Todos os exercícios para estabelecer uma cronologia das parábolas
de Jesus registradas nas narrativas evangélicas são, em certo sentido,
limitados em seu resultado final. Os evangelistas não escreveram suas
narrativas com preocupação estritamente cronológica, mas organizaram seus
relatos a partir de propósitos teológicos, pastorais e temáticos.
O próprio Cânon bíblico não foi organizado a partir da datação
cronológica dos escritos, mas por afinidades literárias e temáticas: primeiro
os Evangelhos, depois Atos, as cartas paulinas, as cartas gerais e, por fim, o
Apocalipse. No caso das cartas de Paulo, por exemplo, a disposição canônica
segue, em linhas gerais, a extensão dos escritos, e não necessariamente a ordem
de composição.
Ainda assim, o exercício cronológico é estimulante e gratificante
quando realizado com vistas à edificação, e não à mera especulação acadêmica. O
propósito desta série é explorar um roteiro possível, entre outros, para que
possamos aprender com o Mestre e sermos edificados por ele.
A sequência adotada nesta série segue a proposta cronológica
anteriormente apresentada no blog, sempre com a ressalva de que toda cronologia
das parábolas é um recurso didático e não uma tentativa de resolver
definitivamente todas as questões históricas envolvidas na ordem dos
acontecimentos [GUEDES, 2017].
Observações iniciais
O texto pode ser lido sem as notas de referência, mas elas ajudam a
esclarecer alguns detalhes relacionados ao contexto, aos termos utilizados nas
narrativas e às discussões acadêmicas mais amplas sobre as parábolas de Jesus.
Parábola: Pano novo em roupa velha
Referências bíblicas: Mateus 9.16; Marcos 2.21; Lucas 5.36
Ponto central: Jesus não faz reciclagem; ele faz coisas novas.
Contexto no ministério de Jesus: pouco depois do encarceramento de João
Batista pelo rei Herodes Antipas, pois os interlocutores são discípulos do
Batista, e não há nenhuma referência de que ele já tivesse sido decapitado.
Motivo da parábola: Jesus é questionado sobre a razão pela qual seus
discípulos não cultivam a prática do jejum como o fazem os fariseus e os
próprios discípulos de João Batista.
Peculiaridade: poucas parábolas são registradas pelos três evangelistas
sinóticos. O mais comum é que apareçam em dois Evangelhos ou em apenas um
deles. Embora seja provável que a narrativa de Marcos tenha sido a primeira a
circular entre as comunidades cristãs, nesta série seguiremos a organização
canônica estabelecida em nossas Bíblias, partindo de Mateus para Marcos e
Lucas.
Como indicado na introdução geral da série, as parábolas devem ser
lidas como instrumentos didáticos por meio dos quais Jesus comunica verdades
espirituais profundas usando imagens simples e extraídas da vida comum [GUEDES,
2016]. Essa leitura também está em harmonia com a observação de Joachim
Jeremias, para quem as parábolas de Jesus devem ser compreendidas em estreita
relação com sua mensagem sobre a chegada do Reino de Deus [JEREMIAS, 2007].
Exposição textual: Mateus 9.16
Um pouco antes da parábola, Jesus havia chamado Levi, também
conhecido como Mateus, para fazer parte do grupo de seus discípulos. Ele
trabalhava na coletoria; portanto, era um publicano, sempre alvo da rejeição
dos judeus, que consideravam os publicanos traidores por cooperarem com o
domínio romano.
Na sequência, Levi oferece um jantar a Jesus e aos discípulos. Como
acontecerá posteriormente no caso de Zaqueu, essa refeição atrai um número
expressivo de parentes, amigos, conhecidos e curiosos. Naturalmente, atrai
também os olhares críticos dos fariseus, que não conseguem conter sua
indignação e perguntam aos discípulos: “Por que come o vosso Mestre com
publicanos e pecadores?” (Mt 9.11).
Na cena precedente à parábola, os discípulos de João Batista também
não se sentem confortáveis com Jesus e seus discípulos se alegrando à mesa.
Eles eram mais rigorosos quanto à prática do jejum e à disciplina alimentar,
aproximando-se, nesse aspecto, da seriedade ascética dos fariseus. Por isso
dirigem a pergunta diretamente a Jesus: “Por que jejuamos nós e os fariseus
muitas vezes, e teus discípulos não jejuam?” (Mt 9.14).
Jesus aproveita os questionamentos para ensinar conceitos
relacionados ao Reino de Deus, algo distinto e novo em relação ao judaísmo
rabínico predominante naqueles dias. Ele utiliza a figura de um noivo que
celebra, juntamente com seus amigos e parentes, as festividades de seu
casamento. Nessas ocasiões havia comida, vinho e alegria; não era tempo de
lamento, mas de celebração.
Jesus se apresenta como o noivo, e seus discípulos como os
convidados para a festa. Se era impróprio para os convidados de um casamento
jejuar e chorar enquanto a celebração estava acontecendo, igualmente era
impróprio que os discípulos de Jesus jejuassem e chorassem enquanto ele estava
pessoalmente com eles. Todavia, haveria um tempo em que o noivo lhes seria
tirado; então haveria tristeza.
É nesse contexto que Jesus apresenta a pequena parábola: ninguém
põe remendo de pano novo em roupa velha, pois o remendo repuxa o tecido antigo
e a ruptura se torna ainda maior.
Exposição textual: Marcos 2.21
Se a narrativa de Mateus é mais econômica, talvez por ele estar
pessoalmente envolvido nas cenas narradas, Marcos amplia o relato e nos fornece
outros detalhes.
Jesus está na Galileia, mais especificamente em Cafarnaum. Ali vê
Mateus — Levi, filho de Alfeu — trabalhando na coletoria. Jesus o chama para
segui-lo, e imediatamente Levi deixa tudo e passa a acompanhá-lo.
Para marcar o novo início de sua vida, Levi convida Jesus, os
discípulos, seus amigos e seus parentes para uma refeição em sua casa. Na
religião legalista do judaísmo rabínico, representada pelos fariseus e
escribas, publicanos e pecadores dificilmente encontrariam espaço de
acolhimento. Para muitos religiosos da época, pessoas como Mateus, Zaqueu ou
Maria Madalena já estavam irremediavelmente condenadas.
Mas Jesus vem trazer boas-novas de salvação a todos os pecadores,
sejam eles publicanos, líderes religiosos, pessoas marginalizadas ou gente
respeitável aos olhos da sociedade. Sua morte e ressurreição são suficientes
para salvar todo aquele que nele crê.
Evidentemente, a celebração atraiu a atenção dos fariseus e
escribas. Eles já vinham observando os movimentos, palavras e ações de Jesus,
procurando algo que pudesse servir de acusação diante das autoridades
religiosas. Mas outro grupo também estranhou o comportamento de Jesus e de seus
discípulos: alguns discípulos de João Batista. Ao que tudo indica, João já
estava encarcerado por Herodes Antipas, a pedido de Herodias.
Esses discípulos questionam Jesus por não ensinar seus seguidores a
respeitarem a prática regular do jejum. Provavelmente o banquete oferecido por
Mateus ocorreu em um desses dias em que determinados grupos religiosos
costumavam jejuar.
Como sempre, Jesus transforma os questionamentos dos fariseus,
escribas e discípulos do Batista em oportunidade para ensinar princípios
fundamentais da mensagem do Reino de Deus.
Jesus veio arrancar das costas das pessoas o fardo insuportável do
legalismo judaico rabínico. Ele toma esse fardo sobre si na cruz. A mensagem do
Evangelho do Reino é libertadora e festiva. Jesus veio cumprir toda a Lei em
favor de seu povo, para que, libertos por ele, pudéssemos nos oferecer a Deus
como sacrifício vivo, santo e agradável.
Para responder aos discípulos do Batista — e certamente também aos
atentos fariseus e escribas presentes — Jesus utiliza uma pequena parábola.
Todos sabiam, pela prática cotidiana, que ninguém com bom senso utilizava pano
novo para remendar uma roupa envelhecida e esgarçada. Quando a peça fosse
lavada, o tecido novo encolheria e provocaria uma ruptura ainda maior no pano
velho.
A parábola deixa claro que o Evangelho anunciado por Jesus não é um
remendo costurado sobre o judaísmo rabínico. O Evangelho é tecido novo; por
isso, não pode ser simplesmente acrescentado ao velho tecido religioso como se
fosse um reparo. São realidades incompatíveis quando se tenta reduzir a
novidade de Cristo a um adendo do antigo sistema. Nessa direção, Klyne
Snodgrass observa que as parábolas não devem ser tratadas como ilustrações
ornamentais, mas como narrativas que confrontam o ouvinte e exigem resposta
diante da ação de Deus revelada em Jesus [SNODGRASS, 2012].
Ou se recebe o novo tecido do Evangelho, ou se permanece com o
velho tecido do legalismo. Não é possível transformar Cristo em remendo
religioso.
A narrativa também deixa claro que tanto os discípulos de João
Batista quanto os fariseus demoraram a perceber que a vinda de Jesus inaugurava
uma nova era. As cerimônias tradicionais, os jejuns legalistas e o próprio
sistema do Templo perderiam sua razão de ser diante daquele para quem todas
essas coisas apontavam. Como o escritor de Hebreus deixa claro, tais realidades
eram sombras indicativas da obra redentora de Cristo.
Uma vez que Jesus, o Noivo, veio e cumpriu todas as exigências da
Lei, essas cerimônias perderam seu valor legal e tornaram-se desnecessárias
como caminho de justificação. “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente
sereis livres” (Jo 8.36).
Mas é difícil andar sem muletas quando se viveu a vida inteira
apoiado nelas. Os israelitas libertos da escravidão do Egito logo sentiram
saudades dos temperos egípcios e chegaram a desejar o retorno ao estado
anterior de escravidão. Nem todos querem ou apreciam a liberdade. Muitos sentem
falta das antigas leis e cerimônias, mesmo quando sabem que elas não passam de
sombras.
Exposição textual: Lucas 5.36
Quero aproveitar a narrativa lucana para destacar três aspectos que
ainda não foram abordados.
1. O tempo e a ocasião
Quando Jesus é questionado sobre a razão pela qual seus discípulos
não estavam jejuando, em nenhum momento ele minimiza ou descarta a prática do
jejum. O que ele ensina é que aquele não era o tempo apropriado. Naquela
ocasião, a presença do Noivo exigia celebração, não lamento.
A imagem do casamento é muito adequada: enquanto o noivo está
presente e os amigos participam da festa, não é momento de jejum, mas de
alegria. Havia precedentes nas tradições judaicas que dispensavam certas
práticas de jejum durante celebrações de casamento.
Todavia, em outros tempos — de calamidade, guerra, fome, pestes,
angústia espiritual ou enfrentamento do maligno — pode haver necessidade de
jejum, contrição e oração mais profunda diante de Deus.
Nossa natureza pecaminosa muitas vezes procura nos arrastar para
uma vida contrária à Palavra de Deus. Nesses momentos, o jejum pode servir como
instrumento de quebrantamento e disciplina espiritual, para que sejamos
fortalecidos na luta contra a carne. Não podemos nos esquecer de que vivemos em
um mundo mau, sob influência do maligno. Por isso Jesus ora ao Pai: “Não peço
que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal” (Jo 17.15).
Mas Jesus sempre condenou toda forma de legalismo, inclusive
aquelas revestidas de falsa espiritualidade. A prática do jejum não pode ser
banalizada, nem utilizada como tentativa de pressionar Deus a fazer a nossa
vontade. Pelo contrário, oração e jejum devem expressar prostração, dependência
e submissão à vontade de Deus, como o próprio Jesus exemplificou no Getsêmani.
2. A prática saudável do jejum
O exercício espiritual do jejum não deve produzir dano físico ou
mental ao crente. Quando uma prática que deveria fortalecer passa a enfraquecer
e debilitar, ela se descaracteriza em relação ao seu propósito.
Muitos cristãos, no afã de buscar uma suposta
“superespiritualidade”, acabam adoecendo. A espiritualidade genuína e saudável
está em harmonia com o bom senso e o correto discernimento. O uso oportuno e
bem dosado do jejum pode contribuir para o fortalecimento da vida espiritual;
mas, como acontece com uma medicação, quando utilizado fora das prescrições
adequadas, pode tornar-se nocivo.
Certas práticas religiosas, especialmente em tradições marcadas por
longos períodos de abstinência extrema, aproximam-se mais da autoflagelação do
que de uma espiritualidade genuinamente bíblica.
O caso de Jesus, retirando-se para o deserto e jejuando por
quarenta dias, é uma excepcionalidade. Aquilo que ele enfrentaria — a cruz —
nenhuma outra pessoa poderia suportar. Como ele assumiu plenamente nossa
humanidade, preparou-se de modo singular para cumprir sua missão. Em nenhum
outro momento os Evangelhos registram Jesus repetindo essa prática por quarenta
dias.
3. O fim e o objetivo do jejum
O terceiro aspecto está relacionado ao fim, ou objetivo, do jejum.
Os fariseus, escribas e alguns discípulos de João Batista corriam o risco de
colocar o jejum no lugar da verdadeira religião. Especialmente os fariseus se
vangloriavam de jejuar mais do que era exigido.
Mas o jejum nunca foi um fim em si mesmo. Ele é apenas um meio.
Assim como o andaime não é o edifício, mas apenas um instrumento utilizado na
construção, o jejum não é a essência da espiritualidade, mas uma ferramenta que
pode servir ao crescimento espiritual quando utilizada corretamente.
O jejum não substitui arrependimento e fé no Senhor Jesus Cristo.
Nem cem jejuns, nem mil penitências podem perdoar um único pecado, pois somente
no sangue de Cristo nossos pecados são perdoados, e somente nele nossas
injustiças são purificadas.
Lembremos as palavras do profeta, retomadas por Jesus: Deus deseja
misericórdia, e não sacrifícios; obediência, e não ritualismo. O que agrada ao
Senhor não são cerimônias pomposas, arrogância eclesiástica ou espiritualidade
exibicionista, mas um coração que o ama e guarda seus mandamentos.
Aplicações vivenciais
1. Sejamos cautelosos em nossas críticas
Vivemos dias em que muitos evangélicos se sentem no direito de
emitir críticas contundentes contra outros cristãos que pensam ou praticam a fé
de modo diferente. No texto, os fariseus e escribas criticam Jesus por comer
com publicanos e pecadores. Até mesmo os discípulos de João Batista questionam
Jesus em relação à prática do jejum.
Mas Jesus responde sem violência verbal. Especialmente em relação
aos discípulos de João, o tom de Jesus é consensual e pastoral. Muitas vezes
achamos que somos mais zelosos do que o próprio Jesus em relação ao Evangelho
e, em outros momentos, nos colocamos perigosamente acima daqueles que expressam
sua fé cristã de forma distinta da nossa.
2. Sejamos cautelosos em nossos conselhos
Devemos lembrar sempre que as pessoas têm compreensões, histórias e
capacidades diferentes. Não é possível esperar de um neófito a mesma maturidade
de alguém que está na caminhada cristã há muitos anos.
Jesus é econômico em suas respostas aos questionamentos que lhe são
feitos. Ele fala apenas aquilo que seus ouvintes poderiam compreender naquele
momento. Assim também fez com seus próprios discípulos, dosando seus
ensinamentos de forma progressiva.
Ao fazer uso de uma pequena parábola, Jesus não desmerece a
capacidade de seus críticos, mas lhes fala de modo prático, para que
compreendam onde estava o erro e possam corrigi-lo.
A forma maravilhosa com que Jesus corrige e restaura o apóstolo
Pedro deveria servir de modelo para todos nós. O apóstolo Paulo compreendeu
muito bem esse princípio ao escrever aos coríntios que ainda precisava
alimentá-los com leite, e não com alimento sólido, pois ainda não estavam
preparados para assuntos mais profundos (1Co 3.2). O autor de Hebreus segue a
mesma linha ao distinguir o leite destinado aos imaturos e o alimento sólido
próprio dos maduros (Hb 5.12-14).
3. Utilizemos as ferramentas que contribuem para nosso crescimento
espiritual
Como já foi explicado, Jesus não criticou nem descartou o uso do
jejum. Ele deixou claro que há momentos em que precisamos recorrer a esse
exercício espiritual para fortalecimento da fé e saúde da espiritualidade.
Nunca haverá, nesta vida, um momento em que nossa vigilância possa
ser diminuída, nem um tempo em que deixemos de depender de comunhão mais íntima
e profunda com Deus.
O apóstolo Paulo, que não era asceta rigoroso como alguns
discípulos de João e que havia abandonado completamente o legalismo judaico
farisaico, declarou que passou por jejuns muitas vezes. Ele sabia que era
necessário manter a natureza pecaminosa sob sujeição, para não tropeçar naquilo
que ele mesmo condenava (1Co 9.27).
Conclusão
A parábola do pano novo em roupa velha nos ensina que o Evangelho
não é um remendo religioso. Cristo não veio apenas melhorar um sistema antigo,
nem oferecer uma atualização superficial de práticas incapazes de transformar o
coração humano. Ele veio inaugurar uma nova realidade.
O Reino anunciado por Jesus não pode ser reduzido a legalismo,
ritualismo ou mera reforma moral. Ele é novidade de vida. O pano novo do
Evangelho não pode ser costurado sobre o tecido envelhecido da autossuficiência
religiosa. Em Cristo, Deus não apenas remenda; ele faz novas todas as coisas.
Utilização livre, desde que citada a fonte.
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro blog:
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/
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Referências
bibliográficas
GUEDES, Ivan Pereira. Parábolas de Jesus — Introdução. Reflexão
Bíblica, 2 dez. 2016. Disponível em: http://reflexaoipg.blogspot.com/2016/12/parabolas-de-jesus-introducao.html.
Acesso em: 28 abr. 2026.
GUEDES, Ivan Pereira. Parábolas: uma ordem cronológica. Reflexão
Bíblica, 2 jun. 2017. Disponível em: https://reflexaoipg.blogspot.com/2017/06/parabolas-uma-ordem-cronologica.html.
Acesso em: 28 abr. 2026.
JEREMIAS, Joachim. As parábolas de Jesus. São Paulo: Paulus,
2007.
SNODGRASS, Klyne. Compreendendo todas as parábolas de Jesus: guia completo. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.


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