segunda-feira, 22 de abril de 2019

OBADIAS: A Justiça de Deus Sobre Toda Arrogância Humana



Esse é o livro mais curto do Primeiro Testamento, com seus 21 versos. Se a pessoa folhear as páginas da bíblia com muita rapidez é capaz de passar pelo livro sem o perceber. A sua pequena dimensão literária somada à sua mensagem primária de condenação e julgamento e pelo fato de não ser citado em nenhum livro do Segundo Testamento pode explicar o fato de que é pouco pregado e pouco conhecido dos leitores bíblicos evangélicos. Todavia, sua mensagem merece toda atenção e estudo, pois faz parte integrante da revelação especial de Deus e se constitui em uma trombeta poderosa sobre a justiça de Deus. Assim como a justiça divina haveria, e de fato foi exercida contra Edom, assim o será também sobre todas as nações, povo e línguas no dia do juízo final. O julgamento contra Edom é mencionado em mais livros do Antigo Testamento do que é contra qualquer outra nação estrangeira Egito, Assíria e Babilônia (cf. Is 11.14; 34.5-17; 63.1-6; Jr 9.5-26; 25.17-26; 49.7-22; Lm 4.21-22; Ez 25.12-14; 35; Jl 3.19; Am 1.11-12; 9.11-12; Ml 1.4).
A curta e contundente mensagem de Obadias se constitui na síntese de toda mensagem profética da Bíblia em seus dois Testamentos. Ele fala sem qualquer subterfúgio do julgamento de Deus sobre os inimigos do povo de Deus, de ontem e de hoje, como pode ser visto diariamente nas mídias. Mas também aponta para a porta da graça de Deus para todos aqueles que arrependidos se voltarem para Ele. Essa dupla mensagem de juízo e graça, estão entretecidos em toda mensagem profética.
A sua mensagem tem abrangência mundial pois fala do terrível perigo do orgulho e arrogância, aquele sentimento de superioridade que muitas vezes resulta de tirar vantagem dos outros. A mensagem de Obadias é a ilustração grafica em escala mundial da verdade de Provérbios 16.18: "O orgulho vem antes da destruição, um espírito altivo antes da queda".
Título
            Em sua obra de introdução ao Primeiro Testamento, Henry Swete divide em três tipos ou classes os títulos dos livros bíblicos: o primeiro grupo são aqueles que são nominados com a primeira palavra ou palavras do livro (Gênesis - Deuteronômio,[1] Provérbios, Lamentações); um segundo grupo são aqueles que recebem o nome de seu personagem principal ou suposto autor (Josué, Juízes, Samuel, Reis, Isaías e os outros Profetas, Jó, Rute, Ester, Daniel, Esdras); e um terceiro grupo de livros é identificado pelo seu conteúdo (Salmos, Cântico dos Cânticos, Crônicas).
            O título deste livro, nas cópias Hebraicas, usualmente é "Sepher Obadiah - o Livro de Obadias”;[2] na Vulgata Latina é denominado de “A Profecia de Obadias”, e assim também na versão Arábica; na versão Síria está, “A Profecia de Obadias o Profeta”. Na Bíblia Hebraica a profecia de Obadias ocupa o quarto lugar entre o grupo denominado “Os Doze”, logo após Amós e antes do livro de Jonas. Mas na Septuaginta a profecia segue o livro de Joel e precede a profecia de Jonas (CRABTREE, 1971, p.63). A nossa versão em português segue a ordem da Bíblia Hebraica.
Autoria
O livro recebe o nome de um profeta desconhecido de Judá identificado pelo nome de Obadias[3] (1.1). Além deste profeta, podemos encontrar ao menos mais doze homens chamados Obadias, do qual se destaca com certeza aquele piedoso e crente mordomo[4] do palácio de Acabe e Jezabel, que com risco da própria vida escondeu e sustentou por muito tempo cem profetas de Deus ameaçados pela perversa rainha de Israel (1 Reis 18.3). Nada mais é conhecido sobre sua cidade ou família. O fato que seu pai não é especificado sugere que ele não fazia parte de nenhuma linhagem real ou sacerdotal. Pela leitura do livro percebe-se que era “homem de profundas convicções, firme, piedoso e patriota, convencido de que, em última análise, Deus era o supremo condutor dos negócios humanos” (FRANCISCO, 1969, p. 115).
Data:
É o livro mais curto da Bíblia, contendo unicamente 21 versos, mas é com certeza um dos mais difíceis de ser datado com precisão. Datas que vão de 889 a 312 a.C. têm sido apresentadas e defendidas por diversos estudiosos para a sua redação final. Os estudiosos conservadores vão do reinado de Jeorão, filho de Josafá (848-841 a.C.), até 585, logo depois da destruição de Jerusalém pelos Caldeus. Os estudiosos liberais em sua grande maioria têm preferência por 585 como sendo a data da composição. Há ainda uma pequena minoria que tendem a dividir a obra em várias fontes distintas[5], tendo partes sido escritas durante o Exílio ou pouco depois da queda da Babilônia em 539 a.C. Entretanto, tem se mostrado inócuo este esforço por total falta de evidências claras de que uma obra tão diminuta tenha sido escrita por vários autores em períodos tão diferentes da História, como argumenta sensatamente Gleason Archer em seu comentário:
“Parece surpreendente que uma obra tão curta tivesse sido dividida entre vários autores pelos críticos das fontes, mas sua metodologia é essencialmente a mesma que empregam na dissecação dos livros maiores do Antigo Testamento. Este esforço se faz na base de conhecimentos muito imperfeitos de acontecimentos antigos, procurando vincular as mais vagas referências aos acontecimentos contemporâneos às conhecidas condições históricas de cada período sucessivo, operando segundo o princípio que não existe a profecia verdadeira, mas apenas o vaticinium ex eventu (uma predição depois do acontecimento). Em outras palavras, o que se chama profecia previsível não seria mais do que um registro daquilo que já aconteceu” (1979, p. 340-341).
O ponto crucial desta polêmica esta centralizada nos versos 11 a 14, onde o profeta faz alusão a uma grande calamidade que sobreveio à Jerusalém, quando foram invadidos e saqueados por hostes estrangeiras, e os edomitas valendo-se da oportunidade, agiram impiedosamente contra seus irmãos israelitas, aprisionando os fugitivos e vendendo-os como escravos a outros povos. A pergunta que se deve responder é: quando se deu esta catástrofe?
Conforme o quadro ao lado, podemos perceber que a história bíblica registra ao menos quatro grandes pilhagens estrangeiras sofridas por Jerusalém, além da realizada pelo exército de Israel (Reino do Norte), quando Joás governava Judá (2 Crônicas 24:23-24).
Sendo os edomitas o ponto convergente, sabemos que eles estiveram envolvidos mais diretamente em apenas duas destas pilhagens, as de 845 e 586. Na primeira (926 a.C.) os edomitas ainda estavam enfraquecidos pela grande derrota infligida a eles por Davi (I Sm.14:47; 2 Sm.8:14). A última (586 a.C.)[6] não encontra ressonância na profecia registrada, como muito bem coloca Falcão (1965, p 35-36)[7]:
Utilizando um processo de eliminação podemos deduzir qual seria a data mais conciliadora com a narrativa do profeta: 1) Obadias não mencionou a destruição do templo de Jerusalém, ocorrência essa que jamais teria deixado omissa na sua profecia, se, realmente, a invasão de que falou tivesse sido a dos babilônicos. 2) As nações mencionadas no livro de Obadias não são as mesmas do período babilônico. 3) Jeremias, profeta do período babilônico, citou Obadias (Jeremias 49).[8] 4) O profeta Amós, do Reino do Norte, contemporâneo de Jeroboão II, profetizou contra Edom de modo bem semelhante a Obadias (Amós 1.11). 5) Observa-se no livro  a ausência  de expressões  aramaicas, fato que não deveria ter acontecido, se o livro tivesse sido escrito no período babilônico, quando a língua aramaica já estava suplantando a hebraica. 6) Quando o profeta descreve a reocupação da Palestina, não faz nenhuma menção às terras de Judá, subentendendo-se que já estavam ocupados pelos judeus, tornando impossível a opinião de que o autor viveu no período do cativeiro babilônico.
Dentro deste processo de eliminação, a segunda invasão é aquela que se encaixa mais adequadamente na referência de Obadias.[9] Por este motivo é preferível localiza-lo logo depois de 845 a.C., conforme o quadro cronológico, que expressa minha opinião, tempo em que os assírios começavam a incomodar mais acentuadamente a nação israelita.[10]
Há aqueles que preferem uma data mais posterior[11] e ainda alguns que colocam Obadias até mesmo além do cativeiro babilônico. Entretanto, o total desterro dos edomitas de suas cidades encrostadas nas imensas montanhas de Seir ocorreu muito tempo depois do cativeiro da Babilônia.[12] Seguindo este raciocínio, Obadias teria vivido após o encerramento do cânon hebraico, e, por conseguinte nada teria profetizado, mas apenas registrado um fato histórico, como o faria um cronista de plantão. Mas como realça Stanley Ellisen: “A profecia de Obadias foi uma ‘visão’ do Senhor (1.1), não uma reafirmação de uma profecia antiga” (ELLISEN, 1991, p. 294).  Percebe-se em vários comentaristas bíblicos uma postura racionalista e grande dificuldade em lidar com o sobrenatural das Escrituras.
Mensagem do Livro:
Podemos extrair várias lições importantes e relevantes deste opúsculo literário, pois trata-se de uma extraordinária mensagem profética. Alguns comentaristas bíblicos têm menosprezado esta mensagem, alegando que sua inclusão ao cânon é devida apenas pela intensa polêmica antiiduméia do primeiro século da era cristã. Mas como é muito bem asseverado por William S. Lasor (1999, p. 404)[13].
“Esta avaliação negativa não pode responder pela preservação desse livro nem de nenhuma outra profecia antiedomita. Em Obadias, assim como em Ester e em outros livros semelhantes, não estamos lidando com nacionalismo estreito. Algo mais profundo e significativo no campo teológico deve ser encontrado para justificar a canonização e a preservação da obra”  
- Logo no verso 4 encontramos uma esplêndida figura poética que trás um solene aviso à todos aqueles, em todos os tempos, que tem se escorado na violência produzido pelo pseudo poder bélico e modernamente falando, o poder econômico – não importa o quão alto possam se colocarem – “dali te derribarei, diz o Senhor”.
- No verso 10 temos um alerta para que sejamos cuidadosos quanto ao nosso procedimento para com o nosso irmão e/ou semelhante. Apesar de terem parentesco (descendiam dos dois irmãos Jacó e Esaú), Edom não demonstrara qualquer senso recíproco de relação fraternal. Lembremo-nos de que a maneira com que tratamos o nosso irmão está intimamente relacionado com a maneira com que tratamos a Deus (cf.1 Co.8.12).
- No verso 12 nos ensina que não podemos nos alegrar com a queda de nossos inimigos (cf. Pv. 24.17-18), pois este comportamento não é o que Deus espera de seu povo.
- Mas ainda que a maldade humana se multiplique abundantemente e traga em seu bojo a morte, a graça salvadora de Deus continua sempre providenciando a solução definitiva. No verso 17 o profeta aponta para o Monte de Sião como um lugar de refugio e salvação – “Mas, no monte Sião, haverá livramento”; o autor de Hebreus (12.22-24) identifica Jesus Cristo como sendo o nosso Monte de Sião: a cidade do Deus vivo”; a Jerusalém divina”. Certamente esta realidade escatológica é apenas para aqueles que obedecerem ao Evangelho de Cristo!
- No verso 15 temos mais uma séria advertência para os pecadores de ontem, hoje e de sempre, de que o Senhor haverá de retribuir a cada um conforme aquilo que tenha feito, pois “como tu fizeres, assim se fará contigo”. O próprio profeta tinha plena consciência, e os demais profetas o confirmariam continuamente, de que os terríveis acontecimentos futuros de Judá, seriam consequência de sua continua rebeldia e infidelidade para com o Senhor. E ainda que não poucos fiquem horrorizados com a forma implacável com que Obadias pronuncia a sentença contra os edomitas, ele nunca foi uma voz dissonante, mas esteve sempre na companhia dos demais profetas canônicos e na companhia do Senhor Jesus Cristo, no que concerne à condenação severa do pecado e da crueldade. Para aqueles que não fazem uma teologia dicotômica não há qualquer incompatibilidade entre a verdadeira justiça e o amor.
- Ainda no mesmo verso 15 temos uma das mais preciosas expressões da escatologia bíblica – “o Dia do SENHOR” – uma expressão frequentemente utilizada para se referir ao julgamento de Deus sobre as nações.[14] Aqui inicialmente usada por Obadias, mas que vai se expandindo na mesma proporção da revelação progressiva. Ainda que este "dia do Senhor" de que Obadias escreveu foi manifestado na destruição de Edom, na perspectiva escatológica a manifestação plena do "dia do Senhor" ainda esta por vir. E este julgamento de Deus sobre as nações é tão somente uma sombra e/ou tipo daquele grande e terrível dia do Senhor em que o mundo inteiro será julgado (cf. 2 Pe 3.7-13). Obadias esta contemplando ou relembrando o desastre que tinha ocorrido na cidade de Jerusalém, empreende uma revisão deste terrível acontecimento, então a partir deste ponto proclama o juízo de Deus sobre todas as nações, e para Edom em particular.
- Mas como em toda profecia bíblica, não há uma perspectiva fatalista, ao contrário, sempre haveremos de encontrarmos um grito de esperança e fé como este no verso 21 o Reino será de Jeová”, que é a tônica maior de toda escatologia bíblica desde seu princípio até a sua conclusão. “O povo de Deus nunca duvidou que Jeová estava controlando os acontecimentos como Rei (...) o povo de Deus sempre aguardou a plena expressão e reconhecimento de Seu governo soberano” (DAVIDSON, 1963, p. 870).  Muitos séculos depois, o apostolo João arrebatado da ilha de Patmos e transportado para a esfera celestial, ouve as tremendas vozes do céu em ressonância ao toque da trombeta do sétimo anjo – “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará [o reino será do Senhor] para todo o sempre” (Ap.11:15).  
Cristologia em Obadias:
Cristo é visto em Obadias como o Juiz das nações (15-16), o Salvador de Israel (17-20), e o Soberano do reino (21). “Historicamente falando, foi somente através de um único israelita fiel, Jesus Cristo, ‘o Leão da tribo de Judá’ (Ap.5.5) – que os propósitos salvadores de Deus foram realizados. Por Sua morte, porém, o Cristo de Deus haveria de ‘reunir em um corpo os filhos de Deus, que andavam dispersos’ (João 11.52); e, nos propósitos de Deus, o Israel espiritual. Seu povo escolhido estará afinal completo em todas as suas tribos. Será a nação plenamente restaurada dos filhos de Israel que, como fogo, consumirão a casa inteira de Esaú” (DAVIDSON, 1963, p. 870).
Esboço:[15]
I. A Sentença de Edom (vv.1-16)
            1. A Certeza da Derrota (vv.1-9)
            2. O Motivo da Derrota (vv.10-14)
            3. O Caráter da Derrota (15-16)
II. O Livramento de Israel (vv.17-21)
            1. O Triunfo de Israel (vv. 17-18)
            2. As Possessões de Israel (vv.19-20)
            c. O Estabelecimento de Israel (v.21)
 
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas
ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? Ed. Vida Nova, São Paulo, 1979.
BACKER, Walter L. Obadiah in WALYOORD, John F. e ZUCK, Roy B., 1983.
Biblia Hebraica Stuttgartensia, eds. A. Alt, O. Eißfelt, P. Kahle, and R. Kittle (Stuttgart: DeutscheBibelstiftung, c1967-77).
 Biblia Sacra Juxta Vulgatam Clementinam, ed. electronica (Bellingham, WA: Logos Research Systems, Inc.,2005), Logos.
COPELAND, Mark A. Studies in the Minor Prophets. ExecutableOutlines.com
CRABTREE, A. R. Profetas Menores, v.1, Casa Publicadora Batista, Rio de Janeiro, 1971.
DAVIDSON, F. O Novo Comentário da Bíblia, v.2. São Paulo: Edições Vida Nova, 1963.
ELLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento, ed. Vida, Florida, 1991.
FALCÃO, Silas Alvez. Panorama do Velho Testamento, v. 2, Casa Publicadora Batista, Rio de Janeiro, 1965.
FRANCISCO, Clyde T. Introdução ao Velho Testamento. Tradução Antônio Neves de Mesquita. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1969, [1ª ed].
GILL, John.  An Exposition of the Old Testament, v. 6. Philadelphia, Pennsylvania: William W. Woodward,1819.
LASOR, William S., HUBBARD, David A. e BUSH, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. Tradução Lucy Yamakamí. São Paulo: Vida Nova, 1999.
RYRIE, Charles Caldwell. Ryrie Study Bible. Expanded Edition, Moody, 1978.
WALYOORD, John F. e ZUCK, Roy B. (Editors). The Bible Knowledge Commentary. Wheaton: Victor Books, 1983.




[1] É preciso lembrar que os gregos em sua versão do Pentateuco não seguiram a tradição hebraica, mas optaram por nominar esses livros em conformidade com seu conteúdo.
[2] Apenas com o nome(עבדיה)  “Obadiah”, pode ser encontrado no Texto Massorético da obra-padrão Biblia HebraicaStuttgartensia.
[3] Obadiou (na Septuaginta) ou Obdias (na Vulgata Latina) ou Abdias (em várias traduções em português) que quer dizer “Adorador de Jeová”. O nome era muito comum não só entre os israelitas, mas também entre os demais semitas. 
[4] “Flávio Josefo o identificou com o profeta canônico do mesmo nome, mas, infelizmente, não podemos confirmar esta identificação, uma vez que Obadias, o profeta canônico, viveu mais ou menos um quarto de século depois do Obadias do tempo de Acabe, segundo a cronologia adotada por alguns estudiosos do Velho Testamento” (FALCÃO, 1965, p.32). Nos comentários judaicos também não há um consenso: Seder Olam Zuta o coloca no reinado de Josafá; outros sugerem que Obadias foi um dos príncipes que ele enviou para ensinar o povo (2Cr 17. 7) e tem aqueles que concluem que esse Obadias  é o mesmo que viveu nos tempos do rei Acabe, e que protegeu os profetas da ira do rei, que seria também o marido da viúva que Eliseu fez o milagre da multiplicação do azeite (2 Reis 4), visto que ele havia morrido enquanto em serviço do rei Acabe, e sua viúva ficou então numa situação de penúria financeira. Mas tudo são apenas conjecturas, visto que não há nenhuma evidência concreta para tais afirmações. Por fim, com base no significado de seu nome "Servo de Yahweh" ele é considerado por alguns como o caso de Teófilo “Amigo de Deus” de Lucas (1.1-4 e Atos 1.1,2), visto que alguns defendem que Teófilo pôde ter sido um nome literário usado por Lucas para identificar os seus leitores, que deveriam ser também amigos de Deus, desta forma, Obadias também se constituiria não em uma pessoa real, mas deveria ser visto como uma “figura” do crente israelita. Suas palavras, atitudes, e ações deveriam ser nossas palavras, atitudes, e ações (GILL,1819, p. 563).
[5] “Pfeiffer atribui os versículos 1-14 a um contemporâneo de Malaquias; os versículos 16-18 a escritor de meio século depois; e os versículos 19-21 teriam sido escritos na primeira parte do século quarto a.C.” PFEIFFER, J. B. Introduction to the Old Testament, ed. Haper and Brothers, Nova Iorque, 1941. “ E. Sellin pensa que os versículos 1-10 foram escritos no século nono a.C.; 11-14 por um escritor no exílio; e 15-21 por um contemporâneo de Malaquias. A tendência dos críticos modernos e de que o livro, na sua forma presente, é obra do profeta Obadias. ROWLEY, H.H., (editor), The Old Testament and Modern Study, ed. Clarendon Press, Oxford, 1951”. Citados por CRABTREE, A. R. Op. cit., p. 63.
[6] “Há quem afirme que Obadias fez alusão à entrada dos Caldeus e que, por isso, foi um profeta pós-exílio, isto é, viveu depois do cativeiro do povo judeu na Babilônia. Aqueles que assim pensam dizem. Há indícios, no Velho Testamento, de amargas rivalidades entre Edom e Israel, no período do cativeiro babilônico, isto é, existem passagens paralelas a Obadias, que foram escritas no exílio dos judeus na Babilônia (Ezequiel 25.12-14; 15.1-5; Lamentações 4.21; Salmo 137.7)” (CRABTREE, 1971, p.35).
[7] Ellisen ainda acrescenta. o livro foi colocado na primeira parte do cânon pelos hebreus; o desastre referido por Obadias não alcançou necessariamente a dimensão de uma destruição completa e exílio. Foi simplesmente uma pilhagem; um profeta não citaria outro anterior quase integralmente (Jr 49.7-22), caso o profeta não tivesse existido (1991, p. 294). Jerome faz dele um contemporâneo com o Oséias, Joel, e Amos. E seu argumento em favor desta visão é de que Jeremias preferencialmente haveria de inserir extratos das  profecias de um profeta precedente do que de um contemporâneo. Ainda um outro argumento interessante é apontado por Keathley IV. “As proposições imperativas dos versos 12-14 são jussivas as quais nunca fazem alusão a alguma coisa no passado. Deste modo, estes imperativos seriam inapropriados em 586 a.C. se a cidade foi apenas invadida para ser pilhada. (O autor podia estar usando o jussivo para dar uma apresentação vívida do pecado de Edom.)”. Outros que defendem esta posição: C. F. Keil, "Obadiah," in The Twelve Minor Prophets, 1.341-49; Walter L. Baker, "Obadiah," in The Bible Knowledge Commentary. Old Testament, p. 1454; Hobart E. Freeman, An Introduction to the Old Testament Prophets, p. 136; Archer, pp. 299-303; Leon J. Wood, The Prophets of Israel, pp. 262-64; Eugene H. Merrill, Kingdom of Israel. A History of Old Testament Israel, p. 382; Walter C. Kaiser Jr., Toward an Old Testament Theology, p. 186; Edward J. Young, An Introduction to the Old Testament, p. 277; Charles H. Dyer, in The Old Testament Explorer," pp. 765-66.
[8] Há quem conteste e diga que o trecho de Obadias citado em Jeremias não pertence a nenhum dos dois profetas, mas foi escrito por um autor desconhecido de que lançaram mão, primeiro Jeremias e depois Obadias. Entretanto, esse ponto de vista não passa de hipótese, carecendo de provas conviventes.
[9] “Precisamos, portanto, procurar o registro dalguma ação militar incluindo uma tomada de Jerusalém sem envolver sua destruição total; uma luta na qual os edomitas pudessem, com toda a probabilidade, ter tomado parte (o que é improvável na época da destruição da cidade em 587). O único episódio registrado que se enquadra nas condições certas, parece ser esta invasão ocorrida durante o reinado de Jeorão” (ARCHER, 197, p.338-339).
[10] “Obadias profetiza contra Edom em conexão com invasão #2 ou #4. Se a primeira, este livro é o mais antecipado dos profetas da escrita (ver 2 Reis 8.20 e 2 Cron. 21.16-17; então ver Joel 3.3-6 comparando com Obadias 11-12 e o uso de Obadias 1-9 na passagem de Jeremias 49.7-22 suporta bem a data mais antecipada)” (RYRIE, 1978, p. 1415). Assim, entendem também Delitzsch, Keil, Kleinert, Orelli e Kirkpatrick (ARCHER, 1971, p. 338). “A evidência interna parece suportar a data antecipada de 845 a.C. (Keil, Hailey). Eu aceito a data antecipada, que é em cerca de 845 a.C.” (COPELAND, s/d - Edição Eletrônica - www Executable Outlines.com).
[11] Francisco defende a data mais avançada. “A favor da data posterior, 586, milita o fato de que a referência a desgraças e calamidades naturalmente se aplicaria à destruição total de Jerusalém, por Nabucodonosor, em 583 a.C. Há ainda uma ideia adicional de que a animosidade amarga entre os israelitas e edomitas data da destruição de Jerusalém ou do exílio, visto como as passagens paralelas contra Edom e contemporâneas a esta data se encontram em Lm.4.21; Ez.25.12-14; 35.1-15; Sl.137.7. Outro argumento a favor de uma data mais recente é o fato de que a invasão de 845 não é mencionada no livro de Reis, mas no de II Crônicas 21.16. Isto nos levaria a raciocinar sobre a importância a ser dada à referência de II Crônicas. Poderia tratar-se apenas de uma refrega fronteiriça e nada mais, pois nada se diz a respeito de uma invasão de Jerusalém. Finalmente, tanto Obadias como Jeremias capítulo 49 podem ser citações de um antigo profeta. Mesmo que as evidências sejam mais ou menos contrabalançadas, a incerteza da citação de II Crônicas favorece uma data mais recente para este livro” (1969, p.116). Outros que defendem esta data: Douglas Stuart (Hosea-Jonah, pp. 403-416); Thomas J. Finley (Joel, Amos, Obadiah, p. 340-342); Billy K. Smith, "Obadiah," in (Amos, Obadiah, Jonah, p. 172); David W. Baker (Obadiah, Jonah, Micah - An Introduction and Commentary, p. 23); Carl E. Armerding, "Obadiah," (Daniel-Minor Prophets, vol. 7 of The Expositor's Bible Commentary, p. 337); Frank E. Gaebelein (Four Minor Prophets [Obadiah, Jonah, Habakkuk, and Haggai] - Their Message for Today, pp. 13, 28); G. Herbert Livingston, "Obadiah," (The Wycliffe Bible Commentary, p. 839); Roland K. Harrison (Introduction to the Old Testament, pp. 898, 902); John Bright (A History of Israel, p. 417); Robert B. Chisholm ("A Theology of the Minor Prophets," in A Biblical Theology of the Old Testament, p. 418).
[12] Francisco sugere 312 a.C., e ainda ele informa que no ano 70 d.C. o Imperador Romano Tito destruiu tanto os edomitas (idumeus) como os próprios israelitas, desaparecendo por completo aqueles da historia humana. (1969, p.117).
[13] Refutando argumento de Soggin: A. Introduction to the Old Testament, v.2, 1961, p. 341.
[14] “A expressão dia é frequentemente usada dessa maneira para denotar a ocorrência de sorte boa ou má, em conexão com algum lugar ou pessoa”. (...) “O dia do Senhor é um dos grandes temas do Antigo Testamento. Seu caráter é salientado e não tanto sua ocasião exata, embora se trate do desenlace final da história, e geralmente seja referido como iminente” (DAVIDSON, 1963, p. 869- 870).
[15] Este esboço foi elaborado por S. E. Mc Nair, citado por. FALCÃO, 1965, p. 41.

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