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quinta-feira, 1 de maio de 2025

Isaías: Síntese de Sua Mensagem

 

Os Remanescentes Fiéis

Os propósitos de Deus jamais podem ser frustrados pela incredulidade ou rebeldia do ser humano. A história de Adão e Eva, assim como o Dilúvio, são testemunhos dessa verdade. Com a morte de Abel, Deus levanta Sete; e, mesmo diante da destruição da geração pré-diluviana, Ele preserva Noé e sua família, demonstrando Sua soberania e fidelidade ao plano estabelecido.

Diante da eminente destruição de Jerusalém e a extradição de sua população para o cativeiro babilônico, Deus promete através de Isaías que preservará um número expressivo de remanescentes fiéis (1.9). E como testemunho ilustrativo de sua mensagem ele nomeia seu filho (7.3) como Sear-Jasube (שְׁאָר יָשׁוּב - um remanescente voltará). Por causa da incredulidade e desobediência deles o Cativeiro (juízo) virá, mas Yahweh se compromete em trazer de volta para casa um grupo de fiéis (um dia levaria seu remanescente para casa (10:20-21). Esse grupo tinha um profundo relacionamento de fé com o Senhor que os distinguia dos outros israelitas. Muitas pessoas descendiam dos doze filhos de Jacó, mas o restante vivia fiel à aliança que Deus estabeleceu com Jacó e os outros patriarcas.

A soberania de Deus

Um dos temas mais maravilhosos que encontramos nas Escrituras é a Soberania de Deus. Todo cristão deve ser profundamente apaixonado por esse tema, pois ele está no cerne da fé. Aquele que se diz cristão, mas tem dúvidas sobre a soberania divina, precisa urgentemente buscar uma conversão genuína e reconsiderar suas convicções.

Isaías não tem qualquer dúvida de que Deus é Soberano e de somente Ele conduz a História de sua nação e do mundo inteiro. Não apenas Judá, Israel, mas todos os grandes Impérios estão à serviço do Rei da Glória, o Senhor dos senhores. Todos os movimentos no xadrez mundial são movidos pela mão Soberana. Nenhum movimento das nações (sejam quais forem), pequenas, como sua própria nação, ou grandes como o Egito ou ainda os gigantescos conglomerados imperiais mundiais, se movem ao sabor dos seus líderes ou ainda em meras coincidências históricas. Tudo e cada detalhe, decisões, planos, avanços ou retrocessos estão submissos, quer aceitem ou neguem, ao propósito eteno de Yahweh. O nascimento efêmero de um bebê nascendo em uma manjedoura, em uma das mais diminutas e sem expressão vila judaica, acontecendo 800 anos depois dele, se constituirá no ponto convergente de toda a História Humana.

A visão de Isaías de Yahweh assentado em Seu trono glorioso, governando sobre todas as nações, moldou dramaticamente seu ministério. Ele apreendeu desde então que Deus controlava as nações e, portanto, profetizou corajosamente que Ele lidaria com essas nações (capítulos 13-23). Deus tinha o direito de governar sua criação, e ele o fez. Isaías 40-66 desenvolve especialmente a ideia de que Deus provou sua soberania, primeiro enviando seu povo para o exílio e depois libertando-o e trazendo de volta.

Quem dera os evangélicos destes tempos de ceticismo incrédulo, pudessem aperceber ao menos dez por cento da percepção de Isaías sobre a plenitude da Soberania de Deus. Quão diferente seríamos e que impacto profundo este mundo tenebroso sentiria.

O Servo de Yahweh

Este é o grande tema predominante na segunda parte de suas profecias. Não de um pseudo segundo Isaias (como querem os céticos críticos de plantão), mas do mesmo profeta Isaías do século VIII antes de Cristo. Do pico mais alta, da montanha mais alta da profecia veterotestamentária, Isaias contempla e compartilha sua visão profético do Servo de Yahweh – o Messias que será a fonte permanente de consolo e esperança para seu povo judeu e israelita, bem como para todas as nações em todo o Mundo.

Os chamados capítulos do Cânticos de Yahweh e/ou Cânticos Messiânicos (42.1-4;49.1-6; 50.4-9; 52.13-53.12), ele descreve em detalhes minuciosos, pois está vendo antecipadamente, todo o percurso extremamente doloroso do Messias, amalgamado no nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, oitocentos anos depois dele.

Particularmente todos os evangelistas, bem como toda a literatura neotestamentária, beberam destas águas cristalinas e vivificantes que jorram dos escritos proféticos de Isaías. O Calvário jamais foi um acidente (Atos 2.22-24), mas o cumprimento das palavras proféticas de Isaías (Miqueias) e tantos outros profetas.

Para os incautos e céticos de ontem e de hoje, isso não é possível. Então criam para si mesmos uma pluralidade de “Isaías”, espalhando-os pelos séculos, remendando aqui e ali o arranjo profético do Isaías do século oitavo a.C., em um esforço efêmero e ridículo, demonstrando a mesquinhez de suas mentes e corações. Mas para o crente dos dias de Isaías, dos crentes neotestamentários e para os crentes destes séculos modernos e pós-modernos, os Cânticos de Yahweh são melodias para a alma cansada, são balsamo parra as feridas da alma e da mente, que como seu Mestre Sofredor, enfrentam todas os sofrimentos e escárnios deste mundo moribundo que jaz no maligno.

Cada falsa acusação, cada afronta e escárnio, cada chibatada, cada espinho da coroa ficando na cabeça, os passos exaustivos na longa caminhada, carregando a pesada cruz, cada prego perfurando carne e nervos e fixando-os no madeiro, cada grito de agonia...Deus meu Deus meu ... são literalmente nossos. Isaías chora e sente cada uma dessas cenas...oitocentos anos antes delas acontecerem, na vida de nossa amado Redentor Jesus Cristo.

Mas os escritos proféticos de Isaías não é um carro fúnebre. Ele vai contemplar semelhantemente a Vitória Gloriosa do Messias.

Ainda no início de suas profecias Isaias apresenta o Nascimento do Messias: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o governo estará sobre os seus ombros; e o seu nome será: “Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”.

E ainda no verso dois abrindo este capítulo nove o profeta explica: “As pessoas que viviam em tempos de dificuldades e desesperança experimentaram um grande alívio e transformação, e uma luz de esperança surgiu para aqueles que estavam em situações sombrias e desafiadoras” (Paráfrase Isaías 9.2).

Uma observação relevante nestas palavras iniciais do profeta é de que os verbos utilizados por ele estão no pretérito, ou seja, ele escreve como se já tivesse acontecido. Ele contempla os acontecimentos futuros (seja o nascimento ou a morte do Messias) como se já tivessem acontecidos (oitocentos anos antes). É necessário ser crente de verdade, não apenas um admirador de teologia, para acreditar nisso! Os céticos e ateus jamais crerão nisso. Em suas mentes efêmeras e atrofiadas pelo pecado, não há espaço para tal fé. A concepção deles de Deus é diminuta e humanística, como declarou Lutero sobre Erasmo de Roterdã: “Seus pensamentos sobre Deus são muito humanos" [De Servo Arbitrio - A Escravidão da Vontade].

Porque Ele vive...posso crer no Amanhã!

A Santidade de Deus

De todos os temas encontrados na literatura profética de Isaías, certamente o tema da Santidade de Deus é um dos mais proeminentes. A santidade de Deus permeia praticamente todos os capítulos deste longo livro profético. É unanime entre os comentaristas bíblicos de que a teofania contemplada pelo profeta e registrada no capítulo 6 impactou profundamente a vida de Isaias e moldou todo o seu trabalho profético.

A santidade é o fundamento "quintessencial" da natureza de Deus, de maneira que não há nada no Universo semelhante a Ele. O livro de Levítico inteiro trata sobre a Santidade de Deus e de tudo que se relaciona com Ele. Isaías tem muito a dizer sobre o Deus santo de Israel que nos ajuda a ter uma melhor compreensão desta santidade. Na verdade é impossível ler o livro de Isaías e não pensar na santidade de Deus.

Um dos títulos favoritos dele para Deus é “o Santo de Israel”. Permeia toda a narrativa, ao todo 25 vezes, assim distribuídos: 12 nos capítulos 1-39, 12 nos capítulos 40-55, e uma vez nos capítulos finais 56-66 (60.9). E se constitui em um forte argumento da unicidade de autoria e do próprio livro.

O Santo de Israel criou todas as coisas (45.11-12) e continua a sustentar o universo (40.25-26).

Esse Deus santíssimo é o Juiz de todas as nações, incluindo as de Judá e Israel. O padrão de Sua justiça é nada menos do que a Sua santidade. Os opressões serão consumidos pelo fogo de Sua santidade (10.16-19). Todos aqueles que rejeitam Seu chamado ao arrependimento enfrentaram o Seu tribunal santo (30.11-14). Todos os profetas proclamam o arrependimento; João, o batista, inicia seu ministério proclamando o arrependimento dos pecados (Mateus 3.2), em seu primeiro sermão na sinagoga Jesus o tema e apelo é para o arrependimento (Mateus 4.17); o primeiro sermão de Pedro após o Pentecostes é sobre arrependimento (Atos 2.38); Paulo em suas pregações e correspondência proclama o arrependimento (Romanos 2.4) e o livro de Apocalipse, fechando o cânon bíblico trás a exortação ao arrependimento, onde três igrejas são conclamadas a se arrependerem (2.5 – Éfeso; 2.16 - Pérgamo e 3.19 – Laodiceia).  Por que será que os púlpitos deixaram de enfatizar o arrependimento? Quando se minimiza a Santidade de Deus, maximaliza o pecado em todas as suas terríveis manifestações. O único antidoto para o pecado é a Santidade de Deus; a única pregação que pode reverter a depravação moral e espiritual na igreja é a pregação da Santidade de Deus; o único caminho para uma vida cristã genuína e abundante é o da santidade de Deus.

Mesmo quando exilados na longínqua babilônia e acercados por todo o panteão de deuses, os judeus devem se arrependerem e se consolarem, pois o Santo de Israel, Seu Criador, Rei e Redentor, o Santo de Israel, os levaria para casa, criando correntes de água até mesmo no deserto (43.1-3, 14-21). E será através de Ciro, o rei da Pérsia, que Deus cumprira Sua promessa (44.28).

O retorno dos cativos à Jerusalém tornou-se um testemunho vivido do poder e soberania do Santo de Israel para todas as nações (66.19-20).

Mais de oitocentos anos depois de Isaias, o Santo de Israel conclamara os povos de todas as etnias a virem e adora-Lo na beleza de sua Santidade. Como previsto [por Joel 2.28-29], no dia de Pentecostes, homens e mulheres, jovens e velhos, representativos de todas as nações ouviram uma nova mensagem em Jerusalém (Atos 2). Era uma mensagem sobre redenção e salvação; uma mensagem sobre a morte e ressurreição do Messias. O Espírito Santo estava sendo derramado sobre todos os que responderam ao convite ao arrependimento. Deus continuava a criar um povo santo compartilhando Seu Espírito com eles.

Esta visão profética de Isaías um Deus santo julgando o mundo e criando (trazendo à existência, em uma réplica de Gênesis 1 e 2) um povo santo continua em andamento. E finalmente, no dia final, esse povo santo, habitará com o Santo, o Senhor Deus Todo-Poderoso e o Cordeiro, na nova Jerusalém que descerá dos céus, purificada e santificada (Apocalipse 21.9-22).

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

me.ivanguedes@gmail.com

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Referências Bibliográficas

CALVINO, João. Comentário Bíblico João Calvino: Antigo Testamento parte 1 [Gênesis Exôdo Levítico Números Deuteronômio Josué Salmos Isaías]. Tradução Valdenilson Araujo.  Formato: eBook Kindle.

CHANPLIN, Russell P. Isaías: O Livro de Profecias Messiânicas. São Paulo: Hagnos, ano ?

HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Isaías. Tradução Valdemar Kroker Haroldo Janzen Degmar Ribas Júnior. CPAD, Rio de Janeiro, 2010.  [Comentário Bíblico Antigo Testamento Isaías a Malaquias – Edição Completa].

HORTON, Stanley M. Isaías – o profeta messiânico. Tradução de Benjamim de Souza. Rio de Janeiro: CPAD, 2003. [Série Comentário Bíblico].

KEIL, Carl Friedrich & DELITZSCH. Franz. Commentary on Isaiah. https://www.studylight.org/commentaries/kdo/isaiah-42.html. 1854-1889.

RIDDERBOS, J. Isaías: Introdução e Comentário. Tradução de Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 1986. 520 p. (Série Cultura Bíblica).

SICRE, José Luís. Profetismo em Israel – o profeta, os profetas, a mensagem. Tradução: João Luís Baraúna. Petrópolis: Editora Vozes, 2002.

 

segunda-feira, 21 de abril de 2025

ISAÍAS (Profeta Messiânico) - Introdução



A extraordinária composição "O Messias", de Handel, tem nas profecias messiânicas de Isaías uma de suas principais fontes de inspiração.

Chamado por Deus ainda na juventude para “clamar em alta voz e não poupar”, Isaías respondeu voluntariamente: Eis-me aqui. Provavelmente, foi um dos profetas bíblicos com o ministério mais longo, abrangendo o reinado de diversos reis.

Sua mensagem nunca teve o propósito de agradar seus ouvintes, mas sim de cumprir a vontade de Deus. Ao proclamar abertamente a palavra do Santo de Israel para uma “nação pecadora, carregada de iniquidade”, Isaías não se tornou um pregador popular ou querido. Seus temas centrais eram arrependimento, juízo e restauração, e suas mensagens estavam inseridas no contexto histórico dos anúncios proféticos sobre a vinda do Messias, o Senhor da Glória.

Autoria

Na tradição hebraica, há pouca controvérsia sobre a autoria do livro de Isaías, sendo amplamente aceito que o próprio profeta registrou todas as profecias contidas na obra. Isso, contudo, não excluiria a possibilidade de ele ter recorrido a amanuenses ou escribas para auxiliá-lo, sempre sob sua supervisão.

A partir de meados do século XVIII, começaram a surgir, dentro da tradição cristã, discussões e discordâncias sobre quem teria sido, de fato, o autor do livro.

A hipótese mais conhecida entre os estudiosos críticos sugere a existência de três autores distintos, que teriam desenvolvido as profecias em diferentes períodos da história. No entanto, tais teorias permanecem inconclusivas, e mesmo entre acadêmicos liberais, não houve consenso definitivo ao longo de quase dois séculos de debate.

Por outro lado, os estudiosos conservadores apoiam-se na tradição hebraica e assumem coerentemente que o próprio Isaías registrou suas mensagens, possivelmente com o auxílio de amanuenses. Além disso, seus dois filhos também exerceram a função profética, o que reforça a continuidade e autenticidade de sua obra.

Quem Foi o Profeta Isaías

O nome Isaías ou Jesaías (יְשַׁעְיָה - Yᵉshaʻyâh) significa “Yahweh salvou” e está relacionado aos nomes “Josué” e “Jesus” em suas formas hebraicas. Isaías 1.1 afirma que ele era filho de Amóz ( 1.1; 2.1 - não deve ser confundido com o profeta Amós), mas, infelizmente, não há informações adicionais sobre ele além dessa referência. Segundo uma tradição judaica, então extrabíblica, era irmão do rei Amazias; nesse caso, Isaías seria primo do rei Uzias. Corroborando com esta tradição temos o fato de que Isaías desfrutava, de fato, de livre trânsito na casa real, além de ter acesso às pessoas mais influentes do seu tempo. 

Era casado e chama a sua mulher “a profetisa” (8.3); tiveram dois filhos, cujos nomes o pai utilizou para ilustrar suas mensagens proféticas:

Shear-Jashub (שְׁאָר יָשׁוּב - cf. 7.3) — significa “um remanescente voltará”, indicando que, apesar da dureza de coração do povo, Deus preservaria um número de fiéis.

Maher-Shalal-Hash-Baz (מַהֵר שָׁלָל חָשׁ בַּז - cf. 8.3) — significa “rápido é o despojo e veloz é a presa”, um anúncio do julgamento divino sobre os inimigos da nação, que seria iminente e devastador.

Isaías exerceu seu ministério por mais de quarenta anos, aproximadamente entre 740 e 701 a.C.. Logo no início de seu livro, ele menciona os reis que governaram Judá durante seu período profético: Uzias (falecido em 740 a.C.), Jotão (750-731 a.C.), Acaz (735-715 a.C.) e Ezequias (729-686 a.C.).

Naquele tempo, o Império Assírio era uma força dominante e representava uma ameaça constante para Judá. Deus usou essa grande potência como instrumento de disciplina contra os israelitas, que insistiam em confiar em alianças políticas, em vez de permanecerem fiéis a Yahweh.

Isaías serviu como profeta na corte real de Judá, direcionando suas mensagens principalmente ao reino do Sul, mas também trazendo advertências e orientações para Israel (reino do Norte) e outras nações. O livro de Isaías narra diversos encontros do profeta com os reis de Judá, especialmente Acaz e Ezequias. No entanto, mesmo os melhores governantes não acolheram plenamente suas palavras, e, ao final de seu longo ministério, as consequências foram devastadoras: ambos os reinos sucumbiram diante de seus inimigos.

Apesar disso, as mensagens messiânicas de Isaías atravessaram os séculos, oferecendo consolo e esperança aos remanescentes fiéis. Um dos momentos mais marcantes dessa expectativa se manifesta nas palavras do sacerdote Simeão, que, ao segurar o bebê Jesus em seus braços, declarou:

“Porque os meus olhos já viram a tua salvação” (Lucas 2.25-32).

Simeão havia recebido uma revelação do Espírito Santo de que não morreria antes de ver o Messias, e ao finalmente contemplá-Lo, sua alegria foi completa. Assim, Isaías deixou um legado profundo, repleto de profecias que se cumpriram plenamente na vida e obra de Jesus Cristo.

Autoria do Livro

A partir do século XIX, críticos céticos e liberais passaram a tratar o livro de Isaías como uma colcha de retalhos, propondo diversas teorias sobre sua autoria e estrutura. No entanto, essas abordagens frequentemente se mostraram inconsistentes, com argumentos sendo revisados ou até contraditos ao longo do tempo.

Muitas dessas análises pareciam menos focadas na busca pela verdade e mais voltadas à desconstrução do texto bíblico. Em vez de reconhecer sua solidez e inspiração divina, havia uma forte inclinação para contestá-lo, como se o objetivo fosse negar as Escrituras em vez de compreendê-las.

Os críticos racionalistas liberais desenvolveram diversas teorias sobre a autoria do livro de Isaías, sendo a mais conhecida a hipótese do Trino Isaías. Segundo essa teoria, o livro teria sido escrito em três períodos distintos por diferentes autores: Isaías de Jerusalém (capítulos 1-39), um profeta do período do exílio chamado Deutero-Isaías (capítulos 40-55) e um terceiro profeta pós-exílio, conhecido como Terceiro Isaías (capítulos 56-66).

Embora amplamente difundida em círculos acadêmicos desde o século XIX, essa teoria carece de evidências históricas e manuscritas concretas que sustentem a existência desses autores distintos. Não há qualquer comprovação externa ou documental que ateste a separação dessas três divisões em qualquer período específico. Além disso, as análises baseadas em diferenças estilísticas e contextuais frequentemente entram em contradição, levando estudiosos a revisar ou até mesmo abandonar argumentos anteriores, sem alcançar um consenso definitivo.

Enquanto alguns estudiosos insistem em fragmentar o livro de Isaías, desconsiderando sua unidade e coesão interna, a tradição bíblica sempre reconheceu o profeta como seu autor legítimo. A identificação antecipada de Ciro (Isaías 44.28 e 45.1), que governaria o Império Persa mais de 150 a 200 anos depois, longe de ser um argumento contra a autoria única de Isaías, apenas reforça a ideia de que Yahweh conduz os detalhes da História Humana, pois Ele “conhece o fim desde o princípio” (Isaías 46.10).

Como mencionado anteriormente, nunca houve comprovação concreta dessas teorias, tampouco evidências da existência desses supostos autores distintos ou de escritos independentes fora do contexto do livro canônico. O que se tem é o mesmo texto íntegro, preservado nas versões judaicas e cristãs, sem fragmentações externas que sustentem tais hipóteses.

Os estudiosos Reformados do século XVI, reconhecidos por sua profunda capacidade acadêmica e domínio das línguas bíblicas, endossaram sem hesitação o livro de Isaías como parte legítima do cânon hebraico. Mesmo os doutores da Igreja Romana, que possuíam vasta formação teológica, aceitaram Isaías como um dos textos proféticos fundamentais das Escrituras.

Essa concordância entre diferentes tradições cristãs reforça o reconhecimento histórico da autenticidade e autoridade do livro, sem questionamentos quanto à sua integridade e inclusão no cânon hebraico.

Para sustentar a unicidade da autoria de Isaías, observa-se que suas mensagens eram tão extensas que não podiam ser acomodadas em um único rolo de manuscrito devido às limitações físicas de espaço. Dessa forma, seus escritos foram organizados em dois rolos: o primeiro contendo os capítulos 1 a 39 e o segundo, os capítulos 40 a 66. No entanto, essa divisão ocorreu exclusivamente por questões práticas, sem qualquer evidência que indique múltiplos autores, preservando assim a continuidade e a integridade do texto.

Ao contrário das teorias modernas que fragmentam o livro em seções independentes, a organização de Isaías reforça a visão tradicional de sua autoria única, transmitindo uma mensagem profética coesa e ininterrupta.

Os copistas hebreus sempre demonstraram extremo zelo na reprodução dos livros bíblicos, assegurando sua fidelidade ao longo dos séculos. Foi apenas no século XVIII que começaram a surgir teorias propondo uma pluralidade de autores e divisões adicionais, chegando a fragmentar Isaías em três, quatro ou até mesmo em coletâneas de autores distintos, como se vê hoje em algumas abordagens acadêmicas.

Os famosos Manuscritos do Mar Morto trouxeram evidências importantes para reforçar o cânon judaico-cristão. Foram encontrados dois rolos praticamente intactos, preservando a mesma divisão tradicional. Embora o segundo rolo tenha seus capítulos finais bastante corroídos pela umidade ao longo do tempo, não há qualquer indício de subdivisões adicionais ou de autorias distintas.

Os Rolos do Mar Morto foram descobertos em 1947, nas cavernas de Qumran. Segundo os estudiosos, são datados entre o século II a.C. e o século I d.C., o que significa que foram escritos cerca de mil anos antes das cópias massoréticas do texto canônico de Isaías, que serviram de base para as versões modernas da Bíblia Hebraica.

O pesquisador J. Daniel Hays reforça essa perspectiva ao afirmar: “Estudos literários sobre o livro de Isaías nos últimos vinte anos apontaram que não apenas existem numerosos temas literários conectando todo o livro, mas a estrutura literária real do livro defende a unidade” (HAYS, 2010, p. 96).

Contexto Histórico

O século VIII a.C. foi um período marcante para a atuação dos profetas bíblicos, trazendo mensagens impactantes para os reinos de Israel e Judá. Nesse contexto, destacam-se Amós, Oséias, Isaías e Miqueias. Isaías e Miqueias profetizaram em Judá, enquanto Amós, apesar de ser do sul, foi enviado para proclamar suas mensagens no reino do norte, onde Oséias também exerceu seu ministério.

Amós foi pioneiro entre eles, encerrando sua missão antes dos demais. Já Isaías, um dos profetas mais influentes, deixou um legado de escritos extenso e profundo. Essa diferença na quantidade de registros levou à distinção entre Profetas Maiores e Menores—uma categorização baseada exclusivamente no volume de textos preservados, e não na importância das mensagens. Para ilustrar, os escritos de Isaías preencheram dois rolos de pergaminho, enquanto todos os chamados profetas Menores, juntos, ocuparam apenas um.

Mas sem dúvida é Miqueias que tem mais afinidade com o conteúdo das mensagens de Isaías. Muitos entendem que Miqueias atuou mais no interior da nação judaica, enquanto Isaias atuava mais na capital Jerusalém. Mas as ênfases de suas mensagens convergem sem nunca se contradizerem, um importante argumento da unicidade da mensagem bíblica.

·       Justiça e condenação ao pecado: (Isaías 1.17) e (Miquéias 3.1-3).

·       Chamado ao arrependimento: (Isaías 1.11-18) e (Miquéias 6.8).

·       Esperança messiânica: (Isaías 9.6) e (Miquéias 5.2).

A quantidade de escritos preservados indica que Isaías desenvolveu suas mensagens de forma mais aprofundada e abordou um número maior de temas. Além disso, ele iniciou seu ministério profético ainda jovem, enquanto Miqueias recebeu seu chamado em uma fase mais madura, refletindo não apenas períodos distintos de atuação, mas também diferenças na abordagem e no alcance de suas mensagens.

Diante dessa realidade iminente, o reino de Judá tinha dois caminhos a seguir: continuar sua trajetória e enfrentar o mesmo destino destrutivo de seus irmãos do norte, ou aprender com a ruína deles, arrepender-se e mudar sua história, retornando aos caminhos de Yahweh.

Infelizmente, para o pesar do profeta, a nação permaneceria indiferente à sua mensagem, assim como havia feito com outros profetas de seu tempo. Cerca de 136 anos separam a invasão e destruição irreversível de Samaria pelos exércitos assírios e a completa devastação de Jerusalém e seu Templo pelas forças babilônicas.

No início do ministério de Isaías, a Assíria iniciava sua expansão sob a liderança de Tiglath-Pileser III (745-727 a.C.), tornando-se uma ameaça crescente para os reinos menores ao seu redor. A destruição assíria se alastrava rapidamente, trazendo instabilidade e medo.

No entanto, Deus havia prometido, por meio de Seu profeta, proteção contra qualquer inimigo, desde que o povo permanecesse firme na fé. A mensagem de Isaías apresentava dois caminhos: o juízo iminente—exemplificado na queda de seus irmãos do Reino do Norte—ou segurança e proteção, caso confiassem unicamente em Deus, sem recorrer a acordos políticos ou, pior ainda, à adoração de outros deuses.

Infelizmente, os reis e líderes religiosos (sacerdotes) ignoraram essa advertência e falharam gravemente em conduzir a nação pelo caminho da fé. Como resultado, aproximadamente um século depois, Judá foi devastado pelos exércitos babilônicos, culminando na destruição de Jerusalém e de seu Templo.

 

OBS.: como o artigo ficou muito extenso o dividi em duas partes. Na segunda parte faço uma síntese da mensagem deste profeta querido.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas

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DARDER, Francesc Ramis. Isaías 40-66. Bilbao: Editorial Desclée De Brouwer, 2008.

FALCÃO, Silas Alves. Panorama do Velho Testamento – Os livros proféticos. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1965.

GUFFIN, Gilbert. The Gospel in Isaiah [O Evangelho em Isaías]. Nashville: Convention Press, 1968.

HAYS, J. Daniel. The Message of the Prophets: A Survey of the Prophetic and Apocalyptic Books of the Old Testament. Grand Rapids: Zondervan Academic, 2010.

HORTON, Stanley M. Isaías – O profeta messiânico. Tradução de Benjamim de Souza. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.

RIDDERBOS, J. Isaías: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 1986.

SMITH, James E. An Expository Commentary on the Book of Isaiah. Lulu.com, 2019.


quinta-feira, 27 de março de 2025

Páscoa: Cantata Messiânica de Isaías

 

Este artigo é o início de uma série relacionada à Páscoa conforme registrada no livro do profeta Isaías. O corte literário está expresso n título geral desta série: Cantata Messiânica de Isaías.

Este profeta viveu no mínimo setecentos anos antes dos acontecimentos ocorridos no Calvário, mas foi capacitado pelo Espírito Santo a contemplar os acontecimentos relacionados ao Messias em seus mais relevantes detalhes. Em aproximadamente 11 capítulos (42.1 – 53.13) ele descreve tudo que Jesus haverá de fazer (conforme relatos dos evangelistas) de forma maravilhosa e impactante.

O fato de Isaías utilizar o formato musical poético não era incomum, pois grande parte dos textos proféticos bíblicos são igualmente na linguagem poética, pois facilitava a memorização da mensagem em um mundo onde os registros de textos eram raros e caros, bem como transmitia mais intensamente as emoções da mensagem proferida (além do que chamava mais atenção do público). Podemos dizer (em tom humorístico) de que os profetas foram em seus dias os “multimidias” da comunicação. Neste detalhe vemos o cuidado de Deus para que Sua mensagem não ficasse restrita ao ambiente dos poderosos ou ricos, mas pudesse ser propagada e apreendida por todas as pessoas, incluindo crianças, mulheres e os pobres que sempre eram negligenciados. As pessoas ouviam, memorizavam a letra e a música, e cantavam em casa, trabalhando, viajando... Deus ama os detalhes!

Dentro de nossa proposta temos as divisões abaixo, e dentro das possibilidades iremos explorar cada uma dela e apreendermos seu conteúdo e mensagem, como também no transcorrer iremos fazendo os links com as narrativas evangélicas contidas no Segundo Testamento e/ou Novo Testamento.

Quero convidar você a embarcar nessa proposta e juntos usufruirmos desta belíssima e indescritível Cantata Messiânica. 

Apresentação do Servo Escolhido (42.1-4)

A Missão do Servo (49.1-6)

Um Servo Obediente e Firme (50. 4-9)

O Servo Sofredor (52.12-53.13)

A extraordinária obra musical conhecida como “O Messias de Handel”, que popularmente podemos chamar de “A Cantata Messiânica de Handel”, tem muitas de suas composições extraídas dos cânticos Messiânicos do profeta Isaías, conforme abaixo podemos constatar.

O libreto (espécie de roteiro musical) foi elaborado por Charles Jennens, que os buscou nos textos bíblicos encontrados no Antigo e no Novo Testamento.

Em sua primeira parte que trata sobre a vinda do Messias e o seu nascimento (Jesus Cristo), o compositor busca nas passagens do profeta Isaías, como por exemplo "For unto us a child is born" (Porque um menino nos nasceu cf. Isaías 9.6) e "Comfort ye, my people" (Consolai o meu povo cf. Isaías 40.1). Mas também busca em outras fontes bíblicas e na última e apoteótica, grandiosa, sublime e triunfante conclusão ele busca em textos do livro de Apocalipse. Dando à obra uma profundidade e impacto que penetra além da mente e toca o coração de quem a ouve, mesmos aqueles mais céticos e até descrentes da inspiração dos textos bíblicos.

Desta forma esta extraordinária obra musical não é exclusiva de Handel apenas, mas uma obra a quatro mãos, pois Charles Jennens construiu o roteiro literário bíblico, com clara intensão teológica e artística, abordando os temas centrais da obra de Cristo: as profecias, seu sacrifício e sua obra da redenção efetivada através de sua morte e ressurreição e concluindo com sua glorificação e/ou entronização na glória celestial. Um detalhe é de que Jennens entrega o roteiro a Hendel que a transforma nesta impactante ópera em apenas 24 dias.

Mas, em um país onde o povo e destituído de cultura musical, incluindo os evangélicos (que deveriam ouvi-la e entendê-la e divulgá-la) esta obra monumental e tocante, passa despercebida e/ou completamente ignorada.

Ainda que muitos a tenham como uma ópera, ela é classificada como uma obra denominada de Oratória, que tem semelhanças, mas é distinta de uma ópera, pois:

·       Mormente sua temática é religiosa, como O Messias, extraídas de textos bíblicos.

·       É executada sem encenação, ou seja, sem figurinos, cenários ou interpretações teatrais.

·       Por fim, os coros assumem a proeminência, (uma característica comunitária/eclesiástica), em lugar dos solos individuais.

Abaixo um esboço da obra com suas referências bíblicas:

Texto, Carta

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Vamos ouvir o profeta Isaías, a entrada é gratuita, pois a mensagem do Evangelho da Salvação é exclusivamente pela Graça. Jesus Cristo já pagou o preço com Seu precioso sangue. Aleluia!

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas
GUFFIN, Gilbert. The Gospel in Isaiah [O Evangelho em Isaías] (Nashville, TN: Convention Press, 1968).
HORTON, Stanley M. Isaías – o profeta messiânico. Tradução de Benjamim de Souza. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. [Série Comentário Bíblico].
OSWALT, John N. Comentário do Antigo Testamento – Isaias. vol. 02 / tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.
RIDDERBOS, J. Isaías - introdução e comentário. Tradução de Adiel Almeida de Oliveira. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1990.
SMITH, James E. An expository commentary on the book of Isaiah. 2005.