sábado, 18 de dezembro de 2021

Lendo o Livro da Criação (Salmo 19.1-6)



A leitura dos Salmos nos faz pensar em Deus o tempo todo. Em cada um destes extraordinários cântico-oração encontramos novas e maravilhosas revelações sobre Deus!

O salmista consegue enxergar Deus em todas e quaisquer situações e circunstâncias da sua vida: quando está feliz ou triste (Deus); quando está forte ou abatido (Deus); quando em paz ou guerra (Deus); quando entre amigos ou inimigos (Deus)...sempre Deus...Deus o tempo todo!

Nesse Salmo 19 Deus se revela a nós em dois maravilhosos LIVROS – o da Criação (19.1-6) e o da Torah Escrituras, Bíblia (19.7-11).

O primeiro Livro é sem palavras...o segundo é através das Palavras.

Os céus declaram a glória de Deus: literalmente, os céus estão narrando a glória de Deus – aqui o salmista usa o nome mais comum El, "o Poderoso" - o Deus da Criação – provavelmente para se fazer entendido pelos não judeus (cf. Sl 18.49) onde ele declara que deseja comunicar a todas as pessoas (povos) as grandesas de Deus.

O ap. Paulo na abertura de sua carta aos Romanos (1.20) faz essa declaração: “Pois seus [Deus] atributos invisíveis, ou seja, seu eterno poder e sua natureza divina têm sido claramente percebidos (poderíamos dizer lidos), desde a criação do mundo, nas coisas que foram feitas. Então, eles (quer judeus ou gentios) não têm desculpas”.

Há um ditado popular que diz: O maior cego é aquela pessoa que não quer ver – de maneira que o Ateu quando nega a existência de Deus, bem como todos aqueles que ignoram e vivem como se Deus não existisse – são cegos – e, portanto, analfabetos – pois não conseguem ver (ou não querem) e não conseguem ler o livro sem palavras da Criação, que permanece aberto e disponível, permanentemente, todos os dias de suas vidas, desde quando nascem até quando morrem.

Como crentes nós não somente podemos, mas devemos contemplar (ler) este precioso Livro da Criação todos os dias. A leitura diária deste Livro não apenas alimenta nossa alma, como também produz em nós uma mente mais saudável e menos neuróticas.

Nada é mais saudável para nós do que em meio ao caos social que viemos, com sua violência gratuita, pandemias que se tornam intermináveis, corrupção descarada, justiça distorcida e favorável ao crime, iniciarmos e concluirmos o nosso dia-a-dia lendo (contemplando) o Livro da Criação. Procurando e encontrando em cada detalhe, grande ou pequeno, a perfeita criatividade harmônica com a qual Deus trouxe à existência esta multiforme Criação, incluindo eu e você! Em cada flor simples no jardim ou em uma enorme árvore na praça, em cada criança ou adulto podemos ver o poder criativo de Deus.

O Deus que Criou, trouxe à existência, os Céus e a Terra, o Sol e as Estrelas e incontáveis planetas (os cientistas não encontraram o fim do Universo) ...esse Deus ... é o nosso Deus.

O Poder da Criação (conjunto Voz da Verdade)

Eu vejo o dia clarear / Eu vejo o rio que corre pro mar

Eu vejo o sol que sai do horizonte / Não há que conte melhor a beleza de Deus

Que os próprios olhos que veem o poder da criação

Foi Ele quem fez os céus e a terra e o firmamento

Deu força ao vento e beleza à flor / Foi Ele quem fez a luz e o poder do amor

Fez o homem à imagem do seu Criador.

Você deseja ter uma vida saudável? Uma boa receita é contemplar (Ler) o Livro da Criação pela Manhã, ao Meio Dia e à Noite!

Veja o que o Salmista declara no verso 2

Um Dia profere palavrasliteralmentederrama palavras, como de uma fonte inesgotável – uma cachoeira. Cada dia presta seu testemunho ao próximo e, assim, o fluxo segue sem nunca ser interrompido

DEUS FALA TODOS OS DIAS, mas nós muitas vezes estamos completamente SURDOS – nossos ouvidos estão ENTUPIDOS por outros SONS – preocupações, ansiedades, interesses das coisas deste mundo........

Podemos resumir os versos 4,5 e 6 = não há um único lugar em que o ser humano possa ira (de uma extremidade a outra desse planeta) e até mesmo fora dele (espaço) que não possa contemplar a Criação de Deus.

Em outro Salmo ele escreve: Em lugar algum conseguirei me esconder de Ti, meu Deus! Se eu subir bem alto em direção ao céu Tu estás lá; se eu descer ao mais profundo abismo, lá também Te encontrarei.

Se tivéssemos ouvidos para ouvir, [esse é o estribilho no Apocalipse] perceberíamos que as coisas que acontecem no dia a dia proclamam a presença e o poder de Deus. E mesmo a noite, com seu silêncio impressionante, revelam a glória e o poder de Deus.

"Não há pessoas em nenhum lugar da terra, independentemente da língua/idioma que usem que estejam além do alcance do que os céus continuamente dizem aos ouvidos de todas as pessoas”.

Mesmo um Robson Crusoé, sozinho em uma ilha, no meio do oceano, pode ouvir a Criação de Deus. Mesmo uma pessoa completamente analfabeta e iletrada, destituído de qualquer senso cultural, pode perfeitamente ler esse Livro da Criação de Deus.

 

Senhor meu Deus, quando eu maravilhado, / Os grandes feitos vejo da tua mão,

Estrelas, mundos e trovões rolando, / A proclamar teu nome na amplidão;

Canta minh'alma, então, a ti, Senhor: Grandioso és tu, grandioso és tu!

Canta minh'alma, então, a ti Senhor: Grandioso és tu, grandioso és tu!

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Lendo o Antigo Testamento Hoje – o livro dos Reis


            Lamentavelmente 80% dos evangélicos desistiram de ler e estudar a primeira parte da Bíblia. O título dado a esta primeira parte das Escrituras Cristã – Antigo Testamento – não ajuda, pois o termo “antigo” trás em si a ideia de algo velho e, portanto, irrelevante para os dias atuais. Eu particularmente prefiro o termo acadêmico – Primeiro Testamento – para nomear esta maior parte da Bíblia.

            Os dois livros dos Reis estão inseridos no arcabouço maior da literatura histórica, o que também não atrai muito a atenção dos leitores bíblicos atuais, pois História é uma palavra assustadora para grande parte das pessoas, porquanto tem cheiro de naftalina. O que pode ter de atual e útil uma série de informações sobre reis que viveram a quase três mil anos atrás? O que tem haver com a minha vida as narrativas de batalhas há muito esquecidas?

            Mesmo para aqueles que leem estes registros dos Reis pela ótica do historiador com o intuito de compreender melhor o contexto das nações de Israel e Judá, ainda falta aquele link com a realidade evangélica do século XXI.

            No auge da chamada Escola da “História da Salvação”, como um ramo dos estudos da Teologia do Antigo Testamento, havia um consenso de que nestas literaturas históricas havia um testemunho contundente do poder e da soberania de Deus na História humana, como preparação para o advento da inserção de Jesus Cristo na nossa humanidade. Mas um forte e corrosivo aumento do ceticismo histórico, dissecando cada ponto e vírgula destas literaturas históricas bíblicas, as transformaram em literaturas teológicas e sua característica eminentemente histórica foram minimizadas a quase zero, de maneira que os fatos históricos registras em Reis não exerce mais impacto direto em nós.

            Um outro fator agravante é que as literaturas de Reis não se enquadram dentro da moldura moderna do que é considerado História. Os “especialistas” não consideram os seus registros como “história real”, pois amalgamado com os fatos históricos “genuínos” há lendas, histórias de milagres (que horror), contos populares e construções literárias fictícias. Se não bastasse, os historiadores de Reis ousam tirar lições morais a partir dos eventos históricos, algo inconcebível para a historiografia atual.

            Mas o mais agravante, para o historiador pós moderno, é que toda a historiografia de Reis tem um único agente causador – Deus. A partir do chamado movimento Renascentistas iniciou-se o processo paulatino e continuo de banir Deus da História humana (esse movimento pode ser visto diariamente nesses primeiros anos do século XXI). Não é possível, segundo essas pessoas, se escrever uma história séria a partir da concepção de um Deus que intervém na História humana. Como ler então os livros dos Reis? Deve-se ler como uma narrativa teológica que por acaso foi escrita na forma de história. Mas para grande decepção destes céticos historiográficos as literaturas de Reis têm se mantido dentro dos padrões básicos e elementares de quaisquer outras literaturas históricas de ontem e de hoje. Os fatos registrados foram e continuam sendo comprovados pelos estudos arqueológicos e pelas mais diversas ciências que fornecem subsídios para uma História honesta e saudável.

            Mas é evidente e inegável que para nós que temos a Bíblia como sendo de fato a Palavra de Deus, os livros de Reis não contêm apenas e tão somente registros de fatos históricos (ainda que honestamente o sejam), mas contém e são instruções para a nossa vida e fundamento para a nossa fé, pois as narrativas contêm uma clara intenção querigmática. Como tão bem sintetizou o apóstolo Paulo, no primeiro século da era cristã, de que esses livros são úteis para o nosso ensino e correção afim de que possamos conhecer e vivenciarmos a vontade de Deus para as nossas vidas.

            E a forma com que o livro dos Reis foi composto é maravilhosamente apropriado para cumprir essa função. Os eventos do passado são mesclados com os fatos históricos em todas as épocas e lugares. A forma pessoal com que Deus trata as nações de Israel e Judá refletem a forma com que Ele tem tratado todas as Nações a partir da manifestação de Cristo e da forma final com que há de tratar todas as Nações na conclusão definitiva da História humana.

            Na medida em que folheamos cada página deste livro dos Reis tomamos conhecimento das ações de Deus e das consequências disso na vida das pessoas. Somos tocados pela arte com que estas histórias são compartilhadas e somos envolvidos em seu turbilhão de emoções de alegria e tristeza, fé e incredulidade, busca e abandono, vida e morte.

            A perda por abandonarmos essas literaturas dos Reis é incalculável. Precisamos urgentemente as lermos com a mente e o coração, ir a elas como fontes de águas frescas, para sermos vivificados, assim como uma terra ressecada carece das águas para tornar a gerar vida. Voltemos às velhas páginas da História bíblica e contemplemos uma vez mais a forma maravilhosa com que Deus se relacionou com seu povo, pois Ele ainda continua se relacionando com seu povo através da Igreja. O amor e a misericórdia de Deus ainda se fazem presentes no cotidiano dos cristãos em toda a terra, assim como também a sua ira e juízo sobre todos aqueles que permanecem em confronto direto com sua vontade e soberania. A História dos dias dos Reis continua sendo a História dos dias atuais – pois Deus permanece o mesmo.  

            Mas um alerta se faz necessário. Essa literatura histórica, assim como todas as literaturas bíblicas não devem serem lidas como que para encontrar respostas prontas a toda problemática da nossa vida ou da sociedade em que estamos inseridos. Mas que na medida em que dela nos aproximamos e sorvemos seu conteúdo somos conduzidos a um crescente entendimento da nossa própria realidade, à luz dos acontecimentos passados. Elas são como mapas que nos indicam os caminhos por onde devemos andar, para não nos perdermos em meio a este Mundo tenebroso. A leitura e estudo destes livros inicia um processo de assimilação e discernimento e todo aquele que perseverar haverá de experimentar uma vivificação espiritual sem medida.  

  

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Guedes, Ivan Pereira
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Referências Bibliográficas
ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? Ed. Vida Nova, São Paulo, 1979.
ARNOLD, Bill. T. e BEYER, Bryan E. Descobrindo o Antigo Testamento – uma perspectiva cristã. Tradução Suzana Klassen. São Paulo. Cultura Cristã, 2001.
BRIGTH, Jonh. História de Israel. 7ª. ed. São Paulo. Paulus, 2003.
ELLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento, ed. Vida, Florida, 1991.
GARDNER, Paul (Editor). Quem é quem na bíblia sagrada – a história de todos os personagens da bíblia. Tradução de Josué Ribeiro. São Paulo. Vida, 1999.
HOFF, Paul. Os livros históricos. São Paulo. Vida, 1996.
LASOR, William S., HUBBARD, David A. e BUSH, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. Tradução Lucy Yamakamí. São Paulo. Vida Nova, 1999.
HILL, Andrew E. e WALTON. J. N. Panorama do Antigo Testamento. Tradução Lailah de Noronha. São Paulo. Editora Vida, 2006.
 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Memento mori: a preciosidade da vida



Quanto vale uma vida? Muitas vezes não damos valor algum à vida, pois na maior parte do nosso tempo a desperdiçamos prodigamente. Da mesma forma que o personagem mais novo da parábola contada por Jesus, nós gastamos a nossa preciosa vida em momentos fúteis e a trocamos continuamente por coisas que não tem valor algum, ou seja, nas palavras da parábola – gastamos a nossa vida dissolutamente, descontroladamente, desregradamente, sem critérios. Mesmo diante do quadro pandêmico que acabamos de sair, milhões de pessoas se preparam para quatro dias de carnaval, aonde pretende dar vasão à todas concupiscências de suas mentes e corações – desejos, ambições e devassidão – tempo de total irracionalidade.

Todavia, a vida é preciosa demais para gasta-la frivolamente. O tempo urge e a areia da ampulheta jamais para de cair até o último grão de vida se esvair. Deveríamos valorizar cada minuto da vida, fazer com que cada tempo fosse utilizado de forma adequada, visando o bem estar pessoal, mas que se transforma em bem estar social: família, amigos e a própria sociedade humana como um todo. Mas acima de tudo deveríamos gastar nosso precioso tempo de vida naquilo que não trará medo quando você (eu) tiver que enfrentar a morte.

É justamente disso que se trata o Memento mori. Não tem nada haver com a morbidez (prazer) na morte, mas sim, pensando no fim da vida e/ou sua brevidade, valorizar cada tempo e torna-lo útil e prazeroso. Quando paramos e pensamos na nossa finitude e brevidade, começamos a valorizar e revalorizar o nosso tempo de vida. Começamos a estabelecer prioridades melhores e buscar valores mais elevados.

O nosso tempo é curto, as oportunidades são limitadas. Nesse tempo de loucura e caos, viver com inteligência e sabedoria torna-se desafiante e exige muita atenção e discernimento. Com muita facilidade somos arrastados para uma super agenda; nos vemos envolvidos em centenas de coisas ao mesmo tempo; e como Marta nos afadigamos com tantas coisas – quando na verdade uma coisa somente importa. O Memento mori é justamente para pararmos, pensarmos e respondermos: O QUE REALMENTE IMPORTA? Se tivesse que escolher apenas uma única coisa na minha vida, o que eu escolheria?essa é a pergunta fundamental.

            Viver com inteligência e sabedoria, significa entender as consequências de seus atos, pois com raríssimas oportunidades nos recuperarmos das más escolhas ou decisões erradas que tomamos sem qualquer reflexão. Assim como ocorreu com o jovem pródigo da parábola, contada por Jesus, que para piorar sua situação, teve que enfrentar uma seca terrível e uma consequente onda de desemprego que lhe deixou completamente sem eira e sem beira. Quando arrogantemente e estupidamente rompeu todos os laços familiares e partiu para uma terra distante, ele jamais poderia imaginar que acabaria morando em um chiqueiro, desejando comer a comida que era destinada aos porcos.

A nossa vida está sujeita a mudanças dramáticas e até mesmo irreversíveis, que podem ocorrer a qualquer momento: um derrame, um ataque cardíaco, um acidente. Mas mesmo que venhamos ou estejamos vivendo nossas vidas da idade madura, ainda podemos não experimentar a realização. Muitas pessoas envelhecem muito mal, em decorrência das escolhas irrefletidas dos anos de juventude. E retomando a parábola de Jesus citada acima, aqui lembramos do segundo filho, o irmão do pródigo, que não saiu de casa, mas viveu uma vida amargurada, frustrada, decepcionado com o próprio pai, o irmão e consequentemente com todos e com tudo - era profundamente infeliz

Memento mori é o tempo de reflexão; de pensar e valorizar as coisas simples, a alegria de um sorriso, o trabalho (que não necessariamente tem que ser uma maldição); sobre amar e ser amado; sobre caminhar, viajar, estudar, uma noite com amigos, a celebração familiar do natal, a leitura de um bom livro, um bom filme, enviar uma mensagem para alguém.

            Mas cada uma destas pequenas coisas podem ser um fardo pesado; podem ser frustrantes, chatos, irritantes e sem vida. Mas quando considerados à luz da eternidade, podem se revestir de uma beleza incomparável: sentir o prazer de respirar, desfrutar da companhia de outras pessoas, apreciar a beleza ao redor, oferecer e/ou receber um gesto de bondade, enfim, descobrir a preciosidade e encanto da vida. O resultado é que você vai desenvolver uma vida saudável e com qualidade.

Muitas pessoas, porém, podem achar que Memento mori seja uma atitude mórbida, desequilíbrio psíquico; alguma anormalidade. É evidente que há sempre esse risco, quando se torna algo obsessivo. Mas para que isso não venha a ocorrer devemos tomar as Escrituras bíblicas como parâmetros, de maneira que ela não permitirá que extrapolemos os limites saudáveis desses momentos.  Outro auxilio indispensável é a oração: Senhor, nos dê a cada dia o necessário e que possamos nos contentar com isso. Que as nossas atividades cotidianas sejam para o teu louvor e glória. Quando fazemos desta forma a nossa vida torna-se cada vez mais preciosa e encantadora.


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Guedes, Ivan Pereira
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sábado, 20 de novembro de 2021

Reflexão: Quando o Silêncio Fala Mais Alto

 


 Porque assim diz o Senhor DEUS, o Santo de Israel: Esperando e com calma você será salvo, no silêncio e na confiança está a sua força.

Isaías 30:15

 Vivemos dias em que o volume do mundo está cada vez mais alto e o barulho torna-se ensurdecedor. A cada dia estamos perdendo um pouco de nossa audição de maneira que somos incapazes de ouvir com clareza e distinguir a multidão de vozes que nos assediam desde quando acordamos até a hora em que dormimos. A internet e todos os seus subprodutos invadem de forma violenta nossos ouvidos congestionando nosso cérebro com centenas de informações por minuto, de maneira que encontramos cada vez mais dificuldade para processar esse volume ensurdecedor de vozes que exigem nossa atenção imediata e permanente.

Neste tempo cibernético do século XXI perdemos a capacidade de nos assentarmos em quietude; não apenas de nos calarmos, mas acima de tudo de fazermos calar a multidão de vozes ao nosso derredor que estão a exigir nossa atenção imediata. No salmo 19 o poeta faz referência aos dois meios pelos quais Deus fala com os seres humanos: o primeiro destes é a Criação, que apesar dos milênios desde quando Deus a estabeleceu, permanece diariamente à disposição de todos os seres humanos em todos os lugares e tempos, para que possam ouvir Sua voz. Mas o poeta cita então uma segunda forma que Deus escolheu para que os seres humanos pudessem ouvir sua maravilhosa e poderosa voz: a Torah e/ou Escrituras Bíblicas.

Essas duas formas de ouvir Deus não se excluem, ao contrário, ambas são perenes e se completam harmoniosamente. Ouvir as Escrituras em uma noite de lua cheia e céu estrelado é uma experiência fascinante e toca profundamente a mente e o coração; ouvir as Escrituras contemplando a imensidão do mar em um dia ensolarado é algo incomparável e curativo para qualquer doente da alma, da mente ou do corpo, pois a voz de Deus continua tão poderosa quanto foi nos primeiros dias da Criação ou tão suave e restauradora quanto foi na voz do Verbo, Jesus Cristo, que assumindo a plenitude de nossa humanidade viveu e conviveu com toda sorte de pessoas na Palestina do primeiro século da era cristã.

Infelizmente estamos perdendo dia-a-dia a capacidade de ouvirmos o som salvador e abençoador deste Deus que nos criou com a capacidade única entre toda a criação capazes de ouvi-lo. Adão e Eva não ouviram a voz de Deus, mas ouviram a voz de Satanás; os israelitas não deram ouvidos aos Profetas de Deus, mas ouviram os falsos profetas que viviam como comichões em seus ouvidos; as pessoas nos dias de Jesus não conseguiam ouvir seu doce convite – Vinde a Mim, mas ouviam com avidez as vozes de seus algozes – Crucifica-o.

SILENCIAI-VOS E LEMBRAI QUE EU SOU DEUS! A figura de Marta de Betânia, correndo de um lado para outro, estressada, afadigada é um retrato perfeito de nós nesse tempo pós moderno, cibernético; como precisamos urgentemente aprendermos com Maria, assentada, aquietada, em silêncio, ouvindo cada palavra que sai da boca de seu Amado Mestre. Aqui está o segredo da vida com qualidade; da vida em sua real plenitude. Sim, a vida não está no turbilhão de mil vozes e compromissos agendados até o ano dois mil e.....

Como bons crentes (no meu caso pastor) somos treinados para “falarmos” e “fazer” coisas o tempo todo; mas não somos treinados para “silenciar” e “aquietarmos”. Se não temos pessoas para nos ouvir ou, pior ainda, se há páginas na nossa agenda que estão em branco, nos frustramos e entramos em crise – o pânico toma conta: o que estou fazendo de errado?

Por que será que Jesus antes de iniciar seu ministério terreno foi levado para o Deserto? É no silêncio e quietude do Deserto, com sua paisagem árida e simples, que durante quarenta dias, Jesus se preparou para todos os embates de seus quase três anos de Ministério, intenso, árduo e que culminou com a Cruz. Enquanto com seus discípulos e amigos (como Ele os chama) e acossado pelos muitos adversários, Jesus tomava tempo para procurar um lugar tranquilo e quieto onde podia se aquietar na presença do Pai.

Para o bem de nossa vida: corpo, mente e espírito, precisamos buscarmos a cada dia um lugar para assossegarmos na presença do nosso Pai Celeste. Lermos um texto bíblico e então sem qualquer necessidade de falarmos uma única palavra; deixarmos as palavras de Deus ressoarem em nosso coração e alma; contemplando a Criação em profundo silêncio. Essa é a melhor maneira de nos preparamos para suportarmos os embates e anseios da vida cotidiana neste inicio de século XXI, com suas violências físicas e emocionais; pandemias criadas em laboratórios; proliferação de toda sorte de doenças psicossomáticas; guerras ideológicas; glamourização do pecado em todas as suas formas mais depravadas; crescente ceticismo e ateísmo; evangelicalismo materialista e hedonista. O Mundo nunca foi tão tenebroso como neste início de século XXI.

SILENCIAI E SABEI QUE EU CONTINUO SENDO DEUS! É preciso negociarmos momentos de silêncio e contemplação em meio ao caos diário que tenta nos arrastar em seus turbilhões; esse é um desafio pessoal e interno; é preciso transformarmos até mesmo as feridas que tanto nos trazem transtorno, dor e sofrimento em oportunidades para nos silenciarmos na presença de Deus.

Aprendemos mais sobre Deus em um dia de contemplação e silêncio, do que em um semestre falando sobre Deus. Há um grande engodo em relação ao sentido do termo “teologia”. A genuína teologia não é uma infindável falação a respeito de Deus, mas um aprendizado a respeito de Deus resultante de uma relação pessoal com Ele através dos dois livros que Ele nos deu. Somente quando passo tempo em silêncio diante da Sua Criação e da Sua Palavra começo de fato e de verdade apreender algo sobre esse Deus imensurável.

A genuína teologia, sem artificialismos mesquinhos e arrogantes, é aquela que nos conduz cada vez mais a nos calarmos diante do Deus eterno e glorioso; é aquela, parafraseando Agostinho, que nos capacita a silenciosamente voarmos em direção a Deus; como diz o salmista nos faz calar e sossegar nos braços amorosos do Senhor; e como diz Cantares é aquela que nos faz esquecer de nós mesmos e somente contemplar o Amado; que nos faz mergulharmos cada vez mais profundamente na graça maravilhosa de Deus. A boa e edificante teologia é aquela que nos faz descobrir o “unum necessarium” – que uma única coisa é de fato e de verdade necessário para a nossa vida: Deus! Qualquer teologia que não nos conduza a esta verdade é no mínimo deficitária.    

SILENCIARMOS é a maior e mais premente necessidade dos nossos dias. Devemos nos silenciar, para podermos ouvir a voz de Deus com clareza e sem ruídos; o silêncio é uma rendição incondicional onde reconhecemos, sem falar, a nossa total dependência do Deus todo poderoso e pleno de graça, que está conosco (Emanuel) até sorvermos o último gole do cálice que tiver que tomar, pois mesmo quando tivermos que passar e teremos que passar, por vales muitas vezes profundos e tenebrosos, temos plena certeza de que Ele estará conosco a cada passo e se e quando fraquejarmos a Sua bondade e misericórdia nos acompanhara em segurança até quando pudermos estarmos com Ele para sempre!

Apenas como adendo é necessário deixar bem claro que esta atitude e busca pelo silêncio não caracteriza ou incentiva de forma alguma quaisquer tipos de fuga da realidade, por mais dura que ela seja, mas justamente ao contrário, é uma das formas de nos prepararmos para os embates da vida. Os quarenta dias de Jesus no deserto não foram para evitar (fugir) da Cruz, mas para caminhar seguro e resoluto em direção à Cruz (vontade do Pai).

 Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira
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quarta-feira, 10 de novembro de 2021

O Transfundo das Parábolas de Jesus


Jesus exerceu a maior parte de seu ministério no interior da Palestina judaica. Ainda que em muitas ocasiões ele entrasse em alguma cidade ou Vila de maior expressão, foi na área campestre e pastoril que ele proferiu a maior parte de seus ensinos. Portanto, é natural e coerente que suas famosas Parábolas reflitam o contexto rural cotidiano de seus ouvintes e discípulos. Vejamos algumas destas características ruralistas:

- A parábola não tem uma origem fantástica, ou seja, não são uma invenção fictícia de Jesus, alienada da vida real e cotidiana de seus ouvintes.

- Jesus tira suas parábolas do mundo real ao seu redor. Muitas de suas figuras são do campo, o que indica que ele foi criado neste ambiente. Ele fala do semeador, do trigo, joio, mostarda, ovelha perdida, ninhos, tocas, dos peixes grandes e pequenos, do fazendeiro e seu arado, do fazendeiro paciente, da chuva, do sol, das flores e dos pássaros ...

- Ele também nos fala sobre os sinais do tempo: da nuvem no Oeste que anuncia

chuva, do vento sul que traz calor, da figueira com brotos que anuncia o verão, dos campos brancos de trigo que pedem a colheita e dos lavradores prontos para colher os resultados de seu trabalho.

- As parábolas também nos falam sobre a vida familiar: sobre a mulher que amassa uma grande quantidade de pão, do fermento que ela acrescenta à massa, da mulher varrendo etc.

- Ele também nos fala sobre a vida do povoado: as brincadeiras na praça da aldeia, as festas de casamentos e dos rituais de funerais ...

- Os atores das parábolas são pessoas reais: dois tipos de construtores; ambos os lados em uma disputa; o fazendeiro rico e seus grandes celeiros; o servo incansável; o desempregado esperando na praça; o camponês que descobre um tesouro no campo; o comprador ou negociador de pedra fina ...

- Finalmente, eles nos falam sobre eventos reais, mesmo que alguns deles não sejam tão comuns como os outros: o ladrão noturno; casamentos e pessoas não convidados; o juiz corrompido e a viúva; o gerente astuto; os ladrões na estrada de Jericó ...

            São estas características cotidianas, comuns e plenamente humanizadas que cativavam aqueles primeiros ouvintes, que muitas vezes eram pequenas multidões e que continuaram atraindo milhões de leitores, após os registros evangélicos. Ainda hoje as Parábolas de Jesus continuam cumprindo seu papel de atrair o interesse das pessoas e conduzi-las para as verdades do Evangelho do Reino de Deus, que sempre foi a principal e real razão pela qual Jesus proferiu cada uma delas.

            O grande e terrível erro que as pessoas comentem é tratar as Parábolas de Jesus como contos infantilizados ou meras ilustrações de sabedoria; cada uma delas expõe um ponto central de seu ensino e devem ser compreendidas em sua realidade espiritual. Foram através delas que Jesus expos o mais claramente possível e em uma linhagem totalmente acessível por todas as pessoas, até mesmo os iletrados, pois a mensagem de salvação que Ele trouxe deve ser compreendida e crida por todas as pessoas.

            Desafio você a ler a cada dia uma destas Parábolas de Jesus e meditar nela, deixar essa mensagem subir à sua mente, para que você compreenda a mensagem nela contida, mas também descer ao seu coração, para que possa crer nele como Senhor e Salvador de sua vida.

            Entre os links abaixo: “Parábolas: Uma Ordem Cronológica” você encontrará uma lista contendo 46 parábolas encontradas nos quatro relatos evangélicos contidos em nossa bíblia. Alguns comentários a diminuem e outros até mesmo acrescentam mais algumas, mas de forma consensual essa lista é aceita por um numero expressivo de estudiosos bíblicos.

            Você também encontrara nas referências bibliográficas uma oportunidade para que aprofunde seu conhecimento sobre as Parábolas.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

 

 

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