sábado, 24 de junho de 2023

Viajando no Evangelho de Marcos: Jesus e o Reino vindouro (1.1-45)

Prólogo (1.1-13)

Na segunda unidade (v. 9-11) Mt 3.13-17; Lc 3.21,22; Jo 1.32-34 o evangelista Marcos registra o Batismo de Jesus feita por João Batista. E aqui temos alguns detalhes que são importantes e devem ser compreendidos corretamente.

v.9 – E aconteceu naqueles dias = ou seja, nos dias em que João Batista estava exercendo seu ministério de Precursor do Messias.

veio Jesus de Nazaré da Galileia – Jesus não vem da Judeia – centro de poder político e religioso (Templo) – na verdade tanto o poder político quanto religioso judaico no transcorrer da narrativa irão tramar a morte de Jesus.

Nazaré era um povoado sem nenhuma importância econômica ou religiosa e não há qualquer referência dela no AT, tanto que Marcos precisa ajudar seus leitores a localizarem – da Galileia.

 A famosa frase de Natanael quando Felipe fala de Jesus – “pode vir alguma coisa boa de Nazaré” (Jo 1.43) – resume bem o descaso e menosprezo pelos nazarenos. 

Para chegar às margens do rio Jordão onde está João Batista, Jesus percorre em torno de 160 km. No final de sua narrativa Marcos novamente faz a referência: Jesus de Nazaré (16.6).

A região da Galileia ficava ao Norte e era composta por milhares de pescadores e camponeses pobres, que dependiam dos ricos da Judeia e por isso mesmo era palco de sucessivas revoltas e rebeliões contra os opressores estrangeiros (romanos), mas também dos exploradores judeus da região rica da Judeia (Jerusalém-Templo).

Portanto, ser Galileu já era suficiente para ser tido como suspeito e visto com desconfiança e ainda mais nazareno – realmente o Currículo de Jesus não era dos melhores.

e foi batizado por João no Jordão - o rio Jordão tem uma referência histórica muito forte na mente dos judeus (israelitas). Marca a transição da liderança de Moisés para Josué e demarca a entrada ou posse da Terra Prometida (Canaã).

O nome Josué e Jesus tem o mesmo significado (o Senhor Salva ou o Senhor é a nossa Salvação). Marcos trata com todas essas referências quando compõe sua narrativa evangélica – assim como Josué introduziu os israelitas na Canaã terrena; Jesus é aquele que Salvará e introduzirá um novo povo formado de todas as tribos, povos e raças na Canaã Celestial. Por isso podemos cantar: “Caminhando vou para Canaã!”.

Questão importante: por que Jesus se submete ao batismo de João (arrependimento e remissão de pecados)?

O próprio evangelista já deixou claro que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, o Prometido e o doador do Espírito Santo (o que será reafirmado logo após o batismo). Qual o motivo; qual a razão?

Assim como João é o intermediário entre a Antiga e a Nova Aliança – Jesus é o intermediário (Mediador) entre Deus e o ser humano.

Assumindo a nossa natureza humana Jesus se submete ao batismo, pois se identifica conosco – torna-se plenamente solidário com a nossa humanidade. Quando ele sai das águas – os céus se abrem - para nós – pois Ele torna-se a ponte que liga novamente os céus e a Terra.

Em Adão fomos lançados fora do Jardim de Deus (sua comunhão) e os nossos pecados nos impediam de voltarmos novamente a Deus; mas em Cristo voltamos a ter livre acesso ao Jardim e à Comunhão com Deus, como o Princípio Apocalipse 22.1-5.

E o Espírito como uma pomba descia sobre ele: essa cena nos remete a Gn 1.1s quando no princípio da Criação o Espírito Santo pairava sobre as águas – aqui na Nova Criação o mesmo Espírito vem sobre Jesus – na forma de uma pomba (Noé e a nova geração de seres humanos).

A grande diferença é que o Espírito PERMANECE com Jesus e quando derramado (Pentecostes) PERMANECERÁ em cada crente – para sempre!

ENTÃO, como que para AUTENTICAR toda a Cena – ouve-se uma voz dos céus (Pai) que declara: “Tu és o meu Filho amado, em quem tenho todo o meu prazer”. Nos remetendo ao Salmo 2.7 e reaparecerá no transcorrer da narrativa marqueana.

Resumo deste segundo parágrafo: Jesus de Nazaré é o Ungido (Messias) de Deus, seu Filho amado e Nele e por Meio Dele podemos fazer parte da Nova Criação e retornarmos ao Jardim da Comunhão com Deus.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

 

Referências Bibliográficas
CULPEPPER, R. Alan. Mark. Macon, Georgia: Smyth & Helwys Publishing, 2007.
[Smyth & Helwys Bible Commentary, v. 20].
MULHOLLAND, Dewey M. Marcos – Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1999.  [Série Cultura Bíblica, v. 2].
SOARES, Sebastião Armando Gameleira & JUNIOR, João Luiz Correia. Evangelho de Marcos, v.1, ed. Vozes, Petrópolis, 2002.
Ampliar a Pesquisa
BRATCHER, Roberto G. e SCHOLZ, Vilson.
Comentários SBB para exegese e tradução - Marcos versículo a versículo. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013
ANDERSON, Hugh. The Gospel of Mark. London: Marshall, Morgan & Scott, 1976.
BETTENCOURT, Estevão. Para Entender os Evangelhos.  Rio de Janeiro: Agir, 1960.
CARSON D. A., DOUGLAS, J. Moo & MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo:  ed. Vida Nova, 1997.
CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 2006, 8ª ed.
CRANFIELD, C. E. B. The Gospel According to St. Mark. Cambridge: Cambridge University Press, 1966. 
HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Marcos. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
TENNEY, Merrill C. (Org.). Enciclopédia da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.

Artigos Relacionados
Viajando no Evangelho de Marcos: Estabelecendo o Roteiro
https://reflexaoipg.blogspot.com/2021/06/viajando-no-evangelho-de-marcos.html?spref=tw
Evangelho Segundo Marcos: Autoria e Título
http://reflexaoipg.blogspot.com/2017/01/evangelho-segundo-marcos-autoria-e.html?spref=tw
Evangelho Segundo Marcos: Data, Tema, Propósito e Público Leitor.
https://reflexaoipg.blogspot.com/2017/01/evangelho-segundo-marcos-data-tema.html?spref=tw
Cafarnaum a Cidade de Jesus
https://reflexaoipg.blogspot.com/2018/02/evangelho-cafarnaum-cidade-de-jesus.html?spref=tw
Evangelho: Gênero Literário
http.//reflexaoipg.blogspot.com/2018/01/evangelho-genero-literario.html?spref=tw
Contexto Político-social da Judéia
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/03/contexto-politico-social-da-judeia.html 

 

 

 

 

TIAGO – Estudo Devocional – Introdução

Esta pequena epistola de Tiago esta inserida no grupo denominado de Epístolas Gerais entre os oitos documentos neotestamentário que são: Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro, 1, 2 e 3 João e Judas. Essas epístolas também são conhecidas como “Epístolas Universais” ou “Católicas”.

Essa série de estudos tem característica devocional, pois a intenção não é trazer as discussões textuais ou exegéticas, mas estimular a leitura por parte daqueles leitores leigos que não possuem uma capacitação acadêmica.

Portanto, a intenção primária dos artigos é explorar o texto extraindo os temas mais relevantes e aplicando no cotidiano dos leitores de forma geral. O que nos parece a intenção do escritor em relação aos seus leitores primários, ou seja, àqueles que foram os primeiros receptores deste precioso documento bíblico.

Certamente que o documento contém aspectos teológicos, na verdade todos os textos bíblicos que compõe a bíblia são teológicos no sentido primário, pois de alguma forma comunicam algo a respeito de Deus e a sua vontade para a vida do seu povo.

O trabalho do pregador ou professor é identificar e extrair as verdades e/ou princípios contidos nos textos e aplicá-los nos diversos contextos vivenciais dos alunos e/ou leitores.

O que desejamos aqui é evitarmos os dois extremos o de um estudo textual exegético academicista que minimiza as aplicações práticas e o outro que apenas se concentra nos aspectos práticos e minimiza as questões textuais.

Um dos proeminentes expositores bíblicos dos primeiros séculos da Igreja, Clemente de Alexandria, já se preocupava com esses extremos. Usando a ilustração da figueira ele diz que o estudo do texto bíblico deve ser semelhante ao do agricultor, que antes de saborear as uvas teve o trabalho cuidadoso de podar, regar, limpar, para que então possa ter uma boa colheita e ao final do processo poder degustar as uvas colhidas com prazer e satisfação.

Para que o estudo devocional possa produzir seus frutos é necessário que tanto aquele que expõe quanto aquele que lê possam cultivar uma vida cristã genuinamente cristã. Devem ter uma mente e uma piedade sincera para que o resultado seja a edificação e fortalecimento de um vivencial eminentemente bíblico cristão. Esta é sem dúvida alguma o proposito central desta correspondência escrita com diligencia por Tiago aos irmãos das comunidades cristãs que estavam espalhadas por uma ampla região geográfica e cujo meio de comunicação eficaz se restringia ao formato epistolar.

 Minhas orações é de que nos próximos artigos eu possa alcançar os propósitos acima mencionados e que a leitura deles possam contribuir para sua edificação e fortalecimento espiritual e vivencial meu amigo leitor.

Próximos Artigos

Contexto de Tiago e dos Primeiros Leitores

Renúncia Cristã

Oração

Pobres e Ricos

Tentação

A Nova Vida

Religião Prática

Parcialidade

Lei Real

Fé sem Obras

Inclinação por se passar por médico

Falsa e Verdadeira Sabedoria

Origem da Dissidência

Humildade Fonte de Elevação

Falsa Confiança

Riquezas Iníquas

Paciência

Preceitos Gerais

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

me.ivanguedes@gmail.com

Outro Blog

Historiologia Protestante

http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

 

Artigos Relacionados

Cartas ou Epístolas?

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/07/cartas-ou-epistolas.html

NT – Introdução Geral

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/01/nt-introducao-geral.html

Composição e Arranjo do Novo Testamento

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/01/composicaoe-arranjo-do-novo-te-stamento.html

A Ordem dos Livros do Novo Testamento

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/01/a-ordem-dos-livros-do-novo-testamento.html

NT - Evidências Literárias do Desenvolvimento do Cânon do N.T.

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/01/nt-evidencias-literarias-do.html

 

 

quarta-feira, 7 de junho de 2023

Epafras – Crente para os tempos de crise

 


Podemos dizer que a grande maioria dos personagens bíblicos são referidos em poucas linhas ou pequenos parágrafos. O Espírito Santo não precisa de muitas páginas para destacar a vida de um crente. Um exemplo é Enoque que cuja história se estende por 365 anos, mas que foi sintetizada em duas frases: "Enoque andou com Deus; e já não era, porque Deus o tomou para si" (Gn 5.24.). Que breve! Mas ainda assim quão completo! quão abrangente! O Espírito Santo fala muito em tão pouco!

          Andar com Deus, cultivar uma vida de comunhão com Deus é o aspecto distintivo do genuíno crente, sem a qual as ações mais vistosas não passarão de fugo e refugo.

          Quando lemos pausadamente as páginas do Novo Testamento encontramos um personagem extraordinário, cuja alusões a ele são muito breves, mas incisivas e preciosas.

          Ele não surge na narrativa como um pregador poderoso, um escritor laborioso, um grande missionário, ainda que ele possa ter sido tudo isso. Mas como sempre faz em todas as narrativas bíblicas, o Espírito Santo, nos apresenta esse personagem de forma singular e de uma maneira calculada para enfatizar a importância dos valores morais e espirituais.

O nome dele surge apenas três vezes na literatura neotestamentária, apenas em duas cartas de Paulo: uma para a igreja em Colossos e outra para seu amigo Filemom.

No entanto, nesses três singelos versos encontramos um esboço precioso do caráter piedoso de Epafras. Somos informados de que ele é da cidade de Colossos e faz parte da igreja estabelecida ali, provavelmente por ele. Ele não apenas ensina as pessoas sobre Jesus, mas as encoraja a crescer em sua fé.

Paulo apresenta Epafras como um servo querido e ministro fiel de Jesus, parte integrante da rede de amigos e colaboradores desenvolvida por Paulo ao longo de seus anos como missionário.

Mas há mais uma característica distintiva deste cristão – ele ora - incessantemente, é um intercessor inveterado. Suas orações não são apenas ocasionais ou mesmo ou frequentemente, mas Paulo diz que Epafras ora sem cessar em favor dos crentes de Colossos. Ouçamos o testemunho pessoal do apostolo sobre esse amigo e irmão: "Saúda-vos Epafras, que é um de vós, servo de Cristo, trabalhando sempre fervorosamente [agonizando] por vós nas orações, para que permaneçais perfeitos e completos em toda a vontade de Deus. Um grande zelo por vós, e pelos que estão em Laodiceia e pelos que estão em Hierápolis" (Cl 4.12, 13.).

Em todos os tempos a Igreja sempre careceu de crentes de oração. Evidentemente que necessitamos igualmente de pregadores, escritores, missionários na causa de Cristo; mas precisamos de crentes de oração, de joelhos constante no chão, crentes como Epafras, pois as orações que seguram as cordas, que fortalecem os pés e mãos; que renovam os ânimos e mantém as vocações.

Um espírito de oração - fervorosa, agonizante e perseverante. Sem isso, nada pode prosperar. Um crente sem oração é um crente sem vida. Um pregador sem oração é um pregador fadado ao fracasso. Um escritor sem oração produzira páginas estéreis. Um evangelista sem oração pouco fará. Carecemos urgentemente de crentes de oração - como Epafras - cujas paredes do quarto testemunham suas orações agonizantes. Esses são, inquestionavelmente, os crentes para o momento atual.

A oração é um trabalho invisível aos olhos dos outros, da própria comunidade. São realizados em retiro, na santificada e subjugadora solidão da presença divina, fora do alcance da visão mortal. Jesus levantava-se de madrugada, enquanto seus discípulos ainda dormiam e se afastando orava, se derramava diante do Pai. Também ensinou seus discípulos o ministério da oração – “entra no teu quarto e ali orem ao teu Pai em secreto” – sem holofotes, sem mídia, sem olhares de admiração.

Paulo está informando os crentes de Colossos de que Epafras estava segurando as cordas de todas as atividades daquela igreja e do próprio trabalho missionário de Paulo e todos os demais companheiros que estavam atuando em tantos outros lugares.

Um terrível erro tem sido perpetuado entre nós de que o ministério é medido pelo ativismo, pelas estatísticas, pelos monumentos erigidos. Esse tem sido um falso padrão. O genuíno padrão é um amor pelas almas, um amor por Cristo, que somente pode ser desenvolvido no quarto solitário da oração, como Epafras, em favor do povo de Deus, "para que sejam perfeitos e completos em toda a vontade de Deus".

O precioso tempo de oração não exige nenhum dom especial, nenhum talento peculiar, nenhuma capacidade mental preeminente (mestrado, doutorado). Todo e cada cristão pode dedicar-se a ele. Um crente pode não ter a capacidade de pregar, ensinar, escrever ou atuar em campo missionário; mas todo crente pode orar. Por vezes ouve-se falar de um dom de oração. É uma expressão que cai mal ao ouvido. Muitas vezes significa uma mera expressão fluente de certas verdades conhecidas que a memória retém e os lábios emitem. Este é um trabalho pobre para se fazer. Não era assim com Epafras. Não é disso que carecemos agora mesmo. O que a Igreja necessita hoje com urgência é de crente que ore com perseverança e fervorosamente diante do trono da graça.

A oração pode ser exercida, em todos os momentos, e sob todas as circunstâncias. De manhã, ao meio-dia, à tarde ou à meia-noite; o coração pode subir ao trono, em oração e súplica, a qualquer momento. Os ouvidos do Pai estão sempre abertos; Sua presença está sempre acessível. Ele está sempre pronto a ouvir, pronto a responder. Jesus nos ensina e incentiva: “Peça – busque – bata!”; “ore sempre sem desfalecer”, “pois, tudo que pedirem, crendo, recebereis”. Estas palavras são para todos os crentes em todas as época e lugares.

Epafras recebe o epíteto de "um servo de Cristo", em conexão com suas fervorosas orações pelo povo de Deus. Este é o motivo mais elevado. Cristo está empenhado em favor do Seu povo. Ele deseja que eles "permaneçam perfeitos e completos em toda a vontade de Deus"; e todo aquele que respira a intercessão têm o privilégio de desfrutar de profunda comunhão com o grande intercessor – o Espírito Santo. Pessoas tão pequenas, limitadas e fracas como eu e você, podem adentrar à glória celeste e tomar parte dos pensamentos e interesses do Senhor de toda glória!

Ponderemos ainda que por alguns instantes o exemplo de Epafras. Humildemente imitemo-lo. Fixemos nossos olhos nas necessidades e carências de nossa comunidade e dos campos missionários. O momento atual de nosso país é profundamente solene. "As coisas estão a chegar a uma crise; e as pessoas estão a tomar partido: e está tudo bem. Já não temos dúvidas sobre quem servirá o Senhor e quem não servirá. Que o Senhor abra o seu próprio caminho no coração de muitos e prepare o seu povo para sofrer e fazer a sua santa vontade".

Cada dia deve fazer-nos sentir a necessidade urgente de crentes como Epafras. As poucas e econômicas referências neotestamentárias o apresentam como um crente de oração (Cl 4.12); e como um companheiro de sincero amor e cuidado para com seus irmãos (Fm 23.) Que o Senhor desperte entre nós um espírito de oração e intercessão sinceras. Que Ele levante muitos daqueles que serão moldados no mesmo molde espiritual de Epafras. Estes são os crentes para o tempo de crise.

Não importa a extensão e profundidade do vale tenebroso que estejamos para enfrentarmos – nosso Deus é maior! Não importa o quão terrivelmente escuro e caóticos serão os próximos dias, ainda ouviremos as palavras do Deus eterno – haja luz!

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

 

 

Artigos Relacionados

Personagens Bíblicos: Quem Foram Bezalel e Aoliabe?

https://reflexaoipg.blogspot.com/2021/12/personagens-biblicos-quem-foram-bezalel.html?spref=tw

Personagens Bíblicos: Quem Foi Abisague? https://reflexaoipg.blogspot.com/2021/12/personagens-biblicos-quem-foi-abisague.html?spref=tw

Companheiros de Paulo - Barnabé https://reflexaoipg.blogspot.com/2018/09/companheiros-de-paulo-barnabe.html?spref=tw

ATOS – Quem foi Teófilo

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/01/atos-quem-foi-teofilo.html

Paulo: Sua Conversão

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/07/paulo-sua-conversao.html

Abraão em Três Tempos: Judaísmo

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/09/abraao-em-tres-tempos-judaismo.html

domingo, 12 de fevereiro de 2023

AMÓS: Uma Voz Profética Contra a Opressão e Escravagismo (2ª Parte)

 Um Forte Rugido Contra a Opressão e a Escravidão

            O profeta abrange em sua pregação toda gama de temas que oprimiam o povo e desfiguravam a Torá. Para Amós era inadmissível que aqueles que foram colocados na posição de orientar e conduzir a nação pudessem ser os deturpadores da justiça e do bem estar dos desvalidos.

            Na primeira série de oráculos (1.3-2.16) o profeta inicia de forma genérica dirigindo contra as nações próximas de Israel, para no final voltar seu arsenal contra a nação nortista. O numero de oito oráculos não é acidental, mas proposital, pois rompe a série de sete (perfeita, completo) e centrando toda a atenção no último oráculo que acaba sendo imperioso. A relevância desta última mensagem fica evidente na sua extensão muito maior do que qualquer uma das anteriores. Entretanto, esta última acusação somente pode ser plenamente compreendida em todas as suas implicações, quando lido à luz de suas predecessoras.

            Diferentemente do que faz nas sete primeiras acusações onde se refere a uma única transgressão, que considera a mais grave, quando chega à acusação contra Israel ele enumera sete pecados (2.6-16), cujo numero representa a totalidade dos pecados.

Ainda que as sentenças sejam de difícil exegese, de maneira que os estudiosos encontram dificuldades em unificar suas opções é preciso salientar o propósito do profeta é antes de qualquer coisa expor o problema da injustiça e as consequências trágicas que elas produzem na vida do que estão à mercê delas. Abaixo enumero os setes pecados, ainda que a proposta deste artigo seja destacar os dois primeiros que se relacionam mais especificamente com a questão da escravidão, ainda que toda sorte de desvios daquilo que é justo torna-se instrumento de opressão, violência e cerceamento dos direitos:

a)    “porque vendem por prata o justo” (v. 6)

b)    “e [vendem] o necessitado [pobre] por um par de sandálias” (v. 6)

c)    “Pisam a cabeça dos necessitados [pobres]” (v. 7)

d)    “negam justiça ao oprimido” (v. 7)

e)    “um homem e seu pai possuem a mesma mulher” (v. 7)

f)     “estendem-se sobre roupas deixadas em fiança diante de qualquer altar” (v. 8)

g)    “bebem vinho de impostos [dinheiro roubado] no templo de seus deuses [no meu próprio templo]” (v. 8)

“porque vendem por prata o justo”

            A questão maior esta no sentido do termo “justo – saddiq” que pode ser interpretado no sentido jurídico “inocente”, de maneira que o profeta acusa os juízes e/ou tribunais de estarem corrompidos. Em troca de benefícios pessoais acabam deixando a lei de lado e favorecendo os ricos em detrimento dos pobres. Ainda que não se refira diretamente à escravidão faz-se referência ao fato de que os pobres são alienados de seus direitos.[1] Todavia, os termos utilizados na frase nem sempre tem a conotação jurídica e não fica evidente que o profeta esteja acusando diretamente os juízes.

            Mais recentemente os interpretes tem optado em relação ao termo “saddiq” por uma ênfase socioeconômica, de maneira que a esfera de ação não é propriamente os tribunais, mas o das relações comerciais. Deste modo, o profeta denuncia os credores que no ímpeto frio e monetarista de recuperarem o dinheiro emprestado ou aplicado não se importam de fazerem dos devedores escravos que serão vendidos como escravos e/ou mercadoria para terem suas dívidas quitadas, tendo em alguns casos famílias inteiras sendo arroladas no processo e vendidas como escravos.

“e [vendem] o necessitado [pobre] por um par de sandálias”

            Ainda que pareça uma mera repetição da frase anterior, há uma diferença em relação ao que sofre a ação escravagista e o motivo. O sujeito “ebyôn” aqui é definido como sendo o “pobre, necessitado de ajuda”. Amós faz diversas referências a este segmento social (2.6; 4.1; 5.12; 8.4,6) sempre em um contexto de opressão e injustiça. Essas pessoas são escravizadas e vendidas pelos credores, oprimidas pelos poderosos, desamparados pelos tribunais, pisoteadas e compradas e/ou trocadas por um par de sandálias. O “ebyôn” é aquele que não tem propriedade, de maneira que no Código da Aliança são contraponto dos proprietários de terras e das colheitas (Ex 23.11). Desta forma, não poderiam contrair grande dívidas, de modo que por causa de uma divida irrisória acabavam sendo arrolados como escravos e vendidos. E de fato, a expressão “um par de sandálias” surge novamente em (8.6) indicando uma quantia monetária exígua. Seja qual for a ótica interpretativa, fica evidente a perversidade do sistema que transforma pessoas em mercadoria, seres humanos em objetos mobiliários.

            Comentado estes dois versos Sincre afirma com muita propriedade:

De fato, o primeiro caso demonstra o desprezo pela pessoa do devedor; o segundo, a desproporção entre a dívida pequena e a escravidão. No primeiro, a escravidão poderia ter justificativa, mas é desumana; no segundo, não há justificativa alguma. (2011, p. 136).

            Estas duas acusações contra qualquer tipo de escravidão coaduna com o que Amós havia dito anteriormente (1.6-9), quando abertamente condena as deportações e o comércio escravagista. Agora apenas reforça especificando a condenação deste ato vil de transformar uma pessoa, quando não uma família inteira, em escravos quer seja pela justificativa de uma grande divida contraída ou pior ainda, mediante uma divida irrisória.

            Diferentemente de do profeta Eliseu que paliativamente optou por estabelecer um fundo financeiro para auxiliar aqueles que corriam o risco de caírem nesta vergonhosa situação escravagista (2 Rs 4.1-7), Amós rejeita aberta e veementemente toda e quaisquer espécie de escravagismo, quer por questões de guerras quer seja por questões econômicas. Ele condena qualquer um que se utiliza de artifícios legais para cercear a liberdade do próximo; ninguém tem o direito moral de transformar o outro em objeto, seja quais forem as razões alegadas. As leis mosaicas foram promulgadas para defesa dos mais fracos (Ex 21.2ss. 7ss.; Dt 15.12ss), mas jamais para serem instrumentos de opressão e escravidão.

            O que mais pesava no coração do profeta era ver que os israelitas, com este comportamento condenável e vil, se assemelhavam cada vez mais com as outras nações vizinhas (1.6), que não possuíam a revelação da vontade de Deus, como eles haviam recebido por meio de Moisés. A Torá (Lei, Instrução, Ensino) de Deus estava sendo diariamente envilecida e distorcida para servir de instrumento de restrição do direito dos mais fracos e desvalidos e sendo colocada a serviço da autossatisfação de uma casta de privilegiados.

            Desta forma, com um estrondoso rugido por justiça, Amós rompe as imensas barreiras culturais e éticas de sua época e antecipa em milhares de anos a verdade imutável de que absolutamente nada, muito menos questões monetárias, pode ser motivo para escravizar uma única pessoa que seja.

            A banalização da vida humana é o câncer que tem destruído os tecidos das sociedades no transcorrer dos séculos e cujo fedor da sua decomposição começa a ser sentindo por nossas narinas. Quanto mais se descaracteriza o ser humano, mais rapidamente a sociedade se decompõe. Enquanto uma pessoa não valer mais do que um par de sandálias (mesmo que sejam as legitimas havaianas), não haverá esperança para a sociedade. A única solução para esta nossa sociedade é uma volta para Deus e Sua vontade expressa nas velhas páginas da Bíblia. E esta volta a Deus é demonstrada na revalorização da vida, no amor que se manifesta no próximo como sendo parte de mim mesmo.

            Da mesma forma como a religião israelita era apenas virtual e voltada para satisfação hedonista de sua casta de lideres religiosos e classes sociais ascendentes, assim também tem sido o evangelicalismo brasileiro. As palavras de Amós se aplicam perfeitamente ao momento atual deste evangelicalismo ritualista e pomposo, com seus templos cada vez mais grandiosos e suntuosos, mas completamente inócuo e estéril no que concerne à justiça e aos direitos dos que sofrem:

Aborreço, desprezo as vossas festas, e as vossas assembleias solenes não me dão nenhum prazer. E, ainda que me ofereçais holocaustos, e ofertas de manjares, não me agradarei delas: nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais gordos. Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias dos teus instrumentos. (Am 5:21-23).

            Em aberto contraste com pseuda religiosidade israelita o profeta Amós declara a genuína religião proposta por Deus quando do estabelecimento de Sua Aliança: “Corra, porém o juízo como as águas, e a justiça como o ribeiro impetuoso” (Am 5.24). Templos suntuosos e rituais ortodoxos ou heterodoxos tornam-se inúteis quando não há manifestação concreta de amor ao próximo, de valorização da vida, de dignificação do semelhante.

            Para o profeta Amós nenhuma religião que vive em função de si mesma, que compactua com a exploração do próximo, que menospreza os desvalidos, de nada vale. Para ele, que expressa o pensamento de Deus, de nada vale ser religioso se não se busca a justiça e a equidade.  Amós desnuda a hipocrisia daqueles que vivem apenas da aparência de piedosos, mas que são na verdade lobos ferozes que não tem qualquer remorso em escravizar os desvalidos desses dias. Para tais religiosos as pessoas não valem mais do que um par de sandálias.

            Cultos dominicais, cultos três vezes ao dia, grandes concentrações com milhares de ouvintes, show gospel, venda de milhões de cds, construção de mega  templos, pregadores, missionários, bispos e apóstolos viajando de jatinhos, nada disso tem qualquer valor ou se mantém em pé diante da proposta evangélica de Jesus, que abrindo mão de Sua glória eterna, encarnou, viveu e entregou-se totalmente em favor do ser humano. Que relação há entre o culto e a justiça e o amor ao próximo? Esta questão nos coloca no cerne da religião dos profetas, de Jesus e dos apóstolos.

            Mas assim como reagiu o sacerdote Amazias, instigando o rei Jeroboão II contra o profeta e menosprezando a mensagem de Amós (7.10-12), também hoje as mensagens dos profetas estão sendo menosprezadas, como se não tivessem nada a ver com a nossa realidade. Os evangélicos e suas lideranças eclesiásticas não aceitam qualquer tipo de repreensão e se sentem ultrajados se alguma voz se levantar para corrigi-los. São pessoas totalmente dominadas pela soberba e autossuficiência e mensagem nenhuma haverá de fazê-los mudaram suas condutas antagônicas aos princípios bíblicos.

            Em um último esforço Amós chama atenção dos israelitas para as consequências nefastas sofridas pelos seus vizinhos próximos: Calne, Hamate e Gate (cf. Am 6.2) que foram dizimadas conforme  oráculos anteriores. O mesmo certamente acontecera aos Samaritanos se não fizerem uma conversão para Deus, abandonando o caminho da prepotência e da injustiça.

            Apesar dos israelitas não terem qualquer motivo para se acharem melhores do que seus vizinhos em ruínas, eles fizeram ouvidos ocos à mensagem de Amós e continuaram oprimindo os pobres e humildes (cf. Am 8.4), distorcendo a justiça e tornando a vida dos desfavorecidos mais amarga. O fato de conhecerem a Torá não produziu neles a bondade e a justiça. O rugido profético ecoado por todo Israel a partir de sua capital Samaria foi totalmente ignorado.

            No Brasil as pedras têm clamado em virtude de que os possuidores da mensagem evangélica permanecem calados, buscando tão somente seus próprios interesses mesquinhos. E para maior constrangimento as bandeiras de fraternidade e justiça têm sido hasteadas por pessoas e segmentos que não estão comprometidos com os princípios evangélicos.

            Apenas nos finais da década de 50 e primeiros anos da década de 60 os evangélicos esboçaram tremular com entusiasmo e intrepidez as bandeiras da justiça e fraternidade. Mas diferentemente do profeta Amós que persistiu fielmente em seu ministério profético, os que hastearam estas bandeiras não resistiram às pressões que lhes foram impostas e recolheram seus pendões, para nunca mais tremularem. Quem perdeu não foram apenas os evangélicos, que uma vez mais optaram por permanecerem meros coadjuvantes e não protagonistas das mudanças, mas o próprio país que permanece afundando em um sistema cruel de injustiças e corrupção.  

“porque vendem por prata o justo”

“e [vendem] o necessitado por um par de sandálias”

           

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
ivanpgds@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/

 

Artigos Relacionados

AMÓS: Uma Voz Profética Contra a Opressão e Escravagismo (1ª Parte)

http://reflexaoipg.blogspot.com/2017/04/amos-uma-voz-profetica-contra-opressao.html

O PERÍODO CLÁSSICO PROFETISMO NO AT - Século VIII

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/08/o-periodo-classico-do-profetismo-no-at.html

O DESENVOLVIMENTO DO PROFETISMO EM ISRAEL

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/08/o-desenvolvimento-do-profetismo-em.html

PROFETAS: As Diversidades Contextuais

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/04/profetas-diversidade-contextual.html

OS PROFETAS E AS QUESTÕES SOCIAIS

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/04/os-profetas-e-as-questoes-sociais.html

PROFETA OSEIAS: Contexto Histórico

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/08/profeta-oseias-contexto-historico.html

PROFETA OSEIAS – Introdução Geral

http://reflexaoipg.blogspot.com.br/2016/08/profeta-oseias-introducao-geral.html

 

Referências Bibliográficas

BRIGHT, J. História de Israel. São Paulo: Paulus, 7ª ed., 2004.

CHAMPLIN, Russel Norman. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. 2. ed. São Paulo: Hagnos, 2001.

FOHRER, Georg. História da religião de Israel. [Tradução: Josué Xavier; revisão: João Bosco de Lavor Medeiros]. São Paulo: Edições Paulinas, 1982.

HASEL, Gerhard F. Teologia do Antigo e do Novo Testamento: questões básicas no debate atual. [Tradução do AT: Luís M. Sander, trad. do NT: Jussara Marindir P. S. Arias. São Paulo: Ed. Academia Cristã Ltda, 2007.

HUBBARD, D. Comentário bíblico de Joel e Amós. São Paulo: Vida Nova, 1995.

KIRST, Nelson. Amós: textos selecionados. São Leopoldo, Faculdade de Teologia, 1981.

LASOR, William. Introdução ao Antigo Testamento. [Tradução: Lucy Yamakamí]. São Paulo: Vida Nova, 1999.

MERRILL, Eugene. História de Israel no Antigo Testamento. [Tradução: Romell S. Carneiro]. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.

PAPE, Dionísio. Justiça e esperança para hoje: mensagem dos profetas menores. São Paulo: ABU Editora, 2ª ed., 1983.

PRADO, José Luiz Gonzaga do. O pastor de Técua: vida do profeta Amós. São Paulo: Paulinas, 1987.

ROWLEY, Harold Henry. A fé em Israel. [Tradução: Alexandre Macintyrel]. São Paulo: Editora Teológica, 2003.

SINCRE, José Luís. Com os pobres da terra: a justiça social nos profetas de Israel.[Tradução: Carlos Feliciano da Silveira]. Santo André, São Paulo: Ed. Academia Cristã Ltda; Paulus Editora, 2011.

VAUX, R. de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. [Tradução: Daniel de Oliveira]. São Paulo: Editora Teológica, 2003