A Pergunta Inesperada
Ira
Pointer, jovem candidato ao ministério pastoral, entra na sala de entrevistas
com o coração cheio de expectativa. Ele imagina perguntas sobre sua vida
devocional, sua visão de igreja, talvez até sobre sua capacidade de liderança.
Mas a primeira questão que lhe é lançada é direta e desconcertante:
“Você é calvinista?”
O
silêncio que se segue revela sua perplexidade. Ele nunca havia pensado
seriamente sobre isso. Tem conhecimento sobre o termo, já ouviu debates
acalorados, mas nunca tinha parado para refletir e formular uma resposta específica.
Mas
essa pergunta se tornará o ponto de partida de sua jornada pessoal — e também o
nosso primeiro episódio.
O
peso da palavra “calvinista”
Para muitos, “calvinismo” é apenas um rótulo, às vezes carregado de preconceitos. Uns o associam à rigidez doutrinária, outros à negação da responsabilidade humana. Mas, como veremos ao longo desta jornada, ser calvinista é muito mais do que um nome ou uma identificação teológico eclesiástica: é reconhecer a soberania absoluta de Deus na salvação.
João
Calvino, em suas Institutas
da Religião Cristã, define a eleição como “o eterno decreto de Deus,
pelo qual determinou consigo mesmo o que queria fazer de cada homem”. Essa
frase mostra que, para o teólogo genebrês, a fé não começa em nós, mas em Deus.
De maneira que se identificar com a teologia calvinista é, antes de tudo, ser
alguém que confia que a salvação é obra divina do início ao fim.
Séculos
depois, o comentarista bíblico e teólogo R. C. Sproul retoma essa
doutrina em Eleitos de Deus. Ele insiste que a eleição não é uma
doutrina fria, mas uma expressão do amor eterno de Deus:
“Saber
que Deus nos escolheu antes da fundação do mundo é saber que nosso destino está
seguro em suas mãos.”
Sproul
desfaz o estigma de que o calvinismo é árido. Pelo contrário, ele revela que
essa teologia é profundamente consoladora. A eleição não nos conduz ao
desfiladeiro do desespero, mas ao vale maravilhoso da gratidão.
O
amor de Deus nos alcança quando ainda estamos longe — um amor que não depende
de nossos méritos, porque simplesmente não os temos. É a figura maravilhosa do
Pai que, ao avistar o filho pródigo ainda distante, corre ao seu encontro e o
envolve em graça, restaurando lhe a filiação e a dignidade.
Assim
como aquele rapaz, também nós nos afastamos do Pai e desperdiçamos nossa vida
em coisas sem propósito eterno. Mas quando caímos em nós mesmos e reconhecemos
a futilidade e o vazio de nossa existência, percebemos nossa indignidade e,
então, sentimos os braços amorosos do Pai nos acolhendo. E ouvimos suas
palavras cheias de ternura: “Este meu filho estava perdido e foi achado;
estava morto e reviveu.”
E,
se pudéssemos ouvir o coração do Pai naquele instante, talvez soasse assim:
“Meu filho, eu nunca deixei de esperar por você. Mesmo quando se afastou, meu amor o acompanhou. Agora que voltou, não há culpa que o separe de mim — há apenas graça, perdão e festa. Você sempre foi meu, e hoje o abraço que lhe dou é o selo da minha fidelidade.”
A
partir de então, o autor Belcher constrói sua narrativa mostrando o
jovem candidato em constante diálogo com colegas e líderes. Cada conversa
revela uma nova faceta das Doutrinas da Graça. No início, Ira se sente
desconfortável: como conciliar a responsabilidade humana com a soberania
divina? Essa tensão é real e reflete a experiência de muitos cristãos.
Mas
na medida em que empreende sua jornada da graça, Ira descobrirá que ser calvinista
não significa negar a responsabilidade humana, mas reconhecer que ela está
inserida no plano maior de Deus. A fé, o arrependimento e a obediência são
respostas genuínas à graça irresistível que nos alcança.
Um
dos mais conceituado pregador e teólogo do século dezoito Jonathan Edwards, em
sua obra Freedom of the Will, acrescenta uma dimensão importante: a
vontade humana não é livre em sentido absoluto, mas sempre inclinada conforme a
natureza do coração. O pecador, sem a graça de Deus, está inclinado ao mal;
somente a intervenção divina pode transformar sua vontade.
Essa
percepção vai direcionar a jornada de Ira: a verdadeira liberdade não é escolher
qualquer coisa, mas ser liberto do pecado para escolher o bem. Edwards mostra
que a graça não anula a vontade, mas a redime.
Aqui
é um bom momento para descansarmos enquanto verificamos as aplicações práticas desta
etapa da jornada:
O
que significa ser calvinista hoje?
- Humildade: reconhecer que a salvação é obra
de Deus nos livra do orgulho espiritual.
- Segurança: saber que fomos escolhidos por
Deus nos dá confiança diante das incertezas da vida.
- Missão: longe de desmotivar o evangelismo,
a eleição nos impulsiona a proclamar o evangelho, confiando que Deus
chamará os seus.
- Adoração: a soberania divina nos leva a uma
adoração mais profunda, pois tudo vem dele e tudo volta para ele.
No
fim desta primeira etapa da jornada, Ira Pointer começa a perceber que ser
calvinista não é carregar um rótulo, mas viver uma fé enraizada na graça
soberana de Deus. Calvino nos lembra que a eleição é o decreto eterno; Sproul
nos ensina que ela é expressão do amor divino; Edwards mostra que a graça
redime nossa vontade.
Mas o
jovem candidato ao ministério ainda tem dúvidas. Se Deus escolhe, como fica
a responsabilidade humana? Essa pergunta o acompanhará até o próximo
episódio, quando ele mergulhará no mistério da eleição.
Utilização
livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan
Pereira
Mestre em
Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia
Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/
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continuidade deste ministério
Indicações de leitura para aprofundar
BELCHER, Richard. Uma Jornada na
Graça. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010. Obra que inspira a
narrativa de Ira Pointer, mostrando como as Doutrinas da Graça podem ser
apresentadas em forma de diálogo e caminhada espiritual.
CALVINO, João. Institutas da Religião
Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. Fonte clássica da teologia
reformada, em que a eleição é definida como decreto eterno de Deus, fundamento
para compreender a soberania divina na salvação.
SPROUL, R. C. Eleitos de Deus.
São José dos Campos: Editora Fiel, 2009. Comentário pastoral que desfaz o
estigma de frieza do calvinismo, revelando a eleição como expressão do amor
eterno de Deus.
EDWARDS, Jonathan. Freedom of the
Will. New Haven: Yale University Press, 1957. Tratado teológico do século
XVIII que aprofunda a relação entre vontade humana e graça divina, mostrando
que a verdadeira liberdade é ser liberto do pecado para escolher o bem.