domingo, 31 de dezembro de 2023

Jesus Cristo nas Escrituras (Levítico)

 E o sacerdote queimará tudo isso no altar. É um holocausto, oferta preparada no fogo, de aroma agradável ao Senhor — Levítico 1.9, NVI

          No livro de Gênesis temos o quadro terrível da queda da raça humana. O ser humano criado à imagem e semelhança de Deus escolhe confrontá-lo e acaba rompendo sua comunhão com seu Criador. Mas Deus já de antemão providencia um caminho de volta Gn 3.15. Esta promessa será o fio condutor de toda a história bíblica sendo concluída apenas no livro do Apocalipse onde o ser humano é reinserido no Jardim de Deus.

          No livro do Êxodo temos a formação da nação de Israel e por meio dela Deus efetivará seu plano redentor. O simbolismo salvífico de Deus está presente em todo o desenvolvimento deste livro tendo sua apoteose no sacrifício do cordeiro pascoal – o qual Jesus Cristo – o cordeiro pascoal definitivo vai se revestir integralmente na cruz do calvário.

          O livro de Levítico segue o fim condutor estabelecido nos livros anteriores. Em Gênesis o ser humano afasta-se de Deus; em Êxodo Deus resgata o ser humano escravizado pelo pecado e em Levítico esse ser humano resgatado é capacitado a se relacionar novamente com seu Criador.

O livro de Levítico somente faz sentido para aqueles que foram reconciliados com Deus. Seu ensino, à luz do Novo Testamento, é para aqueles que já reconheceram seu estado de pecador, que reconheceram Cristo como seu resgatador e agora estão habilitados buscarem a presença de Deus. O livro nos mostra a perfeita santidade divina e a absoluta impossibilidade do pecador se aproximar de Deus, exceto por meio da expiação.

Uma vez estabelecido o tema central o livro passa a ilustrá-lo. Ele nos coloca frente a frente com a grande questão do sacrifício em prol do pecado. A ênfase continua no sacrifício destina-se a impactar fortemente o leitor/ouvinte sobre o quão terrível é o pecado aos olhos de Deus. Para aqueles que não entendem a seriedade do pecado e quão terrível são suas consequências, o livro não passa de uma lista interminável e horrenda de sacrifícios.

Como um grande farol construído sobre a rocha que é Cristo, o livro conduz o ser humano entre os rochedos do pecado de maneira que suas vidas não sejam despedaçadas e venham a naufragar no mar da vida.

          O que só temos em ilustrações virtuais em Levítico, vemos em realidade na cruz de Cristo. A cruz torna-se verdadeiramente uma manifestação do amor imensurável de Deus; O amor de Deus Pai revelado em plenitude por meio do Filho que, "Por um espírito eterno, ofereceu-se imaculado a Deus" Hebreus 9.14. Mas ela fez mais do que isso, pois revela que Deus está de fato e de verdade comprometido em resgatar o pecador.

A Cruz de Cristo revela as duas faces do pecado humano: revela a total aversão que Deus tem do pecado (em todas as suas nuances) o que fica evidente no calvário; e o amor imensurável de Deus que vai às últimas consequências para, entregando-se a si mesmo no Filho, para salvar o pecador João 3.16.

Embora nosso intelecto não possa compreender o mistério da Expiação, nossos corações e consciências são habilitados a proclamá-la com eficiência. Tendo reestabelecido a paz pelo sangue de sua cruz Colossenses 1.20. Consolo sem medida tem sido estas palavras para as almas em aflição em todos os lugares e épocas! Somente aqueles que experimentam verdadeiramente toda a agonia e dor produzida pelo pecado, que tão tenazmente nos acedia, reconhece o valor imensurável da Cruz de Cristo.

Os primeiros capítulos de Levítico descrevem cinco tipos de ofertas. Uma apenas não seria suficiente para renderizar a ideia da perfeição do sacrifício do Cristo.

O primeiro aspecto que atrai a nossa atenção é que em cada oferta, temos três objetos distintos: a oferta, o sacerdote, e o ofertante (aquele que traz a oferta). Portanto, é preciso compreender-se o significado ou abrangência destas três figuras, pois Jesus Cristo está representado em cada uma delas:

·       Cristo é a oferta. "A oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todosHebreus 10.10.

·       Cristo é o sacerdote. "Temos um Sumo Sacerdote, Jesus, o Filho de DeusHebreus 4.14.

·                 Cristo é quem oferece. "Ele se entregou para nós, a fim de nos redimir de todos iniquidade" Tito 2.14.

As ofertas são divididas em duas classes principais: aromas suaves/agradáveis, entre os quais o holocausto (o sacrifício consumido pelo fogo) é o mais importante, pois era oferecido em expiação pelo pecado. A vítima era completamente queimada no altar no pátio do Tabernáculo. Era um sacrifício integral, completo, inteiro – nada era reservado. 

Aqui temos a representação da vida de perfeita obediência de Cristo à vontade de seu Pai, em favor de nós, não apenas como Aquele que carrega nossos pecados, mas como Ele próprio se constituindo na oferta perfeita a Deus que é suficiente para satisfazer plenamente a justiça de Deus: uma vida de completo abandono, coração, mente e vontade, oferecidos sem reservas a Deus Efésios 5.2. Na oferta, de farinha fina e do óleo representa-se o cumprimento do dever ao próximo.

Jesus, como Homem, cumpriu estas duas oferendas em sua vida humana perfeita na terra. Na flor de farinha triturada, reduzida a pó e oferecida pelo fogo, vemos uma imagem de Jesus, machucado, dia após dia, por aqueles a quem Ele fez o bem, pelo qual se doou continuamente, suportando a contradição dos pecadores.

A oferta pelo pecado se distingue do holocausto. Ela era especificamente oferecida em expiação pelo pecado. A gordura queimada no altar de brasa, mostrava que o sacrifício fora aceito, mas todo o resto era queimado fora do acampamento indicando a extrema gravidade do pecado aos olhos de Deus. O Senhor Jesus tornou-se está "oferta pelo pecado" por nós: "Agora, no final dos tempos, apareceu apenas uma vez para abolir o pecado por seu sacrifício. Hebreus 9.26. Jamais poderemos imaginar a angústia desse contato com o pecado para a alma imaculada do nosso Redentor, a angústia causada pelo abandono de Deus, quando Ele foi "feito pecado por nós". (Ele Coríntios 5:21).

Na consagração de Arão como Sumo Sacerdote e em seus deveres ao longo deste livro, temos um símbolo do nosso grande soberano Sacerdote. Na consagração de seu filho e dos levitas, devemos ver o sacerdócio de todos os verdadeiros crentes em Jesus. Na terrível cena em que dois filhos de Arão Nadab e Abihu não levam a sério as ordenanças em relação ao tabernáculo e oferecem fogo estranho em seus incensários e ali são consumidos pelo fogo do altar, fica o alerta para todos aqueles que acham que podem adorar a Deus de qualquer maneira.

Os incensários dos sacerdotes deveriam ser acesos no altar dos holocaustos cf. Levíticos 16.12 e Números 16.46, somente esta era a forma correta pela qual eles deveriam servir no altar do Senhor. Da mesma forma somente com base na obra expiatória de Cristo as orações podem subir a Deus como perfume agradável a Ele. No culto quem deve ser agradado não é o ofertante, mas aquele que está sendo adorado.

Muitos capítulos de Levítico são relacionados às leis da vida cotidiana dos israelitas. Aqui temos duas verdades paralelas – essas leis revelam o quanto Deus se preocupa com o bem-estar físico e moral de seus filhos. Mas também demonstraram que o serviço do Senhor extrapola os espaços do tabernáculo e invadem os espaços cotidianos dos ofertantes. A expressão tão cara ao livro de Levítico - "Sereis santos, pois eu, o SENHOR, teu Deus, eu sou santo" - implica que santidade não apenas momentos estáticos de culto, mas um estilo de vida que deve distinguir aqueles que tem um compromisso com Deus e aqueles que vivem descompromissados Dele. As palavras santo e santidade, permeia toda a narrativa deste livro. O apostolo Paulo compreendeu muito bem este princípios e escreve aos cristãos em Corinto: “Assim seja se você está comendo, bebendo ou fazendo qualquer outra coisa, tudo deve ser feito como que para a glória de Deus. Tendo, portanto, tais promessas, Amados, vamos nos purificar de todos contaminação da carne ou do espírito, na conclusão do Nossa santificação no temor de Deus1Coríntios 7.1.

No símbolo da lepra (Capítulos 13 e 14), temos o alerta de que o pecado nos priva da comunhão com Deus. Somente depois de ter sido examinados e constatado de que não há quaisquer vestígios da doença (da cabeça aos pés, ou seja, em sua totalidade) é que a pessoa era declarada limpa e apta para oferecer sacrifícios ao Senhor e estaria livre para participar das celebrações. João escreve de forma maravilhosa esse princípio com base no sacrifício remidor de Jesus Cristo: “Se confessarmos os nossos pecados (declararmos que somos de fato e de verdade culpados), Ele [Cristo] é fiel e justo para nos perdoar os pecados (todos e cada um) e nos purificar de toda injustiça1João 1.9.

Assim como o sacerdote tinha que sacrificar os dois pombos ou passarinhos como ofertas pelo pecador purificado, assim Jesus Cristo morreu por nossas transgressões e ressuscitou por nossas ofensas, para a nossa justificação. Quanto a previsão divina é Misericordiosa! Os pardais estavam ao alcance dos mais pobres: assim o ato de fé está disponível a todos igualmente.

Todavia, antes do leproso já purificado retomar seu lugar na comunidade ele precisa tomar um banho completo. O simbolismo de consagração e separação de toda imundícia do pecado. Agora ele estava livre para se apresentar diante do Senhor e lhe oferecer seu sacrifício.

De todo calendário religioso contido no livro de Levítico – o grande Dia da Expiação (Capítulo 16) é sem dúvida alguma o ápice. Era um Dia da humilhação. Todo o povo era conclamado a confessar a Deus os seus pecados. Só acontecia uma vez por ano, igualmente, registra o escritor de Hebreus 9.28 "Cristo ofereceu-se uma única vez para carregar [sobre si] os pecados de muitos [os nossos pecados]”. O sacrifício de Jesus Cristo não será repetido jamais.

Neste dia o Sumo Sacerdote adentrava ao Santos dos Santos e ali oferecia sacrifício [sangue de touro] por si mesmo, por sua família.  A oferta pelo Pecado do povo consistia em dois bodes. Lançada sorte um era imolado e o sangue dele era aspergido no propiciatório e diante do propiciatório, por sete vezes (número do completo). O outro bode, denominado de emissário, o Sacerdote colocava a mão sobre a cabeça dele confessando o pecado do povo, e depois era conduzido para o deserto "com a ajuda de um homem que tinha esse cargo – ouçamos as palavras testemunhais de João Batista em relação a Jesus Cristo - "Eis que o Cordeiro de Deus tira os pecados do mundo;”; agora as palavras do profeta Isaías “o SENHOR pôs sobre Si a iniquidade de Todos nósJoão 1.29; Isaías 53.6.

Evidente que nenhum animal grande ou pequeno (ou mesmo milhares) poderiam substituir perfeitamente o pecador. Mas todo o livro de Levito é sombra daquele sacrifício perfeito que Jesus Cristo ofereceria em nosso favor. Por esta razão ele assume a plenitude de nossa humanidade - "Deus em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo 2Coríntios 5.19. Assim Cristo como sendo perfeitamente humano e perfeitamente divino expiou os nossos Pecados de uma vez por todas Hebreus 1.2-3 e 2.14.

A nossa salvação e o perdão de nossos pecados estão relacionados diretamente com o sacrifício de Jesus Cristo no calvário. Não sem motivo o apostolo Pedro escreve: “Pois vocês sabem que não foi por meio de coisas perecíveis como prata ou ouro que vocês foram redimidos da sua maneira vazia de viver, transmitida por seus antepassados, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha e sem defeito1Pedro 1.18-19.

O PRECIOSO SANGUE DE CRISTO
Redenção através do sangue - 1 Pedro 1.18-19.
Perdão através do sangue - Efésios 1.7.
Justificação pelo sangue - Romanos 5.9.
Paz através do sangue - Colossenses 1.20.
Purificação pelo sangue - 1 João 1.7.
A Libertação do pecado pelo sangue - Apocalipse 1.5.
Santificação pelo sangue - Hebraico 13.12.
Entrada gratuita pelo sangue - Hebreus 10.19.
Vitória através do sangue - Apocalipse 12.11.
Glória Eterna através do sangue - Apocalipse 7.14-15.

 

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Guedes, Ivan Pereira

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sábado, 30 de dezembro de 2023

Reflexão: Quem é Jesus Cristo? ou Quem é Jesus Cristo para mim?

          Estas duas perguntas podem conter muitas semelhanças, mas a resposta de cada uma delas conduz a respostas finais muito distintas.

          Um jovem pastor luterano passou anos lutando contra o nazismo e por fim foi preso e por fim condenado à morte. O seu nome era Dietrich Bonhoeffer e enquanto aguardava o desfecho final ele escreveu inúmeras cartas a parentes e amigos. Em uma delas, escrita para escrita a Maria von Wedemeyer, ele exprime a sua convicção que, nos anos vindouros, ou seja nos dias atuais, a grande questão para os cristão seria não Quem é Jesus Cristo, mas Quem é Jesus Cristo para mim?

          Como mencionei no início elas possuem semelhanças, mas são distintas em seu cerne. O que as distinguem?

          A primeira questão é levantada por qualquer pessoa que se disponha a pesquisar e escrever sobre Jesus Cristo. Ele é um personagem histórico controverso e ao longo dos séculos tem suscitado intermináveis teses e debates acadêmicos. Milhões de páginas já foram e com certeza continuarão a serem produzidas sobre esta questão. Mas sejam quais foram as conclusões destes exaustivos trabalhos literários e acadêmicos, o fato é que não muda uma vírgula na vida de seus escritores/pesquisadores.

          Mas a segunda formulação: Quem é Jesus Cristo para mim? É pessoal! Não se trata e não se contenta com uma resposta, ainda que honesta e correta, sobre a pessoa de Jesus Cristo, mas do que Ele representa e o que Ele significa para minha vida e para minha história presente e futura.

          Vivenciamos hoje a multiplicação da informação. O google e tantos outros motores de busca nos possibilitam em alguns minutos termos acesso a milhares de páginas e pesquisas sobre todos e quaisquer assuntos que possa nos interessar. Se colocarmos agora em um destes buscadores “Jesus Cristo” milhares de endereços eletrônicos surgirão a ponto de não termos tempo suficiente para examinar cada um deles. A nossa cultura está fascinada e inundada pela informação, mas poucos são aqueles que exigem qualquer compromisso pessoal com o tema pesquisado. E esta ausência de compromisso pessoal com o tema pesquisado, neste caso em particular Jesus Cristo, produzira milhões de informações, MAS NENHUM COMPROMISSO COM ELE. E está tem sido a grande artimanha do inferno nestes séculos pós iluminismo. O que Satanás não suporta em hipótese alguma é qualquer compromisso pessoal com Jesus Cristo. Ele tem que ser mantido à distância como se deve fazer com qualquer objeto de estudo. Nada de envolvimento pessoal. Jesus Cristo deve ser apenas um tema e/ou objeto de estudo e pesquisa – nada mais.

          Nunca se falou, escreveu, estudou, debateu, produziu tanto sobre Jesus Cristo, como nos nossos dias atuais. Todavia, poucas gerações se postam de forma tão alienantes de Jesus e Seu Evangelho, como as gerações destes últimos milênios.  

          Todavia, muitos cristãos, espero que o leitor seja um deles, estão descobrindo que informação sobre Jesus Cristo não é suficiente, não satisfaz a sede da alma e não produz perspectiva futura tranquilizadora. É preciso algo mais. Um compromisso de obediência e fé. E isso só é possível para aqueles que podem responder com toda convicção o que Jesus Cristo é para sua vida.

          Na teologia se faz distinção entre a igreja como organização e a igreja como corpo de Cristo. Participar da primeira não implica que a pessoa de fato automaticamente faz parte da segunda.

          Desde Constantino para hoje a grande preocupação passou a ser em arrolar pessoas na igreja organizacional. Antes ser membro da igreja implicava em perda, perseguição e muitas vezes em martírio; depois ser membro da igreja institucional passou a ser uma busca implacável pela prosperidade, status social e vida confortável.

          Antes para receber o batismo e ser arrolado como membro em uma igreja cristã exigia-se um compromisso de obediência vivencial dos princípios estabelecidos pelo Senhor Jesus Cristo e registrados nas Escrituras bíblicas. Hoje basta a pessoa frequentar regularmente e contribuir financeiramente com a respectiva instituição religiosa e se a contribuição for muito boa, a frequência presencial pode ser bastante flexibilizada.  

          Quando estudamos sobre a vida das mulheres e homens que responderam de forma pessoal e vivencial a pergunta sobre quem era Jesus para suas vidas, verificamos rapidamente o quão distantes estamos desta realidade. Talvez esteja sendo muito duro, mas vivemos o mais baixo nível de espiritualidade desde os primeiros séculos do cristianismo. Nunca houve um número tão grande de “cristãos” destituídos de um compromisso de obediência e fé nas Escrituras.  O inferno nunca vendeu tanto a “fé sem compromisso de obediência” como nestes últimos dias atuais. Não é sem razão que Jesus levantou esta questão olhando para os nossos dias: “Quando o Filho do Homem retornar encontrará, pois, fé na terra? Lucas 18.8” A qual fé Jesus está se referindo? Certamente não é a fé genérica reproduzida pelas informações literárias/acadêmicas; mas a fé pessoal vivencial daqueles que tem um compromisso de obediência com a Sua vontade e propósito.

          Cada um de nós tem que responder à esta questão singular: Quem é Jesus na sua vida? Ter dúvida sobre a resposta ou simplesmente ignorá-la revela sua resposta. Quando Jesus Cristo não produz qualquer impacto na sua vida; se o Evangelho não produz mudanças radicais em sua forma de ver e viver sua vida; significa que Jesus Cristo é apenas um produto de conhecimento e pesquisa e nada mais. Mas sou constrangido a lhe dizer que este conhecimento, por mais amplo que seja, não vai lhe salvar a alma.

Quem é Jesus Cristo para mim? Quem é Jesus Cristo na minha vida? Esta é a questão que preciso responder com toda convicção de meu coração; esta é a pergunta que expressa a fé salvadora e vivencial. Não fico satisfeito com menos do que um compromisso de obediência com a vontade de meu Senhor e Salvador Jesus Cristo. Meu objetivo maior na vida é estar a cada dia mais semelhante a Ele, a ponto de ser identifico com Ele em tudo que penso e faço.

Quem é Jesus Cristo na sua vida?

 

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Guedes, Ivan Pereira
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terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Jesus Cristo nas Escrituras: Êxodo

 


Há uma fonte cheia de sangue, Tirado das veias de Immanuel,
E pecadores mergulhados sob esse dilúvio
Perder todas as suas manchas culpadas: Perder todas as suas manchas culpadas,

Hino "There is a Fountain" Escrito: William Cowper

[Disse Deus a Moisés] "Reúna a assembleia de Israel e diga: 'Vejam o que temos que fazer no dia dez deste mês. Cada um vai pegar um cordeiro. Dentro dos grupos de famílias, terá de ser um cordeiro para cada família” (v.3).

“Agora, o cordeiro não pode ter defeito físico. Em vez de cordeiro, pode ser um cabrito. Cada um guardará o animal até o dia quatorze deste mês. Nesse dia, no fim da tarde, cada cordeiro ou cabrito será morto. E o seu sangue será colocado no alto e nos lados das portas das casas onde comerem desses animais sacrificados” (vs.5-7).

“O sangue vai servir de sinal nas casas em que vocês estiverem. Quando Eu enxergar sangue nas portas, passarei por alto, sem ferir ninguém ali. Assim, a praga de destruição com a qual vou ferir o Egito, não atingirá vocês” (v.13).

Êxodo 12.3, 5-7, 13

É impossível para um estudante da bíblia, ainda que iniciante, ler o livro de Êxodo e não o relacionar às narrativas evangélicas. Os versos acima mencionados é apenas uns entre tantos outros que se relacionam diretamente  à vida e ministério de Jesus Cristo.

Até hoje os judeus mais conservadores celebram a Páscoa, dentro da perspectiva judaica, onde se recorda a libertação do povo israelita da escravidão imposta pelos egípcios.

Na noite da Páscoa toda a família senta-se à mesa para a refeição do Seder. A mesa de jantar estão todos os elementos para lembrar a libertação da escravidão de seus antepassados. Há a perna de osso de cordeiro, ervas amargas, água salgada e todos os outros elementos que oferecem uma expressão visual de sua jornada, de maneira a transmitir visualmente a antiga tradição de geração a geração. Há mais de 3.500 anos, o caçula da família se senta à mesa e faz quatro perguntas ao pai: Por que esta noite é diferente das outras, e só comemos pão ázimo? Por que comemos todos os tipos de ervas em outras noites, mas esta noite comemos apenas ervas amargas? Por que é que todas as noites não precisamos de molhar os nossos vegetais uma única vez, mas esta noite fazemo-lo duas vezes? Por que nos reclinamos em nossas cadeiras à mesa esta noite? O pai então passa a ler a antiga Hagadá [Hagadah] do hebraico הגדה, o livro da Páscoa, onde é explicado que o pão ázimo os lembra da pressa com que tiveram que deixar o Egito; as Ervas amargas lembram a amargura da servidão e da escravidão; a imersão da salsa em água salgada representa a libertação através do Mar Vermelho e como o exército egípcio se afogou em perseguição. E, finalmente, inclinar-se para trás na mesa expressa sua liberdade em que eles não são mais escravos.

O fato de faraó não os libertar já nas primeiras pragas tinha um duplo propósito - didático e teológico. O didático era para deixar claro aos israelitas que era Deus quem os estava libertando e não Moisés, ou seus próprios esforços ou qualquer vestígio de bondade de faraó; o teológico está mais enfaticamente revelado na última praga, em que os primogênitos dos egípcios são mortos e os dos israelitas preservados. Todavia, a preservação dos infantes israelitas estava simbolicamente representado na morte do cordeiro e cujo sangue deveria ser aspergido sobre as vergas e os umbrais de suas casas, de maneira que o anjo da morte ao passar e vendo o sangue ali não entrava naquela casa. Portanto, fica bem claro, que a preservação da vida dos primogênitos israelitas não era méritos deles ou de seus pais, mas unicamente a graça de Deus que aceitou provisoriamente o sacrifício substitutivo do cordeiro anteriormente imolado.

Uma cena extraordinária da narrativa evangélica é a de João Batista se referindo ao senhor Jesus: eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo Jo 1.29. Enquanto o pregador faz esta declaração lá no templo de Jerusalém os sacerdotes estavam imolando os cordeiros que seriam oferecidos em sacrifício para remissão dos pecados.

O cordeiro tornou-se o modelo perfeito do Libertador vindouro (anunciado por João Batista), o Senhor Jesus Cristo. Assim como Ele estava na plenitude de Sua vida quando foi para a cruz, o cordeiro de um ano e sem mancha ou defeito estava na plenitude de seu vigor. O apostolo Pedro recordo todos estes fatos, ao escrever sua primeira carta, e referindo-se ao sacrifício substitutivo de Cristo declara que fomos salvos pelo "precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mácula e sem defeito" 1Pe 1.19.

No livro de Êxodo, a descrição detalhada do sacrifício deste cordeiro pascal é dada, incluindo instruções específicas de que nenhum de seus ossos deveria ser quebrado Ex 12.46. Em perfeito sincronismo na narrativa evangélica quando os soldados se aproximaram de Cristo na cruz, o evangelista destaca: "Mas quando chegaram a Jesus, quando o viram já morto, não lhe quebraram as pernas... Pois estas coisas aconteceram para que a Escritura se cumprisse: Seu osso não será quebrado" Jo 19.33, 36.

Tanto aqueles primeiros israelitas, quanto nós hoje, somos salvos pelo sangue do cordeiro morto.

Os israelitas foram salvos naquela noite cheia de morte pela fé, ao aplicaram o sangue do cordeiro nos umbrais de suas casas. Nós somos salvos hoje pela fé em Jesus Cristo que derramou seu precioso e puro sangue em nosso favor na cruz do calvário. A Bíblia diz: "A alma que pecar morrerá" Ez 18.20. A única maneira de sermos salvos e preservados da ira de Deus sobre todo pecado é aspergindo pela fé o sangue de Jesus Cristo em nossos corações.

Mil e quinhentos anos depois daquela primeira Páscoa, Jesus reuniu seus discípulos em um cenáculo no Monte Sião, na cidade de Jerusalém, para comemorar a Páscoa com os mais próximos e queridos a ele. Ele sabia, quando partiu o pão e levantou o cálice, que em mais algumas horas seu próprio corpo seria partido por eles (nós) e seu próprio sangue derramado para abrir o caminho para eles (nós) ao céu. A aplicação de sangue nos umbrais daquelas casas israelitas significava duas coisas: libertação da escravidão e libertação da morte. Semelhantemente ao aplicarmos o sangue de Cristo em nossas vidas significa as mesmas duas coisas: libertação da escravidão do pecado, que tem seu modo de nos prender e escravizar, e libertação da morte espiritual. O apostolo Paulo compreendeu perfeitamente esta verdade e escreve aos cristãos estabelecidos na cidade de Roma: "Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom de Deus é a vida eterna por meio de Cristo Jesus, nosso Senhor" Ro 6.23.

É por estas razões mencionadas acima que o Senhor confrontava os líderes religiosos céticos declarando-lhes: "Examinai as Escrituras; porque nelas tendes a vida eterna; e são elas que testificam a meu respeito" Jo 5.39. Quando examinamos cada livro da Bíblia, haveremos de encontra Jesus em cada um deles, mas certamente o livro de Êxodo é particularmente uma minienciclopédia sobre Jesus Cristo e sua obra redentora na cruz.  Neste precioso livro encontramos Jesus, nosso Cordeiro pascal.

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Guedes, Ivan Pereira
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sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Parábolas em Ordem Cronológica: Luz do Mundo (Mateus 5.14-16) [reeditado]

    

Sejam bem-vindos!

Estamos desenvolvendo uma série de estudos utilizando os textos parabólicos evangélicos como nossa bússola. Mas por que estudarmos as Parábolas? Vejamos algumas razões:

• Porque as parábolas são a melhor revelação do tema central de todo o Novo

Testamento: o anúncio do Reino de Deus.

• Nas parábolas estão as declarações mais claras e incisivas feitas para Jesus. Cada parábola exige uma resposta... o ouvinte e/ou leitor tem que participar.

• Além disso, são elas que nos permitem conhecer melhor e mais profundamente a mente de Jesus Cristo. O que se constitui em um privilégio único e incomparável.

• Por esta razão, na medida em que alguém se aprofunda nas parábolas se aprofunda no essencial para genuinamente ser um discípulo de Jesus.

• Embora cada parábola toque apenas um ponto do Reino de Deus, a soma de todos eles nos oferece um quadro amplo e maravilhoso deste Reino ao qual somos inseridos por meio de Cristo.

Texto bíblico: Mateus 5.14-16
Parábola: A luz do mundo
Contexto literário: Sermão do Monte
Ponto central: Os discípulos de Jesus devem manifestar, diante do mundo, a luz recebida de Cristo.
Desafio de leitura: Leia Mateus 5.14-16 e observe a relação entre identidade, testemunho e glorificação do Pai.

Introdução

Estamos desenvolvendo uma série de estudos utilizando os textos parabólicos dos Evangelhos como nossa bússola. A sequência adotada segue a proposta cronológica anteriormente apresentada no blog, reconhecendo que tal organização funciona como recurso didático para leitura e edificação, e não como tentativa de resolver definitivamente todos os problemas cronológicos das narrativas evangélicas [GUEDES, 2017].

Como indicado na introdução geral da série, as parábolas de Jesus comunicam verdades espirituais profundas por meio de imagens retiradas da vida comum [GUEDES, 2016]. Algumas delas aparecem em forma de narrativa mais desenvolvida; outras, como a imagem da luz do mundo, apresentam-se como figuras breves, densas e memoráveis. Ainda assim, cumprem a mesma função pedagógica: tornar visível uma verdade espiritual por meio de uma realidade conhecida.

Este pequeno ensino de Jesus está situado no Sermão do Monte, logo após as bem-aventuranças. Depois de descrever o caráter dos cidadãos do Reino, Jesus declara a respeito de seus discípulos: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5.14). A afirmação não é apenas uma exortação moral; é uma declaração de identidade. Aqueles que pertencem a Cristo são chamados a refletir, diante do mundo, a luz que receberam dele.

Joachim Jeremias observa que as parábolas de Jesus devem ser compreendidas no horizonte da proclamação do Reino de Deus [JEREMIAS, 2007]. Essa observação ajuda a ler Mateus 5.14-16: a luz dos discípulos não é mera boa conduta social, mas manifestação concreta da realidade do Reino em meio a uma sociedade marcada pelas trevas do pecado.

1. “Vós sois a luz do mundo”

A luz, nas Escrituras, está frequentemente associada ao conhecimento de Deus, à revelação da verdade, à santidade e à vida. Deus é luz; sua Palavra ilumina; sua presença dissipa as trevas. No Evangelho de João, Jesus é apresentado como a verdadeira luz que ilumina todo homem (Jo 1.9) e como a luz do mundo (Jo 8.12).

Por isso, quando Jesus afirma que seus discípulos são a luz do mundo, ele não está dizendo que eles possuem luz em si mesmos, de forma autônoma. A luz que neles brilha é derivada. Eles refletem a luz de Cristo. Não são a fonte da luz, mas seus portadores e comunicadores.

Essa distinção é essencial. A Igreja não ilumina o mundo por possuir grandeza própria, sabedoria própria ou virtude própria. Ela ilumina porque está unida a Cristo, recebe dele a vida e manifesta seu caráter no mundo. Se Cristo é a verdadeira luz, seus discípulos são chamados a viver de tal modo que essa luz seja percebida em suas palavras, atitudes, obras e relacionamentos.

O verbo está no presente: “vós sois”. Isso indica uma realidade contínua. Enquanto estiverem no mundo, os discípulos devem viver como luz do mundo. Não se trata de uma atividade eventual, mas de uma identidade permanente.

2. A luz não foi feita para ficar escondida

Jesus prossegue dizendo que não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte, nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire. A luz existe para iluminar. Quando é escondida, perde sua função prática.

A imagem é simples, mas poderosa. Uma cidade situada sobre um monte torna-se visível, especialmente à noite. Uma lâmpada acesa dentro de uma casa deve ser colocada no velador, para iluminar todos os que estão no ambiente. Do mesmo modo, a vida dos discípulos não deve ser marcada por camuflagem espiritual, covardia moral ou invisibilidade testemunhal.

Klyne Snodgrass observa que as parábolas não são ilustrações ornamentais, mas formas de comunicação que envolvem o ouvinte e exigem resposta [SNODGRASS, 2012]. A imagem da luz também exige uma resposta: se recebemos a luz de Cristo, não podemos viver como se pertencêssemos às trevas.

Essa verdade confronta tanto a omissão quanto o exibicionismo. A luz não deve ser escondida, mas também não deve brilhar para glorificar a si mesma. O objetivo não é promover a imagem do discípulo, mas tornar visível a bondade do Pai.

3. “Assim brilhe também a vossa luz”

Jesus aplica a figura diretamente: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens”. A fé cristã não pode permanecer restrita à interioridade, como se não tivesse efeitos visíveis. Ela deve produzir obras concretas, perceptíveis e benéficas.

Tiago sintetiza essa verdade ao afirmar que a fé sem obras é morta (Tg 2.17). A luz escondida é inútil; da mesma forma, uma fé que não se expressa em obediência, amor, misericórdia, humildade, perdão e serviço torna-se contraditória em relação à sua própria confissão.

As boas obras, porém, não são o fundamento da salvação. Elas são fruto da graça. O discípulo não pratica boas obras para ser salvo, mas porque foi alcançado pela salvação em Cristo. A luz não cria a fonte; ela a manifesta.

Nesse sentido, Jesus não propõe uma espiritualidade inferior ou mediana. Ele não chama seus discípulos a uma religiosidade meramente formal, semelhante à dos escribas e fariseus, mas a uma vida transformada, na qual a justiça do Reino se torna visível. Amar mais, perdoar mais, servir mais, agir com mais humildade e misericórdia — tudo isso faz parte da luz que deve brilhar diante dos homens.

4. O propósito da luz: a glória do Pai

O objetivo final das boas obras não é a autopromoção do discípulo. Jesus é claro: “para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.16).

Aqui está uma diferença fundamental entre testemunho cristão e vaidade religiosa. Há obras praticadas para serem vistas e admiradas; Jesus condenará esse comportamento no mesmo Sermão do Monte (Mt 6.1). Mas há obras que, vistas pelos homens, conduzem à glorificação de Deus. A diferença está no propósito, no coração e na direção da glória.

O discípulo não deve viver escondido, mas também não deve viver para si. Sua luz deve apontar para o Pai. Quando a vida cristã é vivida com autenticidade, ela se torna sinal visível da graça de Deus. As pessoas não devem sair admiradas apenas com o caráter do discípulo, mas conduzidas a reconhecer a bondade, a santidade e a misericórdia do Pai celestial.

Aplicações vivenciais

1. Devemos permanecer conectados à verdadeira Luz

Não somos luz em nós mesmos. Somos portadores da luz de Cristo. Por isso, para que nossa luz brilhe continuamente, precisamos permanecer em comunhão com o Senhor. Separados dele, nossas obras perdem vigor, direção e sentido.

A vida devocional, a oração, a meditação nas Escrituras, a comunhão da Igreja e a obediência diária não são acessórios espirituais; são meios pelos quais permanecemos próximos daquele que é a verdadeira Luz.

2. Devemos iluminar onde Deus nos colocou

Jesus não diz que seus discípulos serão luz apenas em ambientes religiosos. Eles são luz do mundo. Isso inclui família, trabalho, escola, universidade, vizinhança, sociedade, vida pública e relações cotidianas.

Onde quer que estejamos, devemos manifestar a luz de Cristo. Pequenos gestos de misericórdia, palavras de verdade, atitudes de humildade, perdão sincero, serviço discreto e fidelidade constante podem iluminar ambientes marcados por confusão, egoísmo e pecado.

O Rev. Cyro de Oliveira costumava dizer que desejava viver como uma vela, iluminando até o último minuto de sua vida. Essa imagem expressa bem a vocação cristã: não viver para si mesmo, mas consumir-se em serviço a Deus e ao próximo.

3. Devemos evitar tanto a omissão quanto a ostentação

A luz escondida não cumpre sua função. Mas a luz usada para autopromoção também trai seu propósito. O discípulo de Jesus deve evitar esses dois extremos.

Quando nos calamos diante da injustiça, escondemos a luz. Quando disfarçamos nossa fé por medo de rejeição, escondemos a luz. Quando vivemos como se Cristo não fosse Senhor de todas as áreas da vida, escondemos a luz.

Por outro lado, quando usamos boas obras para construir reputação religiosa, deixamos de apontar para o Pai e passamos a apontar para nós mesmos. A verdadeira luz cristã é visível, mas humilde; pública, mas sem vaidade; firme, mas cheia de graça.

Conclusão

A pequena parábola da luz do mundo ensina que os discípulos de Jesus possuem uma identidade e uma missão. Eles são luz porque pertencem àquele que é a verdadeira Luz. Eles brilham não para serem admirados, mas para que o Pai seja glorificado.

Em uma sociedade marcada por trevas, confusão e pecado, a Igreja é chamada a viver de modo visível, fiel e gracioso. A luz de Cristo deve aparecer em nossas palavras, escolhas, atitudes e obras.

A pergunta final permanece diante de nós: temos sido, de fato e de verdade, luz nesta sociedade?

Que o Senhor nos conceda graça para vivermos brilhando por Jesus, até o último instante de nossa caminhada.


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
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http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

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Referências bibliográficas

GUEDES, Ivan Pereira. Parábolas de Jesus — Introdução. Reflexão Bíblica, 2 dez. 2016. Disponível em: http://reflexaoipg.blogspot.com/2016/12/parabolas-de-jesus-introducao.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

GUEDES, Ivan Pereira. Parábolas: uma ordem cronológica. Reflexão Bíblica, 2 jun. 2017. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2017/06/parabolas-uma-ordem-cronologica.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

JEREMIAS, Joachim. As parábolas de Jesus. São Paulo: Paulus, 2007.

SNODGRASS, Klyne. Compreendendo todas as parábolas de Jesus: guia completo. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.