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quinta-feira, 9 de abril de 2026

Mateus: O Termo Fé (πίστις -Pistis) na Sua Narrativa Evangélica

 

No Evangelho de Mateus, o termo grego πίστις (pistis), cuja tradução é , aparece de modo muito significativo, revelando não apenas uma atitude interior de confiança, mas uma resposta concreta à pessoa, à autoridade e ao poder de Jesus. Este termo grego ocorre oito vezes, distribuído em oito versículos, e na perspectiva de Mateus, a não é tratada como mera abstração religiosa, mas como confiança viva, perseverante e eficaz diante de Cristo. Quando examinadas essas ocorrências, percebe-se que Mateus desenvolve uma teologia da marcada pela dependência de Jesus, sempre na expectativa   do agir divino e pela oposição entre fé verdadeira e incredulidade.

A primeira ocorrência se encontra em Mateus 8:10, no episódio do centurião. Ao ouvir a declaração daquele homem, Jesus destaca a qualificação de sua e contrasta com a incredulidade dos seus ouvintes judeus, afirmando que nem mesmo em Israel encontrou tão grande. A narrativa de Mateus destaca que essa não é mera crença intelectual, mas confiança radical na autoridade da palavra de Cristo. O centurião, ao declarar que era suficiente uma ordem de Jesus para que seu servo fosse curado, demonstra uma caracterizada por humildade, reconhecimento da autoridade (exousia) e confiança absoluta. O que evidência ainda mais o contraste com seus ouvintes: um gentio manifesta a que deveria ser encontrada no povo da aliança. Em Mateus, portanto, a fé genuína é aquela que discerne quem Jesus é e descansa/confia plenamente em sua palavra.

Em Mateus 9:2, o termo pistis () aparece novamente como elemento central da narrativa, quando trouxeram a Jesus um paralítico deitado numa cama, o texto diz que Jesus, vendo a deles, declarou perdoados os pecados do enfermo. Aqui, a fé não é atribuída somente ao paralítico, mas aos amigos que o trouxera até Jesus. Neste particular o texto enfatiza uma dimensão comunitária da pistis: confiança compartilhada que se manifesta em ação concreta. A não é apenas uma disposição espiritual, mas deve ser encarnada em ações concretas como este gesto de carregar o paralítico até Cristo, superando obstáculos. É interessante notar que Cristo faz uma inversão de expectativa. Os amigos, o paralitico e todos os presentes esperam que Jesus faça o milagre, mas Jesus primeiramente faz uma declaração de perdão dos pecados. Com isso a narrativa de Mateus conecta a fé não apenas ao milagre visível, mas também à graça mais profunda da restauração espiritual. A pistis abre caminho para a manifestação do reino de Deus no corpo e na alma.

Em Mateus 9:22, no relato da mulher que sofria havia anos, Jesus lhe diz: “Filha, tem bom ânimo; a tua te salvou”. A fé aqui é apresentada como confiança pessoal e corajosa. A mulher se aproxima, toca nas vestes de Jesus e crê que dele procede poder restaurador. O texto de Mateus quer enfatizar que o termo central não é a cura em si, mas a pistis — a da mulher. O verbo usado por Jesus é sōzō (“salvar”), que tem sentido duplo, podendo significar tanto “curar” quanto “salvar” em sentido espiritual. Ao escolher essa expressão o evangelista destaca que a fé da mulher não apenas resultou na restauração física, mas sobretudo na salvação integral.

Logo depois, em Mateus 9:29, Jesus toca os olhos de dois cegos e declara: “Seja-vos feito segundo a vossa ”. Nesta perícope temos um extraordinário paradoxo – aqueles dois homens privados da visão física enxergaram, antes de todos, aquilo que muitos com olhos saudáveis não conseguiam ver: Jesus é o Filho de Davi, o Messias esperado. Eles clamaram por misericórdia sem jamais terem visto o rosto de Cristo, mas já o reconheciam pela (pistis). O paradoxo é confrontador - os cegos viam, e os que viam eram cegos. Os líderes religiosos, com toda sua instrução e visão, não discerniam quem estava diante deles. Já aqueles marginalizados, sem luz nos olhos, possuíam luz no coração. A fé foi sua visão antecipada, capaz de revelar o invisível. A resposta de Jesus — “Seja-vos feito segundo a vossa — é o ápice deste paradoxo: aqueles cegos já enxergavam antes de ver. Não precisaram de provas, sinais ou milagres para reconhecer o Messias; foi a que lhes abriu os olhos. Eles chamaram Jesus de Filho de Davi sem jamais terem visto seu rosto, enquanto muitos que viam claramente permaneciam cegos para sua identidade. Aqui está a exortação da narrativa, pois podemos ter olhos saudáveis (teologia, práxis) e, no entanto, sermos cegos para a presença de Cristo. O texto nos desafia a cultivar uma que vê antes de ver, uma confiança plena no Messias mesmo quando uma maioria o negue. Aqui, Mateus nos lembra que a é visão. E se os cegos viram primeiro, é porque a verdadeira luz não entra pelos olhos, mas pelo coração que crê.

Em Mateus 15:28, diante de uma mulher cananeia, Jesus exclama: “Ó mulher, grande é a tua ”. Essa é uma das declarações mais intensa do evangelho sobre pistis. Aqui, pistis não é apenas crença, mas perseverança confiante diante da aparente recusa de Jesus. Ela se mostra resiliente: mesmo após ouvir palavras duras — “não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos” (v. 26) — ela insiste, reconhecendo sua condição e, ainda assim, confiando na misericórdia de Jesus. O texto fica ainda mais extraordinário quando se destaca o fato de que ele é uma estrangeira (gentia) e de etnia “Sirofenícia” (cf. Marcos 7:26), portanto historicamente inimigos dos judeus. Mas ela está disposta a romper essa muralha étnica e sua a mantém em perseverança humilde; ela insiste porque sabe que a misericórdia de Jesus é maior que qualquer barreira étnica. E aqui temos o contraste, pois uma estrangeira, considerada excluída, é exaltada por Jesus como exemplo de grande , mostrando que a verdadeira espiritualidade não depende da etnia, mas da confiança perseverante Nele. Em sua narrativa Mateus mostra, que a verdadeira não desiste facilmente. Ela é humilde, insistente e determinada, especialmente quando busca socorro para a vida de outro. Mais uma vez, a é reconhecida por Jesus e resulta em restauração.

Em Mateus 17:20, Jesus confronta os discípulos por causa da incredulidade deles e afirma que, se tiverem como um grão de mostarda, nada lhes será impossível. Aqui o termo πίστις (pistis) aparece novamente como chave. Não se trata de quantidade, mas de qualidade. A ilustração do grão de mostarda é significativo e pedagógico, apesar de ser a menor das sementes, é vivo, cheio de potencial. Igualmente é a fé: não precisa ser grande aos olhos humanos, mas precisa ser qualificada e fundamentada no poder de Deus. As palavras exortativas de Jesus é pelo fato de que eles estavam presenciando Seus milagres e ouviam Seus ensinos, ainda assim tropeçavam na incredulidade. Já outros — como o centurião romano ou a mulher cananeia — mostravam fé extraordinária, mesmo sem pertencer ao círculo íntimo. O texto é um espelho que nos confronta com nossa própria incredulidade. Quantas vezes, mesmo cercados de evidências da presença de Deus, hesitamos em confiar? Uma pequena, simples, mas viva, é suficiente para abrir espaço ao impossível. Quem crê, ainda que como um grão de mostarda, já possui em si a força que move montanhas.

Aqui, a pistis é contrastada diretamente à falta de . A ênfase não está no tamanho quantitativo da fé, mas em sua autenticidade. Mesmo pequena, se for real, ela participa do poder de Deus. A imagem do grão de mostarda sugere algo aparentemente insignificante, mas vivo e verdadeiro. Em Mateus, a fé é poderosa não por causa da força humana, mas porque está ligada ao Deus para quem nada é impossível.

Em Mateus 21:21, após a figueira ter secado diante dos olhos dos discípulos, Jesus declara: “Em verdade vos digo que, se tiverdes (pistis) e não duvidardes, não só fareis o que foi feito à figueira, mas até se a este monte disserdes: ergue-te e lança-te no mar, isso se fará.” Aqui Jesus contrasta a fé com a incredulidade. O contexto é simbólico: a figueira, estéril, representa a religiosidade sem frutos, a aparência sem vida. Os discípulos ficam impressionados com o poder da palavra de Jesus, mas Ele os conduz além do espanto: o mesmo poder está disponível a quem crê. O maior problema nosso é que ficamos apenas impressionado com o poder de Deus, mas nos falta a fé para manifestá-las nas circunstâncias cotidianas da vida. Nos falta fé para superarmos as muralhas que surgem diante de nós e que Deus é poderoso para derrubá-las como fez nos dias de Josué. A exortação é clara: não é suficiente se impressionar/admirar o poder de Cristo, é preciso participar dele pela . O discípulo é chamado a confiar sem reservas, a crer mesmo quando tudo parece contrário. A não é misticismo, mas confiança radical em Deus, que torna possível o que humanamente é impossível. Quem crê não se limita ao que vê; quem crê já participa do impossível.

A última vez que Mateus usa o termo pistis () está em 23:23, na cena em que Jesus censura os escribas e fariseus porque eles se preocupavam com minúcias religiosas, mas negligenciavam os aspectos mais importantes da lei: o juízo, a misericórdia e a . Para Jesus a fé genuína se manifesta na prática dos princípios da Palavra de Deus. Mais uma vez o paradoxo é contrastante, pois aqueles que se julgavam guardiões da Lei estavam cegos para o coração da Lei. Eles viam o detalhe, mas não enxergavam o todo. Jesus os confronta: não basta religiosidade minuciosa; é preciso fidelidade que se manifesta em amor e justiça. A fé verdadeira não é ativismo religioso, nem ortodoxia eclesiástica, mas uma fé que gera misericórdia e justiça. Na sua narrativa, Mateus deixa claro que pistis é o eixo que sustenta a vida diante de Deus — não como aparência, mas como fé que se traduz em obras. É justamente dessa compreensão que Tiago retira sua exortação: “A sem obras é morta” (Tiago 2:17).

Estas palavras de Jesus nos chama a examinar se nossa é apenas formalismo teológico ou se é fidelidade vivencial. Lembrando que Jesus não se impressiona com agendas religiosas se o coração permanece vazio de justiça e misericórdia. A verdadeira pistis () é visão espiritual que nos faz enxergar o essencial: amar a Deus e ao próximo, síntese de toda a Escritura – o que não inclui isso é apenas religiosidade.

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Guedes, Ivan Pereira

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sábado, 24 de janeiro de 2026

Evangelho de Mateus e a Mensagem Messiânica do Antigo Testamento

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Mateus fundamenta sua mensagem na literatura do Antigo Testamento. Seu objetivo é demonstrar que Jesus é o cumprimento dessas Escrituras. Cada citação ou alusão ao Antigo Testamento reforça a identidade messiânica de Cristo e conecta sua vida à história da salvação.

Paralelos entre Mateus e o Antigo Testamento com comentários

Evangelho de Mateus

Correspondência no AT

Comentário

Mt 1:22-23

Isaías 7:14

Jesus é o Emanuel, “Deus conosco”, cumprimento direto da profecia messiânica.

Mt 2:2

Números 24:17; Isaías 60:3

A estrela e a vinda dos magos confirmam que as nações reconheceriam o Rei prometido.

Mt 2:5-6

Miquéias 5:2; 2 Samuel 5:2

Belém é o lugar profetizado do nascimento do Messias, raiz davídica.

Mt 2:16-18

Jeremias 31:15; Gênesis 35:19

O choro de Raquel simboliza a dor em Israel, cumprida no massacre dos inocentes.

Mt 2:13-15

Oséias 11:1

“Do Egito chamei meu Filho” mostra Jesus revivendo a história de Israel.

Mt 2:19-20

Êxodo 4:19

Assim como Moisés foi chamado após a morte dos perseguidores, Jesus retorna do Egito.

Mt 2:22-23

Possível jogo de palavras com nazireu (Juízes 13:5) ou netzer (“Renovo”, Isaías 11:1; Zacarias 6:12)

Mateus associa “Nazareno” a símbolos de consagração e esperança messiânica.

Mt 3:11-12

Ezequiel 36:24-26; 2 Reis 5:10

O batismo e a purificação apontam para a renovação espiritual prometida por Deus.

Mt 3:3

Isaías 40:3

João Batista é a “voz que clama no deserto”, preparando o caminho do Senhor.

Mt 3:4; 4:4

2 Reis 1:8; 1 Reis 17:6; Deuteronômio 8:3

João e Jesus vivem em simplicidade, reafirmando dependência total da Palavra de Deus.

Mt 4:6

Salmo 91:11-12

Satanás cita o salmo, mas Jesus mostra que não se deve testar a fidelidade divina.

Mt 4:7

Deuteronômio 6:16

Jesus responde com a lei, reafirmando obediência ao Senhor.

Mt 4:10

Deuteronômio 6:13-14

Somente Deus deve ser adorado, rejeitando qualquer idolatria.

Mt 4:14-16

Isaías 9:1-2

Jesus é a luz que resplandece nas trevas da Galileia.

Mt 5:4

Salmo 37:11

Os mansos herdarão a terra, promessa de justiça futura.

Mt 8:17

Isaías 53:4

Jesus cumpre a profecia ao carregar as enfermidades e dores do povo.

Mt 9:12-13

Oséias 6:6

Deus deseja misericórdia, não sacrifício vazio; Jesus aplica isso ao seu ministério.

Mt 21:1

Zacarias 14:4

A entrada triunfal em Jerusalém cumpre a expectativa messiânica.

Mt 21:12-13

Jeremias 7:11

Jesus denuncia a corrupção no templo, ecoando os profetas.

Mt 24:31

Daniel 7:13-14

O Filho do Homem virá com poder e glória, cumprindo a visão apocalíptica.

Mt 26:15

Zacarias 11:12

A traição por trinta moedas cumpre a profecia sobre rejeição do pastor.

Mt 27:7-10

Zacarias 11:13

O uso das moedas para o campo do oleiro cumpre o texto profético.

Mt 27:24

Deuteronômio 21:6-7

Pilatos lava as mãos, ecoando o rito de inocência da lei mosaica.

Mt 27:34

Salmo 69:22

O vinagre dado a Jesus cumpre o lamento messiânico.

Mt 27:46

Salmo 22:2, 17-19

O clamor de Jesus na cruz conecta-se ao salmo do justo sofredor.

Relevância

Mateus não apenas cita o Antigo Testamento, mas o interpreta à luz de Cristo. Cada paralelo reforça que Jesus é o Messias esperado, cumprindo promessas, tipologias e profecias. O evangelista mostra que a história de Israel encontra sua plenitude em Jesus, o Emanuel, o Rei davídico, o Salvador que é Cristo.

Mateus utiliza frequentemente a expressão: “para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta…”. Essa fórmula não deve ser entendida como uma previsão mecânica, como se o Antigo Testamento fosse apenas um livro de antecipações literais. Pelo contrário, Mateus lê as Escrituras de forma tipológica e escatológica, demonstrando que cada evento do passado encontra em Cristo sua plenitude e seu verdadeiro sentido.

Assim, Mateus não anula a história de Israel, mas a recapitula por meio de Jesus Cristo, que a realiza em toda sua completude. O evangelho de Mateus ensina que crer em Jesus não é abandonar o Antigo Testamento, mas finalmente compreendê-lo em sua plenitude e essência, reconhecendo que todas as promessas e esperanças convergem para Ele.

 

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Guedes, Ivan Pereira

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Referências Bibliográficas

GIBSON, John Monro. The gospel of St. Matthew. London: Hodder and Stoughton, 1935. [The Expositor’s Bible].

HENDRIKSEN, William. Mateus, v.1 São Paulo: Cultura Cristã, 2001. [Comentário do Novo Testamento].

MOUNCE, Robert H. Novo comentário bíblico contemporâneo – Mateus. São Paulo: Editora Vida, 1996.

RIENECKER, Fritz. Evangelho de Mateus – comentário esperança. Tradução Werner Fuchs. Curitiba-PR: Editora Evangélica Esperança, 1998.

SADLER, M. F. The Gospel According to St. Matthew, 3ª ed. Nova York: James Pott & Cia., 1887.

  


sexta-feira, 28 de março de 2025

Harmonia dos Relatos Evangélicos da Crucificação - Jesus chega ao Gólgota

 

Mateus 27.33 - Chegaram a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer lugar da Caveira,

Marcos 15.22 - E levaram-no ao lugar do Gólgota, que se traduz por lugar da Caveira.

Lucas 23.33 - E, quando chegaram ao lugar chamado a Caveira, ali o crucificaram, e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda.

João 19.17 - "E, levando ele às costas a sua cruz, saiu para o lugar chamado Caveira, que em hebraico se chama Gólgota."

Análise e Comentário dos Textos

Mateus - Podemos incluir esse verso 33 em uma pequena perícope (32-34) onde Mateus acompanha Jesus no chamado caminho do Gólgota (em latim, Calvário). Após ser traído por Iscariotes, Jesus é conduzido à casa de Anás, sogro de Caifás, e depois a Caifás, o sumo sacerdote, onde é interrogado e enfrenta falsas acusações. É aqui também que Pedro o negará por três vezes sucessivas.

A noite vai passando e Jesus é levado de um para outro lugar: Conselho do Sinédrio, Pilatos, Herodes Antipas, que o devolve a Pilatos. É aqui, já pela manhã que a sentença é proferida: conforme a prática romana da época, Ele foi açoitado em 39 vezes. Depois dos açoites implacáveis, os soldados romanos passaram a zombar dele e confeccionando uma coroa de espinhos, e gravando na cabeça dEle, se curvavam e o chamavam zombeteiramente de o “rei dos judeus”.

Então lhe entregam a trava horizontal da cruz, chamada patibulum, pois a parte vertical já estava no local da sentença. Essa trava pesava aproximadamente 30 a 50 quilos, e a pessoa deveria levá-la em todo o trajeto, que ficou conhecido como Via Dolorosa ou Via Crucis, que significa "Caminho da Dor" ou "Caminho da Cruz", em uma extensão de aproximadamente 600 metros.  A noite não dormida, os flagelos físicos sofridos, debitaram fisicamente Jesus e no meio do caminho o soldado ordena que um expectador, Simão de Cirene, para ajudá-Lo até chegar ao Gólgota.

Depois de mais de uma hora “Eles chegam ao lugar chamado Gólgota, que recebia a alcunha de “Lugar da Caveira”, pois a rocha que compunha o local tinha um formato semelhante. Era o lugar estabelecido para a crucificação dos criminosos mais perigosos, após a sentença definitiva.

O local é fora dos muros da cidade, mas todo o trajeto era percorrido por pessoas que entrava e saiam pelos portões da cidade, de modo que a crucificação se tornava um “espetáculo público”. Gólgota é o nome aramaico do local, mas no grego é κρανίον (kranion) quer foi traduzido para o latim como “calvaria”, de onde vem a transliteração para “calvário”.

Marcos - Calvário é uma palavra latina e Gólgota sua versão hebraica. Esse pequeno verso é a dobradiça das eras; tudo que foi escrito no Primeiro Testamento e/ou Antigo Testamento e tudo que será escrito no Segundo Testamento e/ou Novo Testamento, tem sua apoteótica no Calvário. Como escreve de forma contundente Erich Sauer: “...é o ponto de virada; de todo amor é o ponto mais alto, e de toda salvação é o ponto de partida, de todo culto é o ponto central". Um detalhe sublime é que as palavras "Calvário" e "eternidade" são encontradas apenas uma vez, mas elas fazem toda diferença na nossa história, pois no Calvário toda a nossa eternidade foi transformada. Estávamos destinados a uma eternidade sem Deus, mas por causa do Calvário (Cristo) estaremos eternamente com Ele. As versões que trocam o uso de Calvário, por “a Caveira”, lamentavelmente empobrece a mensagem teológica do texto.

O Calvário é o centro da História da Humanidade. O nascimento e a crucificação de Cristo são o epicentro em torno do qual giram todos os acontecimentos históricos dos séculos. O Calvário mostra até onde os homens irão em seu estado de pecado e miséria, mas também revela até onde Deus irá pela salvação do ser humano pecador.

Mas uma das coisas mais extraordinárias que acontece no Calvário é que não havia apenas três cruzes ali, mas sim milhares/milhões de cruzes ali representadas. O apostolo Paulo entendeu isso como poucos, como ele expõe em suas epistolas: “Ora, se morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos,” (Rm 6.8); “Fui crucificado com Cristo; e já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim;” (Gl 2.20).

Quando você perguntar quem O crucificou, olhe para sua mão, e verá o martelo.

Uma peculiaridade da narrativa de Marcos é que menciona o tempo em que Jesus Cristo fica crucificado. Quem pode penetrar esses profundos mistérios ou profundezas dos sofrimentos do Cordeiro de Deus, quando Ele foi obediente até a morte, a morte da Cruz! Longas e intermináveis seis horas, equivalentes a 360 minutos...e durante todo esse tempo Ele poderia ter descido da Cruz... mas não o fez... ficou pendurado lá, bebendo gota a gota o cálice da morte... horas e minutos carregados de dor e sofrimento... mas Ele permaneceu ali... pregado... unicamente por amor de mim e de você!

O desfio que Jesus lançou para aqueles que queriam segui-Lo foi: “... tome a cruz... e siga-Me”. O caminho percorrido por Cristo é uma ilustração real daqueles que se dispõem a crer Nele como único e suficiente Salvador e Senhor. Milhares de cristãos “caminharam” para a morte (muitas vezes em desfiles abertos) para satisfazer a crueldade das multidões que os escarneciam e amaldiçoavam, até chegarem aos Coliseus Romanos espalhados pelo Império.

Com sua ressurreição Jesus transformou a cruz de símbolo de morte, para símbolo de esperança e salvação para cada que Nele crê. Muitas vezes temos que enfrentarmos nossos próprios "Gólgotas", e devemos sempre nos lembrarmos que nossas lutas e dores (traições, abandono) podem nos levar a um profundo crescimento e transformação pessoal. Da mesma forma que o sacrifício de Jesus trouxe a salvação, nosso sofrimento pode ser a ponte para aprofundar nossa comunhão com Deus e fortalecer no esperança Nele.

Lucas - Deveríamos ler os relatos da crucificação com temor e tremor. Quem está sendo crucificado ali é o Filho Amado de Deus! A indiferença e frieza com que os cristãos evangélicos tratam essas narrativas é assustadoramente preocupante, pois revela muito da falta de essência em suas profissões de fé. Vivemos dias em que para alguns os cultos são cátedras para expor seus pontos teológicos e para outros shows para satisfazerem suas necessidades de exposição e notoriedade. É preciso urgentemente lermos esses textos com alma e coração, e nos jogarmos aos pés da cruz e clamarmos por perdão e graça!

“E eles o crucificaram” – ainda que pensássemos uma eternidade nesta frase não alcançaríamos a profundidade e a altura do significado dela para pessoas pecadoras como nós.  Essas 3 palavras são encontradas em todos os quatro relatos evangélicos. Mas a peculiaridade é que pouco se fala do tamanho da cruz, dos pregos, do esforço para empurrar Suas pernas, das feridas em Suas costas esfregando contra a madeira áspera da Cruz; da Sua dificuldade em respirar...sucintamente... “E eles o crucificaram”.

O escritor romano Cícero descreveu a crucificação como "a punição mais cruel e hedionda possível". Esse tipo de morte tem sua origem aparentemente na Pérsia, sendo adotada posteriormente pelos cartagineses e gregos, finalmente pelos romanos. O dissuadir rebeliões e aumento dos crimes. Se as autoridades judaicas odiavam e condenavam Jesus por causa de Seus ensinos, os romanos que não tinham qualquer interesse religioso, estava condenando-O como agitador político e possível fomentador de rebeliões.

Ao recusar a bebida oferecida pelos executores romanos (vinho misturado com mirra), Jesus estava apenas refirmando o que havia dito a Pedro: "O cálice que o Pai me deu, não o beberei?" (Jo 18.11, cf. Mt 26.39). Esse cálice cheio ilustrava a ira total de Deus que seria derramado totalmente sobre Ele - "aquele que não conheceu pecado foi feito pecado por nós, para que nele nos tornemos justiça de Deus" (2Co. 5.21). Amor Imensurável!  

Os dois personagens que ladeiam Jesus na cruz são representativos de toda a humanidade. O deboche e a ironia de um são semelhantes às reações daqueles que viram o julgamento e estão assistindo à crucificação d'Ele com o mesmo espírito de desprezo. O outro, que inicialmente expressa a mesma atitude, diante da postura de Jesus, repensa e, ao fazer uma autoanálise, expressa sua conclusão ao outro: “Eu e você merecemos estar aqui, pois temos consciência das ações erradas que temos feito; mas Este nada fez para merecer uma morte tão cruel”. Infelizmente, muitos chegam a este ponto e param. Mas aquele homem, depois de olhar para si e perceber seu estado miserável de pecado, olha para Jesus, e isso faz toda a diferença em sua vida – e conclui com uma das orações mais curtas da Bíblia: “Lembra-Te de mim quando entrares em Teu reino”. Ó glória! Quem dera todos os pecadores no mundo inteiro pudessem olhar para Jesus e fazer a mesma oração!

A resposta de Jesus foi imediata, e, como a oração, a resposta é curta e direta: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (vv. 39-43). Este verso não é apenas sobre a crucificação, mas é Deus escancarando o coração. Seu amor gracioso e imensurável pelo ser humano feito à Sua imagem e semelhança resplandece em todo o seu esplendor e poder. Hoje e não talvez, ou quem sabe, ou mais tarde...Hoje estará Comigo...para sempre!

João - João não registrou muitos detalhes encontrados nas anteriores redações de seus colegas. Este versículo é tudo o que João relatou da Via Dolorosa. Uma das razoes é que ele, por escrever em tempo bastante posterior, tinha conhecimentos do material produzido pelos evangelistas que o antecederam. O Espírito Santo não é repetitivo ou enfadonho e ao inspirar os escritores o faz com sabedoria e discernimento, registrando os detalhes que realmente fossem relevantes e edificantes para todos os leitores futuros, pois nem um dos evangelistas, incluído João, poderia imaginar que no século 21 estaríamos lendo suas narrativas.

 “Então Ele saiu para um lugar...” uma frase tão simples reveste-se de um valor extraordinário. Tudo o que aconteceu com Jesus até este ponto ocorreu dentro dos muros da cidade de Jerusalém e, portanto, nas proximidades do templo. A nossa “justiça e/ou justificação” precisa ser buscada em Cristo e em Seu sacrifício. E, para tirar qualquer dúvida de que Ele é, de fato, o sacrifício em nosso favor, para remissão de nossos pecados, Jesus precisa ser levado para fora da cidade e ser levantado no madeiro, como prescrito em Levítico (6.30).

Segundo a prescrição da Lei, o sacrifício cujo sangue fosse derramado pelo pecado deveria ser levado para fora do acampamento, e a mesma Lei declara que aquele que está pendurado no madeiro é amaldiçoado. Ambas as prescrições foram literalmente cumpridas em Jesus Cristo, que se submeteu à maldição para nos redimir da maldição da Lei que nos condenava.

O escritor de Hebreus (12.12) entendeu perfeitamente esta cena: “Que Ele foi levado para fora da cidade a fim de levar consigo e tirar as nossas contaminações que foram colocadas sobre Ele”. A perfeita harmonia de todas as partes das Escrituras é maravilhosa.

Ao sair carregando a cruz, Jesus sabia que Seu destino era o Gólgota. Lembrando-se de Sua oração no horto do Getsêmani, cuja agonia verteu-se em gotas de sangue, Jesus mantém-se firme e resoluto em cumprir plenamente a vontade do Pai, e não a Sua. Diferentemente de Isaque, que não sabia, Jesus sabe que Ele próprio é o Cordeiro e que não aparecerá outro cordeiro para substituí-Lo – “Cumpra-se em mim a Tua vontade, ó Pai” (Mt 26.39; Lc 22.42). Temos fé suficiente para fazer essa declaração em todos os momentos da nossa vida?

A caminhada de Jesus é também a nossa. Haveremos de enfrentar as mais difíceis e dolorosas circunstâncias. Seremos incompreendidos muitas vezes, perseguidos e até mortos. Mas, assim como Jesus, devemos nos manter firmes e resolutos em fazer toda a vontade de Deus, sorvendo até a última gota do cálice das aflições. Ele não é apenas o nosso modelo, mas também a nossa força na tribulação, o nosso abrigo no temporal e a nossa esperança eterna. Bendito seja o nosso Deus, que nunca nos desampara. Amém!

 

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http://reflexaoipg.blogspot.com/2017/03/galeria-da-pascoa-negacao-de-pedro.html?spref=tw

Contagem Regressiva das Últimas Horas Antes da Cruz - Introdução

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O Domingo de Ramos e a Frustração Humana

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Natal: Entre o Natal e a Páscoa há uma Cruz (Reflexão)

http://reflexaoipg.blogspot.com/2018/10/natal-entre-o-natal-e-pascoa-ha-uma.html

O Getsêmani na Narrativa de Marcos

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Páscoa: O Abandonado que nunca Abandonou (Mc 14.50-52)

http://reflexaoipg.blogspot.com/2019/02/pascoa-o-abandonado-que-nunca-abandonou.html

Pôncio Pilatos: Herói ou Vilão?

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/02/poncio-pilatos.html

Julgamento de Jesus

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/02/pascoa-julgamento-de-jesus.htm

Profetas: Os Cânticos do Servo de Yahweh em Isaías
https://reflexaoipg.blogspot.com/2018/02/profetas-os-canticos-do-servo-de-yahve.html?spref=tw

Referências Bibliográficas

MAGGIONI, Bruno. Os relatos evangélicos da Paixão. Tradução Bertilo Brod. São Paulo: Paulinas, 2000. (Coleção: Espiritualidade sem fronteiras).

SAUER, Errich. The Triumph of the Crucified - A Survey of the History of Salvation in the New Testament. Translated by G. H. Lang. Eerdmans Publishing, 1985. [p. 22 versão PDF].

SAULNIER, Christiane & ROLLAND, BernardA Palestina nos tempos de Jesus. 7ª ed. São Paulo: Paulinas, 1983.

SCHUBERT, Kurt. Os Partidos Religiosos Hebraicos da época Neotestamentária. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 1979.

SPEIDEL, Kurt A. A sentença de Pilatos. São Paulo: Paulinas, 1982.