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terça-feira, 1 de outubro de 2019

Salmos Imprecatórios: O Justo Juiz (Salmo 7)



            Os salmos classificados como imprecatórios é um subgrupo dos salmos de lamento.[1] Nesse caso particular o lamento é individual, ou seja, o salmista se coloca na presença de Deus em favor de sua própria vida.
            O salmo expressa inicialmente a oração de alguém que foi traído e perseguido, então o salmista faz uma declaração confiante de fé no Deus que é o Juiz de toda a terra e lhe será por defesa diante do mal que quer destruir sua vida e ele conclui sua oração com um voto de louvor.
            Alguns comentaristas encontram vestígios de um contexto histórico quando Saul esta determinado a matar Davi e o persegue sistematicamente (1 Samuel 24-26). O termo inicial “Shiggaion” parece ser a identificação melodiosa do cântico, mas não há um consenso entre os comentaristas e mesmo os interpretes judeus.[2] O título faz referência a Cush[3] mas não contém uma especificação de quem seja esse personagem, entretanto, o epiteto “benjamita” pode indicar um parente ou servo de Saul e, portanto, um inimigo de Davi; Cush espalhou fake news inflamando as pessoas contra Davi (muito semelhante ao que fará Absalão posteriormente)[4]. A expressão (Selah, v.5) indica que esse salmo era utilizado, em tempo posterior, na liturgia do culto realizado no templo.
Esboço
Apelando Para Que Deus Manifeste Sua Justiça
Clamor por Refúgio e Declaração de Inocência, v.1-5
Petição de Vindicação Pessoal, v.6-9a
Petição de Vindicação Pública, v.9b-16
Voto de louvor, 7.17
Clamor por Refúgio e Declaração de Inocência, v.1-5
            Desde as primeiras linhas o salmista refere-se a muitos inimigos que em suas mentes corruptas maquinam continuamente como destruir sua vida. Essas pessoas incitam e manipulam as informações de maneira que as pessoas são direcionadas contra o salmista, mesmo ele sendo inocente dos fatos divulgados.
            Ó Yahweh, meu Deus, em ti confio (tenho confiado): Davi confia continuamente somente nos recursos advindos da parte de seu Deus. Em todos os momentos em que a vida dele é afligida de forma violenta pelas adversidades, o salmista recorre Àquele que lhe pode dar esperança. “A porta da oração está fechada, a menos que ela seja aberta com a chave da confiança” (Calvino). O salmista não ora a um “deus desconhecido”, mas ao “meu Deus” o que indica um conhecimento não apenas “de ouvir falar”, teológico (intelectual), mas acima de tudo um conhecimento experimental-vivencial (Sl 23 – O Senhor é o meu Pastor e de nada terei falta). O seu Deus é nada menos do que Yahweh, o Deus da Aliança.
            Seus inimigos são comparados a um leão (cf. 10.9; 17.12; 22.13, 16, 21; cf. Pedro o diabo é como um leão querendo nos destroçar) uma besta fera violenta e que representa a ferocidade que se esconde no interior das pessoas de má índole e cuja violência mortífera se revela em sua conduta; não tem como o salmista enfrentar tais inimigos sem a força que vem de seu Deus. Foi nessa convicção que o jovem Davi, que havia enfrentado um leão e vencido, se voluntariou para enfrentar o temível gigante filisteu, que escarnecia e desafiava o povo de Deus, e o venceu com uma única pedra lançada de sua funda – em o Nome do Senhor dos Exércitos!
            No verso três o salmista utiliza-se da imprecação – se de fato ele tem feito as coisas de que tem sido acusado (se fiz isso), que Deus permita que seus inimigos o humilhe e destrua (cf. Jó capto 31). Deus é um justo juiz e não aceita menos do que a equidade como medida. As fake news haviam sido espalhadas por todo o reino de Israel de maneira que diante da opinião pública o salmista já está condenado, mas o salmista apela para o tribunal superior – que Deus o julgue e se acha-lo culpado que seus inimigos não apenas o matem, mas que seu nome seja jogado na lama imunda, que seu nome ou memória sofra escarnio público. Mas a consciência do salmista está tranquila, pois tem plena convicção de que são falsas as acusações que seus inimigos têm espalhado. A fé do salmista na justiça perfeita de Deus se fundamenta no fato de que vive de forma integra diante dele; um cristão que dá ouvidos ao conselho de criminoso, que anda no caminho de pecadores e que se assenta confortavelmente à mesa de escarnecedores e cínicos, jamais pode apelar para o tribunal do Deus justo e reto.
Petição de Vindicação Pessoal, v.6-9a
Levanta-te, Yahweh, em teu furor;
 ergue-te contra a as violências de meus adversários;
            desperta para mim o julgamento que ordenaste.
Yahweh, juiz dos povos.
julga-me, Yahweh, segundo minha justiça, segundo a minha integridade.
            O salmista contrapõe o juízo de Deus em oposição à fúria assassina de seus inimigos e assim devemos fazer em relação àqueles que querem destruir nossa vida (valores familiares, morais e espirituais). É preciso deixar claro que o nosso Deus é zeloso e poderoso muito mais do que os inimigos que se utilizam de suas posições de poderes para infligir o mal sobre a nossa vida e/ou sociedade em que estamos inseridos (vivendo).
            Mas em nenhum momento o salmista se coloca como juiz sobre seus inimigos. Apesar da urgência e do risco que ele corre, submete-se plenamente à vontade de Deus (João 5.15). Quem vai julgar a causa e emitir a sentença é unicamente Deus – que sonda os corações e perscruta as intenções mais ocultas da alma humana (mais do que qualquer hacker pode fazer).
“Davi, portanto, a fim de orar corretamente, repousa na palavra e na promessa de Deus; e a sequencia de seu exercício é esta: Senhor, não guiado por ambição, nem por uma paixão violenta e inconsequente, nem por um impulso depravado, inconsideradamente a pedir-te o que seja para a satisfação de minha natureza carnal, e, sim, que a clara luz de tua Palavra me dirija, e que dela eu dependa com toda a segurança” (CALVINO, 1999, p. 142-143).
            Jamais podemos ir além desses limites se desejamos a companhia de Deus e sua defesa e preservação do mal. Na perspectiva bíblica jamais os meios justificam fins, mas os meios justos alcançam os fins justos.
            A declaração do salmista deixa claro sua percepção de quem Deus é: O Senhor é juiz dos povos. Na verdade tudo e todas as coisas dependem daquilo que Deus é – se a visão que a pessoa tem de Deus é esquizofrênica, sua vida será uma esquizofrenia absoluta. O evangelicalismo brasileiro é apenas um reflexo da sua visão distorcida de Deus; as instâncias de poder no Brasil expressam sua disfunção e imbecilidade sobre quem Deus é. Aqui o salmista extrapola o horizonte geográfico israelita: o juiz, a quem o salmista apela, é o juiz supremo e universal; dois atributos correlativos, pois somente o supremo pode ser universal (Gn 18.25). O verbo no futuro (julgará) revela uma ação contínua – Deus esta continuamente julgando as nações, os governos, as sociedades. Toda violência praticada contra o povo de Deus em todos os lugares do globo terrestre será vindicada pela justiça divina. Na maioria das vezes achamos que estamos esquecidos e que o mal prevalecerá, mas assim como é impossível que Deus negue a Si mesmo, Sua justiça será manifestada em toda sua extensão e poder – sobre toda a terra – isto inclui o Brasil, os poderes constituídos e a sociedade brasileira. O que sucede com respeito aos juízes deste mundo jamais sucederá com respeito a Deus; ele não corrompe e nem se deixar corromper no que tange aplicação da justiça e do juízo; ele não utiliza dois pesos e duas medidas; Ele julga igualmente grandes e pequenos na mesma balança e utiliza o mesmo peso de equidade.
Petição de Vindicação Pública, v.9b-16
Julga-me, Yahweh, conforme a minha justiça,
            e segundo a minha integridade.
            Por esta razão o salmista coloca como argumento de defesa a sua justiça e integridade; ele se distinguiu dos hipócritas que fazem da justiça (muitas vezes em nome de Deus) a camuflagem para alcançarem seus objetivos mesquinhos e fraudulentos. Deus jamais fica ao lado de criminosos, pecadores e escarnecedores – pois estes no final perecerão. Aqui o salmista refere-se ao seu caráter, ao seu compromisso com os valores e preceitos da Palavra de Deus (única regra de fé e prática), assim como Jó se defende das acusações de seus amigos. O apóstolo Pedro declara em alto e bom som de que o juízo de Deus começara pela casa de Deus: “Pois chegou a hora de começar o julgamento pela casa de Deus; e, se começa primeiro conosco, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus?”.
Põe fim à maldade dos ímpios
            e confirma o justo,
pois tu sondas os corações e os rins
            Deus (Elohims) justo!
            O salmista esta sendo afligido por um tempo longo, não é uma questão momentânea, mas uma maldade persistente. Podemos amenizar (politicamente correto) a intenção do salmista de que Deus faça cessar a malícia de seus inimigos e deste modo interrompa as aflições infringidas à sua vida. Mas os termos hebraicos oferecem uma dimensão mais contundente (gamar destruir ou consumir). Desta forma a ideia é que o mal ou malícia dos seus inimigos caiam sobre suas próprias cabeças – que a perversidade dos perversos os consuma.
            A ideia de uma ação mais contundente de Deus sobre a malignidade dos inimigos fica mais conciliadora com a sentença imediata – e confirma o justo. O justo e/ou a justiça não podem ser estabelecidos enquanto o mal prevalece. Somente Deus tem poder para erradicar o mal ou torna-lo nulo, e tem feito e continuará fazendo, e estabelecer os justos que estão continuamente sendo oprimidos, de maneira que será evidente para todos que Deus os guarda e sustenta pelo Seu poder.
            Por isso o salmista reivindica pela terceira vez o fato de que sua consciência está tranquila em relação às falsas acusações que lhe tem sido continuamente infligidas. Aqui ele se abre totalmente, desnuda-se diante do Deus que “sonda os corações”, que enxerga nitidamente as mais profundas e intimas motivações das ações do salmista, bem como das ações de seus inimigos. De todas as pessoas que viviam na Palestina judaica nos dias de Jesus, nenhum recebeu as palavras mais contundentes de Jesus dos que os fariseus e escribas – raça de víboras, túmulos caiados – e nenhum o perseguiu mais tenazmente do que essas pessoas. A razão do ódio delas e das lideranças do templo é que Jesus expunha à luz do dia as entranhas malignas de seu interior, a suas verdadeiras naturezas. Nada ofende e atrai mais a ira dos hipócritas do que a exposição de suas intenções malignas. Calvino concluiu seu comentário sobre esse verso: “diante do tribunal de Deus, a pergunta não será: ‘Quais foram vossos títulos?’, ou: ‘Qual foi o esplendor de vossas ações?’, e, sim: ‘Qual foi a proporção da pureza de vossos corações?’” (1999, 147).
Deus justo! Toda a confiança e esperança do salmista estão fundamentadas no Deus que perscruta com sua justiça as mentes e os corações. Deus sabe discernir o joio do trigo, os justos dos ímpios – jamais pode ser iludido ou enganado. Ainda que muitos digam que Deus não se importe, a realidade bíblica é que não se passa um único dia sem que Deus faça clara distinção entre os justos e os perversos. Não se pode confundir a longanimidade de Deus com conivência, o que a maioria faz. Elas imaginam que estarão um dia diante de um Deus de grande amor, misericórdia e bondade (o velhinho bonachão do natal); mas ignoram (propositalmente) que estarão diante de um Deus que é perfeitamente justo e que não pode ignorar o pecado em qualquer uma de suas múltiplas formas e nomenclaturas criativas: liberdade de expressão, arte, moda, transgênerotransexual, politicamente correto, inclusão, tolerância, pós-modernismo, etc.
Se o homem não se arrepende [converte],
Deus afia a sua espada, arma o seu arco e o aponta,
E já para ele preparou armas mortais;
e porá em ação as suas setas inflamadas contra os perseguidores.
A cena dos versos 12 e 13 são um alerta! Deus está afiando sua espada e seu arco já está armado e pronto. A grande tragédia dos ímpios está justamente no fato de que eles pensam e agem como se Deus não fizesse conta de suas ações malignas – mas o dia do juízo os apanhara de surpresa e seu desespero será grande, pois no tribunal de Deus não há habeas corpus e a sentença é eterna. O juízo é certo, tanto quanto o sol nasce todos os dias, mas o ser humano em sua estultícia desperdiça seu tempo precioso, escorado em sua falsa esperança, sem tomar conhecimento de que cada transgressão o leva para mais perto da espada afiada da justiça de Deus. A única forma de escape é que se arrependam dos seus maus caminhos, de suas intenções malignas e destrutivas. Mas aqueles descritos pelo evangelista João – que rejeitam a luz e permanecem escondidos nas trevas, para que suas obras más não sejam manifestas – sentirão o peso da espada afiada e das flechas incendiárias do juízo de Deus, pois o caminho dos ímpios perecerá. No caso de Davi ele não temia apenas o arco de Saul, mas de uma turba que se associaram com ele para destruir a vida dele. O mal nunca anda sozinho!
Ei-lo gerando a iniquidade:
            concebe a maldade e dá à luz a mentira.
Ele cava e aprofunda uma cova,
            mas cai na cova que fez.
Sua maldade se volta contra ele,
            sobre o crânio lhe cai a própria violência.
            Nesses versos 14-16 o salmista descreve a vida do ímpio. Ele projeta e desenvolve um plano maligno, preparado em seus mínimos detalhes, mas no final, a forca com que pretendia matar o justo, torna-se a sua própria sentença de morte. Ele ainda nem acabou de parir a maldade e já está prenhe da mentira. As armadilhas feitas nas sombras para matar suas presas, acabaram por serem suas próprias sepulturas. A maldade produzida em suas mentes e corações produzira uma metástase que por fim destruirá suas próprias vidas. Eles mesmos acabam sofrendo a violência que desejavam cometer contra outras pessoas. Deus haverá de frustrar as expectativas dos perversos e destruir todos os seus planos peçonhentos.
            Aqui temos uma verdade absoluta do ensino bíblico: por mais criativos e inteligentes em elaborar suas astúcias e por quantos meios tenham disponível para engendrar malefícios, eles já perderam. Pois Deus em sua perfeita providência faz com que o mal intentado contra o justo se volte contra a própria cabeça do inimigo. Não há necessidade de armarmos armadilhas para os ímpios, pois eles mesmos armam armadilhas para si mesmo – um abismo chama outro abismo. Calvino (1999, p. 153) conclui desta forma:
Portanto, assim que virmos os ímpios tramando secretamente [nos corredores do Congresso, nas salas fechadas do STF] nossa ruína, lembremos de que eles falam falsamente a si próprios; em outras palavras, enganam a si próprios, e não conseguirão executar o que desejam em seu coração [tremendamente corrupto e corruptor].
Voto de louvor, 7.17
Louvarei a Yahweh pela sua justiça,
            E cantarei louvores ao nome do Altíssimo.
            Davi tem tanta convicção na justiça de Deus em seu favor que ele faz um voto de celebrar a justiça de Deus através de cânticos de louvores engradecendo o nome do Senhor. Desde sempre o salmista tem experimentado da fidelidade de Deus, pela qual Ele manifesta sua bondade e graça, livrando e preservando sua vida, bem como de seu povo. Deus não nos deixa reféns das mentes malignas, mas sempre haverá de nos defender de toda violência injusta e nos haverá de livrar da opressão do mal e há de nos manter salvos, mesmo quando os perversos se levantem contra nós e nos venham a perseguir.
            "Altíssimo" é um título raramente encontrado fora dos Salmos, usado pela primeira vez no relato do encontro de Melquisedeque e Abrão (Gênesis 14.18-22). O salmista utiliza-se desse título para anunciar o poder e o governo de Deus sobre todas as nações (47.2; 78.35). O apóstolo Paulo assim também compreendia dessa forma quando escreve aos crentes filipenses (2.10-11) “Para que em o nome de Jesus todo joelho se dobre, no céu, e na terra, e debaixo da terra; e que toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai". Todos não apenas louvarão o nome de Jesus, que está acima de todos os nomes, mas todos se curvarão diante Dele.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/


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Referências Bibliográficas
CALVINO, João. O livro dos Salmos. V. 1. Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: Edições Paracletos, 1999.
CHOURAQUI, André. A Bíblia – Louvores I (Salmos). Tradução Paulo Neves. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1998. [Coleção Bereshit].
DAVIDSON, F. (Editor). O Novo Comentário da Bíblia. V. 2. Editado em português Russell P. Shedd. São Paulo: Vida Nova, 1954. 2ª ed.
DAY, John N. The Imprecatory Psalms and Christian Ethics. Bibliotheca Sacra 159 (Apr-Jun 2002): 166-86.
KIDNER, Derek. Salmos 1-72 – introdução e comentário. Tradução Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1980.
KRAUS, Hans-Juachin. Los Salmos - 1-59, v. 1. Salamanca (España): Ediciones Sígueme, 1993.
LOCKYER, Herbert. Psalms: A Devotional Commentary. Grand Rapids: Kregel, 1993.
LUC, Alex T. "Interpreting the Curses in the Psalms," JETS 42 (1999): 395-96.
HARMAN, Allan M.  Comentários do Antigo Testamento - Salmos. Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.
PURKISER, W. T. O livro de Salmos. Tradução Valdemar Kroker e Haroldo Janzen. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. [Comentário Bíblico Beacon, v. 3].
SCHOKEL, Luís Alonso. Salmos I: salmos 1-72. Tradução, João Rezende Gosta; revisão H. Dalbosco e M. Nascimento. São Paulo: Paulus, 1996. [Coleção grande comentário bíblico].


[1] Dentro de um mínimo denominador comum podemos classificar como imprecatórios os salmos aqui mencionados: 7, 35, 55, 58, 59, 69 79, 83, 109 e 137, pois é possível encontrar neles as características próprias da imprecação.
[2] A concordância de Strong diz que a palavra Shiggaion “denota um poema lírico composto sob forte emoção mental; uma canção de imaginação apaixonada acompanhada de música adequada”. Aparece somenta mais uma vez em Habacuque 3.1.
[3] Cuchita cf. 2Sm 18.21-mensageiro que trouxe a noticia da morte de Absalão.
[4] Há uma situação análoga em 1 Reis 8.31-34, onde uma pessoa que está sendo acusada, embora reivindique inocência, vai orar no templo clamando pelo veredicto de Deus.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Salmos Imprecatórios - Podem Ser Cantados Hoje?



            O primeiro pressuposto que se faz necessário para uma compreensão correta dos chamados “salmos imprecatórios” é: qual sua concepção de Deus? Se seu entendimento de Deus é humanista certamente os salmos imprecatórios é uma abominação. Para os filhos de Erasmo de Roterdã Deus está apenas um degrau acima do ser humano e, portanto, passível de equívocos e desvios de conduta. Para pessoas que somente aceitam um deus humanizado (incluindo as imperfeições) o salmo imprecatório contraria o politicamente correto e, portanto, devem ser simplesmente descartados (assim como 95% dos textos bíblicos).
            Mas para aqueles que têm uma concepção de Deus, em harmonia com aquilo que a Bíblia declara sobre Ele, cuja soberania permeia todas as suas ações e que não há debaixo do sol qualquer coisa que esteja alheia ao exercício de Sua soberania, para esses os salmos imprecatórios são particularmente imprescindíveis e muito tem a ensinar sobre as consequências do mal ou das ações malignas praticadas por quem quer que seja e em qualquer época, incluindo os dias presentes.
            Evidente que a leitura e reação desse artigo vão depender de qual é a sua visão que o leitor tem de Deus.
O Que e Quais São os Salmos Imprecatórios
            Eles perfazem um seleto e pequeno grupo de salmos que estão igualmente inseridos no conjunto do Saltério bíblico. Uma vez inseridos no Saltério são igualmente dignos de serem cantados e no que concerne à inspiração e inerrância eles são equivalentes em grau, gênero e número com todos os demais salmos e demais literaturas bíblicas de ambos os Testamentos. Rejeita-los ou classifica-los como anomalia literária produzida por mentes nacionalistas e radicais é abrir a possibilidade de que a Bíblia em sua totalidade possa ser reclassificada. Evidentemente que aqueles que têm dificuldade em digerir esses salmos, igualmente encontram tremendas dificuldades em degustar uma infinidade de outras literaturas bíblicas onde sobressai a manifestação do juízo e da justiça de Deus, pois para essas pessoas Deu somente deve manifestar sua graça e misericórdia. Essa dicotomia que tais pensadores fazem do Deus da Bíblia se assemelha em muito a velha concepção dicotômica proposta por Marcião, ainda no inicio do segundo século, em que ele defendia que o Deus do Primeiro Testamento era distinto do Deus do Segundo Testamento. Ele já bebia no rio do gnosticismo dualista, e depois dele incontáveis outros até os dias atuais continuam expressa ou sutilmente ensinando esta mesma distorção interpretativa.
Mas nas páginas bíblicas a misericórdia e graça de Deus jamais estiveram separadas ou foi tratada de forma distinta de sua justiça e juízo. Podemos ver isso nitidamente nos grandes eventos como o diluvio onde apenas Noé e sua família sobreviveram (graça) em meio à toda população que pereceu (juízo); Sodoma e Gomorra foram totalmente consumidas pelo fogo (justiça), enquanto Ló e suas filhas eram tiradas às pressas e viveram (misericórdia). O apóstolo Paulo em sua carta dirigida à comunidade cristã em Roma responde uma das mais extraordinárias perguntas da teologia bíblica: como Deus pôde conciliar Sua perfeita misericórdia e graça, com sua perfeita justiça e juízo? E Paulo responde sem pestanejar – NA CRUZ! Aqui temos uma das mais lindas e sublimes doutrinas bíblicas – a justificação. Quando Jesus Cristo clama na cruz: “Está Consumado!” significa que finalmente a Justiça de Deus estava plenamente satisfeita e igualmente significa que a graça de Deus se manifestou em toda sua plenitude. Na cruz a Justiça e a Graça são a uníssima manifestação de Deus.
Portanto, os salmos imprecatórios estão confortavelmente inseridos no conjunto inspirado do cânon bíblico. Não é necessário qualquer tipo de censura arbitrária pastoral-teológica-exegética, a não ser por parte daqueles que têm dificuldades em crer no Deus revelado na totalidade das Escrituras. Mas para aqueles crentes fieis que continuam crendo que Deus é e continuara sendo Deus em toda e quaisquer circunstâncias da vida e da história humana, os salmos imprecatórios se constituem em alimento para sua alma. Mas infelizmente hoje, muitos temem mais a opinião da mídia e das redes sociais ou mesmo de pseudos personagens em evidência nos círculos cristão-evangélicos, do que ao próprio Deus e Sua Palavra. Mas no livro do Apocalipse está registrado que na Nova Jerusalém (celestial) ficaram de fora ... os covardes!
Interessante que em seu relevante comentário dos Salmos o estudioso Allan Harman coloca um subtítulo – O Problema dos Cânticos – onde aborda a questão dos salmos imprecatórios (2011, p. 61). Mas invés de definirmos é preferível descrever o que vem a ser um “salmo imprecatório”. Uma característica dos salmos imprecatórios é que ele contém um grito, um clamor pois são sempre expressões que provém do mais fundo da alma aflita e oprimida, para uma ação retributiva,[1] um grito/clamor para que Deus manifeste sua ira justa sobre os inimigos do salmista, mormente um representativo do povo em geral. Nos salmos imprecativos o salmista inquire, questiona, interroga e ora, clama, roga para que haja um imediato julgamento de todos aqueles que atentaram contra a vida dele (sua família, seu povo). No diapasão da intensidade da dor, sofrimento e angustia pela qual o salmista passa ou passou, procede de sua boca juízos implacáveis contra seus inimigos, que em alguns casos quase destruíram sua vida (família, povo). De acordo com J. Carl Laney, em seu interessante artigo, para uma classificação correta de um salmo imprecatório é necessário que ele contenha “uma invocação - uma oração ou um pedido para Deus conter os inimigos de uma pessoa ou de Yahweh que deve ser julgado e punido” (1981, p. 36).
Alguns comentaristas bíblicos tem advogado que o termo “salmo imprecatório” não expressa com precisão o conteúdo dos salmos referidos em sua inteireza. A solução seria falar de “imprecações nos salmos”, visto segundo estes comentaristas que o elemento imprecatório não se constitui na maioria dos casos o elemento central do salmo, quando não um elemento menor, inserido em uma única linha ou verso (MARTIN, 1972, p. 113). Ainda outros utilizando uma perspectiva psicológica entendem que esses salmos na verdade não contém imprecações ou maldições, mas estão carregadas de petições e desejos passionais diante de Deus (ZENGER, 1996, p. viii). Daniel Simango, em seu trabalho acadêmico de defesa para obtenção de seu título de Doutorado, um dos mais completos sobre essa temática, considera os salmos imprecatórios como lamentos individuais ou comunitários e que as imprecações são um subgênero desses lamentos (p. 268).
Todavia, ainda que o salmo contenha lamento, petição e anseios passionais, o impulso ou motivação principal do salmista é de caráter imprecatório, de maneira que não há nenhum motivo para não utilizar a moldura imprecatória para expô-lo, a não ser como já falei a dificuldade de lidar com as consequências do pecado manifestada no juízo de Deus.
Assim como a classificação desse grupo de salmos é discutível, quais e/ou quantos também provocam não poucas divergências entre os estudiosos. O já citado Chalmers Martin é de opinião que o numero destes salmos não ultrapassa mais do que dezoito (1972, p. 113). Por sua vez Alex Luc em seu artigo sobre o tema vai além e abrange ao menos vinte e oito salmos que contém um ou mais versos imprecatórios (LUC, 1999, p. 395-96) e Willem A. VanGemeren opta por vinte e quatro salmos na categoria de imprecatórios (1991, p. 832). Há também poucos que encontram um numero muito maior, como o caso de R. M. Benson, que classifica trinta e nove salmos nesta categoria, todavia muitos desses indicados por ele não contém os elementos básicos para sustentar essa afirmação (LUC, 1999, p. 395-96). Na contra mão temos John N. Day que classifica apenas quatorze salmos como imprecatórios (2002, p. 166-86).
            Dentro de um mínimo denominador comum podemos classificar como imprecatórios os salmos aqui mencionados: 7, 35, 55, 58, 59, 69 79, 83, 109 e 137, pois é possível encontrar neles as características próprias da imprecação.
Qual foi a motivação do salmista para que orasse dessa forma tão enfática contra seus adversários? Essa questão tem recebido, como todas as demais até aqui, distintas respostas e mais uma vez o divisor de águas está na concepção de Deus e da inspiração dos salmos. Muitas das propostas têm sido elaboradas no sentido de amenizar o teor mais intenso de retribuição contra os inimigos, mas acabam por descaracterizar o salmo e minimizar a manifestação do juízo de Deus sobre a maldade humana. Ninguém gosta de um Deus implacável contra o mal e que ouve e atende as orações imprecatórias dos seus servos. Mormente se deseja ser mais justo e mais magnânimo do que Deus, o que nunca deu certo antes e continua não dando certo ainda hoje. O mal em todas as suas multiplicidades continua avançando violentamente contra o povo de Deus e somente a ação poderosa de Deus pôde refreá-lo e fazê-lo cessar.
Uma proposta que tem atraído grandes pensadores cristãos é a de que o salmista expressão seus próprios sentimentos humanos e não necessariamente a vontade de Deus. A ideia de vingança é pertença à velha natureza decaída e não expressão de um coração dirigido pelo Espírito. Deste modo, os salmos imprecatórios são reflexos do “velho homem” que ainda controla os sentimentos do salmista. Portanto, essas expressões imprecatórias não podem ser usadas como modelo de oração para nenhum cristão. Alguns, como o grande escritor C. S. Lewis, chega a declarar que tais expressões imprecatórias são “malícia refinada” instigada pelo próprio diabo (1958, p. 23-25). Ainda nesta mesma linha interpretativa temos William Holladay que realça o fato de que as orações imprecatórias se distinguem nitidamente do “espírito” do ensino do Segundo Testamento, onde os cristãos são exortados a amarem seus inimigos, mas aqui o salmista manifesta ódio aos seus inimigos, sem fazer qualquer distinção entre o pecador e o pecado (1995, p. 308).
Alguns dos mais conceituados comentaristas bíblicos e teólogos tem proposto que os salmos imprecatórios são expressões proféticas, de maneira que o salmista neste momento projeta as ações futuras do juízo de Deus sobre os inimigos do Reino de Deus. Um dos personagens mais famosos da História da Igreja, Agostinho, em sua interpretação do Salmo 109 declara que as expressões imprecatórias ali são visões futuras previsões futuras "sob a aparência de desejar o mal" (1853, p. 213). Nesta mesma linha interpreta Herbert Lockyer de que as maldições não devem ser vistas como imprecações, mas como previsões do fim dos iníquos (1993, p. 446-47). Os defensores desta proposta lembram que Davi, um dos compositores destes salmos, é denominado de profeta (Atos 2.30 e 4.25) e que a função profética do salmista é destacada no Segundo Testamento (cf. Sl 41.9 em João 13.18 e Mateus 26.23-24; Salmo 35.19 em João 15.25). O comentarista Chalmer Martin relaciona a figura de Davi com Pedro, de maneira que os salmos imprecatórios de Davi são advertências da ira divina contra o pecado e contra todos os pecadores contumazes que rejeitam o arrependimento, assim como foi o sermão de Pedro após o Pentecostes (1972, p. 128-129). E se enfatiza ainda que algumas das expressões imprecatórias destes salmos são referenciadas no Segundo Testamento (Sl 69.25 e Sl 109.8 em Atos 1.20; e Salmo 69.22-23 em Romanos 11.9-11) dentro do contexto das profecias do tempo messiânico. Para reforça o argumento dos salmos imprecatórios como expressões proféticas Alex T. Luc (1999, p. 403-5) realça diversos paralelos entre a linguagem de ambos (Is 26.11; Jr 11.20-22; Jr 17.18; Jr 18.21 cf. Sl 109; Is 14.20-21; 47.3; 44.11 cf. Jr 50.27, Dn 4.23, Jr 13.10, Ml 2.12).
Outra forma de interpretar os salmos imprecatórios é coloca-los na moldura da Aliança (LANEY, 1981, p. 41). Uma vez que o Pacto implica em bênçãos e maldições toda agressão feita ao povo de exclusividade de Deus será tratada dentro das prescrições da Aliança. Ainda de acordo com sua argumentação "o Pacto Abraâmico (Gênesis 12: 1-3) prometia bênção àqueles que abençoavam a posteridade de Abraão e amaldiçoavam os que amaldiçoavam" (1981, p. 41-42). Ele ainda cita como exemplo o caso de Balaão que foi contratado para amaldiçoar os israelitas, mas foi impedido e acabou por abençoa-los (Nm 22-24; 31.16). Assim, dentro desta linha de raciocínio Davi como rei e representante do povo da Aliança e citado como autor de parte destes salmos imprecatórios, tinha a liberdade de clamar pela efetiva justiça de Deus contra os inimigos fossem pessoais (como rei) ou da nação. Corroborando essa proposta Allan Harman usa os Salmos 5 e 109 como ilustrativos e relacionando-os aos textos proféticos (Os 13.6 e Is 13.16), cuja base é a aliança (1995, p.65, 69, 72). Igualmente John Day endossa o pacto abraâmico (Gn 12.2-3) como fundamento, mas acrescenta que as raízes se estendem por toda Torá, ilustrada no cântico de Moisés (Dt 32.1-43) que contém uma promessa de retribuição divina contra os inimigos de Deus e seu povo (2002, p. 168).
Do ponto de vista teológico Geerhardus Vos (1942, p. 136-37) e Chalmers Martin (1972, p. 120, 123 -24) defendem que a questão da justiça de Deus que efetua a reivindicação de seu povo é um aspecto fundamental no conceito de aliança no Primeiro Testamento. Assim, essas orações não devem ser consideradas imorais, pois estão dentro do escopo da soberania de Deus que ao derramar seu juízo sobre o mal está agindo dentro de sua esfera de justiça. Isso se manifesta não apenas no juízo final, mas também na economia da história humana e a Bíblia registra algumas destas manifestações, como o dilúvio conforme acima mencionado. Ainda nesta perspectiva se coloca os anseios imprecatórios do salmista como expressão do zelo por Deus e seu Reino, visto haver uma ligação terminológica intima entre Aliança e Reino. Por fim, esses salmos expressam a indignação e aversão do salmista diante de toda sorte de injustiça e maldade praticada em todas as suas formas – falsidade, traição, astúcia, ganância, ódio, crueldade, arrogância e orgulho – de maneira que os “inimigos” nos salmos imprecatórios são réprobos que devem ser punidos por Deus. Deste modo, onde houver a manifestação do mal em quaisquer de suas expressões, justifica-se a oração imprecatória (ZENGER, 1996, p. 92), tornando-os relevantes para os dias atuais, onde o mal tem se manifestado abertamente em todo o mundo.
            Por fim temos a proposta de Sigmund Mowinckel (1962, p. 48-49), conforme mencionada por Laney (1981, p. 39) de que os “inimigos” do salmista são personificações de forças malignas espirituais e não inimigos humanos. Assim, os salmos imprecatórios assemelham-se às objurgações contra os poderes malignos ou demoníacos que produzem toda sorte de malefícios sejam guerras, violências ou doenças. Todavia, essa proposta introduz um subjetivismo desnecessário nos salmos, pois Davi teve e lutou contra inimigos reais (ex.: 1 Sm 21.7) e dentro deste contexto vivencial dele é difícil pensar que os “inimigos” fossem entidades malignas e não pessoas físicas reais.
Ainda que os salmos sejam um espelho da alma do salmista e que de alguma forma também para nós hoje, não é de bom tom caracterizar esse grupo de salmos apenas pelo prisma do espírito de vingança e ódio pelos inimigos ou por aqueles que de alguma forma lhe tenha causado mal ou dano. Evidente que normatizar os salmos é algo que se deva fazer com muita acuidade por parte do interprete. Para os interpretes de linha reformada o fio hermenêutico condutor é a continuidade entre os Testamentos ou seja a Aliança, para os de linha batista o viés são as características proféticas dos salmos.
Portanto, uma solução em relação à validação atual das orações imprecatórias perpassa pela questão de continuidade ou descontinuidade dos Testamentos. Para aqueles que defendem a descontinuidade os salmos imprecatórios ficam limitados à moldura do Primeiro Testamento, dentro da dispensação da Lei e centrada no Israel nacional. Hoje vivemos na dispensação da Graça e da Igreja, de maneira que o cristão não deve utilizar-se da oração imprecatória, visto que dentro do escopo da Nova Aliança a ênfase está no amor e perdão ao inimigo. As imprecações do salmista se cumprem literalmente na pessoa de Cristo e sua morte na cruz.
Todavia, aqueles que defendem a continuidade dos Testamentos, pois o Novo Pacto é uma extensão do Velho Pacto de maneira que não há tensão ou dicotomia entre eles e assim, as bênçãos e maldições permanecem validas, pois Deus continua manifestando sua justiça e misericórdia. Uma vez que Deus não muda seu padrão ético continua valido. O clamor por justiça por parte do cristão oprimido continua sendo ouvido por Deus.
A primícia explicitada ainda no inicio deste texto enfatiza que as orações imprecatórias nos dias do salmista e nos dias atuais, estão como sempre estiveram subordinadas à soberania de Deus que sempre manifestou sua misericórdia e sua justiça concomitantemente, pois como duas linhas paralelas elas coexistem igualmente sem jamais se anularem. Deus não pode manifestar sua misericórdia sem justiça e jamais manifestou sua justiça sem a misericórdia e a cruz é o ponto convergente de ambas as linhas. Na cruz temos a expressão máxima da Justiça de Deus e da Misericórdia de Deus.
Assim como o crente do Primeiro Testamento, o crente do Segundo Testamento esta sujeito a sofrer opressões externas de seus inimigos quer sejam no sentindo individual ou institucional, de modo que da mesma forma que os primeiros os atuais tem a mesma liberdade de clamar a Deus para que tome as providências necessárias para que o mal possa ser erradicado e o bem possa novamente ser manifestado. O Primeiro Testamento não produz um senso moral de qualidade inferior àquela sustentada no Segundo Testamento; isso porque, concomitantemente com as imprecações encontramos nesses salmos uma espiritualidade que nós deveríamos manifestar (Sl 139 é um caso típico).
Em nenhum dos Salmos imprecatórios a vingança é feita com as próprias mãos do salmista ou se reivindica a destruição dos inimigos como satisfação mórbida. No contexto veterotestamentário há diversas passagens que proíbe a vingança e o ressentimento (Lv 19.17-18), ensina que o Senhor odeia a violência (SI 5.6), e insiste que a vingança deve ser deixada para Ele e (SI 7.4; Pv 20.22; etc.). A preservação da vida seja individual do salmista ou coletiva de seu povo, bem como a preservação da justiça são as razões pela qual ele apela para Aquele que tem o Poder de fato. O salmista tem plena consciência de que somente Deus pode extirpar o mal e fazer prevalecer o bem, que somente Ele pode endireitar as veredas entortadas pela corrupção decorrente da natureza pecaminosa do ser humano alienado de Deus.
A vindicação e a vingança são distintas. Ainda que Davi tenha sido muitas vezes fustigado violentamente por seus inimigos, como o rei Saul que em diversas ocasiões tentou matar Davi, esse foi capaz de reagir com generosidade em relação ao inimigo (2 Sm 16.11; 19.16-23). As orações imprecatórias de Davi eram sempre no sentido de que a justiça prevalecesse e que o direito fosse restabelecido e que o injusto e perverso sofresse as consequências de seus atos, de maneira que o pedido de Davi era para uma vindicação – justiça, que encontra ressonância no Segundo Testamento na parábola proferido por Jesus (ex. Lc 18.1-8).
Por fim, podemos perceber nos salmos imprecatórios uma aversão do salmista em relação ao pecado. As diversas manifestações do juízo de Deus contra o pecado registrado nas páginas da Bíblia, que tanto horror produz às mentes cauterizadas, e a descrição do juízo futuro e final registrado em imagens nítidas nas paginas do Apocalipse, com o qual se encerra o cânon bíblico, é o contexto mais amplo em que estão inseridas as orações imprecatórias dos crentes do Primeiro e do Segundo Testamento. O pecado em todas as suas nuanças, em todos os seus tons de cinza, deveriam causar uma aversão no crente ao ponto dele levantar um clamor imprecatório diante de Deus – mas lamentavelmente o evangelicalismo atual está longe de sentir aversão ao pecado, mesmo em suas formas mais espúrias e depravadas. E aqui está a razão pela qual a Sociedade brasileira vive em um estado permanente e crescente de decadência moral. Onde a corrupção e a injustiça estão impregnadas em todas as instâncias dos poderes constituídos. Com toda certeza vivemos os dias pré-apocalíptico – vivemos os últimos dias!

Salmo 55
ESCUTA A MINHA oração, ó Deus! - Não Te escondas quando eu peço a tua ajuda.
Ouve-me com atenção e responde-me! Eu não consigo entender meus problemas e estou muito perturbado.
Meus inimigos gritam ameaças contra mim; os homens maus me rodeiam. Lançam males sobre mim, com ódio e furor.
Dentro do peito, meu coração dispara dolorido, com medo da morte.
Sou dominado pelo medo e pelo pavor, o horror me oprime.
Eu disse: "Quem dera que tivesse asas como uma pomba! Voaria para longe e viveria em paz.
Voaria rápido até os desertos distantes e viveria por lá mesmo.
Assim poderia achar um abrigo para escapar da tempestade.
Senhor; provoca confusão e desentendimento entre os meus inimigos, faz com que sejam destruídos pela sua própria violência.
De dia e de noite, giram pela cidade, andando sobre os muros. Espalharam a maldade e a miséria dentro da Cidade.
Dentro dela existe morte e destruição; nas ruas acontecem assaltos e exploração.
Quem me ofende não é um inimigo. Se fosse, eu ainda poderia aguentar; poderia fugir e me esconder.
Quem está me traindo é você, meu companheiro, meu amigo do peito!
Costumávamos andar juntos, conversando alegremente enquanto íamos para o templo de Deus com o seu povo.
Que a morte apanhe essa gente de surpresa, porque seus corações e seus lares estão imundos de pecado.
Mas eu pedirei ajuda a Deus e o Senhor me salvará.
Farei orações pela manhã, ao meio-dia e à noitinha; contarei a Deus os meus problemas e Ele me ouvirá.
Muita gente me persegue e tenta me destruir, mas Ele me salva e dá paz à minha alma.
Deus - o Rei Eterno - dará aos meus inimigos o que eles merecem, porque não respeitam a Deus, porque não se arrependem.
Este falso amigo atacou quem vivia em paz com ele; não cumpriu os compromissos que tinha feito.
Ele falava macio, mas no coração planejava a morte. Suas palavras pareciam ser doces como mel, mas na verdade eram facas afiadas.
Entregue todas as suas preocupações ao Senhor. Ele levará o peso dos seus problemas. Deus nunca deixa o justo tropeçar e cair.
Senhor, Tu lançarás meus inimigos no mais profundo abismo da destruição. Eles são assassinos e traidores; por isso vão morrer muito cedo; viverão apenas meia vida.
Quanto a mim, confio em Ti para sempre!


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas
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[1] A justiça retributiva é uma teoria da punição que, quando um infrator infringe a lei, a justiça exige que ele sofra em troca. Também exige que a resposta a um crime seja proporcional à ofensa. A prevenção de crimes futuros ou a reabilitação do agressor são outros propósitos de punição (Wikipedia inglês).