quinta-feira, 9 de abril de 2026

Mateus: O Termo Fé (πίστις -Pistis) na Sua Narrativa Evangélica

 

No Evangelho de Mateus, o termo grego πίστις (pistis), cuja tradução é , aparece de modo muito significativo, revelando não apenas uma atitude interior de confiança, mas uma resposta concreta à pessoa, à autoridade e ao poder de Jesus. Este termo grego ocorre oito vezes, distribuído em oito versículos, e na perspectiva de Mateus, a não é tratada como mera abstração religiosa, mas como confiança viva, perseverante e eficaz diante de Cristo. Quando examinadas essas ocorrências, percebe-se que Mateus desenvolve uma teologia da marcada pela dependência de Jesus, sempre na expectativa   do agir divino e pela oposição entre fé verdadeira e incredulidade.

A primeira ocorrência se encontra em Mateus 8:10, no episódio do centurião. Ao ouvir a declaração daquele homem, Jesus destaca a qualificação de sua e contrasta com a incredulidade dos seus ouvintes judeus, afirmando que nem mesmo em Israel encontrou tão grande. A narrativa de Mateus destaca que essa não é mera crença intelectual, mas confiança radical na autoridade da palavra de Cristo. O centurião, ao declarar que era suficiente uma ordem de Jesus para que seu servo fosse curado, demonstra uma caracterizada por humildade, reconhecimento da autoridade (exousia) e confiança absoluta. O que evidência ainda mais o contraste com seus ouvintes: um gentio manifesta a que deveria ser encontrada no povo da aliança. Em Mateus, portanto, a fé genuína é aquela que discerne quem Jesus é e descansa/confia plenamente em sua palavra.

Em Mateus 9:2, o termo pistis () aparece novamente como elemento central da narrativa, quando trouxeram a Jesus um paralítico deitado numa cama, o texto diz que Jesus, vendo a deles, declarou perdoados os pecados do enfermo. Aqui, a fé não é atribuída somente ao paralítico, mas aos amigos que o trouxera até Jesus. Neste particular o texto enfatiza uma dimensão comunitária da pistis: confiança compartilhada que se manifesta em ação concreta. A não é apenas uma disposição espiritual, mas deve ser encarnada em ações concretas como este gesto de carregar o paralítico até Cristo, superando obstáculos. É interessante notar que Cristo faz uma inversão de expectativa. Os amigos, o paralitico e todos os presentes esperam que Jesus faça o milagre, mas Jesus primeiramente faz uma declaração de perdão dos pecados. Com isso a narrativa de Mateus conecta a fé não apenas ao milagre visível, mas também à graça mais profunda da restauração espiritual. A pistis abre caminho para a manifestação do reino de Deus no corpo e na alma.

Em Mateus 9:22, no relato da mulher que sofria havia anos, Jesus lhe diz: “Filha, tem bom ânimo; a tua te salvou”. A fé aqui é apresentada como confiança pessoal e corajosa. A mulher se aproxima, toca nas vestes de Jesus e crê que dele procede poder restaurador. O texto de Mateus quer enfatizar que o termo central não é a cura em si, mas a pistis — a da mulher. O verbo usado por Jesus é sōzō (“salvar”), que tem sentido duplo, podendo significar tanto “curar” quanto “salvar” em sentido espiritual. Ao escolher essa expressão o evangelista destaca que a fé da mulher não apenas resultou na restauração física, mas sobretudo na salvação integral.

Logo depois, em Mateus 9:29, Jesus toca os olhos de dois cegos e declara: “Seja-vos feito segundo a vossa ”. Nesta perícope temos um extraordinário paradoxo – aqueles dois homens privados da visão física enxergaram, antes de todos, aquilo que muitos com olhos saudáveis não conseguiam ver: Jesus é o Filho de Davi, o Messias esperado. Eles clamaram por misericórdia sem jamais terem visto o rosto de Cristo, mas já o reconheciam pela (pistis). O paradoxo é confrontador - os cegos viam, e os que viam eram cegos. Os líderes religiosos, com toda sua instrução e visão, não discerniam quem estava diante deles. Já aqueles marginalizados, sem luz nos olhos, possuíam luz no coração. A fé foi sua visão antecipada, capaz de revelar o invisível. A resposta de Jesus — “Seja-vos feito segundo a vossa — é o ápice deste paradoxo: aqueles cegos já enxergavam antes de ver. Não precisaram de provas, sinais ou milagres para reconhecer o Messias; foi a que lhes abriu os olhos. Eles chamaram Jesus de Filho de Davi sem jamais terem visto seu rosto, enquanto muitos que viam claramente permaneciam cegos para sua identidade. Aqui está a exortação da narrativa, pois podemos ter olhos saudáveis (teologia, práxis) e, no entanto, sermos cegos para a presença de Cristo. O texto nos desafia a cultivar uma que vê antes de ver, uma confiança plena no Messias mesmo quando uma maioria o negue. Aqui, Mateus nos lembra que a é visão. E se os cegos viram primeiro, é porque a verdadeira luz não entra pelos olhos, mas pelo coração que crê.

Em Mateus 15:28, diante de uma mulher cananeia, Jesus exclama: “Ó mulher, grande é a tua ”. Essa é uma das declarações mais intensa do evangelho sobre pistis. Aqui, pistis não é apenas crença, mas perseverança confiante diante da aparente recusa de Jesus. Ela se mostra resiliente: mesmo após ouvir palavras duras — “não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos” (v. 26) — ela insiste, reconhecendo sua condição e, ainda assim, confiando na misericórdia de Jesus. O texto fica ainda mais extraordinário quando se destaca o fato de que ele é uma estrangeira (gentia) e de etnia “Sirofenícia” (cf. Marcos 7:26), portanto historicamente inimigos dos judeus. Mas ela está disposta a romper essa muralha étnica e sua a mantém em perseverança humilde; ela insiste porque sabe que a misericórdia de Jesus é maior que qualquer barreira étnica. E aqui temos o contraste, pois uma estrangeira, considerada excluída, é exaltada por Jesus como exemplo de grande , mostrando que a verdadeira espiritualidade não depende da etnia, mas da confiança perseverante Nele. Em sua narrativa Mateus mostra, que a verdadeira não desiste facilmente. Ela é humilde, insistente e determinada, especialmente quando busca socorro para a vida de outro. Mais uma vez, a é reconhecida por Jesus e resulta em restauração.

Em Mateus 17:20, Jesus confronta os discípulos por causa da incredulidade deles e afirma que, se tiverem como um grão de mostarda, nada lhes será impossível. Aqui o termo πίστις (pistis) aparece novamente como chave. Não se trata de quantidade, mas de qualidade. A ilustração do grão de mostarda é significativo e pedagógico, apesar de ser a menor das sementes, é vivo, cheio de potencial. Igualmente é a fé: não precisa ser grande aos olhos humanos, mas precisa ser qualificada e fundamentada no poder de Deus. As palavras exortativas de Jesus é pelo fato de que eles estavam presenciando Seus milagres e ouviam Seus ensinos, ainda assim tropeçavam na incredulidade. Já outros — como o centurião romano ou a mulher cananeia — mostravam fé extraordinária, mesmo sem pertencer ao círculo íntimo. O texto é um espelho que nos confronta com nossa própria incredulidade. Quantas vezes, mesmo cercados de evidências da presença de Deus, hesitamos em confiar? Uma pequena, simples, mas viva, é suficiente para abrir espaço ao impossível. Quem crê, ainda que como um grão de mostarda, já possui em si a força que move montanhas.

Aqui, a pistis é contrastada diretamente à falta de . A ênfase não está no tamanho quantitativo da fé, mas em sua autenticidade. Mesmo pequena, se for real, ela participa do poder de Deus. A imagem do grão de mostarda sugere algo aparentemente insignificante, mas vivo e verdadeiro. Em Mateus, a fé é poderosa não por causa da força humana, mas porque está ligada ao Deus para quem nada é impossível.

Em Mateus 21:21, após a figueira ter secado diante dos olhos dos discípulos, Jesus declara: “Em verdade vos digo que, se tiverdes (pistis) e não duvidardes, não só fareis o que foi feito à figueira, mas até se a este monte disserdes: ergue-te e lança-te no mar, isso se fará.” Aqui Jesus contrasta a fé com a incredulidade. O contexto é simbólico: a figueira, estéril, representa a religiosidade sem frutos, a aparência sem vida. Os discípulos ficam impressionados com o poder da palavra de Jesus, mas Ele os conduz além do espanto: o mesmo poder está disponível a quem crê. O maior problema nosso é que ficamos apenas impressionado com o poder de Deus, mas nos falta a fé para manifestá-las nas circunstâncias cotidianas da vida. Nos falta fé para superarmos as muralhas que surgem diante de nós e que Deus é poderoso para derrubá-las como fez nos dias de Josué. A exortação é clara: não é suficiente se impressionar/admirar o poder de Cristo, é preciso participar dele pela . O discípulo é chamado a confiar sem reservas, a crer mesmo quando tudo parece contrário. A não é misticismo, mas confiança radical em Deus, que torna possível o que humanamente é impossível. Quem crê não se limita ao que vê; quem crê já participa do impossível.

A última vez que Mateus usa o termo pistis () está em 23:23, na cena em que Jesus censura os escribas e fariseus porque eles se preocupavam com minúcias religiosas, mas negligenciavam os aspectos mais importantes da lei: o juízo, a misericórdia e a . Para Jesus a fé genuína se manifesta na prática dos princípios da Palavra de Deus. Mais uma vez o paradoxo é contrastante, pois aqueles que se julgavam guardiões da Lei estavam cegos para o coração da Lei. Eles viam o detalhe, mas não enxergavam o todo. Jesus os confronta: não basta religiosidade minuciosa; é preciso fidelidade que se manifesta em amor e justiça. A fé verdadeira não é ativismo religioso, nem ortodoxia eclesiástica, mas uma fé que gera misericórdia e justiça. Na sua narrativa, Mateus deixa claro que pistis é o eixo que sustenta a vida diante de Deus — não como aparência, mas como fé que se traduz em obras. É justamente dessa compreensão que Tiago retira sua exortação: “A sem obras é morta” (Tiago 2:17).

Estas palavras de Jesus nos chama a examinar se nossa é apenas formalismo teológico ou se é fidelidade vivencial. Lembrando que Jesus não se impressiona com agendas religiosas se o coração permanece vazio de justiça e misericórdia. A verdadeira pistis () é visão espiritual que nos faz enxergar o essencial: amar a Deus e ao próximo, síntese de toda a Escritura – o que não inclui isso é apenas religiosidade.

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

me.ivanguedes@gmail.com

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