quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Os Salmos e as Escrituras do Segundo Testamento



De todas as literaturas do Primeiro Testamento certamente os Salmos são os mais citados na literatura do Segundo Testamento. Isso é significativo e uma indicação divina da grande importância dessas poesias/cânticos inspiradas. Abaixo mencionamos uma lista de citações como encontradas no Segundo Testamento, bem como passagens onde os Salmos são indicados pelos autores neotestamentários de uma forma subentendida. Ao todo, cerca de 50 Salmos são direta e indiretamente citados e aludidos nas literaturas neotestamentárias.

Citações Diretas
Mateus 4.6 (Salmo 91.11)[1]
Mateus 13.35 (Salmo 78.2)
Mateus 21.42 (Salmo 118.22)
Mateus 27.43 (Salmo 110)
João 2.17 (Salmo 69.9)
João 6.31 (Salmo 78.24,25)
João 7.42 (Salmo 132. 11)
João 10.34 (Salmo 82.6)
João 13.18 (Salmo 41.9)
João 15.25 (Salmos 35.19; 49.4)
João 19.24 (Salmos 22.18)
João 19.28 (Salmo 69.21)
João 19.36 (Salmo 34.20)
João 20.17 (Salmos 22.17)
Atos 1.20 (Salmo 69.25)
Atos 1.16 (Salmo 41.9)
Atos 2.25 (Salmos 16.8)
Atos 2.34 (Salmo 110.1)
Atos 4.25 (Salmo 2.1,2)
Atos 13.33 (Salmo 2.7)
Atos 13.35 (Salmo 16.10)
Romanos 3.4 (Salmo 51.4)
Romanos 3.12 (Salmo 14.2)
Romanos 3.13 (Salmo 140.3)
Romanos 4.6 (Salmo 32.1,2)
Romanos 11.9,10 (Salmo 69.22,23)
Romanos 15.10 (Salmos 117.1)
Efésios. 4.8 (Salmo 68.18)
2 Coríntios 4.13 (Salmo 116.10)
Hebreus 1.10-12 (Salmo 102.25-27)
Hebreus 1.8-9 (Salmo 45.6-7)
Hebreus 1.13 (Salmo 110.1)
Hebreus 2.6 (Salmo 8.4)
Hebreus 4.3 (Salmo 95.11)
Hebreus 4.7 (Salmo 95.7)
Hebreus 5.6 (Salmo 110.4)
Hebreus 7.17 (Salmo 110.4)
Apocalipse 2.27 (Salmo 2.9)

Citações Indiretas (alusivas)
Salmo 2.7-9 em Hebreus 1.5 e Apocalipse 2.27
Salmos 4.4 em Efésios 4.26
Salmo 6.8 em Mateus 7.23
Salmos 8.2 em Mateus 21.16
Salmos 7.6 em 1 Cor. 15.25-27
Salmo 9.8 em Atos 17.31
Salmo 19.4 em Romanos 10.18
Salmos 22.1 em Mateus 27.46
Salmos 22.21 em 2 Tim. 4.17
Salmo 24.1 em 1 Coríntios. 10.26
Salmos 27.1 em Hebreus 13.6
Salmo 34.8 em 1 Pedro 2.3
Salmo 40.6-8 em Hebreus 10.5-7
Salmo 41.9 em Marcos 14.18 e João 13.18
                                              Salmo 48.2 em Mateus 5.35
Salmo 50.14 em Hebreus 13.15
Salmo 55.22 em 1 Pedro 5.7
Salmo 56.4 em Hebreus 13.6
Salmo 69.21 em Marcos 15.36
Salmo 79.6 em 2 Tessalonicenses 1.8
Salmo 89.27, 37 em Apocalipse 1. 5 e 3.14.
Salmo 97.6 em Hebreus 1.6
Salmos 104.4 em Hebreus 1.7 ss.


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
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Referências Bibliográficas
ARNOLD, Bill T. e BEYER, Bryan E. Descobrindo o Antigo TestamentoSão Paulo: Cultura Cristã, 2001.
BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras, v.3, São Paulo: ed. Vida Nova, 1993.
BEVINCK, Hermann. Teologia Sistemática. Tradução Vagner Barbosa. Santa Barbara do Oeste (SP): SOCEP, 2001.
CALVINO, João. O livro dos salmos. Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: Edições Parakletos, 2002.
CHOURAQUI, André. A Bíblia – louvores I (Salmos), v. 1. Tradução Paulo Neves. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1998. [Coleção Bereshit].
CONSTABLE, Thomas L. Expository Notes on Psalms. 
ELLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento. Flórida: ed. Vida, 1991.
KIDNER, Derek. Salmos 73-150 – introdução e comentário, v. 14. São Paulo: Sociedade Vida Nova e Mundo Cristão, 1981. [Série Cultura Cristã].
LASOR, William S., Hubbard David A. e Bush, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999.
MONLOUBOU, L. (Org.). Os salmos e os outros escritos. Tradução Benôni Lemos. São Paulo: Paulus, 1996. [Biblioteca de ciências bíblicas]
PURLISER, W. T. O livro de Salmos, v.3 Tradução Valdemar Kroker e Haroldo Janzen. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. [Comentário Bíblico Beacon, 2ª ed.].
SCHREINER, Josef. Palavra e mensagem do Antigo Testamento. Tradução Benôni Lemos. 2ª ed. São Paulo: Editora Teológica, 2004.



[1] Esta primeira citação sai da boca do próprio Satanás e revela que ele conhece a Palavra de Deus e a utiliza para seus próprios interesses malignos.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Páscoa: A cruz questionável (poesia)





SINAIS DE VIDA
A cruz é conspicuamente e inescapavelmente
Oposto a tudo que eu penso e vejo,
E eu devo confiar e estar disposto;
Quando em sua misericórdia há matança?
A cruz era repugnante e incongruente
Eu não podia aceitar isso, esse amor de sangue me tomando.
Esse mistério me possuiu, apesar de resistir,
Bondade de Deus para alguns, e para os outros vida terminando.
Então minha própria alma ficou ferida, a vítima de Deus,
No pensamento e no corpo, ainda decidido a fugir.
Um vento livre no mundo, contra a verdade soprando,
Como um pássaro em uma janela, eu poderia escapar sem saber.
As palavras do seu livro falavam profundamente, mas a justiça dele não foi solucionada,
Seu preço por absolvição que nenhum homem poderia apaziguar.
Então, Seu Filho pagou tudo, sem nenhum sentimento de perda
Ele colocou tudo no chão e depois subiu em uma cruz.
O final da história é realmente glorioso,
A justiça de Deus é severa e, no entanto, agora estamos livres.
Eu ainda estou neste mundo e me regozijarei em passar,
Estar perdido no amor de Cristo pela vida eterna.

Indy Watchman

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sábado, 16 de fevereiro de 2019

PASCOA – O Abandonado que nunca Abandonou (Mc 14.50-52)



            As narrativas referentes aos eventos da paixão (páscoa) são compartilhadas pelos quatro evangelistas e cada um deles destacam tais acontecimentos de maneira que ao lê-los conjuntamente temos um quadro riquíssimo em detalhes e peculiaridades.
            Outra característica e que todos eles ocupam mais páginas sobre esses últimos acontecimentos do que com outros momentos do ministério de Jesus. Por exemplo, o evangelista Marcos não trás uma única informação sobre o nascimento (natividade) de Jesus, iniciando sua narrativa a partir da pregação de João Batista e em seguida o batismo de Jesus que demarca o inicio do ministério terreno de Jesus. Mas mesmo Mateus e Lucas que relatam sobre o nascimento e infância o fazem de forma extremamente sucinta, enquanto João inicialmente relaciona Jesus à Criação e praticamente metade de sua narrativa refere-se à última semana de Jesus.      Assim, podemos claramente perceber que as narrativas sobre a paixão são de grande relevância para os quatro evangelistas.
            A sequência da prisão de Jesus é um dos acontecimentos tratados pelos quatro evangelistas. No caso específico de Marcos desde quando Jesus inicia sua última subida à Jerusalém eles são preparados para esses últimos acontecimentos culminando com sua prisão e morte (Mc 8.31; 9.31 e 10.33). Para os leitores posteriores desta narrativa isso era muito importante, visto que grande parte dos cristãos desde o inicio sofrem intensa perseguição, prisão e morte, primeira por parte das autoridades judaicas e depois pelo Império Romano – tomar conhecimento de que seu Salvador foi perseguido, preso e morto por seus algozes lhes trazia conforto e consolo em seus próprios sofrimentos.
            Como é característica de seu estilo narrativo Marcos é econômico nas palavras, mas rico nas imagens e ações de maneira que reproduz toda tensão que permeia esses últimos momentos de Jesus. Em apenas oito frases interligadas apenas pelas simples conjunções “e” (kai) e “mas” (dè) que expressam ações continuadas e adversativas, pois seu objetivo é revelar o contraste existente entre as varias ações aqui narradas. As sequências de ações desta perícope são: o sinal combinado de Judas com aqueles que deveriam prender Jesus (o beijo); a prisão, o gesto abrupto da espada e a fuga do jovem desnudado.[1]
            Até esse momento, mesmo atemorizados ou sem a plena compreensão do que esta por vir (dormem enquanto Jesus ora no Getsemâni), os discípulos permanecem próximos a Jesus. Mas o seu aprisionamento, abrupto para eles, porém não para Jesus que tinha consciência dos movimentos traiçoeiros de Judas Iscariotes e que antes que ele e a turba do Sinédrio, armados com paus e espadas e em grande número,[2] chegassem Jesus já estava preparado: “o meu traidor está chegando”... “Levantai-vos! Vamos!” (Mc 14.42); aqui temos um terrível divisor de águas entre os discípulos e Jesus – o abandono!
            A narrativa que se abre com a traição conclui-se com o abandono – “Então, abandonando-o, fugiram todos” (Mc 14.50). O evangelista é taxativo em afirmar que TODOS, sem exceção – abandonaram Jesus na hora derradeira. O evangelista e nós sabemos que Pedro e João ainda permaneceram seguindo-o, porém de longe. Mas em sua narrativa Marcos quer deixar claro que Jesus foi abandonado por todos seus discípulos – é na completa solidão que Jesus irá caminhar em direção à cruz.
            O evangelista na utilização de dois termos “abandonar” e “fugir” enfatiza a fuga dos discípulos. Aqui temos um contraste irônico: os mesmos discípulos que “abandonaram” – trabalho, família e tudo (Mc 1.18, 20 e 10.28) para seguirem a Jesus – agora são os mesmos que o abandonam. Eles tiveram a coragem inicial de abandonarem tudo, mas não conseguiram abandonar a si mesmos, tomados de medo por suas próprias vidas “fugiram” – os dois termos fazem o contraste do seguimento. Temos um hino antigo que revela bem esse quadro: “Quantos, que corriam bem, de Ti longe agora vão!” A contradição daqueles primeiros discípulos é o reflexo da nossa própria contradição – entre o que professamos e o que realmente fazemos. O apóstolo Paulo vivenciou esse contraditório em sua própria vida – as coisas boas e certas eu não faço, mas as coisas ruins e erradas eu faço – miserável homem que sou!
            Na continuidade da leitura da narrativa de Marcos e demais evangelistas, descobrimos que esta contradição somente será resolvida pela graça de Jesus, que mesmo tendo sido abandonado JAMAIS abandou seus discípulos – ao abandono Ele responde com um NOVO chamado. Ele já havia predito esse reencontro algumas horas antes: “Todos vós vos escandalizareis, porque está escrito: Ferirei o pastor e as ovelhas se dispersarão.” MAS, depois que eu ressurgir, eu vos precederei na Galileia” (Mc 14.27-28).”
            Essas palavras de Jesus revelam não apenas uma predição, mas também uma promessa – esse afastamento não era definitivo – todos os discípulos o abandonaram, mas Jesus jamais os abandonou. É com base em sua própria fidelidade e não das deles que se encontra a certeza absoluta de um reencontro permanente e definitivo – “Estarei com vocês todos os dias”.
            Mas agora é tempo de abandono, já manifestado no fato de que enquanto Jesus ora intensamente, eles dormem – e agora diante da prisão, eles fogem amedrontados. Mas tudo isso acontece por uma única razão: “para que as Escrituras se cumpram” (Mc 14.49). Nada do que está acontecendo é coincidência ou casualidade; tudo e cada detalhe complexo ou simples envolvendo os acontecimentos da Paixão estão dentro da moldura da vontade soberana de Deus, que é na verdade o grande protagonista dessa História. Entre as Escrituras antigas e os fatos evangélicos não existem contradições ou rupturas; a Cruz foi e continua sendo o ponto de convergência de toda a Escritura – Jesus sabia disso desde o princípio e caminhou firme e obediente ao encontro da cruz.
            O verbo “cumprir” (pleroo – literalmente, “encher”) é utilizado apenas aqui por Marcos e trás a ideia de um recipiente que está sendo preenchido até completar – portanto, a Paixão não apenas se conforma com as Escrituras, mas é a plena conclusão delas. Sem a Cruz o projeto salvífico de Deus ficaria incompleto – um projeto interrompido. E aqui o verbo está no passivo (“sejam cumpridas”), deixando claro que Aquele que as cumpre, não é os discípulos, mas o próprio Deus. O evangelista não especifica uma passagem, mas abrange todas as Escrituras, pois na realidade, os eventos da Paixão expressam o cumprimento de todas as Escrituras e não apenas de uma ou outra passagem messiânica.
            Toda a cena ocorre à luz tênue do luar e das tochas acesas; aqui temos a manifestação da maldade humana que se manifesta na violência da turba que com espadas o prendem; o medo que acovarda e se revela na fuga e abandono dos discípulos; mas realça-se o cumprimento de todo o desígnio do Pai e a perfeita submissão do Filho:
                        A traição de Judas e a violência dos guardas
                                    A plena submissão de Jesus aos desígnios do Pai
                        O abandono e a fuga dos discípulos
            Nesse pequeno quadro da coleção da Paixão temos como moldura a manifestação da natureza corrompida do ser humano e no centro irradiação do amor imensurável de Deus. Não é um quadro fácil de contemplar: a traição, a violência e o abandono  tornam-se o pano de fundo que coloca em evidência a extraordinária obediência e entrega de Jesus.
            Mas a narrativa (quadro) tem como objetivo deixar claro ao que lê (contempla) que Jesus é concomitantemente objeto e protagonista – as duas faces da Paixão: Jesus está traído, preso e abandonado, entretanto, Ele é o protagonista (não a traição do Iscariotes, não a violência dos guardas; não o abandono dos discípulos), pois são as palavras de Jesus que ecoam e iluminam toda a cena – como declara um dos nossos hinos: mas seu amor aos homens perdidos, das maravilhas é sempre a maior!

Reflexões

- O abandono em relação aos discípulos: eles revelam toda fragilidade humana diante das adversidades da vida. As convicções teológicas são reveladas quando a morte se manifesta. A debanda deles revela também que não haviam compreendido a mensagem do Evangelho de Jesus – no caminho suas discussões eram sobre que tipo de vantagem teria no Reino a ser instaurado por Jesus e qual deles receberia maiores honras (qualquer semelhança com o evangelicalismo brasileiro não é mera coincidência). A falsa percepção dos valores do Reino e da mensagem do Evangelho tornam tais pessoas presas fáceis de suas próprias concupiscências e das ilusões do diabo. Todos os “impérios” eclesiásticos são distorções da proposta original de Jesus. O abandono deles também revela que não há qualquer mérito pessoal em relação à salvação, pois todos, até mesmo os mais íntimos do grupo apostólico, o abandonaram.
- O abandono em relação a Jesus: aqui podemos ver em duas vertentes – intensifica seu sofrimento, pois seus discípulos receberam toda sua atenção, afeição, foram testemunhas oculares de seus milagres, ouviram em primeira mão seus ensinos e em diversas ocasiões anteriores reiteraram sua fidelidade a Ele, mas no momento decisivo – todos o abandonaram! Jesus sente a dor da traição de Judas; das reiteradas negações de Pedro; das dúvidas de Tomé e do abandono de todos eles. Mas por outro lado, a cena revela o imensurável amor de Jesus! Mesmo as maiores decepções e ingratidão puderam diminuir seu amor pelos seus – “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. Desta forma ninguém pode dizer que seus pecados são grandes demais ou que seu coração é demasiadamente depravado que não possa ser alcançado pela graça salvadora de Jesus Cristo. Até mesmo para aqueles que o abandonaram recebem uma palavra de esperança: logo após sua ressurreição, suas primeiras palavras são plenas de ternura e amor, sem qualquer traço de ressentimento – disse Ele a Maria Madalena, "vá a meus irmãos e diga-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai; para o meu Deus e vosso Deus”. E para as outras mulheres: “Ide, dize a meus irmãos que se dirijam para a Galileia e lá me verão”.
- Jesus é o nosso modelo: aprendamos com Jesus a dependermos mais do Pai do que das pessoas; a depender menos das circunstâncias externas e mais da graça de Deus; a continuarmos amando nossos amigos mais fiéis, mesmo quando não conseguirem nos entender e até mesmo se afastarem momentaneamente de nós. Lembremo-nos diariamente de que o nosso único Amigo que jamais falará conosco e jamais nos abandonara é Jesus Cristo!

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas
BETTENCOURT, Estevão. Para Entender os Evangelhos.  Rio de Janeiro: Agir, 1960.
CARSON, D. A., MOO, Douglas J. e MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.
CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado. São Paulo: ed. Milenium, 1985. [v. 1].
DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995.
EARLE, Ralph. O Evangelho Segundo Mateus. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. [Comentário Bíblico Beacon].
HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001.
HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Marcos. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
JEREMIAS, Joachim. Jerusalém no Tempo de Jesus: pesquisa de história econômico-social no período neotestamentário. 4 ed. São Paulo: Paulus, 1983.
MAGGIONI, Bruno. Os relatos evangélicos da Paixão. Tradução Bertilo Brod. São Paulo: Paulinas, 2000. (Coleção: Espiritualidade sem fronteiras).
MULHOLLAND, Dewey M. Marcos – introdução e comentário. Tradução de Maria Judith Menga. São Paulo: Vida Nova, 1999. [Série Cultura Bíblica].
REICKE, Bo. História do Tempo do Novo Testamento. São Paulo: Ed. Paulus, 1996.
SAULNIER, Christiane & ROLLAND, BernardA Palestina nos tempos de Jesus. 7ª ed. São Paulo: Paulinas, 1983.
SCHUBERT, Kurt. Os Partidos Religiosos Hebraicos da época Neotestamentária. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 1979.
SOARES, Sebastião Armando Gameleira & JUNIOR, João Luiz Correia. Evangelho de Marcos, v.1, ed. Vozes, Petrópolis, 2002.
Walker, Peter. Pelos Caminhos de Jesus. São Paulo: Ed. Rosari, , 2007.
STEGEMANN, Ekkehard W. e STEGEMANN, Wolfgang. História social do protocristianismo. São Leopoldo, RS: Sinodal; São Paulo: Paulus, 2004.




[1] É muito interessante que apenas neste evangelho de Marcos encontramos a inclusão deste aspecto incomum, o que faz muitos comentaristas a concluírem de que Marcos deveria estar contando a história porque ele é esse jovem.
[2] Mc fala em “uma multidão” (ochlos), um vocábulo grego genérico que indica multidão e anonimato e aqui trás ideia de um grupo numeroso e reunido às pressas, certamente convocados pelos três grupos que compunham o Sinédrio (chefes dos sacerdotes, escriba e anciãos) em conformidade com as narrativas anteriores (Mc 8.31; 9.31 e 10.33-34).

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Viajando no livro de Atos: Aguardando e Recordando em Jerusalém (1.12-14)



            Obedecendo as orientações de Jesus antes de ascender aos céus, os discípulos permanecem em Jerusalém. Enquanto aguardam tomam a decisão de recompor o núcleo apostólico, visto que Judas o que traiu Jesus havia suicidado. Após um período de oração a escolha recaiu sobre Matias. Então, Lucas o nosso guia nesta viagem nos convida para fazer uma turnê pela cidade de Jerusalém e recordarmos um pouco dos últimos dias de Jesus na cidade.
            Desde sua conquista por Davi (1.000 a.C.) a cidade de Jerusalém adquiriu um lugar especial no coração dos judeus que a denominavam de “cidade da paz”, “cidade sagrada” e “Sião”. Ela fora uma cidade jebusita, encravada nas montanhas da Judéia e no entroncamento entre o norte e o sul do território israelita, de maneira que Davi com sua aguçada visão de liderança a transformou no centro político e religioso unificando definitivamente a Nação. De imediato ele providenciou que a Arca da Aliança (2Sm 6) fosse levada para Jerusalém e depois deixou o projeto e os materiais necessários para a construção do Templo (1Rs 8), que foi erigido por seu filho e sucessor Salomão. A cidade de Jerusalém e o Templo passaram a ser o ponto convergente de toda a História israelita/judaica e será nela que se cumpriram as profecias messiânicas que acalentaram por séculos os corações e a fé piedosa de homens e mulheres como Simeão e Ana.
            A cidade de Jerusalém foi enaltecida em versos e prosas na literatura do Primeiro Testamento (Sl 48.1-3, 12-13; 87.1-2; 122.1-3, 6-7; 137.5-6). Mas apesar dela ser tão amada os escritores bíblicos tinham plena consciência de que nela havia a maldade e a intriga (Sl 55.9-11). O próprio Jesus quando de sua última visita à cidade – chora – “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que a ti são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta a sua ninhada debaixo das asas, e não quiseste!” (Lc 13.34). E de fato a maldade se manifestara da forma mais cruel na morte do próprio Jesus.
            Nos dias dos acontecimentos evangélicos a cidade de Jerusalém tinha uma população fixa de aproximadamente 40 mil pessoas, mas que durante as grandes festas do calendário judaico chegavam a 500 mil pessoas que por suas ruas apertadas e vielas transitavam freneticamente.
     
Nos dias do déspota Herodes, o Grande, a cidade e o Templo passaram por uma intensa transformação e expansão. Milhares de pessoas passaram a trabalhar nessas obras e a dependerem desse salário. O preço social é que aos arredores da cidade foram surgindo guetos, que posteriormente, na medida em que as obras foram cessando se transformaram em lugares de extrema pobreza e carência[1].
            Jesus percorreu em diversas ocasiões as ruas apertadas e apinhadas de gente de Jerusalém. Certa vez ele caminhando “em Jerusalém, perto do Portão das Ovelhas” (lado norte do Templo), foi até um tanque de água chamada “Betesda[2], rodeada por cinco colunas” (Jo 5.2) e ali curou um homem paralitico a 38 anos.
           
Caminhando pelas ruas da cidade Lucas nos mostra os lugares em que Jesus esteve em sua última semana. O primeiro lugar é o Cenáculo (sala de jantar) onde o Mestre tomou a última refeição da Páscoa[3] com seus discípulos e também estabeleceu a primeira Ceia cristã (Lc 22.7-8, 10-15, 19-20).
           
Após a refeição pascoal, por volta das 23hs Jesus e seus discípulos passam pelo Portão de Siloé (onde Jesus curara um cego – Jo 9.7), descem para o Vale do Cedrom e chegam até o Jardim do Getsemani em um percurso de no máximo 30 minutos, mas que naquela noite parecia ser uma eternidade, tal a tensão que pairava no ar. É nesse Jardim que Jesus se prepara em oração para os acontecimentos violentos que haveriam de ocorrer algumas horas depois, onde as autoridades religiosas judaicas, comungadas com Judas Iscariotes, o prenderiam e não descansariam até vê-lo morto na cruz.

            Uma vez preso pela guarda do Templo, Jesus é levado à casa do Sumo Sacerdote Caifás, que ficava na parte nobre da cidade, também chamada de cidade alta (Jo 18.12-14). É nas sombras da madrugada (qualquer semelhança com o STF não é mera coincidência) que Caifás e outros membros do Sinédrio elaboram o processo contra Jesus.

Então eles o levam até a presença da autoridade romana – Pôncio Pilatos – que estava alojado provavelmente no palácio de Herodes[4] e que não ficava muito distante da casa do Sumo Sacerdote. Pilatos dificulta a vida dos algozes de Jesus e posterga ao máximo qualquer condenação (Jo 18.29-19.4). Os judeus tiveram que incluir outras acusações contra Jesus além da questão religiosa (blasfêmia) e o acusaram de revolucionário (Lc 23.5). Pilatos conhecia muito bem o caráter de Caifás e seus aliados do Sinédrio, tinha quase certeza de estavam mentindo motivados pela inveja da popularidade de Jesus (Mc 15.10). Todavia, sua carreira política estava em jogo e dirige-se à cadeira de juiz, em local conhecido como o Pavimento (Gabatá) e ali sentencia Jesus ao açoite e à crucificação (Jo 19.13).
           
Após ser cruelmente açoitado Jesus é conduzido pela guarda romana saindo pelo Portão dos Jardins (Gennath), na esquina noroeste das muralhas da cidade – esse caminho passou a ser chamado de via dolorasa. No trajeto Jesus perde as forças e os guardas obrigam um homem, Simão, o Cirineu (Mc 15.21) para ajudar a carregar a cruz até o local da execução. Mal sabiam as autoridades religiosas e o próprio povo que ali a tudo assistiam que eles também estavam por percorrer a via dolorasa – quando os exércitos romanos haveriam de invadir e destruir totalmente a cidade de Jerusalém e o seu belíssimo Templo. Ao rejeitarem seu verdadeiro rei a cidade de Jerusalém decreta sua própria condenação. Assim será com todos aqueles que rejeitam a Jesus Cristo – condenam a si mesmos.

“Havia um monte verde ao longe, além da muralha da cidade, onde nosso querido Senhor foi crucificado e morreu para salvar todos nós”
(Cecil Alexander).
            Finalmente Jesus chega ao Gólgota (Monte da Caveira) onde seria crucificado. Essa era uma forma cruel de matar os inimigos do Império ou escravos fugitivos. No ano 4 a.C. em decorrência de uma revolta judaica 2 mil pessoas foram crucificadas[5] – tornando as palavras de Jesus “cada um carregue a sua cruz” muito mais intensa. Para a mentalidade judaica a morte na cruz era sinal de maldição divina (Dt 23.34).

Ao balbuciar suas últimas palavras “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito” (Lc 23.46) Jesus morre e seu corpo é imediatamente retirado da cruz, pois o sol se pondo seria sábado e não poderia mais ser retirado. Um homem chamado José de Arimatéia (vila acerca de 8 km a noroeste de Jerusalém) oferece um de seus túmulos para que o corpo de Jesus fosse depositado e posteriormente embalsamado (Lc 23.51, 55).

Parece que tudo havia terminado e os dois discípulos de Emaús (lc 24.13-35) é um exemplo da tristeza e decepção que se abateu sobre todos os discípulos de Jesus. Mas no alvorecer do Domingo (primeiro dia da Semana) quando algumas mulheres tomadas pela dor e sofrimento foram ao tumulo para prestarem suas últimas homenagens ao amado Mestre, eis que para surpresa delas o tumulo estava vazio – Jesus havia ressuscitado!!

É justamente pelo fato de que Jesus ressuscitou que sua história não termina na narrativa evangélica e Lucas precisou escrever um segundo volume, narrando a continuidade dessa História que haverá de transpor a região da Judéia, Samaria e alcançara em poucos anos todo o Império Romano e posteriormente o mundo inteiro.

E convido você a juntos seguirmos o roteiro de Lucas e percorrermos toda esta trajetória até chegarmos na cidade de Roma a capital do Império. Venha!!


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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Referências Bibliográficas
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[1] Provavelmente ficavam no Vale do Tiropeão.
[2] Esse foi um dos lugares reformados por Herodes e suas águas passaram a ser tidas como curativas (semelhante ao culto de Asclépio, conforme pratica em outras partes do Império Romano).
[3] A Páscoa (Pessach) e celebrada no décimo quinto dia de Nisan (final de março e inicio de abril) dando inicio a Festa dos Pães Ázimos. Era um dos três maiores festivais do calendário religioso judeu do século I. Suas concorrentes eram a Festa das Semanas (Pentecostes – acontecia no fim de maio); a Festa dos Tabernáculos (acontecia em outubro).
[4] Alguns estudiosos defendem que Pilatos estaria na Fortaleza Antônia, junto com a guarnição romana.
[5] Ao menos outras duas revoltas foram causadoras de novas atrocidades – 70 d.C. e também em 134 d.C.