terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Evangelho Segundo Marcos: Personagens Anônimos (1.29-30)


            Todos os filmes além dos atores principais há sempre um numero expressivo de “figurantes”, aquelas pessoas que passam pelas cenas, mas normalmente não falam absolutamente nada e por isso seus nomes acabam não sendo mencionados. Mas sem a participação destes “figurantes” as cenas ficaram vazias e sem sentido.
            No evangelho redigido por Marcos encontramos uma pequena lista de personagens cujos nomes ficaram desconhecidos. Mas alguns deles participam efetivamente das cenas, todavia ficamos sem saber quem eram. Na literatura extra bíblica alguns desses personagens têm sido identificados e nomeados, todavia, na maioria das vezes são no mínimo questionáveis, quando não totalmente inverossímil.  Abaixo indicamos esses personagens anônimos e as respectivas referências.
Personagens Anônimos no Evangelho Segundo Marcos
Um homem endemoninhado na Sinagoga (1.21-28)
A Sogra de Pedro (1.29-30)
O Geraseno endemoníado (5.1-20)
Uma mulher com fluxo de sangue (5.25-34)
A mãe de Herodias (6.24, 28)
Um soldado da guarda de Herodes (6.27)
Uma mulher síria-fenícia (7.24-30)
Dois dos discípulos de Jesus (11.1-7; 14.13-16)
Um escriba (12. 28-34)
Um dos discípulos de Jesus (13.1)
Uma Mulher que unge a cabeça de Jesus (14.3-9)
Um escravo do sumo sacerdote (14.47)
Um jovem que foge do Getsêmani nu (14.51-52)
Uma serva do sumo sacerdote (14.66-69)
[dois discípulos anônimos] - ([somente 16.12-13], cf. Lucas 24.13-35)

A Sogra de Pedro (1.29-30)
            É muito significativo que os dois primeiros milagres ou ação sobrenatural de Jesus na narrativa marcana são de duas pessoas anônimas, ou seja, não sabemos seus nomes. Se no primeiro caso, um homem possesso na Sinagoga, era negativo, neste caso da sogra de Pedro é uma cura, portanto de aspecto positivo. Mas em nenhum dos dois casos os personagens são nomeados.
            Apressadamente alguns haverão de gritar que as mulheres não tinham valor naquela época e que os escritores bíblicos são influenciados por está atitude discriminatórios para com as mulheres. Uma simples olhada na lista acima fragiliza muito tais críticas por parte de muitos comentaristas bíblicos atuais. Ali se encontram diversos homens e mulheres, incluindo discípulos, cujos nomes não são mencionados nos referidos textos evangélicos.
            Por que então Marcos inicia sua narrativa com dois milagres de personagens anônimos? Entendo que o evangelista deseja deixar bem claro desde o principio de que Jesus veio realmente para todas as pessoas independentes de seus nomes, ou seja, para Jesus toda e qualquer pessoa precisa ser liberta e ser sarada. O apóstolo Paulo em uma de suas cartas vai declarar que Jesus (Evangelho) veio para aqueles que nada eram e nada tinham, para confundir os que acham que são e acham que têm. O pecado trouxe como consequência as possessões e as doenças e Jesus veio buscar e salvar o ser humano, independente de quem sejam.
            Diferentemente do primeiro milagre em que somente Lc acompanha a narrativa de Mc, o segundo milagre é também mencionados por Mt 8.14-15 e Lc 4.38-39, demonstrando assim que sua repercussão foi significativa. Na verdade a partir destes dois milagres públicos o ministério de Jesus alcançara uma dimensão crescente e seu nome será proclamado por toda Palestina judaica e muito além. Mas também atrairá a atenção e crescente indignação e ódio por parte das lideranças eclesiásticas judaicas, cujo clímax ocorrerá não muito tempo depois, quando esses grupos religiosos antagônicos pela primeira e talvez esta única vez se unissem no propósito de matar Jesus – inimigo do inimigo meu é meu amigo – assim sacerdotes, escribas, fariseus, saduceus, herodianos e zelotes fazem um pacto silencioso de morte contra Jesus.

E imediatamente[1] depois eles de saírem da sinagoga, eles foram para a casa de Simão e André, com Tiago e João (1.29).
            As reuniões sabáticas na Sinagoga podiam ser pelo período da manhã, no máximo até o meio dia, ou pelo período da tarde, antes de encerrar o dia ao por do sol. Para harmonizar com a narrativa lucana que informa que “ao por do sol” muitas pessoas começaram a virem para Cafarnaum para verem Jesus, os acontecimentos anteriores foram no oficio religioso da tarde e quando acabou se dirigiram à casa mais próxima, havia um limite para se caminhar no sábado, que seria a casa de Pedro e André.[2]
E a sogra[3] de Simão estava enferma com uma febre;
            Ao adentrar a casa Jesus toma conhecimento de que a sogra de Pedro esta prostrada com febre, ao qual Lucas acrescenta, utilizando um termo médico apropriado, que era “intensa ou alta”, portanto, ela corria risco de morte. Este tipo de febre alta não era incomum em certas épocas do ano ao redor do lago Tiberíades.[4] A construção da frase no grego (tempo imperfeito) revela que ela estava enferma havia um tempo considerável (vários dias). Esta febre intensa e mortífera da sogra de Pedro, diferentemente do acontecimento na Sinagoga, nada tem haver com ação de espíritos maus e Mc vai fazer uma clara distinção entre enfermidades e possessões (verso 32). Assim, nem toda enfermidade é ação diabólica e nem toda possessão traz enfermidades, pois não se informa que aquele homem da Sinagoga tinha alguma doença.
E Ele chegou até ela e a levantou pela mão, e a febre a deixou;
            Toda ação sobrenatural e curativa de Jesus se constituía em um sinal de Sua divindade e sua missão Messiânica. Marcos registra mais milagres do que sermões de Jesus; em toda narrativa até o capítulo onze, a partir de quando Jesus é preso, julgado e executado, contém pelo menos o registro de um milagre (1.29-34,40-45; 2.1-12; 3.1 -12; 4.35-41; 5.1-43; 6.30-56; 7.24-37; 8.1-10,22-26; 9.17-29; 10.46-52; 16.1-8). Em cada um destes milagres há um duplo propósito: abençoar os destinatários, como também para revelar aos seus próprios discípulos, aqui restrito aos quatro primeiros que foram chamados, que Ele era quem dizia ser.
            A cura foi imediata: Mc “tomou-a pela mão”; Lc acrescenta que Jesus “repreendeu a febre”; e a febre no mesmo instante, sem qualquer intervalo de tempo, desapareceu por completo e a mulher se levantou, Lc-Mt acrescenta “imediatamente se levantou”. A cena demonstra claramente o poder de Jesus sobre a enfermidade humana.
então ela os serviu
            Os três evangelistas sinóticos ressaltam que após ser curada a mulher reassumiu suas atividades domésticas. Há duas razões para se registrar esse pequeno gesto de que ela passou a servir a Jesus e aos demais que estavam na casa. Primeiramente é para realçar que a cura foi um fato consumado e ela ficou plenamente restabelecida, apesar de ter estado por muitos dias em estado febril; a segunda é a forma que ela encontrou para expressar sua gratidão a Jesus pela sua cura. A maioria dos crentes se esquece de que estavam à beira da morte (em seus delitos e pecados), mas Jesus Cristo os curou (salvou); ao viverem apenas para si mesmos eles desmerecem o quanto Jesus fez por eles – então ela os serviu! Na verdade, a maioria de nós se assemelha mais com os nove leprosos que foram cuidar de suas vidas, do que com aquele único que voltou para agradecer a Jesus pelo fato de ter sido curado.
Quando veio a noite, depois do Sol se por, eles começaram a trazer para Ele todos os que estavam enfermos e aqueles que estavam possuídos por demônios. E toda a cidade se reuniu à porta. E Ele curou muitos dos que estavam enfermos com várias doenças, e expulsou muitos demônios; e Ele não permitiu que os demônios falassem, por que eles sabiam quem Ele era.
O sábado era o dia de adoração e descanso dos judeus, que dura do pôr-do-sol de sexta-feira ao pôr-do-sol de sábado. A lei judaica proibia viajar e carregar peso durante o sábado, assim eles esperaram até o pôr-do-sol.[5] Influenciado pelos fariseus (cf. Mt 3.7), o povo passou a considerar que curar no sábado se constituía em uma violação às leis do Shabat (cf. Mt 12.1).
A palavra grega para trazer significa “carregar” e aqui o tempo verbal denota a ideia de que “continuavam trazendo”. Muitos dos enfermos e dos endemoninhados foram literalmente carregados para a casa de Pedro para que Jesus pudesse curá-los. A impressão, pelo tamanho da multidão à porta da casa de Pedro, era que todo o povo da cidade de Cafarnaum havia se aglomerado ali.[6] Eles não faziam qualquer tipo de tumulto, pois pacientemente esperam que Jesus possa lhes atender. E não são decepcionados, pois Jesus cura-os de toda sorte de enfermidade, pois nenhuma doença estava além de seu poder divino curativa. Todavia, curar e exorcizar demônios nunca foram o propósito central do ministério de Jesus e o texto informa que ele curou e exorcizou a muitos e não a todos, de maneira que logo partiria de Cafarnaum, contrariando seus próprios discípulos que desejavam ficar ali e quem sabe construir uma “catedral da fé”; sua missão era pregar o arrependimento, pois o reino dos céus está próximo. O evangelicalismo brasileiro perdeu completamente o objetivo central da mensagem cristã e se contentou com as questões periféricas – arrependei-vos, pois o reino dos céus está próximo!
 Como havia ocorrido na Sinagoga mais uma vez Jesus exerce seu poder sobre os demônios, de maneira que à sua ordem eles saiam imediatamente das pessoas hospedeiras. Mc registra que Jesus ordenava aos demônios para que se calassem, porque o conheciam (cf 1.25). Esse verso é o primeiro de muitos em Marcos (cf. 1:34,43-44; 3:12; 4:11; 5:43; 7:24,36; 8:26,30; 9:9) onde Jesus proíbe os demônios de fazerem declarações sobre ele, bem como ordena expressamente aos seus discípulos e aos que eram curados para que não propagassem os Seus atos de cura. Os estudiosos se referem a esses textos como o “Segredo Messiânico de Marcos”, pois neste momento inicial de seu ministério Jesus não queria chamar atenção para sua Messianidade (Is 61.1). Mas sua compaixão pelos fracos, enfermos e marginalizados, bem como os oprimidos pelo diabo não lhe permitia ficar inerte diante de um quadro tão deprimente – mas seu propósito era a cruz! Pois sabia que somente na cruz ele traria a reconciliação do ser humano pecador com o Deus justo! Hoje vivemos um cristianismo sem a cruz – que se transformou em um evangelicalismo hedonista e mercantilista.
A partir destas curas começa o desgaste de Jesus com os lideres religiosos judaicos, pois não uma, mas duas vezes Jesus realiza milagre em um dia de sábado, que segundo as intepretações mirabolantes e acrescidas do ensino oral da Torá, não era permitido. Desde seus primeiros movimentos Jesus quer deixar claro que sua autoridade vem diretamente de Deus e não do Templo e nem de seus pseudos interpretes da Lei. Na medida em que Jesus vai contestando o status quo deles a temperatura do ódio deles aumenta ao ponto do insuportável – temos que matar esse nazareno ou ele vai acabar destruindo do esquema religioso que levamos séculos para estabelecer.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas
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BETTENCOURT, Estevão. Para Entender os Evangelhos.  Rio de Janeiro: Agir, 1960.
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[1] Esta palavra haverá de aparecer frequentemente na narrativa marqueana demonstrando que durante seu ministério itinerante Jesus não tinha tempo nem para descansar, pois ele sabia da urgência de sua mensagem e que seu tempo seria muito curto – pouco menos de três anos.
[2] Em decorrência de suas atividades de pesca, Pedro [João] que era de Betsaida (Jo 1.44) tinha uma casa em Cafarnaum que era um centro comercial de pesca. Jesus e os discípulos provavelmente ficavam nesta casa durante suas visitas a Cafarnaum (2.1; 3.20; 9.33; 10.10). O texto também menciona pela primeira vez a presença do triunvirato (Pedro, Tiago e João), que haverão de presenciarem acontecimentos que os demais apóstolos não viram. André está presente nesta ocasião especifica pois o milagre ocorre em sua própria casa.
[3] Isso mostra que Pedro era casado, ainda que sua esposa nunca tenha sido mencionada no NT, seja porque já estivesse morta, mas I Cor. 9:5 há uma inferência de que ela viajava com Pedro.
[4] Também conhecido como Mar da Galileia ou ainda lago de Genesaré.           
[5] De acordo com o Halachá o sábado termina oficialmente quando três estrelas de porte médio se tornam visíveis.
[6] Só Marcos menciona esse detalhe vívido. Ele está vendo pelos olhos de Pedro. Não há dúvida de que Pedro presenciou a cena maravilhosa com prazer e gratidão, enquanto Jesus ficava à porta e curava as grandes multidões na glória daquele pôr-do-sol. Ele deve ter gostado muito ter descrito esta cena (ROBERTSON, 2011, p. 355).

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Evangelho Segundo Lucas: Características Peculiares


            Todos os evangelistas compõe sua narrativa dentro de suas perspectivas e livremente enfatizam aspectos peculiares objetivando comunicar uma mensagem especifica para seus leitores primários. Abaixo começamos a listar algumas características peculiares da narrativa lucana:
Evangelho do Espírito Santo: Desde as primeiras linhas Lucas enfatiza a ação continua do Espírito Santo na vida e no ministério de Jesus Cristo. O Precursor (João Batista) será cheio do Espírito (1.15); Maria é fecundada pelo Espírito (1.35); Isabel, Zacarias e Simeão são cheios do Espírito (1.43; 1.67; 2.25-28); no batismo o Espírito desce sobre Jesus (3.22); Jesus inicia seu ministério público cheio do Espírito (4.1); Jesus cumpre a profecia de Isaías relacionadas ao Espírito Santo (4.18); o Espírito capacita Jesus a suportar a tentação e vencer o mal (4.1-2, 14); Jesus se alegra no Espírito no retorno dos setenta (10.21); Jesus ensina que os discípulos receberiam o Espírito (11.13; 24.49). Esta presença do Espírito na narrativa lucana leva alguns a denominá-lo: “O Evangelho do Espírito Santo”.
Ênfase no Templo: O templo é frequentemente mencionado, não apenas na conexão dos relatos da Paixão, mas também nas narrativas exclusivas da Natividade (1.8, 21-22; 2.27, 37), incluindo o material exclusivo da visita na puberdade (2.41-51). Após a ascensão de Jesus os discípulos frequentam o Templo (24.53), como que preparando o leitor para a importância central do Templo na vida da igreja primitiva (Atos 2.46; 3.1).
Ministério dos Anjos: As frequentes referências aos anjos (mais de 20 vezes) servem para acentuar a consciência da divindade do evento do Cristo (1.11,26; 2.9, 13).
Ênfase na Oração: Mais do que em Mt e Mc a oração tem papel proeminente no ensino e no exemplo de Jesus. Na seção 11.1-13 tendo Jesus orado (11.1), ele dá aos discípulos um modelo de oração “Pai nosso” (11.2-4) e acrescenta  duas parábolas (do amigo insistente e a do pai bondoso) que indica ao que ora perseverança e confiança (11.5-13). Outras duas parábolas completam esta quadro destacando a perseverança e a humildade (a viúva importuna 18.1-8 e a do fariseu e  do publicano 18.9-14). Em relação à sua Segunda Vinda Jesus exorta seus discípulos a orar (21.36). Além das referências comuns aos Sinóticos, Lucas cita ao menos mais nove vezes em que Jesus orou: por ocasião de seu batismo (3.21); após a cura do leproso Jesus orou no deserto (5.16); antes de escolher os Apóstolos (6.12); antes da confissão de Pedro (9.18); por ocasião da Transfiguração (9.18s); antes de ensinar a oração dominical (11.1s); antes da Paixão (22.32); crucificado, orou pelos inimigos (23.34) e em oração pronuncia suas últimas palavras (23.46). Se isto não é suficiente para nos motivar a orar, então nada mais o será.
O Evangelho do Louvor e da Alegria: Somente Lucas registra uma das mais extraordinárias séries de Cânticos inspirados do NT: o de Maria (Magnificat) 1.46-55; o de Zacarias (Benedictus) 1.68-79; o dos anjos (Glória in encelsis Deo) 2.14; o de Simeão (Nunc dimittis) 2.29-32. Também Lucas utiliza uma expressão peculiar (MT e Mc não utilizam) “louvar ‘bendizer’ a Deus” ou “dar louvor (a Deus)” (cf. 1.64; 2.13,20,28; 18.43 [Mc 10.52]; 19.37 [Mc 11.7-10]; 24.53). A alegria é expressa nestes cânticos e também o próprio Jesus exulta de alegria (10.21) e exorta seus discípulos a se alegrar também (10.20). Lucas observa que o povo se alegrava quando Jesus realizava seus sinais e maravilhas (13.17; 19.37). Ao concluir seu escrito mais uma vez Lucas declara que os discípulos “voltaram cheios de alegria para Jerusalém, e estavam continuamente no Templo louvando a Deus” (24.52s).
O Evangelho dos Pobres e Abandonados: Em aberto contraste com a luxúria e riqueza ansiada pela sociedade em todos os tempos, o Evangelho segundo Lucas destaca a atenção especial de Jesus para com os pobres e rejeitados. Muitas passagens em Lucas contrastam a riqueza e a pobreza: (1.48-52) Maria é uma mulher pobre e simples; (2.7) Jesus nasce numa estrebaria; (2.8-12) é aos pobres pastores que o nascimento é anunciado primeiramente; (2.24) seus pais cumpre a Lei oferecendo a oferta dos pobres [Lv 12.8]; (3.10-14) João Batista ensina uma atitude simples e pobre; (4.18-21) em seu primeiro sermão Jesus diz  que veio para “anunciar a Boa Nova aos pobres”; (6.20-24) no Sermão do Monte onde Jesus faz referência ao pobre, Lucas inclui um “Aí” de juízo quanto aos ricos; (12.16-21) Jesus exorta na parábola o perigo de confiar nas riquezas; (12.33) Jesus exorta seus discípulos à vida simples e pobre; (14.12-14) seus discípulos devem evitar interesses mesquinhos ou cobiçosos; (16.14) os fariseus escarnecem de Jesus por causa de seu ensino sobre a pobreza e Jesus responde com duas parábolas que ensinam a precariedade dos bens materiais (16.19-31) e da necessidade de fazer bom uso dos bens (16.1-9); na sequência Zaqueu é apresentado como modelo a ser seguido (19.8s). Este ensino deveria levar os pregadores da prosperidade a uma reflexão e mudança no tom de suas pregações.
Evangelho da Salvação Universal: A preocupação de Lucas é de que seus leitores possam entender muito claramente que Jesus não é o Salvador de um povo especifico (judeus), mas de todos os povos. Começa fazendo uma relação direta entre um Imperador romano César Augusto, com seu decreto universal de recenseamento (2.1), que serve de pano de fundo para a comunicação angelical do nascimento do Cristo Senhor, o Salvador – e tal nascimento se constitui no autêntico “Evangélion” em contraste com os precários “Evangélia” dos Césares Romanos.[1] Jesus é o verdadeiro Augusto, que haverá de implantar a tão almejada era de paz e abundância para todos os povos.
Para deixar bem claro, Lucas faz questão de indicar que Jesus não é apenas o “Filho de Davi” ou o “Filho de Abraão” (cf MT 1.1), mas o “Filho de Adão” unindo tanto judeus quanto gentios. Simeão proclama esta preciosa verdade de que o menino em seus braços seria “luz para iluminar os gentios e glória do povo de Israel” (2.32). Ainda que acompanhe a citação de Isaías 40.3 feita por MT e Mc, ele acrescenta o verso 5: “E toda carne verá a salvação de Deus”, que inclui esta visão universal que permeia seu evangelho. A isto ele exemplifica incluindo os samaritanos (10.30-37; 17.16), a viúva de Sarepta e o sírio Naamã (4.25-27); pessoas virão de todas as nações para assentarem-se no reino de Deus (13.29); os anjos ao proclamarem a paz de Jesus incluem todos os homens (2.14).Caminhando para a conclusão deste seu primeiro volume ele registra as palavras de Jesus: “Estava escrito que o Cristo devia sofrer e ressuscitar no terceiro dia dentre os mortos e que em seu nome seria pregado o arrependimento ... a todas as nações, a começar por Jerusalém” (Lc 24.46s).
Entretanto, isto não significa que Israel tornou-se desnecessário (1.30-33), mas apenas demonstra que Israel deve ser um canal de bênção a todos os demais povos e não reter para si mesmo tão grande salvação.
O Evangelho das Figuras Antitéticas: Lucas utiliza de forma maravilhosa do contraste de figuras para representar atitudes de animo ou afetos antitéticos: (1.11-22 e 1.26-38) o anjo Gabriel aparece duas vezes para anunciar nascimentos milagrosos – a Zacarias que reage inicialmente com incredulidade e por isso fica mudo, e a Maria que recebe com toda a fé e por isso irrompe em cântico de louvor; (7.36-50) a pecadora arrependida é agraciada, enquanto Simão, o fariseu cheio de si, é repreendido; (10.38-42) duas irmãs que reagem diferentemente à chegada de Jesus em sua casa; (17.11-18) dez leprosos são igualmente curados, nove são judeus ingratos, um é samaritano que volta para agradecer e experimenta o perdão e a salvação; (18.9-14) dois homens sobem ao templo para orar, o fariseu soberbo nada obtém, mas o publicano humilde alcança misericórdia; (23.39-43) concluindo sua narrativa Lucas descreve a cena dos dois ladrões ladeando o Jesus crucificado, um permanece na incredulidade e o outro experimenta o arrependimento.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Referências Bibliográficas
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BETTENCOURT, Estevão. Para Entender os Evangelhos.  Rio de Janeiro: Agir, 1960.
CARSON D. A., DOUGLAS, J. Moo & MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo:  ed. Vida Nova, 1997.
CASALEGNO, Alberto. Lucas – a caminho com Jesus missionário. São Paulo: Edições Loyola, 2003.
CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado – versículo por versículo, v. II. São Paulo: Millenium, 1987.
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LEAL, João. Os Evangelhos e a Crítica Moderna. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1945.
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TENNEY, Merrill C. O Novo Testamento - sua origem e análise, 2a ed. São Paulo: Vida Nova, 1972.




[1] Na época dos Imperadores romanos, o termo recebeu ênfase particular. O Monarca era tido como personagem divino, doador e fautor de salvação para os súditos. Por isto eram consideradas boas noticias (eu-angélia) a proclamação do nascimento de um herdeiro do trono, a de sua maioridade e, principalmente, o anuncio de sua subida ao trono; tais acontecimentos marcavam a vida pública, causando imensa alegria entre os cidadãos, que julgavam cada vez, estar no limiar de era nova, portadora de paz e prosperidade, em oposição aos gemidos e calamidades de épocas anteriores. As datas de tão faustosos acontecimentos eram festejadas anualmente. Também os decretos imperiais, tidos como oráculos da Divindade, eram recebidos como eu-angélia (Bettencourt, Estevão. Como Entender os Evangelhos, Ed. Agir, 1960, p.56).

Evangelhos: A Questão Sinótica – Propostas de Solução (conclusão)


Diante do que foi abordado nos artigos anteriores podemos afirmar com certeza de que os escritores dos Evangelhos Sinóticos não tiveram uma única fonte “mestre” sobre a vida de Jesus.  Ao contrario, eles foram herdeiros de uma variedade de fontes, que se constituíam na mensagem do Evangelho proclamada no transcorrer de muitos anos.  O prefácio com que Lucas abre sua obra confirma que ao menos ele esteve atento para a diversidade de informações, orais e escritas sobre a vida de Jesus,  que existiam e eram de conhecimento público (Lc.1.1-4). Ainda que não possamos inferir muitas coisas desta declaração, podemos ao menos deduzir sobre o que ele não diz:
ü  Ele não define exatamente quem foi os que lhe “transmitiram” estes fatos.  Ele também não esta apenas copilando fatos históricos, mas seu objetivo é instruir o seu leitor sobre a “verdade”, neste contexto uma referência à mensagem do Evangelho que extrapolava as fronteiras da igreja primitiva.  Isto é facilmente perceptível uma vez que este era apenas o primeiro de dois volumes que seria concluído com Atos.
ü  Ele também não diz precisamente como lhe “transmitiram” estes fatos.  Isto abre possibilidade de que ele pudesse ter incluído material advindo de um ou dos dois outros Evangelhos (Marcos e Mateus).  Mas é igualmente possível que ele se referisse a uma ampla tradição oral que se tinha formado no seio da igreja primitiva.  Ou ainda há a possibilidade de que ele se referisse a uma combinação entre a tradição oral e documentos escritos. 
ü  Ele não define também o meio que utilizou para “ordenar” estes fatos.  Apressadamente podemos concluir que ele o fez de forma cronológica, entretanto, a palavra grega por ele utilizada não nos permite esta conclusão – o termo grego apenas indica a ideia de algo que foi “copilado e/ou organizado” sem definir o método utilizado.  Isto indica que o escritor poderia utilizar o seu material conforme os seus objetivos pré-estabelecidos e não apenas dentro da rigidez cronológica dos acontecimentos.  Relacionando com as diferenças encontradas nos Evangelhos, podemos concluir que cada escritor organiza teologicamente este material em função da ênfase que deseja dar à sua mensagem, e não tanto uma preocupação cronológica.
ü  Finalmente, o escritor não reivindica ser uma testemunha ocular dos eventos por ele relacionado.  Ele diz que os fatos por ele utilizados tem origem em testemunhos oculares, ainda que mais uma vez não defina se foram as pessoas que presenciaram estes fatos ou que estas pessoas os haviam registrado e/ou documentado, mas não havia dúvida de sua parte de que as informações eram fidedignas.
Ainda que os demais sinóticos não forneçam detalhes sobre seu escrito, é razoável concluirmos que também trilharam o mesmo processo de Lucas.  Isto nos ajuda a compreendermos que os Evangelhos foram o resultado de um processo deliberado de preservar uma tradição já existente sobre a vida e ensino de Jesus, utilizado pela igreja iniciante. 
Deste modo, os Evangelhos com toda a sua diversidade se constituem num testemunho fiel às fontes oculares.  Os objetivos preliminares proposto por cada escritor faz com que ele omita ou inclua material; coloque um dito dentro de um determinado contexto; acrescente comentários interpretativos; demonstrando não apenas uma criatividade em escrever, mas muito mais um aspecto teológico determinado.  O estudo cuidadoso destes recursos habilitará o estudante sério das Escrituras a escutar e compreender o testemunho dos Sinóticos em um nível mais profundo.
Esta ênfase numa análise redacional que nos leva a esta questão dos Sinóticos também nos possibilita vermos os vários pontos de vista da mensagem do Evangelho através de autores diferentes que foram norteados pelos seus aspectos teológicos preestabelecidos, em vez de simplesmente serem conduzidos por uma tradição estática.  Eles não foram simplesmente editores ou copistas que registraram os fatos sem emitirem nenhum comentário.  Eles desempenharam um papel ativo no esforço de trazerem a mensagem viva do Evangelho, dentro de um contexto determinado e com um propósito definido e provavelmente para um público especifico.
As palavras de Bratcher,[1] conforme abaixo, expressão de forma sucinta este extraordinário trabalho realizado pelos evangelistas.
Os escritores dos Evangelhos não mudaram a verdade básica da tradição em seu testemunho de Jesus como o Cristo e revelação Pessoal de Deus.  Mas eles trataram sua mensagem como uma tradição viva que podia ser aplicada e reaplicada na vida da comunidade da Fé para chamar pessoas a uma resposta fiel àquela revelação e a Deus. Esta deve ser a maior contribuição que podemos tirar do estudo do Problema dos Sinóticos, porque em última instância esta também continua sendo a nossa tarefa hoje e deve se constituir também no propósito pelo qual devemos continuar a estudar a Sagrada Escritura.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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[1] Dennis Bratcher,  Os Evangelhos e o Problema dos Sinóticos, @eletrônico.