domingo, 15 de fevereiro de 2026

Fundamento das Relações Interpessoais à Luz de Levítico & Isaías [Teologia]

Desde os primórdios da história de Israel, Deus estabeleceu normas que deveriam reger não apenas o culto, mas também as relações interpessoais. O livro de Levítico deixa claro que a santidade divina se traduz em mandamentos concretos que regulam a vida cotidiana: honestidade, justiça no trabalho, cuidado com os pobres e amor ao próximo. Em Levítico 19, Deus ordena: “Sereis santos, porque eu, o SENHOR vosso Deus, sou santo” (Lv 19.2) e, imediatamente, aplica essa santidade a práticas como não oprimir o trabalhador (Lv 19.13), não explorar o fraco (Lv 19.14), julgar com justiça (Lv 19.15) e amar o próximo como a si mesmo (Lv 19.18). Muito antes das modernas declarações de “direitos humanos”, Israel já havia recebido princípios divinos que garantiam dignidade, solidariedade e responsabilidade comunitária.

Séculos depois, o profeta Isaías retoma e aprofunda essa mesma exigência. Falando em nome do Santo de Israel (Is 1.4; 5.19), ele denuncia um povo que preservava rituais religiosos, mas desprezava a justiça e o cuidado com os necessitados. Em uma de suas críticas mais contundentes, o profeta proclama: “Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei o opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa da viúva” (Is 1.17). Para Isaías, Deus rejeita o culto desvinculado da ética (Is 1.11–15; 58.6–7). Assim, o profeta ecoa claramente Levítico: a santidade de Deus não se limita ao templo, mas deve moldar todas as relações humanas e sociais.

Essa compreensão também foi recuperada pelos reformadores protestantes. João Calvino, ao comentar Levítico e os profetas, insiste que não existe verdadeira piedade sem justiça e amor ao próximo. Em suas Institutas, ele afirma que a fé que justifica jamais permanece sozinha, mas produz uma vida de obediência e serviço (Institutas, III.16.1). Para Calvino, o culto que não gera transformação ética é ofensivo a Deus, pois a santidade divina exige uma vida íntegra diante de Deus e dos homens.

De modo semelhante, Martinho Lutero ensinava que a fé genuína necessariamente produz frutos visíveis no amor ao próximo. Em seu comentário à Epístola aos Gálatas, ele afirma que a fé viva é “uma coisa ativa”, que se expressa espontaneamente em boas obras. Em Da Liberdade Cristã (1520), Lutero resume essa tensão de forma clássica: o cristão é livre diante de Deus, mas servo de todos por amor. Assim, para Lutero, a santidade não é fuga do mundo, mas compromisso responsável com o próximo no cotidiano.

Essa herança bíblica e reformada confronta diretamente uma postura de falsa equidistância ética — uma tentativa de manter distância de tudo aquilo que incomoda e rompe a zona de conforto. Tal postura não é prudência cristã, mas covardia espiritual travestida de moderação; não nasce das Escrituras nem da teologia reformada, mas de um cristianismo meramente religioso, acomodado e inerte, que preserva formas de piedade enquanto recusa o peso da obediência. Esse mesmo espírito se revela no silêncio diante da corrupção latente e na passividade frente a uma justiça que, em vez de refletir a retidão de Deus, frequentemente se mostra compactuada com o poder e submissa aos interesses dominantes. Calar-se nessas circunstâncias não é neutralidade, mas conivência; não é sabedoria, mas omissão culpável.

Em muitos contextos evangélicos, observa-se uma forte ênfase em eventos, rituais e discursos religiosos, acompanhada de indiferença — ou mesmo letargia — diante da pobreza, da desigualdade, da exploração dos vulneráveis e das distorções morais que sustentam estruturas injustas. A denúncia de Isaías permanece atual, pois Deus rejeita uma religiosidade que convive pacificamente com a injustiça. Do mesmo modo, a tradição reformada, expressa em vozes como João Calvino e Martinho Lutero, insiste que a fé verdadeira jamais se acomoda ao erro dominante, mas confronta o pecado, tanto no coração humano quanto nas estruturas sociais.

Essa mesma advertência foi vivida de forma dramática por Dietrich Bonhoeffer, que testemunhou uma igreja amplamente silenciosa e, em muitos casos, submissa diante da ascensão e consolidação do regime de Adolf Hitler. Bonhoeffer denunciou aquilo que chamou de “graça barata” — uma fé que preserva o conforto religioso, mas abandona o custo do discipulado — e compreendeu que o silêncio da igreja não era mera fraqueza, mas participação indireta no mal. Para ele, quando a igreja se cala diante da injustiça, deixa de ser igreja no sentido pleno, pois renuncia à sua vocação de testemunhar a verdade de Deus contra toda forma de iniquidade. Seu testemunho revela que a omissão religiosa não apenas acompanha a corrupção, mas frequentemente a antecede e a sustenta, oferecendo-lhe legitimidade moral.

Assim, não basta professar fé ou participar de cultos; a santidade autêntica exige coragem moral, ruptura com o silêncio cúmplice e compromisso concreto com a justiça. Onde a fé não produz esse testemunho, resta apenas uma aparência de piedade — ortodoxa na teologia e nos discursos, mas infiel na prática.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas
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CALVINO, João. Comentário sobre o livro do profeta Isaías. Tradução para o português. São Paulo: Paracletos, 2010. v. 1–2. [“Deus rejeita toda adoração que não é acompanhada de justiça”].
CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. [Livro III - Capítulos 6–10 (Vida Cristã)].
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