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sexta-feira, 19 de julho de 2024

ATOS – Antioquia Nova Base Missionária (13.1-3)

 



O capítulo 13 é um divisor de águas na narrativa lucana da expansão da Igreja Cristã. A partir deste ponto ele deixa Jerusalém e a toda Palestina para trás[1] e começa a descortinar diante de nós os avanços significativos que aquela primeira geração de cristãos deu em direção aos confins da terra.

O verso final de Atos 12 retoma a história da viagem de Barnabé e Saulo/Paulo a Jerusalém para entregar o fundo de socorro, que é mencionado em 11.30. Lucas não fornece detalhes sobre o que aconteceu nestes dias em que estiveram na cidade. Em 12.25, Lucas simplesmente observa que Paulo e Barnabé retornam a Antioquia após a visita de socorro.

Um detalhe interessante é a inserção do jovem João Marcos que retorna com eles de Jerusalém. Este jovem é sobrinho (alguns preferem primo) de Barnabé e tudo indica que ele presenciou muitos dos acontecimentos narrados no final dos evangelhos e no início de Atos. O tio deve ter lhe falado sobre tudo que o Espírito Santo estava fazendo em Antioquia o que certamente despertou o interesse do jovem a ir com eles. Ele fará parte da primeira equipe missionária a partir de Antioquia.

Outro detalhe é que a viagem de Saulo e Barnabé a Jerusalém provavelmente ocorre após a morte de Herodes, o que torna a viagem deles segura e viável. (Herodes ordenando a morte de Tiago e prendendo Pedro agradou as lideranças religiosas judaicas, certamente colocando Saulo (Paulo) na prisão cairia definitivamente no gosto deles).

Após aproximadamente dez anos uma nova base se estabelece. Uma pungente comunidade cristã surge em Antioquia, capital da província romana da Síria, com seus mais de trezentos mil habitantes e quatrocentos e cinquenta quilômetros ao norte de Jerusalém. Ali também se encontra um forte contingente de judeus e muitos deles haverão de participar da Igreja. Provavelmente está igreja foi fundada pelos cristãos que fugiram de Jerusalém logo após a morte de Estevão (11.19-21). Barnabé é enviado pelos apóstolos para verificar se a comunidade cristã em Antioquia está dentro dos parâmetros pré-estabelecidos e percebendo a grande oportunidade que está diante dele vai buscar Saulo de Tarso (futuro Paulo missionário dos gentios), que havia sido convertido na estrada para Damasco (11.22-26) e ali permanecem por mais de um ano. A roda da Providência de Deus continuamente em movimento, de maneira que, sem qualquer alarde se inicia um dos movimentos missionários mais profícuos e extraordinários de toda a história da Igreja Cristã em todos os tempos.

Entre tantos outros núcleos de avanço do cristianismo Lucas optou por acompanhar as chamadas viagens missionárias realizadas a partir da igreja em Antioquia, que desta forma se constituirá em uma nova sede da expansão da Igreja Cristã iniciante. Faz todo o sentido, pois o historiador tendo nos capítulos anteriores registrados os avanços na Palestina judaica, bem como Samaria e adjacências, agora deseja mostrar como o Evangelho foi se expandindo pelo restante do Império Romano e como os não judeus (gentios) foram tomando conhecimento da mensagem evangélica e crendo, estabelecendo desta forma igrejas cada vez mais gentílica e menos judaicas.

Até agora, Jerusalém e a Judeia tinha sido o centro de sua narrativa. Pedro foi o personagem mais proeminente na narrativa. Agora, Lucas muda seu foco para a igreja em Antioquia e o personagem proeminente será Paulo (Saulo).

Os primeiros versos do capítulo treze nos possibilitam ver que o Espírito continua sendo o estrategista e condutor do movimento missionário cristão. É o Espírito quem separa (escolhe) Barnabé e Saulo (Paulo) e os envia para uma obra missionária expansionista. Evidentemente que a sensibilidade espiritual da liderança de Antioquia e a pronta disponibilidade dos convocados não podem ser minimizadas de forma alguma.

Posteriormente, em suas correspondências, Paulo vai ensinar que profetizar e ensinar são dons de Deus, dados pelo Espírito Santo para o bom funcionamento da igreja (Rm 12.4-8). No esboço das funções na igreja que Paulo descreve aos Coríntios, profetas e mestres são mencionados logo após os apóstolos (1Co 12.28). Em outra epístola, Paulo insere o papel de evangelista entre o de profeta e mestre (Ef 4.11).

Sendo uma característica peculiar de Barnabé, acaba por incluir o jovem João Marcos, seu sobrinho (ou primo) que havia vindo junto com eles de Jerusalém após a entrega da oferta aos necessitados, para compor a pequena equipe missionária. O termo grego usado para ele indica que é um ajudante, um aprendiz, na nossa linguagem um seminarista iniciando seu treinamento prático. Aparentemente o jovem fracassa em seu teste prático, todavia, posteriormente o veremos sendo extremamente importante para o trabalho realizado neste período inicial da Igreja, inclusive sendo ele o escritor de uma de nossas narrativas evangélicas, provavelmente decorrente das memórias do apostolo Pedro. O Espírito Santo trabalha prepara seus instrumentos a partir de suas limitações. Quando fracassamos, e vamos fracassar em algum momento, não significa que nunca teremos sucesso, apenas que vai demorar um pouco mais.

Lucas nomeia cinco profetas e mestres em Antioquia. Barnabé, Simeão chamado Níger, Lúcio de Cirene, Manaém (que havia sido criado com Herodes) e Saulo. Seus nomes mostram que eles vêm de uma ampla variedade de origens sociais e étnicas.

Barnabé é mencionado primeiro por Lucas, pois ele é o delegado apostólico e uma figura importante na igreja de Jerusalém (9.27; 11.22-30). Já o conhecemos como um levita de Chipre que viveu em Jerusalém (4.36-37). Ainda mais, o conhecemos como "um homem bom, cheio do Espírito Santo e da fé" (11.24).

Simeão tem o apelido latino de Níger, ou "o negro". Seu nome é judeu, então é improvável que ele seja africano, embora possa ter tido a pele escura. O apelido pode distingui-lo de outros Simões na igreja, como Simão Pedro.

Lúcio tem um nome latino (romano). É possível, embora não seja certo, que ele seja um gentio, porque ele é de Cirene no norte da África. Talvez ele tenha feito parte do grupo cirênio (os de Cirene) que primeiro pregou o evangelho da salvação aos gentios de Antioquia (11.20).

Manaém é a forma grega do hebraico Menahem, que significa "consolador". Ele foi "criado com Herodes, o tetrarca (13.1). Este é o Herodes dos Evangelhos, a quem Jesus certa vez chamou de "aquela raposa" (Lc 13.32). Este Herodes foi responsável pela prisão e morte de João Batista (Mc 6.14-28). Se Manaém cresceu com ele, é possível que ele tenha sido levado para a corte real para ser um companheiro do príncipe; Esses meninos eram então chamados de "irmãos adotivos".

Que destinos tão diferentes tomaram esses dois rapazes - um alcança a honra como líder cristão, enquanto o outro é lembrado por seu comportamento inglório no assassinato de João Batista e no julgamento de Jesus!

Saulo é mencionado por último por Lucas, e ele continua a usar a forma judaica de seu nome, e não Paulo nome romano. Ele é o último porque é um recém-chegado a Antioquia (11.25). Mas ele logo assumirá o centro do palco no relato de Lucas, enquanto os outros, com exceção de Barnabé, não farão mais parte da história.

Esses homens são diferentes, cada um tem sua própria história, mas o Espírito Santo os trouxe e os colocou na mesma igreja e os capacitou com dons espirituais, para que pudessem conduzir o processo da expansão missionária.

Estamos por volta do ano 47 d.C. quando eles iniciam esta primeira viagem missionária (13.4-14.28)[2]. Nos próximos artigos acompanharemos passo a passo esta fascinante jornada e seus desdobramentos na expansão do cristianismo mundial.

 

Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
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Referência Bibliográfica

BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras, v.6. São Paulo: Vida Nova, 1989.

FITZMYER, Joseph A. Los Hechos de los apóstoles, v. 1. Salamanca (Espanha): Ediciones Sígueme, 2003.

MARSHALL, I. Howard. Atos – introdução e comentário. Tradução Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 1982 (2008).

STAGG, Frank. O Livro de Atos – a luta primitiva em prol de um Evangelho vencedor. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1958.

SMITH, T. C. Comentário Bíblico Broadman, v.10, JUERP, Rio de Janeiro, 1984.

WILLIAMS, David J. Atos - Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. São Paulo: Editora Vida, 1996.



[1] Jerusalém somente reaparecera no capítulo 15 (realização do primeiro Concílio da Igreja Cristã) e esporadicamente até à prisão de Paulo e seu encaminhamento para Roma.

[2] Este é o primeiro de três blocos narrativos que compõem os registros das viagens missionárias de [Paulo] Saulo. O primeiro deles estabelece o modelo dos três. É importante, sem embargo, ter em conta que nem o apóstolo e nem Lucas numeraram estas viagens. A numeração é obra dos comentaristas modernos de Atos, que dividem os episódios em três blocos". Fitzmyer, Joseph A. Los Hechos de los Apóstoles, v.2, Ediciones Sígueme, Salamanca, 2003, p. 122. 

domingo, 7 de julho de 2024

ATOS – A IMPORTÂNCIA DA HERMENEUTICA CORRETA


É um fato reconhecido que o livro de Atos é de importância fundamental na arquitetura do NT. Sua importância para a história do movimento cristão, pois nos apresenta os momentos cruciais que marcaram o inicio deste movimento.

Este livro tem sido utilizado, muitas vezes fora de um contexto hermenêutico correto, por vários grupos cristãos para dar sustentação aos seus ensinos, sua fé, sua doutrina e sua ética. Por exemplo, a Igreja Católica Romana, segundo suas regras de interpretação, o usa como uma das bases bíblicas o estabelecimento da hierarquia clerical. Os grupos carismáticos que, segundo suas interpretações o citam para defender suas doutrinas e práticas relacionadas com o Espírito Santo. Quem também se utiliza abundantemente deste livro são os defensores da chamada teologia da libertação, que segundo suas regras de interpretação, o empregam para subsidiar seu conceito da missão verdadeira da Igreja. Deste modo, a forma como se lê e interpreta o livro de Atos vai determinar o fim ou propósito de sua utilização. Ainda que possa ser utilizado com a maior e melhor das boas intenções Atos, como qualquer outro livro bíblico, tem que ser estudado e interpretado segundo as normas estabelecidas pela hermenêutica bíblica. Quando isto não é feito corre-se o risco de se chegar à conclusões precipitadas ou mesmo intencionalmente distorcidas do sentido original do texto bíblico.

Hermenêutica vem do grego ermeneúo (explicar) como podemos ver em Mateus 1.23 “... e chamarás seu nome Emanuel, que traduzido [ermeneúo] quer dizer: Deus conosco”. Ela tem sido definida como a ciência e a arte da interpretação. É uma ciência porque se baseia em certas normas e princípios e é arte porque exige destreza e habilidade que soment se adquire com a prática. Interpretar, aplicado à linguagem, significa encontrar e explicar o significado original de uma composição literária, uma expressão verbal ou qualquer outro meio de comunicação que se empregue. A responsabilidade do interprete é captar e expressar com o máximo de exatidão o significado daquilo que o autor original desejou expressar.

É de vital importância, portanto, que o interprete utilize o principio ou princípios que com maior segurança lhe possibilitará a expressar com clareza o significado original do que esta a interpretar. Nestes últimos tempos tem se multiplicado sem limites os sistemas hermenêuticos, trazendo em seu bojo muito mais confusão do que clareza. O que se percebe é que cada grupo sectário acaba por criar regras próprias de hermenêutica para dar sustentabilidade às sua idéias e conceitos pré-concebidos. Assim sendo, o cristão que deseja estudar, aplicar a sua vida e proclamar a outros o conteúdo da Palavra de Deus, deve fundamentar-se em um método ou principio de interpretação que o ajude a alacançar seus objetivos.

O interprete deve lembrar sempre que a Bíblia é uma unidade, ainda que conste de um total de sessenta e seis livros. Isto significa que o interprete tem a responsabilidade de integrar harmoniosamente os ensinos extraídos de cada um destes livros. Ele precisa ter uma percepção teológica, pois, se a Bíblia é um todo e tem apenas um Autor Divino  (o Espírito Santo), isto implica em que não pode haver contradições reais em seu conteúdo. Deste modo, a grande tarefa do interprete é indubitavelmente a de harmonizar os ensinos contidosde Gêneses ao Apocalipse.

Os princípios de interpretação são as ferramentas para todo aquele que pretende estudar e expor as Escrituras. Para ser um bom pregador e professor bíblico é necessário que aprenda e utilize estas preciosas ferramentas. O bom sermão e a boa aula é aquela em que o texto bíblico foi respeitado e interpretado com fidelidade e não aqueles em que a pessoa expõe sua próprias idéias e conceitos.

O que se chama de nova hermenêutica é apenas uma desculpa para distorcer osentido original do texto bíblico. Por exemplo, a hermenêutica política é a pretensão de se interpretar a Bíblia à luz das situações sócio-políticas existentes. O que ocorre é que não se produz uma interpretação, mas sim, uma reinterpretação das situações sócio-políticas que são confrontadas com as condições sociais contemporâneas. A Bíblia não deve ser interpretada à luz das condições sociais mas que as condições sociais devem ser interpretadas à luz da Bíblia.

As Escrituras, que foram dirigidas à necessidades especificas, devem ser interpretadas e aplicadas às necessidades de situações atuais. A tarefa do interprete é tomar a essência dinâmica da revelação de Deus e, debaixo da direção do Espírito Santo, fazer a aplicação pertinente às questões contemporâneas. Mas isto somente poderá ser feito com a aplicação de uma hermenêutica sadia.

Meu desejo é que o material disponibilizado possa ser usado por Deus e possa alcançar três objetivos: 1) Despertar o interesse e o valor do livro de Atos; 2) guiar aqueles que o utilizam a uma melhor compreensão do mesmo; e finalmente (3) prover aos leitores uma hermenêutica mais sadia com a qual pode ser alcançadas as primeiras metas.

Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Historiologia Protestante
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Referências Bibliográficas

BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras, v.6. São Paulo: Vida Nova, 1989.

EARLE, Ralph. Comentário Bíblico Beacon, v.7. São Paulo: CPAD, 2006.

FEE, Gordon D. & Douglas Stuart. Entendes o que lês? Traduzido por Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 2002.

MARSHALL, I. Howard. Atos – introdução e comentário. Tradução Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 1982 (2008).

SIFOLELI, Israel. Manual de Hermenêutica bíblica. São Paulo, Fonte Editorial, 2016.

WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo – Atos. São Paulo: Vida, 1996.


terça-feira, 25 de julho de 2023

A T O S - Discursos e/ou Sermões


    Lucas organiza seu material em Atos intercalando narrativas com discursos e/ou sermões. Não são materiais na integra, mas estratos ou esboços para que o leitor possa ter uma ideia do conteúdo destas pregações. Há mais de vinte incluídos, sendo que a maioria é de Pedro (7 ao todo) e de Paulo (11 ao todo). Abaixo está uma lista dos mais importantes com o assunto e a referência bíblica.

DISCURSOS e/ou SERMÕES EM ATOS

Discurso / Sermão

Assunto

Referência

Pedro à multidão no Pentecoste  

Explicação de Pedro sobre o significado do Pentecoste  

Atos 2.14-40    

 

Pedro à multidão no Templo  

O povo judeu deveria se arrepender por haver crucificado o Messias      

Atos 3.12-26    

Pedro no Sinédrio

Testemunho de que um homem aleijado havia sido curado pelo poder de Jesus      

 

Atos 4.5-12    

 

Estêvão no Sinédrio

Estêvão recorda a história dos judeus acusando-os de terem matado o Messias que lhes foi enviado     

Atos 7    

Pedro aos gentios  

Gentios e judeus podem ser salvos da mesma forma  

Atos 10.28-47

Pedro à igreja em Jerusalém

Testemunho sobre sua experiência em Jope e a defesa de seu ministério aos gentios       

Atos 11.4-18

Paulo à sinagoga em Antioquia

Jesus é o Messias em cumprimento às profecias do Antigo Testamento      

Atos 13.16-41    

Pedro ao Concílio de Jerusalém  

Salvação pela graça disponível a todos  

Atos 15.7-11    

 

Tiago ao Concílio de Jerusalém  

Gentios convertidos não necessitam circuncidar-se  

Atos 15.13-21    

 

Paulo aos presbíteros em Éfeso  

Permaneçam fiéis apesar dos falsos mestres e da perseguição

Atos 20.17-35

Paulo à multidão em Jerusalém  

Declaração de Paulo sobre sua conversão e seu ministério aos gentios

Atos 22.1-21

Paulo ao Sinédrio

Defesa de Paulo declarando-se um fariseu e um cidadão romano

Atos 23.1-6 

Paulo diante do rei Agripa

Declaração de Paulo sobre sua conversão e seu zelo pelo evangelho

Atos 26  

Paulo aos líderes judeus em Roma

Declaração de Paulo sobre sua herança judaica

Atos 28.17-20    

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Referência Bibliográfica

Gráfico extraído de Nelson J. Complete Book ai Bible Maps and Charts. Thomas Nelson, Inc. 1993.

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quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Atos: A Conversão de um Etíope e o Primeiro Missionário Africano (Atos 8.25-40) - Subsídios Exegético e Histórico


A cópia mais antiga ilustrada da Bíblia é conhecida como os “Evangelhos de Garima”,
em um mosteiro no norte da Etiópia (aprox. 330 e 650 d.C.)
.

O conhecimento que recebemos da História do Cristianismo é extremamente limitado e restritivo à perspectiva Ocidental e pouco sabemos sobre o Cristianismo Oriental, visto que houve a grande ruptura eclesiástica (1054 d.C). Mais lamentável ainda é a nossa total ignorância histórica do Cristianismo Africano, agravado pelo fato de que muitos dos grandes expoentes da ortodoxia cristã tem suas origens neste Continente (Orígenes, o alexandrino; Tertuliano, o norte africano, sem falar de Agostinho e Atanásio dois pilares do pensamento cristão) e onde nos dias atuais é simultaneamente a região global que mais cresce e que mais sofre o cristiani(cídio) cínica e covardemente ignorado pela mídia ideológica e convenientemente abandonado à própria sorte pelas lideranças cristãs do Ocidente e Oriente.

O motivo da escassez de informações históricas canônicas e também seculares desta imensa região do globo terrestre não são indicadas com clareza, como tão bem sintetiza Helmut Koester: “Não se esclarece por que as notícias sobre a época primitiva do cristianismo no Egito [amplio África] são tão escassas, enquanto que as tradições cristãs de Síria, Ásia Menor e Grécia, ainda que incompletas, são o suficientemente ricas e diversificadas...” (1988, pp. 742-744). Existem pelo menos três grupos que contribuíram para o florescimento do cristianismo na África: os judeu-cristãos, os cristãos-helenísticos e os cristãos-coptas (egípcios).

Percebe-se que há um esforço muito grande para se esconder a rica história da vertente cristã africana. Os grandes personagens mencionados acima são normalmente citados sem se fazer um link com suas etnias africanas, de maneira que se passa a falsa impressão de que eles são todos “europeus”.

            Nas páginas do livro de Atos composto pelo evangelista Lucas como a segunda parte do seu volume inicial, encontramos um registro peculiar – a evangelização e subsequente batismo de um oficial etíope (At 8.26-39). Todavia, no que tange a interpretação e estudos neotestamentário, o registro lucano do encontro de Filipe com esse graduado oficial etíope é um dos relatos mais esquecidos. Estudos focados diretamente nesta passagem são escassos, de modo que, precisa ser melhor estudado e mais valorizado, visto entendermos que nenhum registro nas Escrituras é destituído de valor.

            A narrativa em si já se reveste de peculiaridade. Lucas faz um longo registro do debate do diácono Estevão com as autoridades máxima do judaísmo e que produzira o primeiro mártir cristão, tendo como consequência direta o primeiro êxodo cristão a partir de Jerusalém, provocada, não pelas autoridades romanas, mas pelas autoridades judaicas, representada em sua instância maior o Sinédrio.

Na sequência o historiador evangélico passa a relatar o primeiro grande avivamento evangelístico que está ocorrendo na região vizinha Samaria pela instrumentalidade de Felipe outro diácono (8.5-25), de maneira que Lucas está seguindo o arcabouço por ele estabelecido no início desta sua obra (1.8). Mas na sequência de sua narrativa Lucas faz um recorte e passa ao registro do envio, pelo Espírito Santo, de Felipe para uma estrada deserta em direção a Gaza e ali ele vai evangelizar e batizar um oficial etíope, no período da regência de Candace, e que após ser batizado, tomado de grande alegria “ continuou o seu caminho”, pois estava retornando ao seu país – mas agora sendo portador das boas novas do Evangelho, lembrando que antes de serem chamados “cristãos” os discípulos eram chamados os “do caminho” – portanto, esse homem convertido se constitui no primeiro evangelista cristão na Etiópia, que naquele período se constituía em um dos países mais relevantes no Continente Africano.

A ênfase de Lucas nesse aspecto é reforçada pelo fato de que a cena seguinte é a conversão de Saulo de Tarso, em sua marcha para Damasco para prender cristãos, e que será constituído pelo próprio Senhor Jesus, o missionário para os povos gentios, mas, Saulo/Paulo permanecerá dentro das fronteiras do Império Romano, todavia, o Espírito Santo vai convertendo seus missionários e os enviando à todas as nações, incluindo a Etiópia e por consequente o Continente africano; o Espírito Santo é quem estabelece a agenda missionária mundial de maneira que o Etíope e Paulo são igualmente seus instrumentos.

Desta forma textualmente é possível afirmarmos que o contexto mais amplo (6.1-11.9) se constituiu em um bloco literário, uma vez que as narrativas se comunicam entre si estabelecendo uma inter-relação textual, oferecendo aos leitores uma perspectiva além dos fatos compartilhados unitariamente. O que também nos faz rejeitar as propostas daqueles que transformam esse livro e todas os demais literaturas bíblicas, em cochas de retalhos coladas e remendadas ao bel prazer dos escribas e amanuenses no tramitar dos tempos. O escritor Lucas tem uma proposta muito clara esboçada no início de sua obra e a segue com afinco, conectando os fatos históricos por ele selecionados, e assim, constituindo um texto único bem elaborado.

O fato de que Lucas encerra a narrativa de Atos de forma inconclusiva tem estimulado alguns comentaristas a pensar que ele pretendia escrever um terceiro volume, onde haveria de continuar o seu registro da expansão do cristianismo além fronteiras do Império Romano, o que poderia incluir a Etiópia e demais nações africanas. A expressão com que Lucas conclui a narrativa de Felipe-Etíope “continuou seu caminho” possibilita a interpretação de que ele tem a expectativa e/ou conhecimento de que o Evangelho chegara ou chegou efetivamente àquela região africana. Uma vez que ele conclui esse segundo volume entre cinco ou mais anos depois dos fatos registrados é plausível supor que ele tenha obtido informações orais e até mesmo documentais dos desdobramentos dos fatos aqui compartilhados em Atos.

            Qual a razão pela qual Lucas registra em detalhes esse acontecimento pessoal e peculiar deste etíope? Quais as implicações desse fato para a História do Cristianismo Africano? Que subsídios históricos existem deste acontecimento no desenvolvimento do cristianismo africano?

Análise da Narrativa Lucana  

            O livro de Atos tem um valor intrínseco, pois é o único no cânon neotestamentário de cunho histórico. Lucas tem a perspectiva de um historiador de maneira que seu propósito é oferecer ao “excelentíssimo Teófilo” informações seguras a respeito do progresso do cristianismo nos anos subsequentes à morte e ressurreição de Jesus Cristo, conforme apresentado e concluído em seu primeiro volume evangélico.

            Ele define seu esquema geográfico narrativo já nas primeiras linhas: “Mas quando o Espírito Santo descer sobre vocês, então receberão poder para testemunhar com grande efeito ao povo de Jerusalém, de toda a Judéia, de Samaria, e até aos confins da terra, a respeito da minha morte e ressurreição" (Atos 1.8 Bíblia Viva – sublinhado meu). Todos os movimentos da narrativa lucana estão dentro desta proposta conforme esboço simples abaixo:

- Propagação em Jerusalém (1-7)

- Propagação na Judéia e Samaria (8-12)

- Propagação aos extremos do Império (13-28).

            A perícope do Etíope está dentro desta visão geográfica progressiva da narrativa lucana, mais do que a capital do Império Romano é a Etiópia que mais se ajusta “aos confins da terra”, o que reforça a ideia de que ele pretendia escrever um terceiro volume.

            Nesta passagem (8.26-39) os termos predominantes são “caminho” (vs. 26, 36, 39), pelo “Espírito” (v. 29) referindo-se ao Espírito Santo e o verbo “anunciar” (v. 35), mas podemos incluir o termo “evangelizava” (vs 25 e 40) que fazem a função de moldura desta perícope.

Ao destacar que Felipe foi comunicado por um anjo para ir especificamente a um local “vai para a banda do sul, no caminho que desce de Jerusalém a Gaza”,[1] o historiador tem plena consciência de que este é o caminho[2] que conduz à região africana. Nos dias de Lucas o centro de estudos geográficos estava na Grécia:

Na antiguidade clássica, a terra habitada era retratada como um disco rodeado pelo "Mar Exterior"(ώκεανός). “Os confins da terra” (τά œσχατα τής γής) referidos, como WC van Unnik tem mostrado, aos pontos mais distantes na borda do disco, por exemplo, o Ártico ao Norte, Índia a leste, Etiópia a sul e Espanha a oeste. 15 Uma pesquisa de computador que eu fiz da frase no Thesaurus Linguae Grecae confirma totalmente as descobertas de van Unnik. A expressão tem esse significado na Septuaginta e nos escritores patrísticos (muitas vezes citando a Septuaginta), onde a frase aparece com mais frequência na literatura grega. Foi usado da mesma forma nos escritores clássicos e, aparentemente, mantiveram esse significado geográfico do século V aC até o sexto século DC (ELLIS, 1991, pp. 123-132 [sublinhados meu] – o autor da citação opta pela Espanha como alvo da narrativa lucana; mas neste texto especifico de Atos defendo a Etiópia como a referência aos “confins da terra”, pela utilização na perícope da figura central do Etíope).

            Outro aspecto muito interessante é que o contexto narrativo de Lucas entrelaça três acontecimentos tematicamente similares: a “conversão” dos samaritanos, perícope antecedente; a “conversão” do etíope e a “conversão” de Saulo/Paulo, perícope posterior, de maneira que neste arranjo literário a narrativa do etíope é o ponto de convergência.  Deste modo, podemos concluir que a narrativa do Etíope não é apenas uma nota de rodapé, como é tratado pela maioria dos comentaristas, ou incidental, mas um fato relevante para o historiador Lucas. O avivamento evangelístico dos samaritanos e a conversão de Paulo são dois rios cujas correntezas chegam à cidade de Antioquia, que se constitui na maior base missionária do cristianismo aos povos não judeus dentro do Império Romano.

Mas dentro da providência divina, e o livro de Atos é denominado por alguns comentaristas como “Atos do Espírito Santo” visto haver 59 referências à Terceira Pessoa da Trindade, escolheu esse oficial etíope para levar a mensagem do “Servo de Yahweh” isaiano (40-55) cumprido em Jesus Cristo (Messias) morto e ressurreto (Servo Sofredor 52.13-53.12) às terras mais distantes como o Continente Africano, bem como os demais pontos cardeais do planeta. Essas ações do Espírito Santo é a realização da ordem final de Jesus a todos os seus discípulos em todas as épocas – ide e pregai esse evangelho a todas as nações, povos e etnias da terra, que por sua vez é o cumprimento literal da profecia de Isaías (49.6) “até as extremidades da terra”.[3]

O Etíope e as Origens do Cristianismo no Continente Africano

O texto didaticamente nos traz as informações básicas de quem é esse Etíope eunuco,[4] o que ele estava fazendo em Jerusalém e o que estava lendo.[5]

O texto deixa claro também que não se tratava de um viajante comum e corriqueiro, mas de um alto funcionário[6] de Candace[7] da Etiópia, um reino relevante naquele tempo para o escritor e seus leitores; este Etíope tinha conhecimento da Torá e mais especificamente da literatura profética-messiânica de Isaías, possuindo inclusive os pergaminhos (rolos) deste profeta,[8] que somado à informação de que viajava em uma carruagem indica que era um homem de posses. O fato de ele viajar para Jerusalém, para adorar, indica que ele era um judeu da diáspora, um prosélito[9] ou um temente a Deus.[10]

Então a Felipe lhe é ordenado, a ação verbal está no imperativo, que se aproxime e acompanhe, bem próximo, a carruagem, de maneira que pudesse ter acesso ao viajante e este a ele, possibilitando o início de um diálogo. A proximidade permitiu que Felipe ouvisse, a leitura em voz audível era muito comum naqueles tempos, que o viajante estava lendo uma passagem do profeta Isaias, o que proporciona a Felipe fazer-lhe a pergunta inicial que produzira o diálogo: “você está compreendendo o que lê?” A simples leitura de textos bíblicos não implica necessariamente que o leitor esteja entendendo a mensagem neles contidas.  

A resposta do Etíope abre a oportunidade para que Felipe possa expor-lhe as escrituras (messiânicas) a partir de Isaías (53) e conecta-lo com tudo que tinha acontecido em Jerusalém em relação a Jesus Cristo que havia sido morto, mas ressuscitara ao terceiro dia e desta forma cumprindo as prerrogativas do Messias sofredor ao qual se refere as profecias de Isaías.[11] Esse é o centro de toda a perícope – anunciou-lhe a Jesus a partir dos sujeitos que a interpelam. É possível compararmos o modo como Filipe anuncia Cristo ao Etíope com a abordagem com a qual Jesus se auto revelou através das Escrituras aos discípulos de Emaús (Lc 24.27)[12]. Filipe já não lhe fala do Messias, mas de Jesus; como uma alusão ao destino do “Filho do Homem” (Lc 9.22; Mt 16.21; Mc 8,3).

Os versos seguintes completam a dinâmica cristã – uma vez entendido e declarado a fé em Jesus Cristo – passa-se ao batismo (vs 37,38)[13], pois todo novo convertido participa efetivamente da morte e ressurreição de Jesus Cristo.  

No verso 39 ambos retomam suas atividades, Felipe retoma sua missão evangelística em Azoto e arredores, até chegar a Cesaréia e o Etíope retoma seu caminho de volta à sua nação, mas além de suas atividades oficiais, agora ele também tem as “boas novas” para compartilhar à sua rainha e todos os moradores da Etiópia.

A Igreja Cristã na Etiópia

            Esse artigo, por suas próprias limitações, não têm a pretensão de abordar tema tão abrangente, mas apenas fazer referências que possam contribuir e estimular uma melhor compreensão e reflexão do desenvolvimento do cristianismo além das fronteiras Europa e Ásia Menor que perfazem o entorno geográfico das literaturas neotestamentária. E, como dito no início do texto, resgatar a relevância do cristianismo no Continente Africano, que tem sido ignorado pelas vertentes cristãs Ocidentais.

Início com a opinião abalizada de Maguckin:

O cristianismo no continente africano começa sua história, principalmente, em quatro locais distintos: Alexandria e Copta Egito, a região norte da África em torno da cidade de Cartago, Núbia e as estepes da Etiópia (p. 30, 2011).

Etiópia o Segundo Éden

Uma das primeiras dificuldades para tratarmos dos primórdios da igreja na Etiópia está na própria localização desta nação que em períodos tardios chegou a ser confundida com a Índia, visto que ambas as nações, no imaginário greco-romano era os “confins da terra”, o último bastião da civilização, antes da barbaria.

Foram os gregos que a denominaram pejorativamente “Etiópia” que significa “rostos queimados e/ou rostos em fogo”. Todavia, sua cultura expressa a beleza e o encanto de sua geografia, de maneira que se tornou conhecida como “uma terra de leite e mel”, uma espécie de segundo Éden, não sem razão visto que juntamente com o Quênia, foram os primeiros lugares em que os pés da primeira geração humana caminharam e habitaram. Seus habitantes sempre se constituíram em um extraordinário mosaico humano.

Uma grande maioria de estudiosos explicam as origens da civilização etíope partindo da vinda dos imigrantes da Arábia do Sul que inicialmente se estabelecem na cidade costeira de Adulis, no Mar Vermelho, e na cidade de Aksum (Axum) ao norte em busca de comércio no século 5 a.C., entretanto a civilização etíope já era muito mais antiga e muito mais estabelecida do que antes destes colonizadores a invadirem (como no caso do Brasil que os portugueses “descobriram” e das civilizações Incas e outras que foram dizimadas pelos invasores espanhóis em toda América Latina).

        Outro aspecto relevante é que seu idioma comum é chamado “cuxítica”,[14] de maneira que encontra uma ligação forte com o personagem bíblico Cuxe em Gênesis.[15] É possível encontrar elementos desta cultura cuxitas na arquitetura das primeiras igrejas ortodoxas desta região, bem como em cerimônias e expressões artísticas religiosas. Sua linguagem eclética e rítmica denominada Ge’ez (Etíope) exibem raízes cuxíticas, que biblicamente conectam a Etiópia com o território de Cuxe.

Na História Hebraica (1200 - 500 a.C.) há diversas referências a Etiópia na Torá (Bíblia Hebraica) em seu primeiro e mais antigo livro, Gênesis (2.13), é colocada em um contexto geográfico a partir do Éden; José se casou com uma mulher etíope (Gênesis 41.50-52), e os seus dois filhos (Manassés e Efraim, dupla nacionalidade) se tornaram líderes de tribos judaicas. Moisés se casou com uma mulher etíope (Números 12.1) e o pai dela Jetro, um etíope, foi um conselheiro de Moisés (Êxodo 18.1-12). Diferentemente dos povos canaanitas, aos israelitas não foi proibido o se casarem com mulheres cuxitas/etíopes (Êxodo 34.11,16). Jeudi (significa judeu), um secretário na corte do rei durante o tempo de Jeremias, era um descendente de Cuxe/Etiópia (36.14, 21, 23). O nome do avô de Jeudi (Cuxe) literalmente significa “negro” se refere a uma pessoa de descendência africana. O profeta Sofonias também possuía descendência cuxita (1.1).

A Etiópia (Cuxe) é uma das terras às quais os exilados judeus foram espalhados após a conquista babilônica de Judá e que haveriam de serem trazidos de volta (Is 11.11,12). Portanto, não seria nenhum absurdo que este oficial etíope tenha tido contato com pessoas de cultura e religião judaicas na sua região, ou talvez no Egito, onde havia se formado as maiores colônias fora da Palestina. Partindo destas primícias sua cópia do rolo de Isaías provavelmente era da Septuaginta grega, originalmente feita em Alexandria, no Egito. Visto que o reino etíope ficara parcialmente helenizado, a partir do tempo de Ptolomeu II (308-246 AEC), não era incomum que este oficial soubesse ler a língua grega. Vindo a ser um prosélito ou um temente a Deus, e sua subsequente conversão ao cristianismo, se ajusta perfeitamente às palavras do Salmo 68.31, cujo contexto é o reconhecimento de Yahweh por todos povos da terra.

Esta ligação umbilical da Etiópia/Cuxe adentra as narrativas neotestamentária. Por inferência temos Simão o Zelote, cananeu, portanto, descendente de Cam (Mateus 10.4), que dará origem aos Cuxitas/Etíopes; Simão de Cirene, uma cidade que ficava localizada no norte da África, ajudou Jesus a carregar a cruz (Mateus 15.21). Foram alguns cireneus, que se converteram no dia de Pentecostes, que chegando na cidade de Antioquia anunciaram o evangelho aos de língua grega (Atos 11.20); Apolo, originário de Alexandria (África), foi tutelado pelo casal judeu Priscila e Áquila e companheiro missionário de Paulo, tendo pregado nas comunidades cristãs de Éfeso e Corinto. Simeão Níger (o Negro) e Lúcio de Cirene (cf. acima) foram líderes na igreja de Antioquia da Síria (Atos 13.1),[16] onde os discípulos foram, pela primeira vez, chamados cristãos. (Atos 11.26). Os Sírios etnicamente eram negros. Foi na Antioquia da Síria que Lúcio e Simeão ordenaram e comissionaram o apóstolo Paulo para o ministério do evangelho (Atos 13.2,3).

As relações entre a Etiópia e Jerusalém compreendem uma das rotas mais antigas conhecidas pelos africanos por mar e terra.[17] Um dos primeiros grandes centros comerciais se formou na cidade de Axum (Aksum),[18] na mesma proporção que os comerciantes da Arábia do Sul ali foram se estabelecendo.

Na história grega poucas nações ou povos são tão mencionadas em seus registros como a Etiópia e de forma elogiosa. Nos textos antigos de Homero (800 a.C.) Ilíada e Odisseia; Heródoto (490-425) chamado “pai da história (europeia) cita com frequência a Etiópia (Histórias, Livro II, aprox. 440 a.C.); no período romano (1-200 a.C.) o termo Etiópia começou a ser relacionado em termos raciais englobando todos que tinham pele negra e cabelos grossos e enrolados (Cláudio Ptolomeu [90-168 a.C.], Tetrabiblos (grego) ou o Quadrapartitium (latim) que significa “Quatro Livros”).   

O ge'ez (gueês), também chamado de etíope, é uma antiga língua semítica que se desenvolveu na atual região da Eritreia e norte da Etiópia no Chifre da África, como a língua dos camponeses. Posteriormente a língua ge’ez veio a se tornar a língua oficial do Reino de Axum e da corte imperial da Etiópia. Ainda nos dias atuais o ge'ez permanece como língua litúrgica da Igreja Ortodoxa Tewahido da Etiópia, da Igreja Ortodoxa Tewahido da Eritreia, da Igreja Católica Etíope, da Igreja Católica Eritreia e também da Beta Israel (judeus etíopes).

Considerações Finais

A história de fundação do cristianismo na Etiópia mais historicamente substancial é a dos irmãos sírios Frumentius e Aedesius no século IV d.C., pois foram os primeiros a cristianizar uma corte real da Etiópia. Uma estratégia que teve sucesso em muitos lugares, todavia, ao não constituírem um cristianismo autóctone que pudesse perenizar o cristianismo nas diversas camadas sociais, depois de 1.100 anos, a Igreja Ortodoxa Núbia, ao sul, praticamente desapareceu quando a corte real substituiu o cristianismo pelo islamismo como religião oficial.

Entretanto, à margem do registro histórico-arqueológico, os fiéis cristãos ortodoxos etíopes têm uma variedade de “histórias de fundação” próprias, sendo a mais conhecida a história do eunuco etíope registrado por Lucas em Atos (8.26-40), conforme apresentado neste artigo. O texto histórico lucano apenas atesta que a presença de “prosélitos e/ou tementes a Deus” etíopes em Jerusalém já era um fato estabelecido no cotidiano da época de Jesus, de maneira que as literaturas proféticas judaicas relacionadas ao Messias eram conhecidas por essas pessoas.

O sucinto levantamento aqui apresentando corrobora ao menos em tese de que existe fortes indícios e embasamentos para se buscar uma origem primária para o desenvolvimento de comunidades cristãs autóctone Etíope, evidentemente não dentro dos parâmetros estruturais revelados em Atos, nas comunidades estabelecidas por Paulo e seus companheiros e sendo esta uma razão pela qual tenha proliferado uma diversidade de correntes teológicas distintas das vertentes advinda da Ásia-Europa-Palestina e que vai desembocar nos grandes embates teológicos nos séculos posteriores, quando então haverá de se estabelecer uma ortodoxia cristã dogmática.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/

Referências Bibliográficas [utilizada no texto]

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KÖESTER, Helmut. Infroducción al Nuevo Testamento. Salamanca: Ediciones Sígueme. 1988.

MAGUCKIN, John Anthony (Ed.). The Encyclopedia of Eastern Orthodox

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PERVO, Richard I. Acts: a commentary. Minneapolis: Fortress Press, 2008. [Hermeneia].

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BONGMBA, Elias Kifon Bongmba (Org.) The Routledge Companion to Christianity in Africa. York anda London: Routledge Taylor & Francis Group, 2016.

Referências Bibliográficas [complementares]

DECRET, François. Early Christianity in North Africa. Translated by Edward Smither.  Cambridge, United Kingdom: James Clarke & Co, 2011.

JENKINS, Philip. The Lost History of Chris tianity The Thousand-Year Golden Age of the Church in the Middle East, Africa, and Asia—and How It Died. New York, NY: HarperCollins Publishers Ltd., 2008.

MESTERS, Carlos: OROFINO, Francisco. “Las primeras comunidades cristianas dentro de la coyuntura de la época: Las etapas de la historia dei ano 30-70 d.C.”. In: Revista de Interpretation Bíblica Latino Americana (RIBLA). n. 22. 1996. p. 37.1.

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ODEN, Thomas C. How Africa shaped the christian mind - Rediscovering the African Seedbed of Western Christianity. Downers Grove, Illion: InterVarsity Press, 2007.

Dicionários

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[1] A expressão em direção “sul” é uma palavra grega (kata mesēmbria) que pode indicar um marcador temporal “meio-dia”, sendo o caso aqui significa que Felipe foi enviado para uma estrada vazia em um momento improvável do dia. Gaza era o principal centro da rota das caravanas para o Egito.

[2] Em grego “hodos” - que também poderia ser traduzido como “estrada” e, também é a palavra que dá ao livro de Êxodo seu nome: “ex-hodos”, a saída.

[3] Ao citar as palavras do Servo do Senhor Lucas faz uma alusão consciente onde a frase tem uma conotação geográfica: “Eu vou te dar como uma luz para os gentios Que minha salvação possa alcançar Até o fim da terra (έσχάτου τής γής)”.

[4] Não tenho espaço para discutir nesse texto a questão do termo “eunuco”, portanto, parto do pressuposto que aqui não se trata de um homem castrado, ainda que seja um de seus significados, mas de um título designado, conforme textos em ambos os testamentos, a altos funcionários de um reino e da mais alta confiança de seus respectivos governantes. (cf. verbete: TDNT, v.2 p. 766-7).   

[5] A passagem de Isaías citada nos vv. 32-33 é Isaías 53.7-8; mas podemos relacioná-la com Isaías 40.3-5, citado nas narrativas do batismo; e Isaías 56, que menciona especificamente os eunucos como pessoas que estarão entre "todos os povos" para quem a casa de Deus é uma casa de oração (um dos versículos para memória do próprio Jesus (Mc 11.17, somente ele registra o verso completo “para todas as nações”; Mt 21.13, Lc 19.45).

[6] Os comentadores tendem cada vez mais a traduzir a palavra eunuchos, usada em Atos, por "chanceler", que no reino de Núbia significava administrador do tesouro. Guardando semelhança com a posição de José em relação à Faraó como responsável por todos os tesouros egípcios.

[7] No período greco-romano Etiópia (Meroe) era conhecida por ter sido governada por uma linhagem de Candaces (Kandake), ou rainhas-mães. Um clássico escritor romano (Calistenes) deixou registrada sua admiração pelas Candaces, que de acordo com ele, eram mulheres fortes e de uma sabedoria ímpar.

[8] É possível que ele houvesse adquirido uma cópia dos manuscritos em Jerusalém e tenha começado a ler desde o início de sua viagem, mas nada inviabiliza que ele já possuísse estes pergaminhos antes de viajar a Jerusalém. O fato do texto citado em Atos corresponda à versão da Septuaginta (grega) e não ao texto hebraico, implica em que ele de fato não seja um judeu por nascimento, ainda que os judeus da diáspora preferissem a tradução grega para suas leituras pessoais. Lembrando que a primeira versão da Septuaginta foi produzida em Alexandria (África).

[9] Um gentio (não judeu) que adotava o judaísmo, observavam toda a lei de Moisés, inclusive a circuncisão.

[10] Um não-judeu que partilhava a fé de Israel sem a necessidade de se submeter a circuncisão. Se de fato o termo “eunuco” seja uma referência à castração, ele não poderia ser um “prosélito”, pois as leis levíticas o impediriam de vários exercícios cúlticos, incluindo a proibição de sua entrada no templo, o que reforça a ideia de que fosse um “temente a Deus” ou talvez um membro de uma lendária comunidade judaica na Etiópia.

[11] Muitos comentaristas concordam que este texto especifico de Isaías (53) era dos mais conhecidos das comunidades cristãs iniciantes e tornou-se o preferido nas pregações para conectar as profecias veterotestamentária com os acontecimentos da Paixão (cf.:  Mt 8.17; Lc 22.37; At 3.13-26; 4.27-30; Rm 10.16; 1Pe 2.21-24;).

[12] PERVO (2008, p. 219) coloca em paralelo as duas perícopes, o que facilita em muito a comparação dos dois relatos (Lucas 24.15-32; Atos 8.30-39).

[13] O verso 37 não consta nos principais manuscritos.

[14] Existem oito grupos claramente reconhecidos de idiomas que são ou costumam ser incluídos na família cuxítica, entre elas o sidamo, falado na Etiópia, com cerca de 2 milhões de pessoas.

[15] Na tradição bíblica, Cuxe e/ou Cus, foi um dos filhos de Cam que se estabeleceu no nordeste da África. Na Idade Antiga e na Bíblia, uma grande região conhecida como Cuxe abrangia o norte do Sudão, o sul do Egito e partes da Etiópia, Eritreia e Somália, e os termos Etiópia e Cuxe eram usadas como sinônimas. No período da antiguidade clássica os gregos passaram a denominar de "Etiópia" e não "Cuxe (Cus)" toda essa região e etnias nela contida.

[16] Não confundir com a Antioquia da Pisídia (At 13.14)

[17]  A distância entre Jerusalém e Etiópia de 4205 Km por estrada. 

[18] A cidade de Axum foi aparentemente fundada por volta de 100 d.C., mas a região circundante é habitada há milênios.