sábado, 15 de março de 2025

Sermão: Seja Você Uma Bênção (Genesis 12.1-2)

 

   E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome;
e tu serás uma bênção”

Abraão é um dos personagens bíblicos mais extraordinário. Deus o escolheu e o abençoou de forma maravilhosa. A sua vida tornou-se um modelo para todo crente em todos os tempos e lugares.

Esses dois versos registram um momento crucial na narrativa bíblica em que Deus fala diretamente com Abrão. Ele é desafiado a deixar para trás tudo o que é familiar – sua terra, portanto sua comunidade e até mesmo seus laços familiares – para entrar no desconhecido unicamente confiado na promessa de Deus. Estes versos revelam a essência da fé: confiar e obedecer à Palavra de Deus sem conhecer todos os detalhes ou resultados. O escritor de Hebreus oferece uma definição desta fé de Abrão:

"Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem."

Mas quero que pensemos hoje na última frase do verso dois: E assim você será (da forma verbal hebraica qal imperativo - indicando comando, ordem ou instruções direta) uma bênção”

Deus vai estabelecer formalmente sua Aliança com Abrão somente no capítulo 15.18, aqui trata-se sim do chamado oficial de Deus e suas promessas, bem como o propósito deste chamado.

É necessário lembrarmos de que neste momento Abrão tem aproximadamente 75 anos e Sarai tem 65 anos e o detalhe é que ela não pode gerar filhos, visto que é estéril (Gn 12.4). Independentemente deste fato, Deus promete que fara de Abrão um pai de uma imensa dinastia, de muitas nações. Somente um Deus soberanamente onipotente pode fazer tal promessa, quando todas as circunstâncias revelam uma impossibilidade humanamente intransponível. Mas para Deus não há impossíveis!

As palavras do comentarista bíblico Rick Warren[1] são oportunas: "Não somos salvos fazendo promessas a Deus; somos salvos crendo nas promessas de Deus para nós”

1) Deus chamou (escolheu) Abrão para que ele fosse uma Bênção.

Abraão era da cidade de Ur dos Caldeus – a cidade era conhecida por sua produção de artefatos religiosos, portanto, viviam na e da idolatria.

Mas Deus manifestou Sua graça salvadora na vida de Abraão e o TIROU daquela condição de idolatra e se revelou a ele de forma pessoal fazendo primeiramente uma Promessa e posteriormente a ratificando em uma ALIANÇA.

Em nenhum momento Abraão toma a iniciativa, tudo é uma iniciativa da Graça de Deus.

Um dos textos mais extraordinários da bíblia que se refere a Abraão é que ele foi chamado AMIGO DE DEUS.

De idolatra para Amigo de Deus – que transformação.

E porque Deus o chamou\escolheu?

SEJA UMA BÊNÇÃO!

Jesus fez uma declaração semelhante em relação a cada um de nós:

EU ESCOLHI CADA UM DE VOCÊS, e não vocês que me escolheram, portanto, IDE sejam uma bênção - E ANUNCIEM O EVANGELHO A TODA CRIATURA.

Da mesma forma que Abraão foi CHAMADO para ser uma bênção a todas as famílias da Terra, eu e você fomos chamados para sermos uma bênção a todas as pessoas (povos, etnias).

E a maior bênção que podemos dar a qualquer pessoa é a Mensagem do Evangelho Salvador de Jesus Cristo.

Paulo entendeu isso como poucos: usei todos os meios lícitos para comunicar o Evangelho; falei do Evangelho a tempo e fora de tempo; aproveitei cada oportunidade para falar de Cristo.

DEUS ESCOLHEU eu e você para que sejamos uma Bênção – comunicando a MENSAGEM DE SALVAÇÃO A TODAS AS PESSOAS.

2) Deus o abençoou e o tornou grande para que ele fosse uma bênção.

Poucos crentes foram tão abençoados e engrandecidos como Abraão.

Mas toda e cada uma das bênçãos que Abraão recebeu das mãos de Deus tinha um propósito: ABENÇOAR A VIDA DE OUTRAS PESSOAS.

OBSERVAÇÃO: Deus nunca proibiu Abrão de USUFRUIR das bênçãos recebidas. Todavia, ele precisava ter sempre na mente e no coração de que DEVERIA USAR todas as bênçãos recebidas (da Divina mão) para abençoar outras pessoas além dele e de seus familiares.

O grande problema da Nação Israelita é que eles se esqueceram disso e se tornaram um povo egoísta, orgulhoso e arrogante.

O resultado deste comportamento foi que Deus retira suas bênçãos e os envia para o cativeiro – primeiro o Assírio e posteriormente o babilônico. Tudo que acumularam virou cinzas, ou foram saqueados.

Jesus faz um alerta aos seus discípulos (e a nós): “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem, e onde os ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mateus 6.19-21).

Cada gota das chuvas de bênçãos que Deus derrama sobre a vida do crente, da família ou da igreja é para que sejamos BÊNÇÃO PARA OUTRAS PESSOAS.

Calvino nunca teve muitas posses e seu testamento demonstra o quão pouco ele acumulou no transcorrer da sua vida. Mas poucos abençoaram tantas vidas em tantos lugares como João Calvino.

As bênçãos de Deus são como o óleo da botija da viúva de Serepta, nos dias do profeta Elias. Quanto mais óleo ela tirava, mais óleo surgia.

PARAFRASEANDO: Quanto mais ABENÇOAMOS A VIDA DE OUTRAS PESSOAS, mais bênçãos Deus derrama sobre as nossas vidas.

Quando nos negamos (ou nos omitimos) a ser uma bênção na vida de outras pessoas, Deus fecha a torneira das bençãos celestiais...e muitas vezes recebemos apenas gotas benditas, quando poderíamos estar recebendo chuvas de bênçãos.

CONCLUSÃO

Vamos nos comprometer a Sermos Bênção a cada dia na vida de outras pessoas – sejam elas quais forem.

Vamos ser ABENÇOADORES e não ACUMULADORES...

Sejamos como Barnabé e nunca como Ananias e Safira.

Barnabé abençoou a vida de muitas pessoas, pois não vivia para si mesmo;

Ananias e Safira foram ACUMULADORES, pois viviam em função deles;

O Espírito Santo aprovou a vida de Barnabé, mas reprovou a vida daquele casal.

QUE SEJAMOS ABENÇOADOS E ABENÇOADORES.

OREMOS!

 

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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[1] WIERSBE, Warren W. Be Obedient. Published by Victor Books, 1991 [p. 22].



segunda-feira, 3 de março de 2025

Galeria da Graça de Deus – Hebreus 11 – Observações Iniciais

Ficaremos duplamente surpresos com as pessoas que são nomeadas nesta Galeria da Fé. Primeiro, veremos nomes que em nossa opinião (imperfeita) não deveriam estar ali de maneira alguma. Segundo, sentiremos falta de muitos nomes que, em nossa ótica, deveriam estar ali sem dúvida alguma.

É preciso lembrar que os subtítulos encontrados em nossas bíblias não fazem parte dos textos originais, mas foram incorporados para facilitar a leitura moderna. Muitas vezes, porém, acabam fragmentando o texto e confundindo o propósito do escritor. Assim, o título “Galeria da Fé” não é prejudicial em si, mas pode trazer uma ideia moderna que não corresponde exatamente ao propósito original (STOTT, 2007).

O autor de Hebreus, que não se identifica, não tinha como objetivo nomear todos os personagens do Antigo Testamento, nem selecioná-los por critérios meritórios. Como lembra Bruce (1990), nem os melhores dos melhores são dignos de estarem ali, pois todos pecaram. O critério é único: a graça de Deus. Ellingworth (1993) reforça que a fé apresentada em Hebreus 11 é perseverança em meio às limitações humanas, e não mérito pessoal.

Um dos maiores equívocos dos leitores é transformar esses personagens em super-heróis. Lopes (2011) observa que eles são apenas homens e mulheres comuns, sustentados pela graça e capacitados pelo poder de Deus. Swindoll (2017) acrescenta que Hebreus 11 deve ser lido como um espelho da vida cristã: todos os crentes, em todas as épocas, estão representados ali pela mesma fé.

Portanto, esta Galeria é, na verdade, a Galeria da Graça de Deus. Alguns terão papéis mais visíveis, outros mais discretos, mas todos são preciosos aos olhos do Senhor e indispensáveis em Seu plano eterno. Assim como Jonas e Pedro, nenhum de nós é dispensável por causa de nossos erros ou falta de fé, pois é Deus quem nos chama, capacita e usa para o louvor de Sua glória.

O objetivo desta série de artigos é destacar os nomes mencionados nesta Galeria e aprender com seus acertos e erros, imitando sua fé e evitando seus tropeços. Dessa forma, crescemos na graça e no conhecimento, caminhando rumo à estatura perfeita de Cristo Jesus.

 

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Bibliografia Geral

BRUCE, F. F. The Epistle to the Hebrews. Grand Rapids: Eerdmans, 1990. (Comentário clássico que dedica atenção especial a Hebreus 11 e seus personagens da fé.)

ELLINGWORTH, Paul. The Epistle to the Hebrews: A Commentary on the Greek Text. Grand Rapids: Eerdmans, 1993. (Comentário técnico e detalhado, com análise exegética do capítulo 11.)

LANE, William L. Hebrews 9–13. Dallas: Word Biblical Commentary, 1991. (Obra que cobre diretamente Hebreus 11, com profundidade acadêmica e pastoral.)

STOTT, John. A mensagem de Hebreus. São Paulo: ABU Editora, 2007. (Comentário acessível, destacando a fé como confiança em Deus, especialmente em Hebreus 11.)

SWINDOLL, Charles R. Insights on Hebrews. Grand Rapids: Zondervan, 2017. (Comentário pastoral e prático, com foco em Hebreus 11 como modelo de fé para os cristãos.)

 

sábado, 1 de março de 2025

Salmo 10 - A Ilusão dos Planos dos Perversos e Corruptos


Muitos dos comentaristas compreendem que este Salmo está vinculado ou até mesmo fazia parte integrante do anterior. Ele parece ser uma amplificação do clamor do salmista (provavelmente o rei Davi), contra os ímpios/inimigos que se levantaram contra ele.

Em decorrência de que em alguns manuscritos antigos não haver um título específico para o Salmo 10, estudiosos concluem, talvez precipitadamente, de que ambos era um único Salmo, mas a discussão está longe de ser concluída. As nossas versões seguem a bíblia hebraica que os mantém independentes.

A diferença temática está em que enquanto no Salmo 9 os inimigos eram externos (outros povos); no Salmo 10 os inimigos são internos (israelitas explorando israelitas), qualquer semelhança com a realidade brasileira não é mera coincidência.

Uma vez mais o Salmista traça uma linha divisória muito clara entre os ímpios e os crentes (piedosos/justos).

IMPÍOS: Então ele passa a identificar características que descrevem tais pessoas - orgulho e arrogante [vv. 2, 3]; ateu [v. 4]; corrupto [v. 5]; enganador (mentiroso) e intrigante [vs 7, 8]; violento [v 9] e hipócrita (acusa os outros do que ele mesmo faz) [v 8].

JUSTOS: Passa então a descrever as características que devem ser encontradas na vida destes - tem um coração humilde; confia e depende da ação bondosa de Deus.

Mas o quadro diante dos olhos do salmista é tão terrível; a maldade é tão grande e a corrupção é tão descarada que o salmista clama a Deus:

POR QUE, SENHOR, Tu permaneces afastado na hora do sofrimento? POR QUE Te escondes de mim?

Há momentos em que olhamos e não vemos saída; parece que o mal vai vencer; parece que os ímpios estão certos e nós estamos errados....

Aqui temos duas questões que perturbam qualquer crente:

Onde está Deus quando coisas ruins acontecem com pessoas boas (v. 1)?

Onde está Deus quando pessoas más fazem coisas terríveis (vv. 2-11)?

Olhando pela perspectiva humana parece que os ímpios estão ganhando o jogo, e vai ser de goleada... mas o salmista não é um cético, ele continua crendo em Deus e no Seu poder, mesmo diante do quadro terrível que tem diante de seus olhos. Ele crê e continua crendo (mesmo contra a esperança como Abraão) que o seu Deus triunfará no final.

Ainda que o inimigo traiçoeiro, que distorce a verdade, que profere mentiras continuamente, e que ilude os que o ouvem – ainda que o inimigo vença algumas das batalhas, com certeza perderá a guerra. Na verdade já perderam, como tão bem declara o ap. Paulo: "Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou" (Romanos 8.37).

Apesar de ter consciência da malignidade que o cerca, de assistir o cinismo das pessoas destituídas de caráter, o salmista não tem qualquer dúvida de que Deus está perto e está atento ao seu clamor – a sua oração...

As palavras contidas nos versos 14 e 15 expressão a fé e confiança plena do salmista: A verdade é que Tu vês muito bem quem sofre desgraça e tristeza e é explorado; Tu cuidas deles com muito carinho. Por isso, Senhor, o homem pobre e sem recursos confia absolutamente em Ti. Então ele completa seu pensamento:   Tu és conhecido como a esperança dos que perderam toda a esperança! Então ele clama: Ó Senhor, quebra o braço desses homens desligados de Ti, maus e perversos. Revela publicamente todos os seus pecados e castiga um por um!

O Salmista DECLARA em Alto e Bom Som:

VALE A PENA NOS ENTREGARMOS SEM RESERVAS A DEUS!

Deus é verdadeiramente amigo do crente, em seu desamparo e desespero, todo crente em todo lugar e época, pode deixar seu caso nas mãos de Deus, e Deus se compromete a cuidar dele.

Não colocamos nossas vidas nas mãos de um médico-advogado-político, por mais competentes que possam ser; mas depositamos nossas vidas presentes e futuras nas Mãos de um Deus que é Todo Poderoso – Eterno – Imutável – Amável – Compassivo – Misericordioso....

Quero concluir com o Testemunho de Daniel (capto 6)

Os inimigos de Daniel armaram uma armadilha mortal para ele: Afinal, o rei assinou o decreto que foi usado para acusarem e prenderem Daniel, que assim, foi jogado à cova dos leões. Antes de ser lançado às feras selvagens (dizem que era a mídia da época), o rei disse a Daniel: Eu espero que o seu Deus, a quem você sempre serve e adora, o salve dos leões. Em seguida ele foi jogado na cova das feras temíveis até pelos mais fortes e experientes gladiadores.

Seguindo o ritual da lei uma pesada pedra foi colocada na entrada da cova e o rei a marcou com o seu anel e selo real, de maneira que ninguém podia tirá-lo de lá. (Pausa)

Daniel orava 3 vezes por dia para isso?? Por que Senhor??

Então triste e abatido, pois gostava de Daniel, o rei voltou ao palácio. Perdeu o apetite e foi se deitar sem comer. Não quis se divertir ouvindo música, como de costume, com insônia sua noite foi longa e triste.

O sol nem ainda brilhava intensamente, o rei atravessa correndo o palácio em direção à cova dos leões e mesmo angustiado e tomado de tristeza, grita: "Daniel, servo do Deus Vivo, será que o seu Deus, a quem você adora, foi capaz de salvá-lo dos leões?”.

Então o silêncio é quebrado por uma voz tranquila e firme: "Majestade, eu lhe desejo uma vida longa e feliz!" Era Daniel! Era Daniel! Ó glória! Então ele dá o seu testemunho: "O meu Deus mandou o seu anjo, para fechar as bocas dos leões. Eles não me tocaram! Isso porque eu sou inocente diante de Deus: e diante do senhor também, rei Dário, eu não cometi crime algum".

O rei é tomado por uma alegria incontida! Imediatamente ordena que tirassem a pedra e resgatassem Daniel daquela cova vil. Constatou que de fato não havia o menor arranhão nele, porque tinha confiado no seu Deus.

A virada do jogo...o placar é alterado agora a favor de Daniel e contra seus inimigos traiçoeiros: Então o rei Dário deu uma nova ordem, para trazerem os homens que com maldade haviam acusado Daniel. Eles e suas famílias foram jogados na cova dos leões. E o texto diz que mesmo “antes que chegassem no fundo da cova, os leões se jogaram contra eles e todos foram destroçados”.

E nos dias que sucedem o rei Dário escreveu outra mensagem, que foi anunciada em todo o seu reino. "Paz para todos! Eu faço um novo decreto que em todo o domínio do meu reino os homens devem temer e tremer diante do Deus de Daniel; Pois ele é o Deus vivo e permanece para sempre, e o seu reino não será destruído, e o seu domínio será para sempre. "Ele livra, resgata e realiza sinais e maravilhas no céu e na terra, e foi Ele que Daniel do poder dos leões."

VAMOS ORAR!

 

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sábado, 22 de fevereiro de 2025

Ur - Cidade de Origem de Abraão


Ur é uma das cidades antigas mencionada na Bíblia. Ela ocupa um lugar significativo na narrativa do Primeiro Testamento, pois somos informados de que Abraão viveu ali (alguns entende até que ele nasceu ali). Ela é mencionada quatro vezes na literatura veterotestamentária sendo a última uma réplica (Gênesis 11.28, 11.31 e 15.7; citado por Neemias 9.7).

A cidade de Ur foi originalmente fundada pelos sumérios, e tornou-se um importante centro urbano na Mesopotâmia (“entre rios” pois ficava entre dois importantes rios da época o Eufrates e o Tigre). No transcorrer do 1º e mais acentuadamente 2º milênio a.C., os caldeus, um povo semita que migrou para a região sul da Mesopotâmia, dominaram a região. Desta forma, ao ser denominada “Ur dos Caldeus,” o texto bíblico está fazendo referência a essa fase mais tardia da cidade, quando já estava sob influência caldeia. Atualmente é a atual região do Iraque. A região da Caldéia contém riquezas além da imaginação, e Ur era uma das cidades mais importantes. Alguns historiadores concluem que esta região excedia a terra do Egito e suas pirâmides. É nela que o patriarca Abraão é chamado por Deus (Yahweh), estabelecendo uma Aliança com ele, através da qual formará a nação de Israel e através dela moldará a História.

Em Gênesis 11.18 a cidade de Ur é citada pela primeira vez: "Enquanto seu pai Terá ainda estava vivo, Harã [irmão de Abraão] morreu em Ur dos Caldeus, na terra de seu nascimento". A narrativa deixa entender de que esta cidade era o lugar onde a família residia inicialmente.

Esta cidade era próspera, conhecida por seus avanços na arquitetura, literatura e religião. Era também um lugar profundamente enraizado no culto pagão, ali foi encontrada uma estrutura impressionante chamada Zigurate de Ur, que era dedicada ao deus patrono de Ur, Nanna (também conhecido como Sin, o deus da lua). Esses detalhes realçam a necessidade de Abraão de sair do meio dela, conforme a ordem de Deus. É importante destacar que é Yahweh quem vem ao encontro de Abraão e não o contrário, de maneira que se Deus não o chamasse ele continuaria absorvido pela idolatria estabelecida.

Como todas as civilizações Ur também perdeu sua pujança e caiu em um longo período de ostracismo. Mas sempre permaneceu como referência religiosa pagã. Somente no reinado do rei Nabucodonosor II, a cidade foi revitalizada, e o último rei da Babilônia, Nabonido, também se interessou pela cidade quando aumentou o tamanho do zigurate. Ciro, o Grande, da Assíria vai mantê-la como centro religioso, pois em sua estratégia de conquista de outros povos ele percebeu que a melhor maneira de cativá-los era mostrando respeito aos seus deuses (o que ele vai fazer com os judeus, autorizando eles a retornarem para Jerusalém e reconstruírem o templo). A revitalização de Ur manteve-se pelos durante o reinado Persa de Artaxerxes II.

Avançando na leitura da narrativa bíblica em (Gênesis 11.31) temos o início da longa jornada que Abraão irá percorrer, na realização da vontade de Deus. Incialmente ele está acompanhado do pai e seu sobrinho Ló, filho do irmão falecido, bem como de Sarai sua esposa. A sua partida de Ur demarca uma ruptura com seu passado e o início de um novo capítulo onde Deus vai lhe revelando ao longo dos anos.

O propósito inicial era viajarem até Canaã, mas por razão que o texto bíblico não esclarece, eles pararam em Harã, permanecendo ali até que seu pai Terá falecesse, o que por implicação podemos inferir que ali ficaram devido alguma enfermidade do pai. Pois logo após o falecimento do pai, Deus ratifica o chamado de Abraão que vai prosseguir o itinerário original até se estabelecer na geografia de Canaã.

Muito interessante que os escritores bíblicos posteriores irão tratar Harã como ponto de partida de Abraão em direção à terra de Canaã. Estevão em sua argumentação e exposição no confronto com os religiosos judeus na sinagoga faz está citação: “Então ele [Abraão] saiu da terra dos caldeus [Ur] e habitou [no sentido de residir] em Harã. E dali, morto seu pai, mudou-o para esta terra em que agora habitais [Canaã/Judeia]" (Atos 7.4). A coerência textual se mantém, visto que Harã tornou-se lugar da "família" e a "casa de seu pai", mas ele prosseguiu dali em direção à terra que Deus haveria de mostrar-lhe.

Portanto, quando ele envia seu servo Eliezer (Gênesis 24.4 e ss) a buscar uma esposa para Isaque, que fosse de sua parentela (descendência de seu pai), não poderia tê-lo enviado se não para Harã (norte da Mesopotâmia), pois não havia mais parentes em Ur (ao sul). Da mesma forma, quando Josué faz referência geográfica de Abraão como tendo vindo de "além do Eufrates" (Josué 24.2), refere-se a Harã e não a UR, pois é a partir da primeira que o patriarca prosseguiu para Canaã. Portanto, ainda que os críticos de plantão (mormente racionalistas pós sec. XVIII), não encontram argumentos textuais contraditórios, a não ser distorcendo o sentido simples da narrativa bíblica.

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Referências Bibliográficas

ADAMS, J. McKee. A Bíblia e as civilizações antigas. Rio de Janeiro: Dois Irmãos, 1962.

ARCHER JR., G. L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 3. ed. São Paulo, SP: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 2008.

ARNOLD, Bill T. e HESS, Richard. S. História do antigo Israel: Uma introdução ao tema e às fontes. Tradução Sonia Ribeiro Alves e Soraya Imon de Oliveira. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2020.

BRIGHT, John. História de Israel. Tradução Euclides Carneiro da Silva. São Paulo: Ed. Paulinas, 1978.

CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de bíblia, teologia e filosofia. São Paulo: Hagnos, 2006 [1991].

FOHRER, G. História da Religião de Israel. São Paulo, SP: Academia Cristã, 2006.

MONEY, Netta Kemp de. Geografia Histórica do Mundo Bíblico. São Paulo, SP: Editora Vida.

RIVER, Charles (Editors). Ur: História e Legado da Antiga Capital Suméria.  2017.

THOMPSON, John Arthur. A bíblia e a arqueologia – quando a ciência descobre a fé. São Paulo, SP: Editora Vida Cristã, 2004.
TIDWELL, J. B. & PIERSON, Carlos C. La geografia bíblica. Espanha: Editorial Mundo Hispano, 2003.
UNGER, Merril F. Arqueologia do Velho Testamento. São Paulo: Batista Regular, 1980.