veemência da carta aos Gálatas. No meio de uma série de correções doutrinários e morais, ele insere um dos hinos mais belos de toda a literatura bíblica, que ele apresenta como sendo o caminho sobremodo excelente – o Amor (1 Coríntios 13). E não podemos deixar de mencionar sua carta mais terna e amorosa dirigida aos Filipenses, que durante todo seu ministério cooperou com ele inclusive financeiramente.

E quando chegamos ao seu canto do cisne (2 Timóteo), podemos ver o quanto Paulo amadureceu como cristão e mesmo antevendo seu martírio escreve uma das correspondências mais sensíveis de todo seu epistolário, dirigida ao seu jovem discípulo, agora não tão jovem mais, plena de expressões paternais e cuidados para com o amigo de ministério, que terá que assumir o pesado fardo de não apenas preservar o bom depósito do Evangelho, mas de transmiti-lo com fidelidade para as novas gerações que o sucederão. Mas a nota, nesta última carta da pena de Paulo, que entendo ser o representativo deste longo processo vivencial, é a menção de sua reconciliação com João Marcos, que fora motivo de sua separação de Barnabé, mas que agora se constitui em companheiro muito útil no desenvolvimento do ministério cristão dele e da igreja. Essa pequena nota revela o quanto Paulo aprendeu e amadureceu como apóstolo dos gentios.

Menosprezar ou minimizar esse processo de amadurecimento pessoal de Paulo, quando se estuda suas correspondências, é empobrecer muito sua mensagem e seus ensinos pastorais teológicos. Suas epístolas não são teses acadêmicas teológicas, elaboradas em escritórios universitários ou áridos seminários, mas correspondências de um apostolo que desde seu primeiro dia de conversão até seu último dia antes do martírio, provavelmente decapitado em Roma, foi aprendendo e reaprendendo a vivenciar na prática cotidiana seus ensinos doutrinários. Em todas suas cartas Paulo trata dos temas pesados e difíceis doutrinários e os mescla com uma práxis desta teologia na vida cristã ordinária.

Assim como tem de ser com todos os genuínos pregadores e professores bíblicos de ontem e de hoje, as correspondências de Paulo, antes de ser apenas para seus leitores, eram dirigidas para si mesmo, pois ele jamais utilizaria o ditado popular: “faça o que ensino, prego e escrevo, mas não faça o que eu faço”.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
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Referências Bibliográficas

BARCLAY, William. El Nuevo Testamento comentado. Buenos Aires (Argentina), Asociación Editorial la Aurora, 1974.

BROWN, Raymond. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004 (Coleção Bíblia e história Série Maior).

COLLINS, R. F. Latters that Paul did not write (Wilmington, Glazier, 1988).

GARDNER, Paul (Ed.). Quem é quem na bíblia sagrada. Tradução Josué Ribeiro. São Paulo: Editora Vida, 1999.

HAWTHORNE, Gerald F. e MARTIN, Ralph P. e REID, Daniel G. (Org.). Dicionário de Paulo e suas cartas. 2ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2008.

LONGENECKER, Bruce W. and STILL, Todd D. Thinking through Paul: an introduction to his life, letters, and theology. Michigan: Zondervan, Grand Rapids, 2014.

 

sexta-feira, 22 de março de 2019

Paulo: Suas Relações Pessoais (Acaio-Bar-Jesus)



            Quando pensamos sobre a figura do apóstolo Paulo somos tentados a imagina-lo como um herói do cristianismo do primeiro século; alguém que solitariamente enfrentou tudo e todos para proclamar o Evangelho em os mais diversos lugares do Império Romano; evidente que sua sucinta biografia registrada em sua segunda epístola dirigida à Igreja de Corinto (11.24-26) apenas reforça essa necessidade que temos de estabelecermos heróis, pois assim fazendo, nos isentamos de realizarmos algo parecido em e com as nossas vidas, pois afinal de contas somos meros mortais e não figuras heroicas como Paulo, Pedro, Abraão, Davi, Daniel.....
            Na verdade o próprio Paulo em diversos momentos distintos de sua vida cristã evidencia que ele tinha plena consciência de suas limitações e plena dependência da graça de Deus; ele mais do que qualquer outro sabia o quanto era indispensável estabelecer uma rede de amigos e companheiros que pudessem dar suporte ao ministério missionário. Ele nunca minimizou a contribuição de quem quer que fosse, dos mais simples aos mais nobres, dos mais ignorantes aos mais letrados, fossem homens ou mulheres, jovens ou velhos. Paulo sempre valorizou mais seus amigos, irmãos e companheiros acima de si mesmo e sabia que o trabalho de cada um deles era tão ou mais apreciado e honrado por Deus. Todo alto conceito que temos da figura de Paulo é fruto de nossa imaginação, pois ele sabia e declara que “dos pecadores eu sou o principal”.
No livro de Atos encontramos Paulo construindo sua rede de companheiros, mas são em suas epistolas que haveremos de encontrar diversas listas de pessoas que eram preciosas, alguns desses nomes somente são conhecidas na literatura bíblica e na História da Igreja porque foram citados por Paulo – o apóstolo sabia que sem essas pessoas muito pouco poderia ter realizado na obra missionária e as comunidades por ele estabelecidas somente permaneceram por que irmãos amados continuaram a obra ali fundada. Mas não apenas nas comunidades por ele iniciada, Paulo escreve valorizando aquelas comunidades estabelecidas por outros amigos, dos quais não teve nenhuma participação direta, como por exemplo, a epístola enviada à comunidade cristã em Colossos, bem como uma de suas cartas mais maduras que foi dirigida à comunidade cristã que havia sido estabelecida na cidade de Roma, a grande capital do Império e ao qual Paulo expressa seu desejo acalentado de poder visita-los e poder compartilhar mutuamente suas experiências e aprendizado da mensagem cristã, além do que lhes solicita apoio para que a partir daquela comunidade cristã romana ele pudesse partir para os campos além mar em direção à Espanha. Não há provas documentais que ele tenha feito esta viagem missionária, mas estudiosos conceituados defendem que Paulo chegou ao menos anunciar por pouco tempo sua mensagem evangélica na Espanha e adjacências.
A proposta nesta série de postagens é listarmos essa rede de companheiros (cerca de cem indivíduos) estabelecida por Paulo ao longo de seus mais de vinte e cinco anos de ministério missionário itinerante. Em algum momento serão citadas algumas pessoas que trouxeram dificuldades e transtornos ao apóstolo e seu trabalho, pois de alguma forma conviveram com ele. Será uma lista concisa em suas informações sobre essas pessoas, mas posteriormente haveremos de destacar em verbetes específicos aquelas pessoas que foram mais próximas e conviveram por mais tempo com ele, como Barnabé, Silas, Timóteo, Tito e muitos outros. Como a lista é longa haveremos de elabora-la em partes e utilizaremos na medida do possível uma ordem alfabética[1].

A
Acaico [Ἀχαϊκός] (1 Coríntios 16.17) fazia parte da comunidade cristã em Corinto, cujo nome parece indicar seu local de origem (Acaia) e seu nome não é mencionado em nenhum outro lugar da literatura neotestamentária. Ele, junto com Estéfanas e Fortunato, fizeram a longa viagem até Éfeso onde Paulo estava aprisionado (54 a 57 dC). O apóstolo estava preocupado com a comunidade de Corinto depois de receber noticias inquietantes por parte da família de Cloe, mas a vinda desta pequena comitiva o tranquilizou e muitos comentaristas bíblicos defendem que eles foram os portadores de uma carta (desconhecida por nós) mencionada em 1 Coríntios 7.1 O documento continha uma serie de perguntas que estava gerando dúvidas e perturbando o ambiente da comunidade, de maneira que Paulo pudesse responder e assim orientar aqueles irmãos ainda neófitos na fé cristã (1Coríntios 7.1). Uma anotação no final de 1 Coríntios, encontrada em muitas traduções da Bíblia,  afirma que Acaico e seus companheiros de viagem, bem como Timóteo, anotaram as respostas de Paulo e outros ensinamentos que compuseram a primeira epistola (cf. 1Coríntios 1.1-2). Com certeza Acaico e seus dois amigos foram os portadores do documento paulino à igreja de Corinto. A visita deles alegrou e revigorou o espírito de Paulo. A hipótese de que Acaico fosse um escravo convertido, seja de Estéfanas ou de Cloe não se ajusta ao contexto desta pequena delegação oficialmente enviada e também à recomendação de Paulo para que a igreja de Corinto os reconheça como autoridades eclesiásticas e trata-los com deferência (compare 1 Tessalonicenses 5.12).
Ágabo [Onγαβος] (Atos 11.28 e 21.10). Figura muito peculiar, pois é um dos raros profetas registrado nas páginas do Segundo Testamento. Esteve com Paulo em duas ocasiões. Há fortes indicações de que fosse natural da Judéia e mais especificamente de Jerusalém (portanto, um judeu convertido). No texto (At 11.28) ele esta acompanhando outros videntes que vieram de Jerusalém e se destaca por prever uma grande fome que estava por recair sobre todo o “mundo” leia-se o Império Romano. A narrativa lucana afirma que ocorreu nos dias do imperador Claúdio (41-54 dC), mais provavelmente no ano 46 dC, conforme registrada pelo historiador judeu Josefo como especialmente severa na Judéia e corroborada pelos historiadores romanos (Tácito (Anais xii.43) e Suetônio (Cláudio 18). Foi tão severa está fome que se pensava tratar-se do juízo divino. Diante das palavras de Ágabo imediatamente os cristãos de Antioquia levantaram uma oferta generosa e a enviaram através de Paulo e Barnabé para suprir as necessidades dos cristãos da Judéia. O segundo encontro de Ágabo com Paulo (At 21.10) agora em Cesaréia, foi na casa do diácono Felipe o evangelista. Uma vez mais indica-se eu ele veio da Judeia e enquanto se hospeda com eles prediz que o apóstolo será preso em Jerusalém pelas mãos dos gentios, o que de fato aconteceu, assim como ocorrerá antes com a grande fome, comprovando que Ágabo era de fato um profeta com autenticação do Espírito Santo. Ele faz sua predição no estilo dos profetas do Primeiro Testamento (Is 20.1-3; Jr 13.1-7 e Ez 4.1-6 e ainda 1 Reis 22.11), pegando o cinto de Paulo e amarrando seus próprios pés e mãos. Os amigos suplicam para que Paulo não se dirija à Jerusalém, mas as palavras de Ágabo eram apenas para preparar Paulo e não para desviá-lo desta rota. Em Jerusalém o apóstolo é acusado pelas autoridades judaicas, então ele faz uso de sua cidadania romana e apela para ser julgado por um tribunal romano. Assim, Paulo chega a Roma, não como imaginara e escrevera aos Romanos, mas como ele mesmo fala, um prisioneiro por causa de Cristo.
Alexandre (Atos 19.33; 1 Timóteo 1.19,20; 2 Timóteo 4.14,15). Com certeza esse não foi um dos amigos do apóstolo, ao contrário, tudo corrobora para identifica-lo como um daqueles que tenazmente se opôs à Paulo e sua pregação. Era judeu e morava na cidade de Éfeso, onde Paulo havia estabelecido sua base missionária para alcançar toda aquela região. A pregação de Paulo encontrara acolhida na vida de muitas pessoas que abandonam a idolatria centrada na deusa Diana e com isso causando prejuízo financeiro à todo comercio derivado do templo a ela dedicado. Uma turba arrasta Paulo e outros dois Gaio e Aristarco diante do tribunal e exigem que eles sejam presos e mortos. Paulo tentar esclarecer, mas a multidão começa a gritar o nome de Diana dos Efésios. Nesse momento surge a figura de Alexandre, impelido pelos judeus que também faziam parte da multidão, cujo o objetivo é desassociar a figura e a mensagem de Paulo da dos judeus que ali residiam, de maneira que a ira do populacho não se voltasse contra eles também. Seu objetivo era defender os judeus e reforçar a ideia de que todo aquele alvoroço deveria recair somente sobre Paulo e seus companheiros de pregação cristã. Mas a população logo o identifica como judeu e também se recusam a ouvi-lo, uma vez que os judeus também eram contra a idolatria representada por Diana e seu templo. Nas duas cartas a Timóteo (1Tm 1.19,20 e 2Tm 4.14,15), sendo a segundo o último documento paulino de que temos conhecimento, o velho apostolo refere-se a um Alexandre adjetivado de Latoeiro (trabalhava com latão ou outros metais), cujo os comentaristas associam com o Alexandre de Éfeso, ainda que não haja consenso geral. Sua profissão leva a pensar que sobrevivia da fabricação de suvenires relacionada às centenas de templos espalhados pelo Império se relacionando desta forma ao episódio em Éfeso e lembrando ainda que assim como em Éfeso a cidade Roma abrigava uma imensa colônia judaica e que igualmente se esforçam por se desvencilhar de qualquer ligação com o movimento cristão. Se o identificarmos com o Alexandre de Atos (19.33,34), temos aqui um judeu, daqueles amargurados e inimigo declarado do Apóstolo dos Gentios, que o perseguiam a cada passo, e não improvável, no final, em sua morte. Seu objetivo era demonstrar aos magistrados romanos que Paulo como líder cristão se constituía em uma pessoa perigosa, visto que, desde o grande incêndio da cidade de Roma, a religião cristã perdera seu status de “religio licita”.   Paulo alerta o jovem pastor Timóteo que tomasse muito cuidado e evitasse qualquer contato com essa pessoa perniciosa (2 Tm 4.15). E por ser uma pessoa tão maliciosa e problemática, bem como um blasfemador e um herege contumaz, Paulo o entrega a Satanás.
Amplíato (Romanos 16.8). É um nome romano comum, sendo, uma contração de Ampliatus (cf. Vulgata Latina, assim como a cópia alexandrina, e a versão etíope), que é a leitura dos melhores textos e em vários casos encontrados em conexão com a família imperial. Esse nome foi encontrado em inscrições de dois túmulos no cemitério de Domitila, em Roma, sendo uma delas datada do primeiro século cristão. A expressão acrescida “meu dileto amigo no Senhor ou meu amado no Senhor” serve para demostrar que o apreço do apóstolo não era decorrente de qualquer posse ou status social que Amplíato pudesse gozar, mas uma expressão do amor emanado da graça de Cristo, que os unia. Um "irmão" como a versão etíope o identifica e que foi honrado com os dons e graças do Espírito, e se tornara útil na propagação do Evangelho de Cristo Jesus. Apesar de se ele esta em Roma é possível que tenha conhecido Paulo em período anterior, visto que o apóstolo até então nunca havia estado na Capital romana. Provavelmente em uma das viagens missionárias de Paulo pela Ásia Menor fora evangelizado e passou a integrar a rede de cooperadores do apóstolo, uma vez que está associado aos demais nomes deste grupo de apoio aqui mencionados.
Ananias (Atos 9.10-17; 22.12). A forma como Deus realiza seus propósitos surpreende a cada página das Escrituras. Ananias não era diácono e nem apóstolo, mas um judeu convertido que morava na cidade de Damasco. Mas foi ele o primeiro a ter contato com Saulo de Tarso (Paulo) logo após sua conversão na estrada de Damasco. Aquele que deveria ser perseguido e preso é agora o instrumento para curar a cegueira de Saulo e batizá-lo no Espírito Santo e posteriormente com água dando-lhe entrada oficial no rol de membros da Igreja de Cristo. Somente mais tarde Saulo/Paulo teria contato com os apóstolos em Jerusalém. Esse Ananias ficou marcado na história de vida de Paulo e todas as vezes que relembrava sua conversão (cf. 22.12) falava com carinho e consideração especial da participação deste “homem piedoso” e que tinha “bom testemunho” na comunidade e na sociedade; foi esse homem simples que o Espírito Santo usou para comunicar a Saulo/Paulo suas primeiras instruções cristãs e comunicar-lhe qual seria seu ministério missionário e o preço alto que teria que pagar – de perseguidor implacável a perseguido implacavelmente. Na História da Igreja Cristã os Ananias precedem o(s) Paulo(s), para que a glória seja sempre de Deus – os menores no Reino são os maiores e os maiores no Reino são os menores.
Ananias (o sumo sacerdote - Atos 23.2, 24.1). Os nomes podem ser os mesmos, mas o caráter de cada um deles é totalmente diferente. Esse Ananias serviu como Sumo Sacerdote do templo de 46 a 58 d.C., portanto não é o mesmo das narrativas evangélicas (Lc 3.2; Jo 18.13) e do inicio de Atos (4.7) e Paulo quando preso em Jerusalém (conforme havia predito Ágabo referido acima) foi conduzido a ele como autoridade máxima do judaísmo, visto que Paulo estava sendo acusado de fomentar uma revolta no Templo. Estes fatos ocorrem logo após a terceira viagem missionária do apóstolo quando ele vai levar a oferta recolhida junto as igrejas gentílicas em favor dos cristãos da Judeia. Esse Ananias era um homem de mau caráter e o historiador judeu Josefo o descreve como “um homem ousado de temperamento e extremamente insolente”. Sua fama era de ser ganancioso e violento, não tendo qualquer pudor de utilizar a força letal contra seus opositores. Explorava os sacerdotes mais simples extorquindo-lhes seus dízimos (um miliciano sacerdotal). Quando Paulo em sua defesa declara ter sua “consciência limpa como cristão” o sumo sacerdote ficou tão enfurecido e ordenou que alguém próximo ao apóstolo lhe batesse no rosto! O bater no rosto era um ato sumamente ofensivo para um judeu e a resposta de Paulo é contundente declarando que Deus haveria revidar e que Ananias era uma parede branqueada (mesma expressão de túmulo caiado) ilustração de hipocrisia (cf. Ez 13.10s; Is 30.13; Mt 23.27; Lc 11.44) - hipócritas são forçados a se trair pela violência. Esse mesmo Ananias mais tarde viajaria para Cesaréia, acompanhado de uma comitiva do Sinédrio, para pessoalmente testemunhar contra Paulo diante do governador romano Félix, pois temiam que Paulo pudesse ser liberado pelo governador romano. De acordo com o livro Guerra dos Judeus (Livro 2, Capítulo 17, Seção 9), Ananias foi arrancado de um esgoto onde se escondia e foi assassinado por zelotes Sicários, que odiavam os romanos e mais ainda os que eram seus instrumentos de opressão, pouco tempo depois de 66 d.C., quando a revolta judaica contra Roma começou.

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas
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KUMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982.



[1] Um quadro precioso que nos permite ver essa rede de colaboradores de Paulo pode ser encontrada no excelente trabalho organizado por Hawthorne em Paulo e Suas Cartas (2008, p. 233).

sábado, 29 de setembro de 2018

Paulo e Sua Estratégia Missionária



Introdução
Paulo, chamado por Deus para ser o apóstolo aos gentios ou povos não judeus, é o que chamaríamos de “ponto de referência por excelência” da atividade missionária registrada nas páginas do Segundo Testamento.
Sabemos que ele foi uma pessoa de atividade intensa e sempre motivada, tanto antes como depois de sua conversão a caminho de Damasco (Atos 9). Suas atividades missionárias contribuíram de forma inigualável para a expansão da Igreja para além das fronteiras limitadas do judaísmo em prol do mundo gentílico. Deste modo, na história da Igreja, ele tornou-se um modelo preeminente de missionário cristão.
Uma questão surge: “Paulo elaborou uma estratégia missionária?” A dificuldade em respondermos esta questão é o fato de que vivemos em um tempo antropocêntrico. Pensamos que nada pode ser realizado, até mesmo na obra de Deus, sem ter os comitês, oficinas e conferências. Se olharmos para as atividades missionárias de Paulo como algo deliberadamente formulado e devidamente executado em todos os seus mínimos detalhes sociológicos, antropológicos e logísticos, então somos obrigados a concluir que Paulo não estabeleceu estratégia alguma.
Mas se por outro lado, entendermos estratégia como um meio flexível de procedimentos, desenvolvidos sob a orientação soberana do Espírito Santo, então podemos afirmar com toda certeza de que Paulo tinha uma estratégia missionária. E quando examinamos com acuidade os relatos nos deixado por Lucas sobre as viagens missionárias efetuadas pelo apóstolo dos gentios, podemos perceber vários aspectos desta estratégia.
Concentrou Esforços em Quatro Províncias: Quando examinamos Romanos (15.18,19) podemos notar dois elementos que resumem o trabalho missionário de Paulo. Primeiro, ele direcionou seu esforço particularmente ao mundo não judaico “para conduzir os gentios ao conhecimento” (v 18). Segundo, ele limitou seu trabalho principalmente à área geográfica do mundo Romano onde outros ainda não havia atuado. Ele mesmo declara que “desde Jerusalém e circunvizinhanças até ao Ilírico, tenho divulgado o evangelho de Cristo” (v 19). Sua missão se concentra nas quatro províncias mais populosas e prospera – Galácia, Ásia, Macedônia e Acaia. E tanto Paulo quanto Lucas dá mais ênfase às províncias em vez das cidades (Atos 9.31; 15.23; 16.6,9; 1Cor 9.2). 
Escolha Deliberada por Grandes Cidades como Centros Estratégicos: Paulo optou pelos centros urbanos para realizar seu trabalho missionário.  Em sua óptica Paulo não se via pregando em todos os lugares, o que seria humana impossível, mas estabelecendo Igrejas em lugares estratégicos, de modo que o Evangelho se espalharia pelas cidades e vilarejos ao derredor. As cidades onde estabeleceu comunidades cristãs tinham status na administração Romana, se destacava pela cultura Grega, tinha forte influência Judaica ou tinha importância econômica. Isto não significa que Paulo menosprezou os centros menores ou as regiões rurais. Sua intenção era que uma vez estabelecida uma Comunidade forte, ela pudesse constituir-se em centro luminoso espargindo sua luz ao derredor (Atos 19.10). As próprias comunidades estabelecidas na capital romana, da qual ele não participou em suas formações, tornam-se pontes indispensáveis para as pretensões missionárias de Paulo que desejava deixar o Oriente e começar trabalho no Oeste, mais especificamente na Espanha (Rom 15.23,24).
Iniciava sua Pregação nas Sinagogas: Paulo seguia o princípio de "primeiro ao Judeu" (Rom. 16.1), assim sua estratégia era alcançar as pessoas da Aliança que frequentavam a sinagoga (Atos 13.5,14; 14.1; 17.1 2, 10; 18.4, 19) Havia um costume de se convidar um rabino que estivesse de visita para dar uma palavra de exortação (Atos 13.15), assim Paulo aproveitava essa cortesia e a plateia esclarecida. Nas Sinagogas judaicas sempre poderia ser encontrado três grupos distintos: Judeus, prosélitos e gentios tementes a Deus. Aqui Paulo sentia-se em casa, pois seus ouvintes tinham um conhecimento do Deus verdadeiro, um conhecimento do Primeiro Testamento e uma expectativa da "vinda do Messias”. Somente quando era expulso da sinagoga ele se estabelecia em outro lugar.
Concentrava-se Naqueles Grupos Mais Acessíveis: Paulo tinha como seu maior objetivo e responsabilidade anunciar o Evangelho e contribuir com a expansão do Reino de Deus. Ele acreditava que todo grupo étnico tinha o direito de escutar o Evangelho e ele incansavelmente pregava a eles, mas se determinados ouvintes recusava a mensagem e perseguia o mensageiro, entendia que não haveria razão para continuar a lhes pregar a mensagem. Ele entendia que deveria concentrar seus esforços naqueles grupos que respondiam à sua pregação. Paulo experimenta isto com os Gentios devotos que se constituíram na maioria que respondiam positivamente à sua mensagem evangélica (Atos 13.43; 14.1; 16.14; 17.4; 18.7), e os Judeus que se opuseram à sua mensagem (Atos 13.45,50; 14.2,19; 17.5; 18.12; 21.27; 23.12). Embora ele os colocasse como prioritários (Atos 13.46), e os amasse profundamente (Rm 9.2,3), ele não podia comprometer a expansão do Evangelho. Ele tinha consciência de que seu ministério apostólico requeria fidelidade (1Co 4.2).   
Mantinha Contato com a Igreja Base: Embora Paulo fosse chamado diretamente por Deus para ser um missionário (Atos 13.2; Atos 9.15; Atos 13.47), ele é confirmado (Atos 13.2,3) e enviado por uma igreja local (Atos 13.3 4). Paulo entendia que o missionário deveria ter uma base forte e ao fim de cada viagem ele sempre voltava a Antioquia para prestar seus relatórios (Atos 14.26 28; 18.22, 23). Para ele a conexão entre as orações da igreja e o sucesso das missões era necessidade vital. Paulo gastava tempo significativo nestas visitas de volta, pois sabia da importância disto. Quando ele estava planejando prosseguir até a Espanha para anunciar lá o evangelho, escreveu uma carta e enviou aos crentes da cidade de Roma para pedir-lhes o apoio, ou seja, serem sua nova base (Rom. 15.15 24).   
Estabelecia Igrejas Organizadas: A meta final de Paulo era estabelecer igrejas locais, fortes; congregações que poderiam se desenvolver e dar continuidade a tarefa de pregar o Evangelho (1 Cor. 1.2,7; 1 Tes. 1.1,8). Ele ficava, e não sendo possível deixava um de seus companheiros, o quanto podia e quando líderes locais maduros tinham sido treinados, prosseguia adiante, deixando os líderes locais com a responsabilidade de pastorearem a comunidade. Estas igrejas plantadas se multiplicavam e formavam novas comunidades e assim o Evangelho se expandia mais rapidamente.   
Trabalhava Sempre em Equipe: Paulo jamais teve pretensões de se constituir em uma espécie de herói missionário, assim como seu modelo maior, Jesus Cristo, ele detestava a solidão, a não ser em períodos de oração.  Em todas as suas viagens missionárias teve companheiros: Barnabé e João Marcos na primeira viagem (Atos 12.25; Atos 13.13), e Silas, depois Lucas e Timóteo na segunda (Atos 15.40). Para ele a pregação do Evangelho exigia um esforço conjugado (1Ts 1.1). Paulo sempre se associou ao maior numero de pessoas possíveis, basta observarmos quantos nomes aparece em suas epístolas (2Co 1.19; 8.23; Cl 4.14; Atos 19.22; Cl 4.7,10; Atos 20.4; Fp. 2.20 22,25; Cl 2.7; Atos 18.2,3; Rm 16). Como vimos acima, Paulo deseja se associar aos crentes em Roma para poder alcançar a Espanha (Rm. 1.11,12) ele sabia que sozinho não conseguiria fazer quase nada, mas juntos os resultados seria incalculavelmente maiores.    
Comunicou uma Mensagem Imutável: Paulo sabia que era um mensageiro escolhido para anunciar uma mensagem de Deus que haveria de afetar toda humanidade (2Co 5.19). A mensagem não era produzida por ele mesmo (1Ts 2.13). Ele foi chamado e enviado (1Co 15.14), e a sua própria vida havia sido transformada por esta mensagem que agora pregava com toda a intrepidez e confiança (Atos 9.20,29). A proclamação de Cristo Jesus é o cerne da tarefa missionária (Rm 10.14 15) e Paulo comunicava Cristo Jesus através de seu estilo de vida, trabalho e atividades. Compare a comunicação de Paulo para com grupos diferentes. Quando pregava aos Judeus, ele se utilizava amplamente das Sagradas Escrituras (AT). Ele começava com seus primórdios históricos e rapidamente continuava até chegar à vinda de Cristo, o Messias prometido (Atos 13.16 41; Atos 17.2,3). Aos Gentios, Paulo apelava para a obra da criação (Atos 14.14 18), e lições de objeto circunstanciais utilizadas para efetuar uma melhor compreensão do Evangelho (Atos 17.16 23). Note também o testemunho de Paulo em seu discurso de despedida aos anciões de Éfeso (Atos 20.17 38) como ele foi inflexível na declaração de Cristo como o único Salvador (vs. 20,21,26,27) e como eles deveriam viver o evangelho (vs. 18,19, 24,31,33,34,35).
            Evidente que se poderia escrever um capítulo longo sobre cada um dos pontos acima mencionados, mas o propósito deste artigo é realçar a importância de se ter uma estratégia na realização da propagação do Evangelho, mas ao mesmo tempo, cuidarmos para não cairmos na armadilha institucional de gastar muito mais tempo e recursos no meio do que nos fins. Muitas vezes se pensa demasiadamente nas estratégias e menos na ação soberana do Espírito Santo. Paulo nunca abriu mão de pensar inteligentemente suas ações missionárias, mas jamais deixou de ser orientado e sustentado pelo poder do Espírito Santo.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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 Referências Bibliográficas

BARCLAY, William. El Nuevo Testamento comentado. Buenos Aires (Argentina), Asociación Editorial la Aurora, 1974.
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