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quarta-feira, 5 de outubro de 2022

NT - Síntese por Capítulos – Romanos

 


        A preciosa epístola que Paulo escreveu aos cristãos que viviam na cidade de Roma, se constitui em um dos documentos mais amado e estudado de toda a literatura neotestamentária. Milhares de comentários desta carta foram produzidos ao longo dos séculos, mas ainda não se esgotou todo o ouro preciso que se pode extrair dela.

 A epístola de Romanos é considerada pelos melhores comentaristas bíblicos como sendo a composição mais madura de Paulo, que já havia percorrido no mínimo vinte anos desde a sua conversão e que apesar dos planos futuros compartilhados com seus leitores, não muito tempo depois de envia-la haveria de ter encerrado o bom combate da fé cristã, quando haveria de ser decapitado na própria cidade de Roma.

O conteúdo geral é uma exposição escrita com maestria sobre a maravilhosa graça de Deus e a justificação pela fé que decorre dela. O seu tema tornou-se ao longo da História o ponto de partida para os maiores avivamentos e movimentos reformistas da Igreja Cristã. E ainda hoje impacta e transforma a vida de milhares de cristãos em todo o mundo.

Sem qualquer outra pretensão abaixo você encontrara uma micro síntese de cada capítulo desta amada e inestimável correspondência paulina.

Romanos 1—O Evangelho é o Poder de Deus
O primeiro capítulo nos apresenta as credenciais de Paulo, bem como de seus leitores e da mensagem do Evangelho ao qual Paulo foi chamado para proclamar a todas as pessoas. Desde as primeiras linhas o velho apóstolo deixa claro duas teses: a primeira é que todos pecaram (e continua pecando), de maneira que são indesculpáveis diante do tribunal de Deus; e a segunda é que somente no Evangelho da graça de Cristo o ser humano poderá reverter sua situação de condenação.  
Romanos 2—O Juízo Justo de Deus
Paulo começa advertindo seus leitores judeus, havia milhares de judeus vivendo em Roma e um número não especificado deles haviam aderido às comunidades cristãs, de que possuir e conhecer Lei mosaica  e de serem circuncidados na infância não os tornavam automaticamente justos aos olhos de Deus. Esses leitores e ouvintes de origem judaica certamente ficaram horrorizados com tal ensinamento, mas Paulo enfatiza que viver de acordo com regras e regulamentos só traz julgamento e condenação. Paulo conclui sua argumentação de que um verdadeiro judeu (cristão) é aquele que experimentou a circuncisão do coração (novo nascimento) que é uma ação exclusiva do Espírito de Deus.
Romanos 3—Justiça Independentemente da Lei
Paulo continua sua argumentação anterior ampliando ainda mais, pois agora ele coloca tanto os judeus quanto os gentios na mesma condição de culpados diante de Deus. Mas o apostolo acende uma luz no final deste terrível túnel do juízo de Deus e declara que a justiça (justificação) que a lei era impotente para nos dar, Deus a deu a nós gratuitamente ao enviar Jesus. Ele sustenta que esta justiça (justificação) vem pela fé para todos os que creem em Cristo Jesus independentemente da obediência perfeita à lei.
Romanos 4—Justificados pela Fé
Neste capítulo Paulo argumenta com testemunhos históricos de que a fé sempre foi o meio pela qual Deus nos justifica. Ele remete seus leitores de volta aos patriarcas do Primeiro Testamento que foram justificados pela fé, não pelas obras, para ilustrar seu ponto de vista. E o apostolo faz uso desses exemplos para comprovar sua tese central de que os gentios desde sempre estiveram inseridos na promessa que foi dada a Abraão. O mundo inteiro foi abençoado por meio dele porque ele creu em Deus e não pela obediência à Lei, visto que Abraão é antes da promulgação da Lei. Foi fé que lhe deu créditos para que alcance a justificação.
Romanos 5—Os Resultados da Justificação pela Fé
Exposto sua tese da justificação pela fé Paulo passa a demonstrar os seus resultados na vida do cristão. Fomos reconciliados com Deus por meio de Jesus Cristo. Deus não poupou Seu próprio filho, mas graciosamente O deu por nós desfazendo o que Adão havia feito no Éden. Se a morte veio pelo pecado de um homem, a vida vem mais abundante em todos os sentidos através do dom de Jesus. Paulo enfatiza que essa reconciliação não é algo que fizemos por merecer, mas em todos os sentidos da palavra, os crentes são justos, santos e aceitáveis ​​a Deus por meio de Cristo.
Romanos 6—Liberdade do Pecado
Este capítulo é fundamental para uma vida cristã autêntica. Aqui Paulo ensina enfaticamente que quando nascemos de novo, o poder do pecado é rompido em nossas vidas. Paulo defende que somos libertos do pecado e vivificados para Deus por meio de Jesus Cristo, não por obras ou pela obediência da Lei. Nossa natureza pecaminosa foi crucificada com Cristo quando fomos batizados em sua morte. Agora, por meio de dele, recebemos o dom de Deus, que é a vida eterna.
Romanos 7—Casado com Cristo
O apostolo passa a demostra o contraste entre viver preso à lei e viver pelo Espírito de Deus. Não vivemos mais em escravidão, mas agora somos livres para vivermos para Deus. A luta com a nossa natureza pecaminosa continua ferrenha (guerra) e deixa seus hematomas e cicatrizes, mas Paulo sustenta que não haveremos de sucumbir a ela. Em Cristo passamos a viver pelo Espírito e produzimos frutos de acordo com nossa nova natureza.
Romanos 8—Vida no Espírito
Viver pelo Espírito é experimentar da paz que passa a nortear os nossos corações. É o Espírito Santo que continuamente testifica com nosso espírito de que somos de fato e de verdade filhos de Deus. Ele é a nossa garantia de que nada jamais poderá nos separar do amor de Cristo. Esta é uma passagem que nos enche de esperança e reafirma que nosso futuro é glorioso em Cristo.
Romanos 9—Filhos da Promessa pela Fé em Cristo
Aqui Paulo retorna ao ponto anterior que não são filhos naturais que são filhos de Deus, mas sim filhos da promessa. A promessa vem pela fé em Cristo, não pelas obras da Lei. Ele usa o exemplo dos israelitas, que buscaram a justiça pela lei sem obtê-la, e dos gentios, que a buscaram pela fé e obtiveram a justiça por meio de Jesus Cristo. O capítulo 9 é a reafirmação de que somente a fé em Cristo nos salva.
Romanos 10—A Palavra da Fé
Paulo trata especificamente a questão da fé. Ao confessar com nossa boca que Jesus Cristo é o Senhor e crendo nisso em nossos corações, somos salvos – nada mais, nada menos. Cristo é o fim da lei, pois ele cumpre toda a lei, para que possamos ser justificados e tornados justos somente pela fé nele. A fé vem por ouvir esta mensagem do evangelho e responder a ela. Paulo encoraja seus primeiros leitores até os dias atuais de que “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”.
Romanos 11—Um Remanescente de Israel
Paulo traz a discussão de que, embora Israel como nação tenha rejeitado Jesus como o Messias, pela graça um número remanescente haverá de crer para a salvação. Mesmo diante da rejeição deles em relação a Jesus a mensagem de salvação foi então aberta aos gentios. Eles rejeitaram Cristo, mas Cristo não os rejeitou, visto que o plano de Deus inclui conceder misericórdia a toda humanidade, incluindo os judeus.
Romanos 12—Sacrifícios Vivos
Mediante tudo que foi anteriormente exposto Paulo conclama a todos os seus leitores a se oferecerem como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus – é a única resposta que podemos dar. Fazemos isso renovando nossas mentes para a verdade da palavra de Deus, servindo e abençoando o corpo de Cristo por meio de nossos dons e, acima de tudo, amando e sendo dedicados uns aos outros. Paulo conclama seus leitores a viver uma vida de paz, servindo fielmente ao Senhor em todas as coisas e vencendo o mal do mundo pela fé.
Romanos 13—Submissão às Autoridades
Paulo continua exortando os cristãos a se revestirem de Cristo Jesus e viverem como Seus filhos neste mundo presente. Como cristãos devemos nos submeter às autoridades constituídas e prestar respeito onde for devido. Devemos viver e servir ao Senhor por amor, mostrando aos outros a luz do evangelho.
Romanos 14—Os Fracos e os Fortes
Paulo amplia um pouco mais e encoraja seus leitores para que tudo que fizerem seja feito visando, almejando a glória de Cristo. Somos chamados para contribuir de todas as formas para que haja paz e edificação mútua dentro do corpo de Cristo (Igreja). Em hipótese alguma devemos condenar ou desprezar aqueles que são mais fracos na fé, mas estarmos plenamente convencidos do que é aceitável em nossas próprias mentes, pois tudo o que não vem da fé é pecado.
Romanos 15—Unidade entre os crentes
Paulo conclui sua carta enfatizando a necessidade de unidade dentro do corpo de crentes (igreja). Devemos tomar o encorajamento das escrituras e de Cristo como nosso exemplo e aprendermos a convivermos em harmonia apesar das diferenças e limitações de cada irmão. E uma vez que compreendemos o que é o Evangelho somos responsabilizados para comunicá-lo com todas as pessoas, sejam quais forem e onde estiverem.
Romanos 16—Elogios e Saudações
Este capítulo é precioso, pois revela a gratidão que Paulo tem para com todos aqueles que de alguma forma tinham contribuído com sua vida e seu ministério missionário. Quanto aos cristãos em Roma, dos quais a maioria ele não conhecia pessoalmente, declara seu afeto e ele aproveita estas últimas linhas para lhes dar uma orientação final quanto ao cuidado com as falsas doutrinas e ensinamentos, bem como com aquelas pessoas que poderia causar divisão entre eles. Ele os lembra de que Satanás logo será esmagado sob seus pés e que o Evangelho é capaz de sustentá-los até o dia de Jesus.
 
            Certamente ficaria uma enorme lacuna no cânon neotestamentário se esta extraordinária carta de Paulo aos Romanos não tivesse sido incluída. Aqui vemos com toda a clareza a ação do Espírito Santo na composição não apenas na individualidade dos escritos bíblicos, mas também na seleção e inclusão de cada uma destas literaturas reunidas nesta sobrenatural biblioteca divina. E tudo isso para a nossa edificação e sabedoria.
 
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Historiologia Protestante
 
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Referências Bibliográficas
BARCLAY, William. Romanos - El Nuevo Testamento comentado. Buenos Aires (Argentina), Asociación Editorial la Aurora, 1974.
BRUCE, F. F. Romanos – introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1991.
CALVINO, João. Exposição de Romanos. Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: Edições Paracletos, 1997. [Comentário à Sagrada Escritura].
CRANFIELD, C. E. B. Carta aos Romanos. Tradução Anacleto Alvarez. São Paulo: Edições Paulinas, 1992. [Grande Comentário Bíblico].
ERDMAN, Charles R. Comentários de Romanos. Tradução Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, s/d. (Fhiladelphia: The Westminster Press, 1925).
 

domingo, 25 de agosto de 2019

Tenhamos paz com Deus (Romanos 5.1)




Δικαιωθέντες οὖν ἐκ πίστεως εἰρήνην ἔχωμεν πρὸς τὸν Θεὸν διὰ τοῦ Κυρίου ἡμῶν Ἰησοῦ Χριστοῦ,
Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, (Almeida Revisada e Atualizada)
Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, (Nova Versão Internacional)
            Na carta escrita pelo apóstolo Paulo aos crentes que moravam na cidade de Roma têm no primeiro verso do capítulo cinco as palavras acima transcritas.
            Como se pode ver há duas formas de se traduzir as palavras do grego para o português e que expressam um conteúdo teológico não oposto, mas com ênfase distinta. Isso decorre do fato do verso estar no modo indicativo ou subjuntivo, o que nos leva à questão: qual das duas deve ser a tradução preferível?
            Inicialmente devemos observar a questão relacionada aos Manuscritos. Um grande número de cópias antigas como as siríaca, copta e vulgata, referendada por diversos estudiosos optam com base na força desses textos gregos cujo verbo echō (ἔχω) se encontra no modo subjuntivo pela tradução “tenhamos paz com Deus”. Todavia, igualmente encontra-se em outros manuscritos antigos o mesmo verbo em sua forma indicativa presente e muitos comentaristas e teólogos optam então pela tradução gramatical “temos” paz com Deus. Os tradutores devem escolher uma das traduções possíveis.
Tenhamos paz com Deus
            A ideia aqui não é a de uma exortação a ter algo que somente Deus pode dar, mas o apostolo esta exortando seus leitores a conservar o que já receberam da parte de Deus. O verbo grego “echō” trás a ideia de ter, manter e conservar. Aqui temos (echoomen) “tenhamos”, fazendo sinônimo de katé-choomen, como encontrado em Hebreus 10.23, onde é traduzida “Conservemos firme a nossa confissão de fé”. Tanto o autor de Hebreus quanto o apóstolo Paulo exortam igualmente seus leitores a ter, conservar o que já haviam recebido.
            O texto aceita confortavelmente “tenhamos” com algumas vantagens sobre “temos”, pois a forma subjuntiva é mais ampla em sua significação do que a forma indicativa. Paulo parte da ideia de que seus leitores já possuem a paz (temos) de Cristo, pois são convertidos, então aproveita esse momento para anima-los a conservarem/manterem essa paz que já adquiriram quando foram justificados pela fé – “conservemos a paz com Deus”. A ideia se harmoniza com as palavras exortativas de Jesus aos discípulos: “No mundo tereis aflições, mas tende bom animo [confiança], eu venci o mundo”.
            Quando examinamos o contexto temos um apoio positivo a ideia de “tenhamos”. Paulo está concluindo toda uma exposição doutrinal anterior e imediatamente inicia uma exortação fundamentada em tudo que havia ensinado nos textos anteriores. Ele havia exposto os fundamentos da doutrina da justificação pela fé e agora ele começa a enumerar os resultados produzidos por essa ação graciosa de Deus, e para isso utiliza de um tom exortativo e não deliberativo. Isso decorre do fato que se harmoniza perfeitamente com a sequência lógica e natural do texto. Assim, temos uma sincronia do texto com o contexto e da doutrina com a exortação.
            A questão textual oferece amparo à tradução “tenhamos”, visto que o copista poderia ter “economizado” uma letra em vez de “échomen – temos” “échoomen – tenhamos” – em vez de um ómega (o longo, dobrado), escreveu um ómicron (o simples). É possível que o copista por alguma razão, provavelmente não intencional, mudasse o subjuntivo para o indicativo.
            A paz que o cristão usufruiu com Deus decorre da justificação pela fé decorrente da graça salvadora. Assim, a fé vem a ser o meio pelo qual Deus imputa a justiça de Cristo ao cristão de maneira a poder considera-lo justo diante de seu tribunal. Deste modo, extinguida a inimizade entre a criatura e o Criador, a justificação produz o resultado extraordinário da paz (Ef 2.14,15; Cl 1.20; Jo 14.27).
            Essa paz é antes de qualquer coisa uma mudança nas relações de Deus para conosco e como consequência imediata posterior uma mudança de nós para com Deus. Deus por meio de Jesus Cristo nos reconcilia com Ele mesmo (2Co 5.18); em decorrência disso somos portadores dessa reconciliação (2Co 5.20) e responsáveis em comunica-la a todas as pessoas. A propiciação (feita por Cristo) é o ponto de convergência: nela a inimizade antes existente termina em uma honrosa e eterna paz.
            Uma vez reconciliados com Deus, por meio de Cristo (Rm 5.10), o crente pode contemplar e se relacionar com Deus, não mais na posição de réu e Juiz, mas em uma nova relação de amizade e filiação.
            A sanidade mental e espiritual resultante da justificação reconciliatória permeia toda a vida do cristão produzindo e reproduzindo uma doce e maravilhosa paz que lhe possibilita experimentar aqui a genuína alegria que se perpetuara na eternidade.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas
BARCLAY, William. Romanos - El Nuevo Testamento comentado. Buenos Aires (Argentina), Asociación Editorial la Aurora, 1974.
BRUCE, F. F. Romanos – introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1991.
CALVINO, João. Exposição de Romanos. Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: Edições Paracletos, 1997. [Comentário à Sagrada Escritura].
CRANFIELD, C. E. B. Carta aos Romanos. Tradução Anacleto Alvarez. São Paulo: Edições Paulinas, 1992. [Grande Comentário Bíblico].
ERDMAN, Charles R. Comentários de Romanos. Tradução Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, s/d. (Fhiladelphia: The Westminster Press, 1925).
GREATHOUSE, William M. A epístola aos Romanos. Tradução Degmar Ribas Júnior. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. [Comentário Bíblico Beacon, v. 8].
KERTELGE, Karl. A epístola aos romanos. Tradução de Assis Pitombeira. Petrópolis (RJ): Editora Vozes, 1982. [Coleção Novo Testamento – comentário e mensagem, nº 6].
LLOYD-JONES, D. Martyn. Romanos – o Evangelho de Deus. Tradução Odayr Olivetti. São Paulo: Editora PES, 1998. [Exposição sobre Capítulo 1].
WILSON, Geoffrey B. Romanos – um resumo do pensamento reformado. Tradução Fernando Quadros Gouvêa. São Paulo: PES, 1981.


sexta-feira, 10 de maio de 2019

Epístola de Paulo aos Romanos: Estudo Devocional (1.16 e 17)



Tendo feito as saudações protocolares, reconhecido o testemunho positivo da fé vivencial daqueles irmãos e indicado seu proposito em escrever esta carta, Paulo agora em apenas quatro ou cinco linhas vai fazer uma das mais extraordinárias definições do que seja o Evangelho. Essas palavras preciosas do velho apóstolo foram moldadas na bigorna da experiência cristã, tendo ele próprio recebido as pancadas de inúmeras perseguições, prisões, açoites e apedrejamento, além de tantas outras provações. Não são palavras de um erudito confinado em sua biblioteca ou um mercador da mensagem cristã, mas de um apóstolo que se gastou e se deixou gastar em prol da proclamação da mensagem salvadora de Cristo, pois se sentia responsabilizado em comunica-la a todas as pessoas, em todos os lugares em tempo e fora de tempo, mesmo com o risco permanente de morte que lhe acompanhava como uma nuvem sombria.
Estes dois versos desta epístola aos Romanos, agora em destaque, tem produzido mais conversões e avivamentos espirituais na História da Igreja Cristã, do que milhares de reuniões eclesiásticas estéreis e inócuas. Estas palavras de Paulo deveriam ser pregadas perenemente nos púlpitos das igrejas até que nos corações e na alma dos ouvintes queimasse as chamas do genuíno avivamento; até que cada palavra fosse cravada com ponta de diamante, pelo Espírito, na mente e nos corações de cada cristão.

O Coração do Evangelho

(v. 16) Porque não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque no evangelho é revelada, de fé em fé, a justiça de Deus, como está escrito: Mas o justo viverá da fé.
“Porque não me envergonho do evangelho”
Paulo sempre fez uso dos recursos retóricos que possuía e emprega aqui uma figura de linguagem, litotes,[1] onde se utiliza a forma negativa para enfatizar a ideia oposta, ou seja, quando Paulo declara que “não se envergonha do evangelho”,[2] significa exatamente o contrário, nada lhe é mais honroso do que ser um pregador do Evangelho, mesmo que isso lhe custe e custará a própria vida! Em sua carta anterior aos Gálatas ele é enfático: “Longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (6.14). Ele se gloriava no Cristo crucificado; para ele não havia honra maior neste mundo do que ser apóstolo e pregador da mensagem do Cristo morto na cruz - mas aqui ele prefere dizer - “não me envergonho do Evangelho” da cruz.
Todavia, há uma razão especifica para que o velho apóstolo utilize a expressão enfática “não me envergonho do evangelho” – pois muitos naqueles primeiros dias do cristianismo e durante todos os séculos até o presente tem se “envergonhado” do Evangelho bíblico. Em seu último documento escrito, que temos conhecimento, escrito para o jovem pastor Timóteo há uma exortação reflexiva: “Não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor”, e complementa, “nem de mim, que sou prisioneiro seu” (2 Timóteo 1.8). É possível que o jovem pastor estivesse sendo pressionado por forças de fora e até mesmo por lideranças internas da comunidade cristã a amenizar, suavizar, tornar mais palatável a mensagem do Evangelho, quem sabe sugerindo que colocasse menos ênfase na questão da cruz, pois um “evangelho” sem a cruz é mais agradável aos ouvidos sensíveis das pessoas – Paulo como seu mentor e amigo exorta-o: não faça isso! Não tenha vergonha do Evangelho que salvou sua vida e que foi colocado aos seus cuidados para ser preservado como um precioso tesouro e repassado a outros de forma idônea.
            Vivemos dias em que grande parte dos evangélicos tem vergonha do Evangelho bíblico (cf. Lc 12.8,9). Fazem todo o esforço para torna-lo mais “atrativo” para as pessoas – temas como pecado, juízo, inferno – há muito tempo foi extirpado da boca dos pregadores modernos. Pregar que todo aquele que não crer já está condenado não é politicamente correto; declarar que todo pecado, seja qual for, ofende a Deus é algo ultrapassado, afirmar que a Bíblia é inspirada e única regra de fé e prática é inadmissível. Sim, estas pessoas tem vergonha do Evangelho bíblico. O Evangelho bíblico foi e sempre será loucura e escândalo para aqueles que não creem, pois denuncia abertamente seu estado de pecado e miséria. Algumas linhas posteriores Paulo vai fazer uma radiografia da Sociedade em seus dias, à luz do Evangelho, e o resultado é uma completa metástase do pecado em cada célula da Sociedade humana em seu estado natural. Mas certamente esta radiografia e diagnóstico bíblico são inaceitáveis para qualquer geração pervertida e incrédula e a nossa não será diferente. Nesse exato momento (histórico) estão sendo forjadas na bigorna do inferno instalada no Congresso brasileiro leis que haverão de proibir toda e qualquer pregação do Evangelho bíblico. Em breve serão expostos à luz do dia todos aqueles que têm e aqueles que não têm VERGONHA do Evangelho de Cristo.
            E por que Paulo não se envergonhava do Evangelho? Simplesmente porque o Evangelho que ele pregava não era seu, mas de Jesus Cristo. Em outras palavras, o poder do Evangelho não estava (nunca esteve) naquele que prega ou ensina, mas no autor do Evangelho – Jesus Cristo. O Evangelho genuinamente bíblico é de Deus e o poder dele emana do próprio Deus. Assim como os profetas, Paulo e quaisquer outros pregadores ao longo desses milênios são unicamente porta-vozes da mensagem de Deus. Paulo jamais se envergonha do Evangelho porque o poder é de Deus – todos nós somos apenas vasos de barro, para que toda a glória seja unicamente do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém!
            Infelizmente nos dias atuais (e antes também) as pessoas ao se dirigirem aos locais de culto não dizem: qual parte do Evangelho ou qual texto da bíblia vai ser pregado hoje? Mas dizem: quem vai pregar hoje? A ênfase não está no poder da Palavra de Deus (Evangelho), mas no “poder” do pregador – dai a necessidade de títulos grandiosos (apóstolos; bispos; evangelistas, pastores, doutores, mestres, papa, etc....). Mas Paulo deixa bem claro que o PODER DE DEUS está única e exclusivamente no EVANGELHO (na Bíblia; Palavra de Deus). Nenhum pregador pode converter ou transformar a vida de uma única pessoa, somente o Evangelho têm poder para converter e transformar a vida do pecador mais contumaz e depravado em um “filho de Deus”. Porque não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego.
Porque no evangelho é revelada, de fé em fé, a justiça de Deus, como está escrito: Mas o justo viverá da fé.
O Evangelho da Justiça 
De acordo com Paulo ele não tinha vergonha do Evangelho porque era as boas novas de salvação, proveniente do próprio Deus e, portanto, poderoso para transformar o maior dos pecadores (ele próprio) e uma mensagem para todos os povos em todos os lugares e em todos os tempos.
            Agora Paulo acrescenta outro aspecto extraordinário do Evangelho: revela a justiça de Deus! A falta de compreensão dessa dimensão da mensagem evangélica tem produziu mais malefícios à igreja do que qualquer outra heresia. O inferno trabalha dia e noite para separar o Evangelho da Justiça, como se fossem duas coisas distintas e antagônicas, mas o velho apóstolo sabia que o Evangelho e a Justiça de Deus são inseparáveis. O Evangelho revela a Justiça de Deus e a Justiça é plenamente satisfeita no Evangelho de Deus. Quando está verdade explodiu no coração e permeou toda a alma de Martinho Lutero ele finalmente sentiu-se reconciliado com Deus e experimentou da paz que excede todo o entendimento.
            Um evangelho que não revela a Justiça de Deus é um engodo do inferno para manter as pessoas debaixo da ira e da condenação de Deus. Nada ofende mais o ser humano na sua essência natural do que ser desmascarado em sua falsa autojustiça. Aquele jovem rico que se aproxima de Jesus Cristo, cheio de si mesmo, afasta-se triste após perceber que não era tão bom quanto parecia aos seus próprios olhos. Nada irrita e frustra as pessoas quando ouvem o Evangelho de Cristo e descobrem que não elas não são boas, justas e inocentes como imaginavam que fossem. A expressão mais adiante de Paulo de que “todos pecaram” coloca na mesma posição de condenação: homens e mulheres, jovens e velhos, ricos e pobres, cultos e incultos. E ele ainda completara o quadro declarando em alto e bom som: “não há justo, nenhum sequer”. Enquanto a pessoa estiver cheia de si mesma e fundamentada em sua própria justiça, jamais entenderá o que Jesus Cristo fez por ele na Cruz. Enquanto a pessoa não entender que está assentada no banco dos réus e que está por ouvir a sentença de condenação pronunciada pelo Juiz eterno, ela não dependerá da justiça que emana da cruz. Saulo de Tarso era autossuficiente em sua religiosidade judaica, mas depois que compreendeu a Justiça de Deus, o agora Paulo não tinha nenhum pudor em declarar: porque dos pecadores eu sou o principal.
            Ao separar a Justiça de Deus da pregação do Evangelho da Graça os pregadores atuais lançam seus ouvintes ao inferno! Somente compreenderá o Evangelho de Cristo aqueles que sentirem toda sua miserabilidade diante da Justiça de Deus – “sê propicio a mim pecador”.
Em cegueira eu andei e perdido vaguei,
Longe, longe do meu Salvador!
Mas da glória desceu, o seu sangue verteu
E salvou este pobre pecador.
Foi na cruz, foi na cruz que um dia eu vi
Meu pecado castigado em Jesus!
Foi ali pela fé, que meus olhos abri
E agora me alegro em sua luz!
Vivendo pela Fé
            A justiça que se manifesta pela fé não é encontrada em nenhuma outra religião. Todas as demais religiões trabalham com o pressuposto de que o ser humano é bom e que por seu esforço e dedicação pode tornar-se justo; mas no Evangelho a justiça emana unicamente de Deus o justo e justificador de todo aquele que crê na eficiência e suficiência do sacrifício redentor de Jesus Cristo.  Como tão bem Paulo vai declarar mais adiante – o Justo pelo injusto.  Aqui está o cerne do Projeto Redentor de Deus, o cerne da salvação.
            Nestas quatro linhas Paulo menciona “fé” quatro vezes – demonstrando a centralidade da fé. Toda interpretação e compreensão desta epístola, bem como da própria bíblia, estará prejudicada se não houver um entendimento correto do que é “fé”. A grande armadilha de Satanás é incutir na mente e no coração das pessoas que esse negócio de fé não é importante, o que realmente importa é você acreditar em alguma coisa, seja o que for. Certamente o inferno estará lotado de toda sorte de “crentes”, dos mais variados credos religiosos, incluindo “evangélicos”.
            A fé à qual Paulo se refere aqui não é proveniente do coração corrupto do ser humano decaído e morto em seus delitos e pecados; a fé aqui é um dom (presente) de Deus, mediante sua graça (favor não merecido). A bíblia não acalenta a ilusão de que todas as pessoas serão salvas, mas que unicamente serão salvas aquelas que experimentam o inefável dom da fé. Desta forma, Paulo está declarando que a fé que nos justifica diante do tribunal de Deus não é proveniente de nós mesmos, mas provém da graça de Deus! “O justo viverá pela fé”, somente quando compreendeu esta verdade Martinho Lutero abandou todo seu arsenal de autoflagelação, e seu saco furado de boas obras e religiosidade e depositou sua fé unicamente no sacrifício de Jesus Cristo, que o purifica e justifica de todos os pecados. Paulo é enfático – de fé em fé – “Ele não diz, de fé em obras, nem, de obras em fé; mas, de ‘fé em fé’, isto é, somente pela fé” (M. Poole, apud WILSON, 1981, p. 12). Foi assim nos dias do profeta Habacuque (2.4) e continua sendo assim nos dias de Paulo e nos dias atuais.
Desde o princípio até o final somos salvos unicamente pela fé na retidão justificadora de Cristo. Uma vez que sou justificado por Deus e não por meus esforços, estou justificado para sempre, de maneira que, nada e nem ninguém – nem morte, nem vida, nem o presente ou o futuro, nem principados, nem potestades – nada, absolutamente nada, poderá me condenar, pois é Deus quem me justifica. Aleluia!
Justificados, pois pela fé
temos paz com Deus!

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas
BARCLAY, William. Romanos - El Nuevo Testamento comentado. Buenos Aires (Argentina), Asociación Editorial la Aurora, 1974.
BRUCE, F. F. Romanos – introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1991.
CALVINO, João. Exposição de Romanos. Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: Edições Paracletos, 1997. [Comentário à Sagrada Escritura].
CRANFIELD, C. E. B. Carta aos Romanos. Tradução Anacleto Alvarez. São Paulo: Edições Paulinas, 1992. [Grande Comentário Bíblico].
ERDMAN, Charles R. Comentários de Romanos. Tradução Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, s/d. (Fhiladelphia: The Westminster Press, 1925).
GREATHOUSE, William M. A epístola aos Romanos. Tradução Degmar Ribas Júnior. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. [Comentário Bíblico Beacon, v. 8].
KERTELGE, Karl. A epístola aos romanos. Tradução de Assis Pitombeira. Petrópolis (RJ): Editora Vozes, 1982. [Coleção Novo Testamento – comentário e mensagem, nº 6].
LLOYD-JONES, D. Martyn. Romanos – o Evangelho de Deus. Tradução Odayr Olivetti. São Paulo: Editora PES, 1998. [Exposição sobre Capítulo 1].
WILSON, Geoffrey B. Romanos – um resumo do pensamento reformado. Tradução Fernando Quadros Gouvêa. São Paulo: PES, 1981.



[1] John Stott em seu comentário de Romanos discorda desta interpretação (2000, p. 29).
[2] A expressão “eu não me envergonho” é o equivalente intensificado de confessar, proclamar, declarar.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Epístola de Paulo aos Romanos: Estudo Devocional (1.8-15)



            Após se identificar e saudar seus leitores, Paulo se dirige especificamente a eles expressando o reconhecimento do que Deus tem feito na vida e através da vida daqueles cristãos. Paulo sabia muito bem como era difícil vivenciar a fé cristã naqueles dias, pois ele mesmo sentiu na própria pele toda a violência produzida por aqueles que rejeitam o Evangelho (e temos visto isto diariamente em nossas mídias eletrônicas). Não muito tempo de esta epístola ter sido escrita os cristãos em Roma foram acusados injustamente de serem causadores de um dos mais devastadores incêndios ocorridos na capital romana e centenas de cristãos foram mortos das formas mais cruéis imagináveis.
Graças a Deus pela Fé
(v. 8) Primeiramente dou graças ao meu Deus, mediante Jesus Cristo, por todos vós, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé.
Não sem motivo Paulo imediatamente à saudação protocolar expressa sua gratidão a Deus pela fé daqueles cristãos no meio da maior cidade do Império Romano.
Muito tempo antes de ver o rosto desses cristãos em Roma, o velho apóstolo já orava em favor deles. “Já ganhara a batalha antes de entrar nela” (F. B. Meyer). Antes de qualquer outra coisa, diz Paulo, antes de compartilhar meus planos missionários e solicitar o apoio de vocês, me coloco diante do “meu Deus” para agradecer pela vida de vocês, por estarem manifestando a genuína fé em Jesus Cristo. O velho apóstolo aprendeu a caminhar com Deus, assim como o salmista (Sl 18) que permeia seu cântico com esta preciosa expressão “meu Deus”, de maneira que o conhecimento deles não era de nenhuma forma acadêmico-escolástica, abstrata ou especulativa, mas um conhecimento vivo e pessoal “meu Deus” – Davi como poucos conheceu profundamente a Deus e ao compor uma de suas obras máximas declara: “O Senhor é o meu pastor”. O rei Ezequias referindo-se ao profeta Isaías declara: “o Deus de Isaías” (Is 37.4); estando para lançar Daniel à cova dos leões o rei lhe pergunta: “Teu Deus, a quem serviste com perseverança, ele te salvará?” (Dn 6.17). Em outra ocasião Paulo dá esse testemunho: “Deus, de quem eu sou, e a quem sirvo” (At 27.23). É transparente que existe uma relação pessoal e um conhecimento pessoal – assim deve se iniciar qualquer oração – “meu Deus
Que melhor testemunho eles poderiam dar do que viverem intensamente sua fé em meio a toda corrupção e depravação em que estavam inseridos (Paulo vai fazer uma radiografia da sociedade romana algumas linhas à frente). Dizer que é um cristão é fácil, mas viver como um cristão no meio de uma sociedade corrompida e dominada pelo pecado é outra coisa. Ainda que nos anais da história romana pouco ou quase nada se registra sobre os cristãos e as comunidades cristãs em Roma, este fato apenas revela a ignorância deles sobre a mensagem salvadora do Evangelho; todavia, em todos os lugares onde havia sido estabelecido um núcleo da igreja cristã, o testemunho dos cristãos romanos era conhecido e servia de estimulo para a vida deles. Se Paulo escrevesse hoje para nós (nossas comunidades) ele poderia ser grato a Deus pela nossa fé?
Intercessão amorosa
(v. 9-10) Pois Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, me é testemunha de como incessantemente faço menção de vós, pedindo sempre em minhas orações que, afinal, pela vontade de Deus, se me ofereça boa ocasião para ir ter convosco.
O fato de Paulo não conhecer a maioria dos cristãos que moravam em Roma, mas conhecia muitos a quem nomeia ao final da carta, isso nunca foi empecilho para que ele intercedesse em favor das suas vidas. Ele os tinha em seu coração, pois somente se ora por aqueles que se ama, talvez seja essa a triste razão pelas quais nossas orações são tão egocêntricas, pois amamos muito a nós mesmos e pouco as demais pessoas. Paulo sentia-se responsa´vel e tinha “cuidado de todas as igrejas” (I Co 11.28). Como seria diferente as nossas vidas se seguíssemos o exemplo de Paulo e orássemos mais frequentemente pelas pessoas, mesmo que não as conhecêssemos. Como seria diferente se orássemos mais por todas as igrejas e não apenas pela nossa denominação. Jamais me esquecerei de um pastor que se alegrava pelo fato de que uma igreja de outra denominação estava passando por problemas pastorais e muitos membros estavam vindo para sua igreja – lamentável atitude! Nestas palavras fica evidente o valor que Paulo dava a oração intercessora (uma das reuniões das igrejas evangélica menos concorrida são as reuniões de oração). Na mesma proporção em que a igreja deixa de orar ela se mundaniza.
Paulo não começou a orar pelos cristãos em Roma enquanto escrevia a carta, mas ele a muito sempre orava em favor deles “incessantemente faço menção de vós, ... pedindo sempre [em todo o tempo] em minhas orações”.  O termo grego utilizado por Paulo denota a ideia de “em todas as minhas orações” ou ainda, “sempre me dirijo a Deus em minhas orações”, popularmente “todas as vezes que oro”. A oração é o termômetro da nossa fé – muita oração, muita fé; pouca oração, pouca fé; nenhuma oração, nenhuma fé.
Demonstramos realmente a preocupação pela vida de alguém quando nos dispomos a orar por ela. Revelamos o quanto nos preocupa de fato o destino do nosso País, não twitando ou postando críticas e defesas no facebook, mas quando dobramos os nossos joelhos e intercedemos pelo Brasil. John Knox orava diariamente e sem cessar: “Senhor, dá-me a Escócia, senão eu morro!” E a Escócia tornou-se uma Nação protestante e foi importante na obra missionária (lamentavelmente não há mais John Knox na Escócia e ela tem retrocedido aos tempos da incredulidade e da irreverência). O salmista conclama a todos para que “orem pela paz de Jerusalém”.
Antes de preocupar-se com seus planos, ainda que convicto de que era da parte de Deus, Paulo revela sua preocupação com o bem estar dos cristãos em Roma. Ele sabia que tudo deveria ser submetido a Deus em oração e que, sem ela, todos os melhores planos e planejamentos se perderiam.  Lembremos que tudo quanto formos fazer, das mais simples às mais complexas, devem ser colocadas diante de Deus – Tiago exorta: “nunca diga arrogantemente eu vou fazer isso e aquilo, mas em profunda humildade coloque tudo diante de Deus e diga, se Deus quiser farei isso ou aquilo”. Charles Hodge observa: “a providência de Deus deve ser reconhecida em relação aos assuntos mais simples da vida”. E quando oramos, mas nada fazemos estamos zombando de Deus; e quando fazemos as coisas sem orarmos antes estamos roubando a glória de Deus (Robert Haldane). Os grandes fracassos do evangelicalismo moderno é que primeiramente se faz as coisas e somente depois, quando tudo se revela um fracasso, acorrem a Deus em desespero. As batalhas da vida cristã somente são ganhas por aqueles que antes de iniciar a luta já estava orando. A rainha Elizabete I dizia que temia mais as orações dos cristãos do que os exércitos inimigos – os corruptos de nossa Nação temem as orações dos evangélicos? O inferno treme em pavorosa quando nos reunimos para orar? Vidas são transformadas quando nos propomos a orar? As cracolândias e a corrupção no Brasil somente deixaram de existir quando o povo de Deus começar a orar – antes disso somente nos cabe o corar de vergonha, como tão bem expressou Daniel em sua oração.
Fortalecimento mútuo
(v. 11-12) Porque desejo muito ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais fortalecidos; isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado em vós pela fé mútua, vossa e minha.
O apóstolo revela um genuíno apresso e respeito por aqueles irmãos quando afirma que a sua própria fé será fortalecida pela fé deles, como a deles pela sua. Ele não estava apenas tentando ser gentil: realmente cria nisto. Este é o fator máximo da genuína comunhão cristã – crescimento espiritual mútuo. O termo usado por Paulo ”fortalecido” trás a ideia de ser edificado, ser tornado mais completo e até mesmo de ser separado, ou seja, apesar deles assim como o próprio apóstolo expressarem uma fé genuína, ambos necessitam sempre de serem fortalecidos – a conversão não é o fim, mas apenas o começo da jornada cristã. João Calvino declara: “Não há ninguém tão pobre na igreja de Cristo que não possa compartilhar conosco algo de valor”. Os cristãos de Corinto foram censurados pelo apóstolo por optarem em permanecerem agindo como “crianças em Cristo” (1 Co 3.1). Fazendo uma analogia com as palavras de Jesus: o caminho largo da infantilidade espiritual é amplo e espaçoso e a maioria opta por ele, mas o caminho estreito, espinhento e pedregoso da maturidade é estreito e são poucos os que perseveram nele. Há muito nossas reuniões e cultos perderam essa dimensão da comunhão que produz fortalecimento da fé. Os shows gospel servem apenas como entretenimento e de gosto discutíveis, mas jamais servira para estimular o crescimento e maturidade espiritual resultante de uma fé genuína. Servem como berçário e creche nada mais!
Ha' uma admirável mutualidade no serviço de Deus. Pense: quanto do sucesso do ministério de Paulo foi devido 'as
orações dos fiéis? Oramos nós pelos ministradores do evangelho, oficiais ou leigos, que fazem o trabalho que os anjos gostariam de fazer que e' contar as boas novas do Evangelho?
Uma grande responsabilidade
(v. 13-14) E não quero que ignoreis irmãos, que muitas vezes propus visitar-vos (mas até agora tenho sido impedido), para conseguir algum fruto entre vós, como também entre os demais gentios. Eu sou devedor, tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes.
Há muito tempo que Paulo acalenta o desejo de ir a Roma e estar usufruindo da comunhão daqueles irmãos, mas por razões independentes de sua vontade ele ainda não pode realizar esse propósito. Paulo tinha plena consciência da relevância estratégica da comunidade cristã romana e já projetava fazer dela uma nova base para alcançar outras regiões além-mar (ex. Espanha).
Desde sua conversão o Senhor Jesus deixou bem claro qual o propósito para o qual Paulo fora chamado – levar o evangelho aos gentios, todavia como judeu ele também se sentia responsável em comunicar as boas novas aos seus patrícios da diáspora; Paulo havia estudo no maior centro acadêmico de seus dias, mas jamais deixou de se preocupar com os mais simples e analfabetos. Pesava sobre os ombros de Paulo a responsabilidade de comunicar o Evangelho a todas as pessoas, independente de sua etnia ou cultura, em todos os lugares e nada menos do que isso importava para o velho apóstolo.
Pronto
(v. 15) De modo que, quanto está em mim, estou pronto para anunciar o evangelho também a vós que estais em Roma.
Todos os obstáculos e todos os impedimentos que até então tinham adiado a ida de Paulo a Roma não foram suficientes p ara diminuir um mínimo que fosse do desejo ardente que tinha de estar com os irmãos na Capital. Como deixou claro desde a muito tempo esse desejo tem sido acalentado em seu coração e os adiamentos apenas serviram para confirmar a sinceridade desta vontade. Quando nossos propósitos são sinceros e visam a glória de Deus e a expansão do Reino nenhum obstáculo é suficiente para demovê-lo de nossos corações. Mas todos os propósitos que se desvanece com o passar dos anos é porque na verdade nunca estiveram arraigados em nossos corações. Aqui temos ao menos dois aspectos muito interessantes: Paulo sabia ou tinha muito claro de que tudo que até então o havia impedido de estar com aqueles irmãos em Roma estavam debaixo da vontade de Deus, ou seja, ainda não era o tempo oportuno, não era o melhor momento, de maneira que cabia ao apóstolo continuar orando e aguardando que Deus lhe permitisse alcançar seu objetivo; segundo, se desde a primeira vez Paulo realizasse seu desejo, certamente não teríamos em nossas mãos essa preciosa carta, que tem sido instrumento do Espírito Santo para salvação, edificação e avivamento espiritual de milhares ou milhões de cristãos no mundo inteiro. Agostinho, Martinho Lutero, John Bunyan (autor de “Peregrino”), John Wesley estão entre aqueles que tiveram sua vidas transformadas pela leitura e estudo desta epístola. Dentro do propósito eterno do Espírito Santo, na composição das Escrituras Sagradas, havia a carta dirigida aos crentes em Roma, escrita pelo apóstolo Paulo, e somente depois que ele a escreveu foi liberado para ir a Roma. Foi assim com Paulo e continua sendo assim na vida de todos os cristãos, pois os obstáculos, dificuldades e impedimentos estão sempre subordinados à vontade soberana do Espírito Santo. As frustrações e decepções são decorrentes do fato que nos esquecemos desta verdade.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas
BARCLAY, William. Romanos - El Nuevo Testamento comentado. Buenos Aires (Argentina), Asociación Editorial la Aurora, 1974.
BRUCE, F. F. Romanos – introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1991.
CALVINO, João. Exposição de Romanos. Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: Edições Paracletos, 1997. [Comentário à Sagrada Escritura].
CRANFIELD, C. E. B. Carta aos Romanos. Tradução Anacleto Alvarez. São Paulo: Edições Paulinas, 1992. [Grande Comentário Bíblico].
ERDMAN, Charles R. Comentários de Romanos. Tradução Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, s/d. (Fhiladelphia: The Westminster Press, 1925).
GREATHOUSE, William M. A epístola aos Romanos. Tradução Degmar Ribas Júnior. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. [Comentário Bíblico Beacon, v. 8].
KERTELGE, Karl. A epístola aos romanos. Tradução de Assis Pitombeira. Petrópolis (RJ): Editora Vozes, 1982. [Coleção Novo Testamento – comentário e mensagem, nº 6].
LLOYD-JONES, D. Martyn. Romanos – o Evangelho de Deus. Tradução Odayr Olivetti. São Paulo: Editora PES, 1998. [Exposição sobre Capítulo 1].
WILSON, Geoffrey B. Romanos – um resumo do pensamento reformado. Tradução Fernando Quadros Gouvêa. São Paulo: PES, 1981.