No
Evangelho de Mateus, o termo grego πίστις (pistis), cuja tradução
é fé,
aparece de modo muito significativo, revelando não apenas uma atitude interior
de confiança, mas uma resposta concreta à pessoa, à autoridade e ao
poder de Jesus. Este termo grego ocorre oito vezes, distribuído em oito
versículos, e na perspectiva de Mateus, a fé não é tratada como mera
abstração religiosa, mas como confiança viva, perseverante e eficaz diante de
Cristo. Quando examinadas essas ocorrências, percebe-se que Mateus desenvolve
uma teologia da fé marcada pela dependência de Jesus, sempre na expectativa do agir divino e pela oposição entre fé verdadeira e
incredulidade.
A
primeira ocorrência se encontra em Mateus 8:10, no episódio do
centurião. Ao ouvir a declaração daquele homem, Jesus destaca a qualificação de
sua fé
e contrasta com a incredulidade dos seus ouvintes judeus, afirmando que nem
mesmo em Israel encontrou fé tão grande. A narrativa de Mateus destaca que essa
fé
não é mera crença intelectual, mas confiança radical na autoridade da palavra
de Cristo. O centurião, ao declarar que era suficiente uma ordem de Jesus para
que seu servo fosse curado, demonstra uma fé caracterizada por humildade,
reconhecimento da autoridade (exousia) e confiança absoluta. O
que evidência ainda mais o contraste com seus ouvintes: um gentio
manifesta a fé
que deveria ser encontrada no povo da aliança. Em Mateus, portanto, a fé
genuína é aquela que discerne quem Jesus é e descansa/confia plenamente
em sua palavra.
Em
Mateus 9:2, o termo pistis (fé) aparece novamente como elemento central da
narrativa, quando trouxeram a Jesus um paralítico deitado numa cama, o texto
diz que Jesus, vendo a fé deles, declarou perdoados os pecados do enfermo. Aqui,
a fé não é atribuída somente ao paralítico, mas aos amigos que o trouxera até
Jesus. Neste particular o texto enfatiza uma dimensão comunitária da pistis:
confiança compartilhada que se manifesta em ação concreta. A fé não é
apenas uma disposição espiritual, mas deve ser encarnada em ações concretas
como este gesto de carregar o paralítico até Cristo, superando obstáculos. É
interessante notar que Cristo faz uma inversão de expectativa. Os amigos, o
paralitico e todos os presentes esperam que Jesus faça o milagre, mas Jesus
primeiramente faz uma declaração de perdão dos pecados. Com isso a narrativa de
Mateus conecta a fé não apenas ao milagre visível, mas também à graça mais
profunda da restauração espiritual. A pistis abre caminho para a
manifestação do reino de Deus no corpo e na alma.
Em
Mateus 9:22, no relato da mulher que sofria havia anos, Jesus lhe diz: “Filha,
tem bom ânimo; a tua fé te salvou”. A fé aqui é apresentada como
confiança pessoal e corajosa. A mulher se aproxima, toca nas vestes de Jesus e
crê que dele procede poder restaurador. O texto de Mateus quer enfatizar que o
termo central não é a cura em si, mas a pistis — a fé da
mulher. O verbo usado por Jesus é sōzō (“salvar”), que tem sentido
duplo, podendo significar tanto “curar” quanto “salvar” em
sentido espiritual. Ao escolher essa expressão o evangelista destaca que a fé
da mulher não apenas resultou na restauração física, mas sobretudo na salvação
integral.
Logo
depois, em Mateus 9:29, Jesus toca os olhos de dois cegos e declara: “Seja-vos
feito segundo a vossa fé”. Nesta perícope temos um extraordinário paradoxo
– aqueles dois homens privados da visão física enxergaram, antes de todos,
aquilo que muitos com olhos saudáveis não conseguiam ver: Jesus é o Filho de
Davi, o Messias esperado. Eles clamaram por misericórdia sem jamais terem
visto o rosto de Cristo, mas já o reconheciam pela fé (pistis). O paradoxo é
confrontador - os cegos viam, e os que viam eram cegos. Os
líderes religiosos, com toda sua instrução e visão, não discerniam quem estava
diante deles. Já aqueles marginalizados, sem luz nos olhos, possuíam luz no
coração. A fé foi sua visão antecipada, capaz de revelar o invisível. A
resposta de Jesus — “Seja-vos feito segundo a vossa fé” — é o ápice deste paradoxo:
aqueles cegos já enxergavam antes de ver. Não precisaram de provas,
sinais ou milagres para reconhecer o Messias; foi a fé que lhes abriu os olhos. Eles
chamaram Jesus de Filho de Davi sem jamais terem visto seu rosto,
enquanto muitos que viam claramente permaneciam cegos para sua identidade. Aqui
está a exortação da narrativa, pois podemos ter olhos saudáveis (teologia,
práxis) e, no entanto, sermos cegos para a presença de Cristo. O texto
nos desafia a cultivar uma fé que vê antes de ver, uma confiança plena no
Messias mesmo quando uma maioria o negue. Aqui, Mateus nos lembra que a fé é visão.
E se os cegos viram primeiro, é porque a verdadeira luz não entra pelos olhos,
mas pelo coração que crê.
Em
Mateus 15:28, diante de uma mulher cananeia, Jesus exclama: “Ó
mulher, grande é a tua fé”. Essa é uma das declarações mais intensa do
evangelho sobre pistis. Aqui, pistis não é apenas crença, mas
perseverança confiante diante da aparente recusa de Jesus. Ela se mostra
resiliente: mesmo após ouvir palavras duras — “não é bom tomar o pão dos
filhos e lançá-lo aos cachorrinhos” (v. 26) — ela insiste, reconhecendo sua
condição e, ainda assim, confiando na misericórdia de Jesus. O texto fica ainda
mais extraordinário quando se destaca o fato de que ele é uma estrangeira
(gentia) e de etnia “Sirofenícia” (cf. Marcos 7:26), portanto historicamente
inimigos dos judeus. Mas ela está disposta a romper essa muralha étnica e sua fé a mantém
em perseverança humilde; ela insiste porque sabe que a misericórdia de Jesus é
maior que qualquer barreira étnica. E aqui temos o contraste, pois uma
estrangeira, considerada excluída, é exaltada por Jesus como exemplo de grande fé,
mostrando que a verdadeira espiritualidade não depende da etnia, mas da
confiança perseverante Nele. Em sua narrativa Mateus mostra, que a fé
verdadeira não desiste facilmente. Ela é humilde, insistente e determinada,
especialmente quando busca socorro para a vida de outro. Mais uma vez, a fé é
reconhecida por Jesus e resulta em restauração.
Em
Mateus 17:20, Jesus confronta os discípulos por causa da incredulidade
deles e afirma que, se tiverem fé como um grão de mostarda, nada lhes será
impossível. Aqui o termo πίστις (pistis) aparece novamente como chave.
Não se trata de quantidade, mas de qualidade. A ilustração do
grão de mostarda é significativo e pedagógico, apesar de ser a menor das
sementes, é vivo, cheio de potencial. Igualmente é a fé: não precisa ser grande
aos olhos humanos, mas precisa ser qualificada e fundamentada no poder de Deus.
As palavras exortativas de Jesus é pelo fato de que eles estavam presenciando Seus
milagres e ouviam Seus ensinos, ainda assim tropeçavam na incredulidade.
Já outros — como o centurião romano ou a mulher cananeia —
mostravam fé extraordinária, mesmo sem pertencer ao círculo íntimo. O texto é
um espelho que nos confronta com nossa própria incredulidade. Quantas vezes,
mesmo cercados de evidências da presença de Deus, hesitamos em confiar? Uma fé pequena,
simples, mas viva, é suficiente para abrir espaço ao impossível. Quem crê, ainda
que como um grão de mostarda, já possui em si a força que move montanhas.
Aqui, a pistis é contrastada diretamente à falta de fé. A ênfase não está no tamanho quantitativo da fé, mas em sua autenticidade. Mesmo pequena, se for real, ela participa do poder de Deus. A imagem do grão de mostarda sugere algo aparentemente insignificante, mas vivo e verdadeiro. Em Mateus, a fé é poderosa não por causa da força humana, mas porque está ligada ao Deus para quem nada é impossível.
Em
Mateus 21:21, após a figueira ter secado diante dos olhos dos
discípulos, Jesus declara: “Em verdade vos digo que, se tiverdes fé (pistis)
e não duvidardes,
não só fareis o que foi feito à figueira, mas até se a este monte disserdes:
ergue-te e lança-te no mar, isso se fará.” Aqui Jesus contrasta a fé com a
incredulidade. O contexto é simbólico: a figueira, estéril, representa a
religiosidade sem frutos, a aparência sem vida. Os discípulos ficam
impressionados com o poder da palavra de Jesus, mas Ele os conduz além
do espanto: o mesmo poder está disponível a quem crê. O maior problema nosso é
que ficamos apenas impressionado com o poder de Deus, mas nos falta a fé para
manifestá-las nas circunstâncias cotidianas da vida. Nos falta fé para
superarmos as muralhas que surgem diante de nós e que Deus é poderoso para
derrubá-las como fez nos dias de Josué. A exortação é clara: não é suficiente se
impressionar/admirar o poder de Cristo, é preciso participar dele pela fé. O
discípulo é chamado a confiar sem reservas, a crer mesmo quando tudo parece
contrário. A fé não é misticismo, mas confiança radical em Deus, que torna
possível o que humanamente é impossível. Quem crê não se limita ao que vê;
quem crê já participa do impossível.
A
última vez que Mateus usa o termo pistis (fé) está em 23:23,
na cena em que Jesus censura os escribas e fariseus porque eles se
preocupavam com minúcias religiosas, mas negligenciavam os aspectos mais
importantes da lei: o juízo, a misericórdia e a fé. Para Jesus a fé genuína
se manifesta na prática dos princípios da Palavra de Deus. Mais uma vez o
paradoxo é contrastante, pois aqueles que se julgavam guardiões da Lei estavam
cegos para o coração da Lei. Eles viam o detalhe, mas não enxergavam o todo. Jesus
os confronta: não basta religiosidade minuciosa; é preciso fidelidade
que se manifesta em amor e justiça. A fé verdadeira não é
ativismo religioso, nem ortodoxia eclesiástica, mas uma fé que gera
misericórdia e justiça. Na sua narrativa, Mateus deixa claro que pistis é o
eixo que sustenta a vida diante de Deus — não como aparência, mas como fé que
se traduz em obras. É justamente dessa compreensão que Tiago retira sua
exortação: “A fé sem obras é morta” (Tiago 2:17).
Estas
palavras de Jesus nos chama a examinar se nossa fé é apenas formalismo teológico
ou se é fidelidade vivencial. Lembrando que Jesus não se impressiona com agendas
religiosas se o coração permanece vazio de justiça e misericórdia.
A verdadeira pistis (fé) é visão espiritual que nos faz enxergar o
essencial: amar a Deus e ao próximo, síntese de toda a Escritura – o que
não inclui isso é apenas religiosidade.
Utilização
livre desde que citando a fonte
Guedes,
Ivan Pereira
Mestre
em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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