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quinta-feira, 16 de abril de 2026

Notas sobre João


João, filho de Zebedeu e irmão de Tiago, foi um dos doze apóstolos escolhidos por Jesus. No início de sua caminhada, ele e o irmão eram conhecidos como os “filhos do trovão”, apelido dado pelo próprio Cristo em razão de seu temperamento impetuoso e explosivo. No entanto, ao longo de sua convivência com Jesus, João passou por uma transformação profunda: de discípulo de caráter forte e temperamento ardente, tornou-se o apóstolo do amor, aquele que melhor expressou em palavras e atitudes a essência do amor divino.

Essa mudança se revela em sua proximidade com o Mestre. João esteve presente em momentos decisivos: reclinou-se ao lado de Jesus na Última Ceia, foi o único apóstolo a permanecer aos pés da cruz junto com Maria e algumas mulheres, e recebeu do próprio Cristo a missão de cuidar de sua mãe. Esse gesto mostra a confiança e a intimidade espiritual que João cultivava com Jesus.

Além de ser testemunha ocular da vida e da paixão de Cristo, João foi também o apóstolo que viveu mais longamente, sendo o último sobrevivente entre os doze. Sua longevidade lhe permitiu deixar um legado escrito que vai além da narrativa evangélica: o Evangelho de João, três cartas que reforçam o mandamento do amor e a necessidade de permanecer na luz, e o Apocalipse, obra profética que anuncia a vitória final de Cristo e a esperança da nova criação.

O perfil espiritual de João nos ensina que seguir Jesus é viver no amor. Amar significa refletir a luz de Cristo, crer é acolher o amor de Deus, e permanecer em Cristo é tornar-se testemunha viva desse amor transformador. Por isso, seu evangelho é chamado de Evangelho do Amor: nele encontramos não apenas a revelação da divindade de Cristo, mas também o convite a experimentar o amor como fundamento da fé e da vida.


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Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

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sexta-feira, 28 de março de 2025

Harmonia dos Relatos Evangélicos da Crucificação - Jesus chega ao Gólgota

 

Mateus 27.33 - Chegaram a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer lugar da Caveira,

Marcos 15.22 - E levaram-no ao lugar do Gólgota, que se traduz por lugar da Caveira.

Lucas 23.33 - E, quando chegaram ao lugar chamado a Caveira, ali o crucificaram, e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda.

João 19.17 - "E, levando ele às costas a sua cruz, saiu para o lugar chamado Caveira, que em hebraico se chama Gólgota."

Análise e Comentário dos Textos

Mateus - Podemos incluir esse verso 33 em uma pequena perícope (32-34) onde Mateus acompanha Jesus no chamado caminho do Gólgota (em latim, Calvário). Após ser traído por Iscariotes, Jesus é conduzido à casa de Anás, sogro de Caifás, e depois a Caifás, o sumo sacerdote, onde é interrogado e enfrenta falsas acusações. É aqui também que Pedro o negará por três vezes sucessivas.

A noite vai passando e Jesus é levado de um para outro lugar: Conselho do Sinédrio, Pilatos, Herodes Antipas, que o devolve a Pilatos. É aqui, já pela manhã que a sentença é proferida: conforme a prática romana da época, Ele foi açoitado em 39 vezes. Depois dos açoites implacáveis, os soldados romanos passaram a zombar dele e confeccionando uma coroa de espinhos, e gravando na cabeça dEle, se curvavam e o chamavam zombeteiramente de o “rei dos judeus”.

Então lhe entregam a trava horizontal da cruz, chamada patibulum, pois a parte vertical já estava no local da sentença. Essa trava pesava aproximadamente 30 a 50 quilos, e a pessoa deveria levá-la em todo o trajeto, que ficou conhecido como Via Dolorosa ou Via Crucis, que significa "Caminho da Dor" ou "Caminho da Cruz", em uma extensão de aproximadamente 600 metros.  A noite não dormida, os flagelos físicos sofridos, debitaram fisicamente Jesus e no meio do caminho o soldado ordena que um expectador, Simão de Cirene, para ajudá-Lo até chegar ao Gólgota.

Depois de mais de uma hora “Eles chegam ao lugar chamado Gólgota, que recebia a alcunha de “Lugar da Caveira”, pois a rocha que compunha o local tinha um formato semelhante. Era o lugar estabelecido para a crucificação dos criminosos mais perigosos, após a sentença definitiva.

O local é fora dos muros da cidade, mas todo o trajeto era percorrido por pessoas que entrava e saiam pelos portões da cidade, de modo que a crucificação se tornava um “espetáculo público”. Gólgota é o nome aramaico do local, mas no grego é κρανίον (kranion) quer foi traduzido para o latim como “calvaria”, de onde vem a transliteração para “calvário”.

Marcos - Calvário é uma palavra latina e Gólgota sua versão hebraica. Esse pequeno verso é a dobradiça das eras; tudo que foi escrito no Primeiro Testamento e/ou Antigo Testamento e tudo que será escrito no Segundo Testamento e/ou Novo Testamento, tem sua apoteótica no Calvário. Como escreve de forma contundente Erich Sauer: “...é o ponto de virada; de todo amor é o ponto mais alto, e de toda salvação é o ponto de partida, de todo culto é o ponto central". Um detalhe sublime é que as palavras "Calvário" e "eternidade" são encontradas apenas uma vez, mas elas fazem toda diferença na nossa história, pois no Calvário toda a nossa eternidade foi transformada. Estávamos destinados a uma eternidade sem Deus, mas por causa do Calvário (Cristo) estaremos eternamente com Ele. As versões que trocam o uso de Calvário, por “a Caveira”, lamentavelmente empobrece a mensagem teológica do texto.

O Calvário é o centro da História da Humanidade. O nascimento e a crucificação de Cristo são o epicentro em torno do qual giram todos os acontecimentos históricos dos séculos. O Calvário mostra até onde os homens irão em seu estado de pecado e miséria, mas também revela até onde Deus irá pela salvação do ser humano pecador.

Mas uma das coisas mais extraordinárias que acontece no Calvário é que não havia apenas três cruzes ali, mas sim milhares/milhões de cruzes ali representadas. O apostolo Paulo entendeu isso como poucos, como ele expõe em suas epistolas: “Ora, se morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos,” (Rm 6.8); “Fui crucificado com Cristo; e já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim;” (Gl 2.20).

Quando você perguntar quem O crucificou, olhe para sua mão, e verá o martelo.

Uma peculiaridade da narrativa de Marcos é que menciona o tempo em que Jesus Cristo fica crucificado. Quem pode penetrar esses profundos mistérios ou profundezas dos sofrimentos do Cordeiro de Deus, quando Ele foi obediente até a morte, a morte da Cruz! Longas e intermináveis seis horas, equivalentes a 360 minutos...e durante todo esse tempo Ele poderia ter descido da Cruz... mas não o fez... ficou pendurado lá, bebendo gota a gota o cálice da morte... horas e minutos carregados de dor e sofrimento... mas Ele permaneceu ali... pregado... unicamente por amor de mim e de você!

O desfio que Jesus lançou para aqueles que queriam segui-Lo foi: “... tome a cruz... e siga-Me”. O caminho percorrido por Cristo é uma ilustração real daqueles que se dispõem a crer Nele como único e suficiente Salvador e Senhor. Milhares de cristãos “caminharam” para a morte (muitas vezes em desfiles abertos) para satisfazer a crueldade das multidões que os escarneciam e amaldiçoavam, até chegarem aos Coliseus Romanos espalhados pelo Império.

Com sua ressurreição Jesus transformou a cruz de símbolo de morte, para símbolo de esperança e salvação para cada que Nele crê. Muitas vezes temos que enfrentarmos nossos próprios "Gólgotas", e devemos sempre nos lembrarmos que nossas lutas e dores (traições, abandono) podem nos levar a um profundo crescimento e transformação pessoal. Da mesma forma que o sacrifício de Jesus trouxe a salvação, nosso sofrimento pode ser a ponte para aprofundar nossa comunhão com Deus e fortalecer no esperança Nele.

Lucas - Deveríamos ler os relatos da crucificação com temor e tremor. Quem está sendo crucificado ali é o Filho Amado de Deus! A indiferença e frieza com que os cristãos evangélicos tratam essas narrativas é assustadoramente preocupante, pois revela muito da falta de essência em suas profissões de fé. Vivemos dias em que para alguns os cultos são cátedras para expor seus pontos teológicos e para outros shows para satisfazerem suas necessidades de exposição e notoriedade. É preciso urgentemente lermos esses textos com alma e coração, e nos jogarmos aos pés da cruz e clamarmos por perdão e graça!

“E eles o crucificaram” – ainda que pensássemos uma eternidade nesta frase não alcançaríamos a profundidade e a altura do significado dela para pessoas pecadoras como nós.  Essas 3 palavras são encontradas em todos os quatro relatos evangélicos. Mas a peculiaridade é que pouco se fala do tamanho da cruz, dos pregos, do esforço para empurrar Suas pernas, das feridas em Suas costas esfregando contra a madeira áspera da Cruz; da Sua dificuldade em respirar...sucintamente... “E eles o crucificaram”.

O escritor romano Cícero descreveu a crucificação como "a punição mais cruel e hedionda possível". Esse tipo de morte tem sua origem aparentemente na Pérsia, sendo adotada posteriormente pelos cartagineses e gregos, finalmente pelos romanos. O dissuadir rebeliões e aumento dos crimes. Se as autoridades judaicas odiavam e condenavam Jesus por causa de Seus ensinos, os romanos que não tinham qualquer interesse religioso, estava condenando-O como agitador político e possível fomentador de rebeliões.

Ao recusar a bebida oferecida pelos executores romanos (vinho misturado com mirra), Jesus estava apenas refirmando o que havia dito a Pedro: "O cálice que o Pai me deu, não o beberei?" (Jo 18.11, cf. Mt 26.39). Esse cálice cheio ilustrava a ira total de Deus que seria derramado totalmente sobre Ele - "aquele que não conheceu pecado foi feito pecado por nós, para que nele nos tornemos justiça de Deus" (2Co. 5.21). Amor Imensurável!  

Os dois personagens que ladeiam Jesus na cruz são representativos de toda a humanidade. O deboche e a ironia de um são semelhantes às reações daqueles que viram o julgamento e estão assistindo à crucificação d'Ele com o mesmo espírito de desprezo. O outro, que inicialmente expressa a mesma atitude, diante da postura de Jesus, repensa e, ao fazer uma autoanálise, expressa sua conclusão ao outro: “Eu e você merecemos estar aqui, pois temos consciência das ações erradas que temos feito; mas Este nada fez para merecer uma morte tão cruel”. Infelizmente, muitos chegam a este ponto e param. Mas aquele homem, depois de olhar para si e perceber seu estado miserável de pecado, olha para Jesus, e isso faz toda a diferença em sua vida – e conclui com uma das orações mais curtas da Bíblia: “Lembra-Te de mim quando entrares em Teu reino”. Ó glória! Quem dera todos os pecadores no mundo inteiro pudessem olhar para Jesus e fazer a mesma oração!

A resposta de Jesus foi imediata, e, como a oração, a resposta é curta e direta: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (vv. 39-43). Este verso não é apenas sobre a crucificação, mas é Deus escancarando o coração. Seu amor gracioso e imensurável pelo ser humano feito à Sua imagem e semelhança resplandece em todo o seu esplendor e poder. Hoje e não talvez, ou quem sabe, ou mais tarde...Hoje estará Comigo...para sempre!

João - João não registrou muitos detalhes encontrados nas anteriores redações de seus colegas. Este versículo é tudo o que João relatou da Via Dolorosa. Uma das razoes é que ele, por escrever em tempo bastante posterior, tinha conhecimentos do material produzido pelos evangelistas que o antecederam. O Espírito Santo não é repetitivo ou enfadonho e ao inspirar os escritores o faz com sabedoria e discernimento, registrando os detalhes que realmente fossem relevantes e edificantes para todos os leitores futuros, pois nem um dos evangelistas, incluído João, poderia imaginar que no século 21 estaríamos lendo suas narrativas.

 “Então Ele saiu para um lugar...” uma frase tão simples reveste-se de um valor extraordinário. Tudo o que aconteceu com Jesus até este ponto ocorreu dentro dos muros da cidade de Jerusalém e, portanto, nas proximidades do templo. A nossa “justiça e/ou justificação” precisa ser buscada em Cristo e em Seu sacrifício. E, para tirar qualquer dúvida de que Ele é, de fato, o sacrifício em nosso favor, para remissão de nossos pecados, Jesus precisa ser levado para fora da cidade e ser levantado no madeiro, como prescrito em Levítico (6.30).

Segundo a prescrição da Lei, o sacrifício cujo sangue fosse derramado pelo pecado deveria ser levado para fora do acampamento, e a mesma Lei declara que aquele que está pendurado no madeiro é amaldiçoado. Ambas as prescrições foram literalmente cumpridas em Jesus Cristo, que se submeteu à maldição para nos redimir da maldição da Lei que nos condenava.

O escritor de Hebreus (12.12) entendeu perfeitamente esta cena: “Que Ele foi levado para fora da cidade a fim de levar consigo e tirar as nossas contaminações que foram colocadas sobre Ele”. A perfeita harmonia de todas as partes das Escrituras é maravilhosa.

Ao sair carregando a cruz, Jesus sabia que Seu destino era o Gólgota. Lembrando-se de Sua oração no horto do Getsêmani, cuja agonia verteu-se em gotas de sangue, Jesus mantém-se firme e resoluto em cumprir plenamente a vontade do Pai, e não a Sua. Diferentemente de Isaque, que não sabia, Jesus sabe que Ele próprio é o Cordeiro e que não aparecerá outro cordeiro para substituí-Lo – “Cumpra-se em mim a Tua vontade, ó Pai” (Mt 26.39; Lc 22.42). Temos fé suficiente para fazer essa declaração em todos os momentos da nossa vida?

A caminhada de Jesus é também a nossa. Haveremos de enfrentar as mais difíceis e dolorosas circunstâncias. Seremos incompreendidos muitas vezes, perseguidos e até mortos. Mas, assim como Jesus, devemos nos manter firmes e resolutos em fazer toda a vontade de Deus, sorvendo até a última gota do cálice das aflições. Ele não é apenas o nosso modelo, mas também a nossa força na tribulação, o nosso abrigo no temporal e a nossa esperança eterna. Bendito seja o nosso Deus, que nunca nos desampara. Amém!

 

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Guedes, Ivan Pereira
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Referências Bibliográficas

MAGGIONI, Bruno. Os relatos evangélicos da Paixão. Tradução Bertilo Brod. São Paulo: Paulinas, 2000. (Coleção: Espiritualidade sem fronteiras).

SAUER, Errich. The Triumph of the Crucified - A Survey of the History of Salvation in the New Testament. Translated by G. H. Lang. Eerdmans Publishing, 1985. [p. 22 versão PDF].

SAULNIER, Christiane & ROLLAND, BernardA Palestina nos tempos de Jesus. 7ª ed. São Paulo: Paulinas, 1983.

SCHUBERT, Kurt. Os Partidos Religiosos Hebraicos da época Neotestamentária. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 1979.

SPEIDEL, Kurt A. A sentença de Pilatos. São Paulo: Paulinas, 1982.


domingo, 13 de novembro de 2022

Evangelho João – Peculiaridades em Relação aos Sinóticos


 

            O quarto Evangelho trás alguns aspectos que lhe são específicos: no aspecto geográfico e cronológico, no conteúdo narrativo, na seleção dos ensinamentos e no perfil de Cristo. Ele preenche perfeitamente o mosaico formado pelas outras três narrativas. Trata-se de uma diversidade de forma e não de substância, onde o evangelista apresenta perspectivas próprias, assim como uma abordagem teológica distinta em relação aos outros três companheiros literários.

O fato de ter sido escrito muito tempo depois dos outros três deu ao quarto escritor a oportunidade de preencher diversas lacunas e de apresentar Jesus e seu ministério por uma perspectiva mais pessoal e intima. Um exemplo são as narrativas da paixão em que o quarto evangelista dedica praticamente metade de sua narrativa e levando seus leitores para compartilhar da intimidade de Jesus e seus discípulos na semana derradeira antes da cruz.

            Em nenhum momento o quarto evangelho contradiz os sinóticos, mas tão somente os complementam. Isso é possível pelo fato de que o quarto evangelista tinha conhecimento das narrativas anteriores, se não as três ao menos uma delas.

Quadro Geográfico e Cronológico

O evangelista João inicia sua narrativa na região da Galileia registrando alguns milagres como as bodas na vila de Caná, assim como uma multiplicação dos pães e os peixes nas proximidades de Cafarnaum.  No entanto, é na Judeia e em Jerusalém que veremos Jesus atuando mais intensamente, como a cura do paralítico à beira do tanque de Betesda, do cego de nascença, bem como a ressurreição de Lázaro. Também os discursos de Cristo são pronunciados nos átrios do Templo ou no Cenáculo.

Em vez disso, nos Sinóticos o ministério de Cristo se desenvolve na região da Galileia e tendo a cidade de Cafarnaum como o foco radial da atividade de Jesus.

Quanto à cronologia da atividade pública do Senhor, os três primeiros relatam apenas uma única Páscoa em que Jesus sobe a Jerusalém e ali se desenvolve os acontecimentos derradeiros com sua morte na cruz e sua ressurreição. Enquanto na narrativa joanina temos referência de pelo menos três festas pascais (2.23; 6.4; 12.1), o que implica três anos de ministério. Por outro lado, segundo Mateus, Jesus começa seu ministério depois da prisão de João Batista (Mt 4, 2). Na narrativa joanina Jesus inicia seu ministério concomitantemente com os últimos dias do ministério do Batista (Jo 3,2).

Conteúdo narrativo

Dos vinte e nove milagres narrado pelos Sinóticos, apenas dois aparecem no quarto Evangelho, a multiplicação dos pães e dos peixes, e a caminhada de Jesus sobre as águas no Lago da Galileia, entretanto registra outros cinco milagres não citados pelos sinóticos: 2.1-11 (Caná); 4.46-54 (filho do oficial do rei); 5.1-9 (paralitico no poço de Betesda); 9.1-7 (cego de nascença); 11.33-34 (ressurreição de Lázaro).

A maior parte de perícopes dos três primeiros evangelhos não tem paralelo no quarto, ainda que elas sejam tão importantes quanto a Transfiguração e a Instituição da Ceia. Por outro lado, quando ele descreve o mesmo relato o faz de uma perspectiva distinta. Por exemplo, a instituição da Ceia em que os sinóticos trazem apenas o pequeno recorte do momento em que Jesus a institui oficialmente como símbolo de sua morte e ressurreição, enquanto que João nos fornece toda a cena e os acontecimentos que transcorreram durante toda aquela noite, antes, durante e depois da refeição da Páscoa.

Perícopes curtas são abundantes nos sinóticos sendo agrupadas de forma livre e os interlocutores são os mais diversos possíveis. Jesus dirige-se aos fariseus, saduceus, escribas e às multidões da Galileia, usando uma linguagem popular vivida e repleta de imagens comuns da região. No quarto evangelho os discursos são mais longos e em linguagem mais abstrata e conceitual; os diálogos frequentemente são transformados em monólogos onde Jesus expõe as verdades espirituais do Seu Evangelho.

Quanto aos interlocutores, ao contrário dos Sinóticos, no quarto Evangelho muitas vezes encontramos um personagem específico, ou um pequeno grupo. Como por exemplo, quando Jesus fala do nascimento e/ou nova criação com Nicodemos, ou da água viva com a mulher samaritana e do Pão da Vida na sinagoga de Cafarnaum.

Temas e a Figura de Jesus

            Neste quarto evangelho o tema do Reino de Deus é referido apenas no dialogo de Jesus com Nicodemos um chefe de Sinagoga (3.3-4), enquanto nos sinóticos, especialmente em Mateus, a menção é recorrente. No dialogo de Jesus com Pilatos a expressão refere-se ao Reino de Cristo o que neste caso há uma familiaridade com os relatos paralelos, mas o material joanino nos oferece mais denso e rico material (cf. Jo 18.33-38; Mt 27.11 e paralelos).  Nos primeiros evangelhos encontramos diversas referências há vários mandamentos que identifica se ajusta perfeitamente ao contexto judaico e que posteriormente refletira nas comunidades judaico-cristãs que versam sobre pureza ritual, observância do jejum e do sábado, das esmolas e como fazê-lo. Encontramos também numerosos preceitos referentes à oração, a confiança, pobreza, castidade, obediência, etc. João não minimiza o valor intrínseco dos mandamentos, mas enfatiza que todos eles estão sintetizados no amor, pois quem ama a Cristo são aqueles que verdadeiramente guardam os seus mandamentos.  (cf. Jo 14.15-21; 15.10-14). Paralelamente ao amor, outro ponto fundamental que permeia a narrativa joanina é a fé, estabelecendo desta forma os dois pilares da vida cristã.

João oferece aos seus leitores uma nova perspectiva da figura de Jesus em relação aos demais evangelistas, o que não significa que seja outra pessoa, mas simplesmente que ele é descrito por ângulos diferentes assim como sua forma de ensinar. Suas palavras são revestidas de certo mistério, seus monólogos mais longos, sua forma de ensinar é mais conceitual, seus temas adquire uma dimensão maior, sua aceitação da Cruz mais sereno e sua divindade fica mais evidenciada.  

Essas semelhanças e diferenças, e outras que podem ser encontradas tem estabelecido uma rede de criticas que geram aceitação ou rejeição da autenticidade dos relatos evangélicos.

A chamada crítica racionalista produzida a partir do Iluminismo gerado nas entranhas da Idade Média questionou e depois evoluiu para uma total negação a todos os relatos do sobrenatural e a possibilidade de milagres, esvaziando as narrativas evangélicas da vivacidade e beleza que apresenta-nos a figura humana e divina do Salvador. É por esta razão que particularmente este quarto evangelho, bem como os demais escritos evangélicos tem sido esmiuçados e desacreditados. As palavras de Ambrósio (340-397 D.C.) ainda ressoam como que pronunciados nos dias atuais: “nenhum homem jamais contemplou a majestade de Deus com tão sublime conhecimento de sua sabedoria, nem Ele deu a conhecer com palavras tão elevadas como as deste apóstolo[1].

Todos aqueles críticos que enaltecem quaisquer características deste evangelho, mas negam seu valor histórico corroem os fundamentos desta literatura, bem como de toda a Escritura bíblica.

 

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Referências Bíblicas

BARCLAY, William. El Nuevo Testamento, v. 5. Buenos Aires: La Aurora, 1974.

BONNET, Luis y SCHROEDER, Alfredo. Comentário del Nuevo Testamento. Buenos Aires: La Aurora, 1974. [v. 5].

CARSON, D. A. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Ed. Vida Nova, 2001.

GARCIA-MORENO, Antonio. El Evangelio Segun San Juan – introduccion y exgesis. Badajoz-Pamplona, 1996.

HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – João. São Paulo: Ed. Cultura Cristã, 2004. [v.1,].

HULL, W. E. Comentário bíblico Broadman, v. 9. Rio de Janeiro: JUERP, 1983.

MCARTHUR, John. Comentário Macarthur del Nuevo Testamento – Juan. Epanha: Kregel, 2011.

MICHAELS, J. Ramsey. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo – João. São Paulo: Vida, 1994.

PACK, Frank. O Evangelho Segundo João. São Paulo: Vida Cristã, 1983.

TENNEY, Merrill C. O Novo Testamento – sua origem e análise. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1972.

 

 

 

 



[1] Citado por G.Chastand, p.347. [l'apótre lean et le /Ve Evangile, París 1888].

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

EVANGELHO DE JOÃO: Jesus sempre existiu

              Enquanto Marcos inicia seus relatos a partir do batismo de Jesus às margens do rio Jordão; Mateus mergulha fundo na literatura dos profetas israelitas preservadas no Primeiro Testamento e Lucas inclui detalhes impressionantes obtidos por testemunhas oculares dos acontecimentos por ele narrado, distintamente de seus companheiros evangélicos, João opta por iniciar sua narrativa sobre o nascimento de Jesus – antes do tempo.

                É muito provável que João tenha tido acesso aos relatos de seus companheiros e contemporâneos. Ao propor uma nova edição dos acontecimentos evangélicos ele prefere dar uma nova perspectiva da origem de Jesus. Ele transcende o tempo e espaço e localiza Jesus no princípio da Criação. Marcos enfatiza a divindade de Jesus no momento do seu batismo, Mateus e Lucas deixam evidente a divindade de Jesus nos acontecimentos que se relacionam ao seu nascimento e João ratificando as informações de seus antecessores declara que Jesus sempre existiu desde o momento iniciante da Criação de todas as coisas. Para ele nunca houve um tempo em que Jesus não existisse – Ele existe desde sempre!

               Vamos resgatar a forma singular com que João nos apresenta seu relato natalino.

“No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus.”[1] 

 “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”[2] 

 “Antes de ser criado o mundo, aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com Deus e era Deus.”[3]

“Antes de existir qualquer coisa, Cristo já existia, e estava com Deus.”[4]

“No princípio era o Logos e o Logos estava voltado para Deus (com Deus) e o Logos era Deus”[5]

                Os relatos que lhe antecedem localizam a origem de Jesus no tempo (Lc imperadores romanos) e espaço (Mt cidade de Belém) João abre sua narrativa evangélica com um enunciado em três partes, onde nos arremete para a origem atemporal  de todas as coisas.

No princípio era o Verbo [Palavra] - Ele vai buscar na expressão que abre as páginas da Torá judaica (primeira parte da Bíblica cristã), “No princípio” para indicar a origem eterna (atemporal) de Jesus. Mas há uma substancial diferenciação entre a expressão no livro de Gênesis e a expressão utilizada por João. Em Gênesis a expressão “No princípio[6] marca o ponto de partida de onde todas as coisas passaram a existir, pois antes não existiam; mas o evangelista utiliza a mesma expressão “No princípio” para localizar a existência de Jesus antes da existência da própria Criação. Para João quando todas as coisas passaram a existir, Jesus já existia e se fazia presente, portanto, não apenas o evangelista conecta o relato evangélico com o início da história da criação, mas como que indica que o nascimento de Jesus é um prolongamento da página inicial da Bíblia inteira.

“No princípio era o Verbo”. Ao utilizar o verbo “era [ser]” no imperfeito[7] para completar o sentido de “princípio” João esta indicando a pré-existência de Jesus; o escritor evangélico esta escrevendo da perspectiva histórica, olhando para trás a partir da Encarnação do Verbo (nascimento físico de Jesus), portanto, Jesus não veio a existir no ato da Criação, mas Ele já existia[8] antes do tempo em que todas as coisas foram trazidas à existência, e no transcorrer da narrativa joanina (8.58) Jesus demonstra ter plena consciência desta verdade ao fazer essa declaração contundente: “Antes que Abraão fosse, eu sou”.

 O Verbo [Palavra] estava com Deus – Se a expressão anterior revela a pré-existência do Verbo com Deus, a segunda revela a distinção entre eles. A preposição grega “com – pros (πρός)” indica um movimento em direção a algo ou alguém, de modo que, aquele que “estava” desde o princípio, nunca esteve sozinho, mas sempre compartilhou da companhia de Deus (Pai) [9]. Aqui tem também a ideia de comunhão entre o Logos e o Pai (Théos), de maneira que fazem todas as coisas em perfeita harmonia (Jo 14.11, 20; 17.5,24).

 Era Deus – e concluindo sua afirmação inicial o evangelista mantém com toda clareza a distinção entre os dois seres, todavia, afirma sua unidade de essência. Aqui “Théos - Deus” esta sem o artigo, portanto, faz referencia à qualidade e natureza de Deus e não mais à pessoa do Pai especificamente. O Logos é distinto do Pai, todavia, partilha da natureza divina em toda sua plenitude e assim também é Deus. Aqui João não tem nenhuma pretensão de adentrar nas especulações do Logos do judaísmo helenista ou das ideias gnósticas tão em voga nos seus dias. Mas ciente de sua própria incapacidade, o evangelista não tem a mínima aspiração de explicar os detalhes desta coexistência de Jesus com Deus. Assim como seu antecessor ao abrir o livro de Gênesis, ele apenas faz uma declaração simples e direta da divindade de Jesus. Demonstra total ignorância qualquer ser humano que pensa poder desvendar os mistérios da natureza divina, pois se fosse possível fazê-lo Deus estaria restrito e limitado ao conhecimento humano. Para João os fatos são: em primeiro lugar o Verbo existiu desde o princípio; em seguida, que ele existiu com Deus; e por último que ele era Deus.

            Quando paramos para pensar nessas palavras iniciais do evangelista João, podemos perceber que o evento que dá origem ao Natal Cristão não é e jamais será apenas uma “festa”; o Natal Cristão é, foi e sempre será o momento incomparável quando o Deus Eterno, na Pessoa do Filho, adentra à nossa História e mais ainda, assume a plenitude de nossa humanidade, para comunicar pessoalmente a nós a Salvação da qual tanto necessitamos.

Assim como a partir da “Palavra – Logos” a primeira Criação veio a existir, semelhantemente a partir de Jesus (Palavra – Logos) encarnado, a segunda e/ou nova Criação esta sendo trazida à existência (“Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação” II Co 5.17, cf. Gl 6.15).

Do mesmo modo como nos comunicamos através das palavras, que expressam o nosso conhecimento e a nossa vontade, Deus escolheu se comunicar conosco através de Jesus (Palavra), manifestando a nós o Seu conhecimento e a Sua vontade.

Mas assim como utilizamos as palavras para revelar os nossos sentimentos mais profundos, Deus escolheu manifestar seu mais profundo sentimento de amor para conosco por meio de Jesus (Palavra). Desta forma, somente podemos compreender e sentir o imensurável amor de Deus, quando ouvimos e nos relacionamos com Jesus (Logos).

Da mesma forma que pela Palavra Deus trouxe ordem e harmonia ao planeta que estava em caos, por meio de Jesus (Palavra) Deus trás ordem e salvação à toda pessoa que esta vivendo em completo caos.

Portanto, o Natal Cristão é a forma encontrada por Deus, para falar a cada ser humano, o quanto Ele nos ama!

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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[1] NVI - Versão em Português: Nova Versão Internacional

[2] RA - Versão em Português: João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada

[3] BLH - Versão em Português: Nova Tradução na Linguagem de Hoje

[4] BV – Versão em Português: Bíblia Viva [paráfrase]

[5] Tradução de A. Feuillet

[6] Gênesis, [hebraico בראשׁית – Bereshith], proferida pela palavra grega [εν αρχη]

[7] Diferentemente do verbo no tempo aoristo, que indica um tempo especifico para a ação, no tempo imperfeito a ação se prolonga indefinidamente desde o momento iniciante, produzindo a ideia de algo que transcende o tempo. O verbo “ser” no imperfeito trás a ideia de existência – de algo que existe desde o princípio, que existe de maneira absoluta, desde sempre.

[8] O Ap. Paulo tem o mesmo entendimento (Col 1.15).

[9] Nos textos do Segundo Testamento, a palavra Théos (θεός), com o artigo, comumente refere-se à pessoa do Pai, no contexto da Trindade.