quinta-feira, 7 de junho de 2018

Primeiro Samuel – Contexto Histórico



            Tudo tem um começo”. Está pequena frase descreve muito bem o conteúdo do primeiro livro de Samuel. Diferentemente do que o índice da Bíblia possa indicar a monarquia de Israel não começa com as narrativas dos livros de Reis, mas seus primórdios e evolução são registrados nas páginas dos dois livros que levam o nome de Samuel. Até esse momento a organização que prevalecia era o sistema tribal onde cada uma das doze tribos tinha plena autonomia e se associavam quando surgiam ameaças externas. A figura catalizadora desse período eram os juízes que periodicamente surgiam, mas eram regionais e não deixavam sucessores. O livro recebe o nome de Samuel por que esse personagem permeia toda a narrativa. O livro se abre com as questões envolvendo o nascimento e desenvolvimento da vida de Samuel até o momento em que ele assume a função de Sacerdote, acumulando também a referência de juiz. Posteriormente, mediante pressão das lideranças tribais, vai surgir a figura do rei cujo primeiro a ser instalado, pela aclamação popular, foi Saul da tribo de Benjamim.
            Os dois livros de Samuel abrangem um longo período da história israelita: primeiro livro de Samuel registra quase um século de história, desde 1100 até 1011 AC, tendo as figuras de Samuel e Saul se destacando; o segundo livro de Samuel resumem quarenta anos de história, ou seja, de 1011 até 971 AC, e a proeminência esta na figura de Davi, desde sua infância, sua ascensão ao trono israelita e a consolidação da monarquia e estabelecimento da dinastia davídica, que posteriormente se tornará a dinastia messiânica, que se constituirá no ponto central da mensagem profética preservada na bíblia hebraica e depois inserida na bíblia cristã.
Contexto Histórico
O período de 1200 a 900 AC foi de desassossego nacional e controvérsia política. Há ressonâncias desse longo período nas literaturas históricas de Heródoto, Beroto, Josefo e posteriormente Eusébio. Desta forma, na conjunção destes registros históricos e as descobertas arqueológicas novas informações vão surgindo e afirmando e esclarecendo nosso conhecimento do período durante o qual ocorreram os acontecimentos de 1 e 2 Samuel.
Este período de desassossego, agitação e transição inicia-se com as migrações dos povos do mar que, direta ou indiretamente, afetaram todo o antigo Oriente. As conjunções políticas-econômicas-bélicas nos grandes impérios ao derredor de Canãa estavam passando por um período de convulsões e declínio. Neste período de Samuel governavam o Egito os sacerdotes da XX dinastia e os governantes faraós da XXI dinastia, cujos reinados se caracterizaram por debilidade, decadência e desunião nacionais. A Assíria e a Babilônia igualmente experimentavam suas convulsões: a debilidade interna e as invasões do exterior estavam à ordem do dia.
Desta forma a influência política do Egito e da Síria sobre a região de Canaã era inexistente nestas circunstâncias.  As migrações dos povos do mar e dos aramaicos se acrescentaram às dificuldades internas, e mantiveram a situação política internacional em todo o antigo Oriente em permanente estado de alerta durante quase dois séculos.
Dentro deste quadro de calmaria em toda região canaanita/palestino as tribos israelitas puderam consolidar seus territórios conquistados desde os dias de Josué. Agora aproveitando este período de plena autonomia e cansados das incursões dos povos fronteiriços, como os filisteus, amalequitas, edomitas, medianitas e amonitas, de modo que eles começam a pressionar o envelhecido juiz-profeta-sacerdote Samuel para estabelecer um sistema monárquico.
Aproveitando esse período de debilidade dos grandes impérios os primeiros reis de Israel foram reconquistando os territórios invadidos e submetendo seus vizinhos e nos governos de Davi e Salomão as fronteiras de Israel alcançaram sua maior extensão.
Ao introduzi-los na terra de Canaã ficou ordenado que em todas as tribos deveriam serem estabelecidas cidades para os levitas, que ficaram sem uma região especifica, para que pudessem instruir o povo quanto à Lei de Deus. Mas as narrativas no livro de Juízes deixam claro que os descendentes de Moisés-Josué pouca ou nenhuma atenção deram às palavras de Deus (qualquer semelhança com o evangelicalismo atual não é mera coincidência).  Muitas tribos não estabeleceram cidade para os levitas e foram se amalgamando com remanescentes dos povos canaanitas que não foram expulsos de seus territórios. A maior ironia é o caso de Jonatas, neto de Moisés (Jz 18.30) foi morar na casa de Mica o efraimitas (Jz 17.5) e chegou a ser sacerdote para a “casa dos desuses” de Mica e depois rouba as imagens e se refugia na tribo de Dã para ser ali sacerdote (Jz 18). Estabelece-se então o ditado “cada um fazia o que bem lhe parecia" e um circulo vicioso de afastamento, arrependimento e retorno a Deus, que permanece até os dias de Samuel, o último dos juízes.
A partir de Samuel este nefasto circulo é rompido. O jovem Samuel assume após a morte do velho sacerdote Eli, cujos filhos eram decadentes e acabaram morrendo em uma batalha mal sucedida.
O jovem sacerdote torna-se itinerante e de tribo em tribo foi resgatando os princípios da Lei de Moisés. Como não poderia estar em vários lugares ao mesmo tempo ele começa a estabelecer “escolas” onde jovens eram recebidos para aprenderem a ler e interpretar as Leis, a música e a preservarem a história religiosa. Estabelece uma em Ramá seu lar paternal (1Sm 19.19-24), mais tarde surgiram uma Gilgal (2Rs 4.38) e outra em Betel (2Rs 2.3) e Jericó (2Rs 2.15-22), essas três últimas  funcionavam nos dias dos profetas Elias e Eliseu. A expressão "escolas dos profetas" não aparece na literatura do Primeiro Testamento, mas os jovens que ali estudavam eram chamados "filhos dos profetas".  Dedicavam-se ao serviço de Deus e alguns deles serviam como conselheiros do rei.
Esboço (1 Samuel 1.1-2.11)
História de Samuel
v  Nascimento e Preparação Inicial (1.1-2.11)
o   Elcana e Ana (1.1-8)
o   Oração de Ana (1.9-18)
o   Nascimento de Samuel e sua consagração (1.19-28)
o   Cântico de Ana (2.11)

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Historiologia Protestante
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Referências Bibliográficas
BALANCIN, Euclides Martins. História do Povo de Deus. São Paulo. Paulus, 1989.
BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras – Juízes a Ester, ed. Vida Nova, São Paulo, 1993.
BRIGTH, Jonh. História de Israel. 7ª. ed. São Paulo. Paulus, 2003.
CASTEL, Francois. Historia de Israel y de Judá. Desde los orígenes hasta el siglo II d.C. Estella. Editorial Verbo Divio, 1998.
CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo. Hagnos, 2006, 8ª ed.
DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo. Vida Nova, 1995.
DRANE, John (Org.) Enciclopédia da Bíblia. Tradução Barbara Theoto Lambert. São Paulo. Edições Paulinas e Edições Loyola, 2009.
FOHRER, Georg. História da religião de Israel. Tradução de Josué Xavier; Revisão de João Bosco de Lavor Medeiros. São Paulo. Edições Paulinas, 1982.
FRANCISCO, Clyde T.  Introdução ao Primeiro Testamento. Rio de Janeiro. JUERP, 1969. 
GARDNER, Paul (Editor). Quem é quem na bíblia sagrada – a história de todos os personagens da bíblia. Tradução de Josué Ribeiro. São Paulo. Vida, 1999.
Halley, H. Manual Bíblico. São Paulo. Sociedade Religiosa Edições Nova Vida, 1983.
HOFF, Paul.  Os livros históricos. São Paulo. Vida, 1996.
TENNEY, Merrill C. (Org.). Enciclopédia da Bíblia. São Paulo. Cultura Cristã, 2008.

terça-feira, 15 de maio de 2018

O Homem Que Queria Ver Jesus



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            Ele acordou com uma sensação estranha de que aquele dia seria diferente. Se alguém lhe perguntasse por que ou qual o motivo ele não saberia dizer, apenas sentia que algo especial iria acontecer.
            Fazia questão de manter uma rotina diária, pois isso lhe dava uma espécie de segurança de que as coisas estavam funcionando normalmente. Portanto, desde as primeiras horas da manhã ele já estava acordado e como sempre organizou o café matinal da família, pois era a única refeição que faziam juntos no dia. Suas atividades profissionais lhe tomavam todo o tempo e até mesmo o jantar nem sempre era possível participar com eles à mesa.
            Ele já pensara diversas vezes em mudar de atividade, mas nenhuma outra lhe possibilitava um retorno financeiro tão bom como o que ele tinha atualmente, de maneira que sempre acabava descartando ou como ele costumava dizer a si mesmo – postergando uma decisão mais radical.
            Fora muito difícil e dispendioso conseguir os direitos de exercer sua atividade profissional. A concorrência sempre foi e continuava sendo acirrada, de maneira que ele não podia abrir qualquer brecha, pois sempre havia alguém de olho para na primeira oportunidade tomar seu lugar.
            É verdade que sua profissão não era apenas flores, ainda que o lucro era sempre garantido, mas havia também muitos espinhos. Talvez o mais dolorido desses espinhos fosse a forma como seus vizinhos, conhecidos e a grande maioria dos cidadãos o tratavam.
            Ele nunca era convidado para as festas, a não ser quando insinuava que poderia arcar com parte das despesas, mas mesmo assim era tratado como um intruso. E quando abria as portas de sua casa para alguma refeição social, somente seus colegas de profissão e seus familiares vinham.
            Igualmente dolorido lhe era quando andando pelas ruas em direção ao trabalho ou mesmo quando fazia qualquer outra atividade sentia os olhares duros e implacáveis das pessoas e ouvia os sussurros ou até mesmo alguém mais exaltado lhe chamava de publicano e pronunciava uma série de vitupérios que o deixavam completamente constrangido. Com o passar dos anos pensou que fosse se acostumar com estes comportamentos descabidos ou que fossem diminuir de intensidade, mas nenhuma coisa e nem outra, sempre se sentia constrangido e em vez de diminuir ultimamente havia aumentado a intensidade das ofensas. Na semana anterior um comerciante quase o agrediu fisicamente, por se achar injustiçado, mas fora contido por alguns de seus empregados.
            Mas o que mais o fazia sofrer era a proibição de poder adentrar à Sinagoga para participar das reuniões. Sentia falta de ouvir a leitura da Torá, das orações e dos cânticos dos Salmos comunitários. Evidentemente que fazia tudo isso em sua casa, juntamente com sua família e todos os que estavam debaixo de seu teto, pois ele era o responsável pela vida deles, tanto física quanto espiritualmente. Mas como lhe fazia falta poder ir com a família e adentrar ao ambiente da Sinagoga. Mas quando se tornou um publicano e posteriormente alcançou o posto de chefe, passando a ser o responsável por toda coletoria de impostos da cidade de Jericó, cuja produção e exportação do balsamo girava a economia da cidade e por consequência do comercio, sabia o preço que haveria de pagar, pois era tratado como traidor do povo judeu e serviçal dos invasores romanos, uma vez que era obrigado por contrato a remeter a maior parte do que arrecadava para Roma.  
            Mas a vida continua. Após o café com a família se despediu e foi caminhando em direção ao seu posto de trabalho. Bastaram apenas alguns metros para perceber que havia mais movimento nas ruas do que o costumeiro para aquele horário matinal. Notou também que os olhares de repudio que lhe eram normalmente direcionados estavam escassos, como se ele não estivesse passando por ali, como o fazia rotineiramente. As pessoas conversavam e gesticulavam agitadamente, mas graças a Deus desta vez não estavam falando sobre ele. Enquanto caminhava ficou cada vez mais claro que algo importante havia ou estava para acontecer naquele dia. O que seria? Qual a razão de tanta agitação logo pela manhã?
            Com estas e outras indagações ele chegou ao seu posto na coletoria. Cumprimentou todos os funcionários e distribuiu as tarefas daquele dia a serem desempenhadas por cada um deles. Sentou-se à mesa de trabalho e começou a verificar algumas anotações que fizera no dia anterior, pois logo começaria a chegar as anotações de hoje. Foi quando levantando os olhos de seus papeis se apercebeu que seus funcionários estavam mais agitados do que o costumeiro. Até mesmo os mais contidos estavam conversando e gesticulando, como aguardando alguma noticia. Alguma autoridade romana iria passar pela cidade? Herodes ou Pilatos? Algum centurião romano com suas tropas? 
            Discretamente fez sinal para um deles, que saindo do pequeno grupo de cinco funcionários, dirigiu-se na sua direção. Então ele perguntou: o que esta acontecendo? Por que toda aquela agitação? O rapaz lhe respondeu: está correndo um boato de que um tal de Jesus estará passando pela cidade hoje. Ele tem caminhado por toda Palestina judaica com um grupo de discípulos; muito se tem falado da autoridade com que ensina e interpreta a Torá e dos muitos milagres que Ele tem realizado, até mesmo ressuscitando mortos e curando cegos e aleijados.
            Enquanto o funcionário retorna à roda ele começa a puxar na memória alguns extratos de conversas que tinha ouvido das muitas pessoas que pela coletoria passavam, advindos de todos os recônditos da Palestina e mesmo de fora dela. Lembrou-se de alguns comentários sobre um Galileu ou Nazareno, não sabia ao certo, que estava pregando sua mensagem de arrependimento e do reino de Deus por todo o território, ele até pensou que se tratava de João, o Batista, mas lembrou-se de que este ficava mais à beira do rio Jordão e que havia sido decapitado por ordem de Herodes Antipas.
Também não dera muito atenção a tais comentários, pois desde garoto sempre ouviu falar destes pregadores messiânicos que surgiam periodicamente e quase sempre da região da Galileia, sempre envolvidos em revoltas contra os romanos. Provavelmente esse Jesus era mais um destes agitadores que se aproveitavam das esperanças messiânicas dos mais oprimidos. Satisfeito sua curiosidade, retornou às suas atividades, pois as anotações do dia começavam a chegar e ele não tinha tempo a perder com boatos ou personagens folclóricos. Muitos diziam que ele era rico, mas não sabiam o quão duro trabalhava e o tamanho de sua responsabilidade – viam o vinho que ele tomava, mas não viam os tombos que levava.
Completamente absorvido pelas suas atividades contábeis ele nem percebeu que as horas avançaram rapidamente e que a muito o horário do almoço havia passado. Olhando ao redor percebeu que estava completamente sozinho na coletoria. Para onde foram todos? Levantou-se de sua escrivaninha e foi até à porta – assustou-se tamanho o movimento das pessoas na rua. Homens, mulheres e até jovens e crianças, todos caminhando agitadamente em direção à rua principal da cidade. Parou um homem que passava e perguntou: o que está acontecendo? O homem se desvencilhando de sua mão continuou andando e gritou: é Jesus! É Jesus! Ele acabou de curar um cego na estrada e vai entrar daqui a pouco na cidade!! Logo desapareceu em meio à pequena multidão que se formava em direção à rua principal.
Agora sua atenção foi cativada, pois este Jesus estava convulsionando toda a cidade. Teria Ele realmente curado um cego e seria Bartimeu que a tantos anos ficava esmolando à beira da estrada que dava entrada à cidade? Quando se apercebeu já estava caminhando na mesma direção em que as pessoas à sua frente e atrás estavam se dirigindo. Mesmo contrariado continuou a caminhar. Logo se viu em meio à uma imensa multidão que formavam uma espécie de muro intransponível, principalmente àqueles que como ele eram de estatura menor. Mais uma vez se reprovando por estar envolvido nessa convulsão social, pensou em retornar à sua coletoria tranquila e sossegada. Mas, ao contrário, se viu tentando transpor o muro humano que se interpunha à sua frente. Pensou rapidamente e visualizou as diversas ruas da cidade e suas pequenas vielas e traçou a mais provável rota que Jesus ladeado por esta  multidão deveria passar.
Contornando rapidamente a multidão encontrou uma pequena viela que conhecia bem, pois quando queria evitar os olhares e insultos era por ela que ele retornava para sua casa. Contendo-se para não correr caminha o mais rápido possível pela apertada rua e ao final caminhando mais dois quarteirões entra em outra viela quase imperceptível.
Pronto, chegara à rua principal e mais larga de Jericó. Sê têm uma rua pela qual Jesus teria que passar seria esta. Mas a muralha humana já se formara e muito maior do que a que tentara transpor anteriormente. De onde ele estava, a não ser que Jesus tivesse dois ou mais metros de altura, ele não conseguiria ver nem os cabelos dele. Um barulho misto de gritos e palavras de ordem eclode nos portões da cidade, vindo lentamente em direção a onde eles estavam – Jesus estava entrando na rua principal da cidade!
Irritado e quase tomado pela frustração ele levantou os olhos e viu algumas árvores de sicômoro. Algumas já estavam ocupadas por meninos, mais espertos do que ele. Correu até uma mais distante e rapidamente, como fazia em sua infância, subiu pelos galhos e se posicionou de forma segura. Sua respiração estava acelerada pela corrida e o esforço de subir na árvore. Mas que loucura se apossou dele! Ele era um adulto, tinha uma posição social, esposa, filhos, empregados e servos e ali estava ele – agindo como um moleque irresponsável. Será que alguém estava observando seu comportamento infantil? Logo se tranquilizou, pois todos os olhares estavam fixos na direção da rua em que Jesus haveria de surgir e ninguém tinha interesse no que ele estava fazendo, até porque todos os sicômoros estavam ocupados por aqueles que como ele desejavam ver esse Jesus.
Enquanto está ali apoiado ao tronco e segurando firme um galho mais grosso começa a fazer algumas conjurações: será que Ele vai para alguma casa especifica? Conhece alguma família em Jericó? Mais provável que esteja apenas de passagem para Jerusalém. Mas logo vai escurecer, o que Ele pretende?
Os sons até então distantes vão aumento seus decibéis na mesma proporção em que Jesus caminha pela rua principal. Ainda não é possível distingui-lo dos demais, pois uma pequena comitiva caminha entre uma multidão que se apinha sobre eles.  Ele sente certa satisfação, pois sua estratégia havia dado certo e agora somente alguns metros separam Jesus da árvore em que ele escolheu subir. Assim que Jesus passar ele vai descer da árvore, retornar à coletoria e ao final do dia chegará à sua casa e contara sua aventura juvenil para surpresa e delírio de sua esposa e seus filhos, que jamais o imaginariam capaz de tal traquinagem.
Mas de repente se faz um silêncio absoluto. Ele olha para baixo e para seu espanto e de todos ali, Jesus está parado debaixo da árvore em que ele havia subido. Então Jesus levantando os olhos o chama pelo nome! "Zaqueu, depressa! Desça dai, pois hoje Eu vou hospedar-Me em sua casa!"
Por uma fração de segundo Zaqueu ficou ali, parado, imaginando se realmente havia ouvido Jesus o chamar pelo nome ou estava confundindo com outro nome. Mas quando o seu olhar encontra o olhar de Jesus, toda e qualquer dúvida se dissipa! Realmente Jesus o havia identificado pelo nome. Mas como? Ele tinha certeza absoluta que nunca haviam se encontrado!
Ainda completamente impactado por Jesus ter parado e o chamado pelo nome, desce apressadamente da árvore e começa a caminhar à frente de Jesus em direção à sua casa. A multidão antes intransponível, agora como o Mar Vermelho vai se abrindo para que ele, Jesus e seus discípulos possam passar livremente. Mais alguns metros e começa a visualizar sua casa. O que dirá à sua esposa ao chegar com tantas pessoas completamente estranhas de uma vez e ainda para jantarem. Chegaram!!
Vai entrando e acomodando Jesus e os discípulos o melhor possível, enquanto a multidão vai cercando completamente sua casa. Encontra a esposa que fica assustada com tanta movimentação súbita e resumidamente conta-lhe o que acontecera e orienta o que ela precisa fazer. Chama seu filho mais velho e o envia para convidar todos seus colegas da coletoria e seus amigos publicanos para que venham à sua casa para conhecerem Jesus e jantarem juntos.
Do lado de fora não faltavam aqueles que se escandalizaram com o gesto amigável de Jesus. Tantas casas e homens muito mais importantes e justos e esse Mestre vai se hospedar na casa de um publicano e pecador como Zaqueu. Não é sem razão que as autoridades religiosas de Jerusalém o desprezam. De fato os fariseus e escribas têm motivos de sobra para perseguirem e criticarem os ensinos e as atitudes deste galileu. Quem pode levar a sério uma pessoa que se associa a publicanos traidores da pátria!
Mas lá dentro da casa, Zaqueu ouve atentamente cada palavra proferida por Jesus. De fato, como haviam dito a ele antes, nunca ouvira alguém falar da Torá e do Reino de Deus com tanta autoridade e poder como Jesus! Muito do que Jesus fala, ele já sabia ou tinha ouvido antes, mas agora tudo se torna novo e vivo!
Sua esposa e demais serviçais da casa começam a servir a refeição para todos os que ali conseguiram adentrar. Todos querem ficar o mais próximo de Jesus possível. Ainda que feita apressadamente e em quantidade muito acima do normal, a refeição tem um sabor especial. São os mesmos alimentos diários que estão sendo servidos, mas a companhia de Jesus torna aquele momento incomparável e maravilhosamente extraordinário!
As horas se passam rapidamente, mas ninguém tem coragem de sair. Para onde mais poderiam ir? Ah! Se a ampulheta do tempo pudesse parar esse seria o momento certo. Ou se ao menos os grãos de areia pudessem cair infinitamente mais lento do que o normal, que maravilha seria!
Então não podendo mais ser contido o turbilhão que tomara conta do seu interior, Zaqueu coloca-se em pé e se dirigindo a Jesus, mas também falando de maneira que todos os presentes na casa pudessem ouvir com clareza, faz uma declaração surpreendente: "Senhor, de agora em diante eu darei metade da minha riqueza aos pobres e se descobrir que cobrei demais os impostos de alguém eu pagarei uma multa devolvendo-lhe quatro vezes mais!" Um silêncio toma conta do ambiente. Não se ouve nem mesmo uma respiração. É como se o tempo congelasse por alguns segundos.
Então Jesus fala: "Isso mostra que hoje a salvação chegou a esta casa. Este homem era um dos filhos perdidos de Abraão, e Eu, o Messias, vim buscar e salvar filhos perdidos como este".
Uma explosão de jubilo de alegria ecoa por toda a casa e estende-se para o lado de fora e logo toda a cidade de Jericó toma conhecimento das declarações de Zaqueu, o chefe dos publicanos, e a resposta de Jesus.
Agora muitos anos depois desse acontecimento inigualável, Zaqueu uma vez mais se vê relembrando cada detalhe daquele dia memorável. Como acordara com aquela sensação de que o dia seria diferente. E não apenas foi diferente como fez toda a diferença na vida de Zaqueu e sua família. E a única razão é que Jesus entrou na sua casa e na sua vida!!

Como Zaqueu
Como Zaqueu eu quero subir,
O mais alto que eu puder
Só pra te ver, olhar para Ti.
E chamar sua atenção para mim
Eu preciso de Ti Senhor
Eu preciso de Ti o Pai
Sou pequeno de mais
Me dá a tua paz
Largo tudo pra te seguir
Entra na minha casa, entra na minha vida.
Mexe com minha estrutura, sara todas as feridas.
Me ensina a ter Santidade
Quero amar somente a Ti
Porque senhor é meu bem maior, faz um milagre em mim.

Compositor e Interprete: Regis Danese


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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terça-feira, 10 de abril de 2018

Qual a Tua Pergunta? (Reflexão)


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            Alguém escreveu no muro: "Cristo é a Resposta". Alguns dias depois, outra pessoa escreveu embaixo: "Qual é a Pergunta?" Tão importante quanto uma boa resposta - é uma boa pergunta.
O que nos impulsiona e nos move não é tanto a resposta - mas sim a pergunta.
A pergunta trás à tona a dúvida; expõe o que realmente esta preocupando o nosso coração; o que esta desassossegando a nossa alma; torna claro o que realmente ocupa a nossa atenção e quais realmente são os nossos verdadeiros Interesses.
UMA PERGUNTA ERRADA, CERTAMENTE LEVARÁ
A UMA RESPOSTA IGUALMENTE ERRADA.
Mas por que evitamos fazer as perguntas certas, aquelas que realmente importam?
Uma resposta provável é de que não queremos sair da nossa zona de conforto. No transcorrer da vida construímos um pequeno castelo e nos entrincheiramos dentro dele e qualquer coisa que possa colocar em risco a nossa "segurança", ou seja, qualquer coisa que possa nos desestabilizar deve ser evitado a qualquer custo. E nada gera mais desconforto do que uma boa pergunta. Você é realmente feliz? O que vem depois da morte? Estas e outras semelhantes são perguntas que penetram os mais bem construídos castelos e atingem com força intensa a nossa alma, de maneira que devem ser evitadas ou substituídas por perguntas mais amenas e até banais: Quem matou aquele personagem da novela? O que vou fazer neste feriado? Qual o time que será campeão este ano?
E quando conseguimos formular as perguntas que realmente importa? Quando vivenciamos um momento de crise. É durante as crises, quando tudo na nossa vida fica desfocado e quando os nossos aparentes fundamentos são abalados é que nos abrimos totalmente para enfrentarmos as perguntas que realmente precisam ser feitas. Durante a crise nos desnudamos e enfrentamos os grandes questionamentos, que estão latentes em nossa alma e que estavam adormecidos no recôndito de nosso coração.
A genuína felicidade, segurança e fé somente são encontradas nas respostas às grandes perguntas. Enquanto não tivermos coragem suficiente para formularmos as perguntas certas, permaneceremos no limbo da falsa segurança e da pseudo-esperança.
Em suma o que realmente importa é:
"QUAL A SUA PERGUNTA?"
O que te move? O que te motiva? O que te interessa?
Onde esta o Teu coração?
Você esta preocupado com o destino eterno da sua vida?

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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terça-feira, 3 de abril de 2018

Apocalipse: A Soberania de Deus


Nos dias em que o livro do Apocalipse foi escrito o império romano ainda dava as cartas em grande parte do mundo conhecido. O imperador romano e seus exércitos fizeram reinos e reis se curvarem diante deles e as ordens emanadas de Roma repercutiam até as mais extremas localidades e vilarejos debaixo de seus domínios.
Mas os romanos não foram nem o primeiro e nem o último império a surgir no mundo. Desde os primórdios da história humana temos relatos de impérios que surgiram e desapareceram. Até recentemente se falava do império russo e americano e que atualmente são apenas sombra do que foram.
Todos estes impérios e seus líderes, de ontem e de hoje, pensavam que estavam no controle do mundo. Mas os fatos históricos são contundentes em demonstrar que todos e cada um deles jamais estiveram realmente no “controle” dos acontecimentos. Um a um surgiram e desapareceram.
O Apocalipse foi escrito para mostrar quem está no controle.
O capítulo quatro do Apocalipse marca uma mudança drástica tanto do cenário quanto do assunto a ser desenvolvido. Nos primeiros capítulos o palco era a terra, mas agora é o céu. Nos primeiros onze versículos o escritor nos transporta juntamente com ele para diante do Deus eterno e glorioso assentado no trono, que simboliza seu Reino e Soberania.[1]
O termo “trono” aparece nada menos do que dezessete vezes nos capítulos quatro e cinco. Este trono esta no céu e não na terra, pois o exercício de seu poder e soberania se estende sobre todas as esferas da vida, seja terrena ou celestial.[2]
O escritor não faz qualquer tentativa de descrever a Deus, mas apenas descreve toda glória e resplendor produzido por sua presença ali. Toda descrição visa indicar características do caráter deste que se assenta no trono – sua santidade, sua justiça e a salvação provida através do Filho.
Ao redor do trono encontram-se vinte e quatro anciãos assentados em tronos representativos de todos aqueles que foram salvos, tanto no Primeiro quanto no período do Segundo Testamento, quer fossem judeus ou gentios. O objetivo deles é somente um – adorar Àquele que está assentado no trono, pois somente Ele é digno de receber adoração e louvor.
“Não devemos, contudo, perder de vista o fato de que a verdadeira razão por que estes vinte e quatro tronos com seus ocupantes são mencionados aqui é para intensificar a glória do trono que ocupa o centro. Esse trono representa a soberania de Deus. Os vinte e quatro anciãos estão constantemente rendendo homenagem ao Ser que ocupa o trono, tão grande é ele!” (HENDRIKSEN, 1987, p.108.
Os relâmpagos, as vozes e os trovões que irrompem intermitentemente a cena sugerem as manifestações visíveis e audíveis da presença poderosa de Deus (cf. no Sinai – Êxodo 19.16). Os poetas hebreus utilizavam os trovões para indicar a presença e a majestade de Deus (cf. I Samuel 2.10).
Se esta visão da Soberania de Deus não for adequadamente compreendida, tanto a unidade do livro quanto seu propósito será perdido. A certeza absoluta de que Deus reina soberanamente foi o alento do coração e da alma daqueles primeiros cristãos que estavam sendo esmagados pelo poder déspota de Roma e seus implacáveis imperadores; continua sendo o grande farol que dá sentido e direção para os cristãos atuais, que vivem nas trevas intensas do pós-modernismo com sua total falta de verdades absolutas.
Mais do que em qualquer outra época, os cristãos deveriam cantar a todo pulmão o que o salmista já cantava em seus dias e que os anciãos e seres viventes cantam eternidade adentro: “REINA O SENHOR, tremam os povos. ELE ESTÁ ENTRONIZADO ACIMA DOS QUERUBINS, abale a terra” (Salmo 99.1).

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Referências Bibliográficas
ALEXANDER H. E. Apocalipse. São Paulo. Ed. Ação Bíblica do Brasil, 1987.
ASHCRAFT, Morris. Comentário Bíblico Broadman, v.12, ed. JUERP, 3ª ed., 1983.
CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado, v. 6, ed Milenium, São Paulo, 1988.
CORSINI Eugênio. O Apocalipse de São João. São Paulo. Edições Paulinas, 1984.
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[1] “Eu continuei olhando até que foram postos uns tronos e um Ancião de dias se assentou” (Daniel 7.9).
[2] “O Senhor tem estabelecido o Seu trono nos céus, e o Seu reino domina sobre tudo”. (Salmo 103.19).