As Bem
Aventuranças
Introdução
Geral
Poucos
textos dos Evangelhos exerceram tanta influência sobre a compreensão da vida
cristã quanto o chamado Sermão do Monte. Registrado em Mateus 5–7, esse grande
discurso apresenta Jesus como Mestre que reúne seus discípulos e lhes revela os
valores, as prioridades e o modo de vida daqueles que pertencem ao Reino de
Deus. Aqui encontramos algumas das palavras mais conhecidas de Jesus: as
Bem-aventuranças, o chamado para ser sal e luz, o ensino sobre a Lei, o amor
aos inimigos, a oração do Pai Nosso, a confiança na providência de Deus, a
regra de ouro e a parábola dos dois fundamentos.
Mas
o Sermão do Monte não é simplesmente uma coleção de ensinamentos independentes.
Jesus está formando uma comunidade. Está ensinando seus discípulos a enxergar a
vida de uma nova maneira e, a partir dessa nova visão, a viver de uma nova
maneira. Por isso, o Sermão do Monte não deve ser lido apenas como um conjunto
de regras morais, mas como uma visão de mundo moldada pelo Reino de Deus.
Mas
o Sermão do Monte não é simplesmente uma coleção de ensinamentos independentes.
Jesus está formando uma comunidade. Está ensinando seus discípulos a enxergar a
vida de uma nova maneira e, a partir dessa nova visão, a viver de uma nova
maneira. Por isso, o Sermão do Monte não deve ser lido apenas como um conjunto
de regras morais, mas como uma visão de mundo moldada pelo Reino de Deus.
Jesus
não está apenas dizendo: "Faça isso". Ele está ensinando seus
discípulos a enxergar a realidade a partir do Reino e a viver de acordo com
aquilo que Deus está fazendo.
É
nesse sentido que podemos compreender o Sermão do Monte como uma verdadeira contracultura
do Reino. Ele confronta os valores que normalmente orientam a existência
humana — poder, prestígio, riqueza, vingança, aparência religiosa, ansiedade e
busca de reconhecimento — e apresenta uma nova maneira de viver, marcada pela
humildade, pela misericórdia, pela pureza de coração, pela reconciliação, pela
confiança em Deus e pelo amor aos inimigos.
O
Sermão do Monte, portanto, não nos permite permanecer apenas como espectadores.
Ele nos coloca diante de uma pergunta inevitável:
Como vive alguém que realmente pertence ao Reino de
Deus?
Por
que Jesus começa com as Bem-aventuranças?
É
significativo que, na forma como Mateus organiza e apresenta o ensino de Jesus,
o grande discurso (Sermão do Monte) comece não com uma lista de mandamentos,
mas com uma sequência de declarações de bênção: "Bem-aventurados...".
Essa escolha narrativa e teológica do evangelista é particularmente
significativa à luz de seu propósito ao escrever para uma comunidade
profundamente marcada pelas Escrituras veterotestamentárias e pela expectativa
do Reino. Antes de apresentar os ensinamentos que orientarão a vida dos
discípulos, Mateus nos conduz à declaração de quem são aqueles que pertencem ao
Reino dos céus. Antes da prática, vem a identidade. Antes da missão, vem a
transformação do coração "Bem-aventurados...".
As
Bem-aventuranças constituem, assim, uma espécie de porta de entrada para o
Sermão do Monte. Elas apresentam o perfil daqueles que pertencem ao Reino, e esse
perfil é surpreendente: os pobres de espírito, os que choram, os mansos, os que
têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os limpos de coração, os
pacificadores e os perseguidos por causa da justiça.
Podemos
afirmar que tudo aqui soa antinatural diante do padrão que a sociedade humana
estabelece como ideal de uma vida feliz. O mundo costuma admirar os fortes, os
que conquistam, dominam e conseguem controlar as circunstâncias. Jesus, porém,
inicia de outro ponto: declara bem-aventurados aqueles que reconhecem sua
necessidade, que choram, que são mansos e que têm fome e sede de justiça.
Desde
o início, Jesus reorganiza nossas categorias. As Bem-aventuranças nos ensinam a
enxergar a vida com os olhos do Reino e, por isso, não devem ser entendidas
apenas como uma lista de virtudes que precisamos cultivar para merecer a bênção
de Deus. Antes de tudo, elas são uma declaração de Jesus sobre aqueles que
pertencem ao Reino: a graça vem primeiro, dela nasce a transformação, e a vida
do discípulo passa a refletir a realidade do Reino ao qual pertence.
As
Bem-aventuranças na história da interpretação
Ao
longo da história da Igreja, as Bem-aventuranças foram interpretadas de
diferentes maneiras. Em alguns períodos, foram entendidas principalmente como
um ideal de perfeição espiritual, uma descrição das virtudes que deveriam
caracterizar aqueles que desejavam seguir a Cristo de maneira mais profunda. Em
outros contextos, receberam uma leitura mais moral e ética, sendo apresentadas
como princípios de comportamento para a vida cristã.
A
tradição reformada procurou enfatizar que as Bem-aventuranças não devem ser
separadas da graça de Deus. Elas não constituem uma escada pela qual o ser
humano sobe até alcançar o Reino, mas descrevem a vida daqueles que foram
alcançados pela graça e agora vivem sob o governo de Deus.
Leituras
mais contemporâneas também passaram a destacar a dimensão social e comunitária do
ensino de Jesus, compreendendo as Bem-aventuranças como uma declaração que
confronta os valores dominantes da sociedade. Nesse sentido, elas anunciam uma
realidade alternativa: os pobres são vistos, os que choram não são esquecidos,
os mansos não estão condenados ao fracasso, a justiça ainda importa, a
misericórdia ainda é possível e a reconciliação ainda pode acontecer.
Essa
perspectiva nos ajuda a compreender que as Bem-aventuranças não se limitam a
indicar comportamentos que devemos adotar. Elas vão além: revelam uma maneira
diferente de enxergar a realidade. Não são apenas instruções éticas, mas uma
lente espiritual que nos permite perceber o mundo segundo os valores do Reino
de Deus. Assim, mais do que dizer “faça isto” ou “evite aquilo”, Jesus nos
convida a mudar o olhar — a reconhecer a graça, a valorizar a humildade, a
perceber a justiça como fome e sede que só Ele pode saciar.
Jesus está formando nos seus discípulos uma nova
imaginação da realidade.
É
nesse ponto que diferentes intérpretes podem dialogar conosco. Calvino
ressalta a profundidade teológica da humildade, da dependência e da graça. Lloyd-Jones
conduz uma leitura cuidadosa, expondo cada Bem-aventurança e aplicando
seu significado ao coração do discípulo. Brueggemann mostra como a Escritura molda uma
nova forma de imaginar a realidade, desafiando narrativas dominantes de poder,
sucesso e segurança. Stott apresenta o Sermão do Monte como
expressão de uma vida contracultural, na qual o discípulo vive no mundo sem se
conformar aos seus valores.
Essas vozes não substituem o texto, mas nos ajudam a
ouvi-lo com mais clareza e profundidade.
Nossa
proposta: caminhar com Jesus
É
nesse ponto que nasce nossa proposta. Não buscamos simplesmente elaborar um
comentário sobre o Sermão do Monte, nem reduzir as Bem-aventuranças a uma
coleção de frases inspiradoras. Nosso propósito é caminhar calmamente pelo
texto, permitindo que cada palavra nos conduza à presença de Cristo. Queremos
ouvir Sua voz, deixar que a graça nos alcance e permitir que a verdade
transforme nosso coração.
Vamos
começar pelas Bem-aventuranças e avançar uma a uma. Cada declaração de Jesus
será observada em seu contexto, examinada em suas palavras, relacionada ao
restante das Escrituras e colocada em diálogo com diferentes intérpretes que,
ao longo da história, ajudaram a Igreja a compreender esse texto.
Mas
o objetivo final não será apenas compreender.
Será
caminhar.
Por
isso, adotaremos o Método MCJ — Caminhando com Jesus, uma proposta que
procura conduzir o leitor em um movimento progressivo: primeiro, observar
atentamente o que Jesus diz; depois, descobrir a realidade que Ele nos
ensina a enxergar; em seguida, aprender o que esse ensino revela sobre
Deus, o Reino e o discípulo; e, finalmente, viver, perguntando como essa
verdade alcança nossa própria caminhada.
Observe
O
que Jesus diz?
↓
Descubra
Que
realidade Jesus nos ensina a enxergar?
↓
Aprenda
O
que isso revela sobre Deus, o Reino e o discípulo?
↓
Viva
O
que significa caminhar com Jesus aqui?
Essa
pergunta final nos acompanhará em cada etapa.
Não queremos apenas saber o que Jesus ensinou aos seus
primeiros discípulos. Queremos descobrir como esse ensino continua confrontando
nossa maneira de pensar, nossas prioridades, nossos relacionamentos e nossas
escolhas.
O
Sermão do Monte começa com uma palavra surpreendente:
"Bem-aventurados..."
E
talvez o primeiro desafio seja justamente descobrir que a vida verdadeiramente
feliz não é necessariamente aquela que o mundo considera bem-sucedida.
Jesus
começa levando-nos a olhar para os pobres de espírito. Depois, para os que
choram. Depois, para os mansos. E, passo a passo, Ele nos conduz para dentro da
lógica do Reino.
Assim
começa nossa caminhada.
Não
como quem observa Jesus de longe, mas como discípulos que se aproximam, escutam
sua voz e perguntam:
O que significa caminhar com Jesus aqui?
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
https://historiologiaprotestante.blogspot.com/
Bibliografia
Geral da Série
BRUEGGEMANN,
Walter Theology of the Old Testament: Testimony, Dispute,
Advocacy Minneapolis: Fortress Press, 1997
Sua
abordagem ajuda a perceber a Escritura como testemunho que confronta as
narrativas dominantes e forma uma nova maneira de imaginar e interpretar a
realidade à luz da ação de Deus, contribuindo especialmente para nossa
compreensão da dimensão contracultural do Reino
CALVINO,
João
As Institutas da Religião Cristã São Paulo: Cultura Cristã, 2006
Sua
reflexão sobre o conhecimento de Deus e de nós mesmos oferece fundamento para
compreender a humildade, a dependência da graça e a transformação do
discípulo, elementos essenciais para a leitura das Bem-aventuranças
CALVINO,
João
Comentário sobre o Novo Testamento: Evangelho segundo Mateus, Marcos e Lucas
São José dos Campos: Fiel, 2018
Sua
exposição dos Evangelhos contribui para uma leitura teológica e expositiva
do ensino de Jesus, relacionando o texto bíblico à graça de Deus e à
formação espiritual daqueles que pertencem ao Reino
CARSON,
D. A. O Comentário de Mateus São Paulo: Shedd
Publicações, 2010
Oferece
suporte para a compreensão do contexto literário, histórico e teológico do
Evangelho de Mateus, auxiliando na leitura do Sermão do Monte dentro da
narrativa maior do ministério de Jesus
FRANCE,
R. T. The Gospel of Matthew Grand Rapids: Eerdmans, 2007
Contribui
para compreender o Sermão do Monte dentro da narrativa do Evangelho de
Mateus e da proclamação do Reino de Deus, ajudando a perceber a relação
entre o ensino de Jesus e sua missão messiânica
GREEN,
Joel B.; MCKNIGHT, Scot; MARSHALL, I. Howard (eds.) Dictionary
of Jesus and the Gospels Downers Grove: InterVarsity Press, 1992
Oferece
recursos históricos, literários e teológicos para compreender os conceitos,
palavras e contexto da missão de Jesus, ampliando o horizonte
interpretativo da série
LLOYD-JONES,
D. Martyn Studies in the Sermon on the Mount Grand Rapids:
Eerdmans, 1959–1960
Fornece
o principal referencial homilético e expositivo da série, com uma
abordagem progressiva e pastoral que permite caminhar cuidadosamente por cada
Bem-aventurança e conduzir seu significado até o coração do discípulo
STOTT,
John R. W. A Mensagem do Sermão do Monte: Contracultura Cristã
São Paulo: ABU Editora, 1985
Ajuda
a compreender o Sermão do Monte como expressão da vida contracultural do
Reino de Deus, mostrando como os ensinamentos de Jesus confrontam os
valores do mundo e moldam a existência prática do discípulo
TASKER,
R. V. G. The Gospel According to St Matthew: An Introduction and
Commentary Grand Rapids: Eerdmans, 1961
Contribui
para uma leitura expositiva e contextual do Evangelho de Mateus,
auxiliando a situar o Sermão do Monte em seu desenvolvimento literário e em sua
perspectiva teológica
WRIGHT,
N. T. Matthew for Everyone London: SPCK, 2002–2004
Oferece
uma leitura acessível que destaca o Reino de Deus e a dimensão prática do
discipulado, ajudando a aproximar o ensino de Jesus da vida cotidiana do
leitor
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