sexta-feira, 10 de abril de 2026

Grandes Termos da Bíblia: Condenação

CONDENAÇÃO

Começar pela palavra “condenação” é algo intencionalmente provocativo. O desconforto que ela causa revela como nossa cultura — inclusive no ambiente eclesiastico — tende a suavizar ou até silenciar termos que expõem a gravidade da condição humana em seu estado de pecado e miséria diante de Deus.

A Bíblia, porém, não evita essa linguagem. Pelo contrário, ela a coloca em primeiro plano: “condenado” e “condenação” aparecem repetidamente, lembrando que há um juízo real e que o ser humano, por si mesmo, não pode escapar dele. Ignorar o termo não elimina a realidade que ele descreve.

Esse silêncio contemporâneo é perigoso, porque, se deixamos de falar sobre condenação, também esvaziamos o sentido da justificação. Afinal, só faz sentido ser declarado justo (tsadaq) quando antes se reconhece que se estava sob culpa (rasha‘). O apóstolo Paulo desenvolverá sua teologia exatamente sobre esse contraste: todos estão condenados, mas, em Cristo, há justificação.

No contexto do Antigo Testamento

O Antigo Testamento não trata apenas da condenação justa do culpado; ele também denuncia a condenação injusta. Em Salmo 94:21, homens perversos “condenam o inocente à morte”. Nesse caso, a condenação deixa de ser expressão da justiça divina e se torna abuso humano, uma grave distorção moral.

Aqui se encontra um dos maiores paradoxos da história da redenção: a condenação injusta de Cristo, o Justo, que foi declarado culpado sem ter culpa e, justamente por isso, se tornou o meio pelo qual Deus justifica os pecadores.

Isso nos leva a um ponto ainda mais profundo: no Antigo Testamento, Deus não é apenas o Legislador; Ele é também o Juiz supremo, aquele que condena com justiça e que reverte condenações injustas. Em Isaías 50:8–9, o Servo pode dizer: “Quem me condenará?”, porque o Senhor é quem o vindica.

No contexto do Novo Testamento

No Novo Testamento, o conceito é desenvolvido a partir dessa base veterotestamentária. Herdado do universo forense do Antigo Testamento, ele é aprofundado à luz da pessoa e da obra de Cristo. O que antes já significava “declarar culpado” agora ganha contornos ainda mais intensos no que diz respeito à condição humana diante de Deus. Assim, o Novo Testamento retoma a estrutura “condenação versus justificação” e a aplica decisivamente ao problema do pecado e da salvação.

A condenação mantém seu caráter jurídico; não se reduz a uma emoção subjetiva. Em João 3:18, a sentença é clara: quem crê em Cristo não é condenado, mas quem não crê já está condenado. Isso mostra que não se trata apenas de um juízo futuro, mas também de uma condição presente diante de Deus.

O apóstolo Paulo expressa essa verdade de forma contundente em Romanos 8:1: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.” O contraste é decisivo: fora de Cristo, permanece a condenação; em Cristo, ela é removida. Essa oposição entre condenação e justificação está no centro da mensagem paulina.

O vocabulário grego do Novo Testamento confirma essa dimensão forense da condenação. Há uma relação entre o verbo krinō, que significa julgar, e o substantivo katakrima, que se refere diretamente à sentença condenatória. Essa distinção não é acidental; ela mostra que a condenação, no Novo Testamento, deve ser entendida como um processo judicial completo. Primeiro, há o veredito de culpa pronunciado pelo juiz; depois, a sentença que decorre desse veredito; e, em certos contextos, a própria pena aplicada como consequência inevitável. Assim, a literatura do Novo Testamento não suaviza o peso da condenação, mas a apresenta como realidade judicial diante de Deus. No entanto, o evangelho irrompe como boa notícia: em Cristo, essa sentença é anulada, e o veredito passa da condenação para a justificação.

Paulo também compreendeu essa verdade de maneira extraordinária em Romanos 8:3, ao declarar que Deus “condenou o pecado na carne” ao enviar o seu Filho. Isso é decisivo: a condenação não desaparece por mera anulação moral nem por um ato de indulgência divina; ela é enfrentada judicialmente na cruz. E essa realidade não pode ser tratada com indiferença ou protelada — exige resposta imediata. É hoje o tempo de reconhecer que a justiça de Deus foi satisfeita em Cristo e de acolher, sem demora, a graça que liberta e salva.

A mensagem da salvação não significa que Deus abriu mão de sua justiça ou a ignorou. Significa, antes, que sua justiça foi plenamente satisfeita em Cristo. A condenação recai sobre o próprio Filho, que assumiu o lugar do culpado. Desse modo, todo aquele que crê em Cristo pode ser declarado livre da condenação, sem que a santidade e a justiça de Deus sejam comprometidas.

Portanto, o termo “condenação” tem raízes profundas no Antigo Testamento e alcança seu pleno desenvolvimento no Novo. No AT, ele se insere primariamente no campo da justiça forense: condenar é declarar culpado, em oposição a justificar. Contudo, essa culpa diante de Deus não permanece apenas na esfera judicial; ela também possui uma dimensão cúltica e relacional, como se vê de modo especial em Levítico, onde o pecador necessita de expiação sacrificial para que sua culpa seja tratada e sua comunhão com Deus seja restaurada. No NT, esse quadro é ampliado e levado ao seu clímax em Cristo, que assume judicialmente a condenação do seu povo e, ao mesmo tempo, realiza de modo definitivo aquilo que o sistema sacrificial do AT apenas prefigurava: a remoção da culpa e a reconciliação com Deus.

Aqui cabe, porém, uma exortação séria: ignorar ou minimizar o estado de condenação diante do tribunal de Deus é um erro fatal. Muitos, por indiferença ou rejeição consciente, desprezam o sacrifício de Jesus Cristo. No entanto, a Escritura é clara: quem não crê já está condenado (João 3:18). Não se trata apenas de uma ameaça futura, mas de uma realidade presente.

Rejeitar o evangelho — sejam quais forem os motivos — é permanecer sob o veredito de culpa e carregar sobre si a sentença e a pena que somente Cristo pode remover. A cruz não foi um gesto simbólico, mas o lugar em que a condenação foi tratada de modo justo. Negligenciar isso é desprezar a única saída oferecida por Deus.

Por isso, a mensagem evangélica não pode ser suavizada: fora de Cristo, há condenação; em Cristo, há vida e justificação. Quem insiste em ignorar essa verdade permanece diante do tribunal divino sem defesa; mas quem se rende ao Filho encontra plena absolvição e paz.

Esse é o chamado urgente, inadiável, inescapável: não endureça o coração, não adie a decisão! A justiça de Deus é real, e a condenação igualmente — mas a graça também é real, e está disponível agora, neste instante, em Cristo Jesus. A Escritura declara com autoridade: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração (Hebreus 3:7–8). O “hoje” de Deus não é uma promessa vaga para o futuro, mas o momento presente em que a salvação pode ser recebida e a condenação removida. Ignorar esse chamado é persistir na rebelião contra Deus; acolhê-lo é entrar imediatamente no descanso e na vida eterna que Cristo conquistou na cruz.

Não há tempo a perder!

Não há espaço para indiferença!

 

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Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

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quinta-feira, 9 de abril de 2026

Teologia - Verbete: Iluminação

O termo iluminação refere-se à obra do Espírito Santo no crente e na comunidade de fé, capacitando-os a compreender, acolher e aplicar a verdade registrada nas Escrituras (cf. 1Co 2.9–14). Da nossa parte, somos chamados a empregar métodos adequados de interpretação, coerentes com a natureza das Escrituras e com os princípios geralmente aceitos para a compreensão da comunicação escrita [BERKHOF, 1990]. A teologia reformada compreende que a iluminação é inseparável da obediência: o Espírito Santo não apenas abre os olhos para compreender, mas também move o coração para agir. Quando isso não acontece, estabelecemos um teologismo estéril (Tg 1.21–22) e nos tornamos cada vez mais obscurecidos quanto às realidades espirituais [FERGUSON; WRIGHT; PACKER, 1996]. A iluminação, portanto, conduz o crente a assimilar as verdades bíblicas de modo que moldem seu caráter e orientem sua prática cotidiana, como obra contínua do Espírito Santo que aplica eficazmente a Palavra revelada, produzindo transformação espiritual e conformidade com Cristo [GRUDEM, 1999].

Entretanto, é preciso enfatizar que a iluminação não acrescenta novo conteúdo à revelação bíblica, nem substitui o esforço hermenêutico responsável [HODGE, 1999]. Antes, descreve a atuação contínua do Espírito Santo, que torna eficaz, no entendimento e na vida do crente, a Palavra já revelada e inspirada [WARFIELD, 2005]. Assim, iluminação, interpretação fiel e obediência prática caminham juntas no crescimento espiritual e teológico [ELWELL, 1993]. Dessa forma, sermões e estudos elaborados, ainda que fundamentados nos textos das Escrituras, não possuem caráter inspirativo e, portanto, não devem ser inseridos como parte integrante delas [WARFIELD, 2005].

Assim, iluminação, interpretação fiel e obediência prática caminham inseparavelmente no crescimento espiritual e teológico [ELWELL, 1993]. Por isso, é imperativo que não confundamos a autoridade da Escritura com a produção humana: sermões e estudos, ainda que fundamentados nos textos bíblicos, não possuem caráter inspirativo e jamais devem ser inseridos como parte integrante dela [WARFIELD, 2005]. Cabe ao crente, portanto, submeter-se à Palavra revelada, permitindo que o Espírito Santo a torne viva e eficaz em sua mente e em sua vida. Negligenciar essa distinção é enfraquecer a própria fé e reduzir a verdade divina a meras reflexões humanas.

 

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Referências Bibliográficas

BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1990.

ELWELL, Walter A. (Org.). Dicionário de teologia evangélica. São Paulo: Vida Nova, 1993.

FERGUSON, Sinclair B.; WRIGHT, David F.; PACKER, J. I. (Orgs.). Novo dicionário de teologia. São Paulo: Vida Nova, 1996.

GRUDEM, Wayne. Teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.

HODGE, Charles. Teologia sistemática. São Paulo: Editora Hagnos, 1999.

WARFIELD, Benjamin B. A inspiração e autoridade da Bíblia. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2005.

Mateus: O Termo Fé (πίστις -Pistis) na Sua Narrativa Evangélica

 

No Evangelho de Mateus, o termo grego πίστις (pistis), cuja tradução é , aparece de modo muito significativo, revelando não apenas uma atitude interior de confiança, mas uma resposta concreta à pessoa, à autoridade e ao poder de Jesus. Este termo grego ocorre oito vezes, distribuído em oito versículos, e na perspectiva de Mateus, a não é tratada como mera abstração religiosa, mas como confiança viva, perseverante e eficaz diante de Cristo. Quando examinadas essas ocorrências, percebe-se que Mateus desenvolve uma teologia da marcada pela dependência de Jesus, sempre na expectativa   do agir divino e pela oposição entre fé verdadeira e incredulidade.

A primeira ocorrência se encontra em Mateus 8:10, no episódio do centurião. Ao ouvir a declaração daquele homem, Jesus destaca a qualificação de sua e contrasta com a incredulidade dos seus ouvintes judeus, afirmando que nem mesmo em Israel encontrou tão grande. A narrativa de Mateus destaca que essa não é mera crença intelectual, mas confiança radical na autoridade da palavra de Cristo. O centurião, ao declarar que era suficiente uma ordem de Jesus para que seu servo fosse curado, demonstra uma caracterizada por humildade, reconhecimento da autoridade (exousia) e confiança absoluta. O que evidência ainda mais o contraste com seus ouvintes: um gentio manifesta a que deveria ser encontrada no povo da aliança. Em Mateus, portanto, a fé genuína é aquela que discerne quem Jesus é e descansa/confia plenamente em sua palavra.

Em Mateus 9:2, o termo pistis () aparece novamente como elemento central da narrativa, quando trouxeram a Jesus um paralítico deitado numa cama, o texto diz que Jesus, vendo a deles, declarou perdoados os pecados do enfermo. Aqui, a fé não é atribuída somente ao paralítico, mas aos amigos que o trouxera até Jesus. Neste particular o texto enfatiza uma dimensão comunitária da pistis: confiança compartilhada que se manifesta em ação concreta. A não é apenas uma disposição espiritual, mas deve ser encarnada em ações concretas como este gesto de carregar o paralítico até Cristo, superando obstáculos. É interessante notar que Cristo faz uma inversão de expectativa. Os amigos, o paralitico e todos os presentes esperam que Jesus faça o milagre, mas Jesus primeiramente faz uma declaração de perdão dos pecados. Com isso a narrativa de Mateus conecta a fé não apenas ao milagre visível, mas também à graça mais profunda da restauração espiritual. A pistis abre caminho para a manifestação do reino de Deus no corpo e na alma.

Em Mateus 9:22, no relato da mulher que sofria havia anos, Jesus lhe diz: “Filha, tem bom ânimo; a tua te salvou”. A fé aqui é apresentada como confiança pessoal e corajosa. A mulher se aproxima, toca nas vestes de Jesus e crê que dele procede poder restaurador. O texto de Mateus quer enfatizar que o termo central não é a cura em si, mas a pistis — a da mulher. O verbo usado por Jesus é sōzō (“salvar”), que tem sentido duplo, podendo significar tanto “curar” quanto “salvar” em sentido espiritual. Ao escolher essa expressão o evangelista destaca que a fé da mulher não apenas resultou na restauração física, mas sobretudo na salvação integral.

Logo depois, em Mateus 9:29, Jesus toca os olhos de dois cegos e declara: “Seja-vos feito segundo a vossa ”. Nesta perícope temos um extraordinário paradoxo – aqueles dois homens privados da visão física enxergaram, antes de todos, aquilo que muitos com olhos saudáveis não conseguiam ver: Jesus é o Filho de Davi, o Messias esperado. Eles clamaram por misericórdia sem jamais terem visto o rosto de Cristo, mas já o reconheciam pela (pistis). O paradoxo é confrontador - os cegos viam, e os que viam eram cegos. Os líderes religiosos, com toda sua instrução e visão, não discerniam quem estava diante deles. Já aqueles marginalizados, sem luz nos olhos, possuíam luz no coração. A fé foi sua visão antecipada, capaz de revelar o invisível. A resposta de Jesus — “Seja-vos feito segundo a vossa — é o ápice deste paradoxo: aqueles cegos já enxergavam antes de ver. Não precisaram de provas, sinais ou milagres para reconhecer o Messias; foi a que lhes abriu os olhos. Eles chamaram Jesus de Filho de Davi sem jamais terem visto seu rosto, enquanto muitos que viam claramente permaneciam cegos para sua identidade. Aqui está a exortação da narrativa, pois podemos ter olhos saudáveis (teologia, práxis) e, no entanto, sermos cegos para a presença de Cristo. O texto nos desafia a cultivar uma que vê antes de ver, uma confiança plena no Messias mesmo quando uma maioria o negue. Aqui, Mateus nos lembra que a é visão. E se os cegos viram primeiro, é porque a verdadeira luz não entra pelos olhos, mas pelo coração que crê.

Em Mateus 15:28, diante de uma mulher cananeia, Jesus exclama: “Ó mulher, grande é a tua ”. Essa é uma das declarações mais intensa do evangelho sobre pistis. Aqui, pistis não é apenas crença, mas perseverança confiante diante da aparente recusa de Jesus. Ela se mostra resiliente: mesmo após ouvir palavras duras — “não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos” (v. 26) — ela insiste, reconhecendo sua condição e, ainda assim, confiando na misericórdia de Jesus. O texto fica ainda mais extraordinário quando se destaca o fato de que ele é uma estrangeira (gentia) e de etnia “Sirofenícia” (cf. Marcos 7:26), portanto historicamente inimigos dos judeus. Mas ela está disposta a romper essa muralha étnica e sua a mantém em perseverança humilde; ela insiste porque sabe que a misericórdia de Jesus é maior que qualquer barreira étnica. E aqui temos o contraste, pois uma estrangeira, considerada excluída, é exaltada por Jesus como exemplo de grande , mostrando que a verdadeira espiritualidade não depende da etnia, mas da confiança perseverante Nele. Em sua narrativa Mateus mostra, que a verdadeira não desiste facilmente. Ela é humilde, insistente e determinada, especialmente quando busca socorro para a vida de outro. Mais uma vez, a é reconhecida por Jesus e resulta em restauração.

Em Mateus 17:20, Jesus confronta os discípulos por causa da incredulidade deles e afirma que, se tiverem como um grão de mostarda, nada lhes será impossível. Aqui o termo πίστις (pistis) aparece novamente como chave. Não se trata de quantidade, mas de qualidade. A ilustração do grão de mostarda é significativo e pedagógico, apesar de ser a menor das sementes, é vivo, cheio de potencial. Igualmente é a fé: não precisa ser grande aos olhos humanos, mas precisa ser qualificada e fundamentada no poder de Deus. As palavras exortativas de Jesus é pelo fato de que eles estavam presenciando Seus milagres e ouviam Seus ensinos, ainda assim tropeçavam na incredulidade. Já outros — como o centurião romano ou a mulher cananeia — mostravam fé extraordinária, mesmo sem pertencer ao círculo íntimo. O texto é um espelho que nos confronta com nossa própria incredulidade. Quantas vezes, mesmo cercados de evidências da presença de Deus, hesitamos em confiar? Uma pequena, simples, mas viva, é suficiente para abrir espaço ao impossível. Quem crê, ainda que como um grão de mostarda, já possui em si a força que move montanhas.

Aqui, a pistis é contrastada diretamente à falta de . A ênfase não está no tamanho quantitativo da fé, mas em sua autenticidade. Mesmo pequena, se for real, ela participa do poder de Deus. A imagem do grão de mostarda sugere algo aparentemente insignificante, mas vivo e verdadeiro. Em Mateus, a fé é poderosa não por causa da força humana, mas porque está ligada ao Deus para quem nada é impossível.

Em Mateus 21:21, após a figueira ter secado diante dos olhos dos discípulos, Jesus declara: “Em verdade vos digo que, se tiverdes (pistis) e não duvidardes, não só fareis o que foi feito à figueira, mas até se a este monte disserdes: ergue-te e lança-te no mar, isso se fará.” Aqui Jesus contrasta a fé com a incredulidade. O contexto é simbólico: a figueira, estéril, representa a religiosidade sem frutos, a aparência sem vida. Os discípulos ficam impressionados com o poder da palavra de Jesus, mas Ele os conduz além do espanto: o mesmo poder está disponível a quem crê. O maior problema nosso é que ficamos apenas impressionado com o poder de Deus, mas nos falta a fé para manifestá-las nas circunstâncias cotidianas da vida. Nos falta fé para superarmos as muralhas que surgem diante de nós e que Deus é poderoso para derrubá-las como fez nos dias de Josué. A exortação é clara: não é suficiente se impressionar/admirar o poder de Cristo, é preciso participar dele pela . O discípulo é chamado a confiar sem reservas, a crer mesmo quando tudo parece contrário. A não é misticismo, mas confiança radical em Deus, que torna possível o que humanamente é impossível. Quem crê não se limita ao que vê; quem crê já participa do impossível.

A última vez que Mateus usa o termo pistis () está em 23:23, na cena em que Jesus censura os escribas e fariseus porque eles se preocupavam com minúcias religiosas, mas negligenciavam os aspectos mais importantes da lei: o juízo, a misericórdia e a . Para Jesus a fé genuína se manifesta na prática dos princípios da Palavra de Deus. Mais uma vez o paradoxo é contrastante, pois aqueles que se julgavam guardiões da Lei estavam cegos para o coração da Lei. Eles viam o detalhe, mas não enxergavam o todo. Jesus os confronta: não basta religiosidade minuciosa; é preciso fidelidade que se manifesta em amor e justiça. A fé verdadeira não é ativismo religioso, nem ortodoxia eclesiástica, mas uma fé que gera misericórdia e justiça. Na sua narrativa, Mateus deixa claro que pistis é o eixo que sustenta a vida diante de Deus — não como aparência, mas como fé que se traduz em obras. É justamente dessa compreensão que Tiago retira sua exortação: “A sem obras é morta” (Tiago 2:17).

Estas palavras de Jesus nos chama a examinar se nossa é apenas formalismo teológico ou se é fidelidade vivencial. Lembrando que Jesus não se impressiona com agendas religiosas se o coração permanece vazio de justiça e misericórdia. A verdadeira pistis () é visão espiritual que nos faz enxergar o essencial: amar a Deus e ao próximo, síntese de toda a Escritura – o que não inclui isso é apenas religiosidade.

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Guedes, Ivan Pereira

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domingo, 5 de abril de 2026

Ressurreição de Jesus Cristo nas Narrativas Evangélicas (Páscoa)

Há alguns relatos que apenas um, dois ou três evangelistas registram com mais ou menos detalhes. Os acontecimentos relacionados ao nascimento de Jesus, ainda que de grande relevância, foram escritos apenas por Mateus e Lucas, enquanto Marcos os ignora por completo e João apenas faz referência, retrocedendo a origem de Jesus à eternidade com Deus.

Já os acontecimentos relacionados à Ressurreição de Jesus Cristo são registrados, em maior ou menor detalhe, pelos quatro evangelistas. Somente este fato já seria suficiente para produzirmos milhares de comentários. Todavia, fiquei negativamente surpreso comigo mesmo, pois, apesar de manter este blog desde 2016 e ter produzido mais de cem artigos, não encontrei nenhum específico sobre este momento único e incomparável da Ressurreição do Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Desejo compensar este lamentável lapso com esta pequena série das narrativas paralelas da Ressurreição. Que o Espírito Santo aplique estas verdades ao coração e à mente de cada leitor, a começar por mim!

Primeiramente, é preciso enfatizar que as narrativas da Ressurreição nos Evangelhos não devem ser lidas como relatos isolados ou meramente complementares de um acontecimento extraordinário, mas como o ápice conclusivo da vida, do ministério e da missão de Jesus Cristo. Cada evangelista constrói sua narrativa enfatizando, desde as primeiras linhas, a identidade de Jesus revelada em suas palavras, obras, sinais, autoridade sobre a enfermidade, sobre a natureza, sobre os demônios e até sobre a própria morte.

É na Ressurreição, porém, que essa revelação alcança sua expressão máxima e plena, pois nela o Pai vindica o Filho, confirma a eficácia de sua obra redentora e manifesta, de forma definitiva, que Jesus é o Cristo, o Senhor e o doador da vida — vencendo a morte para sempre.

Assim, a ressurreição não aparece nos Evangelhos como um apêndice final, mas como a consumação de toda narrativa cristológica. Cada detalhe explícito ou implícito das narrativas evangélicas convergem para esse momento: as promessas do Antigo Testamento, os anúncios da paixão, o caminho para a cruz e a expectativa do Reino de Deus. Sua ressurreição não é somente um triunfo sobre a morte, mas explicita o sentido de sua encarnação, de seu sofrimento obediente e de seu sacrifício expiatório. Por esta razão, as narrativas da paixão ocupam lugar central na fé cristã: elas demonstram que a cruz não foi derrota, mas o caminho da vitória, e que a vida e o ministério de Jesus encontram na ressurreição seu ponto máximo, sua confirmação divina e seu alcance universal.

Mas, se essas narrativas são tão fundamentais, por que os evangelistas são tão econômicos em seus relatos? A resposta simples e direta é que o objetivo deles não era satisfazer curiosidades, mas testemunhar o fato e o significado da Ressurreição. Os relatos são econômicos justamente porque concentram a atenção não em pormenores espetaculares do “momento” em que Jesus ressuscitou, mas nas evidências pelas quais esse acontecimento é conhecido: o túmulo vazio, o anúncio angelical, as aparições do Ressuscitado e a transformação das testemunhas.

Em outras palavras, os evangelistas não estão escrevendo romances ou roteiros para filmes, de modo a se preocupar em dramatizar a Ressurreição; o foco deles está unicamente na proclamação do Evangelho de Cristo.

Podemos complementar indicando uma razão literária e teológica importante: nenhum evangelista descreve o exato instante da ressurreição e seus detalhes (todos que chegam ao túmulo já o encontram vazio), porque ele não é apresentado como espetáculo público. O centro do testemunho cristão não está em reconstruir de forma teatral como o corpo voltou à vida, mas em afirmar que Deus agiu poderosamente em favor de seu Filho e que esse ato foi confirmado por sinais objetivos e por encontros reais com o Ressuscitado. De maneira que, a sobriedade dos relatos preserva a seriedade do evento: a ressurreição não é tratada como mito ornamentado, mas como intervenção divina cuja grandeza ultrapassa a curiosidade humana.

Mas em geral está em perfeita harmonia com o próprio estilo dos Evangelhos. As narrativas são, em geral, densas, seletivas e teologicamente orientadas. Há informações necessárias na dosagem exata para conduzir o leitor à fé, não para satisfazer todas as curiosidades dos leitores.  Desta forma, o silêncio relativo sobre certos aspectos não minimiza a centralidade da ressurreição; ao contrário, mostra que os evangelistas estavam mais preocupados com sua verdade salvífica do que com sua exploração descritiva. De maneira que, a brevidade, ressalta sua solenidade: o que importa não é a ornamentação do relato, e sim a certeza de que Cristo ressuscitou, apareceu aos seus e inaugurou a nova realidade do Reino de Deus.

No próximo artigo veremos as narrativas paralelas da ida ao túmulo

Para Reflexão

1. De que maneira a certeza da Ressurreição fortalece minha esperança diante das dificuldades e sofrimentos do dia a dia?

2. Como posso testemunhar, em minha vida cotidiana, que Cristo venceu a morte e inaugurou uma nova realidade no Reino de Deus?

3. Quais áreas da minha vida ainda precisam ser transformadas pela verdade da Ressurreição, para que eu viva com mais fé e confiança em Deus?

4. De que forma a sobriedade dos relatos evangélicos me inspira a viver uma fé simples, centrada na verdade de Cristo, sem buscar “ornamentos” ou espetáculos religiosos?

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