segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Livros Históricos (Reis/Crônicas) em Relação ao nosso Vivencial Cotidiano


REIS DE JUDA                          1 & 2 REIS                       2 CRÔNICAS

Salomão                           1 Reis 2.12–11.43             1.1–9.31

Roboão                            1 Reis 12.1–24; 14.21–31 10.1–12.16

Abias (Abijam)                            1 Reis 15.1–8                             13.1–22

Asa                                  1 Reis 15.9–24                           14.1–16.14

Josafá                                        1 Reis 22.2–50                           17.1–20.37

Jeorão (Joram)                           2 Reis 8.16–24                           21.1–20

Acazias                                     2 Reis 8.25–29; 9.27–29   22.1–9

Atalia                               2 Reis 11.1–16                           22.10–23.15

Joás (Joash)                    2 Reis 11.2–12.21             23.1–24.27

Amazias                           2 Reis 14.1–14, 17–20                25.1–28

Amazias (Uzziah)              2 Reis 14.21–22; 15.1–7   26.1–23

Jotão                                2 Reis 15.32–38               27.1–9

Acaz                                2 Reis 16.1–20                           28.1–27 (Is 7.1–25

Ezequias                          2 Reis 18.1–20.21            29.1–32.33 Isa. 36.1–39.8

Manassés                        2 Reis 21.1–18                           33.1–20

Amom                                        2 Reis 21.19–26               33.21–25

Josias                                        2 Reis 22.1–23.30             34.1–35.27

Jeoacaz                           2 Reis 23.31–34               36.1–4

Jeoaquim (Eliaquim)                   2 Reis 23.34–24.7            36.5–8 Jer. 25.1–26.24; 36.1–32

Joaquim (Jeconias)                     2 Reis 24.8–16; 25.27–30 36.9, 10 Jer. 52.31–34

Zedequias (Matanias)                 2 Reis 24.17–25.21                     36.11–21 Jer. 32.1–34.2

Uma característica dos registros em Reis e Crônicas é de que as informações incluídas pelo escritor têm razões teológicas ilustrada na pequena nota, como se fosse um marcador de texto, afirmando que o rei "fez o bem" ou "fez o mal" aos olhos do Senhor.

Aspectos Teológicos

Justamente por causa da percepção e motivação teológica os livros de Reis e Crônicas contém e ilustram verdades bíblicas fundamentais, tais como.

Deus é soberano sobre pessoas e nações (1 Reis 11.29-39; 13.1-4; 16.1-4; 20,13; 22,28-36; 2 Reis 5,1; 17,7-41).

Deus é soberano sobre as forças da natureza (1 Reis 8.35-40; 17.1; 2 Reis 4.32-37).

Deus é fiel ao Seu povo e às Suas promessas (1 Reis 8,15-26; 11,31-36; 15.3-5; 2 Reis 19.32-37).

Deus requer que o seu povo seja fiel aos termos da Aliança (1 Reis 2.1-4; 2 Reis 23.3).

O julgamento é inevitável para aqueles que se voltam contra Deus (2 Reis 17.1-41; 21.10-15; 23.27).

Mas por causa de Seu nome, Deus é continuamente gracioso para com o Seu povo (1 Reis 11.34-39; 15.4, 5; 17.16; 2 Reis 13.22, 23; 14.26, 27; 25.27-30).

Seguindo o conceito estabelecido nas literaturas anteriores de Josué, Juízes, e 1 e 2 Samuel, os registros de Reis e Crônicas baseiam-se no conceito de aliança. A aliança que Deus tinha estabelecido com os filhos de Israel no Monte Sinai (link com as literaturas do Pentateuco), unia-O e ao Seu povo numa relação estreita (Êxodo 19.5, 6). Israel foi escolhido por Deus para viver numa terra que Ele tinha especialmente preparada para eles. O que Deus sempre deixou claro é que eles deveriam serem fiéis em sua adoração e obediência somente a Ele – dessa exclusividade Deus nunca abriu mão. Esse foi o fiel da balança pelo qual cada rei e seu governo foram julgados - se não o fizessem, não só deixariam de ser prósperos e bem-sucedidos, mas também Deus permitiria que fossem expulsos da sua terra.

Relação com os dias atuais

Embora os livros de Reis/Crônicas registrem pormenores da história de Israel que aconteceram há quase três mil anos, é evidente que o seu pressuposto teológico continua sendo extremamente relevante para os nossos dias. Nestas páginas históricas se revelam a concretização das promessas de Deus na vida quotidiana. Ao lermos cuidadosamente estes registros podemos aprender princípios para estruturar uma vida, família e negócios (trabalho).

É preciso ter bom senso e discernimento para compreendermos que as bênçãos ou juízos (chamados "maldições" em Dt 28.15-68) muitas vezes não caem imediatamente sobre o povo de Deus. Todo crente em todas as épocas, como podemos ler nos Salmos, pergunta muitas vezes porque é que coisas más (incluindo catástrofes) acontecem na vida do crente. Uma resposta ilustrada nas narrativas de Reis/Crônicas é que com o passar do tempo e gerações o crente acaba se distanciando da Palavra de Deus e seu padrão (Jesus chama de “primeiro amor” no Apocalipse), de forma que lenta e paulatinamente a vida cristã decaí e o pecado prevalece em várias áreas da vida cotidiana. O resultado ao longo do tempo é que o “brilho do rosto”, como ocorreu com Moisés, se desvanece e a genuína espiritualidade e bênçãos se transformam em mera religiosidade estéril, assim como a figueira que tinha apenas folhagem, mas não produzia frutos. O alerta destas literaturas históricas é: os reis e o povo partilham a responsabilidade das suas próprias ações.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Referências Bibliográficas
BRIGTH, Jonh. História de Israel. 7ª. ed. São Paulo: Paulus, 2003.
CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 2006, 8ª ed.
DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995.
FRANCISCO, Clyde T. Introdução ao Velho Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1969.
GARDNER, Paul (Editor). Quem é quem na bíblia sagrada – a história de todos os personagens da bíblia. Tradução de Josué Ribeiro. São Paulo: Vida, 1999.
HOFF, Paul. Os livros históricos. São Paulo: Vida, 1996.
TENNEY, Merrill C. (Org.). Enciclopédia da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 


sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Parábolas em Ordem Cronológica: Vinho novo em odres velhos [reeditado]


Parábola: Vinho novo em odres velhos

Referências bíblicas: Mateus 9.17; Marcos 2.22; Lucas 5.37-39
Ponto central: Jesus não faz reciclagem; ele faz coisas novas.
Contexto no ministério de Jesus: pouco depois do encarceramento de João Batista pelo rei Herodes Antipas, pois os interlocutores são discípulos do Batista, e não há referência de que João já tivesse sido decapitado.
Motivo da parábola: Jesus é questionado sobre a razão pela qual seus discípulos não cultivam a prática do jejum como faziam os fariseus e os próprios discípulos de João Batista.
Peculiaridade: poucas parábolas são registradas pelos três evangelistas sinóticos. O mais comum é que apareçam em dois Evangelhos ou em apenas um deles. Embora seja provável que a narrativa de Marcos tenha sido a primeira a circular entre as comunidades cristãs, nesta série seguimos a organização canônica estabelecida em nossas Bíblias, partindo de Mateus para Marcos e Lucas.

“Nem se deita vinho novo em odres velhos; do contrário, se rebentam, derrama-se o vinho, e os odres se perdem; mas deita-se vinho novo em odres novos, e assim ambos se conservam” (Mt 9.17).

“E quem usaria odres velhos para guardar vinho novo? Pois os odres velhos arrebentariam com a pressão, o vinho se derramaria e os odres se estragariam. Para guardar vinho novo só se usam odres novos. Desta maneira, ambos são conservados juntos” (paráfrase).

Observações iniciais

Esta parábola deve ser lida em conexão direta com a anterior: “Pano novo em roupa velha”. As duas aparecem no mesmo contexto e funcionam como parábolas paralelas. Ambas respondem à pergunta feita a Jesus sobre o jejum e ambas apontam para a mesma verdade central: o Evangelho não é um remendo religioso nem uma adaptação superficial do antigo sistema; em Cristo, Deus inaugura uma nova realidade [GUEDES, 2022].

A sequência adotada nesta série segue a proposta cronológica anteriormente apresentada no blog, sempre com a ressalva de que tal ordem funciona como roteiro didático, e não como solução definitiva para todos os problemas cronológicos das narrativas evangélicas [GUEDES, 2017].

Como indicado na introdução geral da série, as parábolas de Jesus devem ser lidas como instrumentos didáticos pelos quais ele comunica verdades espirituais profundas por meio de imagens retiradas da vida comum [GUEDES, 2016]. Nesse caso, a imagem dos odres e do vinho remete a uma experiência conhecida dos ouvintes: o vinho novo, ainda em processo de fermentação, precisava ser colocado em recipientes capazes de suportar sua expansão.

Os odres eram feitos de peles de animais, geralmente de cabras, costuradas e preparadas para armazenar líquidos como água, leite e vinho. Quando novos, tinham elasticidade suficiente para acompanhar a pressão produzida pelo vinho em fermentação. Quando velhos, tornavam-se ressecados, rígidos e quebradiços. Colocar vinho novo em odres velhos significava perder tanto o vinho quanto os odres.

Essa pequena imagem doméstica e rural se transforma, nos lábios de Jesus, em uma afirmação poderosa sobre a novidade do Reino. Joachim Jeremias destaca que as parábolas de Jesus devem ser compreendidas no horizonte da proclamação do Reino de Deus; não são histórias neutras, mas anúncios que revelam a ação decisiva de Deus em Cristo [JEREMIAS, 2007].

Exposição textual: Mateus 9.17

Para compreender melhor Mateus 9.17, é necessário ler também a parábola que a antecede, em Mateus 9.16. Jesus acabou de responder à questão sobre o jejum usando a figura do remendo novo em roupa velha. Em seguida, utiliza outra imagem, igualmente simples e cotidiana: o vinho novo e os odres velhos.

Como sempre, Jesus surpreende seus inquisidores por meio de uma resposta que desloca a discussão do nível meramente ritual para uma questão muito mais profunda. A pergunta inicial era sobre a prática do jejum; a resposta de Jesus trata da chegada de uma nova realidade inaugurada por sua presença.

O Evangelho que Jesus anuncia não é uma simples continuação do ensino produzido pelo judaísmo rabínico de seus dias, especialmente aquele defendido pelos fariseus e escribas e sancionado pelas autoridades religiosas do Templo. Enquanto esse sistema estava fortemente marcado por tradições orais acumuladas ao longo dos séculos, o Evangelho anunciado por Jesus resgata o projeto original de Deus, revelado nas Escrituras e cumprido em sua própria pessoa.

Uma das características da narrativa de Mateus é sua forte relação com leitores judeus ou judeu-cristãos. Por isso, o pano de fundo da Torá e das promessas messiânicas torna-se especialmente evidente. Mateus apresenta Jesus não como alguém que despreza a Lei, mas como aquele que a cumpre em plenitude.

Na pequena parábola, os odres velhos representam estruturas religiosas incapazes de receber a novidade do Evangelho. Eles simbolizam o judaísmo ritualista e legalista quando endurecido por regras, tradições e resistências humanas. O vinho novo representa o Evangelho da graça, a nova realidade inaugurada por Jesus, pela qual o ser humano passa a se relacionar com Deus não por meio da autossuficiência religiosa, mas pela fé no Filho.

Jesus deixa claro que os velhos odres do legalismo não poderiam conter o vinho novo da graça. A tentativa de misturar legalismo e graça produz perda. O vinho se derrama, os odres se rompem e nada permanece íntegro. O novo vinho de Jesus exige odres novos: uma nova comunidade, formada por judeus e gentios reconciliados em um só corpo (Ef 2.16; Gl 3.28-29).

Essa leitura está em harmonia com a interpretação de Klyne Snodgrass, para quem as parábolas não devem ser tratadas como ilustrações ornamentais, mas como narrativas que confrontam o ouvinte e exigem resposta diante da ação de Deus revelada em Jesus [SNODGRASS, 2012]. A parábola dos odres exige justamente essa decisão: permanecer agarrado ao velho recipiente da autossuficiência religiosa ou receber, em fé, o vinho novo do Evangelho.

Exposição textual: Marcos 2.22

Na narrativa de Marcos, a parábola mantém o mesmo sentido fundamental, mas aparece de forma mais concisa e vigorosa. Jesus declara que ninguém põe vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho rompe os odres, o vinho se perde e os odres também. Vinho novo deve ser colocado em odres novos.

Jesus frustra, com isso, qualquer tentativa de reduzir o Evangelho a uma mistura religiosa. O Evangelho de Jesus não é uma composição feita de elementos antigos e novos, nem uma acomodação entre a graça de Deus e os sistemas humanos de justificação. Ele é algo único, novo e incompatível com toda estrutura religiosa que pretenda domesticar a ação de Deus.

Assim como o vinho novo não podia ser colocado em odres velhos, pois sua fermentação os romperia, o Evangelho não pode ser contido por estruturas rígidas de legalismo, orgulho espiritual e autossalvação. Quando a graça se manifesta, ela rompe os invólucros da religião endurecida.

Pedro, em seu primeiro sermão após o Pentecostes, deixa claro aos ouvintes judeus que o Cristo ressurreto é o único nome pelo qual importa que sejamos salvos (At 4.12). Para Pedro e para os demais escritores do Novo Testamento, a salvação realizada por Cristo não é um reparo parcial em uma velha criação, mas o início de uma nova criação (2Co 5.17).

O objetivo desta parábola é o mesmo da anterior. Era inadequado que os discípulos jejuassem naquele momento, enquanto Jesus estava com eles, assim como seria inadequado colocar vinho novo em odres velhos. A presença do Noivo inaugurava um tempo de alegria, cumprimento e esperança.

Se as mentes dos fariseus e de alguns discípulos de João permanecessem endurecidas e inflexíveis, seriam incapazes de receber e conter os ensinamentos de Jesus. O problema não estava no vinho novo, mas nos odres ressecados. O Evangelho não falha; quem se rompe é o recipiente incapaz de suportar a força da graça.

Os acontecimentos da paixão revelam tragicamente essa verdade. As velhas mentes e os corações endurecidos rebentam em ira e violência contra Jesus e contra suas boas-novas de salvação. Os gritos por Barrabás e contra Jesus mostram uma sociedade petrificada pelo pecado, preferindo o velho ao novo, a violência à graça, a tradição morta à vida que procede de Deus.

Esse grito ainda ecoa na sociedade contemporânea. O ser humano continua resistindo à novidade do Evangelho quando prefere permanecer preso aos velhos hábitos, aos velhos pecados e às velhas formas de autossuficiência.

Exposição textual: Lucas 5.37-39

Lucas preserva o mesmo contexto: a pergunta sobre o jejum. Tanto os discípulos de João Batista quanto os fariseus demonstram dificuldade para compreender que a chegada de Jesus inaugura uma nova realidade no relacionamento com Deus. As cerimônias e jejuns tradicionais haviam cumprido sua função como sinais preparatórios, mas não podiam ocupar o lugar daquele para quem apontavam.

Jesus compara sua presença à chegada do noivo para a festa de casamento. Em tempo de alegria, ninguém pensa em jejuar. Enquanto o Noivo estava com seus discípulos, não era tempo de lamento, mas de celebração. Haveria, contudo, um tempo em que o Noivo lhes seria tirado; então jejuariam por causa da dor da separação. Mas essa tristeza seria transformada em alegria pela ressurreição vitoriosa de Jesus.

Em seguida, Jesus deixa claro que ele não veio reparar, melhorar ou atualizar o judaísmo de sua época. O problema não estava na Lei de Deus em si, mas no sistema religioso que se tornara ressecado, pesado e incapaz de reconhecer o cumprimento das promessas em Cristo. O judaísmo legalista era como roupa velha que não podia ser remendada e como odre velho que não podia suportar a pressão do vinho novo.

Os acontecimentos da paixão e os gritos finais da multidão, fomentados pelas autoridades religiosas, revelam de maneira clara que muitos preferiram a antiga religião ressequida ao Evangelho novo proposto por Jesus.

Lucas acrescenta uma frase exclusiva e profundamente reveladora: “E ninguém, tendo bebido o velho, prefere o novo; porque diz: O velho é melhor” (Lc 5.39). Essas palavras explicam a resistência humana ao Evangelho. O problema não é apenas intelectual; é também afetivo, moral e espiritual. O coração caído habitua-se ao velho e passa a considerá-lo mais agradável.

A palavra traduzida por “melhor” indica aquilo que parece mais agradável ao paladar. Essa é a inclinação do ser humano desde a queda: preferir o conhecido, ainda que escravizador, ao novo de Deus, ainda que libertador. O diálogo de Jesus com Nicodemos esclarece essa questão. Nicodemos era um religioso exemplar, moralmente respeitado e conhecedor das Escrituras, mas ainda precisava ouvir de Jesus: “É necessário nascer de novo” (Jo 3.7).

A solução apresentada por Jesus continua a mesma para os “Nicodemos” de todos os tempos: não basta reformar a vida antiga; é necessário nascer de novo, da água e do Espírito (Jo 3.5). O apóstolo Paulo aplica essa verdade afirmando que estar em Cristo é participar da nova criação: “As coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co 5.17).

Não há espaço para tentar preservar as coisas velhas como se ainda fossem capazes de produzir vida. Elas já passaram do prazo de validade espiritual. Em Cristo, Deus não apenas melhora o velho; ele faz tudo novo.

Aplicação prática

1. Deus trabalha com odres novos

Deus trabalha com odres novos. Quando vivemos em novidade de vida, o Espírito Santo continua sendo derramado sobre a Igreja, conduzindo-nos à vontade de Deus e realizando sua obra em nós e por meio de nós.

O Evangelho não foi dado para ser armazenado em estruturas rígidas de orgulho, legalismo ou aparência religiosa. Ele exige corações renovados, quebrantados e sensíveis à ação do Espírito Santo.

2. A genuína vida cristã é dinâmica e renovadora

A vida cristã genuína é dinâmica, porque nasce da ação renovadora de Deus. Esse era o entendimento do apóstolo Paulo ao declarar: “Eis que tudo se fez novo” (2Co 5.17). Todo aquele que nasce de novo passa a ter novos olhares, novos motivos, novos princípios, novos desejos e novos planos de vida.

A conversão não é apenas uma mudança de religião. É uma mudança de criação. O convertido busca novos propósitos e vive para um novo fim: tornar-se cada dia mais semelhante ao seu Senhor e Salvador Jesus Cristo.

3. O Evangelho não deve ser domesticado por nossas velhas estruturas

Há sempre o perigo de tentar colocar o vinho novo do Evangelho dentro dos odres velhos de nossas preferências, tradições, hábitos e seguranças humanas. Podemos fazer isso quando reduzimos a fé cristã a costume religioso, quando confundimos piedade com legalismo ou quando tentamos preservar pecados antigos sob linguagem religiosa.

Mas o Evangelho não se acomoda a essas estruturas. Ele as rompe. A graça de Deus não apenas consola; ela também confronta, transforma e cria uma nova realidade.

Conclusão

A parábola do vinho novo em odres velhos ensina que o Evangelho de Jesus não pode ser reduzido a um remendo do passado nem colocado dentro das velhas estruturas da autossuficiência religiosa. Cristo não veio apenas melhorar aquilo que estava desgastado; ele veio inaugurar uma nova criação.

A pergunta decisiva permanece diante de nós: queremos apenas conservar os velhos odres ou estamos dispostos a receber o vinho novo do Evangelho?

Ouçamos as palavras de Jesus glorificado e assentado no trono:

“Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21.5).

 

Utilização livre, desde que citada a fonte.

Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com

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 Referências bibliográficas

GUEDES, Ivan Pereira. Parábolas de Jesus — Introdução. Reflexão Bíblica, 2 dez. 2016. Disponível em: http://reflexaoipg.blogspot.com/2016/12/parabolas-de-jesus-introducao.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

GUEDES, Ivan Pereira. Parábolas: uma ordem cronológica. Reflexão Bíblica, 2 jun. 2017. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2017/06/parabolas-uma-ordem-cronologica.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

GUEDES, Ivan Pereira. Parábolas em Ordem Cronológica: Pano novo em roupa velha. Reflexão Bíblica, 25 mar. 2022. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2022/03/parabolas-em-ordem-cronologica-pano.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

GUEDES, Ivan Pereira. Parábolas em Ordem Cronológica: Vinho novo em Odres Velhos. Reflexão Bíblica, 3 nov. 2023. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2023/11/parabolas-em-ordem-cronologica-vinho.html. Acesso em: 28 abr. 2026.

JEREMIAS, Joachim. As parábolas de Jesus. São Paulo: Paulus, 2007.

SNODGRASS, Klyne. Compreendendo todas as parábolas de Jesus: guia completo. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.


quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Eclesiastes: Leitura Devocional (1.1-2)

 

1Palavras do pregador, filho de Davi, rei em Jerusalém.

דִּבְרֵי֙ קֹהֶ֣לֶת בֶּן־דָּוִ֔ד מֶ֖לֶךְ בִּירוּשָׁלִָֽם׃

2Vaidade de vaidades, diz o pregador vaidade de vaidades, tudo é vaidade.

הֲבֵ֤ל הֲבָלִים֙ אָמַ֣ר קֹהֶ֔לֶת הֲבֵ֥ל הֲבָלִ֖ים הַכֹּ֥ל הָֽבֶל׃

O Livro e seu Escritor

Estamos iniciando uma caminhada devocional. Vamos orar para que o Espírito Santo nos conduza à maturidade espiritual e nos abençoe com toda sorte de bênçãos espirituais em Cristo Jesus. Amém!

Numa época como a atual, o estudo deste livro parece ser particularmente apropriado. Nunca, talvez, em qualquer período anterior, este mundo tenha oferecido tantas seduções para fascinar as mentes das pessoas e afastar seus corações de Deus. As conquistas da ciência e as maravilhas da arte combinaram-se para revestir as coisas materiais e terrenas de encantos desconhecidos em tempos mais simples e rudes.

A modernidade dourou tanto o exterior das coisas que lhes conferiu um valor além da realidade nesta sociedade hedonista e materialista. O que importa é o aqui e agora, não sobrando espaço, na mente e no coração das pessoas, para qualquer reflexão sobre a eternidade.

O livro de Eclesiastes foi inserido pelo Espírito Santo no conjunto precioso das literaturas inspiradas — a Bíblia — justamente para servir de alerta aos seus leitores em todas as épocas. A inversão de valores, que troca o espiritual e eterno pelo material e finito, é correr atrás do vento.

Esta tem sido a maior e mais terrível ilusão dos séculos chamados modernidade e pós-modernidade. Na verdade, porém, essa tem sido a ilusão do ser humano desde a queda e seu afastamento de Deus no Jardim do Éden. O livro de Eclesiastes apenas atesta essa triste e mortífera realidade, estampada em múltiplas formas midiáticas.

Depois de quarenta dias de jejum e oração, preparando-se para iniciar seu ministério, Jesus foi tentado por Satanás. Na terceira e última tentação, o tentador levou Jesus para a mais alta das montanhas e ali lhe mostrou os mais poderosos reinos e seu esplendor, com suas riquezas e encantos. Então lhe disse: tudo isso lhe darei se você simplesmente se prostrar e me adorar.

Jesus lhe respondeu, como havia feito nas duas tentações anteriores, utilizando a Palavra de Deus: “Vai-te, Satanás, porque está escrito: ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás” (Mt 4.10).

Esta foi e continua sendo a tática de Satanás para atrair, iludir e destruir a vida de bilhões de pessoas em todos os séculos. A única forma de não cairmos nesse engodo mortífero é nos agarrarmos à Palavra de Deus, como Jesus Cristo nos ensina: está escrito!

Por isso o inferno trabalha vinte e quatro horas por dia e trezentos e sessenta e cinco dias por ano para desacreditar a Bíblia. Satanás sabe que somente na Palavra de Deus, e por meio dela, o ser humano pode resistir às suas tentações ilusionistas. Na mesma proporção em que o crente se afasta da Palavra de Deus, torna-se presa fácil das artimanhas de Satanás.

O livro de Eclesiastes é um perfeito alerta para todos aqueles que têm se afastado da Palavra de Deus e, por conseguinte, do próprio Deus da Palavra. Salomão havia vivido o suficiente para saber que a vida sem Deus, por mais rica e esplendorosa que possa ser, é um vazio, um vapor, uma completa e mortal ilusão.

O filho de Davi, rei de Jerusalém, é o Pregador — קהלת, Koheleth [1] —, cujas palavras somos convocados a ouvir. O termo hebraico pode indicar tanto aquele que reúne o povo quanto aquele que se dirige à assembleia reunida (GUEDES, 2022). Ele inicia seu texto colocando o dedo na ferida daqueles que escolhem viver alienados de Deus: “Vaidade das vaidades; vaidade das vaidades; tudo é vaidade” [2].

Esta frase funciona como uma moldura literária que abre o livro em Ec 1.2 e o fecha em Ec 12.8. O termo hebraico hebel, frequentemente traduzido por “vaidade”, também comunica as ideias de absurdo, frustração, futilidade, ausência de sentido, vazio, vapor e transitoriedade (GUEDES, 2022).

Eclesiastes advertirá, no transcorrer de todo o livro, sobre o absurdo de uma vida sem Deus no centro. O Pregador demonstra, na prática, que absolutamente nada neste mundo pode preencher o vazio da alma humana — nem riquezas, nem prazeres, nem realizações, nem qualquer outro bem criado.

Mas quero concluir com duas palavras preciosas.

Jesus Cristo declara: “Eu vim para que tenham vida, e para que a tenham em abundância” (Jo 10.10).

Paulo escreve: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e inabaláveis, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor” (1Co 15.58).

Oremos!

Senhor, queremos declarar que te amamos!

Que a nossa vida somente encontra real significado e sentido em ti.

Que o Espírito Santo permeie a nossa mente e o nosso coração com a tua Palavra, de tal maneira que os nossos olhos e ouvidos não sejam atraídos pelas propostas ilusórias de Satanás, como ocorreu com nossos primeiros pais.

Em nome de Jesus é que oramos. Amém!

Notas de rodapé

[1] A palavra hebraica קהלת, aqui usada, pode significar a pessoa que reúne o povo, ou a pessoa que se dirige a ele quando reunido.

[2] “Vaidade” aparece 22 vezes em 16 versos: Ec 1.2, 14; 2.11, 15, 19, 21, 23, 26; 3.19; 4.4, 7-8, 16; 5.10; 6.2; 12.8.

 

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Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

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Referências bibliográficas

GUEDES, Ivan Pereira. Eclesiastes - Introdução ao Livro. Reflexão Bíblica, 3 dez. 2022. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2022/12/eclesiastes-introducao-ao-livro.html. Acesso em: 30 abr. 2026.

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