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Epístola aos Hebreus: O Prólogo – Deus Continua Falando (1.1-2)



A | 1. l, 2-. Deus falando.
     B | 1.2-14. Filho de Deus. Maior que os anjos.
A | 2.1-4. Deus falando.
     B | 2.5-18. Filho do homem. Menor do que os anjos.
            O autor de Hebreus inicia sua epístola fazendo uma relação direta com o livro de Gênesis - Deus falou - de maneira que seus leitores primários, conhecedores da Torá (versão Septuaginta), pudessem ter sua atenção cativada para o que ele pretende comunicar no transcorrer da epístola. É significativo que que esta epístola comece com Deus, visto que Ele será referido constantemente no discorrer de toda escrita, ao menos 68 vezes ou uma média de uma vez a cada 73 palavras e poucos livros no Segundo Testamento mencionam Deus com tanta frequência.
...se ele [Deus] não revelou nada de específico, se nenhuma de suas palavras sobreviveu para poder guiar uma pessoa em direção ao verdadeiro conhecimento de Deus, da humanidade e do relacionamento entre eles, então Deus está desconectado da vida, e é irrelevante. Muitos descrentes, agnósticos e ateus estão dispostos a aceitar o desespero e a ausência de significado de uma conclusão como essa. Creio que eles estão errados, entretanto mais próximos de enfrentar a realidade do que aqueles que creem em um Deus que não falou. (David H. Stern)
O escritor de Hebreus não tem qualquer pretensão de fazer um tratado sobre a existência de Deus, mas como o escritor de Gênesis (1.1) e o quarto evangelista (João 1.1) ele apenas declara que Deus se revela – não descobrimos a Deus, pois é Ele que Se revela a nós. Tudo que podemos saber ou “descobrir” sobre Deus não é resultante da nossa capacidade ou inteligência (como alguns pretensiosos teólogos fazem parecer), mas unicamente autorevelação do próprio Deus. O ser humano está completamente cego tateando na escuridão de sua ignorância querendo descobrir a origem e a finalidade da genuína religião. Deus falou (o verbo está no aoristo, que indica uma ação no passado, mas que ainda continua no presente, de maneira que Deus falou anteriormente por meio dos profetas e hoje conclui sua ação falando através do Filho) - o escritor inicia sua carta declarando em alto e bom som que é o próprio Deus quem se revelou, se revela e continuara se revelando. Calvino chama atenção para o fato de que em momento algum o escritor fala de duas revelações distintas ou manifestadas por uma divindade diferente, mas que apesar dessa diversidade de formas comunicativas “o autor põe diante de nós o Deus único”, de maneira que não há qualquer possibilidade de fazer distinção entre Lei e Evangelho, pois a revelação é uma só manifestada de formas diferentes. Ao utilizar as expressões “antigamente” e “nestes últimos dias” o autor quer enfatizar a unidade e a continuidade destas formas ou maneiras de revelações, que em essência não são duas, mas uma só que culmina em Cristo - o próprio Jesus declara que tudo quanto antes havia sido escrito (revelado) se constituía uma testemunha adequada dele próprio (João 5.39-47).
            Mas o escritor em plena harmonia com todo o conteúdo bíblico que lhe antecedeu ensina que essa revelação de Deus é de caráter pessoal. A revelação geral da criação é um testemunho permanente da existência de Deus (Salmo 8; 19), todavia, após a queda o ser humano perdeu a capacidade de conhecer a Deus somente através dela; agora se faz necessário uma revelação pessoal de inteiração direta entre Deus e o ser humano, de maneira que Ele possa comunicar Seu amor e misericórdia – e isso somente é possível através do processo da salvação que Ele opera na pessoa – uma salvação plena, intencional e suficiente.
            Quando o escritor de Hebreus faz referência a Deus ele não está se referindo de forma genérica, como o termo grego possa transparecer, a todos e quaisquer deuses do panteão greco-romano. Ele está sendo extremamente especifico – Yahvé - o Deus eterno, o Deus da aliança, o Deus da revelação e da História (Torá, Tabernáculo, Sacerdócio, Profeta e Rei).
“nestes últimos dias” Este período de tempo segue vários nomes. 1. fim dos dias, Nm 24.14; Dt 8.16; Dn 2.28; 10.14 2; nos últimos dias, Jr 23.20; 30.24; 49.39; Ez 38.8, 16; Os 3.5; Joel 2.28 (Atos 2.17) João 6.39, 40, 44, 54; 11.24; 12.48; II Tm 3.1; Tiago 5.3 3; no último tempo, I Pe 1.5 4; no fim dos tempos, I Pe 1.20 5; durante os últimos dias, II Pe 3.3 6; a última hora, I João 2.18; é o “dia do Senhor” (i.e., “a consumação”, Mt 13.39, 40; 24.3; 28.20; Hb 9.26).
            Esse mesmo Deus que falou desde o princípio e que nunca deixou de falar (a Lei e os Profetas ouça-os) agora, nestes últimos dias,[1] continuara falando através do Filho. E se antes Deus falou à Israel/Judá diretamente, agora por meio do Filho irá falar diretamente à todos os povos e etnias. Se antes a revelação de Deus falou através de uma multiplicidade de formas e maneiras, daqui para frente (nestes últimos dias) Deus se comunicara pessoal e diretamente por meio do Filho de forma clara e inexaurível, pois ele é a Palavra Viva.
            Se antes Deus falou “de vários modos” (“em muitos momentos no passado e por muitos meios – NJB)[2], poderíamos dizer em doses homeopáticas, era porque o ser humano estava sendo habilitado paulatinamente a compreendê-lo. Isso é facilmente perceptível na leitura da Bíblia, onde encontramos muito mais revelação no Evangelho segundo João do que no livro de Gênesis, ainda que ambos tratem sobre o mesmo Deus.
            Ainda que a revelação contida no Primeiro Testamento seja em todos os seus detalhes genuinamente verdadeiros ela não é completa e definitiva - foram agentes da revelação divina, mas não foram a revelação final. As limitações de seus instrumentos ou meios e a forma fragmentária de sua mensagem indicam claramente que se deveria esperar uma revelação superior.
O autor utiliza a palavra "melhor" 12 vezes a fim de comparar o Filho (Messias) e sua era com o que existia antes. Menciona a primeira vez no v. 4, e por último em 12.24, á medida que o autor sintetiza essa comparação entre o antigo e o novo (12.18-24).
É somente neste e unicamente neste aspecto que o Segundo Testamento é superior em relação ao Primeiro Testamento. Por isso o autor de Hebreus com inicia sua mensagem – “Havendo Deus...falado...nos fala hoje pelo Filho” – pois somente Deus tinha autoridade para concluir o Primeiro e de escrever o Segundo Testamento. Não haverá outra revelação da parte de Deus, pois na vida, morte, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo estão contidas a revelação plena e definitiva de Deus. É justamente desta revelação “melhor e/ou superior” que o escritor de Hebreus trata na abertura de sua correspondência.
            É impressionante o simples fato de que Deus queira nos falar! É inacreditável que Deus quisesse ainda falar com Adão e Eva depois de abertamente o desobedecerem; de falar a Noé em meio à total depravação de toda aquela geração; de falar com Abrão inserido na cultura idolatra de Ur dos Caldeus; de falar aos israelitas de corações empedernidos e pescoço duro; de falar aos judeus que crucificaram Jesus; de falar à geração atual que o menospreza. Quem somos nós para que Deus continue a nos falar (Salmo 8.3,4)? Há somente uma resposta – Amor gracioso – imensurável amor – desmedido, eterno, imutável – simplesmente Amor! Deus nos ama mesmo nós sendo pecadores; Ele doou seu próprio Filho para que não perecêssemos, mas tivéssemos a vida eterna (João 3.16).
            Se Deus se calasse para sempre depois da desobediência de Adão e Eva entenderíamos; se Deus nos ignorasse e deixasse-nos seguir o caminho para o inferno poderíamos entender. Mas não! Deus nunca se afastou de nós, nunca nos abandonou – Deus nos amou e continua falando conosco – “Havendo Deus nos falado ... continua a nos falar hoje!”
            Mas Deus falou e continua falando de duas maneiras: Deus falou por meio de seu juízo, condenando abertamente o pecado em todas as suas múltiplas formas, submergindo toda uma geração humana no dilúvio; derramando fogo e enxofre sobre as depravadas cidades de Sodoma e Gomorra e mesmo Israel e Judá tiveram que ouvir a terrível voz do juízo de Deus sobre suas vidas e suas cidades, incluído seus templos, deixando claro que Ele jamais compactua com o pecado, mesmo quando revestido de uma fina camada de religiosidade.
Mas Deus falou e continua falando através de Sua graça e misericórdia – em meio ao diluvio preservou Noé e sua família; tirou Abraão da fabrica de ídolos; preservou Ló e suas filhas da destruição de Sodoma; libertou os israelitas da escravidão do Egito por meio de Moisés e supriu todas as suas necessidades em meio ao deserto; falou-lhes através da Lei (Torá/Instrução), falou-lhes através dos sacrifícios levítico e através de cada uma de suas festas; e levantou continuamente no meio deles Seus profetas como sua boca, para alertar e despertar o povo; falou-lhes ao trazê-los de volta do cativeiro babilônico; e finalmente lhes falou diretamente através do próprio Filho - “havendo Deus falado antigamente muitas vezes e de muitas maneiras aos pais pelos profetas” – a voz de Deus jamais se calou!
            Hoje Deus continua nos falando por meio do Filho – Jesus Cristo! Quem não houve Jesus jamais ouvira a Deus. Ouvir a Cristo é ter vida em abundância, não ouvi-lo é permanecer no caminho da morte. Nunca houve e jamais haverá qualquer alternativa para mim e para você fora de Jesus – “importa morrer uma só vez e depois disso o juízo”. Jesus morreu a nossa morte, para que pudéssemos ter a sua vida e se você OUVIR a sua voz hoje, não ENDUREÇA seu coração! Ouça a voz de Jesus e viva!
           

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/


Referências Bibliográficas
BEGG, Clifford N. Estudos sobre o livro aos hebreus. Portugal, Barreio: Edição de Espada do Senhor, s/d.
BORCHERT, Gerald L. A Superior Book: Hebrews. Review and Expositor 82 (Summer 1985) 319-323.
BRUCE, F. F. La epístola a los Hebreos. Trad. Marta Márquez de Campanelli y Catharine Feser de Padilla. Grand Rapids, Mich. EE. UU. de A.: Nueva Creación, 1987.
CALVINO, João. Exposição de Hebreus. Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: Edições Paracletos, 1997. [Comentário à Sagrada Escritura].
CESAREIA, Eusébio. História Eclesiástica. Rio de Janeiro: CPAD.
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DELITZSCH, Franz. Commentary on the Epistle to the Hebrews. 2 vols. Reprint ed. Minnesota: Klock and Klock, 1978.
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HEEN, Erik M. e KREY, Philip D. La Bíblia Comentada Pelos Los Padres de La Iglesia Hebreos. Madrid, Espana: Editorial Ciudad Nueva, s/d.
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HOBBS, Herschel H. A carta aos Hebreus. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1958.
HURST, L.D. Apollos, Hebrews, and Corinth: Bishop Montefiore's Theory Examined. Scottish Journal of Theology 38 (1985): 505-513.
INGLEBY, James Henry. Estudos sobre a epístola aos hebreus. Tradução de José Rodrigues Couto. Lisboa: Imprensa Portuguesa, 1951.
LIGHTFOOT, Neil R. Jesus Christ Today. Abilene, Bible Guides, 1976.
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MILLIGAN, R. The Epistle to the Hebrews. New Testament Commentary, 9. St. Louis: Christian Board of Publication, 1875.
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WESTCOTT, B. F. The Epistle to the Hebrews. Londres: Macmillan & Co., 1892. [segunda edição].



[1] Nestes últimos dias ou no fim destes dias é a tradução literal de uma expressão hebraica comum encontrada em Números 24.14, que está prenha de conceitos messiânicos.
[2] - New Jerusalem Bible.

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