sábado, 4 de maio de 2019

NT - Contexto Histórico: Contribuição dos Romanos

Mundo Greco-Romano

“Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho...” (Gl 4.4).
De acordo com diversos historiadores, como nenhum outro povo até então, coube aos romanos desenvolveram um senso de unidade da humanidade sob uma lei universal. Deste modo, a partir do século I a.C. até o século IV d.C., os Imperadores romanos governaram o mundo antigo, criando como em nenhum outro período histórico as condições favoráveis para a inserção e expansão do Evangelho de Cristo e consequentemente da Igreja Cristã. Segundo o historiador Earle E. Cairns o grande e imponente Império Romano sempre esteve à serviço aos desígnios de Deus:
A contribuição política anterior à vinda de Cristo foi basicamente obra dos romanos. Esse povo, seguidor do caminho da idolatria, dos cultos de mistérios e do culto ao Imperador, foi usado por Deus, a quem ignoravam, para cumprir a sua vontade. Os Romanos, como nenhum outro povo até então, desenvolveram um senso de unidade da humanidade sob uma lei universal. Esse senso de solidariedade do homem no império criou ambiente favorável à aceitação do evangelho que proclamava a unidade de espécie e que a todos era oferecida a salvação que os integra num organismo universal, a Igreja, o corpo de Cristo. (1995, p.29).
Seguindo o roteiro proposto por Cairns (2008) podemos nomear as seguintes contribuições dos romanos:
§O Governo Internacional de Roma: Em seu apogeu eles conquistaram todos os povos entre Roma e o Egito, portanto, circundaram o Mediterrâneo e assim contribuiu para que o cristianismo alcançasse inúmeros povos, com seus costumes, línguas, religiões e tradições, mas que estavam debaixo de um único governo. É dentro deste amplo espaço geográfico,[1] que constituía o Império Romano, que a partir de 50 d.C. que o Cristianismo durante os três primeiros séculos da era cristã surgiu e se expandiu. Atualizando a geografia do Império incluía o sul da Europa do Reno e do Danúbio, grande parte da Inglaterra, o Egito e toda a costa norte da África, e uma grande parte da Ásia desde o Mediterrâneo à Mesopotâmia.
§Lei Romana: Evidentemente que sempre houve sistemas legais, mas certamente foi com os romanos que o Direito tornou-se efetivo e até hoje ainda se deriva dele inúmeras leis e códigos legais. A lei romana era aplicada em todo o Império e responsabilizava todas as pessoas, de maneira que transgredi-las implicava em sanções incluindo a sentença de morte. Todo cidadão romano tinha direito de se defender e somente poderia ser julgado em um tribunal romano. Essa foi a única saída de Paulo, quando os judaizantes queriam julgá-lo e condená-lo em Jerusalém e ele então apela para César, ou seja, como cidadão romano ele somente poderia ser julgado e condenado por um tribunal romano. Na epístola aos Romanos o apóstolo Paulo vai se utilizar da estrutura legal para exemplificar o processo da justificação pela fé. Somente serão absolvidos diante do tribunal de Deus aqueles que forem revestidos da justiça de Cristo, de maneira que agora diante da Lei estão livres da condenação. É possível também que João estivesse pensando nesse contexto do tribunal romano quando afirma que “temos um Advogado – Jesus Cristo”, de maneira que quando pecamos, Ele nos representa diante do supremo Juiz.  
§Fronteiras Abertas: Com o pleno domínio político-econômico, as fronteiras nacionais foram rompidas. Os Romanos, como nenhum outro povo até então, desenvolveram um sentido da unidade da espécie sob uma lei universal. Ainda segundo Cairns (2008, p. 32), essa unificação foi possível graças à administração centralizada que Roma outorgava aos povos sob seu domínio. Existiam províncias diretamente subordinadas ao senado, ao Imperador. Um cidadão romano transitava livremente por todo o Império sem qualquer restrição – Paulo tinha seu passaporte de cidadão romano e aproveitou ao máximo esse status para percorrer o território romano para implantar as comunidades cristãs.
§Construção de Estradas: A sólida administração romana tornou mais fáceis e seguras as viagens e as comunicações (OLIVEIRA, p. 04). Para manter um Império tão vasto os romanos precisavam estruturar uma área fundamental – estradas - para otimizar o trânsito dentro dos limites imperiais, e que será um potencializador da expansão do cristianismo.
Os imperadores não apenas investiram nas grandes estradas que já existiam, mas abriram inúmeras outras que as interligavam. Tanto bélica quanto comercialmente o ganho foi gigantesco. O mar já não era a única opção para se viajar; as pessoas aprenderam a se locomover de uma cidade para outra ou de um país para outro muito mais rápido do que qualquer outra época anterior – o comércio e a comunicação intercontinental tornam-se regulares, organizados e protegidos pelos "Grandes Poderes" - foi a primeira experiência de uma globalização – as estradas eram uma espécie de fibra ótica, interligando todo o Império. Como por elas trafegavam continuamente as tropas romanas os ladrões e salteadores foram afastados proporcionando uma segurança para os viajantes.
§Intensificação das Correspondências: Outro fator importante era a agilidade das correspondências. Ao longo das principais vias foram estabelecidos postos de correios, onde os “carteiros” trocavam seus cavalos para que as correspondências chegassem mais rapidamente ao destinatário. Aqui também ficava sempre uma guarnição de soldados, de maneira que além da agilidade havia também segurança. Aqui também acabaram sendo construídas pequenas estalagens que ofereciam um mínimo de conforto para os transeuntes, que na maioria das vezes faziam seus percursos a pé.  Paulo e seus companheiros transitaram por todas essas vias e certamente pernoitaram nesses postos. E certamente nenhum outro líder cristão do primeiro século utilizou mais e melhor o sistema de postagem romana do que o apóstolo dos gentios. O epistolário contido na Bíblia certamente não contém todas as cartas escritas e enviadas pelo apóstolo, visto que esse era o meio mais rápido e eficiente que ele possuía para orientar as comunidades cristãs localizadas em os mais diversos e distantes locais do mapa geográfico romano.
§Política Religiosa: Os Romanos seguiram a mesma política dos gregos e mantiveram seu panteão de desuses e sua religião familiar, mas concomitantemente permitiam que os demais povos conquistados mantivessem suas próprias religiões, com a ressalva de tais religiões não trouxessem transtornos políticos ao Império. Os judeus sempre foram uma pedra na bota dos romanos justamente porque sua religião era um pavio curto para a explosão de rebeliões periódicas na região da Palestina, tanto que a capital Jerusalém e o seu famoso Templo foram destruídos no ano 70 d.C.. Os cristãos, por sua vez, primeiramente foram perseguidos pelos próprios judeus e somente posteriormente vieram a entrar no radar político romano, quando passaram a serem vistos como um problema de Estado, inicialmente com perseguições localizadas e em alguns momentos as perseguições tornaram-se mais violentas e generalizadas com formulações de leis que os enquadrassem como revolucionários (cf. aconteceu com Daniel na Babilônia).
§Desenvolvimento das Cidades: Ainda que o conceito de cidade (polis) seja grego, foram os romanos que de fato iniciaram um projeto de urbanização, estabelecendo e construindo cidades por todo o império. Os romanos intensificaram as trocas comerciais, fomentaram a circulação da moeda, trouxeram o arado de madeira, as forjas, os lagares, os aquedutos, as estradas e as pontes. As povoações, até aí predominantemente nas montanhas, passaram a surgir nos vales ou planícies, habitando casas de tijolo cobertas com telha. Tudo isso fomentou a formação de cidades cada vez maiores e mais urbanizadas. Roma, com uma população aproximada de um milhão de pessoas, era a cidade mais importante do império, tanto em termos políticos como econômicos. Apesar de grande parte de a riqueza ter fluído para o centro, as províncias também prosperaram. O Império trouxe uma época de paz que permitiu o crescimento econômico de cidades como Éfeso, Pérgamo, Esmirna, Sardes e Mileto; portos como Dion, Pela, Tessalônica e Cassandra prosperaram; cidades como Antioquia, Alepo, Palmira e Damasco cresceram a ponto de tornarem-se os principais centros comercias da Síria Romana. Foram nesse cinturão de cidades que as comunidades cristãs prosperaram rapidamente.
Em sua estratégia missionária o apóstolo Paulo privilegiava centros urbanos maiores para partindo destes se alcançar outros centros urbanos menores e as vilas mais interioranas. O melhor exemplo dessa estratégia é a sua permanecia de quase três anos ensinando na cidade populosa de Éfeso, o principal porto do Império Romano no Mar Egeu, e que se constituía na época em um entroncamento comercial internacional. Quantas pessoas aprenderam as verdades do Evangelho, estando de passagem nesta cidade portuária, e depois retornaram para seus lares, vilas ou cidades e ali proclamaram o que haviam aprendido e formaram comunidades cristãs. Foi desta forma que o cristianismo alcançou o mundo conhecido da época.
           
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas
ANDRADE, Claudionor de. Geografia Bíblica: a geografia da Terra Santa é uma das maneiras mais emocionantes de se entender a história sagrada. 13ª. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.
CAIRNS, Earle E. O cristianismo através dos séculos: uma história da Igreja Cristã. Tradução Israel Belo de Azevedo. 2ª ed. São Paulo: Ed. Vida Nova, 1995.
CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 2006, 8ª ed. [v. 6 – S-Z]
DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995.
DRANE, John (Org.) Enciclopédia da Bíblia. Tradução Barbara Theoto Lambert. São Paulo: Edições Paulinas e Edições Loyola, 2009.
JEREMIAS, Joachim. Jerusalém no Tempo de Jesus: pesquisa de história econômico-social no período neotestamentário. 4 ed. São Paulo: Paulus, 1983.
OTZEN, Benedikt. O Judaísmo na Antiguidade: a História política e as correntes religiosas de Alexandre Magno até o Imperador Adriano. São Paulo: Paulinas, 2003.
REICKE, Bo. História do Tempo do Novo Testamento. São Paulo: Ed. Paulus, 1996.
SAULNIER, Christiane & ROLLAND, Bernard. A Palestina nos tempos de Jesus. 7ª ed. São Paulo: Paulinas, 1983.
STEGEMANN, Ekkehard W. e STEGEMANN, Wolfgang. História social do protocristianismo. São Leopoldo, RS: Sinodal; São Paulo: Paulus, 2004.
TENNEY, Merrill C. (Org.). Enciclopédia da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.


[1] Não devemos esquecer que nesse momento histórico havia inúmeras regiões do mundo fora do domínio do Império Romano e que veriam a serem reconhecidos muitos séculos depois.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Epístola de Paulo aos Romanos: Estudo Devocional (1.8-15)



            Após se identificar e saudar seus leitores, Paulo se dirige especificamente a eles expressando o reconhecimento do que Deus tem feito na vida e através da vida daqueles cristãos. Paulo sabia muito bem como era difícil vivenciar a fé cristã naqueles dias, pois ele mesmo sentiu na própria pele toda a violência produzida por aqueles que rejeitam o Evangelho (e temos visto isto diariamente em nossas mídias eletrônicas). Não muito tempo de esta epístola ter sido escrita os cristãos em Roma foram acusados injustamente de serem causadores de um dos mais devastadores incêndios ocorridos na capital romana e centenas de cristãos foram mortos das formas mais cruéis imagináveis.
Graças a Deus pela Fé
(v. 8) Primeiramente dou graças ao meu Deus, mediante Jesus Cristo, por todos vós, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé.
Não sem motivo Paulo imediatamente à saudação protocolar expressa sua gratidão a Deus pela fé daqueles cristãos no meio da maior cidade do Império Romano.
Muito tempo antes de ver o rosto desses cristãos em Roma, o velho apóstolo já orava em favor deles. “Já ganhara a batalha antes de entrar nela” (F. B. Meyer). Antes de qualquer outra coisa, diz Paulo, antes de compartilhar meus planos missionários e solicitar o apoio de vocês, me coloco diante do “meu Deus” para agradecer pela vida de vocês, por estarem manifestando a genuína fé em Jesus Cristo. O velho apóstolo aprendeu a caminhar com Deus, assim como o salmista (Sl 18) que permeia seu cântico com esta preciosa expressão “meu Deus”, de maneira que o conhecimento deles não era de nenhuma forma acadêmico-escolástica, abstrata ou especulativa, mas um conhecimento vivo e pessoal “meu Deus” – Davi como poucos conheceu profundamente a Deus e ao compor uma de suas obras máximas declara: “O Senhor é o meu pastor”. O rei Ezequias referindo-se ao profeta Isaías declara: “o Deus de Isaías” (Is 37.4); estando para lançar Daniel à cova dos leões o rei lhe pergunta: “Teu Deus, a quem serviste com perseverança, ele te salvará?” (Dn 6.17). Em outra ocasião Paulo dá esse testemunho: “Deus, de quem eu sou, e a quem sirvo” (At 27.23). É transparente que existe uma relação pessoal e um conhecimento pessoal – assim deve se iniciar qualquer oração – “meu Deus
Que melhor testemunho eles poderiam dar do que viverem intensamente sua fé em meio a toda corrupção e depravação em que estavam inseridos (Paulo vai fazer uma radiografia da sociedade romana algumas linhas à frente). Dizer que é um cristão é fácil, mas viver como um cristão no meio de uma sociedade corrompida e dominada pelo pecado é outra coisa. Ainda que nos anais da história romana pouco ou quase nada se registra sobre os cristãos e as comunidades cristãs em Roma, este fato apenas revela a ignorância deles sobre a mensagem salvadora do Evangelho; todavia, em todos os lugares onde havia sido estabelecido um núcleo da igreja cristã, o testemunho dos cristãos romanos era conhecido e servia de estimulo para a vida deles. Se Paulo escrevesse hoje para nós (nossas comunidades) ele poderia ser grato a Deus pela nossa fé?
Intercessão amorosa
(v. 9-10) Pois Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, me é testemunha de como incessantemente faço menção de vós, pedindo sempre em minhas orações que, afinal, pela vontade de Deus, se me ofereça boa ocasião para ir ter convosco.
O fato de Paulo não conhecer a maioria dos cristãos que moravam em Roma, mas conhecia muitos a quem nomeia ao final da carta, isso nunca foi empecilho para que ele intercedesse em favor das suas vidas. Ele os tinha em seu coração, pois somente se ora por aqueles que se ama, talvez seja essa a triste razão pelas quais nossas orações são tão egocêntricas, pois amamos muito a nós mesmos e pouco as demais pessoas. Paulo sentia-se responsa´vel e tinha “cuidado de todas as igrejas” (I Co 11.28). Como seria diferente as nossas vidas se seguíssemos o exemplo de Paulo e orássemos mais frequentemente pelas pessoas, mesmo que não as conhecêssemos. Como seria diferente se orássemos mais por todas as igrejas e não apenas pela nossa denominação. Jamais me esquecerei de um pastor que se alegrava pelo fato de que uma igreja de outra denominação estava passando por problemas pastorais e muitos membros estavam vindo para sua igreja – lamentável atitude! Nestas palavras fica evidente o valor que Paulo dava a oração intercessora (uma das reuniões das igrejas evangélica menos concorrida são as reuniões de oração). Na mesma proporção em que a igreja deixa de orar ela se mundaniza.
Paulo não começou a orar pelos cristãos em Roma enquanto escrevia a carta, mas ele a muito sempre orava em favor deles “incessantemente faço menção de vós, ... pedindo sempre [em todo o tempo] em minhas orações”.  O termo grego utilizado por Paulo denota a ideia de “em todas as minhas orações” ou ainda, “sempre me dirijo a Deus em minhas orações”, popularmente “todas as vezes que oro”. A oração é o termômetro da nossa fé – muita oração, muita fé; pouca oração, pouca fé; nenhuma oração, nenhuma fé.
Demonstramos realmente a preocupação pela vida de alguém quando nos dispomos a orar por ela. Revelamos o quanto nos preocupa de fato o destino do nosso País, não twitando ou postando críticas e defesas no facebook, mas quando dobramos os nossos joelhos e intercedemos pelo Brasil. John Knox orava diariamente e sem cessar: “Senhor, dá-me a Escócia, senão eu morro!” E a Escócia tornou-se uma Nação protestante e foi importante na obra missionária (lamentavelmente não há mais John Knox na Escócia e ela tem retrocedido aos tempos da incredulidade e da irreverência). O salmista conclama a todos para que “orem pela paz de Jerusalém”.
Antes de preocupar-se com seus planos, ainda que convicto de que era da parte de Deus, Paulo revela sua preocupação com o bem estar dos cristãos em Roma. Ele sabia que tudo deveria ser submetido a Deus em oração e que, sem ela, todos os melhores planos e planejamentos se perderiam.  Lembremos que tudo quanto formos fazer, das mais simples às mais complexas, devem ser colocadas diante de Deus – Tiago exorta: “nunca diga arrogantemente eu vou fazer isso e aquilo, mas em profunda humildade coloque tudo diante de Deus e diga, se Deus quiser farei isso ou aquilo”. Charles Hodge observa: “a providência de Deus deve ser reconhecida em relação aos assuntos mais simples da vida”. E quando oramos, mas nada fazemos estamos zombando de Deus; e quando fazemos as coisas sem orarmos antes estamos roubando a glória de Deus (Robert Haldane). Os grandes fracassos do evangelicalismo moderno é que primeiramente se faz as coisas e somente depois, quando tudo se revela um fracasso, acorrem a Deus em desespero. As batalhas da vida cristã somente são ganhas por aqueles que antes de iniciar a luta já estava orando. A rainha Elizabete I dizia que temia mais as orações dos cristãos do que os exércitos inimigos – os corruptos de nossa Nação temem as orações dos evangélicos? O inferno treme em pavorosa quando nos reunimos para orar? Vidas são transformadas quando nos propomos a orar? As cracolândias e a corrupção no Brasil somente deixaram de existir quando o povo de Deus começar a orar – antes disso somente nos cabe o corar de vergonha, como tão bem expressou Daniel em sua oração.
Fortalecimento mútuo
(v. 11-12) Porque desejo muito ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais fortalecidos; isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado em vós pela fé mútua, vossa e minha.
O apóstolo revela um genuíno apresso e respeito por aqueles irmãos quando afirma que a sua própria fé será fortalecida pela fé deles, como a deles pela sua. Ele não estava apenas tentando ser gentil: realmente cria nisto. Este é o fator máximo da genuína comunhão cristã – crescimento espiritual mútuo. O termo usado por Paulo ”fortalecido” trás a ideia de ser edificado, ser tornado mais completo e até mesmo de ser separado, ou seja, apesar deles assim como o próprio apóstolo expressarem uma fé genuína, ambos necessitam sempre de serem fortalecidos – a conversão não é o fim, mas apenas o começo da jornada cristã. João Calvino declara: “Não há ninguém tão pobre na igreja de Cristo que não possa compartilhar conosco algo de valor”. Os cristãos de Corinto foram censurados pelo apóstolo por optarem em permanecerem agindo como “crianças em Cristo” (1 Co 3.1). Fazendo uma analogia com as palavras de Jesus: o caminho largo da infantilidade espiritual é amplo e espaçoso e a maioria opta por ele, mas o caminho estreito, espinhento e pedregoso da maturidade é estreito e são poucos os que perseveram nele. Há muito nossas reuniões e cultos perderam essa dimensão da comunhão que produz fortalecimento da fé. Os shows gospel servem apenas como entretenimento e de gosto discutíveis, mas jamais servira para estimular o crescimento e maturidade espiritual resultante de uma fé genuína. Servem como berçário e creche nada mais!
Ha' uma admirável mutualidade no serviço de Deus. Pense: quanto do sucesso do ministério de Paulo foi devido 'as
orações dos fiéis? Oramos nós pelos ministradores do evangelho, oficiais ou leigos, que fazem o trabalho que os anjos gostariam de fazer que e' contar as boas novas do Evangelho?
Uma grande responsabilidade
(v. 13-14) E não quero que ignoreis irmãos, que muitas vezes propus visitar-vos (mas até agora tenho sido impedido), para conseguir algum fruto entre vós, como também entre os demais gentios. Eu sou devedor, tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes.
Há muito tempo que Paulo acalenta o desejo de ir a Roma e estar usufruindo da comunhão daqueles irmãos, mas por razões independentes de sua vontade ele ainda não pode realizar esse propósito. Paulo tinha plena consciência da relevância estratégica da comunidade cristã romana e já projetava fazer dela uma nova base para alcançar outras regiões além-mar (ex. Espanha).
Desde sua conversão o Senhor Jesus deixou bem claro qual o propósito para o qual Paulo fora chamado – levar o evangelho aos gentios, todavia como judeu ele também se sentia responsável em comunicar as boas novas aos seus patrícios da diáspora; Paulo havia estudo no maior centro acadêmico de seus dias, mas jamais deixou de se preocupar com os mais simples e analfabetos. Pesava sobre os ombros de Paulo a responsabilidade de comunicar o Evangelho a todas as pessoas, independente de sua etnia ou cultura, em todos os lugares e nada menos do que isso importava para o velho apóstolo.
Pronto
(v. 15) De modo que, quanto está em mim, estou pronto para anunciar o evangelho também a vós que estais em Roma.
Todos os obstáculos e todos os impedimentos que até então tinham adiado a ida de Paulo a Roma não foram suficientes p ara diminuir um mínimo que fosse do desejo ardente que tinha de estar com os irmãos na Capital. Como deixou claro desde a muito tempo esse desejo tem sido acalentado em seu coração e os adiamentos apenas serviram para confirmar a sinceridade desta vontade. Quando nossos propósitos são sinceros e visam a glória de Deus e a expansão do Reino nenhum obstáculo é suficiente para demovê-lo de nossos corações. Mas todos os propósitos que se desvanece com o passar dos anos é porque na verdade nunca estiveram arraigados em nossos corações. Aqui temos ao menos dois aspectos muito interessantes: Paulo sabia ou tinha muito claro de que tudo que até então o havia impedido de estar com aqueles irmãos em Roma estavam debaixo da vontade de Deus, ou seja, ainda não era o tempo oportuno, não era o melhor momento, de maneira que cabia ao apóstolo continuar orando e aguardando que Deus lhe permitisse alcançar seu objetivo; segundo, se desde a primeira vez Paulo realizasse seu desejo, certamente não teríamos em nossas mãos essa preciosa carta, que tem sido instrumento do Espírito Santo para salvação, edificação e avivamento espiritual de milhares ou milhões de cristãos no mundo inteiro. Agostinho, Martinho Lutero, John Bunyan (autor de “Peregrino”), John Wesley estão entre aqueles que tiveram sua vidas transformadas pela leitura e estudo desta epístola. Dentro do propósito eterno do Espírito Santo, na composição das Escrituras Sagradas, havia a carta dirigida aos crentes em Roma, escrita pelo apóstolo Paulo, e somente depois que ele a escreveu foi liberado para ir a Roma. Foi assim com Paulo e continua sendo assim na vida de todos os cristãos, pois os obstáculos, dificuldades e impedimentos estão sempre subordinados à vontade soberana do Espírito Santo. As frustrações e decepções são decorrentes do fato que nos esquecemos desta verdade.

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Guedes, Ivan Pereira
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Referências Bibliográficas
BARCLAY, William. Romanos - El Nuevo Testamento comentado. Buenos Aires (Argentina), Asociación Editorial la Aurora, 1974.
BRUCE, F. F. Romanos – introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1991.
CALVINO, João. Exposição de Romanos. Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: Edições Paracletos, 1997. [Comentário à Sagrada Escritura].
CRANFIELD, C. E. B. Carta aos Romanos. Tradução Anacleto Alvarez. São Paulo: Edições Paulinas, 1992. [Grande Comentário Bíblico].
ERDMAN, Charles R. Comentários de Romanos. Tradução Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, s/d. (Fhiladelphia: The Westminster Press, 1925).
GREATHOUSE, William M. A epístola aos Romanos. Tradução Degmar Ribas Júnior. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. [Comentário Bíblico Beacon, v. 8].
KERTELGE, Karl. A epístola aos romanos. Tradução de Assis Pitombeira. Petrópolis (RJ): Editora Vozes, 1982. [Coleção Novo Testamento – comentário e mensagem, nº 6].
LLOYD-JONES, D. Martyn. Romanos – o Evangelho de Deus. Tradução Odayr Olivetti. São Paulo: Editora PES, 1998. [Exposição sobre Capítulo 1].
WILSON, Geoffrey B. Romanos – um resumo do pensamento reformado. Tradução Fernando Quadros Gouvêa. São Paulo: PES, 1981.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

NT - Contexto Histórico: Contribuição dos Gregos



            A Soberania de Deus sobre a História é claramente manifestada no estabelecimento de Impérios, assim como também a causa direta de suas quedas. Poucos impérios influenciaram tantos, em tantos lugares, por tanto tempo como o império grego. As conquistas de Alexandre o Grande a partir de 334 a.C., quando desembarcou em Trôade, até sua morte, na Babilônia em 323 a.C., demarca o momento da introdução do pensamento grego no mundo. Suas conquistas transformaram vida no Oriente Próximo e a cultura helenística espalhou-se rapidamente por todos esses países. O comércio internacional progrediu vigorosamente sob o novo clima cultural e político.
Ainda hoje o mundo ocidental ainda sente indelevelmente os efeitos do chamado helenismo. As contribuições da civilização grega para a implantação e expansão do cristianismo têm sido estudas exaustivamente, perfazendo milhares de páginas de pesquisas e ainda há muito a ser pesquisado. Vejamos alguns aspectos do império grego que contribuíram efetivamente à expansão da mensagem cristã:
§Helenismo: As conquistas de Alexandre o Grande transformaram  o modus vivendi no Oriente Próximo e a cultura helenística espalhou-se rapidamente por todos esses países. O comércio internacional progrediu vigorosamente sob o novo clima cultural e político. Helenismo, que é o substantivo derivado do verbo “ellenizo” (falar grego), originalmente significava o uso adequado da língua grega. Na Grécia do século IV, era uma exigência para distinguir o grego do estrangeiro, pois os estrangeiros tinham se tornado tão numeroso que tornou-se um risco cultural, pois se constituía em uma influência corruptora do idioma dos próprios gregos. Por esta razão a retórica fazia parte integrante do currículo acadêmico no Liceu de Atenas, que era dividida em cinco partes denominadas de “virtudes da dicção”, cuja premissa básica era o Helenismo, ou seja, a gramatica e correta utilização da linguagem grega sem qualquer corrupção estrangeira (bárbaros). Posteriormente, fora da Grécia o termo foi adquirindo um sentindo cultural mais amplo de adoção do estilo de vida grego. Com o desenvolvimento do cristianismo, helenismo passou a incluir também um sentido religioso abarcando todas as manifestações cúltica não apenas dos gregos, mas de todas as religiões não cristãs (pagãs), sendo esse o sentido que os chamados Pais da Igreja, principalmente de origem grega, fizeram uso deste termo em suas obras polemistas, onde defendem e fazem distinção entre o cristianismo e as demais religiões.
§Idioma Grego (Koinê): Sem dúvida alguma a maior contribuição do helenismo foi popularizar a língua grega. O grego Koinê (popular) tornou-se a língua comercial-cultural de âmbito internacional (o inglês dos nossos tempos).
Como a maioria dos judeus, após a diáspora,[1] permaneceu vivendo foram da Palestina, houve a necessidade de se efetuar uma tradução da Bíblia Hebraica para a língua grega, que recebeu o nome de Septuaginta e/ou Versão dos Setenta (LXX),[2] e que foi amplamente utilizada nas Sinagogas espalhadas por todo o Império Romano.
O cristianismo, apesar de iniciar na Palestina, nasce permeado pelo helenismo. A literatura cristã, ainda que fosse escrita por judeus, com exceção de Lucas, utilizou-se da língua grega popular para comunicar sua mensagem e desta forma se universalizar. O foco irradiador deste cristianismo helenizado foi a cidade de Antioquia, substituindo Jerusalém (o centro judaico) e onde pela primeira vez os seguidores de Cristo são denominados de cristãos (christianoi).
apóstolo Paulo compreendia muito bem o processo transcultural helenista e utilizou-se dele para expandir o cristianismo, partindo sempre das sinagogas espalhadas por todo o mediterrâneo, onde o grego era falado e a Septuaginta era utilizada, por isso a razão de se encontrar tantos prosélitos nessas sinagogas. Suas inúmeras correspondências, portanto, suas argumentações, foram elaboradas nesse contexto helenista e na língua grega, o que se pode comprovar pela sua utilização das citações da Septuaginta e não dos textos hebraicos.
Entretanto, torna-se precipitado concluir que Paulo e os demais escritores neotestamentários foram totalmente absorvidos pela mentalidade e conceitos gregos, ao contrário, o pensamento deles continuou hebraicamente concreto e não filosoficamente abstrato como no pensamento grego.

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Referências Bibliográficas
ANDRADE, Claudionor de. Geografia Bíblica: a geografia da Terra Santa é uma das maneiras mais emocionantes de se entender a história sagrada. 13ª. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.
BRIGTH, Jonh. História de Israel. 7ª. ed. São Paulo: Paulus, 2003.
CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 2006, 8ª ed. [v. 6 – S-Z]
DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995.
DRANE, John (Org.) Enciclopédia da Bíblia. Tradução Barbara Theoto Lambert. São Paulo: Edições Paulinas e Edições Loyola, 2009.
HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001.
JEREMIAS, Joachim. Jerusalém no Tempo de Jesus: pesquisa de história econômico-social no período neotestamentário. 4 ed. São Paulo: Paulus, 1983.
OTZEN, Benedikt. O Judaísmo na Antiguidade: a História política e as correntes religiosas de Alexandre Magno até o Imperador Adriano. São Paulo: Paulinas, 2003.
POPE, Arthur. The History of the Persian Civilization. s/ano.
REICKE, Bo. História do Tempo do Novo Testamento. São Paulo: Ed. Paulus, 1996.
SAULNIER, Christiane & ROLLAND, Bernard. A Palestina nos tempos de Jesus. 7ª ed. São Paulo: Paulinas, 1983.
STEGEMANN, Ekkehard W. e STEGEMANN, Wolfgang. História social do protocristianismo. São Leopoldo, RS: Sinodal; São Paulo: Paulus, 2004.
TENNEY, Merrill C. (Org.). Enciclopédia da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.



[1] Diáspora [Dispersão]: é utilizado para se referir os judeus que após o Cativeiro Babilônico optaram por permanecerem morando fora da Palestina (https://reflexaoipg.blogspot.com/search/label/Gloss%C3%A1rio%20B%C3%ADblico)
[2] Septuaginta [LXX]: foi a primeira tradução da Bíblia Hebraica para uma outra língua, no caso, o grego. Foi realizada no período de 250 a.C., sendo amplamente utilizada pelos judeus da diáspora que estavam perdendo o contato com a língua materna. É conhecida também pelo nome de “Setenta” abreviada pelos algarismos romanos LXX. No cristianismo primitivo foi fundamental para comunicar a mensagem evangélica tanto aos judeus quanto aos gentios (https://reflexaoipg.blogspot.com/search/label/Gloss%C3%A1rio%20B%C3%ADblico)