sexta-feira, 25 de março de 2022

Parábolas em Ordem Cronológica: Pano novo em roupa velha [reeditado]

Todos os exercícios para estabelecer uma cronologia das parábolas de Jesus registradas nas narrativas evangélicas são, em certo sentido, limitados em seu resultado final. Os evangelistas não escreveram suas narrativas com preocupação estritamente cronológica, mas organizaram seus relatos a partir de propósitos teológicos, pastorais e temáticos.

O próprio Cânon bíblico não foi organizado a partir da datação cronológica dos escritos, mas por afinidades literárias e temáticas: primeiro os Evangelhos, depois Atos, as cartas paulinas, as cartas gerais e, por fim, o Apocalipse. No caso das cartas de Paulo, por exemplo, a disposição canônica segue, em linhas gerais, a extensão dos escritos, e não necessariamente a ordem de composição.

Ainda assim, o exercício cronológico é estimulante e gratificante quando realizado com vistas à edificação, e não à mera especulação acadêmica. O propósito desta série é explorar um roteiro possível, entre outros, para que possamos aprender com o Mestre e sermos edificados por ele.

A sequência adotada nesta série segue a proposta cronológica anteriormente apresentada no blog, sempre com a ressalva de que toda cronologia das parábolas é um recurso didático e não uma tentativa de resolver definitivamente todas as questões históricas envolvidas na ordem dos acontecimentos [GUEDES, 2017].

Observações iniciais

O texto pode ser lido sem as notas de referência, mas elas ajudam a esclarecer alguns detalhes relacionados ao contexto, aos termos utilizados nas narrativas e às discussões acadêmicas mais amplas sobre as parábolas de Jesus.

Parábola: Pano novo em roupa velha
Referências bíblicas: Mateus 9.16; Marcos 2.21; Lucas 5.36
Ponto central: Jesus não faz reciclagem; ele faz coisas novas.
Contexto no ministério de Jesus: pouco depois do encarceramento de João Batista pelo rei Herodes Antipas, pois os interlocutores são discípulos do Batista, e não há nenhuma referência de que ele já tivesse sido decapitado.
Motivo da parábola: Jesus é questionado sobre a razão pela qual seus discípulos não cultivam a prática do jejum como o fazem os fariseus e os próprios discípulos de João Batista.
Peculiaridade: poucas parábolas são registradas pelos três evangelistas sinóticos. O mais comum é que apareçam em dois Evangelhos ou em apenas um deles. Embora seja provável que a narrativa de Marcos tenha sido a primeira a circular entre as comunidades cristãs, nesta série seguiremos a organização canônica estabelecida em nossas Bíblias, partindo de Mateus para Marcos e Lucas.

Como indicado na introdução geral da série, as parábolas devem ser lidas como instrumentos didáticos por meio dos quais Jesus comunica verdades espirituais profundas usando imagens simples e extraídas da vida comum [GUEDES, 2016]. Essa leitura também está em harmonia com a observação de Joachim Jeremias, para quem as parábolas de Jesus devem ser compreendidas em estreita relação com sua mensagem sobre a chegada do Reino de Deus [JEREMIAS, 2007].

Exposição textual: Mateus 9.16

Um pouco antes da parábola, Jesus havia chamado Levi, também conhecido como Mateus, para fazer parte do grupo de seus discípulos. Ele trabalhava na coletoria; portanto, era um publicano, sempre alvo da rejeição dos judeus, que consideravam os publicanos traidores por cooperarem com o domínio romano.

Na sequência, Levi oferece um jantar a Jesus e aos discípulos. Como acontecerá posteriormente no caso de Zaqueu, essa refeição atrai um número expressivo de parentes, amigos, conhecidos e curiosos. Naturalmente, atrai também os olhares críticos dos fariseus, que não conseguem conter sua indignação e perguntam aos discípulos: “Por que come o vosso Mestre com publicanos e pecadores?” (Mt 9.11).

Na cena precedente à parábola, os discípulos de João Batista também não se sentem confortáveis com Jesus e seus discípulos se alegrando à mesa. Eles eram mais rigorosos quanto à prática do jejum e à disciplina alimentar, aproximando-se, nesse aspecto, da seriedade ascética dos fariseus. Por isso dirigem a pergunta diretamente a Jesus: “Por que jejuamos nós e os fariseus muitas vezes, e teus discípulos não jejuam?” (Mt 9.14).

Jesus aproveita os questionamentos para ensinar conceitos relacionados ao Reino de Deus, algo distinto e novo em relação ao judaísmo rabínico predominante naqueles dias. Ele utiliza a figura de um noivo que celebra, juntamente com seus amigos e parentes, as festividades de seu casamento. Nessas ocasiões havia comida, vinho e alegria; não era tempo de lamento, mas de celebração.

Jesus se apresenta como o noivo, e seus discípulos como os convidados para a festa. Se era impróprio para os convidados de um casamento jejuar e chorar enquanto a celebração estava acontecendo, igualmente era impróprio que os discípulos de Jesus jejuassem e chorassem enquanto ele estava pessoalmente com eles. Todavia, haveria um tempo em que o noivo lhes seria tirado; então haveria tristeza.

É nesse contexto que Jesus apresenta a pequena parábola: ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha, pois o remendo repuxa o tecido antigo e a ruptura se torna ainda maior.

Exposição textual: Marcos 2.21

Se a narrativa de Mateus é mais econômica, talvez por ele estar pessoalmente envolvido nas cenas narradas, Marcos amplia o relato e nos fornece outros detalhes.

Jesus está na Galileia, mais especificamente em Cafarnaum. Ali vê Mateus — Levi, filho de Alfeu — trabalhando na coletoria. Jesus o chama para segui-lo, e imediatamente Levi deixa tudo e passa a acompanhá-lo.

Para marcar o novo início de sua vida, Levi convida Jesus, os discípulos, seus amigos e seus parentes para uma refeição em sua casa. Na religião legalista do judaísmo rabínico, representada pelos fariseus e escribas, publicanos e pecadores dificilmente encontrariam espaço de acolhimento. Para muitos religiosos da época, pessoas como Mateus, Zaqueu ou Maria Madalena já estavam irremediavelmente condenadas.

Mas Jesus vem trazer boas-novas de salvação a todos os pecadores, sejam eles publicanos, líderes religiosos, pessoas marginalizadas ou gente respeitável aos olhos da sociedade. Sua morte e ressurreição são suficientes para salvar todo aquele que nele crê.

Evidentemente, a celebração atraiu a atenção dos fariseus e escribas. Eles já vinham observando os movimentos, palavras e ações de Jesus, procurando algo que pudesse servir de acusação diante das autoridades religiosas. Mas outro grupo também estranhou o comportamento de Jesus e de seus discípulos: alguns discípulos de João Batista. Ao que tudo indica, João já estava encarcerado por Herodes Antipas, a pedido de Herodias.

Esses discípulos questionam Jesus por não ensinar seus seguidores a respeitarem a prática regular do jejum. Provavelmente o banquete oferecido por Mateus ocorreu em um desses dias em que determinados grupos religiosos costumavam jejuar.

Como sempre, Jesus transforma os questionamentos dos fariseus, escribas e discípulos do Batista em oportunidade para ensinar princípios fundamentais da mensagem do Reino de Deus.

Jesus veio arrancar das costas das pessoas o fardo insuportável do legalismo judaico rabínico. Ele toma esse fardo sobre si na cruz. A mensagem do Evangelho do Reino é libertadora e festiva. Jesus veio cumprir toda a Lei em favor de seu povo, para que, libertos por ele, pudéssemos nos oferecer a Deus como sacrifício vivo, santo e agradável.

Para responder aos discípulos do Batista — e certamente também aos atentos fariseus e escribas presentes — Jesus utiliza uma pequena parábola. Todos sabiam, pela prática cotidiana, que ninguém com bom senso utilizava pano novo para remendar uma roupa envelhecida e esgarçada. Quando a peça fosse lavada, o tecido novo encolheria e provocaria uma ruptura ainda maior no pano velho.

A parábola deixa claro que o Evangelho anunciado por Jesus não é um remendo costurado sobre o judaísmo rabínico. O Evangelho é tecido novo; por isso, não pode ser simplesmente acrescentado ao velho tecido religioso como se fosse um reparo. São realidades incompatíveis quando se tenta reduzir a novidade de Cristo a um adendo do antigo sistema. Nessa direção, Klyne Snodgrass observa que as parábolas não devem ser tratadas como ilustrações ornamentais, mas como narrativas que confrontam o ouvinte e exigem resposta diante da ação de Deus revelada em Jesus [SNODGRASS, 2012].

Ou se recebe o novo tecido do Evangelho, ou se permanece com o velho tecido do legalismo. Não é possível transformar Cristo em remendo religioso.

A narrativa também deixa claro que tanto os discípulos de João Batista quanto os fariseus demoraram a perceber que a vinda de Jesus inaugurava uma nova era. As cerimônias tradicionais, os jejuns legalistas e o próprio sistema do Templo perderiam sua razão de ser diante daquele para quem todas essas coisas apontavam. Como o escritor de Hebreus deixa claro, tais realidades eram sombras indicativas da obra redentora de Cristo.

Uma vez que Jesus, o Noivo, veio e cumpriu todas as exigências da Lei, essas cerimônias perderam seu valor legal e tornaram-se desnecessárias como caminho de justificação. “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8.36).

Mas é difícil andar sem muletas quando se viveu a vida inteira apoiado nelas. Os israelitas libertos da escravidão do Egito logo sentiram saudades dos temperos egípcios e chegaram a desejar o retorno ao estado anterior de escravidão. Nem todos querem ou apreciam a liberdade. Muitos sentem falta das antigas leis e cerimônias, mesmo quando sabem que elas não passam de sombras.

Exposição textual: Lucas 5.36

Quero aproveitar a narrativa lucana para destacar três aspectos que ainda não foram abordados.

1. O tempo e a ocasião

Quando Jesus é questionado sobre a razão pela qual seus discípulos não estavam jejuando, em nenhum momento ele minimiza ou descarta a prática do jejum. O que ele ensina é que aquele não era o tempo apropriado. Naquela ocasião, a presença do Noivo exigia celebração, não lamento.

A imagem do casamento é muito adequada: enquanto o noivo está presente e os amigos participam da festa, não é momento de jejum, mas de alegria. Havia precedentes nas tradições judaicas que dispensavam certas práticas de jejum durante celebrações de casamento.

Todavia, em outros tempos — de calamidade, guerra, fome, pestes, angústia espiritual ou enfrentamento do maligno — pode haver necessidade de jejum, contrição e oração mais profunda diante de Deus.

Nossa natureza pecaminosa muitas vezes procura nos arrastar para uma vida contrária à Palavra de Deus. Nesses momentos, o jejum pode servir como instrumento de quebrantamento e disciplina espiritual, para que sejamos fortalecidos na luta contra a carne. Não podemos nos esquecer de que vivemos em um mundo mau, sob influência do maligno. Por isso Jesus ora ao Pai: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal” (Jo 17.15).

Mas Jesus sempre condenou toda forma de legalismo, inclusive aquelas revestidas de falsa espiritualidade. A prática do jejum não pode ser banalizada, nem utilizada como tentativa de pressionar Deus a fazer a nossa vontade. Pelo contrário, oração e jejum devem expressar prostração, dependência e submissão à vontade de Deus, como o próprio Jesus exemplificou no Getsêmani.

2. A prática saudável do jejum

O exercício espiritual do jejum não deve produzir dano físico ou mental ao crente. Quando uma prática que deveria fortalecer passa a enfraquecer e debilitar, ela se descaracteriza em relação ao seu propósito.

Muitos cristãos, no afã de buscar uma suposta “superespiritualidade”, acabam adoecendo. A espiritualidade genuína e saudável está em harmonia com o bom senso e o correto discernimento. O uso oportuno e bem dosado do jejum pode contribuir para o fortalecimento da vida espiritual; mas, como acontece com uma medicação, quando utilizado fora das prescrições adequadas, pode tornar-se nocivo.

Certas práticas religiosas, especialmente em tradições marcadas por longos períodos de abstinência extrema, aproximam-se mais da autoflagelação do que de uma espiritualidade genuinamente bíblica.

O caso de Jesus, retirando-se para o deserto e jejuando por quarenta dias, é uma excepcionalidade. Aquilo que ele enfrentaria — a cruz — nenhuma outra pessoa poderia suportar. Como ele assumiu plenamente nossa humanidade, preparou-se de modo singular para cumprir sua missão. Em nenhum outro momento os Evangelhos registram Jesus repetindo essa prática por quarenta dias.

3. O fim e o objetivo do jejum

O terceiro aspecto está relacionado ao fim, ou objetivo, do jejum. Os fariseus, escribas e alguns discípulos de João Batista corriam o risco de colocar o jejum no lugar da verdadeira religião. Especialmente os fariseus se vangloriavam de jejuar mais do que era exigido.

Mas o jejum nunca foi um fim em si mesmo. Ele é apenas um meio. Assim como o andaime não é o edifício, mas apenas um instrumento utilizado na construção, o jejum não é a essência da espiritualidade, mas uma ferramenta que pode servir ao crescimento espiritual quando utilizada corretamente.

O jejum não substitui arrependimento e fé no Senhor Jesus Cristo. Nem cem jejuns, nem mil penitências podem perdoar um único pecado, pois somente no sangue de Cristo nossos pecados são perdoados, e somente nele nossas injustiças são purificadas.

Lembremos as palavras do profeta, retomadas por Jesus: Deus deseja misericórdia, e não sacrifícios; obediência, e não ritualismo. O que agrada ao Senhor não são cerimônias pomposas, arrogância eclesiástica ou espiritualidade exibicionista, mas um coração que o ama e guarda seus mandamentos.

Aplicações vivenciais

1. Sejamos cautelosos em nossas críticas

Vivemos dias em que muitos evangélicos se sentem no direito de emitir críticas contundentes contra outros cristãos que pensam ou praticam a fé de modo diferente. No texto, os fariseus e escribas criticam Jesus por comer com publicanos e pecadores. Até mesmo os discípulos de João Batista questionam Jesus em relação à prática do jejum.

Mas Jesus responde sem violência verbal. Especialmente em relação aos discípulos de João, o tom de Jesus é consensual e pastoral. Muitas vezes achamos que somos mais zelosos do que o próprio Jesus em relação ao Evangelho e, em outros momentos, nos colocamos perigosamente acima daqueles que expressam sua fé cristã de forma distinta da nossa.

2. Sejamos cautelosos em nossos conselhos

Devemos lembrar sempre que as pessoas têm compreensões, histórias e capacidades diferentes. Não é possível esperar de um neófito a mesma maturidade de alguém que está na caminhada cristã há muitos anos.

Jesus é econômico em suas respostas aos questionamentos que lhe são feitos. Ele fala apenas aquilo que seus ouvintes poderiam compreender naquele momento. Assim também fez com seus próprios discípulos, dosando seus ensinamentos de forma progressiva.

Ao fazer uso de uma pequena parábola, Jesus não desmerece a capacidade de seus críticos, mas lhes fala de modo prático, para que compreendam onde estava o erro e possam corrigi-lo.

A forma maravilhosa com que Jesus corrige e restaura o apóstolo Pedro deveria servir de modelo para todos nós. O apóstolo Paulo compreendeu muito bem esse princípio ao escrever aos coríntios que ainda precisava alimentá-los com leite, e não com alimento sólido, pois ainda não estavam preparados para assuntos mais profundos (1Co 3.2). O autor de Hebreus segue a mesma linha ao distinguir o leite destinado aos imaturos e o alimento sólido próprio dos maduros (Hb 5.12-14).

3. Utilizemos as ferramentas que contribuem para nosso crescimento espiritual

Como já foi explicado, Jesus não criticou nem descartou o uso do jejum. Ele deixou claro que há momentos em que precisamos recorrer a esse exercício espiritual para fortalecimento da fé e saúde da espiritualidade.

Nunca haverá, nesta vida, um momento em que nossa vigilância possa ser diminuída, nem um tempo em que deixemos de depender de comunhão mais íntima e profunda com Deus.

O apóstolo Paulo, que não era asceta rigoroso como alguns discípulos de João e que havia abandonado completamente o legalismo judaico farisaico, declarou que passou por jejuns muitas vezes. Ele sabia que era necessário manter a natureza pecaminosa sob sujeição, para não tropeçar naquilo que ele mesmo condenava (1Co 9.27).

Conclusão

A parábola do pano novo em roupa velha nos ensina que o Evangelho não é um remendo religioso. Cristo não veio apenas melhorar um sistema antigo, nem oferecer uma atualização superficial de práticas incapazes de transformar o coração humano. Ele veio inaugurar uma nova realidade.

O Reino anunciado por Jesus não pode ser reduzido a legalismo, ritualismo ou mera reforma moral. Ele é novidade de vida. O pano novo do Evangelho não pode ser costurado sobre o tecido envelhecido da autossuficiência religiosa. Em Cristo, Deus não apenas remenda; ele faz novas todas as coisas.

Utilização livre, desde que citada a fonte.

Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com

Outro blog:
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

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Referências bibliográficas

GUEDES, Ivan Pereira. Parábolas de Jesus — Introdução. Reflexão Bíblica, 2 dez. 2016. Disponível em: http://reflexaoipg.blogspot.com/2016/12/parabolas-de-jesus-introducao.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

GUEDES, Ivan Pereira. Parábolas: uma ordem cronológica. Reflexão Bíblica, 2 jun. 2017. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2017/06/parabolas-uma-ordem-cronologica.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

JEREMIAS, Joachim. As parábolas de Jesus. São Paulo: Paulus, 2007.

SNODGRASS, Klyne. Compreendendo todas as parábolas de Jesus: guia completo. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. 


 

 

sexta-feira, 18 de março de 2022

Josué Capítulo 1 – Novos Começos em Obediência a Deus

A grande diferença entre a geração que pereceu no deserto e esta nova geração que vai tomar posse da Terra Prometida é: obediência.

Contexto do Capítulo

O primeiro capítulo de Josué estabelece o cenário e o roteiro do livro. O tema deste capítulo poderia ser: Supere Seus Medos.  

A tarefa que Josué e todos os israelitas irão empreender é grande e os obstáculos ainda maiores. A geração anterior se acovardou e não creram – eles farão o mesmo ou terão coragem e fé para obedecerem?

Para complicar um pouco mais a primeira frase do capítulo começa com essa declaração “depois da morte de Moisés”.

O grande libertador condutor de toda jornada até então estava morto. Será que Josué será capaz de lidera-los?

Na medida em que vamos lendo o capítulo verificamos que Deus prepara tanto Josué, para liderar, quanto prepara o povo para aceitarem a liderança do novo líder.

Deus dá a Josué e a todo o povo as mesmas garantias que havia dado a Moisés: “assim serei contigo [e com eles] não te deixarei, nem te desampararei”.

Exatamente como te prometi A fidelidade de Deus nesta história fortalece nossa fé em suas promessas para nós através de Jesus.

Este livro está para o Primeiro Testamento como o livro de Atos está para o Segundo Testamento, que faz uma ponte ou link entre os Evangelhos e as Epístolas do Novo Testamento. Da mesma forma o Livro de Josué conecta tudo que aconteceu antes (Gênesis a Deuteronômio) com tudo que se segue, corroborando de forma preciosa a fidelidade de Deus às suas promessas. A terra que Deus havia prometido a Abraão e reafirmada a Isaque e Jacó se cumpre literalmente, após mais de quinhentos anos, através da liderança de Josué.

Ainda que a geração israelita que saiu do Egito tenha falhado, finalmente depois de longos 40 anos peregrinando no Deserto, a nova geração israelita vai tomar posse da terra de Canaã. O livro de Josué [o nome dele era Oséias (salvação) e Moisés mudou para Josué/Jesus (o Senhor é salvação) cf. Nm 13.17] nos ofereces a narrativa da entrada dos israelitas em Canaã, com suas vitórias e derrotas. Na bíblia não há super-heróis, mas homens e mulheres que estão dispostos a obedecerem a Deus, ainda que em muitas ocasiões esbarrem em suas próprias limitações e fragilidades, mas como o apóstolo Paulo declara: Deus manifesta seu poder em nossas debilidades.

O livro inicia onde o anterior encerra – a morte de Moisés. Aqui temos dois motivos: indica tanto o momento da história a partir do qual o livro começa quanto demarca o inicio da nova liderança por meio de Josué. E que com a morte de Moisés [Por causa da anterior desobediência de Moisés, Deus disse que Moisés não seria permitido nem mesmo entrar na terra de Canaã (Nm 20.12; 27.13-14; Dt 1.37; 3.26-27; 32.52; 34.4)] Deus conclui seu

Síntese do Livro

O título deste livro deriva do personagem principal – Josué – que fora ungido pelo próprio Moises como sucessor na liderança dos israelitas.  

Agora (melhor tradução - E aconteceu após a morte de Moisés,)”, em vez disso, “e” a partícula conectiva usual, que indica que algo aconteceu antes, do qual é a continuação colocando este livro em conexão imediata com o anterior - Deuteronômio. Os livros antecedentes e os livros subsequentes começam igualmente com a mesma partícula “e”.

Mas, apesar de sua  ligação umbilical com os livros anteriores ele possui características peculiares que o torna distinto das narrativas que o antecede. Por isso transformar o Pentateuco em um Hexateuco não é a melhor prática hermenêutica. 

Em geral, todo o relato da conquista é apenas uma demonstração da fidelidade de Deus aos termos estabelecidos na Aliança.

As nossas traduções optam por não iniciar com a conjunção “e”, de maneira que se perde o vínculo direto entre o Deuteronômio e a narrativa de Josué [E aconteceu após a morte de Moisés].

 Essa opção  oculta o objetivo de afastar esse escrito, e os demais em sequencia,  o máximo possível do Pentateuco, para esvazia-lo de sua força e pujança e trata-lo como se fosse uma criação fictícia muito posterior. Só temos a lamentar tal atitude por parte daqueles que deveriam zelar pela fidelidade textual da Bíblia. 

Moisés morreu no dia 1º do 12º mês, Adar, e assim que esse mês de luto terminou e os espias voltaram no dia 4 de Nisan, Deus ordenou que o povo se preparasse para sua partida.

De forma simples o livro pode ser dividido em duas grandes partes:

o relato da conquista (capítulos 1 a 12) e o da distribuição das porções de cada tribo (capítulos 13 a 24).

O livro conclui com a renovação da Aliança (capítulo 24), que se constitui no fio condutor desde  Abraão (Gênesis) e que alcançará seu ápice no Calvário onde Jesus estabelecerá a Nova Aliança.

julgamento sobre a geração incrédula que saíram do Egito (5.4-6). Todavia, mesmo "após a morte de Moisés", Yavhew reafirma que permanecerá fiel às Suas promessas e aos termos da Aliança, ou seja, Moisés morreu, mas Yahweh não mudou Esta verdade é primeiramente revelada a Josué pelo próprio Deus (vv. 1-9) e depois comunicada por Josué a Israel através de seus líderes (vv. 10,11).

 Deus é especialista em transformar situações trágicas em grandes vitórias e a morte de Moisés é uma vírgula e não um ponto final no programa elaborado por Deus. Neste capítulo vemos como Deus trabalha sempre antecipadamente, como tão bem diz o caipira: quando nós vamos com a farinha, Deus já vem com o bolo pronto. Deus nunca fica à mercê dos acontecimentos, mas ele sempre se antecipa e conduz os acontecimentos – Deus é sempre o protagonista da História e Moisés, Josué, eu e você somos apenas e tão somente coadjuvantes e isso por si só já é um privilégio incomparável.

Com a morte de Moisés, o Senhor agora fala diretamente com Josué [Esta fórmula 'o Senhor falou', se repete nos primeiros livros da Bíblia, corresponde à fórmula mais direta dos profetas, 'Assim diz o Senhor']. Josué havia sido preparado para a liderança por mais de quarenta anos (o que significa que ele está próximo dos oitenta anos); ele caminhou humildemente junto com Moisés e aprendeu o máximo possível [cf. Êxodo 17.8-16; 32.17; 33.1; Números 13.9; 14:38] e não há qualquer indicação de que ele aspirasse a este lugar de honra, mas no tempo e por escolha  de Deus ele foi alçado a esta posição de liderança do povo [Números 27.18-23].

E assim como fizera com Moisés o Senhor lhe deu instruções claras e simples para cruzar o Jordão, e todo o Israel com ele, para tomarem posse da terra que Deus lhes prometera (v. 2). Deveriam fazer isso com determinação e firmeza, passo a passo até que toda a terra de Canaã fosse conquistada (v. 3). O peculiar aqui é que a frase “passe o Jordão” é encontrada apenas nos lábios de Yahweh (Dt 3.27; 312). Não é a melhor

época, pois é o período de cheia (3.15) e o rio se alargava muito e as correntezas eram muito fortes.

Não lhe é dado como e nem que meios deve utilizar para levar todo o povo ao outro lado em segurança; ele tem a ordem de Deus para fazê-lo, e a promessa de que estará com ele, e isso deve ser suficiente; para Josué cabia obedecer, o restante era por conta de Deus [o salmista faz o link direto entre duas travessias “O que te afligiu, ó mar, que fugiste? tu, Jordão, que foste rechaçado?”].

O propósito de Deus, como veremos, era demonstrar a Josué e à nova geração o Seu poder, como fizera na saída do Egito. Igualmente devemos viver dia-a-dia na presença de Deus, atravessando nossos rios, ainda que tenham correntezas fortíssimas, tomando posse das bênçãos de Deus, até que adentremos em definitivo na nossa Canaã nos “lugares celestiais”. A nós cabe crer, o restante é por conta de Deus.

As fronteiras descritas no verso 4 são mais extensas do que Israel jamais possuiu, seja por comodismo ou falta de fé (obediência) eles não tomaram posse de toda a terra de Canaã e quem chegou mais perto disso foi Davi e Salomão, mas mesmos esses não alcançaram as fronteiras de toda a promessa divina – “toda a terra dos hititas”, aqui tomada no seu sentido mais lato abarcando todos os povos canaanitas [Js 1.4; cf. Gn 15.18; Êx 23.31]. Isso lhes trará sempre muitas dificuldades e transtornos. Todas as vezes que negligenciamos e não levamos a sério a Palavra de Deus, também sofremos as consequências da nossa própria negligência e desobediência.

Certamente Josué tinha plena consciência do desafio que tinha pela frente. Mais do que qualquer outro ele havia presenciado as dificuldades enormes que Moisés tivera que enfrentar fosse os inimigos externos, como ainda mais difíceis os inimigos internos – a rebeldia e desobediência constante das lideranças tribais. Por esta razão, para tranquilizar o seu coração e fortalecer a sua fé o próprio Deus lhe fala: “como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei, nem te desampararei...Tão somente seja forte e mui corajoso” (vs. 1.5,6,7). Isso era tudo que Josué precisava ouvir e certamente foi essa certeza que lhe renovava as forças e a fé para continuar firme na realização desta grande obra. Uma das últimas palavras de Jesus para seus discípulos e para cada um de nós hoje foi: “Eis que estou com vocês a cada dia até o final”. O que mais precisamos ouvir para fazer sossegar nossa alma no meio das tribulações da vida; o que mais precisamos ouvir para empreendermos sem desânimo a maior e mais extraordinário obra da pregação do Evangelho a todas as pessoas, nações, povos e raças.

Josué havia recebido um legado precioso e indispensável para sua vida: “tenha o cuidado de fazer segundo toda a Lei [refere-se aos cinco livros de Moisés: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio] que meu servo Moisés te ordenou e dela não te desvies ... não cesses de falar (ensinar, comunicar) deste livro da lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer (obedecer) tudo quanto nele está escrito” (1.7,8). Ninguém antes de Josué recebeu ordens para regular sua conduta pelas palavras de um livro escrito, mas a partir daqui não somente ele, mas todos os seus sucessores devem ouvir e obedecer às ordens deste livro da Lei [o equivalente em Apocalipse: “quem tem ouvidos ouça as palavras desta profecia”]. A obediência cuidadosa à lei de Deus seria seu caminho para o sucesso, mas a desobediência à sua ruína. Certamente Paulo estava pensando nessas palavras de Deus a Josué quando escreve ao seu jovem sucessor no trabalho pastoral Timóteo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2Tm 3.16). A vitória e o sucesso de Josué [Timóteo, eu e você] é decorrente direto de sua obediência a toda Palavra de Deus e continua sendo o único caminho para podermos vencer e sermos bem sucedidos na realização do propósito de Deus na nossa vida. O que a Bíblia significa para você e para mim definira o resultado final das nossas histórias. O crente sábio é maduro é aquele em que seu prazer está na torá de Yahweh, e em sua torá ele medita dia e noite Sl 1.2. Tudo depende do quanto amamos e estamos dispostos a obedecer a Palavra de Deus.

Preparem-se” (vs. 10-11). Todos tinham que se preparar para a Conquista – não apenas Josué e os líderes. A luta não seria breve de maneira que deveriam fazer toda a provisão possível. Josué deu-lhes três dias para fazer o que deve ter sido seus preparativos finais.

Lembrem-se” (vs. 12-15). Todos deveriam participar das batalhas. No livro de Números, os israelitas haviam conquistado os povos a leste do rio Jordão. As tribos de Rubem e Gad e metade da tribo de Manassés pediram para habitarem ali e Moises lhes consentiu, com o compromisso de que quando as demais tribos fossem conquistar o restante do território cananeu eles iriam somar forças juntamente com eles. Chegou a hora de cumprirem a palavra empenhada.

Há força na unidade (versos 16-18). As lideranças tribais, representadas aqui nestas tribos transjordanianas assumiram o compromisso de marcharem sob a liderança de Josué e conquistarem a terra que Deus lhes havia prometido – “[Tudo o que você [Josué] disser, nós faremos]”. É interessante notar a ênfase em 'todo o Israel' no transcorrer de toda a narrativa caps. 3-4; caps. 7-8; 10.29ss.; 22.12, 16; 23.2; 24.1. O palco está montado para a magnífica exibição da glória de Deus e seu poder e graça. Josué está disposto a assumir a liderança, e as pessoas estão dispostas a desempenhar seu papel conforme suas instruções.

Glossário

Transjordânia - é a parte Leste do Jordão; o que muitas vezes é denominada de “o lado oriental”.

Jordão [rio] – Em hebraico, Jordão significa “descendente” ou “para baixo”. Da Galileia ao Mar Morto, o rio desce 185 m em 105 km. Entre março e abril as chuvas da primavera e o derretimento da neve do Monte Hermom no norte inundam o rio, fazendo com que transborde suas margens 3.15 e este parece ser o contexto nesta passagem.

Efraim (tribo de) - Efraim foi o segundo filho de José com Asenate, sua esposa egípcia, e ele nasceu durante os sete anos de fartura. No momento da bênção sobre seus filhos Jacó inclui os dois filhos de José e inverte a bênção da primogenitura dando a Efraim e não a Manasses, o mais velho. A tribo de Efraim tinha seu acampamento logo após os levitas funcionando como uma “tribo de apoio”. O representante da Tribo de Efraim entre os espias era Oséias/Josué, o filho de Nu e neto de Elisama. Eles foram elogiados por Débora e foram louvados por Débora pela sua ajuda patriótica Jz 5.14. Jeroboão, efraimita, foi o primeiro rei do Reino do Norte (Israel) depois da separação das 10 tribos.

Num (pai de) – Não há informações detalhadas sobre ele a não ser que foi filho de Elisama, portanto avô de Josué, que teve destaque na tribo de Efraim e participou de eventos importantes: foi o representante de sua tribo para fazer o levantamento do senso israelita e comandava o exército da sua tribo Nm 1.1-4, 17; 2.18; 10.22. Desta forma Josué vem de uma família militar.

Hititas [heteus] – Era uma tribo dominante naquela época a oeste da Jordânia e por isso muitas vezes representavam todos os demais povos canaanitas.

Yahweh – Este é o nome que reflete o Deus que estabeleceu a Aliança; Deus como salvador redentor! Enquanto os israelitas rompiam a Aliança com sua incredulidade e desobediência, Yahweh é fiel à sua palavra, promessa, aliança.

Servo – Josué começa como servo (sharath – verso 1) ajudante, assistente [discípulo] de Moisés, mas no final de sua vida ele é designado como "o servo [ebed] do Senhor (24.29)”, assim como fora designado Abraão, Moisés e Davi. Para ser grande no reino de Deus é preciso ser o servo de todos. No reino de Deus o caminho para cima é primeiramente o caminho para baixo.

Oseias/Josué – Em algum momento, depois da missão dos espias, Moisés mudou o nome de Oseias Nm 13.8 para Josué Nm 13.16. Há uma mudança significativa nesta alteração que vai muito além da grafia. Oséias significa “salvação” na força humana, mas Josué significa “Yavhew é Salvação”, de maneira que Deus daria a vitória sobre os canaanitas e Josué é seu instrumento. Na tradução da Septuaginta (Versão Grega) é sempre traduzido como Iesous (Jesus), desta forma Josué é um tipo e/ou sombra de Jesus que vai introduzir seu povo na Canaã celestial.

                  

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira.
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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