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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Evangelho Segundo Marcos: Personagens Anônimos [a mulher com fluxo de sangue - 5.25-34]

 Amálgama impressionista de duas pinturas históricas

Introdução

Dando continuidade à série de reflexões sobre os personagens que não são nominado do Evangelho segundo Marcos, encontramos agora a narrativa da mulher com fluxo de sangue (Mc 5.25-34).

Nesta série temos destacado que o evangelista Marcos opta por não nomera grande parte dos personagens que se relacionam com Jesus. Uma das razões é que seu objetivo não é destacar indivíduos, mas a ação de Cristo e a resposta de fé.

Uma outra razão, como neste caso da mulher com fluxo de sangue, o anonimato universaliza a experiência: qualquer pessoa pode se ver naquela mulher que toca o manto de Jesus. Assim, temos “um paralítico”, “um homem da sinagoga”, “um cego”, “uma mulher siro-fenícia”, e agora “uma mulher com fluxo de sangue”. O comentarista bíblico William Hendriksen observa que nesta narrativa em particular o contraste é intencional: Jairo, chefe da sinagoga, é nomeado, mas a mulher permanece sem identidade social até ser chamada de “filha” por Jesus. Esse termo não é apenas afetuoso, mas carrega significado exegético: restaura sua dignidade social, confirma sua fé e a insere na família de Deus. Assim, o anonimato ressalta que o essencial não é quem a pessoa era, mas o que ela se torna ao encontrar a graça e ser reconhecida como filha.

Portanto, essa ausência de nomes não é um detalhe irrelevante, pois universaliza os personagens, permitindo que qualquer leitor se reconheça neles. Cada figura torna-se símbolo de situações humanas diante de Jesus, e é justamente esse aspecto que buscamos explorar nesta série de artigos.

A Mulher com Fluxo de Sangue (Mc 5.25-34)

No caminho para atender ao pedido de Jairo, Jesus é surpreendido por uma interrupção inesperada. Uma mulher, que há doze anos sofria de hemorragia, aproxima-se silenciosamente em meio ao barulho da multidão. Sua condição não era apenas física, mas também social e religiosa: segundo a Lei, estava ritualmente impura, o que a afastava da convivência comunitária e da participação no culto. Além disso, já havia gastado todos os seus recursos em busca de cura, sem resultado. Era uma vida marcada pela dor, pela exclusão e pelo desespero.

Apesar de tudo, essa mulher não se resigna. Movida por uma fé ousada, crê que basta tocar nas vestes de Jesus para ser curada. Seu gesto é discreto, mas carregado de confiança. Ao tocar, imediatamente sente em seu corpo que está livre da enfermidade. Jesus, percebendo que dele saiu poder, interrompe sua caminhada e procura quem o tocou. A mulher, tomada de temor, confessa diante de todos. Então Jesus a chama de “filha” e declara: “A tua te salvou; vai em paz e fica livre do teu mal”.

A declaração de Jesus “A tua fé te salvou; vai em paz e fica livre do teu mal” (v.34) revela o núcleo teológico do episódio. A (pistis) não se reduz ao gesto físico de tocar o manto, mas expressa confiança pessoal e ativa em Cristo, sendo o meio pelo qual a salvação (sōzō) se torna realidade. Aqui temos a ampliação da ação: não apenas cura física, mas restauração espiritual e social.

A ordem “vai em paz” deve ser lida à luz da condição da mulher, que, por sua enfermidade prolongada e sem perspectiva de cura, vivia em conflito consigo mesma e em ruptura com a comunidade, afastada da vida religiosa, social e até familiar. Nesse contexto, a paz (eirēnē), com seu sentido hebraico de shalom, vai além da ausência de sofrimento, implicando reconciliação integral: pacificação interior, comunhão com Deus e reintegração comunitária. Assim, fé e paz se entrelaçam como expressão da graça: a abre o caminho para a salvação e a paz é o fruto que enfatiza a nova identidade da mulher como filha acolhida por Deus.

Deste modo, o episódio revela a força de uma fé que rompe barreiras. A mulher não se deixa paralisar pelas normas sociais ou religiosas, nem pela vergonha de sua condição. Ela se aproxima de Jesus com coragem e esperança. O poder que a cura não está em objetos ou rituais, mas na própria pessoa de Cristo.

Para os leitores de Marcos, essa mulher é exemplo de discipulado. Sua fé não se expressa em palavras elaboradas, mas em gesto simples e decisivo. Ela ensina que a verdadeira confiança em Jesus não depende de status, de regras ou de reconhecimento público, mas de uma entrega sincera e humilde. Assim, o encontro com Cristo transforma não apenas a saúde, mas toda a existência.

O grande equívoco das “teologias” atuais é enfatizar apenas o aspecto da cura ou do milagre, minimizando a transformação de vida e de caráter. A fé salvadora, conforme ensinada nas Escrituras, jamais se limita à superficialidade da cura física ou à mudança de status social. Como vemos em Marcos 5, o cuidado de Jesus para com a mulher é integral: corpo, alma e caráter. A mulher que se aproxima de Cristo não retorna para casa apenas curada, mas transformada por completo.

Aqui podemos lembrar a experiência pessoal do apóstolo Paulo: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gálatas 2.20).

Encontrar-se com Jesus implica em transformação radical de vida.

Não basta buscar milagres; é preciso viver pela fé que salva e pela paz que restaura, permitindo que Cristo molde nosso caráter e nos conduza a uma vida para a glória de Deus.

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

me.ivanguedes@gmail.com

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Bibliografia

BÍBLIA SAGRADA Tradução Almeida Revista e Atualizada Sociedade Bíblica do Brasil, 1993 Fonte primária do relato, cuja narrativa em Marcos 5.25–34 fundamenta a análise da personagem

FRANCE, R. T. O Evangelho segundo Marcos. São Paulo: Vida Nova, 2011 Obra acadêmica que explora o estilo literário de Marcos e a ausência de nomes nos personagens.

HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: Evangelho de Marcos. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001 Comentário exegético que ressalta o estilo narrativo de Marcos, a ausência de nomes como recurso literário e teológico, e a ênfase na fé e na paz como elementos centrais da transformação integral da mulher.

MORRIS, Leon. O Novo Testamento: Introdução. São Paulo: Vida Nova, 1996 Apresenta o contexto histórico e teológico do Evangelho, situando o episódio da mulher no fluxo narrativo.

STOTT, John. A mensagem de Marcos. São Paulo: ABU Editora, 1982 Comentário pastoral que ilumina a dimensão prática da fé e da restauração em Cristo.

WRIGHT, N. T. Marcos para todos. São Paulo: Paulus, 2017 Comentário acessível que destaca a força da fé simples e decisiva da mulher diante de Jesus.