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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

NT - As Epístolas Paulinas: Introdução Geral


No arranjo canônico do Segundo Testamento logo após os quatro Evangelhos e o livro de Atos, temos uma sequencia de vinte e uma Epístolas,  chegando a vinte e duas se incluirmos o Apocalipse como uma epístola (que em realidade é - veja Apocalipse 1:4), todavia, por causa de sua natureza apocalíptica sem igual, deve ser categorizada e estudada distintamente como o Livro Profético do Novo Testamento.[1]
Tratando sobre esta questão das epístolas Louis Berkhof destaca a relação paritária das epístolas com as demais literaturas bíblicas como instrumento da revelação de Deus:
 A revelação de Deus vem para nós em muitas formas, em diversas maneiras. A Mensagem de Deus foi proclamada não apenas oralmente mas também na forma escrita; não apenas pelos profetas, mas também pelos doces cantores e pelos homens sábios de Israel; assim também, o Evangelho encontra expressão não apenas nos Evangelhos, mas também nas Epístolas. Praticamente um terço do Novo Testamento está estruturado na formula epistolar (1915).

Nessa mesma linha de perspectiva  F. F. Brucce destaca que cronologicamente as Epístolas na verdade precedem os Evangelhos:
Os mais antigos  documentos neotestamentário, segundo chegaram até nós, são as cartas escritas pelo apóstolo Paulo antes de seu encarceramento em Roma (cêrca de 60-62 A.D.). O mais antigo dos Evangelhos na forma atual não se pode provavelmente atribuir a data anterior ao ano 60, mas da pena de Paulo temos nada menos de dez Epístolas datadas entre 48 e 60 (1965, p. 99).
As Epístolas estão geralmente divididas em Epístolas Paulinas e as Não Paulinas e/ou Epístolas Gerais.[2] As Epístolas de Paulo podem ser subdivididas em duas categorias: nove epístolas escritas a igrejas (Romanos a II Tessalonicenses) e quatro pastorais ou pessoais (1 e 2 Timóteo, Tito e Filemom), perfazendo um total de treze.
É preciso destacar também que Paulo escreveu muitas outras cartas que nós não possuímos. Isto fica evidente nas entrelinhas de suas próprias Epístolas. I Cor. 5:9 faz referência a uma carta perdida. Col. 4:16 fala de uma correspondência enviada a Laodiceia, da qual temos tão somente esta indicação. Mas aprouve ao Espírito Santo inserir apenas estas cartas no Cânon das Sagradas Escrituras. E como nos informa Kummel:
No começo do século XIX, a origem paulina de algumas epístolas foi posta em dúvida – em primeiro lugar , as Pastorais, e, depois também as epístolas aos Tessalonicenses, aos Efésios, aos Filipenses e também aos  Colossenses.  Nessa época F. C. Baur e a Escola de Tubingen reconheciam apenas as chamadas ‘grandes epístolas’ (Gálatas, I e II Coríntios, Romanos) como autênticos documentos do Apóstolo, porque somente estas epístolas poderiam ser entendidas como testemunhos da luta entre Paulo e os judaizantes. Mas logo se tornou patente que a Escola de Tubingen encerrava a imagem histórica da cristandade primitiva num esquema por demais estreito. Os defensores da ‘critica-radical’ chegaram a negar a autoria de Paulo até para as quatro ‘grandes cartas’, explicando-as como sedimentação de correntes  antagônicas por volta do ano 140. Eles partiram de pressupostos literários insustentáveis e de uma construção forçada da história, como o fizeram as construções posteriores (1982, p.320).
Após as correspondências paulina temos oito epístolas[3] dirigidas aos Cristãos judeus dispersos (Hebreus[4] a Judas), que nos manuscritos antigos usualmente segue imediatamente depois de Atos dos Apóstolos e, portanto precede as Epístolas Paulinas, talvez porque elas foram elaboradas pelos apóstolos mais velhos e no general enfatizam as comunidades Cristãs Judaicas, provavelmente formadas pelos judeus convertidos no sermão de Pedro, e outros, durante a Festa do Pentecostes. Sua apresentação da verdade naturalmente difere das Epístolas escritas por Paulo, que visa principalmente os gentios, mas cada uma delas esta em harmonia perfeita, não havendo qualquer tipo de contradição.
A pregação do Evangelho originalmente era feita de forma apenas oral, e aqueles que eram convertidos se uniam formando pequenas e singulares comunidades ou igrejas. Os apóstolos e os demais evangelistas iam anunciando a Cristo em diversas regiões do mundo conhecido no século primeiro. Deste ministério missionário surge a necessidade de se comunicar com algumas dessas comunidades cristãs para instruí-las na fé, para animá-las e exortar ou então corrigir deficiências. As cartas foram o meio mais eficiente e rápido para se fazer este trabalho pastoral à distância como tão bem esclarece José Roberto Cardoso em seu artigo:
O recurso à carta surgiu na antiguidade da necessidade de comunicação entre indivíduos que se encontravam geograficamente distantes uns dos outros. O impedimento da presença da pessoa fez dela o melhor porta-voz. É verdade que se fizeram necessárias diversas tentativas e versões, a fim de se evitar que seu conteúdo ficasse obscuro ou ambíguo. Para tanto, o escritor tinha que ter em mente a impossibilidade do destinatário de pedir esclarecimentos sobre qualquer ponto em questão. ... Conforme J. L. White (1986, p. 190), a carta atendia a três propósitos bem definidos: ‘(1) fornecer informações; (2) fazer petições ou dar ordens/instruções; e (3) desenvolver ou manter contato pessoal com os recipientes’ Essas funções epistolares modelavam as espécies de cartas no mundo helenístico. O relatório militar ou da burocracia atendia ao primeiro item. As relações sociais entre inferiores e superiores, entre iguais e entre mestres e alunos encaixavam-se no segundo item. Já a correspondência de amizade e familiar pertenciam ao terceiro. Para os antigos escritores, esse último tipo de correspondência era o mais estimado, comparado a um dom (2000, p. 28-29).

Tornou-se também um modo excelente de fazer com que essas instruções ficassem perpetuadas através e para as gerações, como bem coloca Kummel:
A força motriz para a formação independente da forma epistolar num meio de auto comunicação literária da cristandade foi a real necessidade da missão para a edificação e instrução, admoestação e trabalho pastoral, defesa contra ideias errôneas, e manutenção da ordem eclesial (1982, p. 318-319).
Estrutura das Cartas do Novo Testamento
            De acordo com as informações de Robert H. Gundry (1987, p. 287) as cartas particulares, no período greco-romano, tinha em torno de noventa palavras em média e que pelas dimensões da folha de papiro (34 cm x 28 cm) não caberia mais do que 150 a 250 palavras, de modo que, as cartas pessoais se restringiam normalmente a uma folha apenas.
            Mas ao examinarmos as cartas de Paulo verificaremos que são muito mais extensas indo de 335 palavras em Filemom a 7.101 palavras em Romanos, perfazendo uma média em torno de 1.300 palavras. Deste modo, pode se dizer que Paulo criou uma nova forma literária, a epístola – caracterizada por ser uma carta extensa, ter uma natureza teológica e usualmente um objetivo comunitário dos endereçados. Todavia, ele mantém toda a estrutura de uma carta genuína, pois contém endereçados genuínos e específicos, se distinguindo das epístolas literárias daqueles dias, que eram escritas para um público geral.
            O Professor Felix Just faz um amplo e excelente estudo da estrutura literária das cartas neotestamentárias, das quais utilizamos aqui apenas a parte introdutória.
Estrutura Padrão de Cartas Antigas:
As comunicações escritas hoje seguem alguns formatos bastante comuns e padronizadas:
  • Cartas pessoais normalmente começam com algo parecido como “Querida Maria” e terminam com “Amor, João”. Nós escrevemos a data à direita do topo e depois de escrevermos uma ou mais paginas... assinamos, dobramos, colocamos em um envelope, escrevemos o endereço do recipiente e o remetente colocamos no verso do envelope.
  • Memorandos empresariais ou mensagens de Email têm freqüentemente um cabeçalho com quatro partes (Para: / De: / Data:Mensagem: ou  De: / Enviou: / Para: / Assunto:).  
Assim também, a maioria das cartas escritas no mundo antigo seguia um formato padronizado, mas que é ligeiramente diferente de hoje. As cartas no NT escritas e/ou normalmente atribuído a Paulo e outros Apóstolos segue os modelos padronizados da sua época. Embora haja algumas variações nas cartas individuais (especialmente no corpo e conclusão), as estruturas básicas das cartas antigas podem ser esboçadas como segue:
I) Cabeçalho da Carta
  1. Remetente(s): De quem
  2. Recipiente(s): Para quem
  3. Formula de Saudação
  4. Ação de Graças (ou Bênção)
II) Corpo da Carta
  1. Exortação inicial
  2. Declaração do assunto
  3. Discussão teológica
  4. Advertência ética
III) Conclusão da Carta
  1. Assuntos práticos
  2. Saudações individuais
  3. Pós-escrito pessoal
  4. Doxologia ou Oração final
Características Especiais das Cartas Paulina:
  • Na maioria destas cartas, Paulo não é o único autor, mas são mencionados um ou mais co-autores (quem normalmente é listado? Quais cartas listam só Paulo? Pôr que?)
  • Estas cartas não são endereçadas a todas as pessoas indistintamente, mas exclusivamente às pequenas e iniciantes comunidades de Cristãos (como exatamente Paulo se dirige a eles?).[5]
  • A “Saudação Padrão Paulina” associa uma variação da saudação grega habitual (chaire –“Graça”) com a saudação judia comum (shalom –“Paz”)
  • Todas as cartas escritas ou atribuídas a Paulo contêm um padrão de três seções principais, mas nem todas as cartas Paulinas contêm exatamente as mesmas subdivisões como mencionado acima:
    • às vezes uma subdivisão é omitida, (por exemplo na abertura de Gálatas; no fim de 1 Tessalonicenses)
    • às vezes a ordem de subdivisões é mudada (os fins de muitas das cartas de Paulo)
    • às vezes algumas cartas têm mais de uma seção do mesmo tipo (por exemplo duas "ações de graças" em 1 e 2 Tessalonicenses)
    • frequentemente as preocupações teológicas, éticas, e práticas são entrelaçadas (especialmente nas cartas longas), assim as divisões de verso no “Corpo da Carta” e os subtítulos são apenas sugestões aproximadas.         
Edição das Cartas
Outra prática comum no mundo antigo era colecionar e republicar as cartas de pessoas famosas como Paulo.  Neste processo, foram combinadas às vezes cartas mais curtas ou outras mudanças editoriais. Isto não diminui em absolutamente nada a inspiração e inerrância das Epistolas canônicas.
Por exemplo, o que é chamada “Segunda Carta de Paulo normalmente aos Coríntios" (2 Cor) poderia ser uma compilação de que estava originalmente entre duas e cinco cartas separadas. Semelhantemente, alguns estudantes pensam que a “Carta de Paulo aos Filipenses” é uma compilação posterior de três cartas originalmente separadas.
Gênero Literário
As cartas incluem gêneros literários diferentes: desde um profundo tratado teológico sobre a fé (ex. Romanos), até uma simples carta pessoal (ex. Filemom), passando pelas temáticas diversificadas (ex. Coríntios).
Estes gêneros literários devem-se, sobretudo às circunstâncias diversas das cartas, mas também, como no caso de Paulo e Pedro, ao temperamento arrebatado e no caso de João um paternal amor em favor dos crentes e suas comunidades.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/


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Referências Bibliográficas
BARCLAY, William. El Nuevo Testamento comentado. Buenos Aires (Argentina), Asociación Editorial la Aurora, 1974.
BROWN, Raymond. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004 (Coleção Bíblia e história Série Maior).
BERKHOF, Louis . New Testament Introduction. Eerdmans, 1915, Scanned and Edited Mike Randall.
BRUCE, F. F. Merece Confiança o Novo Testamento? São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1965.
CARDOSO, José Roberto C. 1 Tessalonicenses: Epístola e Peça Retórica, Fides Reformata, v.7, São Paulo, 2000, pp. 28-29.
GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1987.
HALE, Broadus David. Introdução ao estudo do Novo Testamento. Trad. Cláudio Vital de Souza. Rio de Janeiro: JUERP, 1983.
JUST, Felix, Loyola Marymount University, Editoração Eletrônica: clawww.lmu.edu/~fjust
KUMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982.
WESTCOTT, Brooke Foss. A general survey of the history of the canon of the new testament. 4ª ed. London: Macmillan and Co., 1875.




[1] É preciso levar em conta a observação de Kummel: “Mas nem todos são realmente cartas, ou seja, escritos endereçados em ocasiões especificas a pessoas determinadas ou a círculo de pessoas, escritas coma finalidade de comunicação íntima, sem intenção de maior divulgação. Em Tiago, por ex., falta tudo o que constitui realmente uma carta. O Apocalipse, para dizer a verdade, está moldado num estilo epistolar, mas, literariamente falando, pertence ao gênero apocalipse. Com relação à Epístola aos hebreus, as opiniões variam largamente, não se sabendo ao certo se deve ser considerada como uma verdadeira carta ou um ensaio artisticamente elaborado e dirigido a um público mais vasto, empregando a forma epistolar apenas como forma externa. Entre as epístolas católicas, somente a segunda e terceira epístolas de João são realmente cartas, com endereços exatos e específicos”. KUMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento, ed. Paulus, São Paulo, 1982, pp. 316-317.
[2] Pôr que essas Epístolas começaram a serem chamadas de Gerais ou Católicas, é mais ou menos um enigma. Várias interpretações para esta classificação têm sido dado, mas nem uma delas tem sido inteiramente satisfatória.
[3] Destas oito Epístolas Hebreus e as primeiras de Pedro e a primeira de João foram geralmente aceitas como canônicas desde o começo, enquanto as demais a princípio foram questionadas e posteriormente foram gradualmente sendo aceitas por todo a Igreja.
[4] Vários estudiosos somam a Epístola aos Hebreus à cota paulina, embora em nenhum lugar dela haja referência de que Paulo a escreveu. A Igreja esteve sempre dividida nesta questão, a Igreja Oriental confirmando e a Ocidental rejeitando que Paulo tenha sido o seu autor. Quando abordarmos a referida epístola haveremos de discutir mais detalhadamente este aspecto.
[5] “... as cartas de Paulo foram escritas por um autor particular e dirigidas a um circulo particular de leitores e não a um público geral. Sempre são determinadas e referentes a uma situação definida, ainda que outras questões surgidas no seu decorrer possam escondê-la. É isso que torna as cartas de Paulo tão atraentes, embora também fique mais difícil a compreensão ao leitor posterior.” BORNKAMM, Gunther. Bíblia – Novo Testamento – Introdução aos seus Escritos no Quadro da História do Cristianismo Primitivo, Edições Paulinas, 1981, p.74.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

NT – Epístolas Pastorais

      
Na forma com que os livros do Segundo Testamento foram organizados em nossas bíblias, as correspondências paulinas estão colocadas logo após o livro de Atos. Elas foram divididas em dois subgrupos: as nove primeiras são endereçadas a comunidades com as quais Paulo manteve relacionamento pessoal ou de afinidades (Romanos a Tessalonicenses) e as quatro últimas são endereçadas a indivíduos (1 e 2 Timóteo, Tito e Filemom). Elas não estão organizadas por ordem cronológica, mas por ordem lógica decrescente segundo o tamanho, tendo como exceção a epístola aos Gálatas que precede a de Efésios.  Estas correspondências produzidas pelo Apóstolo Paulo são fundamentais para compreendermos o que acontecia nos bastidores das comunidades cristãs do primeiro século.
A História do Cristianismo ou da Igreja nos revelam que desde seus primeiros dias houve dificuldades infligidas pelos opositores externos, primeiro por parte dos judeus, que viam nos cristãos uma seita e na sua mensagem heresias que desvirtuavam a religião judaica fundamentada no Primeiro Testamento legado por Moisés, os profetas e demais escritos milagrosamente preservados e tomados por inspirados por Deus; posteriormente as perseguições foram efetivadas pelo próprio Império Romano, que passaram a ver que o cristianismo era muito mais que apenas uma seita do judaísmo, e que em sua expansão indescritivelmente rápida por todo o Império começava a tomar contornos perigosos para o Estado e, portanto, deveriam ser devidamente enquadrados ou extirpados, como se faziam com qualquer outro inimigo.
Desta forma poderíamos ser iludidos pela ideia romântica de que as comunidades cristãs foram vitimas unicamente de inimigos externos cruéis e sedentos de sangue, mas ao lermos as cartas de Paulo dirigidas às comunidades, bem como a seus companheiros de atividades missionárias, tomamos conhecimento de que internamente elas travavam diversas batalhas, quer sejam as relacionadas às doutrinas que estavam sendo estabelecidas como padrão de fé, como também outras relacionadas a questões interpessoais tão peculiares à mesquinhez dos relacionamentos humanos.
Nas páginas evangélicas já percebemos estas questões vindo à tona nos relacionamentos dos próprios apóstolos, onde há disputas abertas sobre quem seria o maior entre eles; em Atos o escritor deixa transparecer também que desde seus primeiros dias as comunidades cristãs experimentam dificuldades internas, mesmo antes das perseguições judaicas, como foi o caso das viúvas que estavam sendo negligencias e que somente se resolveu com a eleição de diáconos que foram investidos de autoridade para tratar a questão. Mas é nas epístolas paulinas que podemos acompanhar o quanto estas questões internas se ampliavam na mesma proporção em que elas se multiplicavam por todas as partes, quer nos grandes centros urbanos ou nos pequenos vilarejos, quer por parte de sua membresia ou entre suas lideranças eclesiásticas. Antes de ser uníssona e harmoniosa o desenvolvimento destas comunidades geraram muitas divergências, disputas e lagrimas.
Além das cartas dirigidas às comunidades que de alguma forma se relacionavam à sua vida e trabalho missionário, encontramos um pequeno e seleto grupo de cartas pessoais de Paulo, dirigidas a seus amigos e companheiros: Filemom, Timóteo e Tito. O Cânon Moratori, uma das primeiras listas oficiais dos documentos que compõe nosso Segundo Testamento, se refere a estes escritos “como expressão do sentimento e afeto pessoal” (Barclay, 1974, p. 09), pois são correspondências privadas mais do que públicas.
A pequena carta dirigida a Filemom trata especificamente da preocupação do apóstolo com o destino de um escravo foragido chamado Onésimo e que preso, provavelmente evangelizado por Paulo, agora precisa retornar ao seu senhor Filemom; as duas destinadas a Timóteo e uma a Tito tratam sobre alguns temas doutrinários e se preocupa particularmente com algumas questões eclesiásticas, sendo por isso desde muito cedo denominadas de cartas e/ou epistolas pastorais pelos seus estudiosos.
Neste momento dos nossos estudos sobre as correspondências paulinas daremos atenção especial a estas três cartas, que nos revelam o apóstolo na última fase de suas atividades missionária e pastoral e de forma peculiar a segunda correspondência dirigida a um não mais tão jovem Timóteo, sendo que para nós esta carta torna-se o “canto do cisne” do velho e valoroso apóstolo dos gentios.

Cartas Pessoais ou Pastorais?
            Os três documentos do corpus paulino destinados a Timóteo e Tito desde o século XVIII foram denominadas de “Epístolas Pastorais”, primeiramente por D.N. Bardot (1703), e posteriormente popularizadas por Paul Anton (1726) em uma série de palestras que apresentou sobre elas e que logo se tornou popular na Alemanha e desde então esta designação tem sido usado de forma universal pelos estudiosos e comentaristas bíblicos.
            Todavia se faz necessário fazermos ressalvas quanto a esta forma de denomina-las, pois elas não são necessariamente manuais de organização eclesiásticas, “pois as pastorais não oferecem instruções  detalhadas sobre como deve funcionar a ordem da Igreja. 2 Timóteo não trata do assunto e Tito o faz apenas de maneira esquemática” (COLLINS, p. 110-111, apud, BROW, 2004, p. 8360). Elas na verdade não incluem todos os deveres e ocupações de um pastor, também não entra nos detalhes mais profundos da função pastoral, o que se esperaria de um manual de instrução, caracterizando-se como breves cartas; há muito nelas que se refere unicamente a circunstâncias puramente locais e às condições peculiares ao período em que foram escritas, de maneira que em seu conteúdo geral elas não tratam especificamente com questões pastorais.
            É oportuno relembrar que as comunidades cristãs do primeiro século não possuíam toda esta estrutura organizacional que foi desenvolvida pelas igrejas ao longo dos séculos. Eram comunidades pequenas e funcionavam com uma estrutura muito simples e com papeis muito bem definidos de suas lideranças eclesiásticas, de maneira que, não é hermeneuticamente correto levarmos para dentro destas epistolas toda a complexidade eclesiástica moderna.
            Provavelmente por causa desta alcunha de “pastorais” estas três cartas acabaram sendo preteridas pelos leitores comuns da Bíblia. Entretanto, elas são de fundamental importância para compreendermos as implicações do rápido crescimento das comunidades cristãs em seus primórdios. Nos tempos modernos elas têm sido tratadas como sendo resultantes de documentos subapostólicos, produzidas não pelo próprio Paulo, mas por cristãos da chamada segunda geração. Mas pelo simples fato de que se constituem em preciosos documentos elaborados quando a Igreja começava sua trajetória para institucionalizar-se, falam mais diretamente à nossa situação e condição atual.

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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BARCLAY, William. El Nuevo Testamento comentado. Buenos Aires (Argentina), Asociación Editorial la Aurora, 1974.
BROWN, Raymond. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004 (Coleção Bíblia e história Série Maior).
BRUNET, Rosangela. O Cisne Branco: Canto e (Re) nascimento. Disponível em  http://contruindooser.blogspot.com.br/. Acesso em 19/06/2014.
CARROL, B. H. Exposição das epístolas pastorais. 2ª ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista.
CESARÉIA, Eusébio de. História eclesiástica. São Paulo: Novo Século, 1999.
COLLINS, R. F. Latters that Paul did not write (Wilmington, Glazier, 1988).
DEISSMANN, A. Light from the Ancient East – the New Testment illustrated by recently discovered text of the Graeco-Roman world. London: 1927, 2. ed. (apud BROWN, 2004, p. 550).
HALE, Broadus David. Introdução ao estudo do Novo Testamento. Trad. Cláudio Vital de Souza. Rio de Janeiro: JUERP, 1983.
HARRISON, P. N. The problem of the pastoral epistles. Londres: Oxford University Press, 1921.
HAWTHORNE, Gerald F. e MARTIN, Ralph P. e REID, Daniel G. (Org.). Dicionário de Paulo e suas cartas. 2ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2008.
HIEBERT, D. Edmond. A primeira epístola a Timóteo. Brasil: Imprensa Batista Regular, 1965.
HUMPHREYS, A. E. The epistles Timothy and Titus – with introduction and notes. Cambridge: The University Press, 1895 [Cambridge Biblie – PEROWNE J. J. S. Editor]
KELLY, John Norman Davidson. I e II Timóteo e Tito – introdução e comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 2008. [Série Cultura Bíblica].
REUSS, Eduard. The sacred scriptures of the New Testament, v. 1. Boston: Houghton, Mifflin e Company, 1884.
SPAIN, Carl. Epístolas de Paulo e Timóteo e Tito. São Paulo: Editora Vida Cristã, 1980.
WESTCOTT, Brooke Foss. A general survey of the history of the canon of the new testament. 4ª ed. London: Macmillan and Co., 1875.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O MUNDO DO APOSTOLO PAULO: A Religião

Templo de Diana (Artemisa) em Éfeso
É muito importante se desejamos compreender corretamente as correspondências produzidas pelo apóstolo Paulo, termos uma compreensão mínima do mundo greco-romano em que ele está inserido. Quando compreendemos o seu contexto histórico passamos a ter uma perspectiva mais clara de seu ministério e de sua mensagem cristã.
Conhecermos o contexto religioso no primeiro século torna-se indispensável para compreendermos a mensagem cristã de Paulo e da igreja primitiva. O livro de Atos nos fornece ao menos dois episódios que nos ajudam a compreender as crenças e práticas religiosas daqueles dias.
No capítulo dezenove, lemos sobre os problemas que Paulo e seus companheiros de ministério enfrentaram na cidade de Éfeso. Os artesões que vivam da confecção de miniaturas da deusa Diana se revoltaram contra os cristãos que pregavam “que não são deuses os que são feitos pelas mãos humanas” (19.26). Naqueles dias, portanto, a religião era uma parte integrante da vida dos cidadãos. Os cultos apoiados pelo Estado (Império Romano) eram expressões religiosas em que todos deveriam participar ativamente. O historiador Everett Ferguson (1993, p. 188) destaca que “as crenças e práticas religiosas mais arraigadas, tanto na Grécia como em Roma ... estavam associadas com o culto cívico tradicional” O Governante financiava os mais diversos cultos para colher os frutos desta religiosidade [assim como os políticos visitam toda sorte de templos religiosos para ganhar votos].
Cada cidade tinha seu deus padroeiro (Paulo se sentiria no primeiro século no Brasil, com um santo padroeiro para cada dia do ano). A cidade de Éfeso cultuava Diana, a deusa da natureza e da procriação. A estátua dela estava colocada dentro do templo magnífico para ela construído, quatro vezes maior do que o Panteão de Atenas. As divindades como Diana eram honradas com festivais, orações e sacrifícios. As festividades anuais incluíam banquetes, entretenimentos, sacrifícios, procissões, competições atléticas e a realização de ritos de mistério. As orações incluíam invocações, adoração e petições, visando receber o favor da divindade. Os sacrifícios eram oferecidos para adoração, agradecimento ou suplica.
Os distúrbios em Éfeso, causados pelo ensino apostólico, foram impulsionados em parte pelas perdas econômicas, pois os artesões receavam perder seus negócios. Mas Lucas registra que por mais de duas horas uma pequena multidão gritava “Grande é Diana dos efésios! ”, o que nos indica que a questão econômica não era a única coisa que importava. Esta força dos cultos cívicos era tão grande que os imperadores romanos viam vantagens de se identificarem com eles em vez de combatê-los.
A cidade de Éfeso era também um importante centro de magia que era um outro aspecto da religiosidade do primeiro século. No mesmo capítulo dezenove lemos que os que praticavam magia ou a feitiçaria abandonaram suas práticas e queimaram seus livros declarando de forma pública sua nova fé.
Estes livros religiosos dos efésios continham palavras e formulas secretas que eram utilizadas para coagir os deuses a cumprir suas próprias vontades. Os praticantes buscavam riqueza, saúde e poder (seria a raiz da teologia da prosperidade?); também eram utilizadas para manipular os sentimentos de outras pessoas. O conhecimento do nome verdadeiro de uma pessoa significava ter poder sobre essa pessoa, pois os nomes e as formulas eram mescladas para se produzir uma magia forte.
O ministério de Paulo foi extremamente árduo, pois tinha que levar a mensagem do Evangelho a um mundo que tinha uma multidão de crenças religiosas. Isto deve servir de estimulo para nós hoje, que vivemos numa sociedade cada vez mais pluralista, pois também pesa sobre nós comunicarmos esta mesma mensagem do Evangelho.

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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NT – Epístolas Paulinas

Referências Bibliográficas
FERGUSON, Everett. Backgrounds of Early Christianity, 2nd ed. Michigan: Grand Rapids, Eerdmans, 1993.

Obra de Referência sobre o Apóstolo Paulo

CROSSAN, J. D.; REED, J. L. Em busca de Paulo: Como o Apóstolo de Jesus opôs o Reino de Deus ao Império Romano. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 2008.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O MUNDO DO APOSTOLO PAULO: A Filosofia

Nos dias de Paulo haviam diversas correntes filosóficas que moldavam a maneira de pensar das pessoas daqueles dias. Em Atos dezessete encontramos o apostolo discursando no centro filosófico de Atenas e entre estes haviam epicureus e estoicos, que eram duas das correntes mais influentes da época.
Quem eram estes? Vejamos de maneira muito sucinta suas ideias acerca de Deus, do ser humano e do mundo, para podermos compreender melhor a mensagem proclamada por Paulo e seus companheiros.
O estoicismo e o epicurismo eram filosofias que propunham libertas as pessoas de suas preocupações quanto a vida.
O estoicismo, fundado por Zenão, era materialista e panteísta. Eles criam que tudo estava ligado à matéria. A forma mais elevada da matéria era a natureza divina e permeava todo o universo. Era chamada de fogo, Zeus um deus. Criam que este “fogo” divino ou deus, gerou o universo e um dia retomaria novamente o universo mediante um grande incêndio. Este ciclo de criação e destruição (pelo fogo) se repete eternamente.
O estoicismo é, portanto, determinista. As cousas são como são e não podem ser mudadas. Para encontrar a verdadeira felicidade, eles criam que devia-se entender o curso da natureza mediante a razão e simplesmente aceitar as cousas como são. Se mostravam insensíveis a tudo.
Em contraste com esta forma de pensar estoica, Paulo ensina que Deus é uma pessoa e não parte do universo. Também ensinava que haveria um juízo vindouro, e não uma destruição gigantesca que levaria a outro ciclo. O conceito de uma história linear, com começo, meio e fim era algo completamente novo para o pensamento da época do início do cristianismo.
Por sua vez os epicureus (escola fundada por um ateniense chamado Epicuro de Samos [341-270 a.C.] no ano 300 a.C., aproximadamente) e se concentrava na felicidade do indivíduo, ainda que tomassem uma direção totalmente distinta dos contemporâneos estoicos. Eles criam que o caminho da felicidade era através da maximização do prazer, dando-se mais destaque aos prazeres da mente do que aos prazeres físicos, pois para eles mais importante é com quem se come do que o que se come. A paz se buscava através de uma vida tranquila e contemplativa, entre uma comunidade de amigos. Demonstravam pouco interesse por política e pela sociedade, bem como o casamento, Epicuro era celibatário, e tinham como palavra de ordem "viva o agora". Entretanto, apesar de defender a felicidade e/ou prazer como ponto central de sua filosofia, paradoxalmente, Epicuro se referia à vida como “dom amargo”. Qualquer semelhança com a Sociedade atual não é mera coincidência.
Os epicureus eram materialistas, porém não eram panteístas. Eles criam que o universo foi formado a partir de átomos que caíam do espaço e que acidentalmente chocavam-se entre si, e com o tempo formaram as estrelas, os planetas e a própria vida humana. Quando morremos, simplesmente nos dissolvemos e tornamo-nos novamente átomos. Eles criam em deuses, porém pensavam que eram como os seres humanos, mas de uma ordem mais elevada. Estes deuses habitavam alguma parte do espaço, desfrutando uma vida de prazer e tranquilidade e não tinham nada a ver com os seres humanos. Para eles os sacrifícios e rituais tinham apenas propósitos estéticos, pois não criam que os seres humanos devessem se preocupar com os deuses.
Por fim, é preciso destacar a diferença entre o epicurismo e outra escola filosófica o hedonismo. Embora o primeiro declare o prazer como o único valor intrínseco, a sua defesa da ausência de dor como o maior prazer e a sua proposta da vida simples tornam-no distinto; o hedonismo, por sua vez, enfatiza os prazeres sexuais e incentiva a busca do prazer intensamente, mesmo que implique em práticas masoquistas.
A mensagem pregada por Paulo contrariava esta forma de pensar dos epicureus. O apostolo ensinava que Deus se relacionava com sua criação e nos criou com a capacidade de nos relacionarmos com Ele. Um juízo futuro também se chocava com o pensamento deles.
Ainda que durante seu ministério no mundo grego, Paulo às vezes se utilizava de terminologias e conceitos filosóficos e até mesmo citava seus poetas, a mensagem cristã era muito distinta deles. Toda evangelização e missão deve se esforçar por fazer pontes entre a mensagem do evangelho e a forma de pensar da pessoa ou etnia a que se propõe alcançar. Todavia, se faz necessário marcar com toda clareza os pontos fundamentais e imutáveis do Evangelho. Se falharmos neste ponto acabaremos descaracterizando a mensagem e perdendo completamente o foco.

 Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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