Nada ilustra mais nitidamente a arrogante estupidez humana do que a tentativa de construção da chamada Torre de Babel. Suas primícias são todas antideus – irmanados em uma linguagem comum, decidem construir uma torre que “alcance os céus”. Querem construir um nome para si e, assim, confrontar Deus, recusando-se a espalhar-se pela terra.
É muito provável que o salmista tenha esse triste quadro em mente
quando compôs o Salmo 2.1-3 (Paráfrase)
Por que as nações se levantam em
tumulto,
e os povos gastam energia em planos inúteis?
Os reis da terra se posicionam em desafio,
e os governantes se unem contra o Senhor e contra o seu Ungido, dizendo:
“Vamos romper suas correntes
e nos livrar de suas amarras!”.
Mas Deus destrói seus planos com apenas um gesto – confunde-lhes a
língua.
Incapazes de se entender, eles são forçados a abandonar o projeto e
a se espalhar pela face da terra, como Deus lhes havia determinado.
Este capítulo fornece uma explicação narrativa para a origem das
diversas línguas e nações que existem na Terra. As palavras podem, e são muitas
vezes, mal interpretadas e a palavra unanimidade é uma delas. Quantas coisas
erradas tem se feito na história humana utilizando-se esta palavra. Devemos discernir
com muita prudência e discernimento entre união e conspiração;
entre identidade e mera associação para um determinado objetivo.
Devemos, em todas essas coisas, colocar a questão moral: Sobre o que é a unanimidade?
Essa unanimidade está se movendo na direção da vontade de Deus expressa em Sua
Palavra? A unanimidade que afasta você da verdade da Palavra de Deus, não vem
do céu, mas do mais profundo do inferno – rejeite-a. Babel é uma
unanimidade e, no entanto, é um movimento sistêmico na direção errada.
Análise do Texto
Em Babel, cada termo da narrativa revela a profundidade da
arrogância humana diante de Deus:
·
A
unidade não é neutra; quando divorciada da obediência,
torna-se instrumento de rebelião coletiva. O relato de Babel revela que qualquer
unidade sem Deus é perigosa e mortal. Na política, quando governos e
nações se unem em ideologias que rejeitam a soberania divina, a unidade se
torna instrumento de opressão e idolatria. Na tecnologia, o avanço
científico sem referência ao Criador ergue torres modernas de autossuficiência,
onde o ser humano acredita poder controlar tudo. Na cultura, movimentos antropocêntricos
e ignoram a realidade de Deus e os Seus valores acabam em confusão e vazio.
Assim como em Babel, o que parece progresso pode ser arrogância coletiva;
somente a unidade teocêntrica torna-se verdadeiramente frutífera.
·
O
nome buscado não visa a glória do Criador, mas a
autopromoção da criatura. O propósito explícito do projeto de Babel é revelado:
“façamos para nós um nome”. O problema não está no desejo de realização,
mas na fonte desse propósito. Eles querem construir reputação e segurança à
parte de Deus, transformando a glória em um projeto humano autogerado. Vivemos
hoje o que pode ser chamado democratização da soberba, na qual a sociedade
se envolve na exaltação de si mesma em oposição à glória divina. O texto revela
que a busca por um nome próprio é, na verdade, a recusa de viver sob o nome do
Senhor. Mas como o próprio texto mostra, toda glória que não nasce do compromisso
com o projeto salvífico de Deus está fadado à frustração.
·
A
torre encarna a ambição desmedida de alcançar os
céus por meios humanos. É o grito da humanidade desafiando Deus. A expressão de
uma mentalidade que busca ultrapassar os limites estabelecidos por Deus. A
torre representa o esforço humano de alcançar segurança, permanência e
transcendência por meios próprios, sem dependência do Senhor. Como declara o
Eclesiastes: não há nada de novo debaixo do sol. Apesar de todos os fracassos acumulados
pela humanidade, os seres humanos continuam reelaborando suas torres.
·
A
descida de Deus ironiza a pretensão humana e expõe sua real pequenez. O escritor bíblico utiliza a linguagem antropomórfica como recurso
literário de ironia teológica. A construção que, aos olhos humanos, parecia
grandiosa, aos olhos de Deus é tão diminuta que Ele precisa “descer” para poder
enxergá-la (Gn 11:5). A descida divina relativiza imediatamente a pretensão
humana de alcançar os céus. Eles não podem chegar aos céus, mas Deus pode e
virá confrontar suas ações arrogantes e afrontosas.
O
livro de Apocalipse retoma esse tema: é o registro de Cristo glorificado
descendo à terra para demolir, de uma vez por todas, as torres da prepotência
humana (Ap 19:11-16). Aquilo que começou em Babel encontra seu desfecho na
queda da grande Babilônia, representativa do sistema mundial de arrogância
contra Deus (Ap 18:2). Mas, assim como em Babel, o que parecia invencível —
impérios, sistemas, culturas — é reduzido a pó diante do poder soberano de
Cristo Jesus (Ap 11:15).
·
A
confusão das línguas manifesta os limites da soberba e a fragilidade dos
projetos autônomos. Deus não precisa mobilizar seus
milhares angelicais nem destruir a torre iniciada; bastou retirar um elemento
essencial — a comunicação — para que um projeto aparentemente invencível
entrasse em colapso (Gn 11:7-8). A fragmentação linguística, embora dolorosa,
limita o alcance do pecado e suas consequências maléficas, preservando espaço
para a futura obra redentora de Deus na história. Essa obra seria realizada por
meio de um homem chamado Abrão: “Farei de ti uma grande nação, e
abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção... farei a
tua descendência como as estrelas dos céus e como a areia que está na praia do
mar” (Gn 12:2; 22:17).
·
A
dispersão não frustra o propósito divino; ao contrário,
cumpre o mandato criacional apesar da resistência humana. A tentativa humana de
centralização é superada pela fidelidade divina ao seu desígnio original (Gn 11:8,
cf. 1:28; 9:1). O que os construtores temiam — “para que não sejamos
espalhados” — torna-se inevitável justamente por causa da desobediência. Mesmo
quando o homem resiste ao mandato divino, o Senhor conduz os acontecimentos de
modo que sua vontade prevaleça. Em Apocalipse temos Cristo assentado no trono,
triunfando sobre toda resistência, derrubando definitivamente os sistemas de
arrogância que se levantam contra Deus (Ap 18:2; 19:11-16). A História inteira
caminha para o momento em que o Cordeiro reinará soberano, e toda torre de
orgulho será destruída diante de Sua glória (Ap 11:15).
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