Desde
os primórdios da história de Israel, Deus estabeleceu normas que deveriam reger
não apenas o culto, mas também as relações interpessoais. O livro de Levítico
deixa claro que a santidade divina se traduz em mandamentos concretos que
regulam a vida cotidiana: honestidade, justiça no trabalho, cuidado com os
pobres e amor ao próximo. Em Levítico 19, Deus ordena: “Sereis santos, porque
eu, o SENHOR vosso Deus, sou santo” (Lv 19.2) e, imediatamente, aplica essa
santidade a práticas como não oprimir o trabalhador (Lv 19.13), não explorar o
fraco (Lv 19.14), julgar com justiça (Lv 19.15) e amar o próximo como a si
mesmo (Lv 19.18). Muito antes das modernas declarações de “direitos humanos”,
Israel já havia recebido princípios divinos que garantiam dignidade,
solidariedade e responsabilidade comunitária.
Séculos
depois, o profeta Isaías retoma e aprofunda essa mesma exigência. Falando em
nome do Santo de Israel (Is 1.4; 5.19), ele denuncia um povo que preservava
rituais religiosos, mas desprezava a justiça e o cuidado com os necessitados.
Em uma de suas críticas mais contundentes, o profeta proclama: “Aprendei a
fazer o bem; atendei à justiça, repreendei o opressor; defendei o direito do
órfão, pleiteai a causa da viúva” (Is 1.17). Para Isaías, Deus rejeita o culto
desvinculado da ética (Is 1.11–15; 58.6–7). Assim, o profeta ecoa claramente
Levítico: a santidade de Deus não se limita ao templo, mas deve moldar todas as
relações humanas e sociais.
Essa
compreensão também foi recuperada pelos reformadores protestantes. João
Calvino, ao comentar Levítico e os profetas, insiste que não existe verdadeira
piedade sem justiça e amor ao próximo. Em suas Institutas, ele afirma
que a fé que justifica jamais permanece sozinha, mas produz uma vida de
obediência e serviço (Institutas, III.16.1). Para Calvino, o culto que não gera
transformação ética é ofensivo a Deus, pois a santidade divina exige uma vida
íntegra diante de Deus e dos homens.
De
modo semelhante, Martinho Lutero ensinava que a fé genuína necessariamente
produz frutos visíveis no amor ao próximo. Em seu comentário à Epístola aos
Gálatas, ele afirma que a fé viva é “uma coisa ativa”, que se expressa
espontaneamente em boas obras. Em Da Liberdade Cristã (1520), Lutero
resume essa tensão de forma clássica: o cristão é livre diante de Deus, mas
servo de todos por amor. Assim, para Lutero, a santidade não é fuga do mundo,
mas compromisso responsável com o próximo no cotidiano.
Essa
herança bíblica e reformada confronta diretamente uma postura de falsa
equidistância ética — uma tentativa de manter distância de tudo aquilo que
incomoda e rompe a zona de conforto. Tal postura não é prudência cristã, mas
covardia espiritual travestida de moderação; não nasce das Escrituras nem da
teologia reformada, mas de um cristianismo meramente religioso, acomodado e
inerte, que preserva formas de piedade enquanto recusa o peso da obediência.
Esse mesmo espírito se revela no silêncio diante da corrupção latente e na
passividade frente a uma justiça que, em vez de refletir a retidão de Deus,
frequentemente se mostra compactuada com o poder e submissa aos interesses
dominantes. Calar-se nessas circunstâncias não é neutralidade, mas conivência;
não é sabedoria, mas omissão culpável.
Em
muitos contextos evangélicos, observa-se uma forte ênfase em eventos, rituais e
discursos religiosos, acompanhada de indiferença — ou mesmo letargia — diante
da pobreza, da desigualdade, da exploração dos vulneráveis e das distorções
morais que sustentam estruturas injustas. A denúncia de Isaías permanece atual,
pois Deus rejeita uma religiosidade que convive pacificamente com a injustiça.
Do mesmo modo, a tradição reformada, expressa em vozes como João Calvino e
Martinho Lutero, insiste que a fé verdadeira jamais se acomoda ao erro
dominante, mas confronta o pecado, tanto no coração humano quanto nas
estruturas sociais.
Essa
mesma advertência foi vivida de forma dramática por Dietrich Bonhoeffer, que
testemunhou uma igreja amplamente silenciosa e, em muitos casos, submissa
diante da ascensão e consolidação do regime de Adolf Hitler. Bonhoeffer
denunciou aquilo que chamou de “graça barata” — uma fé que preserva o conforto
religioso, mas abandona o custo do discipulado — e compreendeu que o silêncio
da igreja não era mera fraqueza, mas participação indireta no mal. Para ele,
quando a igreja se cala diante da injustiça, deixa de ser igreja no sentido
pleno, pois renuncia à sua vocação de testemunhar a verdade de Deus contra toda
forma de iniquidade. Seu testemunho revela que a omissão religiosa não apenas
acompanha a corrupção, mas frequentemente a antecede e a sustenta, oferecendo-lhe
legitimidade moral.
Assim,
não basta professar fé ou participar de cultos; a santidade autêntica exige
coragem moral, ruptura com o silêncio cúmplice e compromisso concreto com a
justiça. Onde a fé não produz esse testemunho, resta apenas uma aparência de
piedade — ortodoxa na teologia e nos discursos, mas infiel na prática.