quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Pentateuco: Por Que Temos que Ouvir Moisés Hoje?



            Os cristãos tem uma tendência natural para minimizar o valor do Primeiro Testamento e particularmente o Pentateuco e/ou Lei de Moisés.[1] Na mentalidade cristã ocidental é difícil encontrar muito sentido nesse conjunto de leis que foram dadas aos israelitas a milhares de anos atrás. Afinal temos o Segundo Testamento e tudo que um bom cristão precisa saber está contido nele. O fato de que a revelação de Deus é progressiva e que toda Escritura é inspirada igualmente por Deus fica bem nos livros de teologia, mas na práxis cristãs isso está muito longe de ser uma realidade.
Nos próprios púlpitos evangélicos muito pouca atenção recebem as literaturas contidas no Primeiro Testamento. Mesmo aqueles que ainda mantêm uma tradição de pregação expositiva a preferência é muito maior pelas literaturas neotestamentárias do que pelas veterotestamentárias.  E destas últimas há uma seletiva escolha, evitando o quanto possível as literaturas mais antigas mosaicas, quando muito expondo alguns capítulos “chaves” e/ou “messiânicos” destes cinco primeiros livros da Bíblia. A Torá, mais precisamente o Pentateuco é o centro do Primeiro Testamento e parte essencial da Bíblia. Esta simples apreciação deveria estimular a sua leitura. Por esta razão creio que a pergunta deste artigo deve ser respondida com acuidade: Por que temos que ouvir Moisés hoje?
            Evidente que um simples artigo não é suficiente para abordarmos todos os ângulos desta questão, mas a pretensão é apenas despertar o interesse dos leitores para uma revalorização destas literaturas mosaicas que se constituem na verdade no fundamento de todo o processo escriturístico bíblico inspirado.
            Inicialmente é preciso resgatar o sentido correto do termo Torá, tão caro aos israelitas, mas completamente desconhecidos pelos leitores cristãos. Para isso é necessário uma interpretação dos textos bíblicos dentro de sua moldura histórico-social, partindo sempre do valor intrínseco e extrínseco da própria Torá em sua formatação canônica, pois quando saímos desta formação canônica adentramos em caminhos movediços e todos os nossos esforços produziram pouco ou quase nenhum resultado substancial e edificante. Os caminhos fora da concepção canônica da Torá são excelentes campos acadêmicos para toda sorte de desvarios teóricos e hipotéticos que colocam os holofotes nestes viajantes e seus personalismos (carreiras acadêmicas e literárias), mas escondem o valor infinitamente maior do próprio texto e sua mensagem nele contida. A genuína exegese e hermenêutica é aquela em que o texto é maior do que aquele que se esforça em interpretá-lo.
            Em algum tempo a Torá passou a ser conceituada como “Lei” e gradativamente foi se constituindo no contraponto do “Evangelho”. Mas esta interpretação perdeu muito de sua força ao longo dos últimos anos, todavia serviu para se criar um preconceito em relação à Torá por parte dos cristãos de forma geral.
            A palavra “torah” originalmente está relacionada ao ensinamento dos pais aos seus filhos pequenos de forma a introduzi-los nos caminhos da vida e evitar os caminhos de morte (Pv 1.8; 6.20; cf. 4.1s; 31.26). O termo foi evoluindo em seu sentido e passou a se referir à orientação, instrução e normas que deveriam ser acatadas por todos os israelitas. A Torá tornou-se o instrumento tanto dos sacerdotes quantos dos profetas para ensinar e corrigir o povo e a própria nação em relação à vontade de Deus. É pela Torá que a nação foi julgada e somente pelo arrependimento sincero e o retorno à Torá é que se torna possível sua restauração à comunhão com Deus. Todo o culto e sacrifícios alienados da obediência à Torá torna-se escarnio contra Deus. Quando Esdras retorna para Jerusalém sua função é de trazer o povo à consciência da Torá. O salmista compõe o mais longo de todos os salmos canônicos dedicado totalmente à importância da Torá para a vida do genuíno fiel piedoso.
            Portanto, a Torá não é apenas um código frio e insensível de Leis religiosas, mas a Palavra de Deus que ensina, edifica e atraia o piedoso israelita e deve atrair todo genuíno cristão à usufruir uma comunhão pacifica com Deus. Naquele tempo através de sacrifícios e hoje através de Cristo – o sacrifício perfeito.
            O conceito puramente legalista da Torá está fortemente vinculado ao preconceito contra o judaísmo, que desde os primórdios sempre se opôs fortemente e até violentamente (cf. Saulo de Tarso) contra os cristãos. Este antagonismo pela Torá ficou mais evidenciado após o chamado período iluminista. Uma resposta positiva é resgatar a unidade que existe entre a Lei e a Aliança – não há Aliança sem a Lei assim como a Lei perde totalmente seu sentindo sem o contexto da Aliança. Deste modo ninguém tem autoridade para separar o que Deus perfeitamente uniu. O Evangelho é a expressão plena da Torá, assim como Jesus Cristo é a expressão máxima de Deus.
            Ainda que originalmente a Torá tenha sido designada a um povo especifico – Israel/Judá, com a qual estabelece uma Aliança, ela nunca ficou restrita, pois sua aplicação deveria ser expandida a todos os povos. O debate ocorrido em Atos 15 não se refere abolição da Torá, mas a não colocar sobre os cristãos gentios a carga cultural judaica e as lideranças da jovem igreja cristã ali reunida conseguiram se aperceberem disso.
Em nenhum momento algum escritor bíblico faz qualquer menção de que a Torá é apenas para os judeus e isso por si só deve nos levar ao máximo de cuidado quando minimizamos sua relevância para os nossos dias. O evangelista Mateus enfatiza que nenhum ponto da Torá deve ser refutado como desnecessário (Mt 5.17ss) e que todos os discípulos devem observá-la e obedecê-la (Mt 23.2). Igualmente Paulo, apóstolo dos gentios, declara explicitamente que a Torá é “santa, justa e boa” (Rm 7.12) e que não há qualquer contradição entre a Lei e o Evangelho que ele anunciava – tanto a judeus quanto a gentios. A valorização e observância da Torá não implica em que o cristão torna-se judeu.
O grande perigo de se relativizar e minimizar o valor intrínseco e extrínseco da Torá e de toda literatura do Primeiro Testamento é perder de vista que há um único Deus que se expressa tanto no Primeiro quanto no Segundo Testamento, assim como uma única Aliança que se renova na pessoa e obra de Jesus Cristo.
Outro perigo é que ao abandonarmos a Torá empobrecemos a significância do próprio Evangelho que nela se fundamenta. O menosprezo pela Torá é apenas um reflexo do menosprezo pelo próprio Evangelho. Ao resgatarmos o valor da Torá estaremos contribuindo para uma valorização do próprio Evangelho.
Mas a desvalorização da Torá não é privilégio de nossos dias, pois desde os dias posteriores de Moisés o povo israelita sempre teve dificuldade em aperceber o quanto Deus leva a sério Sua Palavra. Um extrato desse relaxo com a Torá está nas profecias de Oséias (séc. VIII a.C.) quando ele declara como boca de Deus aos israelitas de seus dias: “Ainda que eu lhes escreva de mil maneiras as minhas leis, elas são consideradas como algo estranho para eles” (Os 8.12 [perícope - 8.1-14]). O profeta conhece e reconhece as “leis” (Torá) de Deus, mas para seus ouvintes os israelitas (efraimitas) elas se tornaram estranhas. O mais lamentável é que a função dos sacerdotes era justamente instruir e fazer lembrar a Torá no coração e na mente do povo, mas Oséias e seus demais companheiros profetas são obrigados a confrontar esta nefasta deficiência, com raríssimas exceções, sacerdotal. E como ecoando através dos séculos os profetas repetem sistematicamente as palavras do velho sacerdote Samuel ao negligente rei Saul – “obediência [aos mandamentos] é muito melhor do que sacrifícios”. Mas se antes o sacerdote Samuel era a consciência do rei Saul, nos dias de Oséias a realidade era completamente outra e os profetas tinham que ser a consciência tanto dos sacerdotes quanto do próprio povo. E se o profeta Oséias, bem como seus colegas do século VIII, reconhece essas “mil maneiras” das leis de Deus, é possível pensar que elas estão preservadas em forma escrita e acessível, mas elas são vistas em Israel como algo estranho {zãr) o que incorre em desvios da vontade expressa de Deus e portanto danoso e perigoso para a nação e o próprio povo.
Nos dias de Jesus a situação não é diferente, pois em determinado momento de seu ministério em que seus adversários religiosos fazem diversas e infundadas acusações contra Ele, a resposta de Jesus foi: “vocês erram, pois não conhecem as Escrituras, e são elas que testificam de mim”. O judaísmo, com algumas poucas exceções, havia se emaranhado em uma teia de tradições orais, a ponto de perder contato com as Escrituras de fato. E por abrirem mão da Torá (aqui já englobando toda literatura do Primeiro Testamento) os judeus haviam perdido a capacidade de discernir entre o genuíno e o falso – e quando isso ocorre o falso acaba por predominar. A incapacidade deles em aceitarem Jesus Cristo como o Messias era decorrente do abandono deles da Torá em favor das normas produzidas por eles mesmos e que alimentava toda a estrutura religiosa deles, as quais Jesus sempre contestou e quando Ele confronta esta religiosidade judaica com a expressão “está escrito” é justamente contrapondo a Torá às múltiplas leis produzidas nas entranhas do judaísmo e que serviam apenas para sustentar o sistema religioso centrado no Templo e não no Deus do templo.
Todos os cristãos de no mínimo três séculos tiveram como única literatura bíblica a Torá (Primeiro Testamento). Somente no século IV da era cristã o Segundo Testamento foi definitivamente estabelecido, mas jamais desassociado do Primeiro. Essa junção entre o Primeiro e o Segundo Testamento demonstra o valor que a Torá reteve entre as primeiras gerações de cristãos e que somente foi se esvaindo na mesma proporção em que a própria Igreja Cristã foi se emaranhando (assim como ocorreu com o judaísmo no tempo de Jesus) em suas próprias “leis” e “tradições” eclesiásticas.
Lamentavelmente hoje a Torá, mais especificamente o Pentateuco, tornou-se para o cristão do século XXI algo estranho (como nos dias de Oséias). A desvalorização da Torá, bem de como todo o Primeiro Testamento, é proporcional à desvalorização da própria concepção de Deus na mente e no coração dos cristãos pós-moderno. A banalização de Deus na prática  vivencial do cristianismo atual revela a total indiferença e desconhecimento das Escrituras e mais acentuadamente suas primeiras literaturas. O que Marcião (Marcion) tentou no segundo século cristão e fracassou, rejeitar toda literatura do Primeiro Testamento, os cristãos do século vinte e um têm feito na prática – esvaziando as primeiras literaturas bíblicas de seu valor e relevância para a fé e prática. E a Torá que para Paulo e as primeiras gerações de cristãos era algo tão precioso, para as gerações modernas e pós-modernas tem sido tratado como algo estranho e descartável. Não sem razão vivemos tempos em que a fé cristã tem perdido dia-a-dia sua capacidade de luz e sal da terra.
Modificando um pouco a pergunta inicial desse artigo: Ainda hoje somos capazes de ouvir Moisés?

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas
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[1] Os estudos sobre o Pentateuco mudaram radicalmente nesses quinze ou vinte anos. Desmoronou-se o paradigma alicerçado pela teoria documentária, e ainda não veio à luz um novo paradigma.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Pentateuco: Cristologia



Gênesis
Cristo como Criador: O primeiro verso do Pentateuco (Gn 1.1) institui Deus como o criador de todas as coisas e o texto procede e consolida os eventos em seis dias. Encontramos em Gênesis 1.26 uma declaração plural: “Façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança”. Esta frase faz referência a uma pluralidade na Divindade. O Evangelho de João inicia com uma declaração de que Jesus estava no principio da Criação (1.1-3). E Paulo uma vez mais conecta Jesus diretamente ao ato da Criação (Cl 1.15-17).
Cristo como Messias (Salvador) - imediatamente à queda, a promessa de salvação é proclamada através da semente da mulher (3.15), e esta mensagem messiânica é reiterada ao longo de todo o livro: a linhagem de Sete (4.25), a descendência de Sem (9.26), a descendência de Abraão (12.3), a descendência de Isaque (26.3), os filhos de Jacó (46.3) e a tribo de Judá (49.10).
Tipos[1] de Cristo - há alguns personagens que retratam o Salvador em Gênesis. a) Adão é um tipo de Cristo (Rm 5.14).  Como Adão é o cabeça da velha criação, assim Cristo é o cabeça da nova criação que é espiritual;[2]  b) o assassinato de Abel por Caim também ilustra a morte de Cristo; c) Isaque é visto como o filho da promessa;[3] d) Melquizedeque também é um tipo de Cristo (cf. Heb.7.3);[4] e) José que foi amado afetuosamente pelo pai, traído pelos irmãos, e tornou-se o meio da libertação deles, simboliza o Cristo.
Êxodo
Porquanto no livro do Êxodo não temos nenhuma profecia direta de Cristo, todavia há vários tipos do Salvador.
·         em muitas formas, Moisés é um tipo de Cristo.  Em Det. 18.15 vemos que Moisés, como um profeta se antecipa ao Cristo.  Ambos são príncipes-redentores que quase foram mortos na infância, renunciaram o poder deles para servir a outros, e funcionaram como mediadores, legisladores e libertadores;
·         a Páscoa é um tipo muito específico de Cristo, o Cordeiro sem pecado de Deus (João 1.29,36; I Co 5.7);
·         as sete festas em que cada uma retrata algum aspecto do Salvador;
·         Êxodo em que Paulo faz a conexão com o batismo, e mostra a nossa identificação com Cristo na sua morte e ressurreição (I Co 10.1-2; Ro 6.2-3);
·         Maná e Água da rocha são ambos retratados como quadros de Cristo (João 6.31-35, 48-63; I Co 10.3-4);
·         Tabernáculo aponta para o Salvador em cada um de seus detalhes. material, cores, mobília, arranjo, bem como nas ofertas e sacrifícios ali realizados (Hb 9.1-10.18);
·         Sumo-Sacerdócio tipifica a pessoa e ministério de Cristo de modo bem claro (Hb 4.14-16; 9.11-12, 24-28).
Levítico
Como no Êxodo, encontramos vários tipos de Cristo aqui.
·         as Cinco Ofertas simbolizam a pessoa e obra de Cristo e sua vida sem pecado.
·         as Sete Festas como já foi mencionado, também formam um tipo do Salvador.
·         Cristo como nosso sumo sacerdote (Heb. 8–9)
·         Jesus como o sacrifício de uma vez por todas pelo pecado (Hb 10).
Números
            Aqui temos algumas tipologias mais extraordinárias sobre a pessoa de Jesus das quais Ele cita algumas delas.
·         talvez em nenhum outro lugar se dá um retrato mais claro de Cristo e sua crucificação que na figura da serpente de bronze erguida no meio do acampamento israelita no deserto (cf. Nm.21.4-9 com João 3.14);
·         a roxa da qual jorrou água e saciou a sede dos israelitas no meio do deserto é um tipo de Cristo (I Cor.10.4);
·         o maná diário revela Cristo como o pão que desce do céu (João 6.31-33);
·         a coluna de nuvem e fogo retrata a direção de Cristo e as cidades de refúgio certamente ilustra Cristo como o nosso refúgio do julgamento;
·         finalmente, o novilho para o sacrifício também é um tipo de Cristo (19)
Deuteronômio
A declaração de Moisés em 18.15 é um dos retratos mais claros de Cristo. “O SENHOR, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás,...”. É importante lembrar que Moisés era único entre os profetas como ministro da aliança de Deus (Nm 12.6–8; Dt 34.10–12). Os demais profetas eram mensageiros do processo da aliança (profetas subsequentes). Deus havia levantado o profeta Moisés para mediar sua aliança com Israel; ele levantaria outros profetas para levar o processo da aliança - para lembrar o povo de obedecer à aliança ou para anunciar punições de aliança incorridas por sua desobediência.

Esta breve pesquisa de referências cristológica no Pentateuco não pretende, de forma alguma, ser exaustiva. Jesus indica que a totalidade do Primeiro Testamento diz respeito a Ele (Lc 24.27). Nós estamos apenas arranhamos a superfície.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/



Referências Bibliográficas
Autores que Aceitam a Unidade e Autoria Mosaica
YOUNG, Edward J. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Ed. Vida Nova, 1964.
FRANCISCO, Clyde T. Introdução do Velho Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1969.
ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento. São Paulo: Ed. Vida Nova, 199.
ELLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento. São Paulo: Ed. Vida, 1996.
LASOR, W.S., HUBBARD, D. A. & BUSH, F.W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Ed. Vida Nova, 1999 (com reservas).
Autores que Rejeitam a Unidade e Autoria Mosaica
HOMBURG, Klaus. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Ed. Sinodal, 1975.
BENTZEN, Aage. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo, ASTE, 1968. [2 volumes].
SELLIN, E. & FOHRER, G. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Ed. Paulinas, 1978. [2 volumes].
1.4. SCHMIDT, Werner H. Introdução ao AT. São Leopoldo (RS): Ed. Sinodal, 1994.





[1] No Antigo Testamento encontram-se pessoas, instituições, lugares, cerimônias e acontecimentos que prefiguram correspondentes pessoas, objetos, etc. no Novo Testamento. (ver I Coríntios 10.1-4; Hebreus 8.4,5; 9.8,9; 10.1-12).  Chamam-se tipos, símbolos ou figuras proféticas.    Para isto é preciso que reúna certos característicos. 1) Deve haver semelhança ou ponto notável de comparação entre o símbolo e o que este prefigura; 2) Tem de ser apontado como símbolo no Novo Testamento.  Isto é, tem de haver uma alusão ou referência neotestamentária tal como a declaração de Jesus – “Eu sou o pão da vida” – indicando que ele foi o cumprimento simbólico do maná (João 6.31-35); 3) Cada símbolo tem um único significado.  Por exemplo, o castiçal ou candeeiro do tabernáculo prefigura a Igreja como lâmpada (Apocalipse 1.20), mas não a Igreja e a Cristo ao mesmo tempo.
[2] “... Cristo corresponde a Adão no sentido antitético. Adão foi o autor da morte para todos; e Cristo foi o autor da vida para todos. A característica prefigurada em Adão foi a sua significação central e universal para a raça humana inteira, que se cumpriu em sentido muito mais elevado e com efeitos opostos na pessoa de Cristo, o homem absoluto e perfeito.” CHAMPLIN, RUSSELL NORMAN.  O Novo testamento Interpretado, v.3, Ed. Milenium, São Paulo, 1989, p.658.
[3]Isaque era o único dos três Patriarcas em quem os chamados Pais da Igreja viam uma figura de Cristo.  Os fatos da vida de Isaque que tem relação com a do Senhor Jesus seriam, segundo eles. 1) O Filho da Promessa. todo o Gênesis dependia do cumprimento da promessa feita a Abraão - de uma numerosa descendência.  É possível que Jesus se refere à alegria de Abraão quando do nascimento de Isaque, quando diz. “... Abraão alegrou-se por ver o meu dia, viu-o e regozijou-se.” (João 8.56).  Todavia, não viu mais do que o nascimento de Isaque, porém este primeiro cumprimento da promessa preparava e anunciava outro nascimento, mais milagroso ainda, que traria alegria para o mundo todo.  2)O Filho Sacrificado. no registro de Gênesis temos a descrição do drama - na ordem de Deus “Toma a teu único filho, a quem amas ... e oferece-o em holocausto no monte.”; nas palavras de Isaque “Onde esta o cordeiro para o sacrifício”; e somente no último minuto o filho é livrado da morte.  O Senhor Jesus, o Filho Unigênito, o Cordeiro de Deus, depois de levar a cruz, será imolado. E no mesmo monte onde Abraão leva Isaque para o sacrifício, se proclama de novo a mensagem da Promessa; a morte na cruz, longe de ser  o fim, é o ponto de partida da ressurreição e fonte de vida.  Assim, não é estranho que os Pais da Igreja tenham visto em Isaque uma figura de Cristo.    
[4] “Melquisedeque ‘representa’ as qualidades ‘possuídas’ pelo Filho de Deus, pois ele é seu ‘tipo simbólico’. Não possuía em si  mesmo tais qualidades.  No dizer de Newell (in loc.). ‘Aquilo que Cristo é ‘realmente’, Melquisedeque é apenas na ‘aparência’; e isso é tudo quanto fica exigido’.  ‘A inferência é que o silêncio (nas páginas do A.T.) é intencional e significativo’ (A.C. Kendrick, Hebrews, pg.86).  Por igual modo, Westcott (in loc.), supõe que o autor sagrado dá grande importância ao ‘silêncio’ que há nas páginas do A.T. acerca dos primórdios e do destino de Melquisedeque.  Entretanto, ele vê essa importância no ‘uso profético’ que o autor sagrado faz sobre essa passagem, e não que o escritor original do livro de Gênesis tivesse visto qualquer importância na omissão desse material, tendo querido subentender elementos sutis da verdade, através de tal silêncio.  E não duvidemos que isso expressa a verdade do caso.” CHAMPLIN, RUSSELL NORMAN.  O Novo testamento Interpretado, v.5, Ed. Milenium, São Paulo, 1989, p.551.


segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Hermenêutica: As Primeiras Escolas de Interpretação - Antioquia



A escola de Antioquia da Síria surgiu em oposição à de Alexandria, que dominou a hermenêutica bíblica nos primeiros séculos. Ela foi uma tentativa de coibir os abusos da espiritualização e apontar um caminho mais seguro, especialmente, quanto à leitura do Antigo Testamento. O fundador dessa escola foi Luciano de Antioquia (240-312 d.C.), a quem se atribui (apesar da falta de evidências) a tentativa de uniformização dos textos gregos existentes que deram origem ao texto Bizantino ou Sírio. Credita-se, assim, a Luciano o mérito de ter dado início a uma rica tradição de estudos bíblica marcada pela erudição e pelo conhecimento das línguas originais. A escola de Antioquia rejeitou a alegorese e sustentou que o texto bíblico deveria ser interpretado em seu sentido literal (histórico) a não ser que a passagem demonstrasse claramente tratar-se de uma alegoria. Quanto àquelas passagens, notadamente as profecias, em que se percebiam um sentido oculto e profundo além do literal, desenvolveram um conceito que ficou conhecimento como teoria. Vejamos a seguir os maiores expoentes da Escola de Antioquia.
2.1. Principais Representantes
Deodoro de Tarso (390 d.C.)
Escreveu um tratado intitulado Qual é a diferença entre contemplação e alegoria? No qual defende a “contemplação” ou theoria contra a alegoria que parecia impor um sentido forçado ao texto bíblico.
Ele também escreveu um comentário dos Salmos em que tentava explicar os princípios hermenêuticos sadios para a boa compreensão dos Salmos, procurando, assim, interpretá-los dentro do seu contexto histórico.
Teodoro de Mopsuéstia (350-428 d.C.)
Considerado o maior exegeta antioquiano, de acordo com Altaner (1988, p. 322), Teodoro comentou “com extraordinária sagacidade critica, nada comum na Igreja Antiga, quase toda a Bíblia”. Ele escreveu um tratado contra a interpretação alegórica chamada “Conceming allegoiy and history against Origen”, no qual obviamente criticava a interpretação de Orígenes. Na sua própria abordagem, ele procurou focalizar o sentido natural e literal, utilizando uma interpretação que mais tarde seria denominada gramático-histórica. Esta abordagem é evidenciada em sua obra sobre os salmos, em que procurou reconstruir as ocasiões prováveis nas quais os salmos foram escritos e tentou estabelecer o significado original pretendido pelo autor. Teodoro também limitou bastante o número de textos do Antigo Testamento que falam de Cristo, o que lhe rendeu a acusação de “judaizante” (como também mais tarde seria acusado Calvino). Além disso, ele tentou explicar textos, como a alegoria feita por Paulo em Gálatas 4.21-31, e a alegoria de Zacarias a Zorobabel (Zc 4.6-10), defendendo a tese de que a Escritura é um texto de camadas superpostas, por isso tanto o significado da história, bem como do evangelho, devem ser preservados na interpretação. As aparentes discrepâncias ele atribui à linguagem hiperbólica dos escritores que encontra pleno conhecimento em Cristo. Portanto, apesar de ele aceitar o elemento tipológico na Bíblia e encontrar passagens messiânicas nos salmos, explicou a maioria delas do ponto de vista histórico.
João, o Crisóstomo (407 d.C.)
“Crisóstomo” significa Boca de Ouro, apelido que João recebeu depois de sua morte e que é justificado pelo seu extraordinário dom da oratória. Renunciou a carreira de advogado para tornar-se monge. Após alguns anos vivendo nas montanhas, entre monges, numa vida austera, a ponto de prejudicar sua saúde, voltou a Antioquia onde foi ordenado diácono (381), presbítero (386) e nomeado para o ofício de pregador, função que exerceu por doze anos (397). Sua fama de pregador cresceu tanto que foi obrigado pelo Imperador a aceitar o bispado de Constantinopla (398). Apesar da vida conturbada, fruto das polêmicas nas quais se envolveu e que resultaram num exílio, ele produziu uma vasta obra literária composta fundamentalmente de sermões, mas também de alguns tratados e consideráveis números de cartas.
As homilias de Crisóstomo versam sobre aspectos doutrinais, polêmicos e exegéticos. Nas exegéticas, ele comentou grande número dos livros da Bíblia procurando explanar o sentido histórico dos textos. Crisóstomo defendia o princípio de que leituras alegóricas ou místicas dos textos bíblicos só deveríam ser admitidas se os próprios autores as sugerissem. Desta forma, “seus sermões eram exegéticos e eminentemente práticos. Fascinava nele a compreensão simples e gramatical das Escrituras” (WALKER, 1983, p. 188).
2.2. Considerações
À luz do exposto, fica evidente que a Escola de Antioquia tinha sérias restrições à leitura alegórica, mesmo se tratando de tipologia. Por outro lado, eles estavam conscientes das dificuldades com algumas passagens, especialmente as profecias do Antigo Testamento, pois não podiam negar que o sentido literal-histórico, às vezes, apontava para um sentido mais elevado, o sentido anagógico (escatológico). Este sentido é denominado de theoria, termo que designava o “estado mental dos profetas, quando recebiam visões [...] é uma instituição ou visão pela qual o profeta pode ver o futuro através das circunstâncias presentes” (LOPES, 2004, p. 136). Este princípio permitiu aos exegetas antioquianos conceber um sentido mais elevado para certas passagens sem, contudo abrir mão da âncora do sentido literal. Lopes (Idem, p. 135-236) resume os princípios de interpretação de Antioquia nos seguintes tópicos:
1. Sensibilidade e atenção ao sentido natural do texto
Era uma abordagem que poderia ser chamada de "gramático-histórica". Esse termo só apareceu após a Reforma, mas os princípios que caracterizavam esse tipo de interpretação já estavam presentes em Antioquia: procurar alcançar o sentido do texto através da busca da intenção do seu autor considerando o contexto histórico em que foi escrito.
2. Desenvolvimento do conceito de theoria
Esse termo designava o estado mental dos profetas em que recebiam as visões, em oposição à alegoria. Era uma intuição ou visão pela qual o profeta podia ver o futuro através das circunstâncias presentes. Depois da visão, era possível para ele descrever em seus escritos tanto o significado contemporâneo dos eventos como seu cumprimento futuro. A theoria era o princípio usado pelos antioquianos para se descobrir um sentido além do literal nas palavras dos profetas do Antigo Testamento, permanecendo-se fiel ao seu sentido natural.
3. Não negavam o caráter metafórico de algumas passagens
Reconheciam que havia um sentido mais profundo nas profecias do Antigo Testamento e que havia tipologias, como a que Paulo fez em Gálatas 4.21-31. Entretanto, afirmavam a historicidade da narrativa veterotestamentária e procuravam em seguida descobrir o sentido teológico da mesma.
4. Buscavam determinar a intenção do autor
Isto era feito pela atenção cuidadosa ao sentido histórico das palavras em seu contexto original.
5. Eram contra descobertas arbitrárias de Cristo no Antigo Testamento
Tais como as feitas pela alegorese (alegoria) alexandrina. Concordavam que Cristo estava presente nas Escrituras do Antigo Testamento, mas reagiam contra a ideia de que cada palavra, evento, numero, personagem ou instituição poderiam ser interpretados de forma alegórica de modo à sempre se encontrar Cristo nelas.

Manual de Hermenêutica Bíblica
Me. Israel Sifoleli
Mestre em Ciências da Religião
Docente da Faculdade Latino-americana
(FLAM)

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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Pentateuco: Autoria Mosaica



A partir do século XVIII com o movimento racionalista[1] tudo que se relaciona com a Bíblia foi criticado e rejeitado. Os primeiros livros a serem radicalmente exumados pela crítica racionalista foram aqueles que compõem a primeira divisão da Bíblia e que é chamado de Pentateuco[2] (cinco rolos) que vão de Gênesis ao Deuteronômio.
            No transcorrer dos tempos levantou-se certa escola de críticos que discordaram da autoria mosaica e por um processo de “estudo científico” (porém nunca comprovada cientificamente) concluíram, deles para eles mesmos, que o Pentateuco não passava de uma coleção misturada de histórias, muitas delas inventadas e amarradas por um conjunto de editores.[3] Estes críticos estão dispostos a atribuir fraude e conspiração dos autores bíblicos, que buscavam aceitação de seus escritos, que segundo eles foram compostos no período de Josias e em parte em Esdras e Neemias, e depois distribuídos como sendo o trabalho de Moisés.  Aqui não é o lugar para entrarmos em detalhes destas teorias.  Mas afirmamos claramente, que estas “críticas” degradam os livros do Velho Testamento e os coloca ao nível dos demais escritos meramente humanos e por isso mesmo falível, e que as argumentações destes “críticos” são especulações completamente insustentáveis.  Inclusive entre eles próprios não há um consenso chegando-se a conclusões totalmente conflitantes.[4]
As evidências em favor da autoria Mosaica do Pentateuco são conclusivas.  Vejamos brevemente algumas delas.
Evidências Testamentárias
§  Nos próprios livros do Pentateuco encontramos declarações de que Moisés os escreveu no nome de Deus ou por ordem direta de Deus (Êx.17.14; 24.3,4,7; 32.7-10, 30-34; 34.27; Lev.26.46; 27.34; Deut.31.9,24,25).
§  No tempo de Josué até o tempo de Esdras há no intermédio os livros históricos, onde constantemente vemos referência ao Pentateuco como o “Livro da Lei de Moisés”.  Este é um ponto de muita importância, já que os críticos negam que há qualquer referência, negando assim o caráter histórico do Pentateuco.  Como cumprimentos à Páscoa, por exemplo, frequentemente achamos alusões nos livros históricos que seguem o Pentateuco e mostra que a “Lei de Moisés” foi conhecida desde então.  A Páscoa era celebrada pelo tempo de Josué (Js.5.10, cf. 4.19); Ezequias (II Cr.30); Josias (II Re.23; II Cr.35), e Zorobabel (Ed 6.19-22), e há referências em passagens tais como II Reis 23.22; II Crônicas 35.18; I Reis 9.25 (“três vezes por ano”); II Crônicas 8.13.  Igualmente poderíamos citar referências frequentes à Festa dos Tabernáculos e outras instituições judaicas, embora nós não admitimos que qualquer argumento válido possa ser tirado do silêncio da Escritura em tal caso.  Um exame dos textos seguintes, I Reis 2.9; II Reis 14.6; II Crônicas 23.18; 25.4; 34.14; Esdras 3.2; 7.6; Daniel 9.11,13, também mostrarão claramente que a “Lei de Moisés” era conhecida durante todos estes séculos.
§  Referência expressa à lei escrita de Moisés é encontrada unicamente nos últimos Profetas (Dn 9.11, 13; Ml 4.4. Os outros Profetas frequentemente referem à lei do Senhor observado pelos pais (cf. Dt 31.9), e eles colocaram isto no mesmo nível da Revelação Divina e do governo eterno do Senhor. Eles apelam ao governo de Deus, às leis do sacrificial, ao calendário de banquetes, e outras leis do Pentateuco, indicando que provavelmente havia já em seus dias uma legislação escrita, que se constituía no fundamento de suas pregações proféticas (cf. Os 8.12), e que eles conheciam pessoalmente expressões verbais do livro da lei. Assim tanto Amós no reino do norte (4.4-5; v, 22 ss...) como Isaías no sul (1.11 ss...) empregam expressões que são praticamente palavras técnicas para sacrifício que ocorrem em Levíticos (cap. 1 a 3; 7.12, 16; e Dt.12.6).
§  O Senhor Jesus endossou, sem qualquer dúvida, a autoria Mosaica destes livros (Mt. 5.17,18; 19.8; 22.31,32; 23.2; Mc.10.9; 12.26; Lc.16.31; 20.37; 24.26,27,44; Jo.3.14; 5.45-47; 6.32,49; 7.19,22).  Diante destes fatos, alguém alegaria que Cristo era ignorante da composição da Bíblia, ou que, conhecendo o verdadeiro estado do caso, Ele ainda encorajou as pessoas a crerem numa mentira?
Testemunho Histórico
Tanto quanto se refere à tradição, Judaica ou Cristã, são unânimes e constantes em proclamarem a autoria de Mosaico do Pentateuco.  E até o século XX não se levantou qualquer dúvida sobre este ponto. Os seguintes parágrafos estão unicamente uma amostra delinear desta tradição viva.
Tradição Judaica
Os tradutores Gregos da Versão da Septuaginta consideravam Moisés como o autor do Pentateuco todo. No primeiro século da era Cristã, Josefos atribui a Moisés a autoria do Pentateuco inteiro, não salvo a conta de morte do legislador ("Antiq. Jud.", IV, viii, 3-48; cf. I Procem., 4; "Contra Apion.", I, 8). Também Philo, o filósofo Alexandrino, é convencido que o Pentateuco inteiro é um trabalho de Moisés, e que o último escreveu uma nota profética de sua morte sob a influência de uma inspiração divina especial ("De vita Mosis", ll. II, III em "Ópera", Geneva, 1613, pp. 511, 538). O Talmud Babilônico, o Talmud de Jerusalém,[5] os rabinos, e os doutores de Israel prestam testemunho ao prolongamento desta tradição aos primeiros mil anos. Embora Isaac ben Jasus no século décimo primeiro e Abenesra no décimo segundo permitiram certas adições postadas-mosaico no Pentateuco, ainda assim eles como Maimonides mantiveram a autoria Mosaico, e substancialmente não difere neste ponto do ensinado por R. Becchai ( final do décimo terceiro), Joseph Karo, e Abarbanel (décimo quinto). Unicamente no século vinte é que  Baruc Spinoza rejeitando a autoria Mosaico do Pentateuco, apontou a possibilidade que o trabalho poderia ter sido escrito por Esdras ("Trato. Theol.-politicus", c. viii, ed. Tauchnitz, III, p. 125). Dentre os escritores Judaicos mais recentes vários tem adotado os resultados dos críticos, abandonando assim a tradição de seus antepassados.
Tradição Cristã
A tradição Judaica concernente a autoria Mosaico do Pentateuco foi trazido à Igreja Cristã por Cristo e os Apóstolos. Desde então ninguém nega a existência e prolongamento de tal  tradição do período do patristicos; e no intervalo entre o tempo dos Apóstolos e o começo do século terceiro nós podemos apelar à "Epístola de Barnabe" a Clemente de Roma, a Justino, a Irineu, a Hipolito de Roma, a Tertuliano de Cartage, a Origines de Alexandria, a Eusthatius de Antioquia. Todos esses escritores, e inumeráveis outros, corroboram com a tradição Cristã de que Moisés escreveu o Pentateuco.
Consequências de uma Rejeição Mosaica do Pentateuco
Rejeitar a autoria de Moisés em relação ao Pentateuco é incorrer em grave e terrível perigo, que com certeza traria sérias consequências como algumas mencionadas abaixo:
§  A primeira consequência seria a rejeição de toda a evidência positiva, bíblica e extrabíblica, sobre a autoria do Pentateuco. Isto implica também que o testemunho do Novo Testamento e o próprio testemunho do Senhor Jesus Cristo torna-se um engodo e estaria aberta a porta da possibilidade de que Ele houvesse se enganado sobre outros assuntos. E isto seria feito não na autoridade de se haver encontrado provas mais antigas ou melhores, mas unicamente no interesse de uma teoria, que nunca foi coerentemente demonstrada.
§  Uma segunda consequência seria a admissão de que o período temporal-histórico de Moisés é fundamentalmente errôneo.  Moisés é uma figura proeminente.  Ele é mencionado mais de 500 vezes do Êxodo ao Deuteronômio.  Mas se todos os códigos legais do Pentateuco datam de um período cronológico totalmente desvinculado de Moisés e se a história ali narrada é recente e incerta, como afirmam estes teóricos, então ele se torna uma figura decididamente enganosa, e fica difícil se não impossível corresponder ao papel proeminente para o qual foi nomeado.  A reputação dele é vasta, mas as ações que servem como a base para isto não são consideradas como suas.  Deste modo, ele se torna um tipo de ficção legal.
§  Uma terceira consequência de se aceitar esta teoria seria a de adotar um critério baixo da autoridade e credibilidade da Bíblia.  Trazendo as Escrituras ao mesmo nível das demais obras literárias, do passado ou do presente.
A Importância do Pentateuco
            A importância destes cinco livros é incalculável.  Podemos compreender isto através destes cinco aspectos relacionados por Ellisen.
¨      Cósmico. explicam o cosmos dando o único relato antigo que identifica a “Primeira Causa”.  O princípio unificador do Universo, procurado às cegas pelos filósofos e clássicos, está compreendido na primeira sentença - “No princípio criou Deus...”.
¨      Étnico. Eles descrevem o começo e a expansão das três divisões raciais do mundo: oriental, negroide e ocidental.
¨      Histórico.  Esses livros são os únicos a traçar a origem do homem numa linha contínua a partir de Adão.  Todavia, não é sua intenção apresentar a história completa de todas as raças, mas sim um relato altamente especializado da implantação do reino teocrático no mundo e do plano de redenção da humanidade.  Nesse processo, a história de Israel remonta a Abraão, através de quem Deus prometeu a redenção.
¨      Religioso. Esses livros são fundamentais.  Retratam a Pessoa e o caráter de Deus, a criação do homem e sua queda, as alianças e promessas divinas de trazer a redenção através de um divino Redentor.
¨      Profético. Os livros do Pentateuco são a origem dos temas proféticos mais importantes da Bíblia. É a história centralizada no Messias associada à profecia centralizada no Messias. Apresentam em conjunto uma filosofia simétrica da história.  As profecias preenchem a interpelação histórica através das demais revelações.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
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Referências Bibliográficas
Autores que Aceitam a Unidade e Autoria Mosaica
YOUNG, Edward J. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Ed. Vida Nova, 1964.
FRANCISCO, Clyde T. Introdução do Velho Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1969.
ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento. São Paulo: Ed. Vida Nova, 199.
ELLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento. São Paulo: Ed. Vida, 1996.
LASOR, W.S., HUBBARD, D. A. & BUSH, F.W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Ed. Vida Nova, 1999 (com reservas).
Autores que Rejeitam a Unidade e Autoria Mosaica
HOMBURG, Klaus. Introdução ao Antigo Testamento. São Leopoldo: Ed. Sinodal, 1975.
BENTZEN, Aage. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo, ASTE, 1968. [2 volumes].
SELLIN, E. & FOHRER, G. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Ed. Paulinas, 1978. [2 volumes].
1.4. SCHMIDT, Werner H. Introdução ao AT. São Leopoldo (RS): Ed. Sinodal, 1994.


[1] Racionalismo é o uso da razão construindo teorias racionais para a própria razão crer como verdade última. Isto é, o próprio homem sendo fundamento de suas crenças religiosas e científicas.

[2] O termo “Pentateuco” se deriva de duas palavras gregas “pente” (cinco) e  “teucos”  (volumes). A palavra “teuchos” significa propriamente um instrumento.  Essa palavra veio a ser usada para designar um receptáculo para guardar rolos de papiros, e também para designar o próprio rolo.  Daí o seu sentido de volume ou livro.
[3] Esta teoria é chamada de hipótese documentária ou a teoria do JEDP. "J" representa Jehovah ou Yahweh, a fonte mais antecipada, escrita por volta de 900 a.C.; "E" representa a fonte chamada Elohim, escrito por volta de 800 a.C.; "D" representa a fonte Deuteronômica escrito já nos anos 621 a.C.; e "P" representa a fonte Sacerdotal, escritas no período de 500 a.C.
[4] Um dos primeiros a levantar dúvidas sobre a questão da autoria Mosaico do Pentateuco foi  Baruch Spinoza que insinuou em 1671 a possibilidade de seu autor ter sido Esdras.  Em 1753 Jean Astruc, um médico e professor da Faculdade Real de Paris, partindo de suas observações ao longo do livro de Gêneses, e até o 6º capítulo de Êxodo, encontra indícios de dois documentos originais, cada um caracterizado pelo uso distinto dos nomes de Deus; um pelo nome Elohim, e o outro pelo nome Jehovah.  Ele supôs então que Moisés utilizou-se de pelo menos mais dez outros documentos originais na composição da parte mais recente do trabalho dele, além destes dois documentos principais.  Neste caminho aberto por Astruc seguiu-se inúmeros escritores alemães e que por sua vez desdobrou-se em inumeráveis hipóteses.  Para maiores informações sobre o pensamento destes “críticos” veja o material de Clyde T. Francisco, Op. cit. pp.25-33.
[5] Há dois Talmuds, o palestino, datando do sec. 400 a.C, e o babilônico, datando do sec. a.C. 500. O Talmud babilônico contém a primeira lista definitiva de livros da Bíblia hebréia. Ambos os Talmuds contêm material que é comum seguindo uma forma semelhante de organização, embora também haja diferenças consideráveis em seus conteúdos. O Talmud é organizado debaixo de seis títulos longos, subdivididos em vários subtítulos. origens, pessoas designadas, mulheres, danos, coisas santas, e pureza. ELLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento. São Paulo: Ed. Vida, 1991, p.14.