sábado, 13 de agosto de 2016

Quadro Cronológico dos Reis e Profetas do Primeiro Testamento

Manuscritos Mar Morto
O Período Clássico do Profetismo Bíblico: Século VIII
           Historicamente o período, inaugurado com Oseias e Amós, é frequentemente chamado de “período clássico” da profecia veterotestamentária e eles também iniciaram a prática de “registrar” suas mensagens proféticas.  Entretanto, tal designação é muito mais para efeito didático do que um fato exato, visto que, não há uma radical ruptura entre os profetas antes do início do "período clássico” e aqueles que surgiram depois, como a classificação pode deixar transparecer.
             Conforme coloca de forma clara Bright (1980, p. 353), ainda que a originalidade ou inovação de registrarem suas mensagens tenha enorme valor, pois puderam serem preservadas até hoje, eles não romperam com tradição profética em que estavam inseridos. Tão somente incorporaram e se adaptaram a uma nova realidade, exatamente como fazemos hoje ao nos ajustarmos à comunicação nestes tempos cibernéticos, que muitas vezes exige uma nova linguagem e formatos na transmissão da mensagem a ser comunicada.  Por muitos anos eles transmitiam suas mensagens oralmente, e que foram preservadas e divulgadas por seus ouvintes, também de forma oral, mas paulatinamente os registros destas mensagens foram prevalecendo, dando origem aos livros proféticos como os conhecemos.
           Aqui torna-se oportuno um esclarecimento didático. Os profetas que não deixaram registros de suas mensagens são denominados de “profetas orais” ou “sem escritos”, porque não temos no Cânon Hebraico nenhum livro produzido por eles individualmente, tais como uma “profecia segundo Elias ou Eliseu”. Desta forma, aqueles cujas mensagens foram registradas são chamados de “literários” ou “escritores” porque os livros (mensagem) trazem seus nomes ou estão diretamente ligados a eles.
           Todavia, esta classificação traz suas limitações, como bem demonstra LaSor:
Por um lado, um livro (ou dois) leva o nome de Samuel. (Não vem ao caso se ele escreveu ou não.) Por outro lado, não se deve pressupor que os profetas ‘escritores’ puseram-se a escrever livros de profecia. Os indícios no livro que leva o nome de Jeremias indicam que ele era principalmente um profeta ‘oral’ e que o registro escrito de sua profecia foi em grande parte trabalho de Baruque (Jr.36:4,32). Fica claro pelo conteúdo deles que a maior parte dos livros proféticos foi primeiro mensagem oral, escrita mais tarde, talvez pelo próprio profeta, talvez por seus discípulos”. (1995, p. 243-244).
           É bom destacar também, que Jesus Cristo, o maior de todos os profetas, não escreveu suas profecias; elas foram registradas por outros e preservadas nos evangelhos.
           As datas indicadas para cada livro procuram refletir o ministério ativo dos profetas dentro de uma proximidade e harmonia dos seus respectivos contextos históricos. Entretanto, muitas vezes os escritores e/ou redatores não fornecem subsídios suficientes para se concluir com maior grau de exatidão as datas, fazendo com que os estudiosos ofereçam opções até certo ponto contraditórias.
           O quadro cronológico abaixo é um exercício deste esforço que se tem feito ao longo dos séculos para localizar os profetas e suas mensagens no tempo/espaço da história de Israel e posteriormente Judá. É uma proposta conservadora, optando sempre pelas datas mais consensuais e menos extravagantes de muitos eruditos e/ou escolas mais liberais. Mas mesmo entre os conservadores ainda há muitas controvérsias e alguns profetas muitas vezes são alocados para datas muito distintas entre eles. Os profetas com * são os denominados “profetas orais”.    

Quadro Cronológico dos Reis e Profetas

Reino Unido

Data (a.C.)
1075-931

Rei

Profeta


Saul e Davi
Samuel*

Saul e Davi
Gade* (2 Sm.22:5)

Davi
Natã* (2 Sm.12:1)

Salomão
Ido* (vidente – 2 Cr.9:29)
Reino DIVIDIdo
Em 931, ano da morte de Salomão, a nação dividiu-se em dois reinos, Judá e Israel.
Judá (Reino do Sul)
Israel (Reino do Norte)
Data (a.C.)

Rei

Profeta

Data (a.C.)

Rei

Profeta

931
Roboão

931
Jeroboão I

913
Abias

909
Nadabe

911
Asa

886
Baasa




885
Elá




885

               Zinri





885
Onri

873
Josafá

874
Acabe
Elias* (870-845)



853
Acazias

853/848
Jeorão (Jorão)
Obadias
852
Jorão (Jeorão)
Eliseu* (845-798)
841
Acazias




Em 841, Jeú matou os reis de ambos os reinos, apoderou-se do trono de Israel e destruiu o generalizado culto a Baal no Reino do Norte.
841
Rainha Atalia

841
Jeú

835
Joás
Joel (830-825)
814
Jeocaz




798
Jeoás

796
Amazias

793
Jeroboão II
Jonas (785-760)
792
Azarias (Uzias)



Amós (760)



753
Zacarias
Oséias (755-725)



752
Salum




752
Menaém

750
Jotão




743
Acaz
Isaías (740-680)





Miquéias (730-720)
742
Pecaías




752*
Peca




732
Oséias

728
Ezequias




Em 722, os assírios destruíram Samaria e exilaram Israel para a Assíria. Judá foi poupada em virtude da reforma de Ezequias e do expurgo da idolatria.

Ezequias

710

Naum 710 (aproximadamente)
697
Manassés




642
Amom




640
Josias
Jeremias (627-585)



609
Jeoacaz
Sofonias (625)



609
Jeoaquim




597
Joaquim
Habacuque (607)



597
Zedequias




Em 586, os babilônicos destruíram Jerusalém e exilaram os judeus para a Babilônia.


Daniel (603-536)

Ezequiel (592-570)



Em 538, a Pérsia libertou e devolveu os exilados para eles construírem o Templo em Jerusalém.
536
Zorobabel (Governador)
Ageu (520)

Zacarias (520-480)



Em 444, a Pérsia mandou Neemias reconstruir o muro de Jerusalém e tornar-se governador.
444
Neemias
(Administrador)
Malaquias (430)



             

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/



[*] Estes são denominados de “profetas orais” ou “sem escritos”, porque não temos no Cânon Hebraico nenhum livro produzido por eles individualmente, tais como uma “profecia segundo Elias ou Eliseu”. Os demais profetas mencionados são chamados de “literários” ou “escritores” porque os livros trazem seus nomes ou estão diretamente ligados a eles. Mas esta classificação demonstra ser limitada, como bem demonstra LaSor: “Por um lado, um livro (ou dois) leva o nome de Samuel. (Não vem ao caso se ele escreveu ou não.) Por outro lado, não se deve pressupor que os profetas ‘escritores’ puseram-se a escrever livros de profecia. Os indícios no livro que leva o nome de Jeremias indicam que ele era principalmente um profeta ‘oral’ e que o registro escrito de sua profecia foi em grande parte trabalho de Baruque (Jr.36:4,32). Fica claro pelo conteúdo deles que a maior parte dos livros proféticos foi primeiro mensagem oral, escrita mais tarde, talvez pelo próprio profeta, talvez por seus discípulos”. LASOR, William S. Op. cit., p. 243-244 [É bom destacar também, que Jesus Cristo, o maior de todos os profetas, não escreveu suas profecias; elas foram registradas por outros e preservadas nos evangelhos.] 
As datas procuram refletir o ministério ativo dos profetas dentro de uma proximidade e harmonia do contexto histórico. Mas, muitas os escritores não fornecem subsídios suficientes para se concluir com maior grau de exatidão as datas, fazendo com que os estudiosos ofereçam opções até certo ponto contraditórias.

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Referências Bibliográficas
BRIGTH, J. História de Israel. São Paulo: Paulus, 1980.
FEINBERG, Charles L. Os profetas menores. Miami, Florida: Ed. Vida, 1988.
FOHRER, Georg. História da religião de Israel. [Tradução: Josué Xavier; Revisão: João Bosco de Lavor Medeiros]. São Paulo: Edições Paulinas, 1982.
HILL, Andrew E. e WALTON, J. H. Panorama do Antigo Testamento. [Tradução:  Lailah de Noronha]. São Paulo, Editora Vida, 2006.
LASOR, William S., HUBBARD, David A. e BUSH, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1999.
PAPE, Dionísio. Justiça e esperança para hoje – a mensagem dos profetas menores. São Paulo: ABU, 1983.
POTT, Jerónimo. El mensaje de los profetas menores. USA: Iglesia Cristiana Reformada [Subcomissão Literatura Cristiana], 1977.
ROWLEY, A fé em Israel – aspectos do pensamento do Antigo Testamento.[Tradução: Alexandre Macintyre]. São Paulo: Editora Teológica, 2003.

SCHREINER, Josef. Palavra e mensagem do Antigo Testamento. [Tradução: Benôni Lemos], 2ª ed. São Paulo: Editora Teológica, 2004.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O DESENVOLVIMENTO DO PROFETISMO EM ISRAEL


É necessário, ainda que seja uma tarefa complexa tentar desenvolver este tema num espaço tão sucinto, procurar obter uma visão do desenvolvimento do exercício profético no transcorrer da história do povo de Israel.

Atividade Profética no Antigo Israel: Encontraremos a presença dos dois tipos básicos de profetas: o navi e o roeh, conforme acima mencionado, e ambos bem afeitos a época e ao momento cultural do povo. O primeiro está mais ligado à uma vida agrícola, e o segundo, caracterizado pela figura do vidente, associa-se mais com a uma vida nômade. O certo é que Israel perde bem cedo essa figura do vidente assim como os conceitos da vida nômade. Os nevi’im assumem então um papel importante na vida do antigo Israel desenvolvendo assim seu ministério profético debaixo dos limites da fé javista.

O movimento profético, como escola, tem um momento histórico preciso para o seu início: Samuel.  É apontado o décimo século antes de Cristo como a época do início do movimento, cuja característica era ser espontâneo e leigo, sem conexão com a instituição sacerdotal. Ao contrário dos profetas das outras religiões, os profetas hebreus eram anunciadores da moralização e espiritualidade requeridas por Deus, e isso não tem paralelos nos outros profetas. Em lugar de feiticeiros e adivinhadores, Deus levanta profetas que busquem o bem espiritual do povo, para que o mesmo cumpra os propósitos de Deus.

O Profetismo e o Estabelecimento da Monarquia: É certo que no período dos juízes percebemos uma certa instabilidade na teocracia e no período de Samuel encontramos um momento de transição entre a teocracia e a monarquia. Pergunta-se qual é a relação do profetismo com a Monarquia? A resposta poderia ser dada considerando-se vários ângulos, mas o que podemos fazer aqui é tão somente levantarmos alguns aspectos. Samuel é testemunha ocular e agente influente nesta transição. Ele representa a tradição anfictiônica e nos parece à luz dos argumentos de Brigth que Samuel resistiu e muito a ideia da monarquia, pois “manteve-se viva a vontade de resistir e de perpetuar a tradição carismática, graças, sobretudo aos profetas que surgiram nesse tempo (...) tais profetas, certamente, por meio de sua fúria extática, procuraram incitar todos a um zelo santo para combater a Guerra Santa contra o odioso invasor (Filisteus). ”  A escolha do primeiro rei de Israel deu-se por dois mecanismos: a aclamação popular e a designação profética (I Sm 10:1; 11:14). A importância dos profetas não é vista somente na consagração dos reis, mas também na manutenção do princípio da teocracia. Depois de Samuel, temos alguns profetas mencionados tais como: Natã, Gade, Abiú, Micaías, Aías, Semaías, Jeú, Elias e Eliseu.

Em geral, os profetas dos séculos X e IX eram ‘conselheiros dos reis’. Talvez tivessem mensagens proféticas para o povo, mas a maior parte das evidências indica que aconselhavam os reis, ajudando-os a discernir a vontade de Deus, incentivando-os a andar no caminho de Javé ou, com maior frequência, censurando-os por falharem neste aspecto.  
No período do Reino dividido, profetas surgiram e advertiram o povo de um modo geral. Durante a apostasia que tomou conta da nação israelita vemos a veemência com que Elias e Eliseu proclamam mensagens de Deus contra a impiedade dos líderes e os pecados por eles cometidos.  Na época do Reino do Norte, o movimento era bastante extenso, a ponto de haver grupos de cinqüenta profetas num só lugar, como Betel.  O Reino do Norte teve o fim trágico anunciado pêlos profetas exatamente porque não dera ouvido aos seus oráculos. Judá também não escapa da infidelidade e caí nas mãos dos seus inimigos e é levado ao exílio.

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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LITERATURA HISTÓRICA DO ANTIGO TESTAMENTO: Introdução

Estamos entrando agora naquele grupo de doze livros chamados pelos judeus de profetas anteriores e que, seguindo a classificação grega, denominamos de históricos. Iniciando com Josué e indo até Ester, veremos que estes doze livros retratam a história da nação de Israel. Eles cobrem a vida da nação desde possessão da terra prometida até as duas deportações e perda da terra por causa da incredulidade e desobediência deles.
Por que os judeus classificam este grupo de livros de “profetas anteriores”, enquanto nós, seguindo a Septuaginta os classificamos de “históricos”?  Paulo Hoff procura responder esta questão em seu livro:
“Há duas razões possíveis.  Em primeiro lugar, a tradição hebraica atribui a ‘profetas’ a composição destes livros.  Em segundo lugar, o objetivo principal dos escritores não é tanto ensinar a história de Israel tal como ela foi, e sim ‘a forma pela qual a mensagem de Deus entrou na vida da nação’,  ou seja, os historiadores cristãos escrevem sempre guiados por um fim doutrinário, e inspirados na lei e nos profetas.  Apresentam a história de Israel desde o ponto de vista profético. ... Assim como os profetas, os escritores dos livros históricos se interessavam mais em interpretar a história que em registrá-la.  Sua motivação era dar ensinamento e edificação aos seus leitores.  Os historiadores sagrados não tentavam narrar todos os acontecimentos de Israel e das nações que estavam ao seu redor.  Passaram por alto certos períodos ou os trataram de forma breve, por estes não terem relacionamento direto com seu tema.  Escolheram, selecionaram e orientaram todos os acontecimentos históricos com um fim religioso, dando-lhes uma significação profunda e sublime: a atuação de Deus na história. ” (1996, p.13). 
É importante também destacarmos aqui as duas formas de se escrever história, conforme observou Philip Hyatt:
“... os escritos históricos são de duas espécies: objetivos e subjetivos.  Os escritos objetivos relatam-nos os acontecimentos como se desenvolveram, evitando, tanto quanto possível, o preconceito do investigador.  A história subjetiva procura descobrir e interpretar os fatos e o seu valor em relação como o homem.  Consiste de ‘eventos ligados entre si por uma linha de interpretação’.  A história objetiva procura ser impessoal, enquanto a subjetiva é pessoal no seu escopo.  O alvo principal da história subjetiva é levantar o interesse, de modo a inspirar ação; o principal alvo da história objetiva é suprir informação.  O historiador subjetivo tem os olhos postos nos leitores; e o objetivo, nos fatos que procurar relatar.” (apud,  FRANCISCO, 1969, p. 68).  A história veterotestamentária é subjetiva.
Cobrindo aproximadamente 800 anos da história de Israel, os doze livros que compõe esta parte da bíblia registram a conquista e possessão de Canaã, as lideranças dos juízes, o estabelecimento de reis, a divisão de Israel nos Reinos do Norte e Sul, a queda do Reino do Norte para Assíria, a queda e o exílio do Reino do Sul para a Babilônia, e o retorno dos exilados para Jerusalém debaixo da liderança de dois homens Neemias e Esdras.
As palavras finais de Moisés em Deuteronômio 28-30 constituem uma introdução excelente aos livros históricos.  Ou, digamos, os livros demonstram exatamente o que Moisés disse naqueles capítulos sobre o que seria feito pelo Senhor no caso de serem ou não obediente.  As bênçãos prometidas como resultado da obediência se evidenciam na conquista vitoriosa de Josué e nos extraordinários reinados de Davi e Salomão.  Por sua vez, as maldições surgem na apostasia dos juízes, na posterior idolatria e no cativeiro dos dois reinos.  As promessas de restauração final, relacionada com os “últimos dias” (Deuteronômio 4:30), tiveram cumprimento parcial na volta de Zorobabel, Esdras e Neemias.
Conforme o quadro abaixo, podemos ter uma visão panorâmica destes doze livros históricos e seus assuntos e temas centrais:

LIVROS HISTÓRICOS
Josué
Juizes e Rute
a possessão da terra pela nação e a opressão da nação
A Teocracia: Estes livros cobrem o período quando Israel era governado por Deus (1405-1043 A.C.).

1 Samuel
2 Samuel
1 Reis 1-10
1 Reis 11-22
II Reis 1-17
II Reis 18-25
1 Crônicas
2 Crônicas
a estabilização da nação
a expansão da nação
a glorificação da nação
a divisão da nação
a deterioração do Reino do Norte
a deportação do Reino Meridional
a preparação do Templo
a destruição do Templo
A Monarquia: Estes livros focalizam a história da monarquia de Israel e seu estabelecimento bem como a sua destruição em 586 A.C.

Esdras
Neemias
Ester
A restauração do Templo
A reconstrução da cidade
a preservação do povo israelita (qdo. no exílio)

A Restauração: Estes livros descrevem o retorno dos remanescentes à terra depois de 70 anos de cativeiro (605-536 A.C.).


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Guedes, Ivan Pereira
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Referências Bibliográficas
FRANCISCO, Clyde T.  Introdução ao Velho Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1969. 

HOFF, Paul.  Os livros históricos. São Paulo: Vida, 1996.  

terça-feira, 26 de julho de 2016

O HOMEM QUE QUERIA SABER MAIS (Reflexão)


Já era noite, pois os últimos raios de claridade haviam desaparecido. Desde alguns dias vinha lutando internamente com a possibilidade de procura-lo, mas sabia que as implicações disto seriam grandes. Quando a notícia se espalhasse teria que dar muitas explicações

e certamente haveria de conviver com muitos olhares de desconfiança, afinal era muito conhecido e ocupava uma posição proeminente na principal Sinagoga de Jerusalém.
Pensara em conversar com a esposa ou com algum de seus amigos mais chegados, para saber a opinião deles e assim tomar uma decisão mais abalizada, todavia sabia que a resistência seria muito grande e por fim resolvera que a decisão seria apenas sua.
Ficou sabendo que Ele havia subido e que passaria a Páscoa com os seus amigos em Jerusalém. Certamente esta seria a melhor oportunidade para encontra-lo. Mas como no ano anterior, os dias se passaram tão rapidamente e agora sabe que logo pela manhã Ele partiria novamente, pois seu ministério era itinerante, portanto, chegara a hora de tomar uma decisão: iria ou ficaria – então se levantou e foi.
O caminho de sua casa até onde Ele estava hospedado não era longo, apenas algumas ruas, mas naquele momento cada passo seu parecia demorar um quilometro. Sua mente estava agitada como nunca antes. Havia tantas questões a serem debatidas, mas seleciona-las e organiza-las por ordem de importância tinha lhe tomado muito tempo nestes últimos dias, e cada vez que repensava a ordem das questões se alteravam. Por fim resolvera que o primeiro assunto que abordaria seria a respeito do Reino de Deus.
Desde sua infância ele havia recebido toda a orientação possível sobre a religião judaica. Aprendera, como todos os meninos, a ler e escrever tendo como livro texto a Torá. Havia memorizado os textos principais e todas as orações diárias o qual recitava ao menos três vezes ao dia como havia sido orientado a fazer, o que fazia não apenas como obrigação religiosa, mas com satisfação da alma.
Enquanto caminhava lembrou-se com alegria de seu “Bar-Mitzvá”[1] que marcava sua transição para a vida adulta. Os anos se passaram rapidamente e agora já na casa dos cinquenta anos, enquanto caminha pela noite, seu coração dispara novamente, como naquele dia da sua primeira leitura da Torá na Sinagoga.
Finalmente chegara à porta da casa onde o Ele estava. Em fração de segundos repensa a razão que o levava a procura-lo. Por todos anos de sua vida sempre procurou ser uma pessoa melhor. Sempre levara a sério as prescrições da religião de seus pais e que também havia tomado para si. Observava com zelo ardoroso o calendário religioso e nunca, até mesmo nos momentos mais difíceis, como aquele em que debilitado por uma enfermidade, deixou de oferecer seus sacrifícios conforme a Lei de Moisés ordenava.
Por causa de seu zelo e conhecimento adquirido da Torá foi convidado, ainda muito jovem, a fazer parte da direção da Sinagoga. Com o passar dos anos, naturalmente, tornou-se um de seus principais chefes. Em muitas ocasiões leu e expôs as Escrituras de tal maneira que seus ouvintes ficavam absorvendo atentos em completo silêncio. Por causa disso muitos convites eram feitos para que visitasse outras Sinagogas de Jerusalém e arredores.
Sempre procurou ser um bom marido, assim também um bom pai. Sabia que os olhares de seus vizinhos, amigos e de todos os que faziam negócios com ele estavam sempre atentos, por isso sempre honrou sua palavra e era conhecido pela sua honestidade nos negócios.
Mas apesar de tudo isso, de toda sua dedicação religiosa e de uma vida honrada, em muitas ocasiões seu coração se perturbava e sua alma se inquietava, pois não podia ter a plena certeza, a total garantia de que entraria no Reino de Deus. E esta era a razão que o levara a sair à noite e se dirigir até aquela casa onde Jesus estava.
Bateu na porta e rapidamente alguém abriu e o mandou entrar. Seus olhos logo localizaram Jesus, que calmamente falava com as pessoas ali presentes. Sua voz era suave, porém, transmitiam uma autoridade tão grande que impactava a todos os que o ouviam. Encerrando sua argumentação levantou os olhos e convidou Nicodemos a se aproximar. As pessoas abriram espaço para que ele pudesse ficar mais próximo do Mestre. Assentou-se e fez a melhor saudação possível a uma pessoa: “Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele”.
Nicodemos havia se preparado para muitas coisas, mas não para as palavras de Jesus. Em vez de retribuir a gentileza de suas palavras, Jesus lança lhe uma afirmação categórica: “Em verdade em verdade te digo, se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus”.
Por alguns segundos ele fica ali, pensando nas palavras de Jesus, o qual não fazia sentido algum. Então formula seu questionamento: “Como pode alguém nascer novamente, sendo já velho, pode por ventura entrar novamente no ventre de sua mãe e nascer novamente..
Diante de seu questionamento, Jesus responde: “Se você não nascer da água e do Espírito, não poderá entrar no Reino de Deus”. Nicodemos ficou ali, pensando, mas não conseguia compreender o que Jesus estava dizendo. Então Jesus, como que percebendo a angustia de seu coração continua a falar; fala do amor imensurável de Deus que enviou Seu unigênito Filho para que morresse em lugar dos pecadores; fala da necessidade de se crer no Filho, que veio não para condenar, mas para salvar os que estavam perdidos. Jesus concluiu suas palavras afirmando que os que praticam a verdade não precisam temer a luz, pois suas obras são feitas em Deus.
Nicodemos ouviu tudo com uma atenção infantil, não querendo perder uma única palavra de Jesus. Agradeceu a atenção do Mestre, levantou-se e saiu.
Enquanto retornava para sua casa, ele percebeu que aquelas palavras de Jesus começavam a fazer sentindo e na mesma medida o seu coração começava a ser tomado por uma alegria incontida. Uma paz começou a invadir sua alma, de maneira que toda ansiedade, toda a angustia, todas as apreensões, foram apaziguadas – algo completamente novo estava acontecendo – seria isto que Jesus chamou de Novo Nascimento.
Quando Nicodemos entrou em sua casa, ele tinha plena certeza, não era mais o mesmo Nicodemos que havia saído para encontrar-se com Jesus. Ele agora era uma nova pessoa. O Espírito Santo produziu em seu interior um renascimento!!
Então Nicodemos abraçou sua esposa, mandou chamar seus filhos e todos que faziam parte de sua casa...e começou a contar-lhes tudo quanto havia acontecido com ele....

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[1] Ao completar 13 anos, o jovem atinge a maioridade religiosa judaica. Para marcar esta passagem, é celebrado o Bar-Mitzvá, uma cerimônia que ressalta a importância de cada um dos judeus na corrente ancestral do judaísmo. É nessa data que o jovem, pela primeira vez, coloca os Tefilin e é chamado para ler na Torá.