Uma conversa com Miles V. Van Pelt sobre o Antigo Testamento, a História da Redenção e Cristo
Apresentação: Ivan P. Guedes
Mestre em Ciências da Religião, teólogo, professor e pesquisador
Obra-base: A Biblical-Theological
Introduction to the Old Testament: The Gospel Promised
Editor: Miles V. Van Pelt
Abertura: Olá! Seja muito
bem-vindo ao Podcast Reflexão Bíblica.
Eu sou Ivan P. Guedes, Mestre em Ciências da Religião,
teólogo, professor e pesquisador.
Hoje iniciamos uma nova série: O Evangelho Prometido — Uma
caminhada bíblico-teológica pelo Antigo Testamento.
Para esta jornada, teremos como nossa principal referência a obra A
Biblical-Theological Introduction to the Old Testament: The Gospel Promised,
organizada por Miles V. Van Pelt.
Ao longo dessa caminhada, vamos percorrer o Antigo Testamento
procurando compreender seus livros não como histórias isoladas, mas como partes
de uma grande narrativa: a história da redenção. Para nos acompanhar
nessa jornada, teremos como principal referência a obra A
Biblical-Theological Introduction to the Old Testament: The Gospel Promised,
organizada por Miles V. Van Pelt, que reúne a contribuição de diversos
autores especializados no estudo do Antigo Testamento.
É com grande alegria que recebemos, neste primeiro programa, o
próprio editor da obra que nos acompanhará nessa jornada.
Professor Van Pelt, seja muito bem-vindo ao Podcast Reflexão
Bíblica!
Me. Guedes: Professor Van Pelt, antes de
entrarmos diretamente na obra, gostaria que nossos leitores e ouvintes
conhecessem um pouco melhor o senhor.
Sua trajetória acadêmica está profundamente relacionada ao estudo
do Antigo Testamento e das línguas bíblicas. Como nasceu esse interesse? O que
levou o senhor a dedicar sua vida acadêmica ao estudo das Escrituras do Antigo
Testamento?
Miles V. Van Pelt: O interesse
pelo Antigo Testamento nasce, em primeiro lugar, do reconhecimento de que não
podemos compreender adequadamente a fé cristã sem compreender as Escrituras que
formam o fundamento histórico e teológico sobre o qual o Novo Testamento está
construído.
O Antigo Testamento é a primeira grande parte da história da
revelação de Deus. É nele que encontramos a criação, a queda, a promessa, a
aliança, a eleição de um povo, a instituição do sacerdócio, os sacrifícios, o
reino, o exílio e a esperança da restauração.
Tudo isso constitui o cenário no qual a mensagem do Novo
Testamento deve ser compreendida. Por isso, estudar o Antigo Testamento não
é apenas estudar uma coleção de documentos antigos. É entrar na história da
maneira como Deus revelou seu propósito redentor.
Por que
uma nova introdução ao Antigo Testamento?
Me. Guedes: Existem muitas introduções ao Antigo
Testamento. Algumas concentram-se nas questões históricas; outras discutem
autoria, datação e composição; há aquelas que trabalham principalmente os
aspectos literários e outras que procuram apresentar a teologia dos diferentes
livros.
O que motivou o senhor e os demais colaboradores a produzirem uma
obra como A Biblical-Theological Introduction to the Old Testament? O
que significa, afinal, uma Introdução Bíblico-Teológica ao Antigo Testamento?
Miles V. Van Pelt: Uma introdução
bíblico-teológica procura fazer algo que vai além da simples apresentação das
informações introdutórias de cada livro.
Naturalmente, precisamos conhecer o contexto histórico, a estrutura
literária e as características particulares de cada escrito. Mas essas
informações não são um fim em si mesmas.
Todavia, há novas perguntas que merecem serem feitas: como este
livro participa da história da revelação de Deus? Qual é o seu lugar na
história da redenção? Como ele se relaciona com os demais livros das
Escrituras? E, finalmente, como sua mensagem contribui para a compreensão do
Evangelho?
Por essa perspectiva passamos a entender cada livro em seu contexto
próprio, mas também dentro da unidade maior das Escrituras.
O
Evangelho Prometido
Me. Guedes: Chegamos, então, ao título da obra: The
Gospel Promised — O Evangelho Prometido.
Essa expressão chama imediatamente a nossa atenção. Quando pensamos
em Evangelho, normalmente pensamos nos quatro Evangelhos do Novo Testamento.
Como podemos, então, falar de Evangelho Prometido quando estamos
estudando o Antigo Testamento? Em que sentido o Evangelho já estava presente
nas Escrituras do Antigo Testamento?
Miles V. Van Pelt: O Evangelho não
começa no Novo Testamento. O Novo Testamento apresenta o cumprimento daquilo
que Deus havia prometido e desenvolvido ao longo da história da redenção.
Por esta razão podemos dizer que o Antigo Testamento é o Evangelho
em sua forma prometida e antecipada.
Desde os primeiros capítulos de Gênesis, encontramos a realidade da
queda e, ao mesmo tempo, a esperança da redenção. A promessa vai sendo
desenvolvida progressivamente. Ela aparece nas alianças, nas promessas feitas
aos patriarcas, na formação de Israel, no estabelecimento do reino, na
instituição do sacerdócio e dos sacrifícios e na voz dos profetas.
Tudo isso prepara o caminho para a vinda daquele que cumprirá
definitivamente as promessas de Deus. Por isso, podemos dizer:
O Antigo Testamento anuncia o Evangelho como promessa; o Novo
Testamento apresenta o Evangelho como cumprimento.
A
unidade das Escrituras
Me. Guedes: Essa afirmação nos leva diretamente
a outra questão. Temos uma Bíblia formada por muitos livros, diferentes
autores, diferentes épocas, diferentes contextos históricos e diferentes
gêneros literários. Mas, ao mesmo tempo, afirmamos que existe uma unidade
profunda nas Escrituras.
Como devemos compreender essa unidade? Podemos realmente falar de
uma única grande história atravessando todo o Antigo Testamento?
Miles V. Van Pelt: Sim. Embora
reconheçamos a diversidade dos livros bíblicos, precisamos também reconhecer a
unidade da revelação.
Gênesis não está isolado de Êxodo. Êxodo não está isolado de
Levítico. Os livros históricos não estão isolados dos profetas. Os Salmos
dialogam com a história de Israel, e os profetas retomam as promessas e as
alianças anteriores.
Existe uma continuidade. A Bíblia apresenta uma história que se
desenvolve progressivamente. Podemos pensar nessa história como um movimento
que parte da criação, passa pela queda, desenvolve a promessa
e a aliança, avança para a redenção e o Reino, atravessa o
exílio e aponta para a restauração e o cumprimento.
Cada livro acrescenta algo à compreensão dessa grande narrativa.
A
história da redenção
Me. Guedes: Professor, gostaria de aprofundar
justamente essa questão da história da redenção.
Quando observamos o Antigo Testamento, encontramos criação, queda,
promessa, aliança, juízo, redenção, sacerdócio, sacrifícios, reino, exílio e
restauração. Como todos esses acontecimentos se relacionam? Existe uma linha
que conecta Gênesis a Malaquias?
Miles V. Van Pelt: A história da
redenção é a história do propósito de Deus de redimir seu povo e restaurar sua
criação.
Ela começa com a criação. Mas a entrada do pecado no mundo produz
uma ruptura profunda. A humanidade se afasta de Deus, a criação é afetada e a
morte entra na história.
Mas Deus não abandona seu propósito. A promessa de redenção surge
imediatamente no contexto da queda e começa a avançar através da história. Deus
chama Abraão, estabelece uma aliança, forma Israel, liberta seu povo do Egito,
conduz Israel à Terra Prometida, estabelece a monarquia e promete uma linhagem
real.
Mais tarde, o exílio se apresenta como juízo. Ainda assim, mesmo no
juízo, Deus preserva a esperança. Os profetas anunciam um futuro de
restauração. Portanto, a história do Antigo Testamento não é uma sequência de
fracassos sem sentido. É uma história na qual Deus permanece fiel à sua
promessa.
A
centralidade de Cristo
Me. Guedes: Chegamos agora a uma questão
fundamental para a leitura cristã do Antigo Testamento: Jesus
Cristo.
Como devemos ler o Antigo Testamento à luz de Cristo? E, ao mesmo
tempo, como podemos evitar uma leitura artificial ou alegórica, na qual
simplesmente encontramos Jesus em cada detalhe do texto?
Como equilibrar uma leitura verdadeiramente cristocêntrica com o
respeito ao significado original de cada livro?
Miles V. Van Pelt: Essa é uma
questão muito importante, pois uma leitura cristocêntrica não significa ignorar
o contexto original do texto. Precisamos primeiro compreender o que cada livro
comunicava em seu próprio contexto histórico e literário.
Mas também precisamos reconhecer que o Antigo Testamento faz parte de
uma história maior. Não podemos esquecer que a revelação é progressiva. O que
começa como promessa vai adquirindo maior clareza ao longo da história.
Por isso, quando chegamos ao Novo Testamento, podemos olhar para
trás e compreender de maneira mais completa aquilo que Deus estava realizando.
Cristo não deve ser inserido artificialmente no Antigo Testamento.
Ele deve ser compreendido como o cumprimento da história que o próprio Antigo
Testamento desenvolve.
Essa é uma diferença fundamental. Não estamos procurando Cristo em
detalhes arbitrários. Estamos reconhecendo que a história da redenção encontra
nele seu centro e seu cumprimento.
Aliança,
Reino e Promessa
Me. Guedes: Na proposta da obra, percebemos a
importância de conceitos como aliança, Reino de Deus, promessa e história da
redenção.
Como esses conceitos ajudam o leitor a compreender a unidade do
Antigo Testamento? Existe uma relação entre a estrutura pactual das Escrituras
e a progressão da promessa do Evangelho?
Miles V. Van Pelt: Sim. As
alianças são fundamentais para compreender a maneira como Deus estrutura seu
relacionamento com seu povo e desenvolve suas promessas. A história bíblica não
é aleatória. Deus age de maneira ordenada e progressiva. As alianças ajudam o
leitor a perceber essa continuidade.
Ao mesmo tempo, o tema do Reino nos ajuda a compreender o propósito
de Deus para sua criação e para seu povo. Pois, existe uma relação profunda
entre Deus, seu povo, sua terra, seu Reino e suas promessas.
À medida que avançamos pelo Antigo Testamento, percebemos que essas
promessas apontam para uma realidade que ainda aguarda seu cumprimento
definitivo. E é justamente nesse ponto que o Novo Testamento nos conduz a
Cristo.
Como
utilizar esta obra?
Me. Guedes: A obra reúne diferentes estudiosos e
percorre os livros do Antigo Testamento. Como o leitor deve utilizar este
livro? Ele deve começar em Gênesis e seguir até o final ou pode consultar
diretamente um determinado livro da Bíblia?
E qual foi o critério utilizado para organizar a contribuição dos
diferentes autores?
Miles V. Van Pelt: O leitor pode
utilizar a obra das duas maneiras. Ela pode ser lida progressivamente,
acompanhando a ordem dos livros bíblicos. Nesse caso, o leitor terá uma visão
panorâmica da história da redenção.
Mas também pode ser utilizada como uma ferramenta de consulta. Se
alguém estiver estudando Isaías, por exemplo, poderá recorrer diretamente ao
capítulo correspondente.
Nossa proposta foi oferecer ao leitor uma introdução que fosse útil
tanto para o estudante quanto para o pastor, professor ou cristão interessado
em compreender melhor o Antigo Testamento.
Uma
caminhada pelo Antigo Testamento
Me. Guedes: Professor Van Pelt, a partir deste
primeiro programa, iniciaremos uma longa caminhada. Começaremos em Gênesis.
Depois passaremos por Êxodo, chegaremos a Levítico, caminharemos
pelo deserto de Números e ouviremos novamente a voz de Moisés em Deuteronômio.
Entraremos na Terra Prometida, conheceremos os juízes e os reis,
passaremos pelos Salmos e pela literatura sapiencial, ouviremos a voz dos
profetas, atravessaremos o exílio e chegaremos às grandes expectativas
messiânicas que encerram o Antigo Testamento.
Se o senhor pudesse oferecer uma única chave de leitura para alguém
que está começando essa jornada conosco, qual seria?
Miles V. Van Pelt: Leia o Antigo
Testamento como uma história. Mas não simplesmente como uma história sobre
Israel. Leia-o como a história da ação de Deus na redenção.
Leia cada livro em seu próprio contexto, mas nunca o leia
isoladamente. Pergunte sempre: onde este livro está situado na história da
redenção? Que promessa está sendo desenvolvida? Como este livro se relaciona
com aquilo que veio antes? E como prepara o caminho para aquilo que virá
depois?
Ao fazer esse exercício, o leitor começará a perceber que o Antigo
Testamento possui uma unidade extraordinária. E perceberá também que essa
história está caminhando em direção a um cumprimento.
Uma
palavra ao leitor
Me. Guedes: Professor Van Pelt, imagine que
alguém está lendo (ouvindo) agora. Talvez seja um pastor, um professor de
Escola Bíblica, um estudante de Teologia ou simplesmente um cristão que deseja
compreender melhor sua Bíblia.
E pensa: "Por onde devo começar?" Que
conselho o senhor daria?
Miles V. Van Pelt: Comece pela
própria Bíblia. Leia. Observe. Procure compreender. Não tenha pressa. O Antigo
Testamento é uma grande biblioteca, mas também é uma grande história.
Conheça seus livros. Observe suas conexões. Preste atenção às
promessas. Observe as alianças. Acompanhe o desenvolvimento do Reino. Escute a
voz dos profetas.
E, acima de tudo, permita que as Escrituras
conduzam você à grande esperança que atravessa toda a história bíblica. O
Evangelho foi prometido. E essa promessa é o fio que percorre a história da
redenção.
Pausa
para reflexão
Me. Guedes: Querido leitor e ouvinte, chegamos a
um momento de pausa. Talvez esta seja uma boa oportunidade para fazermos uma
pergunta simples: Como você lê o Antigo Testamento?
Quando abre suas páginas, você vê histórias isoladas, personagens,
leis, guerras e profecias? Ou consegue perceber uma grande história se
desenvolvendo diante de seus olhos?
Uma história que começa com a criação, passa pela tragédia da
queda, recebe uma promessa, avança por meio das alianças, caminha através de um
povo, encontra-se com reis, sacerdotes e profetas, passa pelo juízo e pelo
exílio e continua apontando para uma esperança: a esperança do Messias, a
esperança da redenção, a esperança do Evangelho.
Talvez esta seja uma das primeiras grandes descobertas que faremos
nesta caminhada: O Antigo Testamento não é o Evangelho cumprido. É o
Evangelho prometido.
E é justamente essa promessa que iremos acompanhar.
Encerramento
da entrevista
Me. Guedes: Professor Van Pelt, muito obrigado
por estar conosco neste primeiro programa.
Obrigado por nos ajudar a abrir esta grande janela para o Antigo
Testamento.
A partir deste momento, iniciaremos uma caminhada que será longa,
mas profundamente significativa. Vamos percorrer os livros do Antigo
Testamento, conhecer seus autores, observar seus contextos, descobrir suas
estruturas, aprender seus temas teológicos e procurar compreender como cada
parte participa da grande história da redenção.
Muito obrigado pela sua participação.
Conclusão
Ivan P. Guedes: E assim
chegamos ao final do nosso primeiro programa. Hoje começamos nossa caminhada
conhecendo a proposta de O Evangelho Prometido.
Ainda não entramos propriamente em Gênesis. Antes, precisávamos
compreender o caminho que percorreremos. Precisávamos perguntar: Como
devemos ler o Antigo Testamento? Como seus livros se relacionam? Como a
promessa se desenvolve ao longo da história? E como essa história aponta para
Cristo?
Nos próximos programas, deixaremos essa visão panorâmica e
começaremos a caminhar livro por livro.
Nossa primeira parada será em Gênesis.
Ali, no princípio de todas as coisas, encontraremos a criação.
Encontraremos a queda. Encontraremos a promessa. E encontraremos as primeiras
sementes daquela esperança que atravessará toda a história bíblica.
Uma promessa que, ao longo das Escrituras, continuará crescendo até
que, um dia, a promessa se encontrará com o cumprimento.
Por
isso, eu convido você a continuar caminhando conosco.
Eu sou Ivan P. Guedes.
Este é o Podcast Reflexão Bíblica.
E esta foi a nossa primeira caminhada por O
Evangelho Prometido.
Até o nosso próximo encontro.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
https://historiologiaprotestante.blogspot.com/
Referência bibliográfica
VAN PELT, Miles V. (ed.). A Biblical-Theological Introduction to
the Old Testament: The Gospel Promised. Wheaton: Crossway, 2016
Próximo programa
Gênesis
— O Evangelho Prometido no Princípio
Apresentação: Me. Ivan P. Guedes
Obra-base: A Biblical-Theological Introduction to the Old Testament:
The Gospel Promised
Série: O Evangelho Prometido — Uma caminhada bíblico-teológica pelo
Antigo Testamento
Artigos Relacionados
Literatura Histórica do Antigo Testamento: Introdução
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/08/literatura-historica-do-antigo.html
Visão geral dos livros do Primeiro Testamento
https://reflexaoipg.blogspot.com/2018/10/visao-geral-dos-livros-do-primeiro.html
Quadro Comparativo dos Cânones do Primeiro Testamento
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/02/quadro-comparativo-dos-canones-do.html
VT - Os Livros Pseudoepígrafos
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/09/vt-os-livros-pseudepigrafos.html
História do Antigo Israel: Uma Revisão desde a Divisão do Reino –
Judá
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/12/historia-do-antigo-israel-uma-revisao.html
História do Antigo Israel: Uma Revisão desde a Divisão do
Reino – Israel
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/09/historia-do-antigo-israel-uma-revisao_30.html
Pentateuco: Introdução Geral
https://reflexaoipg.blogspot.com/2016/02/pentateuco-introducao-geral.html

Nenhum comentário:
Postar um comentário