sábado, 16 de março de 2019

Jesus Cristo no Livro de Atos



            Há uma ideia equivocada de que o ministério do Senhor Jesus Cristo se encerrou após sua ascensão, conforme registrado nas narrativas evangélicas. Aqui temos a relevância do segundo volume escrito por Lucas - Atos – onde ele ainda nas primeiras linhas esclarece esta questão afirmando que se no primeiro volume (evangelho) trata de tudo quanto Jesus Cristo havia ensinado e realizado, neste segundo volume (Atos) ele vai tratar do que Jesus continuou a ensinar e fazer de uma forma muito mais completa.  
Jesus Ressurreto
            Os evangelistas narram as atividades do Jesus encarnado que viveu entre o povo manifestando a glória de Deus (Pai), mas em Atos temos a narrativa da perspectiva do Jesus ressurreto; por quarenta (tempo completo, de maturação) dias Jesus convive com seus discípulos para que não pairasse qualquer duvida de que era Ele mesmo: “Durante os 40 dias depois da sua crucificação Ele havia aparecido aos apóstolos diversas vezes em forma humana e provado para eles de muitas maneiras que era realmente Ele que estava ali. Nessas ocasiões falou a respeito do Reino de Deus” (At 1.3 – Bíblia Viva). O propósito de Jesus não era acrescentar qualquer outro ensino ou fazer qualquer outro milagre, mas seu objetivo neste curto período de convivência com os discípulos era tão somente deixar claro que Ele estava vivo, que Ele ressuscitara.
Esse é um fato fundamental da fé cristã – Jesus ressuscitou – Ele venceu a morte! Esse era o brado vitorioso de todos os cristãos nos dias de Paulo: “Onde está ó morte a tua vitória?” A informação incontestável de que Jesus vive é a fonte de toda nossa esperança das realidades eternas.
Quando os primeiros cristãos eram presos e lançados no Coliseu romano, somente uma coisa os confortava e animava – Jesus Cristo vive! Paulo declara em alto e bom som aos crentes de Corinto e a todos os crentes em todo o tempo – se Cristo não ressuscitou não há fé e nem esperança alguma e nos tornamos os mais miseráveis sobre toda a terra! A fé cristã tem um diferencial – Jesus Cristo vive! Quando uma pessoa em qualquer lugar do mundo se tornar um cristão e vive a vida cristã, a primeira convicção básica de que necessita é que Jesus está vivo agora. Quando temos isso em mente significa que estaremos vivos quando este mundo acabar.
Mas a narrativa de Atos informa que Jesus não só mostrou-se vivo, mas lhes falava sobre as coisas pertencentes ao reino de Deus. Todo cristão tem plena consciência ou deveria ter, de que o seu lugar definitivo não é este mundo, mas na eternidade haverá um lugar especifico onde definitivamente haverá de morar.
Jesus Voltará
Um segundo aspecto importante que Lucas quer realçar aos seus leitores está no nono verso do primeiro capítulo: “Não foi muito depois disto que Ele subiu ao céu e desapareceu numa nuvem, estando todos olhando para Ele”. Assim como os discípulos nós também continuamos vivendo no mesmo tipo de mundo do qual Ele foi levado. Mas enquanto eles olham dois anjos os trazem à realidade e lhes faz uma declaração fundamental: "Galileus, por que vocês estão olhando para o céu? Este mesmo Jesus, que dentre vocês foi elevado aos céus, voltará da mesma forma como o viram subir" (1.11). Assim, quando olhamos para o alto e contemplamos as nuvens deveríamos nos lembrar desta verdade inexorável de que Jesus não apenas está vivo, não apenas retornou aos céus, MAS ELE VOLTARÁ! Em outras palavras, Sua segunda vinda é uma realidade.
Jesus Continua Ativo
Jesus continua exercendo seu ministério no livro de Atos. Encontramos no final do segundo capítulo: "O Senhor acrescentava à igreja diariamente, os que iam sendo salvos”. Lucas poderia ter dito “Deus fez isso”, mas preferiu escrever que o “Senhor (Jesus)” estava inserindo estes novos convertidos na comunhão da Igreja.
No capítulo três temos a cena de Pedro e João curando um homem coxo na porta do Templo e as palavras deles são tremendas: “Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, ande” (verso 16). É Jesus operando a cura através dos discípulos como o fizera tantas vezes em seu ministério público ao enviá-los de dois em dois por toda Palestina judaica.
No capítulo sete, temos a história do julgamento e do apedrejamento até a morte de um diácono chamado Estêvão. Enquanto seus algozes lhes atiravam pedras Estevão faz essa declaração: "Vejo os céus abertos e o Filho do homem em pé, à direita de Deus" (verso 56). Somente os genuínos crentes podem ter uma visão do Cristo glorioso em seu leito de morte – quanto consolo!
No tempo em que meu trabalho acabar
E enfim de Deus a presença gozar,
E quando a Cristo eu puder contemplar,
Oh, quanta glória haverá com Jesus!
Sim, haverá glória sem par,
Junto a Jesus, glória sem fim!
Oh, quando a Cristo eu puder contemplar
Glória, sim, glória haverá com Jesus!
(Hinário Novo Cântico – 185)
Quando chegamos aos capítulos oitavo e nono temos o registro da conversão[1] de Saulo de Tarso, que deixa Jerusalém com documentos oficiais que lhe permitia prender[2] todo e qualquer judeu que professasse sua fé em Jesus Cristo que ele encontrasse[3] na cidade de Damasco. Quando Saulo e seus auxiliares estavam chegando na cidade de Damasco, de repente, brilhou sobre ele uma luz resplandecente do céu então ele caiu por terra e ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que você me persegue? Saulo perguntou: Quem és tu, Senhor? Ele respondeu: Eu sou Jesus, a quem você persegue”. Saulo se encontra nesse momento face a face com o Senhor Jesus glorificado e isso será o marco divisor na vida dele (1Co 9.1; 15.8; II Co 12.1 ss.)
A partir deste encontro a transformação operada na vida Saulo será tão profunda que posteriormente ele passara a ser identificado como Paulo e receberá a alcunha de “apóstolo dos gentios”. Não foi uma argumentação teológica ou filosófica ou ética/moral que transformou a vida de Saulo/Paulo – mas o fato de que ele viu o Senhor Jesus ressurreto. Mais tarde, no mesmo capítulo oito de Atos um cristão chamado Ananias dirigiu-se a ele e disse: "Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que lhe apareceu no caminho por onde você vinha, enviou-me para que você volte a ver e seja cheio do Espírito Santo" (verso 17).
No livro dos Atos a própria essência da fé cristã, o que lhe dá força,
é a convicção de que Jesus está vivo.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

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Referências Bibliográficas
BARCLAY, William. Hechos de los apostoles. 2ª edição. Traducción Dafne Sabanes de Plou. Buenos Aires: La Aurora, 1974. [El Nuevo Testamento comentado por William Barcley, v. 7].
BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras, v. 6. São Paulo: Vida Nova, 1989.
CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 8ª ed., 2006.
EARLE, Ralph. Comentário Bíblico Beacon, v.7. São Paulo: CPAD, 2006.
ERDMAN, Charles R. Hechos de Los Apóstoles. Ed. TELL, 1974.
FITZMYER, Joseph A. Los Hechos de los apóstoles, v. 1. Salamanca (Espanha): Ediciones Sígueme, 2003.
MARSHALL, I. Howard. Atos – introdução e comentário. Tradução Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 1982 (2008).
RYRIE, Charles C. Bíblia de estúdio Ryrie. Chicago (Illinois): Moody Press, 1991.
SMITH, T. C. Comentário Bíblico Broadman, v.10. Rio de Janeiro: JUERP, 1984.
STAGG, Frank. O livro de Atos – a luta primitiva em prol de um evangelho vencedor. Tradução Rev. Waldemar W. Wey. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1957.
WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo – Atos. São Paulo: Vida, 1996.



[1] Esse acontecimento será descrito mais duas vezes no livro de Atos, ainda que com pequenas variações, mas nada que coloque em dúvida o fato da conversão de Paulo (22.3-16; 26.4-18).
[2] Muitos colocam duvidas sobre o fato de que Saulo tinha documentos legais que lhe autorizaram a prender judeus “dissidentes”, mas no período dos Macabeus o imperador romano deu autorização para as autoridades judaicas prendessem aqueles que fossem perigosos para a estabilidade social (I Macabeus 15.15-21).
[3] Em suas epístolas ele faz questão de se referir a este cruel propósito, como testemunho da mudança que ocorrera em sua vida (1Co 15.8-9; Gl 1.12-17; Fp 3.3-7 e 1 Tm 1.12-16).

sexta-feira, 15 de março de 2019

Epístolas Paulinas: Romanos (Autoria e Data)



Esta é considerada a epístola teologicamente mais madura que temos do apóstolo Paulo. É perceptível esta opinião quando a comparamos aos demais documentos que temos dele, principalmente a epístola aos Gálatas que tem muita afinidade temática, mas a simples leitura de Romanos nos revela a maior profundidade e intensidade dela. As palavras de Martinho Lutero sobre o valor desta carta aos Romanos explicitam a necessidade permanente de um estudo mais profundo dela:
Esta Epístola é, sem dúvida, o escrito mais importante do Novo Testamento e o mais puro evangelho. É digno e merecedor de que o cristão não só o conheça de cor, palavra por palavra, mas
também com ele se ocupe diariamente, como pão diário para a alma, pois jamais poderá ser lido ou contemplado em demasia. E quanto mais se lida com ele, tanto mais agradável e gostoso o texto fica. Nele encontramos em superabundância aquilo que um cristão deve saber: o que é lei, Evangelho, pecado, castigo, graça, justiça, fé, Cristo, Deus, boas obras, amor, esperança, cruz. E como devemos proceder com todo mundo, seja justo ou pecador, forte ou fraco, amigo ou inimigo, e em relação a nós mesmos. Além disso, tudo está fundamentado de forma excelente com passagens da Escritura, com exemplos dele mesmo e dos profetas, de modo a não ficar nada a desejar. Por isso também parece que nesta Epístola, São Paulo quis fazer um resumo de toda a doutrina cristã e evangélica, bem como fornecer um acesso a todo o Antigo Testamento. Pois, sem dúvida, quem tiver esta Carta no coração, tem consigo a luz e a força do Antigo Testamento. Por isso, familiarize-se cada cristão com ela e se exercite com ela constantemente (Reflexão de Lutero Rm 1.7).
            O apóstolo dos gentios entende que seu trabalho missionário no Mediterrâneo oriental está sendo concluído e acalenta em seu coração o desejo de levar o evangelho ao Ocidente, entrando pela Espanha (cf. Rm 15.19,24). Aproveita a oportunidade para tratar de um tema recorrente nas comunidades cristãs do primeiro século, como o fizera antes, sobre a questão dos judeus e dos gentios dentro das comunidades cristãs, o que a torna um elo perfeito com as literaturas anteriores dos evangelhos e de Atos.[1]
            Todos aqueles que investiram seu tempo no estudo desta carta são unanimes em afirmar que é impossível não ser arrebatado por seus ensinos e a História da Igreja Cristã é um testemunho vivo desta verdade, [2] pois entre tantos exemplos podemos citar apenas o de Martinho Lutero que na medida em que vai estudando Romanos é despertado pela verdade libertadora e transformadora de sua mente e coração de que “o justo viverá pela fé” e que o impulsionou com todas as forças de sua vida a proclamar esta verdade a ponto de iniciar o movimento que ficou conhecido como Reforma Protestante no século XVI, que se constitui no maior e mais significativo divisor de águas da Igreja Cristã em todos os tempos e até o hoje continua sendo o moto de todas as igrejas protestantes evangélicas no mundo inteiro.
Autoria e Título:
Como a própria carta declara, Paulo é o seu autor (cf. 1.1). Praticamente não há nenhuma dúvida no seio da igreja primitiva em creditar esta epístola à pena de Paulo. A carta contém várias referências históricas que concordam com fatos conhecidos da vida de Paulo e o conteúdo doutrinário da carta é consistente com epistolário do apóstolo,[3] um fato facilmente observado fazendo-se uma simples comparação:
Alguns exemplos devem bastar: a doutrina da justificação pela fé (Rm 3:20-22; Gal 2:16); a Igreja, como o Corpo de Cristo, designada para o representar e o servir através de uma variedade de dons espirituais (Rm 12; 1 Cor 12); a coleta para os crentes pobres em Jerusalém (Rm 15:25-28; 2 Cor 8-9). Compreensivelmente, Paulo faz menos referências a ele mesmo e aos seus leitores em Romanos do que em 1 e 2 Coríntios e Gálatas, uma vez que ele não fundou aquela igreja e nem participou de suas lutas rumo a maturidade como em relação as outras (GAEBELEIN, 1976-1992).
            Em geral há poucos estudiosos sérios, que duvidem ser Paulo o autor da totalidade de Romanos[4] com exceção de (16.24‑27) e alguns costumam ainda excetuar algumas passagens muito curtas que afirmam ‑ a nosso ver injustificadamente – serem glosas. Existe considerável controvérsia a respeito da confusão da prova incidindo sobre a relação dos caps. 15 e 16 com o resto da epístola.[5] No que concerne a longa lista de saudações Ryrie escreve:
“A menção por nome de 26 pessoas a uma igreja que Paulo nunca visitou (e particularmente Priscila e Áquila, que eram mais recentemente associadas com Éfeso, Atos 18:18-19) levou alguns estudiosos a considerar o capítulo 16 como parte de uma epístola enviada a Éfeso. Seria natural, porém, que Paulo mencionasse, a uma igreja em que era um estranho, sua relação com amigos mútuos. Paulo só utiliza uma outra longa série de saudações ao escrever aos Colossenses — uma carta enviada também a uma igreja que ele não visitou (1991, p.1786).
Como mencionamos acima a epístola aos Romanos tem sido considerado seu “maior trabalho” ou seu “magnum opus”, e seu titulo decorre do simples fato de que foi escrita para a igreja ou comunidades cristãs que tinham se estabelecido em Roma (1.7,15), as quais Paulo não tinha participado de suas fundações,[6] mas como o apóstolo para os Gentios, ele tinha acalentado o desejo por muitos anos de visitar aqueles cristãos da capital do Império (15.22-23) e de poder contribuir de alguma forma na edificação e fortalecimento da fé deles (1.13-15).[7]
Com este objetivo definido ele escreveu esta epistola para prepara-los para sua visita (15.14-17). Ele escreveu da cidade de Corinto, enquanto completava a coleta para os pobres da Palestina, como Cranfield esclarece:
É virtualmente certo que foi durante os três meses que Paulo esteve na província da Acaia, a que At 20,2‑3 faz referência, que Romanos foi escrita. Nenhum outro período, dentro dos limites fixados pelas indicações dos caps. 1 e 15, é provável que tenha sido adequado como este para a escrita de algo tão substancial e tão cuidadosamente pensado e composto como Romanos. ... Em vista do íntimo relacionamento de Paulo com a igreja de Corinto, é muito provável que tanto ele como Tércio permaneciam em Corinto ou perto ‑ conclusão a que vários pormenores na epístola podem ser tomados como apoio de empréstimo (1992, p.9).
VOCÊ SABIA?
Os judeus da época, por terem a Lei mosaica, consideravam-se superiores aos gentios (2.1).
   Costumava-se guardar nos templos pagãos grandes quantidades de riquezas (2.22)
   Nos tempos do NT, o batismo acontecia logo depois da conversão. Isso fazia que ambos fossem considerados aspectos de um único ato (6.3,4).
   A adoção era comum entre os gregos e romanos, e eram garantidos ao filho adotado todos os privilégios de um filho legítimo, inclusive direitos de herança (8.15).
(Bíblia Arqueológica NIV)
Partindo de Corinto ele foi para Jerusalém para entregar o dinheiro ofertado, pretendendo continuar até Roma e depois a Espanha (15.24). Paulo eventualmente chega a Roma, mas como um prisioneiro. Febe, que pertencia à igreja em Cesareia, próxima a Corinto (16.1), levou a carta para Roma.
Data
A carta aos Romanos foi escrita aproximadamente em 57-58 d.C. provavelmente mais perto do fim de sua terceira viagem missionária (Atos 18.23-21.14; cf. também Rm 15.19). Em vista da declaração de Paulo em Rm 15.26, parece que Paulo já tinha recebido as contribuições das igrejas da Macedônia e Acaia (onde Corinto era localizada) destinadas aos cristãos em Jerusalém que por causa da fé estavam passando necessidades. É provável que o apóstolo estivesse mais precisamente em Cencréia, uma cidade distante cerca de 9 km de Corinto. Corrobora com isso o fato de estar acompanhado por Gaio (seu anfitrião) e seus amigos Erasto (tesoureiro da cidade) e Quarto que eram naturais de Corinto e a “fiel discípula e cooperadora” Febe, uma viúva que residia em Cencréia e que iria viajar à Roma e foi a portadora da carta (16.1,23; 1Co 1.14; 2Tm 4.20). Podemos colocar aqui o fato de que durante sua estadia em Corinto, ele encontrou o casal Áquila e Priscila, judeus que haviam deixado Roma por causa do decreto imperial promulgado pelo imperador Cláudio (At 18.2). Eles tinham afinidades profissionais, pois eram fabricantes de tendas, uma atividade que Paulo também conhecia. Esta convivência em Corinto forjou laços de amizades permanentes e Paulo foi o mentor deles na questão do Evangelho (At 18.3). Posteriormente o casal retornam a Roma e tornou-se líder na igreja local (Rm 16.3-5). A epistola aos Romanos deve seguir as de 1 e 2 Coríntios que são datadas de 57 d.C.[8]

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Referências Bibliográficas
BARCLAY, William. Romanos - El Nuevo Testamento comentado. Buenos Aires (Argentina), Asociación Editorial la Aurora, 1974.
BROWN, Raymond. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004 (Coleção Bíblia e história Série Maior).
BRUCE, F. F. Romanos – introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1991.
CALVINO, João. Exposição de Romanos. São Paulo: Edições Paracletos, 1997.
CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 8ª ed., 2006.
CARSON, D. A., MOO, Douglas J e MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. Tradução Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova, 1997.
CRANFIELD, C.E.B. Carta aos Romanos – Grande Comentário Bíblico, Edições Paulinas, São Paulo, 1992.
ELWELL, Walter A. e YARBROUGH, Robert W. Tradução Lúcia Kerr Jóia. Descobrindo o Novo Testamento – uma perspectiva histórica e teológica. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002.
ERDMAN, Charles R. Comentários de Romanos. Tradução Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, s/d. (Fhiladelphia: The Westminster Press, 1925).
GAEBELEIN, Frank E. (Editor) The Expositor's Bible Commentary, New TestamentRomans.  Zondervan, Grand Rapids, 1976-1992, electronic media.
GREATHOUSE, William M., METZ, Donald S. e CARVER, Frank G. Tradução Degmar Ribas Júnior. Romanos a 1 e 2 Coríntios. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. [Comentário Bíblico Beacon, v. 8].
GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1987.
HALE, Broadus David. Introdução ao estudo do Novo Testamento. Trad. Cláudio Vital de Souza. Rio de Janeiro: JUERP, 1983.
HODGE, Charles. Comentary on the epistle to the Romans. Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company, 1994.
KERTELGE, Karl. A epístola aos Romanos. Tradução Francisco de Assis Pitombeira. Petrópolis (RJ): Editora Vozes, 1982.
KUMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982.
RYRIE, Charles C. Bíblia de estúdio Ryrie. Chicago (Illinois): Moody Press, 1991.
SMITH, T. C. Comentário Bíblico Broadman. Rio de Janeiro: JUERP, 1984.
Bíblia Sagrada com reflexões de Lutero. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012, 2016.



[1] A ordem em que as cartas foram organizadas em nossas Bíblias modernas segue uma ordem cronológica e não de importância, visto que o seu comprimento vai diminuindo de Romanos a Filemom.
[2] Diz-se que Crisóstomo a lia uma vez por semana e que Coleridge a considerava "a obra mais profunda, jamais escrita"; Calvino, a respeito desta carta, disse: "Abriu-se a porta a todos os tesouros das Escrituras;" Lutero pronunciou-se desta forma: “O livro principal do Novo Testamento e o Evangelho mais puro" e, Melancton, afim de conhecê-la melhor e melhor familiarizar-se com ela, copiou-a duas vezes com sua própria mão e Godet a descreveu como "A catedral da fé cristã".
[3] Antes de escreve a carta aos Romanos, o apóstolo havia escrito ao menos cinco outras cartas: Gálatas (49-50); 1 e 2 Tessalonicenses (51-52); 1 e 2 Coríntios (57). Além das cartas contidas na Bíblia É preciso destacar também que Paulo escreveu muitas outras cartas que não foram inseridas no cânon bíblico. Isto fica evidente nas entrelinhas de suas próprias Epístolas.
[4] Tratando sobre a questão geral das epístolas paulinas Kummel destaca:No começo do século XIX, a origem paulina de algumas epístolas foi posta em dúvida – em primeiro lugar , as Pastorais, e, depois também as epístolas aos Tessalonicenses, aos Efésios, aos Filipenses e também aos  Colossenses.  Nessa época F. C. Baur e a Escola de Tubingen reconheciam apenas as chamadas ‘grandes epístolas’ (Gálatas, I e II Coríntios, Romanos) como autênticos documentos do Apóstolo, porque somente estas epístolas poderiam ser entendidas como testemunhos da luta entre Paulo e os judaizantes. Mas logo se tornou patente que a Escola de Tubingen encerrava a imagem histórica da cristandade primitiva num esquema por demais estreito. Os defensores da ‘critica-radical’ chegaram a negar a autoria de Paulo até para as quatro ‘grandes cartas’, explicando-as como sedimentação de correntes  antagônicas por volta do ano 140. Eles partiram de pressupostos literários insustentáveis e de uma construção forçada da história, como o fizeram as construções posteriores (1982, p.320).
[5] “Inclui esta prova, entre outros itens, o fato de que a doxologia (16.25‑27) é colocada diversamente na tradição textual, no fim do cap. 14, no fim do cap. 15, no fim do cap. 16, e também ambas no fim do cap. 14 e no fim do 16; o fato de que a ‘graça’ aparece duas vezes na grande maioria dos manuscritos, como 16.20b e 16.24, mas é omitida por algumas autoridades antigas no primeiro lugar e por outras, incluindo algumas muito importantes, no segundo; a omissão por um manuscrito grego (com algum apoio adicional) de "em Roma" 1.7 e de "que estão em Roma" em 1.15, ou seja, duas únicas referências explícitas a Roma na epístola” (CRANFIELD, 1992, p. 7).
[6] Não é conhecido os nomes daqueles primeiros cristãos que iniciaram as comunidades cristãs em Roma. Possivelmente foram judeus e prosélitos, que moravam em Roma e que após o Pentecostes ouviram a pregação de Pedro (Atos 2.10) em Jerusalém e se converteram e foram batizados. Ao retornarem para suas casas e atividades começaram a se reunirem e formaram as primeiras comunidades cristãs na capital do Império.
[7] Paulo nunca tinha estado em Roma, mas, no fim da carta, ele manda saudações a vinte e seis pessoas, homens e mulheres, cujos nomes ele cita.
[8]Cranfield propõe algo ligeiramente diferente: “Com muita probabilidade este período deve ser identificado, seja com os últimos poucos dias de 55 d.C. e as primeiras poucas semanas de 56 d.C., seja com os últimos poucos dias de 56 e as primeiras poucas semanas de 57” (CRANFIELD, 1992, p. 7).


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

PÁSCOA: Discípulos de Emaús - da Decepção para a Alegria (Lucas 24.13-35)



            O professor Jean Guitton, em seu comentário da narrativa evangélica escrita por Lucas, chegando nesta passagem disse: “Se tivesse que dar todo o Evangelho por uma única cena na qual estivesse todo ele resumido, eu dificilmente duvidaria, escolheria a cena dos discípulos de Emaús.
As palavras deste distinto professor, expressa de maneira extraordinária a riqueza teológica deste texto evangélico que narra o encontro do Jesus Ressuscitado com dois de seus discípulos, que voltavam para seu vilarejo chamado Emaús.
Nessa série que iniciamos vamos poder acompanhar esses dois discípulos e percebendo as diversas etapas que demarcam sua jornada; haveremos de aprender com eles o real significado da vida cristã; os percalços do inicio de sua caminhada se contrasta como o resultado final desta jornada – da triste para alegria; da frustração e decepção para a viva convicção e esperança! Esse é o caráter paradoxal da jornada da fé de todo cristão genuíno.
Inicio do Retorno
            Enquanto nos primeiros raios de sol, sem que a escuridão da noite tenha se dissipado completamente, as mulheres se preparam e saem em direção ao túmulo para oferecerem suas últimas homenagens ao Mestre Amado, cujo corpo tinha sido tirado às pressas da cruz (nos últimos minutos antes de se iniciar o Sábado, onde nada poderia ser feito) e depositado em um sepulcro emprestado.
            Nesse exato momento dois discípulos também haviam acordado (se é que conseguiram dormir) e se preparam para sair de Jerusalém e retornarem para suas casas na vila de Emaús. Toda esperança da libertação de Israel que havia acalentado seus corações e os tinha entusiasmado durante o tempo que conviveram com Jesus foram sepultadas com Jesus no túmulo; lentamente eles atravessam os portões de Jerusalém, ainda ouvindo o ressoar dos gritos de Hosana, Hosana que a multidão entoou quando Jesus entrara na cidade no domingo anterior; a cada passo se distanciam da cidade, pois só lhes resta retomarem suas vidas e suas famílias.
            Mas seu "êxodo" às avessas torna-se, paradoxalmente, uma verdadeira "páscoa". O encontro com o Jesus ressuscitado vai operar em Cléopas e em seu companheiro uma experiência profunda e transformadora: da cegueira para a iluminação, do afastamento para a aproximação, da ruptura para a comunhão, do coração frio e vazio para o coração ardente e transbordante. Essa mesma experiência transformadora se realizará em nós com certeza absoluta quando nos deixamos acompanhar por Jesus e por Suas palavras que aquecera o coração e a alma – por mais abatidos ou decepcionados que possamos nos sentir.
O Texto Narrativo
            Tanto do ponto de vista literário como do ponto de vista teológico, o relato da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús é um dos mais belos e ricos de todos os relatos evangélicos sobre as aparições de Jesus após sua Ressurreição. Podemos levantar uma perguntar: por que o evangelista dá tanta importância à aparição do Senhor a dois discípulos desconhecidos e dos quais não voltará a falar no livro de Atos?
Uma boa resposta em concordância com a proposta narrativa de Lucas é que a experiência desses dois discípulos é a experiência de todos os demais discípulos em todo o tempo e lugar. Fortalece essa nossa resposta pelo simples fato de que o companheiro de Cléopas por ser um discípulo anônimo (ficamos sem saber seu nome) facilita a identificação do leitor com eles (pois este companheiro desconhecido – poderia ser EU ou VOCÊ ou cada UM de NÓS).
O Evangelista Lucas narra a "história" de tal maneira que a atenção e a tensão do leitor, despertadas no início, são mantidas, num crescendo contínuo, até o fim. Desde o início do relato (v. 15), o leitor sabe que o peregrino que se aproxima dos dois discípulos é Jesus; para eles, porém, é apenas mais um viajante desconhecido (v. 16), que só será reconhecido no fim do relato (v. 31).
Deste modo, Lucas acaba por conduzir também o leitor (eu-você) a vivenciar, com os dois discípulos, a experiência do encontro e do diálogo com o Senhor ao longo do caminho e a experiência do seu reconhecimento no fim do caminho.
Um dos recursos narrativos utilizado pelo evangelista para dramatizar o relato é o dos contrastes de situações em que se encontram os protagonistas no início e no fim. O reconhecimento de Jesus, por parte dos dois discípulos, que é esperado desde o início da narrativa (v. 16), mas que somente acontece no fim (v. 31), será a causa ou razão de uma verdadeira reviravolta na mente, no coração e no restante da vida daqueles dois discípulos:           a situação em que se encontram no fim (vv. 31-33.35) está no extremo oposto da que é descrita no início (vv. 13-16).
Desta forma, na medida em que o leitor torna-se participante da experiência daqueles dois discípulos, também poderá dizer, no fim, que seu coração ardia quando ouvia a explicação das Escrituras feita por Jesus ao longo do caminho (v. 32). Na mesma proporção em que o leitor se identifica, com os dois discípulos ao longo da leitura e estudo do texto, poderá se sentir coparticipante desta mesma jornada percorrida pelos dois discípulos de Emaús.
Aspectos Teológicos
Nesta narrativa da aparição de Jesus Ressuscitado aos discípulos de Emaús temos os três momentos ou etapas que são necessários (podemos dizer indispensáveis) para que alguém se torne de fato e de verdade um verdadeiramente discípulo:
1º) o diálogo no caminho de Jerusalém até Emaús, ao longo do qual o viajante (Jesus) ainda desconhecido explica aos discípulos as Escrituras, fazendo com que superem o escândalo da cruz - o conteúdo dessa primeira etapa pode ser visto como uma longa aula sobre o mistério pascal (paixão/morte/ressurreição) de Jesus (vv. 13-27);
2º) o segundo momento, no qual o relato atinge seu ápice/clímax, é o do reconhecimento de Jesus pelos dois discípulos em Emaús, na hora de partir e repartir o pão (vv. 29-32);
3º) a terceira etapa é a do retorno dos discípulos para Jerusalém, "na mesma hora", e a do anúncio da Ressurreição do Senhor; que ao se encontrarem com os Onze e seus companheiros   "os evangelizadores foram, por sua vez, evangelizados por seus companheiros”, que lhes disseram: "Verdadeiramente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!" (vv. 33-35).
Já enfatizei a importância e a riqueza teológica do recurso literário das oposições e contrastes entre o início e o fim do relato. Elas demonstram a conversão/transformação radical operada nos discípulos pelo encontro pessoal com o Senhor Jesus e revelam também as características paradoxais da Fé Salvadora. Nos próximos textos destacaremos e estudaremos cuidadosamente as cenas em que aparecem esses contrastes e paradoxos; agora, porém, importa apreciarmos todo sabor deste banquete teológico.
O relato começa com o afastamento dos dois discípulos de Jerusalém e do grupo dos Onze (v. 13) e termina com o retorno para Jerusalém, onde estão "reunidos os Onze e seus companheiros" (vv. 33-35). No início, Jesus toma a iniciativa de aproximar-se dos discípulos (v. 15) e de dialogar com eles (v. 17), mas só é reconhecido no fim (v. 31); e logo depois de dar-se a conhecer, deixa de ser visto por eles (v. 31).
No inicio do caminho seus passos são lentos e pesados com a carga extra de decepção e da falta de esperança que oprime seus corações; seus rostos estão tristes e sombrios (v. 17); por esta razão seus olhos estão cegados de maneira que ficam temporariamente "impedidos de reconhecê-lo" (v. 16). Quando tiveram “seus olhos abertos” então “o reconheceram” (v. 31); eles se recordam de como seus corações ardiam no caminho, quando lhes explicava as Escrituras (v. 32), então "na mesma hora", no meio da noite, voltam correndo para Jerusalém, com o coração em brasas e a mente iluminada,       para restaurar a comunhão e partilhar com os companheiros o que VIRAM, OUVIRAM E SENTIRAM no encontro com o Senhor.
O caminho dos dois discípulos se constitui na verdadeira "páscoa", isto é, uma passagem de uma situação de incredulidade, para uma fé convicta; do lamento para a alegria incontida; da frustração para uma viva esperança! De um coração vazio e endurecido pelos acontecimentos trágicos, para um coração transbordante e fecundado de boas novas de alegria!
A Finalidade da Narrativa
Lucas tem como propósito primário responder algumas perguntas que os seus leitores estavam fazendo, visto que sua narrativa começa a circular uns vinte anos depois destes acontecimentos: Por que o Jesus ressuscitado, não se manifesta? Por que nossos olhos são incapazes de vê-lo? Por que nossos corações são tão lentos para crer? E com estes acontecimentos de Emaús - Lucas oferece algumas respostas a estas questões levantadas:
- Para ver e reconhecer o Senhor Jesus Ressurreto, é necessário ouvir continuamente o testemunho das Escrituras;
- Não basta, porém, ouvir. Para compreendermos as Escrituras, é necessário que elas nos sejam explicadas pelo próprio Jesus, agora ressuscitado (por meio do Espírito Santo);
- E à luz dessa explicação do mistério de sua morte e ressurreição, os discípulos compreendem que o mistério pascal de Jesus se relaciona diretamente com a eles;
- Reconhecendo que Jesus, o crucificado, ressuscitou, fazem também eles da Fé, a experiência do encontro com aquele que Venceu a Morte por eles.
            O relato dos discípulos de Emaús revela-nos ainda que: o conhecimento de Jesus Cristo, a comunhão, companheirismo e amizade com ele, o fazer parte da comunidade dos discípulos e o testemunho de sua ressurreição são progressivos.
            Para Conhecer o Senhor é necessário caminhar (sempre a ideia de vivência) com Ele; escutar atentamente e continuamente Sua palavra; sentar-se à Mesa com Ele e deixar que Ele parta e reparta o Pão da Vida.
            Mas não se pode estacionar aqui, ainda que seja desejável estar somente com Jesus (Monte da Transfiguração) é preciso como os dois discípulos de Emaús compartilhar as boas novas com os demais e juntos professar a fé comum: “Verdadeiramente o Senhor Ressuscitou”.  
            Esse caminho único e inevitável, estreito, espinhoso e pedregoso da incredulidade para a fé tem que ser percorrido em sua integridade, sem atalhos ou facilidades (talvez essa seja a grande ilusão dessa geração hedonista). O Caminhar de cada um trás suas características peculiares (não há conversão igual) e são essas características que constrói nossa relação pessoal com Jesus e a perenidade e profundidade dessa convivência com Ele.

           
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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