Parábola: Vinho novo em odres velhos
Referências bíblicas: Mateus 9.17; Marcos 2.22; Lucas 5.37-39
Ponto central: Jesus não faz reciclagem; ele faz coisas novas.
Contexto no ministério de Jesus: pouco depois do encarceramento de João
Batista pelo rei Herodes Antipas, pois os interlocutores são discípulos do
Batista, e não há referência de que João já tivesse sido decapitado.
Motivo da parábola: Jesus é questionado sobre a razão pela qual seus
discípulos não cultivam a prática do jejum como faziam os fariseus e os
próprios discípulos de João Batista.
Peculiaridade: poucas parábolas são registradas pelos três evangelistas
sinóticos. O mais comum é que apareçam em dois Evangelhos ou em apenas um
deles. Embora seja provável que a narrativa de Marcos tenha sido a primeira a
circular entre as comunidades cristãs, nesta série seguimos a organização
canônica estabelecida em nossas Bíblias, partindo de Mateus para Marcos e
Lucas.
“Nem
se deita vinho novo em odres velhos; do contrário, se rebentam, derrama-se o
vinho, e os odres se perdem; mas deita-se vinho novo em odres novos, e assim
ambos se conservam” (Mt 9.17).
“E
quem usaria odres velhos para guardar vinho novo? Pois os odres velhos
arrebentariam com a pressão, o vinho se derramaria e os odres se estragariam.
Para guardar vinho novo só se usam odres novos. Desta maneira, ambos são
conservados juntos” (paráfrase).
Observações iniciais
Esta
parábola deve ser lida em conexão direta com a anterior: “Pano novo em roupa
velha”. As duas aparecem no mesmo contexto e funcionam como parábolas
paralelas. Ambas respondem à pergunta feita a Jesus sobre o jejum e ambas
apontam para a mesma verdade central: o Evangelho não é um remendo religioso
nem uma adaptação superficial do antigo sistema; em Cristo, Deus inaugura uma
nova realidade [GUEDES, 2022].
A
sequência adotada nesta série segue a proposta cronológica anteriormente
apresentada no blog, sempre com a ressalva de que tal ordem funciona como
roteiro didático, e não como solução definitiva para todos os problemas
cronológicos das narrativas evangélicas [GUEDES, 2017].
Como
indicado na introdução geral da série, as parábolas de Jesus devem ser lidas
como instrumentos didáticos pelos quais ele comunica verdades espirituais
profundas por meio de imagens retiradas da vida comum [GUEDES, 2016]. Nesse
caso, a imagem dos odres e do vinho remete a uma experiência conhecida dos
ouvintes: o vinho novo, ainda em processo de fermentação, precisava ser
colocado em recipientes capazes de suportar sua expansão.
Os
odres eram feitos de peles de animais, geralmente de cabras, costuradas e
preparadas para armazenar líquidos como água, leite e vinho. Quando novos,
tinham elasticidade suficiente para acompanhar a pressão produzida pelo vinho
em fermentação. Quando velhos, tornavam-se ressecados, rígidos e quebradiços.
Colocar vinho novo em odres velhos significava perder tanto o vinho quanto os
odres.
Essa
pequena imagem doméstica e rural se transforma, nos lábios de Jesus, em uma
afirmação poderosa sobre a novidade do Reino. Joachim Jeremias destaca que as
parábolas de Jesus devem ser compreendidas no horizonte da proclamação do Reino
de Deus; não são histórias neutras, mas anúncios que revelam a ação decisiva de
Deus em Cristo [JEREMIAS, 2007].
Exposição textual: Mateus 9.17
Para
compreender melhor Mateus 9.17, é necessário ler também a parábola que a
antecede, em Mateus 9.16. Jesus acabou de responder à questão sobre o jejum
usando a figura do remendo novo em roupa velha. Em seguida, utiliza outra
imagem, igualmente simples e cotidiana: o vinho novo e os odres velhos.
Como
sempre, Jesus surpreende seus inquisidores por meio de uma resposta que desloca
a discussão do nível meramente ritual para uma questão muito mais profunda. A
pergunta inicial era sobre a prática do jejum; a resposta de Jesus trata da
chegada de uma nova realidade inaugurada por sua presença.
O
Evangelho que Jesus anuncia não é uma simples continuação do ensino produzido
pelo judaísmo rabínico de seus dias, especialmente aquele defendido pelos
fariseus e escribas e sancionado pelas autoridades religiosas do Templo.
Enquanto esse sistema estava fortemente marcado por tradições orais acumuladas
ao longo dos séculos, o Evangelho anunciado por Jesus resgata o projeto
original de Deus, revelado nas Escrituras e cumprido em sua própria pessoa.
Uma
das características da narrativa de Mateus é sua forte relação com leitores
judeus ou judeu-cristãos. Por isso, o pano de fundo da Torá e das promessas
messiânicas torna-se especialmente evidente. Mateus apresenta Jesus não como
alguém que despreza a Lei, mas como aquele que a cumpre em plenitude.
Na
pequena parábola, os odres velhos representam estruturas religiosas incapazes
de receber a novidade do Evangelho. Eles simbolizam o judaísmo ritualista e
legalista quando endurecido por regras, tradições e resistências humanas. O
vinho novo representa o Evangelho da graça, a nova realidade inaugurada por
Jesus, pela qual o ser humano passa a se relacionar com Deus não por meio da
autossuficiência religiosa, mas pela fé no Filho.
Jesus
deixa claro que os velhos odres do legalismo não poderiam conter o vinho novo
da graça. A tentativa de misturar legalismo e graça produz perda. O vinho se
derrama, os odres se rompem e nada permanece íntegro. O novo vinho de Jesus
exige odres novos: uma nova comunidade, formada por judeus e gentios
reconciliados em um só corpo (Ef 2.16; Gl 3.28-29).
Essa
leitura está em harmonia com a interpretação de Klyne Snodgrass, para quem as
parábolas não devem ser tratadas como ilustrações ornamentais, mas como
narrativas que confrontam o ouvinte e exigem resposta diante da ação de Deus
revelada em Jesus [SNODGRASS, 2012]. A parábola dos odres exige justamente essa
decisão: permanecer agarrado ao velho recipiente da autossuficiência religiosa
ou receber, em fé, o vinho novo do Evangelho.
Exposição textual: Marcos 2.22
Na
narrativa de Marcos, a parábola mantém o mesmo sentido fundamental, mas aparece
de forma mais concisa e vigorosa. Jesus declara que ninguém põe vinho novo em
odres velhos; se o fizer, o vinho rompe os odres, o vinho se perde e os odres
também. Vinho novo deve ser colocado em odres novos.
Jesus
frustra, com isso, qualquer tentativa de reduzir o Evangelho a uma mistura
religiosa. O Evangelho de Jesus não é uma composição feita de elementos antigos
e novos, nem uma acomodação entre a graça de Deus e os sistemas humanos de
justificação. Ele é algo único, novo e incompatível com toda estrutura
religiosa que pretenda domesticar a ação de Deus.
Assim
como o vinho novo não podia ser colocado em odres velhos, pois sua fermentação
os romperia, o Evangelho não pode ser contido por estruturas rígidas de
legalismo, orgulho espiritual e autossalvação. Quando a graça se manifesta, ela
rompe os invólucros da religião endurecida.
Pedro,
em seu primeiro sermão após o Pentecostes, deixa claro aos ouvintes judeus que
o Cristo ressurreto é o único nome pelo qual importa que sejamos salvos (At
4.12). Para Pedro e para os demais escritores do Novo Testamento, a salvação
realizada por Cristo não é um reparo parcial em uma velha criação, mas o início
de uma nova criação (2Co 5.17).
O
objetivo desta parábola é o mesmo da anterior. Era inadequado que os discípulos
jejuassem naquele momento, enquanto Jesus estava com eles, assim como seria
inadequado colocar vinho novo em odres velhos. A presença do Noivo inaugurava
um tempo de alegria, cumprimento e esperança.
Se
as mentes dos fariseus e de alguns discípulos de João permanecessem endurecidas
e inflexíveis, seriam incapazes de receber e conter os ensinamentos de Jesus. O
problema não estava no vinho novo, mas nos odres ressecados. O Evangelho não
falha; quem se rompe é o recipiente incapaz de suportar a força da graça.
Os
acontecimentos da paixão revelam tragicamente essa verdade. As velhas mentes e
os corações endurecidos rebentam em ira e violência contra Jesus e contra suas
boas-novas de salvação. Os gritos por Barrabás e contra Jesus mostram uma
sociedade petrificada pelo pecado, preferindo o velho ao novo, a violência à
graça, a tradição morta à vida que procede de Deus.
Esse
grito ainda ecoa na sociedade contemporânea. O ser humano continua resistindo à
novidade do Evangelho quando prefere permanecer preso aos velhos hábitos, aos
velhos pecados e às velhas formas de autossuficiência.
Exposição textual: Lucas 5.37-39
Lucas
preserva o mesmo contexto: a pergunta sobre o jejum. Tanto os discípulos de
João Batista quanto os fariseus demonstram dificuldade para compreender que a
chegada de Jesus inaugura uma nova realidade no relacionamento com Deus. As
cerimônias e jejuns tradicionais haviam cumprido sua função como sinais
preparatórios, mas não podiam ocupar o lugar daquele para quem apontavam.
Jesus
compara sua presença à chegada do noivo para a festa de casamento. Em tempo de
alegria, ninguém pensa em jejuar. Enquanto o Noivo estava com seus discípulos,
não era tempo de lamento, mas de celebração. Haveria, contudo, um tempo em que
o Noivo lhes seria tirado; então jejuariam por causa da dor da separação. Mas
essa tristeza seria transformada em alegria pela ressurreição vitoriosa de
Jesus.
Em
seguida, Jesus deixa claro que ele não veio reparar, melhorar ou atualizar o
judaísmo de sua época. O problema não estava na Lei de Deus em si, mas no
sistema religioso que se tornara ressecado, pesado e incapaz de reconhecer o
cumprimento das promessas em Cristo. O judaísmo legalista era como roupa velha
que não podia ser remendada e como odre velho que não podia suportar a pressão
do vinho novo.
Os
acontecimentos da paixão e os gritos finais da multidão, fomentados pelas
autoridades religiosas, revelam de maneira clara que muitos preferiram a antiga
religião ressequida ao Evangelho novo proposto por Jesus.
Lucas
acrescenta uma frase exclusiva e profundamente reveladora: “E ninguém, tendo
bebido o velho, prefere o novo; porque diz: O velho é melhor” (Lc 5.39). Essas
palavras explicam a resistência humana ao Evangelho. O problema não é apenas
intelectual; é também afetivo, moral e espiritual. O coração caído habitua-se
ao velho e passa a considerá-lo mais agradável.
A
palavra traduzida por “melhor” indica aquilo que parece mais agradável ao
paladar. Essa é a inclinação do ser humano desde a queda: preferir o conhecido,
ainda que escravizador, ao novo de Deus, ainda que libertador. O diálogo de
Jesus com Nicodemos esclarece essa questão. Nicodemos era um religioso
exemplar, moralmente respeitado e conhecedor das Escrituras, mas ainda
precisava ouvir de Jesus: “É necessário nascer de novo” (Jo 3.7).
A
solução apresentada por Jesus continua a mesma para os “Nicodemos” de todos os
tempos: não basta reformar a vida antiga; é necessário nascer de novo, da água
e do Espírito (Jo 3.5). O apóstolo Paulo aplica essa verdade afirmando que
estar em Cristo é participar da nova criação: “As coisas antigas já passaram;
eis que se fizeram novas” (2Co 5.17).
Não
há espaço para tentar preservar as coisas velhas como se ainda fossem capazes
de produzir vida. Elas já passaram do prazo de validade espiritual. Em Cristo,
Deus não apenas melhora o velho; ele faz tudo novo.
Aplicação prática
1. Deus trabalha com odres novos
Deus
trabalha com odres novos. Quando vivemos em novidade de vida, o Espírito Santo
continua sendo derramado sobre a Igreja, conduzindo-nos à vontade de Deus e
realizando sua obra em nós e por meio de nós.
O
Evangelho não foi dado para ser armazenado em estruturas rígidas de orgulho,
legalismo ou aparência religiosa. Ele exige corações renovados, quebrantados e
sensíveis à ação do Espírito Santo.
2. A genuína vida cristã é dinâmica e renovadora
A
vida cristã genuína é dinâmica, porque nasce da ação renovadora de Deus. Esse
era o entendimento do apóstolo Paulo ao declarar: “Eis que tudo se fez novo”
(2Co 5.17). Todo aquele que nasce de novo passa a ter novos olhares, novos
motivos, novos princípios, novos desejos e novos planos de vida.
A
conversão não é apenas uma mudança de religião. É uma mudança de criação. O
convertido busca novos propósitos e vive para um novo fim: tornar-se cada dia
mais semelhante ao seu Senhor e Salvador Jesus Cristo.
3. O Evangelho não deve ser domesticado por nossas velhas
estruturas
Há
sempre o perigo de tentar colocar o vinho novo do Evangelho dentro dos odres
velhos de nossas preferências, tradições, hábitos e seguranças humanas. Podemos
fazer isso quando reduzimos a fé cristã a costume religioso, quando confundimos
piedade com legalismo ou quando tentamos preservar pecados antigos sob
linguagem religiosa.
Mas
o Evangelho não se acomoda a essas estruturas. Ele as rompe. A graça de Deus
não apenas consola; ela também confronta, transforma e cria uma nova realidade.
Conclusão
A
parábola do vinho novo em odres velhos ensina que o Evangelho de Jesus não pode
ser reduzido a um remendo do passado nem colocado dentro das velhas estruturas
da autossuficiência religiosa. Cristo não veio apenas melhorar aquilo que
estava desgastado; ele veio inaugurar uma nova criação.
A
pergunta decisiva permanece diante de nós: queremos apenas conservar os velhos
odres ou estamos dispostos a receber o vinho novo do Evangelho?
Ouçamos
as palavras de Jesus glorificado e assentado no trono:
“Eis
que faço novas todas as coisas” (Ap 21.5).
Utilização livre, desde que citada a fonte.
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro blog:
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

Colabore
para continuidade deste trabalho
Referências bibliográficas
GUEDES,
Ivan Pereira. Parábolas de Jesus — Introdução. Reflexão Bíblica,
2 dez. 2016. Disponível em: http://reflexaoipg.blogspot.com/2016/12/parabolas-de-jesus-introducao.html.
Acesso em: 28 abr. 2026.
GUEDES,
Ivan Pereira. Parábolas: uma ordem cronológica. Reflexão Bíblica,
2 jun. 2017. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2017/06/parabolas-uma-ordem-cronologica.html.
Acesso em: 28 abr. 2026.
GUEDES,
Ivan Pereira. Parábolas em Ordem Cronológica: Pano novo em roupa velha. Reflexão
Bíblica, 25 mar. 2022. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2022/03/parabolas-em-ordem-cronologica-pano.html.
Acesso em: 28 abr. 2026.
GUEDES,
Ivan Pereira. Parábolas em Ordem Cronológica: Vinho novo em Odres Velhos.
Reflexão Bíblica, 3 nov. 2023. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2023/11/parabolas-em-ordem-cronologica-vinho.html.
Acesso em: 28 abr. 2026.
JEREMIAS,
Joachim. As parábolas de Jesus. São Paulo: Paulus, 2007.
SNODGRASS,
Klyne. Compreendendo todas as parábolas de Jesus: guia completo. Rio de
Janeiro: CPAD, 2012.