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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

LEWIS – Cartas do Inferno (leitura reflexiva – carta 1)

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Preâmbulo

Cartas do Inferno, escrito por C. S. Lewis em 1942, é uma obra satírica e profundamente reflexiva sobre a vida espiritual e moral. O livro apresenta uma série de cartas escritas por Screwtape, um demônio experiente, para seu sobrinho Wormwood, um aprendiz. Nessas cartas, Screwtape ensina como manipular e desviar os humanos do caminho da fé cristã, revelando, de forma irônica, os perigos e armadilhas que cercam a vida cotidiana.

A genialidade da obra está em inverter a perspectiva: ao acompanhar os conselhos de um demônio, o leitor descobre, quais são as armadilhas e falácias do diabo e quais são as virtudes e práticas que deve utilizar para neutraliza-las e fortalecer sua vida espiritual.

A Primeira Carta[1]

Nas primeiras cinco cartas, dois termos relevantes são distrações e superficialidade. O objetivo de Screwtape[2] é ensinar seu pupilo Wormwood[3] a evitar argumentos racionais e a usar jargões, distrações cotidianas e amizades mundanas para afastar o paciente da fé (novo convertido ou neófito na fé cristã). Todo o esforço inicial deve ser em manter a pessoa ocupada com a chamada “vida real” e longe de reflexões profundas.

Nesta primeira carta, Screwtape oferece a Wormwood o método para manter sua influência sobre o paciente humano (recém-convertido). Ele alerta que levantar argumentos racionais não constitui a melhor arma, uma vez que tais argumentos podem aguçar o pensamento crítico e levar a pessoa a refletir sobre verdades universais. O melhor método é usar jargões, distrações e a pressão da vida cotidiana para manter a mente do paciente ocupada e, assim, mantê-lo a uma distância segura da fé.

Dessa forma, podemos perceber que a tática do demônio é preencher a mente das pessoas com o “fluxo da vida real” — jornais, rotinas, barulho das ruas — ou qualquer outra coisa que as afaste de qualquer reflexão profunda.

Assim, a carta estabelece o tom da obra: uma crítica à superficialidade moderna e ao perigo de se perder em distrações, sem buscar um sentido maior.

 

Meu caro Screwtape,

Tomo nota do que você diz sobre orientar a leitura de seu paciente e cuidar para que ele veja bastante seu amigo materialista. Mas não está sendo um pouco ingênuo? Parece que você supõe que o argumento seria o meio de mantê-lo fora das garras do Inimigo. Isso poderia ter sido verdade se ele tivesse vivido alguns séculos atrás. Naquele tempo, os humanos ainda sabiam razoavelmente bem quando algo estava provado e quando não estava; e, se estava provado, eles realmente acreditavam. Ainda ligavam o pensar ao agir e estavam dispostos a alterar seu modo de vida como resultado de uma cadeia de raciocínio. Mas, com a imprensa semanal e outras armas semelhantes,[4] nós mudamos bastante isso.

Seu homem está acostumado, desde menino, a ter uma dúzia de filosofias incompatíveis dançando juntas dentro de sua cabeça. Ele não pensa nas doutrinas como “verdadeiras” ou “falsas”, mas como “acadêmicas” ou “práticas”, “ultrapassadas” ou “contemporâneas”, “convencionais” ou “implacáveis”. O jargão, não o argumento, é seu melhor aliado para mantê-lo longe da Igreja. Não perca tempo tentando fazê-lo pensar que o materialismo é verdadeiro! Faça-o pensar que é forte, austero, corajoso — que é a filosofia do futuro. É esse tipo de coisa que lhe importa.

O problema do argumento é que ele desloca toda a luta para o terreno do Inimigo. Ele também pode argumentar; ao passo que, na propaganda prática do tipo que estou sugerindo, ele tem se mostrado, há séculos, muito inferior ao nosso Pai lá embaixo. Pelo próprio ato de argumentar, você desperta a razão do paciente; e, uma vez desperta, quem pode prever o resultado? Mesmo que um raciocínio específico possa ser torcido para terminar a nosso favor, você descobrirá que fortaleceu nele o hábito fatal de prestar atenção às questões universais e de retirar sua atenção do fluxo das experiências sensoriais imediatas. Seu trabalho é fixar a atenção dele nesse fluxo. Ensine-o a chamá-lo de “vida real” e não deixe que pergunte o que ele quer dizer com “real”.

Lembre-se, ele não é, como você, um espírito puro. Nunca tendo sido humano (oh, essa abominável vantagem do Inimigo!), você não percebe o quanto eles são escravizados pela pressão do ordinário. Uma vez tive um paciente, um ateu convicto, que costumava ler no Museu Britânico. Um dia, enquanto lia, vi um raciocínio em sua mente começando a seguir o caminho errado. O Inimigo, é claro, estava ao seu lado num instante. Antes que eu percebesse, vi meu trabalho de vinte anos começar a vacilar. Se eu tivesse perdido a cabeça e tentado uma defesa por meio de argumentos, teria sido derrotado. Mas não fui tão tolo. Ataquei imediatamente a parte do homem que estava mais sob meu controle e sugeri que já era hora de almoçar.

O Inimigo presumivelmente fez a contra-sugestão (você sabe como nunca conseguimos ouvir claramente o que Ele lhes diz?) de que aquilo era mais importante do que o almoço. Pelo menos penso que essa deve ter sido sua linha, pois quando eu disse: “De fato. Importante demais para enfrentar no fim de uma manhã”, o paciente se animou bastante; e quando acrescentei: “Muito melhor voltar depois do almoço e tratar disso com a mente fresca”, ele já estava a meio caminho da porta. Uma vez na rua, a batalha estava vencida. Mostrei-lhe um jornaleiro gritando o jornal do meio-dia e um ônibus nº 73 passando, e antes que chegasse ao fim dos degraus eu já lhe havia incutido a convicção inalterável de que, quaisquer ideias estranhas que pudessem surgir na cabeça de um homem quando estava sozinho com seus livros, uma boa dose de “vida real” (por “vida real” ele entendia o ônibus e o jornaleiro) bastava para mostrar que “esse tipo de coisa” simplesmente não podia ser verdade. Ele sabia que havia escapado por pouco e, anos depois, gostava de falar sobre “aquele senso inarticulado de realidade que é nossa salvaguarda final contra os desvios da mera lógica”. Ele agora está seguro na casa de nosso Pai.

Começa a perceber o ponto? Graças a processos que pusemos em ação neles séculos atrás, eles acham quase impossível acreditar no que é estranho enquanto o familiar está diante de seus olhos. Continue insistindo na ordinariedade das coisas. Acima de tudo, não tente usar a ciência (quero dizer, as ciências reais) como defesa contra o Cristianismo. Elas o encorajarão positivamente a pensar em realidades que não pode tocar nem ver. Houve casos tristes entre os físicos modernos. Se ele tiver de se meter em ciência, mantenha-o na economia e na sociologia; não o deixe escapar dessa inestimável “vida real”. Mas o melhor de tudo é não deixá-lo ler ciência alguma, e sim dar-lhe uma grande ideia geral de que já sabe tudo e que tudo o que por acaso tenha ouvido em conversas casuais e leituras é “resultado da investigação moderna”. Lembre-se de que você está aí para confundi-lo. Pelo modo como alguns de vocês, jovens demônios, falam, qualquer um pensaria que nosso trabalho fosse ensinar!

Seu afetuoso tio,

Screwtape

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Questões Para Reflexão

1.  As muitas distrações têm ocupado todo o seu dia e a sua mente, deixando você sem tempo para uma reflexão mais profunda sobre a comunhão com Cristo e a Palavra de Deus?

2.   Sua fé se tornou automática e sem reflexão, de maneira que você aceita o que parece prático ou moderno?

3.  Naqueles momentos em que sente sua razão despertar, você para e pensa ou apenas deixa para depois? 

4. Já percebeu como aquilo que você conhece bem parece sempre mais “real” do que aquilo que é modismo passageiro? Como isso influencia suas escolhas e no que você crê?

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Referências Bibliográficas

DURIEZ, Colin. Manual Prático de Nárnia (A Field Guide to Narnia). Tradução Celso Roberto Paschoa. Osasco, SP: Novo Século Editora, 2005.

LEWIS, C. S. Cartas de um diabo a seu aprendizSão Paulo: Martins Fontes, 2005.

_____________. The A of Z C. S. Lewis - an encyclopedia of his life, thought and writings. Oxford, England: Published by Lion Books, 2013.

_____________. J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis: O dom da Amizade. Tradução Ronald Kyrmse. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2018.

MCGRATH, Alister. A vida de C. S. Lewis - do ateísmo às terras de Nárnia. Tradução Almiro Pisetta. São Paulo-Lisboa: Mundo Cristão, 2013.

________________. Conversando com C. S. Lewis. 1 ed. São Paulo: Planeta, 2014.



[1] Tradução mecânica livre a partir do texto em inglês.

[2] Screwtape: nome inventado por Lewis que sugere algo “torcido” ou “deformado” (literalmente, “fita de parafuso”), evocando a astúcia e a perversão demoníaca.

[3] Wormwood: significa “absinto” em inglês, planta de sabor amargo que, na Bíblia (Apocalipse 8:11), simboliza juízo e destruição, refletindo a amargura espiritual que o aprendiz deve provocar em seu paciente.

[4] Para nós hoje sem dúvida alguma a televisão e atualmente a internet.

sábado, 3 de maio de 2025

LEWIS – Pequenas Reflexões: O Desafio de Perdoar

 


Todo mundo acha que o perdão é uma ideia adorável, até que eles tenham algo a perdoar...

Falamos de perdão e perdoar como se fosse a coisa mais simples e fácil de se fazer. Mas a realidade nos confronta violentamente quando, de fato e de verdade, temos que perdoar alguém por algo que ela fez contra nós.

Há raros cristãos como José, que, assumindo os inúmeros prejuízos que seus “amados irmãos” lhe causaram, conseguiu perdoá-los. Ele tinha apenas 17 anos quando foi vendido e os reencontrou com mais de 30 anos – aproximadamente 22 anos depois. Eles não conseguiam se perdoar pelo que fizeram com José e sentiam medo e vergonha; mas José já os havia perdoado, tinha paz consigo mesmo e ofereceu paz a eles.

A maioria das pessoas acha relativamente fácil perdoar ofensas menores, especialmente aquelas que não são intencionais. Mas e quanto a transgressões graves — abuso físico ou sexual, infidelidade conjugal, traição de amizade, engano, rejeição pessoal, fraude? Infelizmente, a lista é longa. É quando nos deparamos com esses casos difíceis que o perdão deixa de ser uma ideia adorável e se torna um desafio extremamente complexo.

Durante seu ministério, Jesus preparou seus discípulos para os dias difíceis que estavam prestes a começar. E, sabendo como os seres humanos são propensos a guardar rancor e buscar vingança, ele falou claramente sobre a necessidade de perdoar todos os que praticam o mal contra nós. Primeiro, ele ensinou a orar: “Perdoa-nos os nossos pecados, assim como nós perdoamos a quem peca contra nós.” Sobre este princípio/mandamento, C. S. Lewis diz: “Não há a menor sugestão de que nos seja oferecido perdão em quaisquer outros termos. Fica perfeitamente claro que, se não perdoarmos, não seremos perdoados” (cf. Mateus 6.12, 14-15).

Para que não percamos o ponto ou o racionalizemos, Jesus, mais tarde, conta a história de um rei que perdoou uma dívida enorme a um de seus escravos, apenas para descobrir que o escravo havia, posteriormente, forçado um companheiro escravo à prisão por não lhe pagar uma dívida muito pequena. Enfurecido, o rei entregou o escravo implacável aos torturadores. Jesus conclui dizendo: “É assim que meu Pai celestial tratará cada um de vocês, a menos que perdoem a seu irmão de coração” (cf. Mateus 18.21-35).

Aqueles que receberam a graça magnânima de Deus não podem reter o perdão de seus semelhantes. Fazer isso desonra a Deus, fere nosso próximo e envenena nossa própria alma.

Por mais difícil que seja, devemos perdoar — e, com a ajuda graciosa de Deus, podemos. Ao fazermos isso, provaremos a doce liberdade e alegria conhecidas apenas pelos corações perdoados e perdoadores.

Sejam bondosos uns com os outros, compassivos, perdoando-se uns aos outros, assim como Deus, em Cristo, também nos perdoou (Efésios 4.32).

 

Texto Adaptado e Comentado

Mere Christianity. C.S. Lewis (1960)

The Macmillan Company. p. 104.

Instituto C.S. Lewis

 

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sábado, 5 de abril de 2025

LEWIS – Pequenas Reflexões: Vivendo Adequadamente as Bênçãos de Deus

Tendemos a pensar que, ao recebermos as bênçãos de Deus, nossos corações naturalmente responderiam com gratidão e louvor. No entanto, tanto a Bíblia quanto as experiências do dia a dia revelam que isso nem sempre acontece. Na verdade, viver na abundância dessas bênçãos e da satisfação que elas trazem pode gerar perigos ocultos — efeitos colaterais - que exigem de nós uma atenção constante e uma vigilância redobrada sobre os nossos corações.

Um exemplo claro está na advertência de Deus ao povo de Israel, enquanto se preparavam para entrar na Terra Prometida, cheia de ricas bênçãos: “... acautelai-vos para que não vos esqueçais do Senhor, vosso Deus” (destaque meu). Entretanto, ao estudar a história dos israelitas em Canaã, percebemos que essas palavras não foram plenamente entendidas ou levadas a sério. Eles rapidamente se esqueciam de que foi Deus quem lhes concedeu aquela terra maravilhosa e garantiu as numerosas vitórias sobre seus inimigos.

Exatamente como Deus havia alertado, as bênçãos podiam trazer o risco de um coração orgulhoso e afastado: “... caso contrário, quando você tiver comido e estiver satisfeito, e tiver construído boas casas e morado nelas, e quando sua prata e ouro se multiplicarem, e tudo o que você tem se multiplicar, então seu coração se tornará orgulhoso e você se esquecerá do Senhor seu Deus... podes dizer em teu coração: Meu poder e a força de minha mão me fizeram esta riqueza” (Deuteronômio 8.11-18). Esse é um risco constante que enfrentamos em nossa jornada cristã. Como, então, podemos evitar nos tornarmos orgulhosos e autossuficientes em nossos corações, esquecendo de Deus?

Lewis nos oferece uma importante perspectiva ao compartilhar sua descoberta: os prazeres genuínos da vida são como flechas que apontam para a glória de Deus. Ele reflete: “Desde então, tenho me esforçado para transformar cada prazer em um caminho para a adoração. Não estou falando apenas de agradecer por isso. Agradecer é essencial, mas o que quero dizer vai além... A gratidão proclama de forma correta: ‘Como Deus é bom por me dar isso’. Já a adoração exclama: ‘Como deve ser o caráter daquele Ser cujos reflexos fugazes e distantes são assim!’ Nossa mente segue o raio de sol até chegar ao próprio sol” (LEWIS, 1964, p. 117-118).

Porque o teu amor é melhor do que a vida, os meus lábios te glorificarão. Eu te louvarei enquanto eu viver, e em teu nome levantarei minhas mãos. Minha alma ficará satisfeita como com os alimentos mais ricos; com lábios cantantes a minha boca te louvará (Salmos 63:3-5 NTLH).


Texto Adaptado e Comentado
Letters to Malcolm: Chiefly on Prayer
London: Geoffrey Bles, 1964, p. 117-118.
Instituto C.S. Lewis

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quarta-feira, 5 de julho de 2023

C. S. LEWIS – Por Que Lemos?

 


Cada um de nós, por natureza, vê todo o mundo a partir de um ponto de vista com uma perspectiva e uma seletividade peculiar a si mesmo. E mesmo quando desenvolvemos fantasias desinteressadas, estas estão saturadas e limitadas pela nossa própria psicologia. Concordar nessa particularidade no nível sensorial — em outras palavras, não dar um desconto à perspectiva — seria loucura. Deveríamos então crer que a estrada de ferro se estreita à medida que a distância aumenta. Porém, queremos também fugir das ilusões de perspectiva em níveis mais elevados.

Não estamos contentes em sermos as mônadas de Leibniz [04].

Exigimos janelas. A literatura enquanto logos é uma série de janelas, ou

mesmo de portas. Uma das coisas que sentimos depois de ler uma grande obra é “eu saí”. Ou, a partir de outro ponto de vista, “eu entrei”, perfurei a concha de alguma outra mônada e descobri como é dentro dela. Por conseguinte, a boa leitura, ainda que em essência não seja uma atividade afetiva, moral ou intelectual, tem alguma coisa em comum com estas três possibilidades. No amor, nós escapamos do nosso próprio ser para entrar em outro. Na esfera moral, cada ato de justiça ou caridade envolve nos colocarmos no lugar da outra pessoa e, assim, transcender a nossa própria particularidade competitiva. Ao conseguirmos entender qualquer coisa, rejeitamos os fatos como são para nós e aceitamos os fatos como realmente são. O impulso primário de cada um é manter e engrandecer a si mesmo. O impulso secundário é sair do ser, corrigir seu provincianismo e curar sua solidão. Estamos fazendo isso no amor, na virtude, na busca pelo conhecimento e na recepção das artes. Obviamente esse processo pode ser descrito ou como um engrandecimento, ou como uma aniquilação temporária do ser. Mas isso é um antigo paradoxo: “quem perder a sua vida, salvá-la-á” [05].

Queremos ver com outros olhos, imaginar com

outras imaginações, sentir com outros corações, e

com os nossos próprios também.

Como consequência, nós temos satisfação em entrar nas crenças de outras pessoas (aquelas, digamos, de Lucrécio [06] ou de Lawrence [07]), ainda que pensemos que não são verdadeiras. E nas paixões deles, ainda que as julguemos depravadas, como, algumas vezes, as de Marlowe [08] ou Carlyle [09]. E também na imaginação deles, ainda que lhes falte completo realismo de conteúdo.

Isso não deve ser entendido como se eu estivesse mais uma vez fazendo da literatura de poder um departamento dentro da literatura de conhecimento — um departamento que existia para satisfazer nossa curiosidade racional a respeito da psicologia de outras pessoas. Isso é, não em absoluto, uma questão (naquele sentido) de conhecimento. É connaitre (“conhecer”), não savoir (“saber”); é erleben (“vivência”). Nós nos tornamos esses outros “eus”. Não apenas nem principalmente para ver como são, mas para ver o que eles veem; ocupar, por um momento, o assento deles no grande teatro, usar seus óculos e se livrar de quaisquer percepções, alegrias, terrores, maravilhas ou diversões que esses óculos revelem. Nessa altura é irrelevante se o estado de humor expresso em um poema era verdadeira e historicamente o estado de humor do próprio poeta ou um que ele também imaginou. O que importa é sua capacidade de nos fazer vivê-lo. Duvido se o Donne histórico deu mais que um refúgio brincalhão e dramático ao estado de humor expresso em A aparição. Duvido mais ainda se o Pope histórico, salvo enquanto escreveu, e mesmo assim mais que dramaticamente, sentiu o que expressou na passagem que começa com “Sim, estou orgulhoso” [10]. O que isso importa?

Tanto quanto consigo entender, esse é o valor ou benefício específico da literatura considerada como logos. Ela nos permite ter experiências que não são as nossas. Nem todas elas têm o mesmo valor, assim como as nossas próprias experiências também não têm. Algumas delas, conforme costumamos dizer, “interessam-nos” mais do que outras. As causas desse interesse são natural e extremamente variadas e diferem de uma pessoa para outra. Pode ser o típico (e aí dizemos “isso é verdade!”) ou o anormal (e aí dizemos “que estranho!”). Pode ser o belo, o terrível, o que causa espanto, o estimulante, o patético, o cômico ou o simplesmente picante. A literatura proporciona uma entrée para todas essas possibilidades. Aqueles dentre nós que têm sido verdadeiros leitores durante toda a vida raramente compreendem de maneira plena a enorme extensão do nosso ser da qual somos devedores aos escritores. Compreendemos isso mais quando conversamos com um amigo que é um leitor não literato. Pode ser uma pessoa cheia de bondade e bom senso, mas é alguém que vive em um mundo minúsculo. Nós nos sentiríamos sufocados nesse mundo. A pessoa que está contente em ser apenas ela mesma e, portanto, menos que um “eu”, está em uma prisão. Os meus olhos não são o bastante para mim. Eu vejo através dos olhos dos outros. A realidade, mesmo vista através dos olhos de muitos, não é o bastante. Eu verei o que outros inventaram. Mesmo os olhos de toda a humanidade não são suficientes. Lamento que os animais não possam escrever livros. Eu aprenderia com muita alegria qual é a imagem que as coisas têm para um rato ou para uma abelha. Mais alegre ainda

ficaria se percebesse o mundo olfativo carregado com todas as informações e emoções que este mundo tem para um cão.

A experiência literária cura a ferida da individualidade sem diminuir o seu privilégio. Há emoções de massa que curam a ferida, mas destroem o privilégio. Nossos seres isolados se fundem nelas, e afundamos em uma subindividualidade. Mas, ao ler a grande literatura, eu me torno mil homens e, mesmo assim, continuo a ser eu mesmo. Tal como o céu noturno no poema grego, eu vejo com uma miríade de olhos, mas ainda sou eu quem o vê. Na adoração, no amor, na ação moral e no conhecimento, eu transcendo a mim mesmo, e nunca sou mais eu mesmo do que quando faço isso.

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

me.ivanguedes@gmail.com

Outro Blog

http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

 

 

Notas [cf. livro]

[04] Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), matemático e filósofo alemão. Formulou o conceito de mônada, que seria a essência irredutível do ser. Conforme Leibniz, a mônada está para a realidade metafísica assim como o átomo está para a realidade física. [N. T.]

[05] Referência a um dito de Jesus registrado em Mateus 16:25, Marcos 8:35 e Lucas 9:24. [N. T.] [06] Lucrécio (94? a. C.-55 a. C.), poeta e filósofo romano. [N. T.]

[07] D. H. Lawrence (1885-1930), poeta e romancista inglês. [N. T.]

[08] Christopher Marlowe (1564-1593), dramaturgo e poeta inglês, do período elizabetano. [N. T.

[09] Thomas Carlyle (1795-1881), historiador e escritor escocês da chamada Era Vitoriana. [N. T.] [10] Epílogo de Satires [Sátiras], dia, ii, 1. 208.

 

Referência Bibliográfica

LEWIS, C. S. Como cultivar uma vida de leitura. Tradução de Elissami Bauleo. 1.ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020.

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terça-feira, 4 de janeiro de 2022

LEWIS, C.S. – A abolição do homem [artigo ampliado]



 (…) para cada aluno que precisa ser resguardado de um leve excesso de sensibilidade, existem três que precisam ser despertados do sono da fria vulgaridade. O dever do educador moderno não é o de derrubar florestas, mas o de irrigar desertos.

            Seu nome completo é Clive Staples Lewis (1898-1963) e sem medo de errar pode-se dizer que foi uma das mentes mais brilhantes da vira do século dezenove para o século vinte. Ele morreu há 59 anos, todavia sua literatura está mais viva do que nunca (Cartas de um diabo a seu aprendiz, Cristianismo puro e simples, Quatro amores e as Crônicas de Nárnia) são exemplos de uma boa, saudável e inteligente literatura.

Seus temas foram e continuam sendo discutidos, pois fazem parte da nossa vida cotidiana. Todavia, os brasileiros de forma geral e os evangélicos de modo particular, em sua grande maioria, desconhecem as literaturas por ele produzidas, prova contundente da miopia predominante na cultura brasileira e mais especificamente na cultura evangélica.

Seus nome passou a ser “descoberto” não por sua vasta literatura, mas em razão da sua série "Crônicas de Narnia" terem sido transportadas para as telas de cinema em um redundante sucesso de bilheteria, rendendo milhões de dólares ao redor do mundo. Mas como tudo nesses tempos mediáticos e imediatistas, a onda Lewis passou e novamente ele foi lançado no limbo do esquecimento.

        Mas sua ampla estante literária contínua disponível para aqueles que tem um mínimo de interesse em pensar. Ainda que suas literaturas sejam escritas em formas de linguagem bastante popular e de fácil acessibilidade, as suas proposições, discussões e principalmente suas conclusões incomodam todos aqueles que não querem, e lutam desesperadamente, para não sair de sua zona de comodidade mental. Pensar é algo perigoso (principalmente nesses dias em que a expressão de opinião está sendo coagida e restringida), pois o pensar pode produzir a necessidade de mudanças na forma de ver, compreender e fazer as coisas. Desta forma, para aqueles que acham que “tudo está bem no país tupiniquim” as literaturas de Lewis tornam-se incomodas e irritantes. 

         Sua obra aqui mencionada “A Abolição do Homem” desde seu lançamento editorial até hoje continua produzindo convulsões nas mentes de forma geral. O livro é resultante de uma série de palestras ministradas durante a Segunda Guerra Mundial. Ele defende de forma muito clara e sem subterfúgios o senso moral absoluto que é composto pelo arcabouço de valores universais, tais como o altruísmo, a caridade e o amor, que se constitui no fundamento das sociedades humanas. A destruição deste fundamento é a razão pela qual as sociedades desmoronam e o ser humano se descaracteriza a ponto de assemelhar-se cada vez mais ao animalesco irracional.

            Este é o livro mais acadêmico filosófico da biblioteca produzida por Lewis, de maneira que para aqueles leitores acostumados com suas outras literaturas pode parecer mais difícil de ser compreendido. Todavia, apesar dele pessoalmente discordar o livro foi bem recebido pelos leitores de forma geral, assim como pelos críticos da época. Em sua primeira edição (1943) o livro esgotou as vendas em pouco tempo e nos dez meses seguintes foram necessárias outras três edições. As criticas foram bastante positivas “um livro muito instigante [que] merece atenção e estudo” declarou alguém que havia lido e analisado o texto. Mas mais do que na época o livro foi alcançando uma reputação e se revestindo das características de um clássico genuíno e seminal. O público leitor é amplo: filósofos, educadores, críticos literários, historiadores, juristas, ateus, agnósticos, evangélicos e ainda nos dias atuais é considerada uma de suas obras mais relevantes. O filósofo ateu John Gray descreve o livro como “presciente, profético” e “tão relevante agora” como quando foi lançado, e continua ele, “se não mais ainda” (apud, WARD, 2021, p. 11).

            O alerta que Lewis faz nesse livro pode ser claramente observado nos dias atuais, onde uma campanha mediática incessante tem invadido a mente das novas gerações, desde as mais tenras idades, corroendo os fundamentos morais e degradando os valores universais. O desafio lançado por Lewis continua sendo valido hoje: resistir a estas ações ideológicas nefastas que tem permeado a sociedade contemporânea e que infelizmente tem prevalecido em muitos redutos evangélicos.

            Somos incentivados por ele a estarmos vigilantes em relação às ideologias relativistas que tem sido encucado nas mentes juvenis, e aquelas mais simplórias, os primeiros no próprio ambiente escolar e os demais no ambiente das mídias sociais, de que qualquer lei natural, verdade objetiva, qualquer essência moral (religiosa), tudo isso não passa de pura balela. O resultado disso é que o ambiente escolar torna-se espaço de marketing ideológico, o professor torna-se um ativista, os pais e os diretores tornam-se cínicos quanto à realidade dos fatos e os alunos tornam-se apenas objetos a serem manipulados, destituídos de senso crítico e perspectivas positivas, pois os pontos cardeais lhes foram furtados.

            Na terceira e última parte Lewis já alertava para o perigo do avanço tecnológico que já estava começando a cercear a liberdade pessoal. A tecnologia é o instrumental para que haja domínio de alguns sobre muitos, de maneira que um seleto grupo de pessoas haveria de ter poder para moldar a sociedade de acordo com suas concepções de mundo. As pessoas uma vez arrancadas de suas bases morais perderam sua identidade humana tornando-se matéria-prima a ser manipulada à vontade por mestres e senhores. Desta forma, o livro está plenamente sintonizado com as problemáticas do século XXI, e a sua leitura nos habilita a fazermos um diagnóstico da sociedade atual e identificarmos suas falhas.

            Nestes dias em que vivemos um cientificismo construído à base do poder econômico especifico de poucos e manipulado artificialmente por um conglomerado mediático, e usando a linguagem do autor, desumanizado, a leitura desta pequena obra de Lewis é de premente urgência.   

            Abaixo transcrevo pequenos trechos da obra para despertar aguçar o apetite dos que ficaram desejos de lerem essa pequena, mas inquietante, obra literária de Lewis:

“O ceticismo em relação aos valores é apenas superficial, sendo válido apenas para valores alheios; eles não são muito céticos em relação aos valores correntes em seus próprios meios. E esse fenômeno é bastante comum. Muitos dos que ‘desmascaram’ os valores tradicionais ou (como eles dizem) ‘sentimentais’ têm no fundo valores próprios , que crêem imunes a desmascaramentos semelhantes. Alegam estar cortando pela raiz o crescimento parasitário da emoção, da autoridade religiosa, de tabus herdados, para que os valores ‘verdadeiros’ ou ‘autênticos’ possam emergir”. P.  27.

“Eu preferiria jogar cartas contra um homem que fosse inteiramente cético em relação à ética, mas que tivesse sido criado para acreditar que ‘um cavalheiro não trapaceia’, do que contra um irrepreensível filósofo moral que tenha crescido entre vigaristas”. P.22.

“Produzimos homens sem peito e esperamos deles virtude e iniciativa. Caçoamos da honra e nos chocamos ao encontrar traidores entre nós. Castramos e ordenamos que os castrados sejam férteis”. P.24.

“O dever do educador moderno não é o de derrubar florestas, mas o de irrigar desertos. A defesa adequada contra sentimentos falsos é inculcar os sentimentos corretos. Ao sufocar a sensibilidade dos nossos alunos, apenas conseguiremos transformá-los em presas mais fáceis para o ataque propagandista. Pois a natureza agredida há de se vingar, e um coração duro não é uma proteção infalível contra um miolo mole”. P.12.

        Lewis declara que ao bater o último prego no caixão dos valores objetivos, abre-se a caixa de Pandora. Um verdadeiro caos social e político tomara conta das sociedades humanas. Nessa esteira haverá uma cegueira endêmica, permanente, inevitável, fazendo até mesmo que qualquer memória do conhecimento desaparecerá, como se nunca tivesse existido.

        Qual a solução que Lewis propõe (e que me parece única): Resgatar urgentemente a "crença dogmática no valor objetivo", pois essa é uma crença necessária "para a própria ideia de uma regra que não é tirania ou uma obediência que não é escravidão".

A questão é: os leitores (nós) estão dispostos a resgatar as verdades dogmáticas?

Temas Centrais do Livro

Perigo do subjetivismo

Lewis está preocupado com o fato de o ensino escolar está desconectando as crianças/alunos de suas próprias experiências e emoções, tornando-as robôs programáveis.

Valores Universais

Para Lewis há valores inerentes no ser humano e toda criança deve ser ensinada a distinguir o que é bom do que é mau, o que é certo do que é errado e incentivá-las a escolherem o bom e certo.

Os perigos do controle do pensamento

O terror de Lewis é de que se nada for feito para reverter esta tendência maligna, a vida humana será controlada pelos “especialistas”, que nada mais são do que manipuladores de mentalidades.

Lei Natural

Um tema significativo em A Abolição do Homem é a importância que Lewis dá à Lei Natural, um conceito que transcende as culturas e sociedades humanas. A Lei Natural é um conjunto de regras universais e imutáveis que determinam o que é razoável e justo dentro da comunidade. Como o ser humano é incapaz de vivenciar corretamente esta Lei Natural, o ensino/educação formal deve ser a bussola para orientá-los.

O papel da educação

Para Lewis a educação é o instrumental adequado e indispensável para se promover valores morais e integridade emocional nas crianças. Para ele é inaceitável que as instituições educacionais enfatizem o crescimento acadêmico acima do desenvolvimento moral e emocional.

Papel da mulher na sociedade

Por fim, mas não menos relevante Lewis, enfatiza o papel das mulheres na sociedade. Elas não são meras procriadoras, mas parte integrante de uma sociedade humana na plenitude desta expressão. Em nada elas são menos dignas do que os homens e nem menos capazes. Ainda que haja diferenciação no exercício dos papeis a serem desempenhados, as mulheres são tão dignas quanto seus pares masculinos.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

 

Referências Bibliográficas

LEWIS, C. S. A abolição do homem. Tradução Gabriele Greggersen 1ª ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.

WARD, Michael. After Humanity – a guide to C.S. Lewis’s The Abolition of Man. Park Ridge, IL: Word on Fire Academic, 2021. 

Referências Bibliográficas
LEWIS, C. S. Cartas de um diabo a seu aprendiz. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
DURIEZ, Colin. The A of Z C. S. Lewis - an encyclopedia of his life, thought and writings. Oxford, England: Published by Lion Books, 2013.
_____________. J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis: O dom da Amizade. Tradução Ronald Kyrmse. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2018.
MCGRATH, Alister. A vida de C. S. Lewis - do ateísmo às terras de Nárnia. Tradução Almiro Pisetta. São Paulo-Lisboa: Mundo Cristão, 2013.
________________. Conversando com C. S. Lewis. 1 ed. São Paulo: Planeta, 2014.

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