quarta-feira, 6 de julho de 2016

APOCALIPSE: A Relação com a Literatura Apocalíptica

O livro reivindica ser um apocalipse (1:1), uma profecia (1:3) uma epístola (1:4, 11: 22:21) e uma visão (9:17). É escrito em parte no estilo da literatura Apocalíptica Judaica,[1] conhecida através de abundante produção literária, que se estendeu pelo período que vai do século II a.C. ao século III d.C., desenvolvendo-se primeiramente numa ramificação judaica e depois judaica e cristã. Ainda outros exemplos deste estilo de escrito na Bíblia incluem partes de Daniel, Ezequiel e Zacarias. O fato de o Apocalipse se enquadrar no gênero apocalíptico é uma das chaves para sua interpretação. Mounce destaca que “um papel principal do apocalipse era explicar por que o crente sofria e por que o reino de Deus se demorava” (1977) e podemos ver claramente estes dois aspectos no Apocalipse.
Este tipo de literatura era escrito debaixo do pseudônimo[2] de alguém importante do passado como Moisés ou Enoque, mas o Apocalipse difere neste aspecto, pois foi escrito sob o nome de João o qual era um nome comum e contemporâneo de seus primeiros leitores. O apocalipse era normalmente revelado por um ser celestial, como um anjo, este também é o caso com o Apocalipse, porém Deus faz reivindicações explicitas de sua autoria, através da mediação de Jesus Cristo e Seu anjo.
A mensagem do Apocalipse é expressa através de um simbolismo vívido e retrata as lutas entre bons e maus no transcorrer da história mundial passada e futura. Descreve o ser humano como sendo impotente para vencer sozinho o mal. Finalmente Deus intervirá cataclismicamente para destruir os poderes do mal. Isto está intimamente associada com o retorno do Messias e a inauguração do reino de Deus (20).
Esta linguagem apocalíptica era um estilo familiar para o público de João, mas para nós ele parece estranho. O livro é repleto de alusões aos escritos do Primeiro Testamento e/ou Antigo Testamento, entre citações literais e alusões contam-se cerca de quinhentas.  Mas, diferentemente dos outros autores neotestamentários, o autor do Apocalipse não introduz suas citações com referência explicita (como: “assim a Escritura”, “assim disse Isaías”, etc...), mas as integra no corpo de sua própria mensagem, como se fossem palavras suas. Conforme explica Vanni:
Variantes significativas com relação ao original veterotestamentário, indicam às vezes uma interpretação própria do autor e, geralmente, o enredo abrangente de alusões e de referências põe o Antigo Testamento em contato contínuo como o Novo. O Novo Testamento constitui seu ponto de chegada, mas sem uma compreensão adequada do Antigo, tornar-se-ia ininteligível. Para a hermenêutica do Apocalipse será necessário, portanto, tomar conhecimento desses contatos, explicitá-los, avalia-los em seu sentido originário, deduzir a partir deles as consequências e as aplicações que o autor deixa apenas entrever. Numa palavra, a hermenêutica do Apocalipse é em grande parte uma releitura do Antigo Testamento (1984, pp.31-32)
            Vejamos algumas características desta utilização conforme mencionadas por A. Vanhoye: a) Parece que o autor recorre diretamente ao texto hebreu e não às traduções gregas conhecidas. b) As citações exatas são muito raras.  João conserva uma inteira liberdade para se inspirar na Escritura, interpretando-a num sentido cristão. Frequentemente simplifica os textos, para melhor delinear os aspectos importantes. Ficamos, por exemplo, afogados na visão inaugural de Ezequiel (Ez 1-2); João soube discernir seus poucos traços fundamentais (Ap 4).  Frequentemente também lhes confere uma dimensão universal que não comportam sempre (1983, p.18-19).
Outra diferença entre o Apocalipse e a literatura apocalíptica judaica deve ser destacada, pois, embora João fosse um judeu ele era também um cristão e como tal sua mensagem é Cristocentrica.
A razão para o estilo apocalíptico é por ser vívido o bastante para ser lembrado por aqueles que estão debaixo de forte perseguição e a quem é primeiramente dirigido, pois aqueles que estão sofrendo perseguição não se lembrariam tão facilmente da teologia epistolar, mas a imagem vívida do Apocalipse podia facilmente ser recordada. O uso de imagens simbólicas torna-se também significativo para todas as gerações posteriores porque elas não atrelam os símbolos a qualquer evento específico da história da Igreja. “Sua linguagem, por vezes simbólica, tem a vantagem de vencer mais facilmente o tempo, pois o símbolo não altera sua representação com o perpassar dos anos” (NOVAH, 1989, p. 3).
Obviamente a imagem da besta pode ser frequentemente mostrada para relacionar-se ao Império Romano (como os preteristas interpretam), mas não está limitada apenas ao Império Romano, mas a todas as espécies de tiranias manifestadas através dos séculos e que perseguem a igreja e que culmina num anticristo. Significa também que não podemos usar o Apocalipse para predizer o tempo exato da segunda vinda de Cristo, pois o propósito central do Apocalipse é ajudar a preparar o povo de Deus para a segunda vinda e para o tempo difícil antes deste último acontecimento histórico.
O livro é apocalíptico em estilo e então deva ser interpretado simbolicamente e não literalmente. Optando por uma aproximação completamente literal logo se depara com dificuldades, por exemplo, quando se tenta interpretar isoladamente o oitavo rei de Ap 17:11, ou o significado do número da besta, 666, ou a nova Jerusalém que tem 12.000 estádios cúbicos de extensão. Por sua própria descrição percebe-se que são simbólicos, e Jesus mesmo explica o simbolismo das sete estrelas e dos sete castiçais (1:20) e deste modo dá a nós cristãos do início do século XXI uma chave para sua interpretação: “Quanto ao mistério das sete estrelas que viste na minha mão direita e aos sete candeeiros de ouro, as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candeeiros são as sete igrejas”.
Porém, como uma profecia ele está predizendo o futuro, mas também continua sendo a palavra de Deus. Como uma epístola João cria uma tensão entre arrependimento e santidade por parte dos santos. Visa encorajar os santos para suportar perseguição, e para não assumir compromisso com os padrões do mundo e como estimulo e alerta ele mostra as recompensas daqueles que creem e obedecem às palavras deste livro e o castigo dos que não o levarem a sério.
Temos ainda no livro do Apocalipse um caleidoscópio de descrições e visões de Jesus em sua glória divina e fornece também muitos exemplos de hinos de louvor e adoração que tem inspirado por séculos os compositores de hinos.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Historiologia Protestante
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Referências Bibliográficas
BORNKAMM, Gunther. Bíblia - Novo Testamento-Introdução aos seus Escritos no Quadro da História do Cristianismo Primitivo. São Paulo: Paulinas, 1981.
COSTA, Hermisten Maia Pereira da, A Literatura Apocalíptica – Judaica. São Paulo: ed. CEP, 1992.
MOUNCE R. H. The Book of Revelation, New international Commentary on the New Testament. Eerdmans, 1977.
NOVAH, Maria Salette da Silva. Apocalipse – Livro Aberto. São Paulo: 1989, p. 3.
SUMMERS Ray. A Mensagem do Apocalipse. Rio de Janeiro: Ed. JUERP, 1980.
VANHOYE, A. Uma Leitura do Apocalipse. São Paulo: Edições Paulinas, 1983. [Citado em Cadernos Bíblicos].
VANNI, Hugo. Apocalipse - Uma Assembleia Litúrgica Interpreta a História. São Paulo: Edições Paulinas, 1984.




[1] “A apocalíptica é uma forma tardia de profecia do Antigo Testamento que ainda leva as marcas de sua origem, com suas extensas citações, imagens e sentenças tiradas dos profetas do Antigo Testamento. Mas a apocalíptica difere da profecia em virtude do dualismo cósmico em que se incuba sua expectativa do fim”. (BORNKAMM, 1981, p. 121). Para uma compreensão mais apurada deste tipo de literatura, tanto suas semelhanças quanto suas diferenças em relação ao Apocalipse de João, recomendam-se uma obra do Rev. Hermisten cujo pressuposto é de que “o estudo da Apocalíptica Judaica torna-se numa ferramenta muitíssimo importante para a compreensão da complexidade do Livro de Apocalipse, fornecendo-nos, assim, subsídios para a sua interpretação, mostrando-nos o perigo do literalismo, o qual foi tão explorado desde um passado remoto até aos nossos dias”.  (COSTA, 1992, p.7). Para uma visão preliminar dos principais livros apocalípticos ver (SUMMERS, 1980, p. 26-36).
[2] O Rev. Hermisten destaca algumas razões para este característico (COSTA, 1992, p.35-36).

terça-feira, 5 de julho de 2016

CARTAS OU EPÍSTOLAS?


Uma grande parte do Novo Testamento é constituído pelas correspondências escrita por líderes cristãos e dirigida às comunidades e/ou lideranças espalhadas por todo o Império Romano. Como devem ser denominadas estas correspondências: cartas ou epístolas? Qual a diferença entre estes dois tipos de correspondências?
Para alguns estudiosos, entre eles Adolf Deissmann (Light from the Anciente East),[1] a "carta" tem um cunho mais pessoal sendo dirigida a uma pessoa e abordando uma situação especifica, não tendo como objetivo primário o ser lido pela comunidade. A "epístola", por sua vez, é um dispositivo literário que tinha como propósito um público maior e mais diversificado.
Pode se dizer que a "epístola" era uma "carta" que tinha a finalidade principal de ser amplamente divulgada. O escritor esta visando alcançar além de um público primário (comunidade local ou individuo) alcançar também um número muito maior de leitores.
Partindo deste pressuposto, muitos estudiosos procuram demonstrar que as "epístolas" contidas no NT, de modo mais específico as escritas pelo apóstolo Paulo e seus contemporâneos neotestamentários, seriam na verdade "cartas" e não "epístolas", ou seja, eles não tinham intenção de que suas correspondências pudessem alcançar outros leitores além daqueles que originalmente endereçaram.
Todavia, como tão bem sabemos hoje, ainda que Paulo e seus colegas não tivessem essa intenção mais ampla, a autoridade apostólica deles, acabou por revestir estas correspondências de um valor muito maior e muito mais abrangente para todos os cristãos e igrejas em todas as épocas e lugares.
Procurando uma alternativa conciliadora podemos dizer que as correspondências contidas no NT são "cartas" quanto ao tom, ao espírito e ao propósito primário, mas simultaneamente, tornaram-se "epístolas" por causa da importância e abrangência universal de sua mensagem.
Ainda que Paulo tenha escrito duas cartas ao jovem pastor Timóteo, visando primariamente animá-lo e orienta-lo quanto às suas responsabilidades pastorais naqueles primeiros dias do cristianismo, tornou-se inevitável que está "carta" tão pessoal, na medida em que foi sendo lida também por outros cristãos, acabasse por tornar-se um instrumento precioso para todos pastores em todos os tempos, passando naturalmente à categoria de "epístola".

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[1] Deissmann utiliza-se das palavras de Cícero: "Vocês veem, eu tenho uma maneira de escrever o que acho que será lido por aqueles a quem envio minha carta, e outra maneira de escrever o que acho que será lido por muitos" (cit. R.P. Martin, New Testament Foudations, II, p. 242).

PAULO - Sua Conversão

A Importância
O ponto central para entendermos Paulo e seus escritos é o seu encontro com o Cristo ressurreto ou o que chamamos de conversão. No livro de Atos encontramos três relatos deste momento marcante na vida do Apóstolo (9.1-19; 22.3-21; 26.9-20)[1].
Qual é o aspecto determinante para Paulo neste momento exato de sua conversão? Sem dúvida alguma o fato de “Cristo vive!”
Ao experimentar esta profunda e radical conversão no caminho de Damasco, Paulo sentiu-se totalmente desapegado de sua vida. Naquele instante os valores mais nobres pelos quais ele está disposto a viver e morrer desvaneceu-se totalmente, pois outros muito mais elevados surgiram diante dele, como ele mesmo declara: “Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo” (Fp 3.7,8, comparando com Mt 16.26).
A conversão de Paulo vai remodelar completamente a sua teologia. As mudanças não são apenas pequenos ajustes, mas uma ruptura com uma antiga teologia para se estabelecer uma nova teologia e isto pode ser visto no uso grande de paradoxos que ele utiliza em suas diversas correspondências.
Desde seu encontro com o Senhor Jesus, Paulo se dedicará por completo à missão de anunciar a Cristo a todos os povos. Esta missão lhe foi dada pelo próprio Cristo: “Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome” (Atos 9.15,16). E esta é a vocação na qual ele se glória: “por causa da graça que me foi outorgada por Deus, para que eu seja ministro de Cristo Jesus entre os gentios, no sagrado encargo de anunciar o evangelho de Deus, de modo que a oferta deles seja aceitável, uma vez santificada pelo Espírito Santo” (Rm 15.15,16). É por esta razão que ele se denomina Apóstolo, pois se dedicou a anunciar o evangelho aonde ainda não havia sido anunciado (Rm 15.20). Se apresentava como apóstolo por vocação, separado para o Evangelho de Deus (Rm 1.1), devedor a todos (Rm 1.14) e não via ou podia imaginar fazer outra coisa a não ser gastar sua vida para anunciar o Evangelho (1 Co 9.16).

A Data da Conversão
Para Lucas existe uma conexão entre a morte de Estevão e a conversão de Paulo (Atos 7.60-8.1). Não transparece na narrativa que houvesse muito tempo entre as perseguições aos cristãos em Jerusalém e adjacências e a missão de Saulo a Damasco.
Com base nas indicações cronológicas fornecidas por Paulo em sua correspondência aos gálatas (1.8; 2.1) e colocando o Concílio de Jerusalém em 49 d.C., podemos auferir uma data próxima de 37/36 d.C. para o momento de sua conversão. Se de fato quando do martírio de Estevão ele ainda era um “jovem” (entre 24-40 anos), sua experiência em Damasco ocorreu com 29-30 anos, portanto, seu nascimento seria em torno de 6/7 d.C.
Um fato político de pano de fundo seria o regresso de Poncio Pilatos, prefeito da Judéia, ter regressado à Roma, por volta do ano 36. A chegada de um novo prefeito à Jerusalém, com pouco conhecimento dos últimos acontecimentos e mudanças no sistema religioso judaico, foi uma ocasião propicia para uma sistemática perseguição aos “hereges cristãos” que acabou culminando na morte trágica de Estevão e a subsequente perseguição à igreja de Jerusalém (Atos 6.87-90; 8.1). Sendo assim, a conversão de Paulo esteve relacionada com estes acontecimentos. Estamos nos tempos do imperador Tibério.

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[1] Cada texto aponta algum aspecto da vocação de Paulo: em 9 destaca o papel de Ananias, encarregado de introduzir Paulo na comunidade cristã; em Jerusalém (22) insiste em seu passado de judeu zeloso para explicar sua atuação como perseguidor; ratifica sua vocação de Apóstolo dos gentios; ante Festo e Agripa (26) faz um comentário da mensagem recebida no caminho de Damasco.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

EPÍSTOLAS PAULINAS - Data e Autoria

  
 Uma Comparação das Conclusões Conservadoras e Liberais*



Conservadoras
Liberais
Epístolas
Agrupamento
Data Provável
Autor
Data Provável
Autor
Gálatas
Iniciais
48
Paulo
48-62
Paulo
1 Tessalonicenses
Iniciais
51
Paulo
50-51
Paulo
2 Tessalonicenses
Iniciais
51
Paulo
75-90
Desconhecido
1 Coríntios
Maiores
54-55
Paulo
55+
Paulo
Romanos
Maiores
55-56
Paulo
55-59 (Caps.1-15)
Paulo
2 Coríntios
Maiores
55-56
Paulo
55+
Paulo
Efésios
Prisão
61
Paulo
Antes 95
Desconhecido
Colossenses
Prisão
61
Paulo
54-90
Provavelmente Paulo
Filemom
Prisão
61
Paulo
59-62
Paulo
Filipenses
Prisão
62
Paulo
54-62
Paulo
1 Timóteo
Pastorais
62
Paulo
100-150
Desconhecido
Tito
Pastorais
63
Paulo
100-150 CE
Desconhecido
2 Timóteo
Pastorais
64
Paulo
100-150
Desconhecido



*Aqui utilizaremos uma tabela elaborada por B. A. Robinson, na qual fizemos um arranjo que nos possibilitasse visualizarmos também uma Ordem Cronológica das Epistolas Paulinas, ainda que qualquer arranjo seja sempre discutível.   Devemos notar que a ordem em que aparecem as cartas nas edições atuais da Bíblia não é cronológica. No caso especifico das Paulinas em primeiro lugar aparecem as cartas dirigidas às Igrejas, seguindo uma ordem decrescente de tamanho, depois vêm as cartas escritas a pessoas individuais.

Me. IPG

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sábado, 2 de julho de 2016

APOCALIPSE – Dificuldades Para a Leitura e Compreensão

Para muitos que leem o Apocalipse[1] pela primeira vez, particularmente um recém convertido, o livro lhe parece algo enigmático e assustador, cheio de símbolos, os quais dificultam o seu entendimento. Mas, com uma crescente compreensão bíblica, analisando-o à luz do contexto bíblico, estando atento às palavras dos profetas, dos apóstolos, ao sermão profético e ao significado dos símbolos ele se tornara reconhecível e estimulante e se transformara numa radiosa mensagem de fé e esperança para os cristãos e igrejas de todos os tempos e até a consumação dos séculos.
Uma razão por que ele parece enigmático é por causa do estilo apocalíptico em que foi escrito. A linguagem apocalíptica utilizada pelo escritor era imediatamente compreensível para os seus primeiros leitores no final do primeiro século, mas não é um estilo comum nestes primeiros dias do século vinte e um e por esta razão torna-se uma barreira para se compreender a mensagem do livro. 
A proposta deste singelo trabalho é preencher um pouco mais as lacunas de nossa compreensão e demonstrar como ambas as escrituras do AT e NT, fornecem as chaves para a interpretação do livro do Apocalipse. 
Uma visão mais ampla pode ser alcançada apenas estudando as muitas referências que se cruzam dentro do Apocalipse e em particular os contrastes decorrentes disto. É destacável também a forma com que a mensagem do AT foi apreendida e interpretada dentro da perspectiva neotestamentária. É facilmente perceptível não apenas a unidade do próprio livro, mas sua unidade com o restante da palavra de Deus, o que o torna um instrumento indispensável. O melhor comentário do Apocalipse é a própria Escritura e qualquer outro comentário pode tornar a água turva, como tão bem coloca Alexander em seu comentário:
“O livro do Apocalipse não deve e não pode ser interpretado senão pela Palavra de Deus, e para compreender bem a Palavra de Deus e não nos afastarmos de sua verdade é preciso tomar sempre o cuidado de procurar O QUE A BÍBLIA DIZ DA BÍBLIA. Realmente, em sua diversidade, a Bíblia é a única intérprete de si mesma” (ALEXANDER, 1987, p.16). 
Outra forte razão pela qual o Apocalipse é frequentemente relegado à periferia das Escrituras (juntamente com outras partes apocalípticas) é por causa de seu simbolismo indigesto. Por causa disto ele não pode ser lido apressada ou superficialmente, mas para aquele que se aproximar dele com diligência contemplara seus preciosos e incomparáveis tesouros. 
Ainda outra razão por que ele não é frequentemente lido está na forte advertência de 22:18-19 sobre acrescentar ou retirar qualquer palavra da profecia. Porém as bênçãos de 1:3 e 22:7 devem servir de grande incentivo a que seja lido, ouvido e entendido.


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Referências Bibliográficas
ALEXANDER, H.E. Apocalipse.  São Paulo: Ed. Ação Bíblica do Brasil, 1987.
BARCLAY, William. El Nuevo Testamento, vol. 16. Argentina, Buenos Aires: La Aurora, 1975.
MUNDLE W. “Revelação”, NDITNT, IV.



[1] O substantivo “apokalypsis” provém do verbo grego, “apokalyptõ”, que é composto de duas palavras: “apo” = “de” e “kalyptõ” = “encobrir, ocultar”. Assim, o verbo “apokalyptõ” significa: “desvendar, descobrir, revelar, etc..”.  E o substantivo “apokalypsis” significa: “manifestação, revelação, etc..”  Quanto a uma pesquisa mais detalhada: (MUNDLE, pp. 221-226; e BARCLAY, 1975, pp. 29ss).

APOCALIPSE – Por Que Foi Escrito?

O Apocalipse foi escrito para mostrar aos servos de Deus o que em breve aconteceria, isto é, uma profecia relativa ao futuro próximo (1:1, 1:3, 1:19, 4:1, 22:6, 22:10), mas também se relaciona com o futuro distante porque ele mostra o fim de todos os poderes humanos e espirituais que se opõem sistematicamente contra Deus e sua Igreja.
As palavras da profecia tinham originalmente a intenção de serem lidas em voz alta, e somente alguém com uma maturidade cristã e um bom conhecimento de ambos os Testamentos, poderia desempenhar esta função. Existe uma bênção para aquele que lê em voz alta o livro para a comunidade reunida, como também para cada um daqueles que ouvem e guardam no coração o que nele foi escrito, visto que o tempo de seu cumprimento é próximo.
O livro mostra a tribulação dos santos na forma de perseguição e tribulação, e do mundo na forma de guerras, escassezes, ataque demoníacos, decepção, desastres e pestilências, vindos da parte de Deus, como que advertindo a humanidade para se arrependerem. Não há dúvida de que nosso Senhor teve em mente o período de perseguição debaixo do Império Romano que durou até Constantino em 314 d.C., quando deu esta profecia a João, mas Ele teve em mente também todos os períodos de perseguição que perdurará até que Ele retorne.
Este é o último livro na bíblia e se constitui deste modo, na última palavra de Cristo a Seus servos, e Ele os adverte a permanecerem fieis até o fim, quando Ele retornará em glória com seus anjos e santos para reinar eternamente. Este livro foi planejado para fortalecer nossa fé até que ele venha novamente.
Podemos desta forma destacarmos algumas razões pelas quais devemos estudar o livro do Apocalipse:
Ø  Ele reivindica a sua autoria divina mais do que qualquer outro livro da bíblia (1:1).
Ø  Por causa de seu simbolismo e a dificuldade consequente em entendê-lo, é frequentemente abandonado, mas toda escritura é importante e necessária.
Ø  Há uma bênção para aqueles que ouvem e guarda no coração sua mensagem (1:3, 22:7).
Ø  Ele traz uma mensagem para a igreja ao longo de todas as gerações e abençoou e fortaleceu a igreja no transcorrer da história.
Ø  Ele tem uma mensagem que é relevante tanto para estes dias contemporâneos, quanto foi para as sete igrejas daqueles primeiros dias.
Ø  É a última palavra de Deus para a Igreja nas Escrituras no tempo e espaço.
Ø  Tem uma mensagem particular para aqueles que estão sofrendo perseguição.
Ø  Mostra o fim da história, mostra à derrota dos inimigos e a bênção de Deus para os seus santos.
Ø  Mostra-nos o Cristo glorificado como em nenhum outro livro da Bíblia.


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Referências Bibliográficas
ALEXANDER H. E. Apocalipse. São Paulo: Ed. Ação Bíblica do Brasil, 1987.
ASHCRAFT, Morris. Comentário Bíblico Broadman, v.12, ed. JUERP, 3ª ed., 1983.
CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado, v. 6, ed Milenium, São Paulo, 1988.
CLARKE, Adam, The New Testamento of Our Lord and Saviour Jesus Christ. Nova York: Abingdon-Cokesbury Press, vol. II, s. d.
CORSINI Eugênio. O Apocalipse de São João. São Paulo: Edições Paulinas, 1984.
DOUGLAS J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Ed. Vida Nova, 2001.
HENDRIKSEN, William. Mais Que Vendedores - Interpretação do livro do Apocalipse. São Paulo:  ed. CEP, 1987.
LAYMON, Charles M. The Book of Revelacion. Nova York: Abingdon Press, 1960.
McDOWELL, Edward A. O Apocalipse – Sua Mensagem e Significação. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1960.

SUMMERS Ray. A Mensagem do Apocalipse. Rio de Janeiro: Ed. JUERP, 1980.