quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Evangelhos: A Questão Sinótica – Propostas de Solução (2ª parte)


A Hipótese dos Dois Documentos ou Duas Fontes
Esta teoria começou a ser construída pelos trabalhos realizados por Friedrich Ernst Daniel Schleiermacher (1836) onde ele via um Proto Marcos e uma coleção de ditos de Jesus denominado de Logia. Karl Lachmann (1835) e C. A. Credner (1836) avançam nestes estudos e coube a Christian Hermann Weise (1838) estabelecer o arcabouço desta teoria das Duas Fontes. Foi sobre as conclusões de Weise que H.J. Holtzmann (1863) a estabeleceu como uma teoria sinótica.
Esta proposta tem alcançado larga aceitação nos últimos cem anos, ainda que com grandes variações, e seus aspectos mais importantes são.
O evangelho segundo Marcos foi de fato o primeiro a ser redigido e posteriormente utilizado pelos outros dois sinóticos como fonte;
Mateus Lucas utilizaram‑se também de uma segunda fonte, distinta do evangelho de Marcos, que continha o registro de ditos de Jesus, denominada de "lógia" e posteriormente de documente "Q" (Quelle = "fonte" em alemão).
primeiro ponto desta hipótese pode ser facilmente percebido conforme os dados abaixo.
A estrutura dos evangelhos revela que Marcos deve ter servido de modelo aos dois outros sinóticos.
Mateus e Lucas divergem em suas narrativas iniciais, mas coincidem depois, no relato sobre João Batista, que é o ponto de partida de Marcos. Repete‑se a mesma coisa no final, aonde as semelhanças entre Mateus e Lucas vão até o ponto a que conduz Marcos 16.8, e depois cada um toma seu próprio caminho narrativo. Deduz‑se disto, que o Evangelho de Marcos lhes serviu como uma fonte referencial.
Nas sequências das perícopes temos mais um reforço da primazia de Marcos. Quando Mateus abandona a ordem de Marcos, Lucas a utiliza; quando Lucas diverge de Marcos, é Mateus quem segue o mesmo caminho. E o mais importante é que Mateus e Lucas, em momento algum, concordam com sequência diferente da que propõem Marcos.
Outro argumento muito forte é o fato de quase a totalidade do material de Marcos estar contido em Mateus [ dos 661 vv. de Mc, 606 vv. (92%) se acham em Mt]; em Lucas encontraremos aproximadamente 350 vv. de Marcos [53%].
Em muitas ocasiões o registro de Marcos e ampliado ou explicado pelos outros dois evangelistas     Mc 8.29 – Mt 16.16 – Lc 9.20 ‑ aqui caracterizando um acréscimo ou comentário; Mc 15.39 – Mt 27.54 – Lc 23.47 ‑ enquanto Mateus altera por causa de reflexões teológicas [evitando chamar Jesus de "homem"], Lucas procura descrever a situação com maior exatidão do ponto de vista histórico [pois dificilmente um gentio poderia dar de imediato um testemunho cristão completo].
segundo ponto desta hipótese procura explicar o fato de que Mateus e Lucas compartilham aproximadamente uns 200 vv., que não são encontrados em Marcos, e que contém quase sem exceção palavras de Jesus. Esta segunda fonte é denominada de "Lógia" ou fonte “Q”.
Foi o alemão Friedrich Schleiermacher em 1832, que interpretando uma declaração enigmática de um dos primeiros escritores cristãos, Papias de Hierápolis (125 d.C.): "Mateus compilou os oráculos (em grego: logia) do Senhor de uma forma hebraica de expressão". Mais do que a interpretação tradicional que Papias estava se referindo à escrita de Mateus em hebraico, Schleiermacher acreditavam que Papias estava realmente dando testemunho de uma coleção de ditos que de alguma forma esteve disponível para os Evangelistas (Mt e Lc). O termo "lógia", oráculos [de Deus], se refere mais a uma coleção de narrativas, declarações e ensinos, tais como aqueles apropriados pelos dois evangelistas. Esta fonte Q seria o material comum de Mt e Lc do qual Marcos não fez uso em sua narrativa primária.
Um dos maiores críticos e céticos com relação à teoria da fonte Q tem sido Mark Goodacre, um professor neotestamentário da Universidade de Duke, Carolina do Norte. Segundo ele a omissão do que deveria ter sido um documento cristão altamente precioso, de todas as referências da Igreja primitiva, e que não é mencionado ou citado por parte dos padres da Igreja antiga, parece ser algo estranho para a moderna erudição bíblica. Os defensores da existência desta fonte Q replicam que no transcorrer do processo de canonização, iniciado no segundo século, não se fizeram cópias da fonte Q, pois seu conteúdo já estava inserido nas narrativas evangélicas canônicas de Mateus e Lucas, onde as palavras de Jesus extraídas da fonte Q haviam sido ajustadas para evitar mal entendidos ou interpretações equivocadas, de modo que se pudesse compreender sem qualquer dúvida o que realmente Jesus queria expressar ou ensinar. Abaixo transcrevemos um quadro que indica o possível escopo desta fonte "Q".[1]
Mateus                                            
Conteúdo
Lucas                                            
3.7b‑12                          
Pregação de João Batista
3.7‑9,16-17
4.2‑11a
As Tentações
4.2‑13a
5.3‑6,11,12,39‑42,45‑58
Sermão da Montanha I
6.20‑23,27,30,32‑36
5.15; 6.22,23
Luz
11.33‑35
6.9‑13
A Oração do Pai Nosso
11.1‑4
6.25‑33, 19‑21
Ansiedade Bens Materiais
12.22‑34
7.1‑5,16‑21,24‑27
Sermão da Montanha II
6.37,38,41‑49
7.7‑11
Acerca da Oração
11.9‑13
9. 8.5‑13
O Centurião de Cafarnaum
7.1‑10
8.19‑22
Natureza do Discipulado
9.57‑60
9.37‑10.11
Envio dos Setenta
10.1‑12
10.26‑33
Exortação à Confissão
12.2‑10
11.2‑19
A Pergunta de João
7.18‑35
11.21,23,25,26
Gritos de Ais e Alegria
10.13‑15,21,22
12.22‑30
Beelzebu
11.14‑23
12.38‑42
Recusa de Dar Sinais
11.29‑32
12.43‑45
Retomo de Demônios
11.24‑26
13.31‑33
Mostarda e Fermento
13.18‑21
23.4,23‑25,29‑36
Contra os Fariseus
11.39‑52
23.37,38
Lamentação sobre Jerusalém
13.34,35
24.26‑28,37‑41
O Tempo do Fim
17.22‑37
24.43‑51
Vigilância
12.39‑46
23.14‑30
Parábola dos Talentos 
19.11‑28
Essa Teoria de Dois Documentos é a solução mais fácil e mais simples para o problema dos Sinóticos, pois ela fala em termos de documentos "escritos". Todavia, há algumas questões que ela não responde satisfatoriamente:
Dos 1.068 versículos de Mateus, talvez cerca de 500 vieram de Marcos e em torno de 250 da "Q"; isto deixa cerca de 300 vv. não explicados.
Em Lucas, com a mesma lógica, restam cerca de 580 vv. que não são encontrados nem em Marcos nem na "Q".
Numa tentativa de se explicar estes pontos alguns argumentam que a fonte "Q" foi um documento muito maior que aqueles versículos encontrados em Mateus e Lucas, e que os autores, além de usar os versículos partilhados, escolheram os versículos peculiares ao seu Evangelho, dentre o restante deste documento. Mas esta explicação tem muito pouca aceitação nos dias atuais. A razão é que tal argumentação acaba por criar um documento desajeitado, e o vocabulário e a gramática do material não partilhado é diferente para proporem uma mesma origem.
Outra dificuldade em relação ao documento "Q" é que aqueles estudiosos que tentam reconstituir positivamente as notas características da fonte "Q" não concordam entre si, o que demonstra sua fragilidade. Diversas são estas diferenças entre os críticos:
Em que época este documento "Q" foi elaborado (antes da morte de Jesus? Por volta do ano 50. de 60?).
Em que língua original foi escrita (aramaico ou grego?).
Quem foi seu autor (Mateus, um anônimo?)
Em que se fundamenta sua fidelidade histórica?
Qual era de fato seu conteúdo total (apenas sermões de Jesus ou também algumas narrativas?)
Diante de tantas questões e principalmente pelo fato de não haver nenhuma cópia deste documento "Q" torna‑se muito difícil coloca‑lo como um fato real, deixando‑o apenas como uma possível hipótese para se explicar esta questão dos Evangelhos Sinóticos.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http.//historiologiaprotestante.blogspot.com.br/


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Referências Bibliográficas
BETTENCORT, Estevão.  Para Entender os Evangelhos. Rio de Janeiro. Livraria Agir Editora, 1960.
BITTENCOURT, B. P. A Forma dos Evangelhos e a Problemática dos Sinóticos. São Paulo. Impressa Metodista, 1969.
BORNKAMM, Gunther. Bíblia – Novo Testamento. São Paulo: Editora Teológica e Paulus, 3ª ed., 2003.
BRUCE, F. F. Merece Confiança o Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1965.
CARSON, D. A., MOO, Douglas J. e MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo. Vida Nova, 1997.
DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo. Vida Nova, 1995.
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HALE, Broadus DavidIntrodução ao estudo do Novo Testamento. Rio de Janeiro. JUERP, 1983.
HORSTER, Gerhard. Introdução e Síntese do Novo Testamento. São Paulo: Editora Evangélica Esperança, 1996.
MACK, Burton L. Mack. The Lost Gospel: The Book of Q & Christian Origins. San Francisco, CA: HarperCollins, 1993.
MILLER, Robert J. (ed). The Complete Gospels: Annotated Scholars Version. Sonoma, CA: Polebridge Press, 1992.
MIRANDA, O. A., Estudos Introdutórios dos Evangelhos Sinóticos, São Paulo. Cultura Cristã, 1989.
RUSSELL, N. C. ‑ O Novo Testamento Interpretado, ed. 5ª, v. 1. São Paulo. Milenium, 1985.
SHREINER, J & DAUTZENBERG G. Forma e Exigências do Novo Testamento. 2ª ed. São Paulo: Editora Teológica, 2004.
SICRE, José Luis. Introdução aos Evangelhos - Um encontro fascinante com Jesus, v.1. São Paulo: Editora Paulinas, 2004.
STEIN, R. H. The Synoptic Problem. an introduction. Michigan. Baker Book House, 1989.
TENNEY, Merrill C. O Novo Testamento – Sua Origem e Análise. São Paulo: Shedd Publicações, 2007. (Edições Vida Nova, 1972).
WALTERS, Patricia. “The Synoptic Problem”. In. AUNE, David E. The Blackwell Companion to the New Testament. Malden, MA. Blackwell Publishing, 2010.
VERBIN, John S. Kloppenborg. Excavating Q: The History and Setting of the Sayings Gospel. Minneapolis, MN: Fortress Press 2000.




[1] Na verdade não existe uma tabela completa, pois todos os defensores desta hipótese da Fonte Q não são unanimes na inclusão ou exclusão do material que a comporia. Uma mais breve como a que citamos pode ser encontrada em The Synoptic Gospels: Structural Outlines and Unique Materials by Felix Just, S.J., Ph.D; e no site early christian writings (The Lost Sayings Gospel Q) encontra-se vários propostas de Fonte Q elaboradas por diversos estudiosos contemporâneos e que podem ser comparadas.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Rute (Capítulo 2) Sumário e Reflexão


No transcorrer das colheitas as famílias deveriam trazer suas ofertas de cereais e oferecer um novilho sem defeito como sacrifício ao Senhor (Lv 23.10-12). E pelo fato da história de Rute e Noemi ocorrer durante um destes períodos de colheita, posteriormente a leitura desta narrativa passou a ser feita dentro do calendário religioso israelita/judaico no transcorrer dos dias da Festa do Pentecostes, que originalmente era Festa das Colheitas, que acontecia cinquenta dias após a Festa da Páscoa.  A referência no último verso do capítulo primeiro “e chegaram [Noemi e Rute] a Belém no principio da sega da cevada” abre o caminho para a narrativa dos acontecimentos seguintes, pois é justamente nos dias desta colheita que Rute haverá de sair para conseguir o alimento necessário para a sobrevivência delas.

Sumário
1- 7 Rute colhe no campo de Boaz. Quando Deus promulga a Lei que regeria as relações sociais deles, se faz provisão para o pobre e para a viúva. Todos os proprietários de terra foram instruídos para não colherem integralmente seus campos. Todas as espigas e frutas caídas eram deixadas para os desvalidos, que após o cessar dos trabalhadores podiam entrar e recolhe-las para seu sustento (Lv 19.9 ss). Rute toma seu lugar entre os desprovidos e no final de cada dia ela vai apanhar as espigas que haviam caído e deixadas para trás.
8-16 Rute é tratada amavelmente por Boaz. Em uma dessas tardes o dono das terras foi verificar como estava transcorrendo sua colheita e sua atenção foi atraída para a pessoas de Rute. Informado de que se tratava da nora de uma parenta próxima (Noemi) e tomando conhecimento da atitude de Rute em não abandonar a sogra à própria sorte, sensibiliza-se e a convida para que fizesse a refeição do dia juntamente com os seus trabalhadores e mais ainda, Boaz orienta seus ceifeiros para deixassem cair mais espigas nos corredores onde Rute haveria de colher no final do dia.
17-23 Naomi toma conhecimento da bondade de Boaz. O resultado do trabalho de Rute nos campos de Boaz trouxe grão suficiente para atender às necessidades imediatas das duas mulheres. Noemi agradece a Deus que Rute tenha recebido um tratamento tão gentil e a encoraja a trabalhar apenas nos campos de Boaz. Por essa razão, Rute ficou com os trabalhadores nos campos de Boaz até o final da colheita.

Lições para Reflexão
1. Trabalhadores e Patrões são compatíveis (2.4). Quando Boaz veio verificar o trabalho da sua colheita, ele cumprimenta seus trabalhadores declarando que o Senhor estaria com eles e os trabalhadores respondem declarando que Deus abençoaria seu patrão. Aqui está uma relação trabalhista que deveria servir de modelo para todas as demais relações semelhantes.
2. Uma boa reputação é o melhor cartão de visita. Quando Boaz foi conversar com Rute, ela foi humilde diante dele. Ela ficou surpresa de que ele tenha prestado atenção nela, visto que ela era uma estrangeira. Boaz respondeu que ele tinha ouvido de como ela havia tratado gentilmente sua sogra após a morte do marido dela. Ele tinha tomado conhecimento de como Rute escolheu voluntariamente deixar seu pai e mãe e a sua terra para vir com Noemi para uma terra estrangeira. Tudo isso demonstrava o caráter de Rute, ou seja, o tipo de pessoa que ela era.
3. Conflitos de gerações não precisam ocorrer. Muito se discute hoje sobre a questão dos adolescentes. Eles acreditam que entram em uma momento mágico da vida, pois não são mais crianças, mas também ainda não são adultos. Essa fase trás inúmeros embates com os mais velhos, que são vistos com desconfiança por parte destes jovens e por isso se recusam a ouvir os conselhos dos mais velhos que são mais sábios e experientes na vida. Rute não tomou essa atitude. Ela tinha em Noemi uma conselheira. Ela ouviu e fez conforme a orientação da mais velha. O filho de Salomão ao assumir o trono do pai desprezou o conselho dos mais velhos e se associou com a turma de sua geração, acabou dividindo a nação. Cada geração deve olhar para outra com amor e respeito, tanto dos jovens para com os mais velhos, quanto dos mais velhos para com os jovens – assim todos acabam ganhando.


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Profetas: Os Cânticos do Servo de Yahvé em Isaías


            Nenhum dos demais escritos proféticos do Primeiro Testamento foi tão utilizado pelos evangelistas para comporem suas obras literárias do que Isaías. No artigo anterior temos uma ampla tabela com todas as citações e referências de Isaías pelos evangelistas.
            A partir deste artigo iremos explorar um pouco os textos do profeta que têm sido denominados de os “Cânticos do Servo de Yahvé” e que ficam na segunda metade do livro começando em 42.1-53.12.
Questões Literárias
            Ainda que os estudiosos concordem que está pequena cantata do Servo de Yahvé é composta por quatro hinos, o mesmo não ocorre quando se trata de delimitá-los. O primeiro compreende o texto de 42.1-7, mas alguns adicionam os versos 8 e 9. A extensão do segundo é ainda mais discutida, sendo que a maioria opta por 49.1-6, mas alguns englobam os versos 7-9 e alguns poucos avançam até o verso 13. O terceiro cântico compreende 50.4-9, que se considera uma unidade literária, ainda que alguns críticos estendam até o verso 11, enquanto alguns preferem dividi-lo em duas partes 4-9 e 10-11. O quarto e último dos cânticos iniciam em 52.13 e estende até 53.12 e não há discussão quanto a sua extensão. 
Questões Contextuais
            Muitos comentaristas mais recentes têm defendido que os capítulos 40-55, conhecido como o “Livro da Consolação de Israel”, seja uma composição posterior de um escritor anônimo que esteja vivenciando o exílio babilônico. E alguns estudiosos defendem que o conjunto dos cânticos do Servo de Yahvé unidade autônoma e devem ser estudada independentemente. Mas estudos muito consistentes mantêm as canções dentro deste contexto mais amplo em que estão adequadamente inseridos em todas as cópias acessíveis do livro de Isaías.
            Os estudiosos mais conservadores defendem um único Isaías para a autoria de todo o livro. Com muita propriedade respondem aos mais diversos críticos e demonstram com muita propriedade que o livro não é uma minibiblioteca com diversos autores, mas uma única obra de um único autor que tem sido identificado desde suas origens como sendo Isaías, filho de Amoz (1.1).
Uma característica peculiar destes cânticos é a sua tensão permanente entre o histórico e o escatológico. O servo é um personagem do presente histórico do profeta, mas também rompe as barreiras temporais e se reveste de messianismo em seus aspectos escatológicos. Essa continua tensão trás ritmo e beleza aos diversos cânticos, ao sabor semítico que não tem o rigor da nossa lógica ocidental, por isso mais flexível, mais envolvente, mais oscilante, menos esquemático e mais vital.
E essa tensão histórico/teológico faz com que a mensagem do profeta torne-se útil aos ouvintes daqueles seus primeiros dias, quanto para todos os leitores dos séculos posteriores. O funcionário público etíope que tinha vindo com tanta expectativa ao templo de Jerusalém está retornando frustrado para seu país, pois continuava sem entender a mensagem do profeta Isaías, quando dele se aproxima o diácono Felipe e se oferece para esclarecer à luz dos acontecimentos evangélicos o texto profético – resultando que o etíope compreende e crê em Jesus Cristo como o cumprimento das profecias messiânicas proclamadas por Isaías.  
Não apenas Felipe, mas todos os evangelistas souberam identificar essa tensão histórico/escatológico e não tiveram duvidas em inserirem em suas respectivas narrativas os aspectos messiânicos os quais eles identificaram com a pessoa de Jesus Cristo, como pode ser claramente percebido na tabela anteriormente referida.
O tema do Servo na Bíblia
Quando o termo “servo” surge na literatura do Primeiro Testamento está enraizado no pensamento semítico e trás a ideia primaria de “servir” com submissão e obediência, expressando uma relação entre um superior e um submisso. Mas as variantes são inumeráveis, indo da simples escravidão à uma submissão amorosa e voluntária. No contexto bíblico o título em seu aspecto religioso é o mais significante. Todas as pessoas às quais Deus escolheu, vocacionou, separou para uma missão específica (patriarcas, juízes, profetas e reis) são identificados como sendo “Servo de Yahvé” e com muito mais precisão esse termo se aplica ao Messias. Especialmente em Isaías o povo de Israel como um todo ou em parte, referindo-se aos remanescentes fieis, recebe também essa designação de Servo.   
 Quando nos aproximamos dos Cânticos do Servo percebemos algumas nuanças: Há uma ligação profunda de intimidade entre Deus e o seu Servo; ainda que permaneça uma ideia de subordinação há uma insistência do profeta em realçar a ligação afetiva que une Deus com o seu Servo, que é chamado ainda “no útero” (44.2,24).   Passando pelos contextos em torno das quatro músicas, acentua-se ainda mais: o fato de que Deus e seu servo estão unidos por laços íntimos; a ideia de subordinação continua em pé, mas o profeta insiste, sobretudo, no vínculo de amizade que une Deus com o seu Servo; Deus chama seu Servo no “útero" (44.2,24), ainda “informe” (43.1,7) ele o "escolhe" para uma missão específica (41.8 s), ele o "sustenta" (41.10). Por fim, o conceito de servo também carrega consigo a ideia de uma dignidade eminente, de alguém que tem acesso a tudo quanto pertence ao seu Senhor.
A Perspectiva Cristológica dos Cânticos do Servo de Yahvé
            A revelação do programa salvífico de Deus através da História, registrada na Bíblia, é gradativa. Aqui nas mensagens do profeta Isaías alcança-se o que podemos chamar de o clímax das profecias referentes ao Messias.
            Uma vez mais o povo escolhido fracassou. O cativeiro babilônico é a vara da disciplina divina, a alternativa seria o desaparecimento do reino de Judá, assim como ocorrerá com Israel o reino do Norte, que nunca mais foi reestabelecido. Mas os propósitos de Deus não podem ser frustrados e uma vez mais Deus renova sua Aliança. Nesses quatro cânticos temos a manifestação da soberania de Deus na História, não apenas dos judeus, do império babilônico, mas de todas as nações sobre a terra. O grito de Isaías é: “Yahvé o nosso Deus Todo-Poderoso reina!” Os acontecimentos futuros que terão como palco uma vez mais a Judeia e sua capital Jerusalém, não serão casualidades, mas todos aqueles acontecimentos estarão sendo conduzidos segundo a vontade e propósito de Deus – o Calvário jamais foi um acidente de percurso – mas a conclusão do programa salvífico de Deus por meio de Jesus Cristo o Servo de Yahvé, como tão bem interpretou Pedro em seu primeiro sermão após o Pentecostes (Atos 2.22-24).
            O conjunto dos Cânticos revela a mensagem maravilhosa da graça salvadora de Deus. Os Cânticos estão em forma crescente e cada um deles amplia e ilumina o próximo caminhando para o clímax no quarto e último o Cântico do Servo Sofredor (52.13-53.12). Não sem razão esse último Cântico tem sido chamado por muitos expositores bíblicos como sendo o texto mais importante do Primeiro Testamento e quase sua totalidade é utilizada pelos evangelistas nas suas respectivas narrativas da paixão de Cristo.
            Na medida em que examinamos os poemas surge a figura clara de uma pessoa. Desenvolve-se uma crescente e cada vez mais nítida transição entre a nação e uma pessoa que virá a ser tanto uma vítima inocente quanto substitutiva. O Targum judaico considera esses Cânticos como se referindo explicitamente ao Messias. Ele é distinto tanto do próprio profeta quanto da figura coletiva personificada como a nação de Israel/Judá.
            Muitos estudiosos cristãos não encontram dificuldades em amalgamar esses poemas com a pessoa e ministério de Jesus Cristo, conforme registrados nos textos evangélicos. Jesus inicia seu ministério público recebendo sua autenticação divina no batismo; sua prioridade é amenizar o sofrimento do povo abandonado e convalido, bem como trazer a eles a mensagem de esperança e salvação do reino de Deus (reino dos céus). Mas tanto seu ministério quanto sua pregação afronta o status religioso vigente e ele passa a ser rejeitado e perseguido, de maneira que se concentra no ensino aos seus discípulos. Quando empreende sua última viagem à Jerusalém, após uma declaração enfática de Pedro sobre sua messianidade[1], Jesus vai deixando cada vez mais claro aos discípulos sobre os acontecimentos pascoais que haverão de culminar com sua morte e ressurreição. A vida, ministério, morte e ressurreição de Jesus Cristo é o cumprimento plenário das profecias que por séculos foram proclamadas nos ouvidos israelita/judaica. Mas muito mais do que isso, o Seu sacrifício vicário e expiatório não ficará restrito aos pecados de Israel/Judá, mas de todos os povos em todos os tempos. 
Apresentação do Servo Escolhido (42.1-4)
"Eis o meu servo, a quem sustento,
o meu escolhido, em quem tenho prazer.
Porei nele o meu Espírito,
e ele trará justiça às nações".(42.1).
            Nesta Canção introdutória o Senhor apresenta o seu Servo em relação ao caráter, o método e a missão dele. O Servo é divinamente escolhido, chamado, ungido, equipado e colocado em movimento. O Senhor mesmo haverá de sustentá-lo em todos os momentos.
O servo humilde e gentil assume voluntariamente suas responsabilidades. Ele é descrito como sendo humilde, discreto, porém resoluto quanto ao seu propósito (v. 2-3). Ele inicialmente manifestará uma influência espiritual silenciosa até a missão ter lugar. Ele permanecerá irredutível até que o propósito seja concluído: "Ele não se cansará nem desfalecerá, até estabelecer a justiça na terra" (v. 4b).
Mateus cita os versículos 1-4 com pouca variação em Mateus 12.18-21 atribuindo-o integralmente ao ministério de Jesus em Israel. Jesus fez a vontade do Pai e foi obediente até o fim.   Somente Ele poderia cumprir toda a vontade de Deus, algo que Israel nunca conseguiu fazer, porque ele esteve completamente sob o controle do Espírito Santo todos os dias de sua vida. Deus colocou Seu Espírito nele, que é claramente um caráter messiânico (cf. 61.1; Mateus 3.16, 4.1; Lucas 4.14, 18-21; 3.22).
A propósito do Servo é estabelecer "justiça na Terra". Esta é a tarefa de Emanuel, Deus conosco. Somente Deus pode alcançar essa grande responsabilidade dada ao Servo. Quando Jesus retornar na sua segunda vinda, Ele trará justiça a todas as nações da terra. A nação israelita teve apenas alguns lampejos da manifestação dessa justiça, na verdade, na sua trajetória ela foi caracterizada como injusta. Mas em relação ao Servo o Pai celestial declara: "Este é o meu Filho amado em quem tenho toda minha satisfação" (Mateus 3.17; 17.5). Os evangelistas não tiveram dificuldade alguma em sustentar que Jesus Cristo, o Ungido do Senhor, cumpre esses primeiros versos nos poemas do Servo.
A Missão do Servo (49.1-6)
Na segunda Canção o servo é apresentado como um profeta diante de seu chamado e comissionado para a restaurar Israel e redimir toda a humanidade.
"Jeová me chamou desde o útero" (v.1), antes de eu nascer, como Jeremias. Ele o equipou com a sabedoria da Palavra de Deus (v. 2) com as quais seria revestido. Os rabinos tinham um dito sobre os nomes das seis pessoas que foram chamadas antes de nascerem: Isaque, Ismael, Moisés, Salomão, Josias e o nome do Messias. Jesus Cristo existiu muito antes da revelação angelical em que Maria é avisada de que ficaria grávida pelo Espírito Santo e teria um filho e que o chamaria de Jesus (Mateus 1.18-25; João 1.1-3).
Por que o servo é chamado de "Israel" neste Cântico (v. 3)? A nação como um todo perdeu suas referências messiânicas, de maneira que era necessário que o servo trouxesse as pessoas de volta a Deus. O Messias é chamado de "Israel" aqui porque Ele haverá de cumprir todas as expectativas de Deus em relação à nação. Sua missão é restaurar Israel e trazer luz aos gentios (v. 6). O Servo-Messias receberá o reconhecimento e a adoração que lhe é devida somente quando Ele retornar na Sua segunda vinda (v. 6, cf. com Filipenses 2.9-11).
"Eu farei de você uma luz para as nações, para
que a minha salvação alcance os confins da terra" (v. 6).
O apóstolo Paulo e Barnabé testemunharam a continua rejeição do evangelho pelos judeus a ponto de Paulo e Barnabé faz uma declaração contunde a eles: "Era necessário anunciar primeiro a vocês a palavra de Deus; uma vez que a rejeitam e não se julgam dignos da vida eterna, agora nos voltamos para os gentios” (Atos 13.46).
E Paulo concluiu sua argumentação citando as palavras de Isaías 49.6: “Pois assim o Senhor nos ordenou: ‘Eu fiz de você luz para os gentios, para que você leve a salvação até aos confins da terra’", e a reação dos gentios foi de alegria: “Ouvindo isso, os gentios alegraram-se e bendisseram a palavra do Senhor; e creram todos os que haviam sido designados para a vida eterna”. (Atos 13.47,48). Paulo utiliza-se das palavras de Isaías para apoiar sua identificação do Servo/Messias com Cristo Jesus. O Servo do Senhor é a "luz do mundo", e aquele que traz a salvação até os confins da terra (João 8.12). Pessoas de todo o mundo, judeus e não judeus, andam na escuridão até que Jesus Cristo entre em suas vidas. Ele somente é salvação para todos os que creem nele (Atos 4.12).
Quando José e Maria levam o bebê Jesus ao Templo para ser circuncidado, o velho e piedoso Simeão, tomado pelo Espírito Santo, ao pegar o bebê em seus braços faz uma declaração que expressa toda a expectativa messiânica dos judeus por tantos séculos: "Ó Soberano, como prometeste, agora podes despedir em paz o teu servo. Pois os meus olhos já viram a tua salvação, que preparaste à vista de todos os povos: luz para revelação aos gentios e para a glória de Israel, teu povo" (Lucas 2.29-32). O ancião Simeão e o evangelista Lucas compreenderam que esse poema se cumpre plenamente na pessoa e obra de Jesus Cristo.
Um Servo Obediente e Firme (50. 4-9)
Quando examinamos a terceira Canção, começa a se delinear o caminho penoso e sofrido do Servo. Ele experimenta uma comunhão ininterrupta com Deus. O desejo de seu coração está totalmente comprometido em fazer a vontade de Deus. Apesar do longo e temeroso caminho que terá que percorrer, Ele permanecerá inabalável em sua fé em Deus. Ele é estabelecido como uma roxa para fazer a vontade de Deus, embora seja rejeitado por seu povo.
O Soberano Senhor abriu os meus ouvidos, e eu não tenho sido rebelde; eu não me afastei. Ofereci minhas costas para aqueles que me batiam, meu rosto para aqueles que arrancavam minha barba; não escondi a face da zombaria e da cuspida (Isaías 50:5,6).
Os israelita/judeus não apenas rejeitariam a mensagem do Servo escolhido, como haveriam de persegui-lo cruelmente, como fariam com um mal feitor daqueles dias. Não sem razão mandam soltar Barrabás e matar a Jesus quando Pilatos lhes propõe a alternativa de soltar um dos dois prisioneiros (Mateus 27.26).  Mas antes mesmo da crucificação Jesus havia sofrido horrivelmente nas mãos de seus torturadores, como descreve o evangelista Mateus: “Então alguns lhe cuspiram no rosto e lhe deram murros. Outros lhe davam tapas...tiraram-lhe as vestes e puseram nele um manto vermelho; fizeram uma coroa de espinhos e a colocaram em sua cabeça. Puseram uma vara em sua mão direita e, ajoelhando-se diante dele, zombavam: "Salve, rei dos judeus!” Cuspiram nele e, tirando-lhe a vara, batiam-lhe com ela na cabeça. Depois de terem zombado dele, tiraram-lhe o manto e vestiram-lhe suas próprias roupas. Então o levaram para crucificá-lo (Mateus 26.67; 27.28-31). A flagelação era um tipo terrível de tortura e humilhação. Eles despiam a vítima, eles amarravam suas mãos e o amarravam em um poste. O chicote era uma longa tira de couro, com pequenas peças afiadas de osso e chumbo encrostada nele. O corpo da vítima ficava reduzido a carne crua, sangrando e com hematomas de sangue coagulado. Muitos morriam durante a flagelação ou desmaiavam mediante a dor insuportável. Poucos permaneciam conscientes até o final de uma flagelação. As palavras da Canção são cumpridas plenamente no flagelo imposto ao Senhor Jesus Cristo (Lucas 22.63, João 19. 1-3). Como pode o Servo permanecer fiel? O conforto do  Senhor o sustenta e o fortalece. Ele está disposto a sofrer obediente, porque confia em Yahvé:
Porque o Senhor Soberano me ajuda,
não serei constrangido.
Por isso eu me opus firmemente como pederneira,
e sei que não serei envergonhado (50.7).
Aquele que defende o meu nome está perto (50.8)
É o Soberano Senhor que me ajuda. Quem irá me condenar? (50.9)
O Servo Sofredor (52.12-53.13)
O último e quarto Cântico atinge o clímax da pequena cantata messiânica. Como pode alguém sofrer tanto e permanecer puro e inocente? Na visão o profeta Isaías o vê ferido, espancado, castigado, perfurado, atormentado e amaldiçoado pelos nossos pecados. O Servo de Yahvé se oferece como substituto perfeito de maneira que a expiação resultante seja a plena redenção do pecador culpado. Quando estudamos esta passagem à luz da história da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo - torna-se muito evidente que ele é o Servo sofredor de Yahvé. Os versículos 4-6 são lidos como testemunho da crucificação de Jesus Cristo no Calvário. John R. Sampey se referindo às palavras do profeta Isaías disse:
A aplicação ao Novo Testamento desta grandiosa profecia sobre Jesus não é uma acomodação de palavras originalmente faladas sobre Israel como nação, mas o reconhecimento do fato de que o profeta pintou antecipadamente um retrato do qual Jesus Cristo é o original (apud, GUFFIN, 1968, p. 79).
            Em nenhum outro lugar no pensamento hebreu encontra-se a ideia de aplicar o sofrimento do inocente pelo culpado. Nunca havia sido dito que você tem que sofrer pelos outros, você só sofre por sua própria culpa. Eles estavam sofrendo a escravidão e o exílio, porque eram culpados, em decorrência de seus próprios pecados. Mas Aqui encontramos um inocente sofrendo no lugar do culpado. O Servo Sofredor é o Salvador.
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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas
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CROATTO, J. Severino. Isaías - a palavra profética e sua releitura hermenêutica, v. 2. Tradução de Haroldo Reimer. Petropólis (RJ) e São Leopoldo (RS): Editora Vozes e Sinodal, 1998. [Comentário Bíblico]. 
DARDER, Francesc Ramis. Isaías 40-66. Bilbao (Epain): Editorial Desclée De Brouwer, S.A., 2008. [Comentarios a la nueva Biblia de Jerusalén]
FALCÃO, Silas Alves. Panorama do Velho Testamento – os livros proféticos. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1965.
FRANCISCO, Clyde T. Introdução ao Velho Testamento. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações (JUERP), 1969.
GUFFIN, Gilbert. The Gospel in Isaiah [O Evangelho em Isaías] (Nashville, TN: Convention Press, 1968).
HORTON, Stanley M. Isaías – o profeta messiânico. Tradução de Benjamim de Souza. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. [Série Comentário Bíblico].
KAMP, Peter W. Van de. O profeta Isaías - 1-39. São Leopoldo (RS): Sinodal, 1987.
LASOR, W. Sanford, DAVI A. Hubbard e FREDERIC W. Bush. Panorama del Antiguo Testamento - Mensaje, forma y transfondo del Antiguo Testamento. Buenos Aires: Ed. Nueva Creacion, 1995.
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ROBINSON, Jorge L. Los doce profetas menores. Texas: Casa Bautista de Publicciones, 1982.
SICRE, José Luís. Profetismo em Israel – o profeta, os profetas, a mensagem. Tradução: João Luís Baraúna. Petrópolis: Editora Vozes, 2002.
SMITH, James E. An expository commentary on the book of Isaiah. 2005.
WIÉNER, C. O Dêutero-Isaías - o profeta do novo êxodo. Tradução de Pe. José Raimundo Vidigal. São Paulo: Paulus, 1980. [Cadernos Bíblicos, 07].


[1] O termo "messianidade" é usado pelos articulistas cristãos protestantes para dizer que Jesus Cristo é o Messias profetizado no Antigo Testamento. Messianidade de Jesus quer dizer que Ele tem as características do Messias.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Rute (Capítulo 1) Sumário e Reflexão


Sumário
1- 5 Dez anos trágicos em Moabe. Elimeleque e sua esposa Noemi, juntamente com seus dois filhos Malom e Quiliom, deixaram a vila de Belém (Judá) em decorrência de uma forte seca que a terra mais nada produzia e a família não tinha como se manter. Conforme informação do texto eles habitaram em Moabe por um período de dez anos. Mas foi um tempo de perda! Primeiramente morre Elimeleque. Seus dois filhos haviam se casado com moças moabitas: Malom casou-se com Rute e Quiliom com Orfa. Mas ambos morreram de maneira que Noemi ficou sozinha com as duas jovens viúvas, sem filhos.
6-14 Diante de um quadro tão deprimente Noemi  toma a decisão de retornar à sua terra natal a pequena e singela Belém de Judá. Ela encoraja as duas noras a permanecerem em Moabe junto aos seus familiares, pois nada mais tinha a oferecer a elas em termos de amparo. Depois de um tempo Orfa resolver permanecer e beijando Noemi se separaram.
15-22 Apesar da desistência de Orfa a outra nora Rute permanece resoluta em viajar com sua sogra, e suas palavras amorosas tem ressoado como votos em muitos casamentos. O amor de Rute por Noemi é um modelo de um amor persistente que não se rompe pelas circunstâncias extremas e nem pelas perspectivas das lutas e dificuldades que se anteveem. Assim elas empreendem sua longa e solitária jornada desde a  Jordânia até Belém de Judá.

Lições para Reflexão
1. Sem pão na "casa do pão". Belém significa "casa do pão". Houve uma fome na terra, e não havia pão na "casa do pão". Muitas situações da vida são semelhantes a esta. Quanta decisão se toma forçada pelas circunstâncias adversas. Noemi havia perdido tudo em Moabe e retornar à casa do pão era a melhor perspectiva que Noemi tinha apesar de ser vergonhoso para ela retornar nessas circunstâncias. Retornar a casa nos faz lembrar a parábola do “Filho Pródigo” que depois de perder tudo, restou-lhe apenas uma esperança: retornar à casa do pai!
2. "O teu Deus será meu Deus". Rute encontrou mais em Naomi do que uma sogra preocupada e conscienciosa. Na sua convivência com a família de Elimeleque, especialmente seu casamento com Malom, ela havia chegado ao ponto de romper com sua herança familiar, seus amigos e sua religião. Ela havia encontrado o Deus verdadeiro e não haveria de abrir mão dessa nova fé. Quando os membros de uma família são convictos de sua fé e mantém sua relação firme com Deus, nenhuma circunstância é suficiente para desanima-los. Enquanto os israelitas abriam mão facilmente de seu Deus, Rute torna-se um modelo de crente genuína.
3. Chame-me de "Mara". Quando Naomi chegou a sua vila de Belém-Judá, muitos membros mais velhos da comunidade lembraram-se dela e a se alegraram com o retorno dela. Mas diante dos acontecimentos – viúva e sem filhos – eles perguntavam se era de fato a mesma Noemi de dez anos atrás. Assim, ela resolve mudar seu nome de Noemi par Mara (amarga). De alguma maneira ela entendia que Deus havia tratado ela de forma muito dura. É sempre difícil entendermos e aceitarmos as adversidades que nos sobrevém, e sempre acabamos direcionando nossa frustração para Deus (infelizmente não fazemos o mesmo quando as coisas vão bem). Poucos crentes são capazes de mediante as perdas declararem como Jó: “Deus deu, Deus tirou, BENDITO SEJA O NOME DO SENHOR!”. Noemi como a grande maioria de nós optou pelo caminho mais fácil – mudar o nome – e assumirmos nossa amargura!

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