quarta-feira, 1 de junho de 2016

Livros Poéticos e Sabedoria - Tempo da Autoria

Quando os salmos foram escritos? Esta questão tem sido amplamente debatida nos meios acadêmicos. [1]
O Cânon dos livros do Primeiro Testamento fechou-se com o ministério de Malaquias, o último dos profetas. O Talmud[2] observa: “Depois dos profetas posteriores Ageu, Zacarias, e Malaquias, foi que o Espírito Santo partiu de Israel”. Consequentemente qualquer livro que foi escrito depois das 400 a.C. não pode ser considerado como parte do Cânon da primeira parte da Bíblia Judaica/Cristã. Esta é uma das razões pelos quais os chamados livros Apócrifos, que foram escritos depois de 400 a.C., não foram incorporados nas atuais bíblias judaicas e cristãs protestante.
Porém, os críticos modernos designaram datas mais recentes para todos os livros Poéticos do Primeiro Testamento, fazendo a suposição de que o Cânon dos livros da terceira divisão (os Escritos) só foram consolidados no Conselho de Jânia (Jabne)[3] em 90 d.C. Qualquer livro achado nesta divisão, dizem eles, não foram escritos e incorporados antes de 200 a.C.
Seus argumentos são:
(a) O livro de Jó é indicado como tendo sido escrito sua maior parte, provavelmente ao redor de 605-580 a.C. e a sua forma final apenas em aproximadamente 200 a.C. É reivindicado que a alta freqüência de palavras emprestadas do aramaico e o nível alto de puro monoteísmo refletido no livro indicam uma data de composição pós-exílica.
(b) Um grande número dos Salmos é colocado pelos críticos liberais, dentro do período pós-exílico (depois de 536 a.C.) e até mesmo durante o período dos Macabeus (entre 200 - 165 a.C.).[4] É reivindicada que a presença de aramaísmo em alguns salmos é evidência de uma data recente.
(c) de acordo com Eissfeldt o livro de Provérbios reflete uma forte influência grega e deste modo, não poderia ter surgido antes do 4º século a.C.[5]
(d) Muitos acreditam que o livro de Eclesiastes foi escrito aproximadamente em 200 a.C., uma vez que deduzem sinais inconfundíveis de influência grega e semelhança com o Mishná [6]. Outros preferem colocá-lo tão tarde quanto 100 a.C. e Graetz [7]  considera o livro como pertencendo ao tempo de Herodes, o  Grande.
(e) É discutido que Cantares, como temos, tem que vir do 3º século a.C. por causa da presença de certas palavras de empréstimo.
(f) Os Críticos apoiam (d) e (e) citando certas referências dentro do Talmud sobre as questões levantadas no Conselho de Jânia relativo a canonicidade de Ester, Eclesiastes e Cantares.

Em resposta a toda esta pesada argumentação é preciso declarar que:
(a) Os argumentos lingüísticos para recentes datas dos livros poéticos demonstram serem limitados em seus efeitos.
(i) A presença de aramaísmo não significa uma composição tardia. Aramaico mais antigo é encontrado em inscrições do primeiro milênio a.C., e já estava em uso nos contatos comerciais dos povos sírios (cf.  Gen 31:47).
(ii) O comércio extenso que Israel desfrutara durante o tempo de Salomão, explica a inclusão de termos persas e palavras emprestadas do grego nos livros Poéticos.
(b) As teorias dos críticos modernos (como lançar Salmos no período dos Macabeus e enfatizar a influência grega) demonstram-se realmente subjetivo e extravagante (como tão bem coloca Young em seu comentário).[8]
(c) Fragmentos de todos os livros Poéticos foram achados entre os chamados Rolos do Mar Morto que são datados aos 1º e 2º séculos a.C.
(i) Isto indica que estes livros foram escritos antes de 200 a.C.
(ii) Os Rolos do Mar Morto também revelam que não havia nenhuma diferença relevante na organização dos livros e suas divisões no Cânon do Primeiro Testamento.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

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[1]. Este assunto é exaurido no amplo trabalho de Harris, da qual fazemos apenas uma adaptação sucinta: HARRIS, R. Laird. Inspiration and Canonicity of The Bible. Michigan, ed. Zondervan Publishing House, 1969.
[2] É o “corpus Juris”, o código básico da lei civil e canônica do judaísmo pós-biblico. A palavra Talmud é derivação da raiz hebraica Lamod (estudo), e uma abreviatura de Talmud Torá (estudo da Torá).
[3] “Havia uma escola rabínica em Jabne (cidade próxima à costa mediterrânea ocidental, um pouco ao norte de Jerusalém) que assumiu os poderes legislativos do Sinédrio após a queda de Jerusalém em 70 d.C.” LASOR, William S. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: ed. Vida Nova, 1999 [p.653].
[4] Em consideração aos Salmos Wellhausen diz: "Desde que o Saltério é o livro de hinos da congregação do Segundo Templo, a pergunta não é se há ou contém qualquer salmo pós-exílio, mas se existe ou contém qualquer salmo pré-exilio" (Bleek's "Introduction", ed. 1876, p. 507). Hitzig ("Begriff der Kritik", 1831) avalia que os Livros III-V estão inteiramente no período dos Macabeus (168-135 a.C.). Olshausen ("Die Psalmen", 1853) coloca muitos dos salmos no período da dinastia Hasmonean, no reinado de John Hyrcanus I (Sumo Sacerdote e governante da nação Judaica de 135/134 até 104 a.C. Sob seu reinado, a dinastia Hasmoneana da Judéia, na Palestina antiga, atingiu poder e grande prosperidade, e os Fariseus ganharam apoio popular, e os Saduceus, uma seita aristocrática e sacerdotal, definiu com clareza as Festas religiosas). Duhm ("Die Psalmen", 1899, p. xxi-xxiii) admite muitos poucos salmos pre-macabeus e consigna os Salmos ii, xx, xxi, lxi, lxiii, lxxii, lxxxiv (e ) cxxxii [ii, xix, lx, lxii, lxxi, lxxxiii (e) cxxxi] aos reinados de Aristobulus I (105-104 a.C.) e seu irmão Alexander Jannaus (104-79 a.C.); de modo que o Cânon do Saltério não foi fechado até 70 a.C. Entretanto, os argumentos apresentados por todos eles é em sua maioria muito frágeis.
[5] EISSFELDT, Otto. The Old Testament: An Introduction. Trans. P.R. Ackroyd. London: Harper & Row, 1965. Pbk. pp.861.
[6] Mishná deriva do verbo “shano” (estudar), e ao mesmo tempo do número “shnaim” (dois). Como parte constitutiva do Talmud, a Mishná é o conjunto das decisões, doutrinas e leis religiosas que têm como base a Torá e que, por sua vez, serve como base para a Guemara. Assim como a Bíblia é o objeto da Mishná, essa é o objeto para a interpretação talmúdica, a Guemara. Abrange um período de quase 400 anos.
[7] GRAETZ, Heinrich, um historiador judeu adiante dos tempos modernos, nasceu em Posen em 1817 e morreu em Munique em 1891. Graetz atingiu reputação considerável como crítico bíblico. Ele foi autor de muitas conjecturas corajosas sobre a data de Rute, Eclesiastes, Ester e outros livros bíblicos. A edição crítica dele dos Salmos (1882—1883) foi a contribuição principal dele à exegese bíblica.

[8] YOUNG, E. J. Introduction to The Old Testament. Michigan: ed. Eerdmans Publiching Company, 1964.

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