
Hermenêutica: Dicionário Teológico [o que é e sua relevância]
Quando ouvimos a expressão “dicionário teológico”, é natural
imaginar um livro que simplesmente explica o significado das palavras
encontradas na Bíblia. De certa forma, ele realmente faz isso. Mas limitar um
dicionário teológico a essa função seria como dizer que um mapa existe apenas
para mostrar nomes de cidades. Na verdade, sua utilidade vai muito além.
Essa questão é levantada por Kevin J. Vanhoozer como parte
introdutória da obra A Guide to Old Testament Theology and Exegesis (VANHOOZER,
1999, p. 12–47). A pergunta que orienta sua argumentação é simples, mas
extremamente relevante: o que torna um dicionário verdadeiramente teológico?
A resposta não está apenas nas palavras que ele define, mas na
maneira como as conecta à revelação de Deus ao longo das Escrituras.
Muitos estudantes da Bíblia começam seus estudos recorrendo a um léxico
(dicionário) hebraico ou grego. Essas obras são fundamentais porque
ajudam a compreender a origem das palavras, suas formas gramaticais e seus
possíveis significados. Entretanto, elas normalmente param nesse ponto. Um
léxico pode nos informar o que determinada palavra significa em termos
linguísticos, mas dificilmente mostrará como aquele conceito se desenvolve ao
longo da história bíblica ou qual é sua relevância para a compreensão da obra
de Deus.
O mesmo acontece com as concordâncias. Elas permitem
localizar todas as ocorrências de um termo específico na Bíblia. São
ferramentas extraordinárias para pesquisa, mas sua função é principalmente
catalogar informações. Elas nos mostram onde uma palavra aparece, mas não
necessariamente por que ela é importante.
Algo semelhante ocorre com as enciclopédias bíblicas. Elas
fornecem informações históricas, culturais e geográficas valiosíssimas. Graças
a elas, podemos compreender melhor os costumes de Israel, a geografia da
Palestina ou a organização política do antigo Oriente Próximo. Contudo, seu
foco principal não é investigar a contribuição teológica dos conceitos
bíblicos.
É justamente nesse ponto que o dicionário teológico se
distingue dessas outras obras.
Seu objetivo não é apenas responder à pergunta “o que esta
palavra significa?”, mas também “o que Deus está revelando por meio
dela?”. Essa mudança de perspectiva pode parecer pequena, mas transforma
completamente a maneira de abordar o texto bíblico.
Tomemos como exemplo a palavra “aliança”:
Um léxico ou dicionário explicará a origem da palavra
e seus possíveis significados;
uma concordância
mostrará todas as passagens em que ela aparece;
uma enciclopédia
poderá descrever os tratados políticos existentes entre reis e povos do antigo
Oriente Próximo.
Mas um dicionário teológico procurará reunir todas essas
informações e dar mais um passo: mostrará como o conceito de aliança se
desenvolve, desde Noé, passando por Abraão, Moisés e Davi, até alcançar sua
plenitude na Nova Aliança anunciada pelos profetas e consumada em Cristo (Jeremias
31.31–34 e Hebreus 8.6–13).
Percebe a diferença? O foco já não está simplesmente na
palavra, mas em todo o percurso histórico no qual ela se desenvolve dentro da
revelação bíblica — lembrando que a revelação é sempre progressiva. Todo o
plano redentivo de Deus não é explicado no primeiro capítulo de Gênesis; é
preciso ler toda a Escritura até o Apocalipse para compreender todos os seus
aspectos.
Essa perspectiva parte da compreensão de que as palavras das
Escrituras não devem ser estudadas isoladamente. Elas fazem parte de textos,
que, por sua vez, integram livros e estes compõem o cânon bíblico
(AT + NT). Consideradas em seu conjunto, as Escrituras testemunham a obra
redentora de Deus. Assim, para compreender plenamente um conceito bíblico, não
basta analisar o significado de suas palavras; é necessário considerar também o
contexto em que aparecem, o livro em que estão inseridas e sua contribuição
para a mensagem global da revelação bíblica.
Essa é uma das razões pelas quais estudiosos modernos da linguagem
bíblica insistem que o significado não está preso à palavra em si, mas ao modo
como ela é utilizada. Assim:
- o contexto importa;
- o gênero literário importa;
- a intenção e o propósito do autor
importam.
E, acima de tudo, importa a maneira como aquele conceito
está inserido na mensagem maior das Escrituras.
É exatamente por isso que um dicionário teológico precisa fazer
quatro coisas ao mesmo tempo:
- analisar o uso das palavras;
- observar sua função dentro dos textos;
- acompanhar seu desenvolvimento ao longo da
revelação bíblica;
- finalmente, explorar suas implicações
teológicas.
Desse modo, ele procura mostrar não apenas o que os autores
bíblicos disseram, mas também o que a revelação divina estava comunicando por
meio deles.
Essa preocupação é particularmente importante em uma época na qual
muitos estudos bíblicos correm o risco de se tornar excessivamente técnicos.
Não são poucos os casos em que alguém descobre um detalhe interessante do
hebraico ou do grego e transforma essa informação em toda a mensagem do texto.
O resultado pode ser uma interpretação linguisticamente curiosa, mas teologicamente
pobre.
O dicionário teológico funciona como um antídoto contra esse
problema. Ele nos lembra que a finalidade do estudo bíblico não é acumular
informações sobre palavras, mas compreender melhor a Deus e sua revelação a
nós.
Aqui reside a relevância de obras como os dicionários do Antigo e
do Novo Testamento, uma vez que seu propósito não é simplesmente catalogar
vocábulos hebraicos e/ou gregos, mas demonstrar como esses vocábulos participam
da teologia expressa nas Escrituras.
Desse modo, um dicionário teológico nos ensina algo fundamental: na
Bíblia, as palavras são importantes não apenas porque possuem significado, mas
porque apontam para uma história maior. Elas nos conduzem ao conhecimento de
Deus, de seus propósitos e de sua obra na história.
É justamente isso que torna um dicionário verdadeiramente
teológico.
Consideração Final
Embora muitos estudantes iniciem seus estudos consultando
comentários bíblicos ou dicionários, o percurso aqui sugerido segue uma
sequência específica. Primeiro, aprende-se como interpretar o texto
bíblico, conhecendo os princípios fundamentais da hermenêutica; depois,
investiga-se como os conceitos teológicos se desenvolvem ao longo das
Escrituras, recorrendo aos dicionários teológicos; por fim, avança-se para obras
especializadas, como comentários exegéticos e estudos aprofundados de livros ou
temas bíblicos. Cada etapa prepara o estudante para aproveitar melhor os
recursos da etapa seguinte.
Na segunda etapa, o dicionário teológico assume
particular importância. Ao consultar uma dessas obras, o estudante não deve
procurar apenas a definição de um termo, mas investigar como ele é empregado
nos diferentes contextos bíblicos, quais sentidos assume ao longo da revelação
e como se relaciona com outros conceitos fundamentais da fé cristã. O estudo da
aliança, por exemplo, envolve acompanhar seu desenvolvimento nas alianças com
Noé, Abraão, Moisés e Davi, até chegar à Nova Aliança em Cristo.
É essa perspectiva que distingue o dicionário teológico de
um simples instrumento de consulta linguística. Enquanto o léxico ajuda
a esclarecer o significado das palavras originais e a concordância
permite localizar suas ocorrências, o dicionário teológico procura
reunir e interpretar essas informações à luz do desenvolvimento dos temas
bíblicos. Por isso, seu uso deve estar sempre associado à leitura atenta das
passagens citadas e à consideração de seus respectivos contextos.
Como aplicar esse percurso na prática? Ao estudar uma passagem
bíblica, comece examinando seu contexto e aplicando os princípios de
interpretação aprendidos na primeira etapa. Em seguida, identifique um
conceito teológico importante presente no texto e consulte um dicionário
teológico para acompanhar seu desenvolvimento em outras passagens das
Escrituras. Anote as referências mais relevantes e retorne ao texto inicial
para verificar como essa pesquisa amplia sua compreensão. Se a questão exigir
maior aprofundamento, recorra, então, a comentários exegéticos e a estudos
especializados.
Dessa maneira, o percurso torna-se concreto: aprender a interpretar
→ compreender o desenvolvimento dos conceitos → aprofundar a pesquisa.
Um exemplo ilustrativo
|
Antigo Testamento |
Novo Testamento |
|
Dicionário
Internacional de Teologia do Antigo Testamento (DITAT) |
Novo
Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento (NDITNT) |
|
Baseado principalmente no hebraico
e aramaico |
Baseado principalmente no grego |
|
Conceitos
teológicos do AT |
Conceitos
teológicos do NT |
|
Ênfase em aliança, lei, sabedoria,
reino, santidade |
Ênfase em fé, graça, justiça, evangelho, igreja, salvação |
Juntas, essas duas obras formam uma das melhores bibliotecas
básicas de teologia bíblica disponíveis em português.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br//
Obra de Referência do Artigo
VANHOOZER, Kevin J. Language, literature, hermeneutics and biblical
theology: what’s theological about a theological dictionary? In: VANGEMEREN,
Willem A. (ed.). A guide to Old Testament theology and exegesis: the
introductory articles from the New International Dictionary of Old Testament
Theology and Exegesis. Grand Rapids: Zondervan, 1999. p. 12–47
Bibliografia Essencial em português
HARRIS, R. Laird; ARCHER JR., Gleason L.; WALTKE, Bruce K. Dicionário
Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova.
COENEN, Lothar; BROWN, Colin (org.). Novo Dicionário
Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova.
KAISER JR., Walter C.; SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica
Bíblica: a busca do significado. São Paulo: Cultura Cristã.
CARSON, D. A. Os Perigos da Interpretação Bíblica. São
Paulo: Vida Nova.
HOUSE, Paul R. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo:
Vida.
VOS, Geerhardus. Teologia Bíblica: Antigo e Novo Testamentos.
São Paulo: Cultura Cristã.
VANHOOZER, Kevin J. Há um Significado Neste Texto? São
Paulo: Vida.
Essa seleção tem uma característica importante: leva o leitor da hermenêutica
(como interpretar), passa pelos dicionários teológicos (como estudar
conceitos bíblicos) e chega à teologia bíblica (como esses conceitos se
desenvolvem na revelação). Portanto, é um percurso muito coerente e acessível
para leitores de blog, alunos de escola bíblica e estudantes de seminário.
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