quarta-feira, 15 de julho de 2026

Vocabulário Paulino: Aliança - διαθήκη (diathēkē)

Poster termos paulinos embaralhados em fundo de pergaminho

No contexto bíblico, a aliança traduz o termo grego διαθήκη (diathēkē), equivalente ao hebraico בְּרִית (berît). Enquanto berît no Antigo Testamento designa o pacto estabelecido por Deus com Israel — muitas vezes selado por sinais externos como a circuncisão ou o sacrifício — o termo grego diathēkē assume nuances jurídicas de “testamento” ou “disposição irrevogável”. Paulo se apropria dessa dupla tradição: de um lado, a herança hebraica da promessa e da lei; de outro, a linguagem helenística que reforça a ideia de uma disposição definitiva realizada em Cristo.

Em Paulo, o termo “aliança” não aparece de modo generalizado, mas em momentos decisivos, quando o apóstolo enfrenta a tensão dolorosa entre o pacto estabelecido com Israel e sua ampliação às nações. A adoção, a lei, o culto, os patriarcas e Cristo — dons concedidos por Deus — revelam que a aliança era privilégio de Israel (Romanos 9:4). Contudo, Paulo também afirma que, antes da chegada de Cristo, as nações estavam privadas dessa mesma aliança (Efésios 2:12). Essa tensão não significa a derrota de Israel nem a exclusão dos gentios, mas a revelação de que a graça se estende a todos. Por isso, em Romanos 11:27, citando Isaías 59:20-21, Paulo anuncia que a aliança de graça é tanto para Israel quanto para os gentios, reafirmando a continuidade e universalidade do plano divino.

Essa inclusão, porém, não é uma novidade apenas neotestamentária. O Antigo Testamento já testemunha a abertura da graça a outros povos: Nínive, chamada ao arrependimento pela pregação de Jonas, teve sua destruição postergada (Jonas 3:5-10); Rute, a moabita, foi acolhida e integrada à linhagem messiânica (Rute 1:16; 4:13-22); e Naamã, o sírio, experimentou a cura e a fé no Deus de Israel (2 Reis 5:14-17). Esses exemplos mostram que a aliança, embora historicamente vinculada a Israel, sempre teve um caráter inclusivo, antecipando a plenitude revelada em Cristo.

Na maior parte das vezes, a antítese opõe uma antiga e uma nova aliança, sem nunca colocar em contradição Antigo e Novo Testamento. A dialética poderosa e sutil de Paulo consiste em mostrar que a tensão já existe no seio da própria Escritura. Há duas percepções da aliança: a promessa, por um lado, e a lei, por outro (tomada no sentido negativo de “legalismo”). Esse é o núcleo dramático da Carta aos Gálatas. A aliança de graça, selada em Cristo, participa do impulso inicial: a promessa feita a Abraão, que tem a mesma validade que um testamento, e a lei surgida no êxodo não pode anulá-la (BRUCE, 1983).

Paulo estabelece uma alegoria ousada comparando essas duas formas às duas mulheres de Abraão: a escrava, identificada com a Jerusalém atual, gera filhos para a escravidão da lei; Sara, a mulher livre, identificada com a Jerusalém “do alto”, gera filhos para a liberdade (Gl 4,22-31). Esse contraste reaparece em 2 Cor 3, onde se opõem a nova aliança, do Espírito Santo, e a antiga, da “letra”: aquela inscrita no coração (cf. Jr 31,31-34), esta gravada em pedra. Moisés e Paulo tornam-se figuras emblemáticas: o ministério de Moisés é de juízo e transitório, velado; o do apóstolo é de justificação, definitivo e revelador (HAWTHORNE; MARTIN; REID, 1993).

Em 1 Cor 11,25, Paulo narra a instituição da Ceia e recolhe as palavras de Jesus sobre o cálice, precisando — como também Lucas — que esse sangue é o da nova aliança (Mc e Mt falam apenas de “aliança”; cf. Ex 24,3-8).

A abertura da aliança às nações evidencia que a graça não constitui um privilégio exclusivo de caráter nacionalista ou étnico. Tal universalismo paulino significa, no contexto contemporâneo, um chamado à inclusão de diferentes culturas e povos no horizonte do amor divino. Entretanto, não se trata, de mera aceitação acrítica, mas de uma transformação ética e comportamental exigida pelo Evangelho. Essa inclusão abrange igualmente os judeus, que são convidados a participar mediante o mesmo processo de conversão, despindo-se de qualquer pretensão nacionalista ou apego legalista. Diversos intérpretes, seja por intenção ou ignorância, acabam por distorcer a hermenêutica paulina e bíblica, chegando inclusive a propor uma oposição artificial entre Antigo e Novo Testamento, em detrimento da continuidade teológica que os vincula.

A aliança em Paulo é um convite a viver a fé como liberdade inclusiva e transformadora. Ela não rompe com o ensino veterotestamentário, mas o cumpre em Cristo, abrindo espaço para uma espiritualidade que se traduz em amor, justiça e comunhão. A Igreja, portanto, é chamada a ser acolhedora sem ser permissiva: todos podem entrar, mas ninguém permanece igual, pois a graça exige conversão e santidade.

“Aquele que furtava, não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o necessitado” (Efésios 4:28).

“E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12:2).

 

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

me.ivanguedes@gmail.com

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Referências Bibliográficas

BRUCE, F. F. Paul: Apostle of the Heart Set Free. Grand Rapids: Eerdmans, 1983.

HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. (Ed.). Dictionary of Paul and His Letters. Downers Grove: InterVarsity Press, 1993.

WRIGHT, N. T. Paul for Everyone: Romans Part One. London: SPCK, 2004.

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