sexta-feira, 6 de março de 2026

Páscoa: Caminhando com Jesus em Seus Últimos Momentos - (Getsêmani)

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Quinta-feira à noite – Oração no Getsêmani

Estamos Caminhando com Jesus em seus últimos momentos antes da Cruz. Estamos utilizando o roteiro exposto na gravura acima e utilizando, para cada ponto, a seguinte estrutura:

  • Leitura bíblica
  • Comentário
  • Pergunta para reflexão

É importante ressaltar que não se trata de comentários extensos, pois o objetivo desta série é torná-la um roteiro devocional para o tempo da Páscoa, mais precisamente na semana derradeira, criando a sensação de estarmos vivenciando estes momentos com Jesus. Apesar da concisão, manteremos a fidelidade à exposição exegética e expositiva, respeitando as perícopes e, sempre que possível, as interconexões entre os evangelistas e suas respectivas narrativas.
Que o Espírito Santo nos guie na compreensão e aplicação de Sua Palavra em nossas mentes e corações. Amém!

Leitura: Os textos apresentados abaixo são paráfrases, ou seja, traduções livres mas sempre fiéis ao sentido dos textos gregos.

 

Mateus 26:36-46

Marcos 14:32-42

Lucas 22:39-46

Jesus foi com seus discípulos a um lugar chamado Getsêmani. Ele pediu que se sentassem enquanto ia orar, levando consigo Pedro, Tiago e João. Começou a sentir uma tristeza profunda e disse a eles que sua alma estava angustiada até a morte, pedindo que permanecessem acordados com Ele. Então, afastou-se um pouco, caiu com o rosto em terra e orou: “Pai, se possível, afasta de mim este cálice; mas que seja feita a tua vontade, não a minha.” Voltando, encontrou os discípulos dormindo e perguntou a Pedro: “Vocês não puderam vigiar comigo nem por uma hora? Vigiem e orem para não caírem em tentação; o espírito está disposto, mas a carne é fraca.”

Ele se afastou novamente e orou pela segunda vez, repetindo sua entrega à vontade do Pai. Ao voltar, os encontrou dormindo outra vez, pois estavam exaustos. Pela terceira vez, orou com as mesmas palavras. Depois, retornou e disse: “Vocês ainda dormem e descansam? Chegou a hora: o Filho do Homem está sendo entregue nas mãos dos pecadores. Levantem-se, vamos! Aquele que me trai já está chegando.”

 

Jesus foi com seus discípulos a um lugar chamado Getsêmani e disse: “Sentem-se aqui enquanto eu vou orar.” Levou consigo Pedro, Tiago e João, e começou a sentir grande angústia e tristeza. Ele lhes disse: “Minha alma está profundamente triste, quase até a morte. Fiquem aqui e vigiem.”

Então, afastou-se um pouco, caiu no chão e orou: “Pai, se possível, afasta de mim este cálice; mas que seja feita a tua vontade, não a minha.” Voltando, encontrou os discípulos dormindo e disse a Pedro: “Simão, você está dormindo? Não conseguiu vigiar nem por uma hora? Vigiem e orem para não caírem em tentação. O espírito está disposto, mas a carne é fraca.”

Ele se afastou novamente e orou, repetindo as mesmas palavras. Ao voltar, encontrou-os dormindo outra vez, pois seus olhos estavam pesados. Eles não sabiam o que responder. Pela terceira vez, Jesus voltou a orar e, ao retornar, disse: “Vocês ainda dormem e descansam? Basta! Chegou a hora: o Filho do Homem está sendo entregue nas mãos dos pecadores. Levantem-se, vamos! O traidor já está chegando.”

 

Jesus saiu e foi, como costumava fazer, para o monte das Oliveiras, e os discípulos o acompanharam. Ao chegar, disse a eles: “Orem para não caírem em tentação.” Então, afastou-se um pouco, ajoelhou-se e orou: “Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; contudo, que seja feita a tua vontade, não a minha.”

Um anjo do céu apareceu para fortalecê-lo. Em profunda angústia, Jesus orava com ainda mais intensidade, e seu suor caía como gotas de sangue que escorriam até o chão. Depois, levantou-se da oração, voltou até os discípulos e os encontrou dormindo, exaustos de tristeza. Ele lhes disse: “Por que estão dormindo? Levantem-se e orem, para que não caiam em tentação.”

 

 

Chegou a hora! Após comer a ceia no Cenáculo com os discípulos e lhes ensinar as últimas lições do discípulo, Jesus sai em direção ao Monte das Oliveiras (cerca de 1 km, o que corresponde a uma caminhada de aproximadamente 10 a 15 minutos), pois ali havia um jardim chamado Getsêmani onde poderia orar tranquilamente (provavelmente já havia feito isso antes).

Ao chegarem no jardim Ele separa Pedro, Tiago e João para estarem mais próximos enquanto ora. Tomado por profunda angústia, declara: “A minha alma está profundamente triste até à morte.”

Jesus então se afasta um pouco mais e ora ao Pai pedindo, se possível, que o cálice [da cruz] passe dele, mas reafirma sua submissão: “Contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres.”

Enquanto isso, os discípulos, se entregam ao cansaço e dormem. Jesus volta três vezes, encontra-os dormindo e os exorta: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação.”

Lucas acrescenta que sua agonia era tão intensa que seu suor se tornou como gotas de sangue caindo ao chão, e que um anjo lhe apareceu para fortalecê-lo. Ao final, Jesus desperta os discípulos e anuncia que chegou a hora: o Filho do Homem está sendo entregue nas mãos dos pecadores.

Comentário:

A narrativa e/ou relatos do Getsêmani representa um dos momentos mais profundos da revelação da humanidade de Cristo. Após ensinar, curar e demonstrar autoridade divina, Jesus agora se apresenta em extrema vulnerabilidade diante de todas as atrocidades que haverá de ser submetido.

Os evangelistas que escrevem em momentos distintos suas narrativas, e registram apenas o essencial dentro de suas perspectivas. O cenário é comum aos três: Jesus entra no jardim para orar antes da traição e aprisionamento. O lugar não é casual. O Getsêmani (do hebraico/aramaico gat-šĕmānê, “prensa de azeite”) torna-se simbolicamente o lugar onde o Messias é “pressionado” pela agonia espiritual. Assim como as azeitonas eram esmagadas para produzir óleo, Cristo é esmagado pela antevisão da cruz. Tem plena consciência dos detalhes do que está por vir.

Mateus e Marcos coloca em destaque a agonia profunda de Jesus. As expressões gregas usadas indicam angústia intensa, quase esmagadora. Não se trata de medo comum da morte, mas da consciência do peso do pecado que ele carregaria. O “cálice” mencionado na oração é uma metáfora veterotestamentária frequentemente associada ao juízo divino. Jesus contempla não apenas a dor física da crucificação, mas o peso do julgamento que recairia sobre ele em favor da humanidade. O Rev. Lloyd-Jones seguindo a tradição reformada afirma que o Getsêmani não é apenas preparação, mas já o início da expiação, pois Cristo enfrenta a realidade do juízo divino.

Lucas, por sua vez, acrescenta dois detalhes importantes: a presença de um anjo fortalecendo Jesus e o suor como gotas de sangue. Os comentaristas reformados concordam que os dois detalhes de Lucas não são meras notas históricas, mas revelam a profundidade da batalha espiritual e humana de Jesus: o anjo como expressão do sustento divino e o suor como sangue como expressão da intensidade da agonia interior. Lucas deseja enfatizar a intensidade da luta espiritual e física travada naquele momento. O Salvador enfrenta ali uma batalha interior (mental) decisiva antes da batalha externa da cruz.

Ao mesmo tempo, o contraste com os discípulos é evidente. Enquanto Jesus vigia e ora, eles dormem. A exortação “vigiai e orai” revela uma verdade espiritual permanente: a fraqueza humana torna a vigilância espiritual indispensável. Em sua narrativa Lucas repete a exortação em duas ocasiões: antes de Jesus se afastar para orar e novamente quando retorna, reforçando o chamado à vigilância. O espírito pode estar disposto, mas a natureza humana é fraca [como vemos na traição de Iscariotes, na negação de Pedro e na fuga dos demais discípulos].

O ponto culminante do texto não é a angústia, ainda que seja intensa, mas a submissão. A oração de Jesus expressa a perfeita obediência filial: “não seja feita a minha vontade, mas a tua.” A luta interior intensa culmina na vitória da submissão. A redenção não se dá apenas na cruz, mas já aqui, quando Cristo se submete plenamente a sorver cada gota do cálice da ira de Deus, em favor daqueles que haverão de serem salvos. Aqui se revela o coração da redenção. O Jesus Cristo, segundo Adão, escolhe obedecer onde o primeiro falhou.

Assim, o Getsêmani nos ensina que a vitória espiritual nasce no secreto da oração [entra em teu quarto, fecha a porta e ore em secreto]. Antes da cruz pública, houve a rendição silenciosa no jardim. A vitória na cruz foi alcançada primeiro no coração obediente do Filho.

Reflexão

1. O que Jesus nos ensina no Getsêmani sobre enfrentar a angústia?
Resposta: Que devemos levar nossas dores e temores a Deus em oração, confiando em sua vontade.

2. O que significa o “cálice” que Jesus menciona em sua oração?
Resposta: O sofrimento da cruz e o juízo de Deus que Cristo carregaria pelos pecados da humanidade.

3. Por que Jesus ordena aos discípulos que vigiem e orem?
Resposta: Porque o espírito pode estar disposto, mas a carne é fraca, e somente a vigilância em oração nos guarda da tentação.

4. Qual é a principal lição da oração de Jesus: “não seja feita a minha vontade, mas a tua”?     
Resposta: Que a verdadeira obediência consiste em submeter plenamente nossa vontade à vontade de Deus.

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Jonas - Leitura Devocional – A Grande Tempestade [1.4-6]

 Imagem digital fictícia de personagem de desenho animado

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Na devocional anterior entramos no navio junto com Jonas em direção à cidade de Tarso, que ficava na direção oposta de Nínive. Parece que tudo vai bem com o profeta desobediente. Ele se acomoda no fundo do barco e consegue até mesmo cair em sono profundo. Mas...

“Mas o Senhor enviou ao mar um grande vento, e fez-se no mar uma grande tempestade, de modo que o navio estava a ponto de se despedaçar. Então os marinheiros tiveram medo, e cada um clamava ao seu deus, e lançaram ao mar a carga que estava no navio, para aliviar a carga. Mas Jonas havia descido às partes mais baixas do navio, deitou-se e dormia profundamente. Então o capitão veio até ele e disse: ‘O que você quer dizer, dorminhoco? Levante-se, invoque o seu Deus; talvez o seu Deus nos considere, para que não pereçamos’.”

O Senhor enviou um grande vento ao mar. A soberania de Deus não se limita aos seres humanos, mas inclui toda a criação. As tempestades da nossa vida estão sempre sob o controle de Deus. No entanto, em vez de confiarmos em Seu poder, agimos como os discípulos no barco da Galileia: desesperamos e cobramos de Deus por não agir em nosso favor – “quer que morramos?”.

Na maior parte do tempo somos crentes de pequena fé.

As tempestades surgem para provar os fundamentos da nossa fé: “...de modo que o navio estava prestes a ser quebrado.” Há pequenas tempestades que não causam muitos danos, mas esta era uma das grandes; parecia que o navio iria partir ao meio.

Por mais incrível que pareça, Deus não estava fazendo isso para punir Jonas, mas para manifestar Seu amor para com o profeta desobediente. Ele queria deixar claro que a ordem recebida era a manifestação de Seu amor gracioso, e que a desobediência de Jonas não impediria o cumprimento da vontade divina para com os ninivitas.

Na escola de Deus não há aulas virtuais; são presenciais e práticas.

Depois de lavar os pés dos discípulos, Jesus disse: “Vocês viram o que eu fiz; façam o mesmo.” O Evangelho é para ser vivido, praticado e manifestado. O genuíno evangelismo é aquele que é pregado e visto na vida cotidiana.

As tempestades fazem parte da pedagogia de Deus para ensinar Seu profeta – e também a nós. Quando o enorme navio Titanic estava para iniciar sua primeira (e única) viagem, alguém perguntou ao engenheiro responsável pela construção: “Não há perigo de um navio tão grande naufragar no mar?” Ele respondeu: “Nem Deus afunda este navio!” Todos riram. O Titanic não chegou a completar sua primeira viagem.

Então os marinheiros ficaram com medo; e cada um clamava ao seu deus...Onde depositamos a nossa fé?

É no meio das tempestades que descobrimos em quem realmente cremos. Os profetas cansaram de exortar o povo para que não buscassem outros deuses, mas servissem e adorassem somente Yahweh. Eles não ouviram... então veio o exército assírio; ainda não aprenderam... veio o exército babilônico... e quarenta anos de cativeiro... somos crentes difíceis de aprender...

“...e lançaram ao mar a carga que estava no navio, para aliviar a carga.” O navio estava carregado de mercadorias valiosas, mas diante da morte iminente o valor delas tornou-se insignificante. Lançaram tudo ao mar. Jesus disse ao jovem rico: “Vai, vende tudo o que tens e depois vem e segue-me.” O rapaz se afastou triste, pois tinha muitos bens. Veja a diferença do apóstolo Paulo: “Abri mão de tudo para ter a Cristo.”

Onde estava Jonas em meio a tudo isso? Mas Jonas desceu às partes mais baixas do navio, deitou-se e dormiu profundamente.” Quando nos afastamos da vontade de Deus, tornamo-nos alienados dos perigos ao nosso redor. Mesmo grandes tempestades não são suficientes para nos acordar. Aqui não é o sono do justo (vida), mas o sono do desobediente/negligente (morte).

A Bíblia nos ensina com clareza que Jesus Cristo está voltando, mas a maioria das pessoas está tão absorta em seus planos, correndo atrás de seus sonhos, que dorme... Assim como as cinco virgens adormeceram despreocupadamente, até que se ouviu o grito: “O noivo está chegando!” Desesperadas, saíram atrás de mais óleo. Quando retornaram, as portas da boda estavam fechadas definitivamente...era tarde demais!

Noé trabalhou quarenta longos anos. As pessoas faziam seus negócios, casavam-se, assistiam aos campeonatos...pulavam seus carnavais... então Deus fechou a porta da arca, e as águas desceram até que toda vida fosse exterminada. Noé nada podia fazer por elas, pois foi Deus quem fechou as portas.

No Apocalipse, Jesus diz: “Eu sou aquele que abre e ninguém fecha, mas também sou aquele que fecha e ninguém pode abrir.”

Então o capitão veio até Jonas...” – “Acorda, dorminhoco!” Jonas é questionado sobre a razão de dormir enquanto todos estavam prestes a morrer. Isso nos lembra uma cena lamentável: no Getsêmani, por três vezes Jesus acordou Seus discípulos, que não puderam orar com Ele nem por um pouco de tempo.

Meus amados, o sono não pode prevalecer; a inércia não pode prevalecer.

Hino
Despertai-vos! Levantai-vos!
Não há tempo a perder.
Se quereis servir a Cristo,
Tendes muito que fazer.
Meditai no Seu amor,
Meditai no que Ele fez.
Pela morte no Calvário,
Resgatou-nos de uma vez!

Levanta-te, invoca o teu Deus; talvez o teu Deus nos considere, para que não pereçamos.” Para vergonha de Jonas, é o comandante do navio quem vem despertá-lo.

Vigiai e orai... mas nós estamos dormindo!

O Senhor nos dá a Sua Palavra como espelho para vermos na apatia de Jonas...a nossa própria. Ele dormia tranquilamente enquanto todos corriam risco de morte. John Knox orava todas as noites: “Senhor, dá-me a Escócia, senão eu morro!” Jesus disse: “A seara é grande, está pronta para a ceifa; rogai ao Senhor da seara que envie mais ceifeiros.”

Vamos acordar!    

Perguntas Para Reflexão

1. Onde está a nossa confiança em meio às tempestades?

Resposta: Muitas vezes, como os marinheiros, buscamos soluções humanas ou clamamos a outros “deuses”, mas somente o Senhor tem poder sobre o vento e o mar.

Referência: “Mas o Senhor enviou ao mar um grande vento, e fez-se no mar uma grande tempestade...” (Jonas 1.4)

2. O que revelam as tempestades sobre o valor que damos às coisas?

Resposta: Elas expõem que bens materiais e conquistas humanas não têm valor diante da vida e da eternidade.

Referência: “...e lançaram ao mar a carga que estava no navio, para aliviar a carga.” (Jonas 1.5)

3. Qual é o perigo de nos afastarmos da vontade de Deus?

Resposta: Tornamo-nos insensíveis e alienados, incapazes de perceber os riscos ao nosso redor, como Jonas que dormia em meio ao caos.

Referência: “Mas Jonas havia descido às partes mais baixas do navio, deitou-se e dormia profundamente.” (Jonas 1.5)

4. Quem nos desperta quando estamos espiritualmente adormecidos?

Resposta: Muitas vezes, Deus usa até mesmo pessoas inesperadas, como o capitão que acordou Jonas, para nos chamar de volta à vigilância e oração.

Referência: “Então o capitão veio até ele e disse: ‘O que você quer dizer, dorminhoco? Levante-se, invoque o seu Deus; talvez o seu Deus nos considere, para que não pereçamos’.” (Jonas 1.6)

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Guedes, Ivan Pereira

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Peregrino – Capítulo 1 - O Início da Jornada [Frases Relevantes-série]

Desenho de uma pessoa

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Uma Breve Introdução do Livro

A primeira edição de O Peregrino [The Pilgrim’s Progress from This World, to That Which Is to Come], de John Bunyan, foi publicada em 1678 e, ao longo dos séculos, tornou-se a mais conhecida alegoria da vida cristã já escrita. Por meio da jornada do personagem central – Cristão, o autor retrata o caminho da salvação desde o despertar espiritual (conversão) até a entrada na Cidade Celestial (glorificação).

Engana-se quem pensa ou trata a obra apenas como literatura; trata-se de uma narrativa imersa em uma teologia vivencial. Cada personagem, lugar e evento é representativo de realidades espirituais vivenciadas por cada crente em seu próprio contexto, de maneira que a obra se torna universal em sua aplicação. O tema central é a perseverança da fé em meio às lutas, tendo Cristo como único fundamento da salvação.

Bunyan escolhe desenvolver sua história utilizando a linguagem alegórica, ou seja, uma narrativa simbólica em que:

  • Personagens representam verdades espirituais
  • Lugares representam estados da alma
  • Eventos representam experiências da vida cristã

A título de exemplo:

  • O fardo = culpa do pecado
  • A Cidade da Destruição = o mundo caído
  • A Cidade Celestial = o céu
  • O personagem Cristão = todo verdadeiro convertido

Dessa forma, no desenvolver da história, nada é meramente literal; tudo tem como objetivo ensinar teologia na prática e não em dogmas doutrinários.

O livro foi escrito com o propósito devocional, a fim de conduzir o leitor à conversão, ao fortalecimento da fé e ao estímulo à perseverança. Durante séculos, tem sido utilizado em cultos domésticos, em classes de novos convertidos e no discipulado, tornando-se uma obra de referência para a vida devocional cristã. Infelizmente, os ávidos por novidades o descartaram e o substituíram por literaturas pueris e supérfluas, sem profundidade espiritual e sem confrontação com o pecado em suas múltiplas formas.

A proposta desta série é abordarmos algumas frases relevantes de cada capítulo, visto que o espaço utilizado tem suas limitações. É evidente que muitas outras declarações importantes contidas na narrativa ficaram de fora; por isso, peço antecipadamente desculpas e incentivo você, leitor, a procurá-las e desenvolvê-las como exercício devocional, que muito o enriquecerá.

A Cristo toda glória!

Capítulo 1 – O Início da Jornada

No primeiro capítulo o autor apresenta o momento da conversão (despertar espiritual) de Cristão. Este momento único, pois a conversão não se repete, é demarcado pelo peso insuportável do fardo (pecado) em suas costas e pela consciência da ira vindoura (juízo de Deus).

A narrativa passa a mostrar sua profunda angústia diante da condenação e sua decisão de abandonar a Cidade da Destruição em busca da salvação. É o início da jornada, onde a urgência da fé e o desejo de libertação do pecado o impulsionam a seguir por um caminho desconhecido, mas necessário.

“Fé é certeza do que esperamos e convicção do que não vemos.”

Hebreus 11:1

 

O autor inicia sua história no momento decisivo em que Cristão, lendo o Livro [bíblia], toma consciência de sua real condição diante de Deus. Até então, vivia como todos os habitantes da Cidade da Destruição: distraído, ocupado, aparentemente seguro. Mas enquanto lê as Escrituras seus olhos se abrem para duas verdades que não podem mais ser ignoradas: ele está perdido e o juízo de Deus é uma realidade.

Deste modo, a frase “Fugi da ira vindoura” é a expressão do clamor existencial de uma alma que finalmente enxerga a gravidade do pecado e a realidade da condenação eterna. Ele não teme apenas os problemas desta vida, mas o juízo que virá sobre todos os que permanecem indiferentes, recusando-se afrontosamente a arrepender-se de seus pecados e a crer no Evangelho.

Assim, a expressão constitui-se no ponto de ruptura entre a indiferença e a conversão. Então, ele sente como que um pesado fardo em suas costas, simbolizando a culpa (o pecado) que não pode mais ser ignorada. Ao tomar a decisão de partir, mesmo sem ter todas as respostas, revela a determinação de quem, uma vez tocado pela graça, não consegue mais permanecer na mesma condição, vivendo no mesmo estilo de vida pecaminoso em que estava. O hino, abaixo, transcrito em parte realça esse momento de cada Cristão:

Algemado por um peso

Oh, quão triste eu andei

Até sentir a mão de Cristo

Não sou mais como era, eu sei

Tocou-me, Jesus tocou-me

De paz Ele encheu meu coração

Quando o Senhor Jesus me tocou

Livrou-me da escuridão

Tocou-me

(Composição original: William Gaither

e Interpretado por Luiz de Carvalho)

A expressão “Fugi da ira vindoura” revela que a verdadeira conversão não começa com promessas de glória ou visões celestiais, ou como é moda hoje, com promessas de prosperidade e/ou cura, mas com a consciência do eminente juízo de Deus. Enquanto isso não ocorre, a pessoa pode ser religiosa (até mesmo evangélica), moralmente ilibada (nunca matou, nunca roubou...), mas ainda está espiritualmente morto. É exatamente isso que aconteceu com Cristão - o que o despertou não foi a esperança imediata da Cidade Celestial, mas a realidade do juízo que se aproximava.

Ele não correu em direção a algo, mas fugiu de algo. Fugiu da ira. Esse movimento revela uma verdade bíblica profunda:

ninguém busca verdadeiramente a salvação

até compreender verdadeiramente sua perdição.

Enquanto o pecado é visto algo pequeno, um mal menor, um desvio de personalidade, e cousas semelhantes, Cristo torna-se desnecessário. Mas quando o pecado é reconhecido com suas consequências eternas, Cristo se torna absolutamente indispensável.

Assim sendo, esta fuga de Cristão é, na verdade, seu primeiro ato de fé. Não é ainda descanso, mas é um desespero cheio de esperança. É o momento em que a alma, tocada pela graça, percebe que não pode mais permanecer na mesma condição e se lança em busca de refúgio.

Podemos encontrar essas mesmas sensações no testemunho de Agostinho, em suas Confissões -  onde ele descreve a experiência de estar aprisionado pelo pecado, inquieto e incapaz de encontrar paz em si mesmo. Sua célebre frase — “Nos fizeste para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti” — revela que o despertar espiritual nasce da percepção da própria miséria e da necessidade de Deus. Ambos tomam consciência de que não podem permanecer como estão. E a fuga não é apenas afastar-se do perigo [medo do juízo eterno], mas muito mais do que isso, é correr em direção ao único refúgio seguro: Cristo. Uma das cenas mais lindas de “Peregrino” é quando cristão finalmente contempla a cruz e o seu pesado e insuportável peso, cai de suas costas. Vamos chegar lá, aqui estamos apenas no início da jornada.

Portanto, o desespero de Cristão e a inquietação de Agostinho são faces da mesma realidade espiritual: o evangelho da graça desperta, expõe a perdição e conduz ao primeiro passo de fé. Não é ainda o descanso pleno, mas é o início da jornada gloriosa que culminara na paz verdadeira.

Neste paralelo precioso somos lembrados de que todo coração que desperta para a gravidade do pecado e para a certeza do juízo encontra em Cristo não apenas uma possibilidade e/ou probabilidade, mas a única esperança real e verdadeira. É no reconhecimento da própria perdição que nasce a fé genuína, e é nesse movimento de fuga e busca que se experimenta a verdadeira conversão.

Aqui podemos ouvir o eco das palavras de Jesus: “Quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, porém, não crê no Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus (João 3:36). A fuga não é apenas um gesto de medo, mas o reconhecimento de que fora de Cristo não há esperança.

Em perfeita harmonia com as palavras de Cristo, temos as afirmações de Paulo em sua epístola aos Romanos. O despertar de Cristão em O Peregrino encontra paralelo direto na Epístola aos Romanos: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens” (Rm 1:18) e “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3:23). É essa percepção que rompe a indiferença; o fardo que Cristão sente em suas costas é a tradução existencial dessa verdade. Ele ainda não compreende plenamente o Evangelho, mas já reconhece a gravidade de sua condição.

Assim, Bunyan está fundamentado no ensino bíblico, pois, o início da jornada espiritual não é marcado pelo descanso, mas pela consciência da perdição. É o momento em que a alma, tocada pela graça, percebe que não pode mais permanecer como está.

Assim também deve ser conosco: o caminho da fé começa quando entendemos que não há segurança fora de Cristo. O peso da condenação do pecado deve nos impulsionar – “Fugi da ira vindoura”. Que possamos ouvir a mensagem do Evangelho e respondermos com passos firmes rumo à Cristo e à vida eterna.

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

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