quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Profetas: Citações de Isaías nos Evangelhos


Os evangelistas fazem citações e alusões extraídas dos textos e imagens que se encontram nos escritos do profeta Isaías. Abaixo podemos visualizar melhor o quanto esse profeta, que viveu setecentos antes de Cristo contribuiu para as diversas narrativas evangélicas. Não sem razão Isaías é denominado por muitos comentaristas bíblicos de “O Evangelho do Primeiro Testamento”. Na tabela as referências do profeta e suas respectivas alusões evangélicas estão em ordem crescente. Aqueles que tiverem paciência e acuidade em verificar as referências bíblicas muito de enriqueceram.
Alguns textos de Isaías e que não são identificados com o mínimo de clareza pelos evangelistas não foram aqui incluídos e na última parte temos uma tabela especifica do chamado “Canção do Servo Sofredor” que é quase integralmente citado pelos quatro evangelistas.


Isaías
Mateus
Marcos
Lucas
João


5.17
21.37-42
12. 1-9
20. 9-19


5. 1-7
21. 37-42
12. 1-9
20. 9-19


5. 20
 6. 22-23
11. 34-35


6. 5
5. 8


6. 9-10
13. 14
4. 12
8. 10
12. 40


 7. 14
1. 23
1. 31, 34-35


8. 14
2. 34


9. 1-7
 4. 15-16; 28.18
1. 79; 2. 7, 11
3.16; 4.36


10. 1
23. 4


11. 1
3. 32


11. 2
3.16; 12.18
1. 10
1. 32


11. 10
2. 32
3. 14-15


11. 12
15. 24
21. 28
7. 35; 10.16


13. 19
24. 29
13. 24
21. 25


13. 14
6. 34


14. 12
10. 18


19. 2
10. 21, 36


22. 14
12. 32


22. 16
27. 60


26. 17
16. 21


28. 12
11. 28-29


28. 13
21. 44


28. 16
21. 42
12. 10
20. 17


29. 6
24. 7
13. 8
21.11


29. 11-12
13. 11


29. 13-14
15. 8-9
7. 6-7


29. 18
 11. 5


31. 5
23. 37


32. 4
10.21


34. 4
24. 29
13. 24


35. 5
 9.30
 7.22


35. 6
9. 32-33; 21.14
5. 8-9; 7.38


38. 3
5. 48


40. 3
3. 3
1. 3
3. 4-6
1. 23


40. 4-5
3. 5-6


40. 8
5.18; 24.35


40. 11
10. 3, 11-12


42. 1-3
12. 18-21


42. 6
2. 32


42. 7
1. 79; 4.18


50. 6
26. 39
8. 29; 14.31; 15.19


51. 17
20. 22
14. 33, 36


53. 1
12. 38


53. 4
8. 17; 20.19


53. 7
26. 64; 27.12
14. 61
1.19; 19. 9


53. 8
17. 23; 26.57, 60


53. 12
26. 38-39, 42
15. 28
22. 37


55. 1
5. 6; 13.44
4.14; 7.37


56. 7
21. 13
11. 17
19. 46


5,8. 3
6. 16
5. 33; 18.12


58. 7
25. 36


60. 6
2. 11


61. 1
11. 5


61. 2
5. 4
6. 21


62. 11
21. 5
12. 15


66. 1
5. 34-35


66. 24
9. 48 .


Com a exceção de apenas dois, todos os versículos restantes da Quarta Canção do Servo Sofredor ( Is. 52. 13-53. 12 ) foram "referidos" pelos Evangelistas.

52. 13
12. 18
52. 14
2. 34
53. 1
12. 38
53. 2
2. 46
53. 3
9. 12
10. 11
53. 4
8. 17, 19, 20
53. 6
3.16
Vereshchagin E.M.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas
BRIGTH, J. História de Israel. São Paulo: Ed. Paulus, 1980.
FALCÃO, Silas Alves. Panorama do Velho Testamento – os livros proféticos. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1965.
FEINBERG, Charles L. Os profetas menores. Tradução: Luiz A. Caruso. Florida: Editora Vida, 1998.
FRANCISCO, Clyde T. Introdução ao Velho Testamento. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações (JUERP), 1969.
LASOR, W. Sanford, DAVI A. Hubbard e FREDERIC W. Bush. Panorama del Antiguo Testamento - Mensaje, forma y transfondo del Antiguo Testamento. Buenos Aires: Ed. Nueva Creacion, 1995.
ROBINSON, Jorge L. Los doce profetas menores. Texas: Casa Bautista de Publicciones, 1982.
SICRE, José Luís. Profetismo em Israel – o profeta, os profetas, a mensagem. Tradução: João Luís Baraúna. Petrópolis: Editora Vozes, 2002.


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Evangelhos: A Questão Sinótica – Propostas de Solução


Até agora já vimos que os Evangelhos Sinóticos tem muitas características semelhantes, mas, também possuem muitas diferenças (concordia discors). Neste ponto do nosso estudo haveremos de examinarmos algumas possíveis explicações para esta problemática sinótica, não nos esquecendo nunca de que nenhuma delas é por si suficiente para esclarecer todos os pormenores, como tão bem coloca Bittencourt:
A solução do problema sinótico, das numerosas seme­lhanças entre os três primeiros evangelhos, do ponto de vista da ordem, redação e conteúdo, tem sido procurada através dos séculos e as mais variadas soluções tê em sido proposta. Desde os tempos da primeira harmonia dos evangelhos, ou melhor, de uma tentativa para organiza-Ia, representada pelo Diatessarão,de Taciano (que se encon­tra ainda dentro do século II), passando pelas tradições incorporadas por Eusébio de Cesaréia em sua História Eclasiástica, representando Clemente de Alexandria a in­formar haver recebido tradição desde o tempo dos presbí­teros, com referência à ordem na qual os evangelhos haviam sido escritos ("os que contêm as genealogias foram escritos primeiro", VI .14.5), até Agostinho e os críticos mo­dernos, a luta não tem cessado e uma conclusão definitiva e indispensável está ainda por vir (1969).
A Hipótese da Mutua Dependência
            A mais antiga e talvez a primeira tentativa de explicar como se relacionam entre si os evangelhos sinóticos vem de Agostinho , cuja opinião era de que Mateus foi o primeiro a ser escrito e que Marcos se utilizou dele para fazer uma espécie de resumo, enquanto Lucas utiliza‑se tanto do primeiro quanto do segundo para elaborar o seu. Hale esclarece que essa proposta de Agostinho surgiu porque ele estava cônscio de que o Evangelho de Mateus era bem conhecido no segundo século e era sempre listado em primeiro lugar, em toda lista dos livros do Novo Testamento (1983, p.56). Esta opinião do querido teólogo perdurou até aproximadamente 1835, com algumas variações.
No transcorrer do tempo a proposta de Agostinho foi sendo modificada. As diversas variações baseiam-se na questão da ordem cronológica dos três sinóticos ( e sendo produzida diversas variações (quem escreveu primeiro?). Mas quando examinadas apenas três propostas demonstram capacidade de sustentação: A primeira sequência proposta por Agostinho [Mateus Marcos ‑ Lucas] conforme exposto acima; uma segunda variação [Mateus – Lucas – Marcos] é comumente denominada de Hipótese de Griesbach, (1776) onde Mateus redigiu o primeiro evangelho e serviu de fonte para o autor de Lucas e Marcos, e este por sua vez, escrevendo por último, serviu-se de Mateus e Lucas como suas fontes primárias; uma terceira sequência [Mateus ‑ Lucas ‑ Marcos] onde Marcos é totalmente dependente de Mateus e Lucas, enquanto os dois últimos são totalmente independentes um do outro  (C. Lachmann-1835); e a quarta sequência [Marcos‑Mateus e Marcos‑Lucas] que firmou-se como a mais aceitável entre a maioria dos estudiosos e tem sido associada a H. J. Holtzmann (1863) e B. H. Streeter (1924) e segundo eles Marcos seria o primeiro evangelho escrito e teria sido usado, independentemente, por Mateus e Lucas, ficando conhecida como a hipótese da prioridade marcana.
A Suposição de um Proto‑Evangelho e/ou Evangelho Primitivo
Essa hipótese foi proposta por G.E. Lessing (1778) e apresentada de forma mais matizada e complexa por J.C. Eichhorn,(1804) e mais recentemente esmiuçada por Rolland (1984) que acreditavam que houve um evangelho original do qual os três evangelistas sinóticos extraíram o seu material.
De acordo com esta hipótese, os evangelhos seriam diferentes traduções e seleções de um registro apostólico escrito em aramaico, denominado de "Evangelho dos Nazarenos".   As diferenças narrativas dos evangelistas canônicos se daria pelo fato de que utilizaram-se de diferentes versões do "Evangelho dos Nazarenos" que circulavam por aqueles dias. A base para estas suposições é uma declaração de Papias[1] de que "Mateus compôs os logia [textos, narrativas, registros] em língua hebraica, cada um depois os interpretou segundo suas capacidades" (Eusébio, "História Eclesiástica" III, 39, 17). Essa hipótese explica melhor os materiais que os sinóticos tem em comum, mas deixa muitas questões em aberto. Se os autores tinham todo esse material diante de si, por que então não o incluíram todo para atingir os seus objetivos? Esta explicação é muito prejudicada pelo fato de não haver qualquer vestígio da existência deste Evangelho escrito em aramaico.
A Proposta de uma Tradição Oral e/ou Memorabilia
Os expositores desta hipótese (J. G. Herder-1797) parte do pressuposto de que não havia documentos escritos sobre o ministério de Jesus antes da produção dos evangelhos canônicos. Assim sendo, a única fonte dos escritores sinóticos foi a "memorabilia" do ministério de Jesus, preservada nas pregações públicas e nos ensinos dos apóstolos e dos demais discípulos que estiveram com o Senhor Jesus Cristo. Os aspectos defendidos nesta posição são:
- não se discute o fato de que as narrativas da vida e dos ensinos de Jesus foram transmitidas em forma oral pelas suas testemunhas, em principio;
- documentos antigos (Papias) nos informam ‑ que o Evangelho de Marcos consta da pregação do Apóstolo Pedro, transcritas por solicitação dos seus ouvintes;
- os judeus tinham uma preferência pelo ensino oral;
- há provas de que existiu um grupo catequizador, responsável em instruir os novos crentes, utilizando‑se deste método oral.
Assim, concluem os defensores desta hipótese, as semelhanças diferenças entre as três narrativas sinóticas é decorrentes do fato de que seus escritores utilizaram‑se desta multiplicidade de pregações e ensinos disseminadas em diferentes lugares por vários grupos.
Não resta duvidas de que a tradição oral exerceu uma função importante para a pré‑história dos evangelhos. Todavia, são tremendas as dificuldades para se explicar o fato de que o evangelho foi preservado, com todas as suas múltiplas particularidades, por memória, por um período tão longo de tempo. E ainda mais, esta memorização tinha que ser feita tão rapidamente quanto o Evangelho se propagava por todo o mundo, criando‑se então uma necessidade urgente de traduzi‑lo para novos idiomas quase que simultaneamente. Por tudo isto, a tarefa de supervisão deste trabalho seria impossível. Também não explica satisfatoriamente as concordâncias, às vezes literais, e a sucessão das Perícopes em ordem idêntica.

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Guedes, Ivan Pereira
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Referências Bibliográficas
BITTENCOURT, B. P. A Forma dos Evangelhos e a Problemática dos Sinóticos. São Paulo: Impressa Metodista, 1969.
CARSON, D.A.; MOO, D.J. Moo & MORRIS, L. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1997.
HALE, Broadus DavidIntrodução ao estudo do Novo Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1983.
HENDRIKSEN, Guillermo. El Evangelho Secunto San Mateo -  Comentário del Nuevo Testamento. Subcomisión. Literatura Cristiana, EE. UU., 1986.
HORSTER, Gerhard. Introdução e Síntese do Novo Testamento. São Paulo: Editora Evangélica Esperança, 1996.
BORNKAMM, Gunther. Bíblia – Novo Testamento. São Paulo: Editora Teológica e Paulus, 3ª ed., 2003.
SICRE, José LuisIntrodução aos Evangelhos (Um encontro fascinante com Jesus), v.1. São Paulo: Editora Paulinas, 2004.
TENNEY, Merrill C. O Novo Testamento – Sua Origem e Análise. São Paulo: Shedd Publicações, 2007, (anteriormente produzido pelas Edições Vida Nova).
SHREINER, J & DAUTZENBERG, G. Forma e Exigências do Novo Testamento. São Paulo: Editora Teológica, 2ª ed. 2004.





[1][1] Papias de Hierapolis, na Frígia, notável escritor cristão e prelado do período patrístico, é uma das testemunhas mais importantes da autenticidade do Evangelho de João. Papias nasceu no 2º século, e por fim sofreu o martírio.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

NT - As Epístolas Paulinas: Introdução Geral


No arranjo canônico do Segundo Testamento logo após os quatro Evangelhos e o livro de Atos, temos uma sequencia de vinte e uma Epístolas,  chegando a vinte e duas se incluirmos o Apocalipse como uma epístola (que em realidade é - veja Apocalipse 1:4), todavia, por causa de sua natureza apocalíptica sem igual, deve ser categorizada e estudada distintamente como o Livro Profético do Novo Testamento.[1]
Tratando sobre esta questão das epístolas Louis Berkhof destaca a relação paritária das epístolas com as demais literaturas bíblicas como instrumento da revelação de Deus:
 A revelação de Deus vem para nós em muitas formas, em diversas maneiras. A Mensagem de Deus foi proclamada não apenas oralmente mas também na forma escrita; não apenas pelos profetas, mas também pelos doces cantores e pelos homens sábios de Israel; assim também, o Evangelho encontra expressão não apenas nos Evangelhos, mas também nas Epístolas. Praticamente um terço do Novo Testamento está estruturado na formula epistolar (1915).

Nessa mesma linha de perspectiva  F. F. Brucce destaca que cronologicamente as Epístolas na verdade precedem os Evangelhos:
Os mais antigos  documentos neotestamentário, segundo chegaram até nós, são as cartas escritas pelo apóstolo Paulo antes de seu encarceramento em Roma (cêrca de 60-62 A.D.). O mais antigo dos Evangelhos na forma atual não se pode provavelmente atribuir a data anterior ao ano 60, mas da pena de Paulo temos nada menos de dez Epístolas datadas entre 48 e 60 (1965, p. 99).
As Epístolas estão geralmente divididas em Epístolas Paulinas e as Não Paulinas e/ou Epístolas Gerais.[2] As Epístolas de Paulo podem ser subdivididas em duas categorias: nove epístolas escritas a igrejas (Romanos a II Tessalonicenses) e quatro pastorais ou pessoais (1 e 2 Timóteo, Tito e Filemom), perfazendo um total de treze.
É preciso destacar também que Paulo escreveu muitas outras cartas que nós não possuímos. Isto fica evidente nas entrelinhas de suas próprias Epístolas. I Cor. 5:9 faz referência a uma carta perdida. Col. 4:16 fala de uma correspondência enviada a Laodiceia, da qual temos tão somente esta indicação. Mas aprouve ao Espírito Santo inserir apenas estas cartas no Cânon das Sagradas Escrituras. E como nos informa Kummel:
No começo do século XIX, a origem paulina de algumas epístolas foi posta em dúvida – em primeiro lugar , as Pastorais, e, depois também as epístolas aos Tessalonicenses, aos Efésios, aos Filipenses e também aos  Colossenses.  Nessa época F. C. Baur e a Escola de Tubingen reconheciam apenas as chamadas ‘grandes epístolas’ (Gálatas, I e II Coríntios, Romanos) como autênticos documentos do Apóstolo, porque somente estas epístolas poderiam ser entendidas como testemunhos da luta entre Paulo e os judaizantes. Mas logo se tornou patente que a Escola de Tubingen encerrava a imagem histórica da cristandade primitiva num esquema por demais estreito. Os defensores da ‘critica-radical’ chegaram a negar a autoria de Paulo até para as quatro ‘grandes cartas’, explicando-as como sedimentação de correntes  antagônicas por volta do ano 140. Eles partiram de pressupostos literários insustentáveis e de uma construção forçada da história, como o fizeram as construções posteriores (1982, p.320).
Após as correspondências paulina temos oito epístolas[3] dirigidas aos Cristãos judeus dispersos (Hebreus[4] a Judas), que nos manuscritos antigos usualmente segue imediatamente depois de Atos dos Apóstolos e, portanto precede as Epístolas Paulinas, talvez porque elas foram elaboradas pelos apóstolos mais velhos e no general enfatizam as comunidades Cristãs Judaicas, provavelmente formadas pelos judeus convertidos no sermão de Pedro, e outros, durante a Festa do Pentecostes. Sua apresentação da verdade naturalmente difere das Epístolas escritas por Paulo, que visa principalmente os gentios, mas cada uma delas esta em harmonia perfeita, não havendo qualquer tipo de contradição.
A pregação do Evangelho originalmente era feita de forma apenas oral, e aqueles que eram convertidos se uniam formando pequenas e singulares comunidades ou igrejas. Os apóstolos e os demais evangelistas iam anunciando a Cristo em diversas regiões do mundo conhecido no século primeiro. Deste ministério missionário surge a necessidade de se comunicar com algumas dessas comunidades cristãs para instruí-las na fé, para animá-las e exortar ou então corrigir deficiências. As cartas foram o meio mais eficiente e rápido para se fazer este trabalho pastoral à distância como tão bem esclarece José Roberto Cardoso em seu artigo:
O recurso à carta surgiu na antiguidade da necessidade de comunicação entre indivíduos que se encontravam geograficamente distantes uns dos outros. O impedimento da presença da pessoa fez dela o melhor porta-voz. É verdade que se fizeram necessárias diversas tentativas e versões, a fim de se evitar que seu conteúdo ficasse obscuro ou ambíguo. Para tanto, o escritor tinha que ter em mente a impossibilidade do destinatário de pedir esclarecimentos sobre qualquer ponto em questão. ... Conforme J. L. White (1986, p. 190), a carta atendia a três propósitos bem definidos: ‘(1) fornecer informações; (2) fazer petições ou dar ordens/instruções; e (3) desenvolver ou manter contato pessoal com os recipientes’ Essas funções epistolares modelavam as espécies de cartas no mundo helenístico. O relatório militar ou da burocracia atendia ao primeiro item. As relações sociais entre inferiores e superiores, entre iguais e entre mestres e alunos encaixavam-se no segundo item. Já a correspondência de amizade e familiar pertenciam ao terceiro. Para os antigos escritores, esse último tipo de correspondência era o mais estimado, comparado a um dom (2000, p. 28-29).

Tornou-se também um modo excelente de fazer com que essas instruções ficassem perpetuadas através e para as gerações, como bem coloca Kummel:
A força motriz para a formação independente da forma epistolar num meio de auto comunicação literária da cristandade foi a real necessidade da missão para a edificação e instrução, admoestação e trabalho pastoral, defesa contra ideias errôneas, e manutenção da ordem eclesial (1982, p. 318-319).
Estrutura das Cartas do Novo Testamento
            De acordo com as informações de Robert H. Gundry (1987, p. 287) as cartas particulares, no período greco-romano, tinha em torno de noventa palavras em média e que pelas dimensões da folha de papiro (34 cm x 28 cm) não caberia mais do que 150 a 250 palavras, de modo que, as cartas pessoais se restringiam normalmente a uma folha apenas.
            Mas ao examinarmos as cartas de Paulo verificaremos que são muito mais extensas indo de 335 palavras em Filemom a 7.101 palavras em Romanos, perfazendo uma média em torno de 1.300 palavras. Deste modo, pode se dizer que Paulo criou uma nova forma literária, a epístola – caracterizada por ser uma carta extensa, ter uma natureza teológica e usualmente um objetivo comunitário dos endereçados. Todavia, ele mantém toda a estrutura de uma carta genuína, pois contém endereçados genuínos e específicos, se distinguindo das epístolas literárias daqueles dias, que eram escritas para um público geral.
            O Professor Felix Just faz um amplo e excelente estudo da estrutura literária das cartas neotestamentárias, das quais utilizamos aqui apenas a parte introdutória.
Estrutura Padrão de Cartas Antigas:
As comunicações escritas hoje seguem alguns formatos bastante comuns e padronizadas:
  • Cartas pessoais normalmente começam com algo parecido como “Querida Maria” e terminam com “Amor, João”. Nós escrevemos a data à direita do topo e depois de escrevermos uma ou mais paginas... assinamos, dobramos, colocamos em um envelope, escrevemos o endereço do recipiente e o remetente colocamos no verso do envelope.
  • Memorandos empresariais ou mensagens de Email têm freqüentemente um cabeçalho com quatro partes (Para: / De: / Data:Mensagem: ou  De: / Enviou: / Para: / Assunto:).  
Assim também, a maioria das cartas escritas no mundo antigo seguia um formato padronizado, mas que é ligeiramente diferente de hoje. As cartas no NT escritas e/ou normalmente atribuído a Paulo e outros Apóstolos segue os modelos padronizados da sua época. Embora haja algumas variações nas cartas individuais (especialmente no corpo e conclusão), as estruturas básicas das cartas antigas podem ser esboçadas como segue:
I) Cabeçalho da Carta
  1. Remetente(s): De quem
  2. Recipiente(s): Para quem
  3. Formula de Saudação
  4. Ação de Graças (ou Bênção)
II) Corpo da Carta
  1. Exortação inicial
  2. Declaração do assunto
  3. Discussão teológica
  4. Advertência ética
III) Conclusão da Carta
  1. Assuntos práticos
  2. Saudações individuais
  3. Pós-escrito pessoal
  4. Doxologia ou Oração final
Características Especiais das Cartas Paulina:
  • Na maioria destas cartas, Paulo não é o único autor, mas são mencionados um ou mais co-autores (quem normalmente é listado? Quais cartas listam só Paulo? Pôr que?)
  • Estas cartas não são endereçadas a todas as pessoas indistintamente, mas exclusivamente às pequenas e iniciantes comunidades de Cristãos (como exatamente Paulo se dirige a eles?).[5]
  • A “Saudação Padrão Paulina” associa uma variação da saudação grega habitual (chaire –“Graça”) com a saudação judia comum (shalom –“Paz”)
  • Todas as cartas escritas ou atribuídas a Paulo contêm um padrão de três seções principais, mas nem todas as cartas Paulinas contêm exatamente as mesmas subdivisões como mencionado acima:
    • às vezes uma subdivisão é omitida, (por exemplo na abertura de Gálatas; no fim de 1 Tessalonicenses)
    • às vezes a ordem de subdivisões é mudada (os fins de muitas das cartas de Paulo)
    • às vezes algumas cartas têm mais de uma seção do mesmo tipo (por exemplo duas "ações de graças" em 1 e 2 Tessalonicenses)
    • frequentemente as preocupações teológicas, éticas, e práticas são entrelaçadas (especialmente nas cartas longas), assim as divisões de verso no “Corpo da Carta” e os subtítulos são apenas sugestões aproximadas.         
Edição das Cartas
Outra prática comum no mundo antigo era colecionar e republicar as cartas de pessoas famosas como Paulo.  Neste processo, foram combinadas às vezes cartas mais curtas ou outras mudanças editoriais. Isto não diminui em absolutamente nada a inspiração e inerrância das Epistolas canônicas.
Por exemplo, o que é chamada “Segunda Carta de Paulo normalmente aos Coríntios" (2 Cor) poderia ser uma compilação de que estava originalmente entre duas e cinco cartas separadas. Semelhantemente, alguns estudantes pensam que a “Carta de Paulo aos Filipenses” é uma compilação posterior de três cartas originalmente separadas.
Gênero Literário
As cartas incluem gêneros literários diferentes: desde um profundo tratado teológico sobre a fé (ex. Romanos), até uma simples carta pessoal (ex. Filemom), passando pelas temáticas diversificadas (ex. Coríntios).
Estes gêneros literários devem-se, sobretudo às circunstâncias diversas das cartas, mas também, como no caso de Paulo e Pedro, ao temperamento arrebatado e no caso de João um paternal amor em favor dos crentes e suas comunidades.
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Referências Bibliográficas
BARCLAY, William. El Nuevo Testamento comentado. Buenos Aires (Argentina), Asociación Editorial la Aurora, 1974.
BROWN, Raymond. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004 (Coleção Bíblia e história Série Maior).
BERKHOF, Louis . New Testament Introduction. Eerdmans, 1915, Scanned and Edited Mike Randall.
BRUCE, F. F. Merece Confiança o Novo Testamento? São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1965.
CARDOSO, José Roberto C. 1 Tessalonicenses: Epístola e Peça Retórica, Fides Reformata, v.7, São Paulo, 2000, pp. 28-29.
GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1987.
HALE, Broadus David. Introdução ao estudo do Novo Testamento. Trad. Cláudio Vital de Souza. Rio de Janeiro: JUERP, 1983.
JUST, Felix, Loyola Marymount University, Editoração Eletrônica: clawww.lmu.edu/~fjust
KUMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982.
WESTCOTT, Brooke Foss. A general survey of the history of the canon of the new testament. 4ª ed. London: Macmillan and Co., 1875.




[1] É preciso levar em conta a observação de Kummel: “Mas nem todos são realmente cartas, ou seja, escritos endereçados em ocasiões especificas a pessoas determinadas ou a círculo de pessoas, escritas coma finalidade de comunicação íntima, sem intenção de maior divulgação. Em Tiago, por ex., falta tudo o que constitui realmente uma carta. O Apocalipse, para dizer a verdade, está moldado num estilo epistolar, mas, literariamente falando, pertence ao gênero apocalipse. Com relação à Epístola aos hebreus, as opiniões variam largamente, não se sabendo ao certo se deve ser considerada como uma verdadeira carta ou um ensaio artisticamente elaborado e dirigido a um público mais vasto, empregando a forma epistolar apenas como forma externa. Entre as epístolas católicas, somente a segunda e terceira epístolas de João são realmente cartas, com endereços exatos e específicos”. KUMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento, ed. Paulus, São Paulo, 1982, pp. 316-317.
[2] Pôr que essas Epístolas começaram a serem chamadas de Gerais ou Católicas, é mais ou menos um enigma. Várias interpretações para esta classificação têm sido dado, mas nem uma delas tem sido inteiramente satisfatória.
[3] Destas oito Epístolas Hebreus e as primeiras de Pedro e a primeira de João foram geralmente aceitas como canônicas desde o começo, enquanto as demais a princípio foram questionadas e posteriormente foram gradualmente sendo aceitas por todo a Igreja.
[4] Vários estudiosos somam a Epístola aos Hebreus à cota paulina, embora em nenhum lugar dela haja referência de que Paulo a escreveu. A Igreja esteve sempre dividida nesta questão, a Igreja Oriental confirmando e a Ocidental rejeitando que Paulo tenha sido o seu autor. Quando abordarmos a referida epístola haveremos de discutir mais detalhadamente este aspecto.
[5] “... as cartas de Paulo foram escritas por um autor particular e dirigidas a um circulo particular de leitores e não a um público geral. Sempre são determinadas e referentes a uma situação definida, ainda que outras questões surgidas no seu decorrer possam escondê-la. É isso que torna as cartas de Paulo tão atraentes, embora também fique mais difícil a compreensão ao leitor posterior.” BORNKAMM, Gunther. Bíblia – Novo Testamento – Introdução aos seus Escritos no Quadro da História do Cristianismo Primitivo, Edições Paulinas, 1981, p.74.