sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

PARÁBOLAS DE JESUS - Introdução

As parábolas contadas pelo Senhor Jesus, registradas pelos evangelistas, sempre me atraíram. Esses pequenos textos, nos quais Jesus expressa seus extraordinários ensinos de forma tão singular, conduzem-nos a perscrutar os mistérios do Reino de Deus. Espero ter sua companhia enquanto, ao lado daqueles primeiros ouvintes, haveremos de ouvir e aprender com o Mestre por meio de suas parábolas.

Introdução

É impossível a qualquer leitor dos Evangelhos permanecer indiferente diante das muitas parábolas ali registradas. Mesmo aqueles que as leem apenas como literatura ficam encantados com sua beleza, plasticidade, singeleza e praticidade. Quem não se sente atraído pelas figuras que emergem desses pequenos textos: o filho pródigo, o bom samaritano, o mercador de pérolas, a ovelha perdida? É impossível ler algumas dessas parábolas e, ao final, não se deter nas implicações da verdade nelas inserida.

O termo parábola é de origem grega. Etimologicamente, significa “a colocação de uma coisa ao lado da outra para fins de comparação”. Trata-se de um símile, isto é, de uma figura comparativa em que se estabelece uma analogia entre elementos da vida natural ou cotidiana com o objetivo de expressar princípios elevados aos que ouvem ou leem [MOISÉS, 1974].

As parábolas refletem o contexto rural e cotidiano da Palestina do século I:

·        A parábola não tem origem fantástica, sem base na vida real.

·        Jesus extrai suas parábolas da vida cotidiana dele e de seus ouvintes. Muitas de suas figuras vêm do campo: o semeador, o trigo, o joio, a mostarda, a ovelha perdida, os ninhos, as tocas, o fazendeiro e seu arado, o fazendeiro paciente, a chuva, o sol, as flores e os pássaros.

·        Ele também fala sobre o clima: a nuvem no oeste que anuncia chuva, o vento sul que traz calor, a figueira com brotos que anuncia o verão, os campos brancos de trigo que pedem a colheita e os lavradores prontos para receber suas recompensas.

·        Nas parábolas encontramos aspectos do cotidiano familiar: a mulher que amassa grande quantidade de pão, o fermento colocado na massa, o filho que sai de casa e retorna, a mulher que varre a casa à procura da moeda perdida.

·        Jesus também fala sobre a vida do povoado: as brincadeiras na praça da aldeia, as celebrações de casamento e os funerais.

·        Os personagens das parábolas são pessoas reais: dois tipos de construtores; partes em conflito; o fazendeiro rico e seus grandes celeiros; o servo incansável; o desempregado esperando na praça; o camponês que descobre um tesouro no campo; o comprador ou negociante de pérola preciosa.

·        Finalmente, elas falam sobre eventos reais, ainda que alguns deles não fossem tão comuns: o ladrão noturno, as festas de casamento, as empregadas não convidadas, o juiz iníquo.

De forma básica, a parábola é um instrumento didático que, na boca de Jesus, alcançou seu ápice. É por meio delas que Jesus ensina aos seus discípulos os princípios espirituais mais elevados, que se constituem nos pilares de seu Evangelho do Reino de Deus.

Minimizar o valor e a importância das parábolas é incorrer em gravíssimo equívoco, pois o prejuízo para a compreensão da mensagem e do ensino de Jesus será incalculável. Elas são parte integrante do conjunto dos ensinos de Jesus e ocupam lugar singular nas narrativas evangélicas, como prova definitiva de seu valor.

Na continuidade desta série, os estudos das parábolas podem ser organizados em uma sequência cronológica de caráter didático, reconhecendo-se que tal organização serve como roteiro de leitura e edificação, e não como pretensão de resolver definitivamente todas as questões cronológicas dos Evangelhos [GUEDES, 2017].

Distinções

Uma compreensão melhor do caráter peculiar da parábola fica mais evidente quando a distinguimos de alguns outros gêneros literários com os quais ela se assemelha.

Fábula

A parábola difere da fábula por duas grandes razões. Primeiro, a fábula ultrapassa a ordem natural das coisas, o que nunca acontece com a parábola. Na fábula, plantas, animais ou quaisquer outros objetos podem falar e agir como se fossem humanos; a parábola trabalha sempre com o mundo real e não cria situações inverossímeis.

Em segundo lugar, a fábula visa uma ética meramente humana e terrena, muitas vezes em detrimento dos valores morais mais elevados e espirituais. A parábola, proferida por Jesus, tem seu cerne nas verdades espirituais, de maneira que visa o que deve ser, e não apenas o que convém ser. Em nenhum momento Jesus faz pouco das coisas que geram mal e infelicidade na vida das pessoas, ainda que as exponha de forma nua e crua.

Mito

O mito tem origem na necessidade que as pessoas tinham — e ainda continuam tendo — de explicar fenômenos naturais ou determinadas crenças e costumes. Nesse sentido, há muitos mitos dentro das comunidades evangélicas contemporâneas. Eles acabam se transformando em contos populares, e o princípio que lhes deu origem se perde. Se, no mito, a história vem a ser tudo, na parábola a história é apenas um meio condutor para ensinar o princípio permanente.

Pode-se afirmar que o mito parte de uma lei e termina em um fato, enquanto a parábola, inversamente, parte de um fato e estabelece uma lei.

Alegoria

Esta distinção é fundamental para o estudo, a interpretação e a aplicação do ensino extraído das parábolas. É por não compreender corretamente a distinção entre estes dois tipos literários que muitos acabam ensinando ou afirmando verdades que jamais foram ensinadas por Jesus em suas parábolas.

A alegoria é uma metáfora ornamentada. Nela, o símbolo e a verdade a ser ensinada se moldam de maneira que as qualidades de um sejam transferidas para o outro. Na parábola, porém, a distinção entre o símbolo e a verdade é mantida o tempo todo. Enquanto, na alegoria, todos os mínimos detalhes adquirem significado e importância, devendo por isso ser interpretados ou explicados, na parábola o foco está vinculado ao ponto central da semelhança que originou a comparação.

Enquanto na alegoria há uma infinidade de ensinos a serem buscados, na parábola um ensino central é apresentado, e os detalhes não possuem, necessariamente, valor didático independente.

Conclusão

Jesus não criou esta preciosa forma literária, mas, com toda certeza, elevou-a a um nível jamais visto. Uma simples comparação entre as parábolas dos rabinos judeus e as parábolas pronunciadas por Jesus deixa evidente a distância imensurável entre aqueles mestres e o próprio Jesus.

Nas parábolas de Jesus encontramos uma melodia e uma poesia que penetram profundamente na alma e no coração humano. Elas colocam em movimento todas as faculdades humanas: apelam para a inteligência, para os sentimentos e para o coração.

Como escreveu Sátilas do Amaral Camargo:

“O mundo é o Evangelho pictórico e espiritual, e na linguagem parabólica, Jesus se revelou poeta, pela sua imaginação que subiu ao céu; santo, pela sublimidade de sua moral inexcedível; divino, pela majestade de seu caráter insuperável; e redentor, pelo seu propósito em resgatar o homem das peias que o prendem à terra” [CAMARGO, 1954].

Referências bibliográficas

CAMARGO, Sátilas do Amaral. Ensinos de Jesus através de suas parábolas. São Paulo: Imprensa Metodista, 1954.

GUEDES, Ivan Pereira. Parábolas: uma ordem cronológica. Reflexão Bíblica, 2 jun. 2017. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2017/06/parabolas-uma-ordem-cronologica.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 1974.


Utilização livre, desde que citada a fonte.

Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com

Outro blog:
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

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