quinta-feira, 1 de março de 2018

Jó um Conto da Realidade Humana



            Nestes dias em que o pensamento hedonista[1] tem predominado de forma visceral na Sociedade, bem como penetrado nas entranhas do evangelicalismo brasileiro de forma tão profunda que sem uma intervenção cirúrgica de um avivamento espiritual será impossível extrai-la. Todo e qualquer esforço pastoral (até porque eles tem sido os mais afetados pela visceralidade hedonista), torna-se inócuo, pois as instituições eclesiásticas fomentam intrínseca e extrinsecamente uma mentalidade hedonista, uma vez que seus objetivos fins visando sua autopreservação se constituem em seu bem maior e não necessariamente os valores intrínseco e extrínseco do Reino de Deus.
            Mais do que em qualquer outro momento da história do evangelicalismo brasileiro se faz necessário nos voltarmos para a história narrada no livro de e de compreendermos e apreendermos a sua mensagem.
            Evidentemente que o paladar sensorialmente refinado e delicado dos evangélicos modernos do século XXI não se sente atraído pelo sabor forte e de difícil degustação contido nas páginas deste livro bíblico. Na verdade cada vez menos literatura bíblica tem sido saboreada pelos evangélicos. Assim como ocorre nos restaurantes em que a pessoa pede o cardápio e escolhe somente o que lhe dá prazer em comer, os crentes modernos abrem a bíblia, mas somente se servem do que lhes pode dar prazer e alegria – a famosa e popular “caixinha de promessas”. Mensagens “inspiradoras” confortadoras e tranquilizadoras, revestidas de palavras positivas, que reforçam a sensação de que os ouvintes se constituem no centro do universo tem sido a tônica dos púlpitos nesses dias em que o público rejeita qualquer mensagem “inadequada” aos seus paladares sensíveis.
Duas Razões que Afastam o Cristão Hedonista do Livro de Jó
            A degustação do livro de Jó é somente apreciável para aqueles que têm um estomago forte, que reconhecem a Deus não apenas de ouvir falar, mas porque se relaciona pessoal e continuamente com Ele.
A primeira das razões pelas quais as pessoas de forma geral, bem como grande parcela dos chamados evangélicos, se afastam horrorizados do livro de Jó é que sua história ilustra de forma nua e crua que Deus exerce plena soberania não apenas sobre vida pessoal e familiar dele, mas sobre todas as coisas relacionadas com sua existência e sobre todo o mundo, não apenas físico, mas também o mundo espiritual.
            A grande maioria dos evangélicos atuais se afasta perplexo diante da realidade de que o mesmo Deus que dá é o mesmo Deus que tira, e pior ainda, mesmo quando Deus tira tudo, ainda assim Ele deve ser louvado!
            O evangélico hedonista em suas estultícia pensa que de alguma forma ele pode controlar Deus. Dominar o sagrado sempre foi a busca incessante do ser humano pós-queda, na verdade a grande isca que Satanás jogou para fisgar Eva e Adão foi justamente o fato de que ao transgredirem o mandamento único de Deus (do fruto desta única árvore não comereis) eles seriam iguais – teriam o controle – de Deus. O resultado, como temos sentido na pele até hoje, foi justamente o contrário, pois até o que tinham eles perderam.
            A história de Jó trata exatamente da questão: quem está no controle? Por mais que o ser humano fique chocado ou se revolte e comece a gritar para si mesmo “não há Deus”, em nada muda o fato de que Deus não apenas existe, não apenas trouxe à existência todas as coisas, como exerce sua soberania sobre toda a Criação, incluindo os seres humanos.
            Por mais que seja estranho e inaceitável para a grande maioria das pessoas (inclusive evangélicas) Deus está no controle todo o tempo e o tempo todo. Jó não tem como controlar os eventos que sobreviriam sobre sua vida e/ou de sua família e o máximo que ele pode fazer é declarar que Deus tem o direito de tirar, pois Ele mesmo foi quem havia dado tudo o que Jó havia possuído. A figura de Satanás é subalterna, pois ele não tem “liberdade” nenhuma sobre a vida de Jó ou mesmo sobre aquilo que Jó possuiu e, portanto precisa da autorização de Deus para tirar ou tocar na vida de Jó.
            Esta ênfase na afirmação sem qualquer explicação ou ressalva de que Deus exerce seu direito de Soberano é algo frustrante para as pessoas que desejam ter a sensação, ainda que ilusória, de que controlam suas vidas, de que elas são senhoras de seus destinos, de que tudo gira em torno delas e de seus desejos. O livro de Jó desconstrói todo esse castelo de areia antropocêntrico logo nos primeiros capítulos quando o personagem, que é apresentado como sendo uma pessoa piedosa e justa nos aspectos religiosos, vai perdendo uma a uma tudo o que possuía, incluindo seus queridos filhos. Não bastasse toda essa perda externa, por fim fica restrito a um corpo coberto de chagas. Em nenhum momento Jó tem controle sobre todas essas perdas e por si mesmo não tem como restitui-las. Sua vida esteve, estava e continuou estando nas mãos de Deus.
            Uma segunda razão pela qual as pessoas se afastam da leitura do livro de Jó é a questão do sofrimento. Os evangélicos hedonistas de plantão rejeitam toda e qualquer coisa relacionada ao sofrimento. Mas o sofrimento em todas as suas nuances fazem parte inerente da vida humana pós-pecado. Nascemos das “dores de parto” e o nascimento em si é tão traumático (doloroso) que a nossa mente não registra ou ao menos não arquiva de forma a podermos resgata-la. O apóstolo Paulo diz que a própria natureza geme e sofre aguardando ansiosamente pela nova Criação que Deus está fazendo por meio de Jesus Cristo. E o próprio apóstolo, que trazia em seu corpo as marcas de Cristo, declara em alto e bom som que é melhor estar com Cristo, na glória, do que continuar vivendo neste mundo tenebroso de sofrimento e dor.
            Poucas pessoas sofreram tão intensamente como Jó, perdendo em intensidade somente para o Senhor Jesus em seu calvário. Ele experimenta a dor emocional da perda de seus filhos amados, pelos quais ele oferecia sacrifícios diante de Deus logo pela manhã; ele experimenta a dor cruel da perda da saúde física, dor e sofrimento tão intenso que sua esposa não pode mais contemplar; sofre a dor espiritual, pois fica sem respostas para às inúmeras perguntas que ele mesmo e seus próprios amigos formulam ao longo de toda a trajetória de sua historia.
            Desta forma, os sensíveis evangélicos do século XXI não tendo estomago para degustar uma literatura tão carregada de sofrimento, espertamente pulam todos os pratos (capítulos) e devoram desesperadamente a sobremesa (último capítulo) e se deliciam com a pequena cereja contida em 42.10 – Mudou o Senhor a sorte de Jó – Oh! Glória! Oh! Aleluia! Esse é o nosso Deus (da bênção, da restituição em dobro) e não aquele Deus dos capítulos anteriores. Os evangélicos que assim fazem são loucos, pois estão construindo sobre fundamento movediço (areia) e quando as tempestades da vida vierem e elas sempre chegam, sua religiosidade hedonista ruirá e será grande e terrível a sua ruína.
            Mas todo aquele que está disposto a degustar cada capítulo que compõe está inspirada narrativa poética, sorvendo seus ensinos preciosos de valor eterno, estará construindo sua fé e sua vida cristã na rocha e quando as tempestades mais violentas e terríveis e mesmo que hordas do inferno lhe sobrevenham como labaredas incandescentes do inferno, ele permanecerá, pois sua vida está nas mãos de um Deus Soberano sobre tudo e sobre todos, quer sejam homens ou seres espirituais sejam na terra, nos céus ou no inferno.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

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[1] Hedonismo consiste em uma doutrina moral em que a busca pelo prazer é o único propósito da vida. A palavra hedonismo vem do grego “hedonikos”, que significa "prazeroso", já que “hedon" significa “prazer”. O hedonismo pode ser dividido em duas categorias: o hedonismo psicológico tem como fundamento a noção que em todas as ações, o ser humano tem a intenção de obter mais prazer e menos sofrimento e essa forma de viver é única coisa que fomenta a ação humana. Por outro lado, o hedonismo ético tem como princípio o fato da pessoa contemplar o prazer e os bens materiais como as coisas mais importantes das suas vidas.

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