A grande questão ao se abordar estas
três epístola esta relacionada com a questão da autenticidade delas, ou seja,
se de fato elas foram escritas ou ditadas pessoalmente por Paulo. Não é um
assunto de pouca importância, pois se não foi o apostolo que as escreveu, quem
foi? Algum companheiro de trabalho missionário? Houve uma escola paulina
formada posteriormente à morte dele? E se não foi Paulo, por que foram
incluídas na seleção do cânon?
É preciso realçar que todos os
argumentos que visam questionar a autenticidade paulina em relação a estes três
documentos são historicamente recente em decorrência do movimento racionalista
que eclodiu a partir do século dezenove e que desde então tem levado muitos
estudiosos a questionarem, não apenas estas três epístolas, mas praticamente
todos os livros bíblicos.
Evidência
Externa
Sem
qualquer exagero podemos afirmar que até o século dezenove não se levantou
qualquer duvida se estas epístolas foram escritas por Paulo e elas sempre foram
contadas entre os Homologumena, livros aceitos, como
distinta das sete Antilegomena, ou livros que eram
colocados em disputa do Segundo Testamento.
Somente aqueles que se opuseram à Igreja em meados do
segundo século rejeitavam a canonicidade destas cartas: Marcião que liderou um
movimento separatista e que estabeleceu seu próprio canon bíblico as deixou de
fora, provavelmente por causa de seu ensino e não por questionar a autoria
paulina delas; Taciano e Basílio outros discidentes cristãos aceitavam a
autenticidade de Tito, mas repudiavam as cartas à Timóteo; Orígenes nos informa
que alguns questionavam a autoria paulina de 2 Timóteo porque continham os nome
de Janes e Jambres, que não são encontrados no Primeiro Testamento. Mas de
forma ampla a Igreja cristã aceitou estas três epístolas como sendo escritas
pelo apóstolo Paulo. Em sua introdução
dessas epístolas para a série Cambridge Bíble, Humphreys enumera
cronologicamente as diversas referências delas nos escritos pós apostólicos (HUMPHREYS,1895,
pp. ):
Pais Apostólicos: Epístola de Barnabé (d.C. 75) – 1 Tm 3.16;
Clemente de Romana (d.C. 95) - 1 Tm 2.8 e 1 Tm 1.17; Inácio de Antioquia (d.C.
112) – Tito 1.13 e 3.9, 2 Tm 2.4; Policarpo de Esmirna (d.C. 112) – 1 Tm 6.7 e
6.10; Epístola a Diogneto (d.C. 117) – Tito
3.4; Os Apologistas gregos: Justino
Mártir (d.C. 146) – Tito 3.4; Teófilo de Antioquia (d.C. 168) – Tito 3.1 e 1 Tm
3.4; Os Dissidentes: Basilides (d.C. 110) – 1 Tm
2.6; Heracleon (d.C. 150) – 2 Tm
3.13; Theodotus (d.C. 150), também da escola dos valentinianos, cita 1 Timóteo de
acordo com Epifânio; Taciano (d.C. 160), da seita Encratitas (Tito); As Antigas
Versões: A Peshitta-siríaco (d.C. 130) não incluiu nenhum livro apócrifo, mas
desde sua primeira versão incluiu as pastorais; Antiga Versão Latina (d.C. 150) um dos
testemunhos mais relevantes do cânon bíblico continha as três pastorais;
Os
que questionam a autoria paulina das Pastorais em bases externas o fazem com
base em dois argumentos principais: 1) Elas não aparecem no cânon de Marcião;
2) elas estão ausentes do mais antigo manuscrito grego existente das cartas
paulinas, o P46.
Em relação a Marcião
alegam que ele as deixou de fora de seu cânon por desconhece-las, uma vez que
foram escritas posteriormente, todavia, Tertuliano afirma que Marcião optou por
descarta-las, por contrariarem suas propostas teológicas, bem como mutilou algumas
das outras epístolas paulinas para que se ajustassem aos seus pressupostos. A favor da autoria
paulina estão o amplo e abundante testemunho das lideranças cristãs do segundo
e terceiro século, entre os quais Justino Mártir e Heracles com diversas alusões
e Irineu que indica explicitamente que as pastorais são autênticos documentos
de Paulo (HALE, 1983, p. 237).
O argumento da
ausência no manuscrito P46 é frágil, pois há
outros livros que também não fazem parte deste códice; também é observado pelos
estudiosos menos belicosos que falta a primeira e as últimas páginas, calculada
em número de sete, que poderiam comportar as Pastorais e Filemom; esses códices
foram produzidos em Alexandria, cujas lideranças eclesiásticas reconhecem
amplamente a autenticidade paulinas destes documentos. (HALE, 1983, p. 237).
Este argumento fica bastante fragilizado pelo fato de que as pastorais já eram
conhecidas e aceitas por Clemente (século dois), que era justamente da cidade
de Alexandria (cf. KELLY, 2008, p. 12).
Evidência
Interna
A
crítica mais contundente questionando a autoria paulina está centrada nas
questões internas das próprias cartas. Abaixo citarei os principais argumentos,
bem como os argumentos favoráveis:
1) O cenário Histórico
Aqui o argumento dos
que negam a autoria paulina é que os lugares e os personagens citados nas
Pastorais não se harmonizam com os registros encontrados em Atos e nas demais
epístolas paulinas, de modo que estes documentos foram escritos em período
posterior à morte de Paulo. Eles não reconhecem
a tradição de que Paulo saiu da sua prisão domiciliar conforme registrado no
final de Atos e retomou seu trabalho missionário.
Os que defendem a
autoria paulina partem justamente do pressuposto de que o apóstolo conseguiu
sua liberdade nos tribunais romanos e retoma seus projetos missionários. As
bases para essa postura tem duas vertentes: a) as expectativas do próprio Paulo
de que em breve sairia livre de seu aprisionamento conforme revelam suas
correspondências produzidas neste período: Filipenses, Filemom, Colossenses; b)
uma segunda vertente é o testemunho histórico antigo que concordemente atestam
a liberdade do apóstolo de seu aprisionamento conforme o final de Atos e
desenvolve as atividades que se refletem nas correspondências pastorais.
Uma proposta de
reconstituição deste período, conforme indicadas nas pastorais pode ser: empreende
uma longa viagem pela Asia proconsular, Macedônia e Acaia, tendo por
companheiros alternadamente Lucas, Tito, Timóteo, Tíquico, Erasto, Demas e
provavelmente outros. O roteiro provável pode ser: a) ele alcança a ilha de Creta e deixa Tito para que organize a
comunidade e mantenha os falsos mestres afastados (Tito 1.5), posteriormente
pede que ele venha encontra-lo em Nicópolis, onde deveria passar o inverno
(Tito 3.12), e depois devem se encontrar em Dalmácia (II Timóteo 4.10); b) o apostolo parte para Éfeso, onde
encontra Timóteo, ali exerce sua autoridade apostólica sobre dois falsos
mestres (1 Timóteo 1.20), partindo deixa ali Timóteo como seu representante; c) parte para Macedônia (I Timóteo
1.3), local provável em que escreve a primeira correspondência a Timóteo bem
como a carta dirigida a Tito, enviando Artemas ou Tíquico a Creta como portador
da correspondência a Tito, bem como a recomendação que viesse a encontra-lo em
Nicópolis, onde passaria o inverno (Tito 3.12); d) retorna uma vez mais a Éfeso (I Timóteo 3.14), sabendo que
encontraria ali muitas dificuldades (II Timóteo 1.15, 18; 4.14), causada pelos
falsos ensinos judaicos e gnósticos, ficando hospedado na casa de Onesíforo (II
Timóteo 1.16), mas percebendo algum tipo de risco eminente à sua própria vida
apressa-se em partir para Mileto; e)
em Mileto é obrigado a deixar Trófimo que adoentara (II Timóteo 4.6); f) parte para Trôade, entretanto,
devido algum tipo de perseguição apressa-se e deixa com Carpo sua capa e livros
(II Timóteo 4.13); g) chega a
Corinto, onde deixa Erasto (II Timóteo 4.20); h) parte para Nicópolis onde vai passar o inverno (Tito 3.12).
É durante este período
que Nero assume o trono do Império Romano (64 d.C.) e que entre outras coisas
horríveis acaba por incendiar a cidade de Roma, colocando os cristãos como
bodes expiatórios, o que acaba originando uma das mais cruéis perseguições
contra todos os cristãos dentro do Império. O epicentro da perseguição é a
Capital, mas suas ondas sísmicas rapidamente alcançam toda a extensão do
Império, sendo sentido por Paulo em Acaia ou Nicópolis. Quando foi feito
prisioneiro Demas o abandona e parte para Tessalônica, talvez intimidado pela
onda de perseguição; Tito havia sido enviado para Dalmácia e Crescente para
Galácia; Trófimo doente havia permanecido em Mileto; somente Lucas permanece
com o apóstolo e ambos são levados a Roma. Ao comparecer diante dos juizes
romanos está sozinho desta vez, diferentemente da vez anterior, pois os
cristãos estão sobre fortíssima pressão governamental e qualquer manifestação
aberta é punida com a morte. Após esta preliminar, onde foi ouvido, é levado à
prisão para aguardar o julgamento final, e de onde sabe que não sairá com vida.
O inverno chega com toda sua força, e privado de sua capa e livros, deixados em
Trôade, solicita a Tíquico que ocupe o lugar de Timóteo em Éfeso, de maneira
que esse possa vir a Roma, passando por Trôade e lhe traga sua capa e seus
pergaminhos preciosos; lembra também de João Marcos e sua importância no
desenvolvimento das atividades missionárias. Se Timóteo e Marcos conseguiram
chegar a Roma antes do martírio do velho apóstolo Paulo, não temos como saber. (cf.
CARROL, 1961, pp. 10-12).
Diante deste roteiro provável
de um período final e intenso de atividades missionárias, a autenticidade
paulina das epístolas pastorais ficam confortavelmente assegurada.
2) O Vocabulário e Estilo
Uma das argumentações
mais contundentes dos críticos esta em que o vocabulário e o estilo destas três
cartas são harmoniosas entre si, mas diferem fortemente das demais
correspondências paulinas, e com estes pressupostos te sido proposto um ou mais
autores pós-paulino. Comparando os vacabulários das pastorais, chegam a um
numero de 175 palavras inéditas (hapax legomena) com exceção de nomes próprios,
que aparecem apenas nelas e que podem ser assim distribuidas: 71 encontram-se
em 1 Timóteo, 46 em 2 Timóteo e 28 em Tito. Ainda é possível se
encontrar diversas frases e expressões peculiares que não são utilizadas por
Paulo nas suas primeiras correspondências, e no reverso, estão ausentes das
pastorais expressões que se destacam na literatura eminentemente paulina. Entre varios
exemplos do equivoco dessa primicia, destacada por Spain, as palavras “cruz” e
“crucificar” aparecem 27 vezes nas cartas paulinas em geral, mas nem uma vez
nas pastorais, entretanto, também não ocorre na carta aos Romanos e se
restringem apenas a cinco das outras epistolas paulinas (1980, p. 16).
Esta argumentação
gramatical aparentemente parece ser mais consistente do que realmente se pode
comprovar. O argumento é ingenuo pois parte do pressuposto de que o vocabulário
e a forma de construção gramatical, estilo de escrever, de uma pessoa é
limitado e imutável. Paulo era uma pessoa
de vasto conhecimento e mesmo em suas cartas anteriores é possível perceber a
multiformidade de seu vocabulário e mudanças significativas em suas construções
gramaticais e seu estilo de compor suas correspondências e corroborando é
preciso lembrar que Paulo envelhecera, de que as circunstâncias de sua vida
foram alteradas e de que escreve a companheiros de longa jornada e que agora
assumem funções relevantes e enfrentam situações dificéis e não menos
relevante, ele em diversas ocasiões utiliza o serviço de um secretário (cf. Rm
16.22; 1 Co 16.21; 2 Ts 3.17; Gl 4.12-15; 6.11). Em seu comentário Spain
demonstra a fragilidade dos argumentos críticos literários anti-paulinos:
“Um
estudo das palavras classificadas como estranhas a Paulo e Lucas e ao restante
do Novo Testamento revela que há 112 que mantêm uma relação provável ou
possível com a linguagem de Paulo, e que 111 mantêm tal relação com a linguagem
de Lucas, e ao todo 149 com ambos. Isto faz com que restem 126 palavras, das
quais 3 são encontradas na Septuaginta. Algumas dessas palavras que restam são
termos que deveriam ser familiares a Lucas como médico: gangrena, estômago,
beber água, gerar ou conceber filhos, parte, dado ao vinho, doente, e abstenção
de vinho. ... E há varias palavras que Paulo pode não ter tido ocasião de usar
em seus outros escritos, tais como “a capa” que ele deixou para trás, e os
“pergaminhos” que pediu a Timóteo para levar.” (1980, pp. 14-15).
Por fim, fica também
evidenciado que os críticos anti-paulinos sutilmente desvalorizam o valor
incontestável de que há muito do vocabulário e expressões amplamente utilizada pelo
apóstolo nestes três documentos.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/
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Paulo: Informações Biográficas
Paulo: Uma Nova Perspectiva
O MUNDO DO APOSTOLO PAULO: A Filosofia
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