quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Hermenêutica – Como melhorar a leitura dos textos bíblicos

 Texto

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

A leitura da Bíblia é uma prática essencial para a vida cristã, mas exige cuidado para que não se torne uma interpretação superficial ou distorcida. Cada livro das Escrituras foi escrito em um contexto histórico e cultural específico, dirigido a comunidades reais que enfrentavam desafios concretos. Reconhecer essa realidade é fundamental para compreender corretamente a mensagem bíblica e aplicá-la de forma fiel e relevante em nossos dias.
A Bíblia continua sendo atual porque transmite princípios universais que atravessam os séculos. No entanto, esses princípios só podem ser aplicados de maneira adequada quando respeitamos o sentido original do texto. Isso significa que, antes de perguntar “o que este versículo significa para mim hoje?”, é necessário perguntar “o que significava para os destinatários originais?”. Essa ordem protege contra interpretações anacrônicas e ajuda a extrair valores que permanecem válidos em qualquer cultura ou época.
Creio que um ilustrativo exemplo deste princípio hermenêutico encontramos na Carta de Paulo aos Filipenses 4:13:
Tudo posso naquele que me fortalece.”
Muitas vezes esse versículo é aplicado de forma genérica, como se significasse que o cristão pode realizar qualquer objetivo pessoal ou projeto com a ajuda de Deus. No entanto, ao respeitar o sentido original, percebemos que Paulo está falando sobre sua capacidade de enfrentar todas as circunstâncias da vida — tanto abundância quanto necessidade — porque Cristo lhe dá força para permanecer fiel.
Aplicação do princípio
Destinatários originais: Paulo escreve aos filipenses para agradecer o apoio recebido e mostrar que sua confiança não depende das condições externas, mas da suficiência de Cristo.
Princípio Universal: A força em Cristo não é para realizar qualquer desejo pessoal, mas para perseverar na fé em meio às adversidades.
Aplicação contemporânea: Trazendo para os nossos dias, essas palavras do apostolo nos ensina que a verdadeira capacitação divina está em enfrentar dificuldades com firmeza espiritual, e não em garantir sucesso material ou pessoal.
Deste modo, ao perguntarmos primeiro “o que significava para os destinatários originais?” evitamos interpretações anacrônicas, fora de época, e garante que os princípios bíblicos universais sejam aplicados de forma fiel.
Além disso, é importante lembrar que muitas passagens bíblicas foram escritas para comunidades inteiras, não apenas para indivíduos. Isso nos desafia a pensar na dimensão coletiva da fé, na responsabilidade mútua e na necessidade de viver os princípios bíblicos em comunhão. Uma ótima ilustração deste princípio encontramos em Hebreus 10:24-25:
“Consideremos uns aos outros para nos incentivarmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas procuremos encorajar-nos mutuamente...”
Aplicação do princípio hermenêutico
Destinatários originais: A carta foi dirigida a uma comunidade cristã que enfrentava perseguições e desânimo. O autor os exorta a permanecerem juntos, fortalecendo uns aos outros na fé.
Princípio Universal: A vida cristã não é vivida isoladamente, mas em comunhão. A fé envolve responsabilidade mútua, encorajamento e prática coletiva.
Aplicação contemporânea: Transportando para os nossos dias, esse texto nos lembra que a espiritualidade não é apenas individual; precisamos da comunidade de fé para crescer, perseverar e viver os princípios bíblicos de forma concreta.
Interpretar a Bíblia com responsabilidade é um exercício que exige humildade e fidelidade contínuo. Ao respeitar o contexto original e buscar princípios universais, conseguimos ouvir a voz de Deus de forma clara e aplicável às nossas realidades contemporâneas. Na obra Asking the Right Questions: A Practical Guide to Understanding and Applying the Bible, o autor Matthew S. Harmon propõe um conjunto de perguntas e respectivas aplicações que tornam a leitura bíblica mais vivida e integrada ao cotidiano. Dessa forma, a leitura não se limita a um exercício meramente informativo, mas transforma-se em uma prática dinâmica e integrada à vida cristã.
A seguir, apresenta-se um quadro que sintetiza essas questões, desenvolvidas em detalhes na obra mencionada, de modo a facilitar sua visualização e aplicação.
Perguntas Básicas para Ler e Aplicar a Bíblia

Para Entender o Texto

Para Aplicar o Texto

1. O que aprendemos sobre Deus?

1. O que Deus quer que eu entenda?

2. O que aprendemos sobre as pessoas [personagens]?

2. O que Deus quer que eu creia?

3. O que aprendemos sobre nos relacionarmos com Deus?

3. O que Deus quer que eu deseje?

4. O que aprendemos sobre nos relacionarmos com os outros?

4. O que Deus quer que eu faça?

 
ATENÇÃO
Ignorar o contexto original das Escrituras e aplicar o texto de forma superficial ou anacrônica é correr o risco de distorcer a mensagem de Deus e transformar a Bíblia em um manual de justificativas pessoais. Quando não respeitamos o que o texto significava para seus primeiros destinatários, abrimos espaço para interpretações equivocadas que podem alimentar ilusões, práticas contrárias ao evangelho e até mesmo usos abusivos da Palavra.
Por isso, se faz necessário que cada leitor da bíblia, seja pastor, líder ou apenas um leigo, se comprometa com uma leitura responsável, que busque princípios universais e aplique-os de maneira fiel à vida cristã e comunitária. Somente assim a Bíblia cumpre seu papel de ser luz para o caminho, voz viva de Deus e guia seguro para a fé em qualquer tempo ou cultura.
 
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
Se este artigo lhe foi útil
contribua para a manutenção deste blog 
Texto

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.
 
 
Referência Bibliográfica (utilizada como base do artigo)
HARMON, Matthew S. Asking the Right Questions: A Practical Guide to Understanding and Applying the Bible. Wheaton: Crossway, 2017.
Referências Bibliográficas (relacionada ao tema)
FEE, Gordon D.; STUART, Douglas. Entendes o que lês? São Paulo: Vida Nova, 2002.
HENDRICKS, Howard G.; HENDRICKS, William D. Viviendo por el Libro. Grand Rapids: Editorial Portavoz, 2007.
OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 2009.
THISELTON, Anthony C. La Nueva Hermenéutica. Salamanca: Editorial Sígueme, 1992.
Artigos Relacionados
Hermenêutica: Glossário
https://reflexaoipg.blogspot.com/2017/10/hermeneutica-glossario.html?spref=tw
Hermenêutica: Síntese dos Métodos de Interpretação
http://reflexaoipg.blogspot.com/2018/09/hermeneutica-sintese-dos-metodos-de.html
Personagens e Tipos Bíblicos: A Classificação dos Personagens nas Narrativas Bíblicas
https://reflexaoipg.blogspot.com/2016/06/personagens-e-tipos-biblicos.html
Hermenêutica: Síntese do Desenvolvimento Histórico
https://reflexaoipg.blogspot.com/2023/09/hermeneutica-sintese-do-desenvolvimento.html?spref=tw
Os Níveis de Leitura
https://reflexaoipg.blogspot.com/2026/01/hermeneutica-os-niveis-de-leitura.html?spref=tw
Macroleitura dos Livros Bíblicos em 90 Minutos ou Menos
https://reflexaoipg.blogspot.com/2022/10/macroleitura-dos-livros-biblicos-em-90.html?spref=tw
Comentários Bíblicos: O que são e qual sua função?
https://reflexaoipg.blogspot.com/2021/06/comentarios-biblicos-o-que-sao-e-qual.html?spref=tw
 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Babel - o Epicentro da Arrogância Humana (Gênesis 11:1-9)

 

Nada ilustra mais nitidamente a arrogante estupidez humana do que a tentativa de construção da chamada Torre de Babel. Suas primícias são todas antideus – irmanados em uma linguagem comum, decidem construir uma torre que “alcance os céus”. Querem construir um nome para si e, assim, confrontar Deus, recusando-se a espalhar-se pela terra.

É muito provável que o salmista tenha esse triste quadro em mente quando compôs o Salmo 2.1-3 (Paráfrase)

Por que as nações se levantam em tumulto,
e os povos gastam energia em planos inúteis?
Os reis da terra se posicionam em desafio,
e os governantes se unem contra o Senhor e contra o seu Ungido, dizendo:
“Vamos romper suas correntes
e nos livrar de suas amarras!”.

Mas Deus destrói seus planos com apenas um gesto – confunde-lhes a língua.

Incapazes de se entender, eles são forçados a abandonar o projeto e a se espalhar pela face da terra, como Deus lhes havia determinado.

Este capítulo fornece uma explicação narrativa para a origem das diversas línguas e nações que existem na Terra. As palavras podem, e são muitas vezes, mal interpretadas e a palavra unanimidade é uma delas. Quantas coisas erradas tem se feito na história humana utilizando-se esta palavra. Devemos discernir com muita prudência e discernimento entre união e conspiração; entre identidade e mera associação para um determinado objetivo. Devemos, em todas essas coisas, colocar a questão moral: Sobre o que é a unanimidade? Essa unanimidade está se movendo na direção da vontade de Deus expressa em Sua Palavra? A unanimidade que afasta você da verdade da Palavra de Deus, não vem do céu, mas do mais profundo do inferno – rejeite-a. Babel é uma unanimidade e, no entanto, é um movimento sistêmico na direção errada.

Análise do Texto

Em Babel, cada termo da narrativa revela a profundidade da arrogância humana diante de Deus:

·        A unidade não é neutra; quando divorciada da obediência, torna-se instrumento de rebelião coletiva. O relato de Babel revela que qualquer unidade sem Deus é perigosa e mortal. Na política, quando governos e nações se unem em ideologias que rejeitam a soberania divina, a unidade se torna instrumento de opressão e idolatria. Na tecnologia, o avanço científico sem referência ao Criador ergue torres modernas de autossuficiência, onde o ser humano acredita poder controlar tudo. Na cultura, movimentos antropocêntricos e ignoram a realidade de Deus e os Seus valores acabam em confusão e vazio. Assim como em Babel, o que parece progresso pode ser arrogância coletiva; somente a unidade teocêntrica torna-se verdadeiramente frutífera.

·        O nome buscado não visa a glória do Criador, mas a autopromoção da criatura. O propósito explícito do projeto de Babel é revelado: “façamos para nós um nome”. O problema não está no desejo de realização, mas na fonte desse propósito. Eles querem construir reputação e segurança à parte de Deus, transformando a glória em um projeto humano autogerado. Vivemos hoje o que pode ser chamado democratização da soberba, na qual a sociedade se envolve na exaltação de si mesma em oposição à glória divina. O texto revela que a busca por um nome próprio é, na verdade, a recusa de viver sob o nome do Senhor. Mas como o próprio texto mostra, toda glória que não nasce do compromisso com o projeto salvífico de Deus está fadado à frustração.  

·        A torre encarna a ambição desmedida de alcançar os céus por meios humanos. É o grito da humanidade desafiando Deus. A expressão de uma mentalidade que busca ultrapassar os limites estabelecidos por Deus. A torre representa o esforço humano de alcançar segurança, permanência e transcendência por meios próprios, sem dependência do Senhor. Como declara o Eclesiastes: não há nada de novo debaixo do sol. Apesar de todos os fracassos acumulados pela humanidade, os seres humanos continuam reelaborando suas torres.

·        A descida de Deus ironiza a pretensão humana e expõe sua real pequenez. O escritor bíblico utiliza a linguagem antropomórfica como recurso literário de ironia teológica. A construção que, aos olhos humanos, parecia grandiosa, aos olhos de Deus é tão diminuta que Ele precisa “descer” para poder enxergá-la (Gn 11:5). A descida divina relativiza imediatamente a pretensão humana de alcançar os céus. Eles não podem chegar aos céus, mas Deus pode e virá confrontar suas ações arrogantes e afrontosas.

O livro de Apocalipse retoma esse tema: é o registro de Cristo glorificado descendo à terra para demolir, de uma vez por todas, as torres da prepotência humana (Ap 19:11-16). Aquilo que começou em Babel encontra seu desfecho na queda da grande Babilônia, representativa do sistema mundial de arrogância contra Deus (Ap 18:2). Mas, assim como em Babel, o que parecia invencível — impérios, sistemas, culturas — é reduzido a pó diante do poder soberano de Cristo Jesus (Ap 11:15).

·        A confusão das línguas manifesta os limites da soberba e a fragilidade dos projetos autônomos. Deus não precisa mobilizar seus milhares angelicais nem destruir a torre iniciada; bastou retirar um elemento essencial — a comunicação — para que um projeto aparentemente invencível entrasse em colapso (Gn 11:7-8). A fragmentação linguística, embora dolorosa, limita o alcance do pecado e suas consequências maléficas, preservando espaço para a futura obra redentora de Deus na história. Essa obra seria realizada por meio de um homem chamado Abrão: “Farei de ti uma grande nação, e abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção... farei a tua descendência como as estrelas dos céus e como a areia que está na praia do mar” (Gn 12:2; 22:17).

·        A dispersão não frustra o propósito divino; ao contrário, cumpre o mandato criacional apesar da resistência humana. A tentativa humana de centralização é superada pela fidelidade divina ao seu desígnio original (Gn 11:8, cf. 1:28; 9:1). O que os construtores temiam — “para que não sejamos espalhados” — torna-se inevitável justamente por causa da desobediência. Mesmo quando o homem resiste ao mandato divino, o Senhor conduz os acontecimentos de modo que sua vontade prevaleça. Em Apocalipse temos Cristo assentado no trono, triunfando sobre toda resistência, derrubando definitivamente os sistemas de arrogância que se levantam contra Deus (Ap 18:2; 19:11-16). A História inteira caminha para o momento em que o Cordeiro reinará soberano, e toda torre de orgulho será destruída diante de Sua glória (Ap 11:15).

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
Se este artigo lhe foi útil
contribua para a manutenção deste blog 

Artigos Relacionados
O Discipulado de Abrão - Seu Chamado (12.1-9)
https://reflexaoipg.blogspot.com/2025/02/o-genuino-discipulado-inicia-se-no.html?spref=tw
Sermão: Seja Você Uma Bênção (Genesis 12.1-2)
https://reflexaoipg.blogspot.com/2025/03/sermao-seja-uma-bencao-genesis-12.html?spref=tw
ABRAÃO EM TRÊS TEMPOS: Islamismo
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/09/abraao-em-tres-tempos-islamismo.html
ABRAÃO EM TRÊS TEMPOS: Judaísmo
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/09/abraao-em-tres-tempos-judaismo.html
ABRAÃO EM TRÊS TEMPOS: Cristianismo
https://reflexaoipg.blogspot.com/2016/09/abraao-em-tres-tempos-cristianismo.html?spref=tw
Síntese Bíblica – Gênesis
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/02/sintese-biblica-genesis.html
Gênesis Capítulo 1 – Verdades Fundamentais
https://reflexaoipg.blogspot.com/2022/02/genesis-capitulo-1-verdades-fundamentais_26.html?spref=tw
PENTATEUCO - Introdução Geral
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/02/pentateuco-introducao-geral.html

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Páscoa: Caminhando com Jesus em Seus Últimos Momentos - (Ceia)

Foto de uma loja

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Estamos iniciando uma Caminhada com Jesus em seus últimos momentos antes da Cruz. Seguiremos o roteiro exposto na gravura acima e utilizaremos, para cada ponto, a seguinte estrutura:
  • Leitura bíblica
  • Comentário
  • Pergunta para reflexão
É importante ressaltar que não se trata de comentários extensos, pois o objetivo desta série é torná-la um roteiro devocional para o tempo da Páscoa, mais precisamente na semana derradeira, criando a sensação de estarmos vivenciando estes momentos com Jesus. Apesar da concisão, manteremos a fidelidade à exposição exegética e expositiva, respeitando as perícopes e, sempre que possível, as interconexões entre os evangelistas e suas respectivas narrativas.
Que o Espírito Santo nos guie na compreensão e aplicação de Sua Palavra em nossas mentes e corações. Amém!
Leitura: Mateus 26:17–20; Marcos 14:16–18 (leia ao menos 2 vezes e em versões diferentes). Os textos apresentados abaixo são paráfrases, ou seja, traduções livres mas sempre fiéis ao sentido dos textos gregos.

Mateus 26:17-20

Marcos 14:16-18

No primeiro dia da festa dos pães sem fermento, os discípulos se aproximaram de Jesus e perguntaram onde Ele desejava que preparassem a refeição da Páscoa. Jesus respondeu que fossem à cidade, procurassem um homem específico e lhe dissessem que o tempo determinado havia chegado, e que Ele celebraria a Páscoa em sua casa com os seus discípulos.

Os discípulos fizeram exatamente como Jesus havia ordenado e prepararam tudo para a refeição pascal.

Quando chegou a noite, Jesus se pôs à mesa com os doze. O momento era solene. A refeição acontecia sob a consciência de que o tempo estava se cumprindo e que os acontecimentos decisivos da redenção estavam prestes a se desenrolar.

 

Os discípulos partiram e foram à cidade. Tudo aconteceu exatamente como Jesus havia dito. Nada saiu do controle. Ali, prepararam a refeição da Páscoa.

Ao cair da tarde, Jesus chegou com os doze. Enquanto estavam à mesa e comiam juntos, Ele falou com firmeza e solenidade:
Eu lhes digo com toda a verdade: um de vocês, alguém que agora come comigo, vai me entregar.”

 

Comentário: Tanto Mateus quanto Marcos situam a narrativa no primeiro dia dos pães sem fermento, ligando explicitamente a última refeição de Jesus à Páscoa judaica. Desta forma, na perspectiva evangélica a morte de Jesus não acontece ao acaso nem apenas por conspiração humana; ela ocorre no contexto do ato redentor por excelência da história de Israel. Ambos os evangelistas querem que o leitor compreenda que a cruz é o cumprimento tipológico do êxodo.
O cordeiro pascal do passado
apenas tipificava ou apontava para o Cordeiro definitivo - Jesus.
Em ambos os relatos, os discípulos encontram tudo como Jesus havia dito. Esses detalhes narrativos não são casuais. Os evangelistas desejam enfatizar que Jesus conhece previamente os eventos e plena consciência do que está e estará por acontecer, inclusive os detalhes. Ainda que seus adversários planejem sua, não são eles que a determina; Ele caminha resoluto em direção à cruz.
  • Em Mateus: “Meu tempo está próximo
  • Em Marcos: o cumprimento exato das instruções
Ambos apontam para a mesma verdade: o tempo da paixão é um tempo determinado por Deus (kairos), não um colapso inesperado da missão de Jesus.
Ambos os evangelistas nos mostram Jesus sentado à mesa com todos os doze discípulos. Não há exclusões, nem separações. Ele partilha o pão com aqueles que o seguiram, aprenderam com Ele e caminharam ao seu lado — inclusive com Iscariotes que iria traí-lo, Pedro que o negaria, Tomé que duvidaria de sua ressurreição e os demais que o deixariam sozinho na hora derradeira.
Mas aqui temos algo precioso e extraordinário - Jesus não espera que seus discípulos estejam perfeitos para se aproximarem dele. Ele nos chama como somos, em processo, ainda débeis e falhos.
Essa mesa nos alerta para o fato de que a fé cristã é um lugar de acolhimento e amizade, entretanto, é também de verdade. Diante de Jesus, o coração humano aparece como ele realmente é. Por isso, a fé não é apenas caminhar com Jesus, mas ser transformar por Ele.
Simultaneamente essa cena traz uma grande esperança para nós. Antes da traição, antes da queda, antes do fracasso, Jesus oferece comunhão. Ele ama antes de sermos fiéis. A graça vem primeiro. Não nos aproximamos de Cristo porque já somos fortes e capazes, mas porque somos totalmente dependentes do seu amor que nos sustenta e nos transforma.
Mateus e Marcos introduzem as palavras de Jesus, anunciando a traição prestes a acontecer, com uma fórmula solene — “em verdade vos digo” — para destacar a gravidade do momento e chamar lhes a atenção. A traição nunca foi um acidente periférico, mas parte central do drama da redenção, revelando que a rejeição a Jesus não vem apenas de opositores externos, mas nasce dentro do próprio círculo discipular. Assim, o foco dos evangelistas não está somente em Judas, mas na fragilidade dos discípulos, em todos os tempos e lugares, quando são confrontados com o custo real de seguir a Cristo de fato e de verdade.
Nem Mateus nem Marcos descrevem longamente o ambiente, a refeição ou as emoções externas. A narrativa é contida, quase sóbria. Este tom literário é proposital para intensifica a densidade teológica. A ênfase não está no drama emocional, mas no significado salvífico do momento. A economia de palavras comunica reverência.
Na leitura de ambos os textos, torna-se claro que Jesus celebra a Páscoa com plena consciência de sua morte iminente, conduzindo os acontecimentos de forma deliberada e obediente ao propósito do Pai.
A cruz, portanto, não é apresentada como uma derrota inesperada, mas como parte do plano soberano de Deus para a redenção.
Nesse contexto, a mesa da comunhão assume um papel revelador: ela manifesta a graça que acolhe e sustenta os discípulos, ao mesmo tempo em que expõe a falibilidade humana no interior da própria comunhão.
Perguntas Para Reflexão
1.     De que maneira reconhecer a cruz como parte do plano soberano de Deus transforma minha forma de enfrentar o sofrimento e a espera?
2.     Ao me aproximar da mesa de Cristo, tenho buscado apenas acolhimento ou também permitido que Ele revele e transforme meu coração?
3.     Diante do custo real de seguir Jesus, onde percebo minha própria fragilidade como discípulo e minha dependência da graça?
 
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
Apoie a continuidade deste blog
 
 Artigos Relacionados
A Crucificação e Morte no Evangelho Segundo João
http://reflexaoipg.blogspot.com/2017/02/a-crucificacao-e-morte-no-evangelho.html?spref=tw
Galeria da Páscoa: A Negação de Pedro
http://reflexaoipg.blogspot.com/2017/03/galeria-da-pascoa-negacao-de-pedro.html?spref=tw
Contagem Regressiva das Últimas Horas Antes da Cruz - Introdução
https://reflexaoipg.blogspot.com/2020/01/pascoa-contagem-regressiva-das-ultimas.html?spref=tw
O Domingo de Ramos e a Frustração Humana
https://reflexaoipg.blogspot.com/2020/01/pascoa-o-domingo-de-ramos-e-frustracao.html?spref=tw
Natal: Entre o Natal e a Páscoa há uma Cruz (Reflexão)
http://reflexaoipg.blogspot.com/2018/10/natal-entre-o-natal-e-pascoa-ha-uma.html
O Getsêmani na Narrativa de Marcos
http://reflexaoipg.blogspot.com/2017/02/pascoa-crista-o-getsemani-na-narrativa.html?spref=tw
Páscoa: O Abandonado que nunca Abandonou (Mc 14.50-52)
http://reflexaoipg.blogspot.com/2019/02/pascoa-o-abandonado-que-nunca-abandonou.html
Pôncio Pilatos: Herói ou Vilão?
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/02/poncio-pilatos.html
Julgamento de Jesus
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/02/pascoa-julgamento-de-jesus.htm
Profetas: Os Cânticos do Servo de Yahweh em Isaías
https://reflexaoipg.blogspot.com/2018/02/profetas-os-canticos-do-servo-de-yahve.html?spref=tw
 

 

Cosmovisão cristã e Sua Relevância

 Logotipo

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Muitas pessoas, inclusive muitos cristãos, não percebem que a Bíblia aborda os principais temas que compõem uma cosmovisão. O cristianismo é a personificação da afirmação de Cristo de que Ele é “o caminho, a verdade e a vida” (João 14.6). Com essa declaração, afirmamos que esta é a maneira como Ele deseja que vejamos a vida e o mundo. Não é fácil pensar e agir como Cristo nos ensinou, especialmente em uma cultura que rejeita verdades absolutas e promove o relativismo moral como virtude.
Muitos países da Europa, que abraçaram a cosmovisão cristã em séculos anteriores, assim como os Estados Unidos, frequentemente referidos como uma nação cristã, têm-se afastado de modo alarmante de seu patrimônio cristão, intelectual e cultural. A Inglaterra, berço do movimento cristão conhecido como puritanismo, encontra-se profundamente desfigurada, pluralizada e amplamente irreconhecível como uma nação cristã.
Há mais de quarenta anos, o filósofo cristão Francis Schaeffer observou esse crescente desvio em direção ao secularismo como resultado do fracasso dos cristãos em perceber que a destruição cultural e social decorreu de uma mudança profunda de cosmovisão — isto é, de uma alteração decisiva na forma como as pessoas passaram a pensar e interpretar a vida como um todo. Segundo Schaeffer, “as ideias têm consequências, e quando uma sociedade abandona a verdade bíblica como seu fundamento, inevitavelmente colhe desintegração moral, cultural e espiritual” [SCHAEFFER,1976].
Essa análise é reforçada por James C. Dobson e Gary L. Bauer, que demonstram que essa mudança de cosmovisão não ocorre de maneira neutra ou espontânea, mas é deliberadamente promovida por meio da educação, da mídia, do entretenimento e das políticas públicas. Na obra Children at Risk (1990), os autores alertam que a batalha cultural contemporânea é, em essência, uma disputa pelos corações e mentes das crianças, nas quais valores morais objetivos têm sido substituídos por uma ética subjetiva, emocional e desvinculada de qualquer fundamento transcendente.
Aqui está, de fato, o grande problema a ser enfrentado. De nada adianta tratar apenas os efeitos sem identificar a raiz do problema. Dobson e Bauer argumentam que muitas iniciativas cristãs falham porque tentam corrigir comportamentos enquanto ignoram o sistema de mentalidades que os sustenta. Compreender e avaliar criteriosamente qual tem sido a nossa cosmovisão cristã, bem como rejeitar com convicção e coragem cosmovisões antagônicas, é a única forma de não sermos assimilados e desfigurados em nosso conjunto de fé e prática, que permanece fundamentado unicamente nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos.
Uma sociedade que busca promover os direitos humanos — incluindo o direito à vida desde a concepção —, a liberdade e o bem comum precisa aderir à única cosmovisão capaz de explicar adequadamente nossa existência e dignidade. Dobson e Bauer ressaltam que, quando a família, a autoridade moral e a noção de verdade objetiva são enfraquecidas, as próprias bases da dignidade humana entram em colapso. Por isso, é necessário reafirmar continuamente que a dignidade humana deriva direta e exclusivamente do fato de termos sido criados à imagem de Deus, uma perspectiva essencialmente bíblica.
A desconexão dessa visão bíblica tem produzido consequências graves, profundas e cada vez mais visíveis. Assistimos ao avanço do aborto, à redefinição do casamento, à relativização da sexualidade, à promoção da mudança de gênero — inclusive por meio de cirurgias irreversíveis —, à pesquisa com células-tronco embrionárias e aos passos cada vez mais ousados em direção à clonagem humana. Esses não são fenômenos isolados nem meros excessos de uma sociedade em transição; são sinais evidentes de uma cultura que deliberadamente rejeitou Deus como sua referência última de verdade. Como alertam Dobson e Bauer, quando uma geração é educada sem absolutos morais e sem um fundamento transcendente, colhe-se inevitavelmente confusão ética, desintegração moral e a perda do valor intrínseco da vida humana. Diante desse cenário, a Igreja não pode se calar, acomodar-se ou negociar seus fundamentos, mas é chamada a reafirmar, com coragem e fidelidade, a verdade revelada nas Escrituras.
 
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
Texto

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.
Apoie a continuidade deste blog
 
 Referências Bibliográficas
DOBSON, James C.; BAUER, Gary L. Children at Risk: The Battle for the Hearts and Minds of Our Kids. Dallas: Word Publishing, 1990. [Crianças em Risco: A Batalha pelo Coração e pela Mente de Nossos Filhos].
DOBSON, James C. Bringing Up Boys. Wheaton: Tyndale House Publishers, 2001.
PEARCEY, Nancy. Total Truth: Liberating Christianity from Its Cultural Captivity. Wheaton: Crossway Books, 2004.
SCHAEFFER, Francis A. How Should We Then Live? Old Tappan: Fleming H. Revell Company, 1976.
SCHAEFFER, Francis A. A Christian Manifesto. Westchester: Crossway Books, 1981.
SIRE, James W. The Universe Next Door: A Basic Worldview Catalog. Downers Grove: InterVarsity Press, 1976.