Muitos países da Europa, que abraçaram a cosmovisão cristã em séculos anteriores, assim como os Estados Unidos, frequentemente referidos como uma nação cristã, têm-se afastado de modo alarmante de seu patrimônio cristão, intelectual e cultural. A Inglaterra, berço do movimento cristão conhecido como puritanismo, encontra-se profundamente desfigurada, pluralizada e amplamente irreconhecível como uma nação cristã.
Há mais de quarenta anos, o filósofo cristão Francis Schaeffer observou esse crescente desvio em direção ao secularismo como resultado do fracasso dos cristãos em perceber que a destruição cultural e social decorreu de uma mudança profunda de cosmovisão — isto é, de uma alteração decisiva na forma como as pessoas passaram a pensar e interpretar a vida como um todo. Segundo Schaeffer, “as ideias têm consequências, e quando uma sociedade abandona a verdade bíblica como seu fundamento, inevitavelmente colhe desintegração moral, cultural e espiritual” [SCHAEFFER,1976].
Essa análise é reforçada por James C. Dobson e Gary L. Bauer, que demonstram que essa mudança de cosmovisão não ocorre de maneira neutra ou espontânea, mas é deliberadamente promovida por meio da educação, da mídia, do entretenimento e das políticas públicas. Na obra Children at Risk (1990), os autores alertam que a batalha cultural contemporânea é, em essência, uma disputa pelos corações e mentes das crianças, nas quais valores morais objetivos têm sido substituídos por uma ética subjetiva, emocional e desvinculada de qualquer fundamento transcendente.
Aqui está, de fato, o grande problema a ser enfrentado. De nada adianta tratar apenas os efeitos sem identificar a raiz do problema. Dobson e Bauer argumentam que muitas iniciativas cristãs falham porque tentam corrigir comportamentos enquanto ignoram o sistema de mentalidades que os sustenta. Compreender e avaliar criteriosamente qual tem sido a nossa cosmovisão cristã, bem como rejeitar com convicção e coragem cosmovisões antagônicas, é a única forma de não sermos assimilados e desfigurados em nosso conjunto de fé e prática, que permanece fundamentado unicamente nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos.
Uma sociedade que busca promover os direitos humanos — incluindo o direito à vida desde a concepção —, a liberdade e o bem comum precisa aderir à única cosmovisão capaz de explicar adequadamente nossa existência e dignidade. Dobson e Bauer ressaltam que, quando a família, a autoridade moral e a noção de verdade objetiva são enfraquecidas, as próprias bases da dignidade humana entram em colapso. Por isso, é necessário reafirmar continuamente que a dignidade humana deriva direta e exclusivamente do fato de termos sido criados à imagem de Deus, uma perspectiva essencialmente bíblica.
A desconexão dessa visão bíblica tem produzido consequências graves, profundas e cada vez mais visíveis. Assistimos ao avanço do aborto, à redefinição do casamento, à relativização da sexualidade, à promoção da mudança de gênero — inclusive por meio de cirurgias irreversíveis —, à pesquisa com células-tronco embrionárias e aos passos cada vez mais ousados em direção à clonagem humana. Esses não são fenômenos isolados nem meros excessos de uma sociedade em transição; são sinais evidentes de uma cultura que deliberadamente rejeitou Deus como sua referência última de verdade. Como alertam Dobson e Bauer, quando uma geração é educada sem absolutos morais e sem um fundamento transcendente, colhe-se inevitavelmente confusão ética, desintegração moral e a perda do valor intrínseco da vida humana. Diante desse cenário, a Igreja não pode se calar, acomodar-se ou negociar seus fundamentos, mas é chamada a reafirmar, com coragem e fidelidade, a verdade revelada nas Escrituras.
DOBSON, James C.; BAUER, Gary L. Children at Risk: The Battle for the Hearts and Minds of Our Kids. Dallas: Word Publishing, 1990. [Crianças em Risco: A Batalha pelo Coração e pela Mente de Nossos Filhos].