No contexto bíblico, a aliança traduz o
termo grego διαθήκη (diathēkē), equivalente ao hebraico בְּרִית (berît). Enquanto berît
no Antigo Testamento designa o pacto estabelecido por Deus com Israel — muitas
vezes selado por sinais externos como a circuncisão ou o sacrifício — o termo
grego diathēkē assume nuances jurídicas de “testamento” ou “disposição
irrevogável”. Paulo se apropria dessa dupla tradição: de um lado, a herança
hebraica da promessa e da lei; de outro, a linguagem helenística que reforça a
ideia de uma disposição definitiva realizada em Cristo.
Em Paulo, o termo “aliança” não aparece de modo generalizado, mas
em momentos decisivos, quando o apóstolo enfrenta a tensão
dolorosa entre o pacto estabelecido com Israel e sua ampliação às
nações. A adoção, a lei, o culto, os patriarcas e Cristo — dons concedidos por
Deus — revelam que a aliança era privilégio de Israel (Romanos 9:4).
Contudo, Paulo também afirma que, antes da chegada de Cristo, as nações estavam
privadas dessa mesma aliança (Efésios 2:12). Essa tensão não significa a
derrota de Israel nem a exclusão dos gentios, mas a revelação de que a graça se
estende a todos. Por isso, em Romanos 11:27, citando Isaías 59:20-21, Paulo
anuncia que a aliança de graça é tanto para Israel quanto para os gentios,
reafirmando a continuidade e universalidade do plano divino.
Essa inclusão, porém, não é uma novidade apenas neotestamentária. O
Antigo Testamento já testemunha a abertura da graça a outros povos: Nínive,
chamada ao arrependimento pela pregação de Jonas, teve sua destruição
postergada (Jonas 3:5-10); Rute, a moabita, foi acolhida e integrada à linhagem
messiânica (Rute 1:16; 4:13-22); e Naamã, o sírio, experimentou a cura e a fé
no Deus de Israel (2 Reis 5:14-17). Esses exemplos mostram que a aliança,
embora historicamente vinculada a Israel, sempre teve um caráter inclusivo,
antecipando a plenitude revelada em Cristo.
Na maior parte das vezes, a antítese opõe uma antiga e uma nova
aliança, sem nunca colocar em contradição Antigo e Novo Testamento. A dialética
poderosa e sutil de Paulo consiste em mostrar que a tensão já existe no seio da
própria Escritura. Há duas percepções da aliança: a promessa, por um lado, e a
lei, por outro (tomada no sentido negativo de “legalismo”). Esse é o núcleo
dramático da Carta aos Gálatas. A aliança de graça, selada em Cristo, participa
do impulso inicial: a promessa feita a Abraão, que tem a mesma validade que um
testamento, e a lei surgida no êxodo não pode anulá-la (BRUCE, 1983).
Paulo estabelece uma alegoria ousada comparando essas duas formas
às duas mulheres de Abraão: a escrava, identificada com a Jerusalém atual, gera
filhos para a escravidão da lei; Sara, a mulher livre, identificada com a
Jerusalém “do alto”, gera filhos para a liberdade (Gl 4,22-31). Esse contraste
reaparece em 2 Cor 3, onde se opõem a nova aliança, do Espírito Santo, e a
antiga, da “letra”: aquela inscrita no coração (cf. Jr 31,31-34), esta gravada
em pedra. Moisés e Paulo tornam-se figuras emblemáticas: o ministério de Moisés
é de juízo e transitório, velado; o do apóstolo é de justificação, definitivo e
revelador (HAWTHORNE; MARTIN; REID, 1993).
Em 1 Cor 11,25, Paulo narra a instituição da Ceia e recolhe as
palavras de Jesus sobre o cálice, precisando — como também Lucas — que esse
sangue é o da nova aliança (Mc e Mt falam apenas de “aliança”; cf. Ex 24,3-8).
A abertura da aliança às nações evidencia que a graça não constitui
um privilégio exclusivo de caráter nacionalista ou étnico. Tal universalismo
paulino significa, no contexto contemporâneo, um chamado à inclusão de
diferentes culturas e povos no horizonte do amor divino. Entretanto, não se
trata, de mera aceitação acrítica, mas de uma transformação ética e
comportamental exigida pelo Evangelho. Essa inclusão abrange igualmente os
judeus, que são convidados a participar mediante o mesmo processo de conversão,
despindo-se de qualquer pretensão nacionalista ou apego legalista. Diversos
intérpretes, seja por intenção ou ignorância, acabam por distorcer a
hermenêutica paulina e bíblica, chegando inclusive a propor uma oposição
artificial entre Antigo e Novo Testamento, em detrimento da continuidade
teológica que os vincula.
A
aliança em Paulo é um convite a viver a fé como liberdade inclusiva e
transformadora. Ela não rompe com o ensino
veterotestamentário, mas o cumpre em Cristo, abrindo espaço para uma
espiritualidade que se traduz em amor, justiça e comunhão.
A Igreja, portanto, é chamada a ser acolhedora sem ser permissiva: todos podem
entrar, mas ninguém permanece igual, pois a graça exige conversão e santidade.
“Aquele que furtava, não furte mais; antes, trabalhe, fazendo
com as próprias mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o
necessitado” (Efésios 4:28).
“E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela
renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e
perfeita vontade de Deus” (Romanos 12:2).
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas
BRUCE, F. F. Paul: Apostle of the Heart Set Free. Grand
Rapids: Eerdmans, 1983.
HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. (Ed.). Dictionary
of Paul and His Letters. Downers Grove: InterVarsity Press, 1993.
WRIGHT, N. T. Paul for Everyone: Romans Part One. London:
SPCK, 2004.
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