Introdução
Dando continuidade à série de reflexões sobre os personagens que
não são nominado do Evangelho segundo Marcos, encontramos agora a narrativa da mulher
com fluxo de sangue (Mc 5.25-34).
Nesta série temos destacado que o evangelista Marcos opta por não
nomera grande parte dos personagens que se relacionam com Jesus. Uma das razões
é que seu objetivo não é destacar indivíduos, mas a ação de Cristo
e a resposta de fé.
Uma outra razão, como neste caso da mulher com fluxo de sangue, o anonimato
universaliza a experiência: qualquer pessoa pode se ver naquela mulher que toca
o manto de Jesus. Assim, temos “um paralítico”, “um homem da sinagoga”, “um
cego”, “uma mulher siro-fenícia”, e agora “uma mulher com fluxo de sangue”.
O comentarista bíblico William Hendriksen observa que nesta narrativa em
particular o contraste é intencional: Jairo, chefe da
sinagoga, é nomeado, mas a mulher permanece sem identidade social até ser
chamada de “filha” por Jesus. Esse termo não é apenas
afetuoso, mas carrega significado exegético: restaura sua dignidade social,
confirma sua fé e a insere na família de Deus. Assim, o anonimato ressalta
que o essencial não é quem a pessoa era, mas o que ela se torna
ao encontrar a graça e ser reconhecida como filha.
Portanto, essa ausência de nomes não é um detalhe irrelevante, pois
universaliza os personagens, permitindo que qualquer leitor se reconheça neles.
Cada figura torna-se símbolo de situações humanas diante de Jesus, e é
justamente esse aspecto que buscamos explorar nesta série de artigos.
A Mulher com Fluxo de Sangue (Mc 5.25-34)
No caminho para atender ao pedido de Jairo, Jesus é surpreendido
por uma interrupção inesperada. Uma mulher, que há doze anos sofria de
hemorragia, aproxima-se silenciosamente em meio ao barulho da multidão. Sua
condição não era apenas física, mas também social e religiosa: segundo a Lei,
estava ritualmente impura, o que a afastava da convivência comunitária e da
participação no culto. Além disso, já havia gastado todos os seus recursos em
busca de cura, sem resultado. Era uma vida marcada pela dor, pela exclusão e
pelo desespero.
Apesar de tudo, essa mulher não se resigna. Movida por uma fé
ousada, crê que basta tocar nas vestes de Jesus para ser curada. Seu
gesto é discreto, mas carregado de confiança. Ao tocar, imediatamente sente em
seu corpo que está livre da enfermidade. Jesus, percebendo que dele saiu poder,
interrompe sua caminhada e procura quem o tocou. A mulher, tomada de temor,
confessa diante de todos. Então Jesus a chama de “filha” e declara:
“A tua fé te salvou; vai em paz e
fica livre do teu mal”.
A declaração de Jesus “A tua fé te salvou; vai em paz e fica
livre do teu mal” (v.34) revela o núcleo teológico do episódio. A fé
(pistis) não se reduz ao gesto físico de tocar o manto, mas expressa
confiança pessoal e ativa em Cristo, sendo o meio pelo qual a salvação
(sōzō) se torna realidade. Aqui temos a ampliação da ação: não apenas cura
física, mas restauração espiritual e social.
A ordem “vai em paz” deve ser lida à luz da condição da
mulher, que, por sua enfermidade prolongada e sem perspectiva de cura, vivia em
conflito consigo mesma e em ruptura com a comunidade, afastada da vida
religiosa, social e até familiar. Nesse contexto, a paz (eirēnē),
com seu sentido hebraico de shalom, vai além da ausência de sofrimento,
implicando reconciliação integral: pacificação interior, comunhão com Deus e
reintegração comunitária. Assim, fé e paz se entrelaçam como expressão da
graça: a fé abre o caminho para a salvação e a paz é o
fruto que enfatiza a nova identidade da mulher como filha acolhida por Deus.
Deste modo, o episódio revela a força de uma fé que rompe
barreiras. A mulher não se deixa paralisar pelas normas sociais ou religiosas,
nem pela vergonha de sua condição. Ela se aproxima de Jesus com coragem e
esperança. O poder que a cura não está em objetos ou rituais, mas na própria
pessoa de Cristo.
Para os leitores de Marcos, essa mulher é exemplo de discipulado.
Sua fé não se expressa em palavras elaboradas, mas em gesto simples e decisivo.
Ela ensina que a verdadeira confiança em Jesus não depende de status, de regras
ou de reconhecimento público, mas de uma entrega sincera e humilde. Assim, o
encontro com Cristo transforma não apenas a saúde, mas toda a existência.
O grande equívoco das “teologias” atuais é enfatizar apenas o
aspecto da cura ou do milagre, minimizando a transformação de vida e de
caráter. A fé salvadora, conforme ensinada nas Escrituras, jamais se limita à
superficialidade da cura física ou à mudança de status social. Como vemos em
Marcos 5, o cuidado de Jesus para com a mulher é integral: corpo, alma e
caráter. A mulher que se aproxima de Cristo não retorna para casa apenas
curada, mas transformada por completo.
Aqui podemos lembrar a experiência pessoal do apóstolo Paulo: “Já
não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne,
vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim”
(Gálatas 2.20).
Encontrar-se com Jesus implica em transformação
radical de vida.
Não basta buscar milagres; é preciso viver pela fé que salva e pela
paz que restaura, permitindo que Cristo molde nosso caráter e nos conduza a uma
vida para a glória de Deus.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Bibliografia
BÍBLIA SAGRADA Tradução Almeida Revista e Atualizada Sociedade
Bíblica do Brasil, 1993 Fonte primária do relato, cuja narrativa em Marcos
5.25–34 fundamenta a análise da personagem
FRANCE, R. T. O Evangelho segundo Marcos. São Paulo: Vida
Nova, 2011 Obra acadêmica que explora o estilo literário de Marcos e a ausência
de nomes nos personagens.
HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: Evangelho de
Marcos. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001 Comentário exegético que
ressalta o estilo narrativo de Marcos, a ausência de nomes como recurso
literário e teológico, e a ênfase na fé e na paz como elementos centrais da
transformação integral da mulher.
MORRIS, Leon. O Novo Testamento: Introdução. São Paulo: Vida
Nova, 1996 Apresenta o contexto histórico e teológico do Evangelho, situando o
episódio da mulher no fluxo narrativo.
STOTT, John. A mensagem de Marcos. São Paulo: ABU Editora,
1982 Comentário pastoral que ilumina a dimensão prática da fé e da restauração
em Cristo.
WRIGHT, N. T. Marcos para todos. São Paulo: Paulus, 2017
Comentário acessível que destaca a força da fé simples e decisiva da mulher
diante de Jesus.