quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Atos: A Conversão de um Etíope e o Primeiro Missionário Africano (Atos 8.25-40) - Subsídios Exegético e Histórico


A cópia mais antiga ilustrada da Bíblia é conhecida como os “Evangelhos de Garima”,
em um mosteiro no norte da Etiópia (aprox. 330 e 650 d.C.)
.

O conhecimento que recebemos da História do Cristianismo é extremamente limitado e restritivo à perspectiva Ocidental e pouco sabemos sobre o Cristianismo Oriental, visto que houve a grande ruptura eclesiástica (1054 d.C). Mais lamentável ainda é a nossa total ignorância histórica do Cristianismo Africano, agravado pelo fato de que muitos dos grandes expoentes da ortodoxia cristã tem suas origens neste Continente (Orígenes, o alexandrino; Tertuliano, o norte africano, sem falar de Agostinho e Atanásio dois pilares do pensamento cristão) e onde nos dias atuais é simultaneamente a região global que mais cresce e que mais sofre o cristiani(cídio) cínica e covardemente ignorado pela mídia ideológica e convenientemente abandonado à própria sorte pelas lideranças cristãs do Ocidente e Oriente.

O motivo da escassez de informações históricas canônicas e também seculares desta imensa região do globo terrestre não são indicadas com clareza, como tão bem sintetiza Helmut Koester: “Não se esclarece por que as notícias sobre a época primitiva do cristianismo no Egito [amplio África] são tão escassas, enquanto que as tradições cristãs de Síria, Ásia Menor e Grécia, ainda que incompletas, são o suficientemente ricas e diversificadas...” (1988, pp. 742-744). Existem pelo menos três grupos que contribuíram para o florescimento do cristianismo na África: os judeu-cristãos, os cristãos-helenísticos e os cristãos-coptas (egípcios).

Percebe-se que há um esforço muito grande para se esconder a rica história da vertente cristã africana. Os grandes personagens mencionados acima são normalmente citados sem se fazer um link com suas etnias africanas, de maneira que se passa a falsa impressão de que eles são todos “europeus”.

            Nas páginas do livro de Atos composto pelo evangelista Lucas como a segunda parte do seu volume inicial, encontramos um registro peculiar – a evangelização e subsequente batismo de um oficial etíope (At 8.26-39). Todavia, no que tange a interpretação e estudos neotestamentário, o registro lucano do encontro de Filipe com esse graduado oficial etíope é um dos relatos mais esquecidos. Estudos focados diretamente nesta passagem são escassos, de modo que, precisa ser melhor estudado e mais valorizado, visto entendermos que nenhum registro nas Escrituras é destituído de valor.

            A narrativa em si já se reveste de peculiaridade. Lucas faz um longo registro do debate do diácono Estevão com as autoridades máxima do judaísmo e que produzira o primeiro mártir cristão, tendo como consequência direta o primeiro êxodo cristão a partir de Jerusalém, provocada, não pelas autoridades romanas, mas pelas autoridades judaicas, representada em sua instância maior o Sinédrio.

Na sequência o historiador evangélico passa a relatar o primeiro grande avivamento evangelístico que está ocorrendo na região vizinha Samaria pela instrumentalidade de Felipe outro diácono (8.5-25), de maneira que Lucas está seguindo o arcabouço por ele estabelecido no início desta sua obra (1.8). Mas na sequência de sua narrativa Lucas faz um recorte e passa ao registro do envio, pelo Espírito Santo, de Felipe para uma estrada deserta em direção a Gaza e ali ele vai evangelizar e batizar um oficial etíope, no período da regência de Candace, e que após ser batizado, tomado de grande alegria “ continuou o seu caminho”, pois estava retornando ao seu país – mas agora sendo portador das boas novas do Evangelho, lembrando que antes de serem chamados “cristãos” os discípulos eram chamados os “do caminho” – portanto, esse homem convertido se constitui no primeiro evangelista cristão na Etiópia, que naquele período se constituía em um dos países mais relevantes no Continente Africano.

A ênfase de Lucas nesse aspecto é reforçada pelo fato de que a cena seguinte é a conversão de Saulo de Tarso, em sua marcha para Damasco para prender cristãos, e que será constituído pelo próprio Senhor Jesus, o missionário para os povos gentios, mas, Saulo/Paulo permanecerá dentro das fronteiras do Império Romano, todavia, o Espírito Santo vai convertendo seus missionários e os enviando à todas as nações, incluindo a Etiópia e por consequente o Continente africano; o Espírito Santo é quem estabelece a agenda missionária mundial de maneira que o Etíope e Paulo são igualmente seus instrumentos.

Desta forma textualmente é possível afirmarmos que o contexto mais amplo (6.1-11.9) se constituiu em um bloco literário, uma vez que as narrativas se comunicam entre si estabelecendo uma inter-relação textual, oferecendo aos leitores uma perspectiva além dos fatos compartilhados unitariamente. O que também nos faz rejeitar as propostas daqueles que transformam esse livro e todas os demais literaturas bíblicas, em cochas de retalhos coladas e remendadas ao bel prazer dos escribas e amanuenses no tramitar dos tempos. O escritor Lucas tem uma proposta muito clara esboçada no início de sua obra e a segue com afinco, conectando os fatos históricos por ele selecionados, e assim, constituindo um texto único bem elaborado.

O fato de que Lucas encerra a narrativa de Atos de forma inconclusiva tem estimulado alguns comentaristas a pensar que ele pretendia escrever um terceiro volume, onde haveria de continuar o seu registro da expansão do cristianismo além fronteiras do Império Romano, o que poderia incluir a Etiópia e demais nações africanas. A expressão com que Lucas conclui a narrativa de Felipe-Etíope “continuou seu caminho” possibilita a interpretação de que ele tem a expectativa e/ou conhecimento de que o Evangelho chegara ou chegou efetivamente àquela região africana. Uma vez que ele conclui esse segundo volume entre cinco ou mais anos depois dos fatos registrados é plausível supor que ele tenha obtido informações orais e até mesmo documentais dos desdobramentos dos fatos aqui compartilhados em Atos.

            Qual a razão pela qual Lucas registra em detalhes esse acontecimento pessoal e peculiar deste etíope? Quais as implicações desse fato para a História do Cristianismo Africano? Que subsídios históricos existem deste acontecimento no desenvolvimento do cristianismo africano?

Análise da Narrativa Lucana  

            O livro de Atos tem um valor intrínseco, pois é o único no cânon neotestamentário de cunho histórico. Lucas tem a perspectiva de um historiador de maneira que seu propósito é oferecer ao “excelentíssimo Teófilo” informações seguras a respeito do progresso do cristianismo nos anos subsequentes à morte e ressurreição de Jesus Cristo, conforme apresentado e concluído em seu primeiro volume evangélico.

            Ele define seu esquema geográfico narrativo já nas primeiras linhas: “Mas quando o Espírito Santo descer sobre vocês, então receberão poder para testemunhar com grande efeito ao povo de Jerusalém, de toda a Judéia, de Samaria, e até aos confins da terra, a respeito da minha morte e ressurreição" (Atos 1.8 Bíblia Viva – sublinhado meu). Todos os movimentos da narrativa lucana estão dentro desta proposta conforme esboço simples abaixo:

- Propagação em Jerusalém (1-7)

- Propagação na Judéia e Samaria (8-12)

- Propagação aos extremos do Império (13-28).

            A perícope do Etíope está dentro desta visão geográfica progressiva da narrativa lucana, mais do que a capital do Império Romano é a Etiópia que mais se ajusta “aos confins da terra”, o que reforça a ideia de que ele pretendia escrever um terceiro volume.

            Nesta passagem (8.26-39) os termos predominantes são “caminho” (vs. 26, 36, 39), pelo “Espírito” (v. 29) referindo-se ao Espírito Santo e o verbo “anunciar” (v. 35), mas podemos incluir o termo “evangelizava” (vs 25 e 40) que fazem a função de moldura desta perícope.

Ao destacar que Felipe foi comunicado por um anjo para ir especificamente a um local “vai para a banda do sul, no caminho que desce de Jerusalém a Gaza”,[1] o historiador tem plena consciência de que este é o caminho[2] que conduz à região africana. Nos dias de Lucas o centro de estudos geográficos estava na Grécia:

Na antiguidade clássica, a terra habitada era retratada como um disco rodeado pelo "Mar Exterior"(ώκεανός). “Os confins da terra” (τά œσχατα τής γής) referidos, como WC van Unnik tem mostrado, aos pontos mais distantes na borda do disco, por exemplo, o Ártico ao Norte, Índia a leste, Etiópia a sul e Espanha a oeste. 15 Uma pesquisa de computador que eu fiz da frase no Thesaurus Linguae Grecae confirma totalmente as descobertas de van Unnik. A expressão tem esse significado na Septuaginta e nos escritores patrísticos (muitas vezes citando a Septuaginta), onde a frase aparece com mais frequência na literatura grega. Foi usado da mesma forma nos escritores clássicos e, aparentemente, mantiveram esse significado geográfico do século V aC até o sexto século DC (ELLIS, 1991, pp. 123-132 [sublinhados meu] – o autor da citação opta pela Espanha como alvo da narrativa lucana; mas neste texto especifico de Atos defendo a Etiópia como a referência aos “confins da terra”, pela utilização na perícope da figura central do Etíope).

            Outro aspecto muito interessante é que o contexto narrativo de Lucas entrelaça três acontecimentos tematicamente similares: a “conversão” dos samaritanos, perícope antecedente; a “conversão” do etíope e a “conversão” de Saulo/Paulo, perícope posterior, de maneira que neste arranjo literário a narrativa do etíope é o ponto de convergência.  Deste modo, podemos concluir que a narrativa do Etíope não é apenas uma nota de rodapé, como é tratado pela maioria dos comentaristas, ou incidental, mas um fato relevante para o historiador Lucas. O avivamento evangelístico dos samaritanos e a conversão de Paulo são dois rios cujas correntezas chegam à cidade de Antioquia, que se constitui na maior base missionária do cristianismo aos povos não judeus dentro do Império Romano.

Mas dentro da providência divina, e o livro de Atos é denominado por alguns comentaristas como “Atos do Espírito Santo” visto haver 59 referências à Terceira Pessoa da Trindade, escolheu esse oficial etíope para levar a mensagem do “Servo de Yahweh” isaiano (40-55) cumprido em Jesus Cristo (Messias) morto e ressurreto (Servo Sofredor 52.13-53.12) às terras mais distantes como o Continente Africano, bem como os demais pontos cardeais do planeta. Essas ações do Espírito Santo é a realização da ordem final de Jesus a todos os seus discípulos em todas as épocas – ide e pregai esse evangelho a todas as nações, povos e etnias da terra, que por sua vez é o cumprimento literal da profecia de Isaías (49.6) “até as extremidades da terra”.[3]

O Etíope e as Origens do Cristianismo no Continente Africano

O texto didaticamente nos traz as informações básicas de quem é esse Etíope eunuco,[4] o que ele estava fazendo em Jerusalém e o que estava lendo.[5]

O texto deixa claro também que não se tratava de um viajante comum e corriqueiro, mas de um alto funcionário[6] de Candace[7] da Etiópia, um reino relevante naquele tempo para o escritor e seus leitores; este Etíope tinha conhecimento da Torá e mais especificamente da literatura profética-messiânica de Isaías, possuindo inclusive os pergaminhos (rolos) deste profeta,[8] que somado à informação de que viajava em uma carruagem indica que era um homem de posses. O fato de ele viajar para Jerusalém, para adorar, indica que ele era um judeu da diáspora, um prosélito[9] ou um temente a Deus.[10]

Então a Felipe lhe é ordenado, a ação verbal está no imperativo, que se aproxime e acompanhe, bem próximo, a carruagem, de maneira que pudesse ter acesso ao viajante e este a ele, possibilitando o início de um diálogo. A proximidade permitiu que Felipe ouvisse, a leitura em voz audível era muito comum naqueles tempos, que o viajante estava lendo uma passagem do profeta Isaias, o que proporciona a Felipe fazer-lhe a pergunta inicial que produzira o diálogo: “você está compreendendo o que lê?” A simples leitura de textos bíblicos não implica necessariamente que o leitor esteja entendendo a mensagem neles contidas.  

A resposta do Etíope abre a oportunidade para que Felipe possa expor-lhe as escrituras (messiânicas) a partir de Isaías (53) e conecta-lo com tudo que tinha acontecido em Jerusalém em relação a Jesus Cristo que havia sido morto, mas ressuscitara ao terceiro dia e desta forma cumprindo as prerrogativas do Messias sofredor ao qual se refere as profecias de Isaías.[11] Esse é o centro de toda a perícope – anunciou-lhe a Jesus a partir dos sujeitos que a interpelam. É possível compararmos o modo como Filipe anuncia Cristo ao Etíope com a abordagem com a qual Jesus se auto revelou através das Escrituras aos discípulos de Emaús (Lc 24.27)[12]. Filipe já não lhe fala do Messias, mas de Jesus; como uma alusão ao destino do “Filho do Homem” (Lc 9.22; Mt 16.21; Mc 8,3).

Os versos seguintes completam a dinâmica cristã – uma vez entendido e declarado a fé em Jesus Cristo – passa-se ao batismo (vs 37,38)[13], pois todo novo convertido participa efetivamente da morte e ressurreição de Jesus Cristo.  

No verso 39 ambos retomam suas atividades, Felipe retoma sua missão evangelística em Azoto e arredores, até chegar a Cesaréia e o Etíope retoma seu caminho de volta à sua nação, mas além de suas atividades oficiais, agora ele também tem as “boas novas” para compartilhar à sua rainha e todos os moradores da Etiópia.

A Igreja Cristã na Etiópia

            Esse artigo, por suas próprias limitações, não têm a pretensão de abordar tema tão abrangente, mas apenas fazer referências que possam contribuir e estimular uma melhor compreensão e reflexão do desenvolvimento do cristianismo além das fronteiras Europa e Ásia Menor que perfazem o entorno geográfico das literaturas neotestamentária. E, como dito no início do texto, resgatar a relevância do cristianismo no Continente Africano, que tem sido ignorado pelas vertentes cristãs Ocidentais.

Início com a opinião abalizada de Maguckin:

O cristianismo no continente africano começa sua história, principalmente, em quatro locais distintos: Alexandria e Copta Egito, a região norte da África em torno da cidade de Cartago, Núbia e as estepes da Etiópia (p. 30, 2011).

Etiópia o Segundo Éden

Uma das primeiras dificuldades para tratarmos dos primórdios da igreja na Etiópia está na própria localização desta nação que em períodos tardios chegou a ser confundida com a Índia, visto que ambas as nações, no imaginário greco-romano era os “confins da terra”, o último bastião da civilização, antes da barbaria.

Foram os gregos que a denominaram pejorativamente “Etiópia” que significa “rostos queimados e/ou rostos em fogo”. Todavia, sua cultura expressa a beleza e o encanto de sua geografia, de maneira que se tornou conhecida como “uma terra de leite e mel”, uma espécie de segundo Éden, não sem razão visto que juntamente com o Quênia, foram os primeiros lugares em que os pés da primeira geração humana caminharam e habitaram. Seus habitantes sempre se constituíram em um extraordinário mosaico humano.

Uma grande maioria de estudiosos explicam as origens da civilização etíope partindo da vinda dos imigrantes da Arábia do Sul que inicialmente se estabelecem na cidade costeira de Adulis, no Mar Vermelho, e na cidade de Aksum (Axum) ao norte em busca de comércio no século 5 a.C., entretanto a civilização etíope já era muito mais antiga e muito mais estabelecida do que antes destes colonizadores a invadirem (como no caso do Brasil que os portugueses “descobriram” e das civilizações Incas e outras que foram dizimadas pelos invasores espanhóis em toda América Latina).

        Outro aspecto relevante é que seu idioma comum é chamado “cuxítica”,[14] de maneira que encontra uma ligação forte com o personagem bíblico Cuxe em Gênesis.[15] É possível encontrar elementos desta cultura cuxitas na arquitetura das primeiras igrejas ortodoxas desta região, bem como em cerimônias e expressões artísticas religiosas. Sua linguagem eclética e rítmica denominada Ge’ez (Etíope) exibem raízes cuxíticas, que biblicamente conectam a Etiópia com o território de Cuxe.

Na História Hebraica (1200 - 500 a.C.) há diversas referências a Etiópia na Torá (Bíblia Hebraica) em seu primeiro e mais antigo livro, Gênesis (2.13), é colocada em um contexto geográfico a partir do Éden; José se casou com uma mulher etíope (Gênesis 41.50-52), e os seus dois filhos (Manassés e Efraim, dupla nacionalidade) se tornaram líderes de tribos judaicas. Moisés se casou com uma mulher etíope (Números 12.1) e o pai dela Jetro, um etíope, foi um conselheiro de Moisés (Êxodo 18.1-12). Diferentemente dos povos canaanitas, aos israelitas não foi proibido o se casarem com mulheres cuxitas/etíopes (Êxodo 34.11,16). Jeudi (significa judeu), um secretário na corte do rei durante o tempo de Jeremias, era um descendente de Cuxe/Etiópia (36.14, 21, 23). O nome do avô de Jeudi (Cuxe) literalmente significa “negro” se refere a uma pessoa de descendência africana. O profeta Sofonias também possuía descendência cuxita (1.1).

A Etiópia (Cuxe) é uma das terras às quais os exilados judeus foram espalhados após a conquista babilônica de Judá e que haveriam de serem trazidos de volta (Is 11.11,12). Portanto, não seria nenhum absurdo que este oficial etíope tenha tido contato com pessoas de cultura e religião judaicas na sua região, ou talvez no Egito, onde havia se formado as maiores colônias fora da Palestina. Partindo destas primícias sua cópia do rolo de Isaías provavelmente era da Septuaginta grega, originalmente feita em Alexandria, no Egito. Visto que o reino etíope ficara parcialmente helenizado, a partir do tempo de Ptolomeu II (308-246 AEC), não era incomum que este oficial soubesse ler a língua grega. Vindo a ser um prosélito ou um temente a Deus, e sua subsequente conversão ao cristianismo, se ajusta perfeitamente às palavras do Salmo 68.31, cujo contexto é o reconhecimento de Yahweh por todos povos da terra.

Esta ligação umbilical da Etiópia/Cuxe adentra as narrativas neotestamentária. Por inferência temos Simão o Zelote, cananeu, portanto, descendente de Cam (Mateus 10.4), que dará origem aos Cuxitas/Etíopes; Simão de Cirene, uma cidade que ficava localizada no norte da África, ajudou Jesus a carregar a cruz (Mateus 15.21). Foram alguns cireneus, que se converteram no dia de Pentecostes, que chegando na cidade de Antioquia anunciaram o evangelho aos de língua grega (Atos 11.20); Apolo, originário de Alexandria (África), foi tutelado pelo casal judeu Priscila e Áquila e companheiro missionário de Paulo, tendo pregado nas comunidades cristãs de Éfeso e Corinto. Simeão Níger (o Negro) e Lúcio de Cirene (cf. acima) foram líderes na igreja de Antioquia da Síria (Atos 13.1),[16] onde os discípulos foram, pela primeira vez, chamados cristãos. (Atos 11.26). Os Sírios etnicamente eram negros. Foi na Antioquia da Síria que Lúcio e Simeão ordenaram e comissionaram o apóstolo Paulo para o ministério do evangelho (Atos 13.2,3).

As relações entre a Etiópia e Jerusalém compreendem uma das rotas mais antigas conhecidas pelos africanos por mar e terra.[17] Um dos primeiros grandes centros comerciais se formou na cidade de Axum (Aksum),[18] na mesma proporção que os comerciantes da Arábia do Sul ali foram se estabelecendo.

Na história grega poucas nações ou povos são tão mencionadas em seus registros como a Etiópia e de forma elogiosa. Nos textos antigos de Homero (800 a.C.) Ilíada e Odisseia; Heródoto (490-425) chamado “pai da história (europeia) cita com frequência a Etiópia (Histórias, Livro II, aprox. 440 a.C.); no período romano (1-200 a.C.) o termo Etiópia começou a ser relacionado em termos raciais englobando todos que tinham pele negra e cabelos grossos e enrolados (Cláudio Ptolomeu [90-168 a.C.], Tetrabiblos (grego) ou o Quadrapartitium (latim) que significa “Quatro Livros”).   

O ge'ez (gueês), também chamado de etíope, é uma antiga língua semítica que se desenvolveu na atual região da Eritreia e norte da Etiópia no Chifre da África, como a língua dos camponeses. Posteriormente a língua ge’ez veio a se tornar a língua oficial do Reino de Axum e da corte imperial da Etiópia. Ainda nos dias atuais o ge'ez permanece como língua litúrgica da Igreja Ortodoxa Tewahido da Etiópia, da Igreja Ortodoxa Tewahido da Eritreia, da Igreja Católica Etíope, da Igreja Católica Eritreia e também da Beta Israel (judeus etíopes).

Considerações Finais

A história de fundação do cristianismo na Etiópia mais historicamente substancial é a dos irmãos sírios Frumentius e Aedesius no século IV d.C., pois foram os primeiros a cristianizar uma corte real da Etiópia. Uma estratégia que teve sucesso em muitos lugares, todavia, ao não constituírem um cristianismo autóctone que pudesse perenizar o cristianismo nas diversas camadas sociais, depois de 1.100 anos, a Igreja Ortodoxa Núbia, ao sul, praticamente desapareceu quando a corte real substituiu o cristianismo pelo islamismo como religião oficial.

Entretanto, à margem do registro histórico-arqueológico, os fiéis cristãos ortodoxos etíopes têm uma variedade de “histórias de fundação” próprias, sendo a mais conhecida a história do eunuco etíope registrado por Lucas em Atos (8.26-40), conforme apresentado neste artigo. O texto histórico lucano apenas atesta que a presença de “prosélitos e/ou tementes a Deus” etíopes em Jerusalém já era um fato estabelecido no cotidiano da época de Jesus, de maneira que as literaturas proféticas judaicas relacionadas ao Messias eram conhecidas por essas pessoas.

O sucinto levantamento aqui apresentando corrobora ao menos em tese de que existe fortes indícios e embasamentos para se buscar uma origem primária para o desenvolvimento de comunidades cristãs autóctone Etíope, evidentemente não dentro dos parâmetros estruturais revelados em Atos, nas comunidades estabelecidas por Paulo e seus companheiros e sendo esta uma razão pela qual tenha proliferado uma diversidade de correntes teológicas distintas das vertentes advinda da Ásia-Europa-Palestina e que vai desembocar nos grandes embates teológicos nos séculos posteriores, quando então haverá de se estabelecer uma ortodoxia cristã dogmática.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/

Referências Bibliográficas [utilizada no texto]

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KÖESTER, Helmut. Infroducción al Nuevo Testamento. Salamanca: Ediciones Sígueme. 1988.

MAGUCKIN, John Anthony (Ed.). The Encyclopedia of Eastern Orthodox

Christianity. V. 1 (A-M). Blackwell Publishing Ltd, 2011.

PERVO, Richard I. Acts: a commentary. Minneapolis: Fortress Press, 2008. [Hermeneia].

RIUS-CAMPS, Joseph. De Jerusalém a Antioquia. Genes is de la Iglesia Cristiana: Linguístico exegético a Hch 1-12. Córdoba: Ediciones EI Almendro. 1989.

SMITH. Robert Houston. “Ethiopia”. In: The Anchor Bible Dictionaiy (Ed. David Noel Freedman). Vol. 2 Doubleday. 1992, p. 666.

BONGMBA, Elias Kifon Bongmba (Org.) The Routledge Companion to Christianity in Africa. York anda London: Routledge Taylor & Francis Group, 2016.

Referências Bibliográficas [complementares]

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JENKINS, Philip. The Lost History of Chris tianity The Thousand-Year Golden Age of the Church in the Middle East, Africa, and Asia—and How It Died. New York, NY: HarperCollins Publishers Ltd., 2008.

MESTERS, Carlos: OROFINO, Francisco. “Las primeras comunidades cristianas dentro de la coyuntura de la época: Las etapas de la historia dei ano 30-70 d.C.”. In: Revista de Interpretation Bíblica Latino Americana (RIBLA). n. 22. 1996. p. 37.1.

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Dicionários

VV. AA. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, vol. 1,2a Edição. 2000.

VV. AA. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998.

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[1] A expressão em direção “sul” é uma palavra grega (kata mesēmbria) que pode indicar um marcador temporal “meio-dia”, sendo o caso aqui significa que Felipe foi enviado para uma estrada vazia em um momento improvável do dia. Gaza era o principal centro da rota das caravanas para o Egito.

[2] Em grego “hodos” - que também poderia ser traduzido como “estrada” e, também é a palavra que dá ao livro de Êxodo seu nome: “ex-hodos”, a saída.

[3] Ao citar as palavras do Servo do Senhor Lucas faz uma alusão consciente onde a frase tem uma conotação geográfica: “Eu vou te dar como uma luz para os gentios Que minha salvação possa alcançar Até o fim da terra (έσχάτου τής γής)”.

[4] Não tenho espaço para discutir nesse texto a questão do termo “eunuco”, portanto, parto do pressuposto que aqui não se trata de um homem castrado, ainda que seja um de seus significados, mas de um título designado, conforme textos em ambos os testamentos, a altos funcionários de um reino e da mais alta confiança de seus respectivos governantes. (cf. verbete: TDNT, v.2 p. 766-7).   

[5] A passagem de Isaías citada nos vv. 32-33 é Isaías 53.7-8; mas podemos relacioná-la com Isaías 40.3-5, citado nas narrativas do batismo; e Isaías 56, que menciona especificamente os eunucos como pessoas que estarão entre "todos os povos" para quem a casa de Deus é uma casa de oração (um dos versículos para memória do próprio Jesus (Mc 11.17, somente ele registra o verso completo “para todas as nações”; Mt 21.13, Lc 19.45).

[6] Os comentadores tendem cada vez mais a traduzir a palavra eunuchos, usada em Atos, por "chanceler", que no reino de Núbia significava administrador do tesouro. Guardando semelhança com a posição de José em relação à Faraó como responsável por todos os tesouros egípcios.

[7] No período greco-romano Etiópia (Meroe) era conhecida por ter sido governada por uma linhagem de Candaces (Kandake), ou rainhas-mães. Um clássico escritor romano (Calistenes) deixou registrada sua admiração pelas Candaces, que de acordo com ele, eram mulheres fortes e de uma sabedoria ímpar.

[8] É possível que ele houvesse adquirido uma cópia dos manuscritos em Jerusalém e tenha começado a ler desde o início de sua viagem, mas nada inviabiliza que ele já possuísse estes pergaminhos antes de viajar a Jerusalém. O fato do texto citado em Atos corresponda à versão da Septuaginta (grega) e não ao texto hebraico, implica em que ele de fato não seja um judeu por nascimento, ainda que os judeus da diáspora preferissem a tradução grega para suas leituras pessoais. Lembrando que a primeira versão da Septuaginta foi produzida em Alexandria (África).

[9] Um gentio (não judeu) que adotava o judaísmo, observavam toda a lei de Moisés, inclusive a circuncisão.

[10] Um não-judeu que partilhava a fé de Israel sem a necessidade de se submeter a circuncisão. Se de fato o termo “eunuco” seja uma referência à castração, ele não poderia ser um “prosélito”, pois as leis levíticas o impediriam de vários exercícios cúlticos, incluindo a proibição de sua entrada no templo, o que reforça a ideia de que fosse um “temente a Deus” ou talvez um membro de uma lendária comunidade judaica na Etiópia.

[11] Muitos comentaristas concordam que este texto especifico de Isaías (53) era dos mais conhecidos das comunidades cristãs iniciantes e tornou-se o preferido nas pregações para conectar as profecias veterotestamentária com os acontecimentos da Paixão (cf.:  Mt 8.17; Lc 22.37; At 3.13-26; 4.27-30; Rm 10.16; 1Pe 2.21-24;).

[12] PERVO (2008, p. 219) coloca em paralelo as duas perícopes, o que facilita em muito a comparação dos dois relatos (Lucas 24.15-32; Atos 8.30-39).

[13] O verso 37 não consta nos principais manuscritos.

[14] Existem oito grupos claramente reconhecidos de idiomas que são ou costumam ser incluídos na família cuxítica, entre elas o sidamo, falado na Etiópia, com cerca de 2 milhões de pessoas.

[15] Na tradição bíblica, Cuxe e/ou Cus, foi um dos filhos de Cam que se estabeleceu no nordeste da África. Na Idade Antiga e na Bíblia, uma grande região conhecida como Cuxe abrangia o norte do Sudão, o sul do Egito e partes da Etiópia, Eritreia e Somália, e os termos Etiópia e Cuxe eram usadas como sinônimas. No período da antiguidade clássica os gregos passaram a denominar de "Etiópia" e não "Cuxe (Cus)" toda essa região e etnias nela contida.

[16] Não confundir com a Antioquia da Pisídia (At 13.14)

[17]  A distância entre Jerusalém e Etiópia de 4205 Km por estrada. 

[18] A cidade de Axum foi aparentemente fundada por volta de 100 d.C., mas a região circundante é habitada há milênios.

 

sábado, 10 de julho de 2021

Viajando no Evangelho de Marcos: Prólogo (1.1-13)[1]

 


Vimos no texto anterior o nosso roteiro como preparação para nossa viagem pela narrativa evangélica escrita por João Marcos. Hoje iniciaremos nossa jornada examinando a primeira Perícope[2] que se constitui em uma espécie de prólogo[3] do texto narrativo.[4]

A perícope é composta por três pequenas unidades literárias estreitamente unidas onde o evangelista registra os eventos que precedem imediatamente o início do ministério público de Jesus e ao mesmo tempo serve como uma introdução a toda narrativa evangélica por ele elaborada, fornecendo ao leitor pistas essenciais para a compreensão do que vira a seguir.

Na primeira unidade (v. 1-8) o evangelista apresenta a figura João Batista, sublinhando seu papel profético à semelhança do profeta Elias como o precursor do Messias; a segunda unidade (v. 9-11) apresenta Jesus de Nazaré como aquele a quem João havia apontado, registrando sua autenticação divina no momento em que se submete ao batismo efetuado por João Batista; e na terceira e última unidade (v. 14-15) Jesus é impelido pelo Espírito Santo para o deserto onde vai se preparar espiritualmente e ao final terá a primeira vitória sobre Satanás – onde Adão falhou, Jesus venceu. No último capítulo (16) Jesus terá assegurado definitivamente a Vitória sobre Satanás e a morte, para todos os que nele vierem a crer.

Primeira Unidade Literária (1.1-8)

João Marcos escolheu cuidadosamente as seis primeiras palavras de sua narrativa:[5]Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (v.1):[6]

Princípio (ἀρχή, archē):[7] não apenas no sentido cronológico, mas no sentido de origem, causa ativa – de maneira que Jesus Cristo é a nova gêneses (cf. Gn 1.1). No Evangelho de Jesus está a semente (a origem, o princípio) de um novo mundo, uma Nova Criação (2 Co 5.17).

Evangelho:[8] “boas novas; boas notícias” Jesus não apenas anunciara o evangelho, mas Ele mesmo é as Boas Novas. Marcos está comunicando aos seus leitores de que em Jesus ocorre um evento histórico que haverá de proporcionar salvação para toda humanidade.

Temos aqui um contexto profético veterotestamentário = Isaias (61.1s) fala das boas novas que o Messias trará; o primeiro texto que Jesus leu na sinagoga falava da libertação dos oprimidos (cf. Lc 4.17s); Deus está presente (Is 40.9) e no controle (Is 52.7) de tudo que estará sendo narrado, ou seja, Deus no começo, no meio e no fim.

Jesus Cristo:[9] O nome composto = Jesus[10] (o Senhor salva) e Cristo[11] (messias, ungido – a esperança de Israel); quando Marcos compõe sua narrativa está combinação nominal já havia se convertido em nome próprio. Jesus Cristo é o cumprimento de toda Esperança contida nas Escrituras do Primeiro Testamento. As palavras pronunciadas pelo velho sacerdote Simeão, quando toma o bebê Jesus em suas mãos resume toda a expectativa dos crentes israelitas em todos os tempos: “Ele, então, o tomou em seus braços, e louvou a Deus, e disse: Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, Segundo a tua palavra; pois já os meus olhos viram a tua salvação, a qual tu preparaste perante a face de todos os povos; luz para iluminar as nações, e para glória de teu povo Israel” (Lc 2.25-32).

Filho de Deus:[12] O evangelista eleva o tom e declara com todas as letras que Jesus não é um homem comum. Ele está escrevendo sobre aquele que sendo Deus assumiu a nossa humanidade (1.1,14). Ele é mais do que qualquer um dos profetas, como Elias ou o próprio Batista, pois Jesus é o próprio Filho de Deus e o evangelista irá concluir sua narrativa com está mesma declaração, agora pronunciadas pela boca de um centurião romano: “verdadeiramente, este homem era Filho de Deus(15.39).[13]

Então, este título declara quatro verdades importantes em relação a Jesus:

1. Ele é verdadeiramente humano – Ele tem um nome humano – Jesus.

2. Ele é verdadeiramente divino – Ele é o Messias prometido. Ele é o Filho de Deus.

3. Ele é verdadeiramente único – Ele é tanto a humanidade quanto a deidade em uma Pessoa.

4. Ele é a verdadeira fonte de Boas Notícias – Só Jesus é a fonte da salvação!

João Batista e seu ministério (1.2-8)

Voz Profética (v.2-3): a sua vinda não fora acidental, mas amplamente preparada em cada um de seus detalhes, como tão bem as narrativas iniciais de Mateus e Lucas esclarecem; Marcos em suas palavras iniciais não deixa qualquer dúvida sobre essa preparação declarando que João Batista é o cumprimento das profecias (Malaquias 3.1 e Isaías 40.3); a primeira frase é de Malaquias (400 anos antes) “Eis que envio o meu mensageiro diante da tua face, que preparará o teu caminho diante de ti” – a segunda proferida 700 anos antes pelo profeta Isaías o mais evangélico dos profetas: “A voz de quem clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas”.[14] Ambos os profetas olham para frente – “Deus está para agir” – e o Batista irá apontar para Jesus e dirá = “Deus já está agindo” a promessa está sendo cumprida.

João Batista e sua Mensagem: Ele surge do deserto – trazendo à memória judaica o Êxodo efetuado por meio de Moisés – agora Deus inicia um Novo Êxodo por meio de seu Filho Jesus Cristo. Se no primeiro os israelitas estavam escravos dos egípcios; agora eles estavam escravos de um sistema legalista religioso – representado no Templo e seus Sacerdotes. Os que querem OUVIR a voz de Deus tem que SAIR e ir para o Deserto (deixa meu povo ir falou Moises à Faraó).

João Batista rompe um silêncio de 400 anos (Malaquias a Marcos) – o povo espera que Deus torne a falar por meio da voz profética (Malaquias predisse que um novo Elias será levantado por Deus Malaquias 4.5-6) e João Batista é esse novo Elias; e curiosamente em toda sua narrativa Marcos não faz qualquer retrato falado de Jesus – nada ficamos sabendo da pessoa de Jesus; todavia, o evangelista faz uma descrição minuciosa do Batista. Por que?

Justamente porque Marcos deseja fazer a ligação direta entre João Batista e o profeta Elias. A mensagem do Batista é o cumprimento da Profecia – “Preparai o Caminho do Senhor (Messias); endireitai suas veredas”. Assim como a mensagem de Elias era para toda a nação israelita e conclamava todos ao arrependimento e a reconciliação com Deus, a mensagem do Batista é radical para todos: pobres, ricos; sacerdotes, levitas: arrependei-vos! Assim como Elias denuncia os pecados do rei Acabe e Jezabel (1 Reis 19-22), o Batista vai denunciar a relação irregular de Herodes Antipas e seu relacionamento imoral com Herodias (Salomé), esposa de seu irmão Herodes Filipe I, sendo está a causa de sua decapitação (Mc 6.14-29; cf. Mt 14.1-12; Lc 9.7-9).

Arrependimento (metanoia) é uma mudança deliberada do coração e da mente; confessando os pecados (reconhecendo que está vivendo longe da vontade de Deus) e se submetendo ao batismo (representação externa/visível do arrependimento interno/invisível). A genuína tristeza pelo pecado conduz à uma conversão e que envolve uma completa mudança de vida (novo nascimento). O arrependimento implica em perdão – que estará disponível plenamente em Jesus Cristo.

E João Batista tem plena consciência disso: ele declara que está para surgir, ainda naqueles dias, alguém que é MAIOR do que ele; pois, ainda que João seja um grande profeta, Jesus é de uma ordem de grandeza diferente – Jesus é o Filho de Deus e plenamente cheio do Espírito Santo e Poder – o batismo efetuado por Jesus, segundo as próprias palavras do Batista, não é com água, mas com fogo purificador.

As palavras de João Batista em relação a Jesus demonstram o caráter e a humildade dele: “não sou digno nem mesmo de desamarrar os cordões de suas sandálias” – que era a função do menor escravo em uma casa. Esta humildade faltará aos próprios discípulos no Cenáculo – assim, como falta a nós hoje.

Essa primeira referência ao Espírito Santo tem como objetivo linkar Jesus com a Salvação prometida nas Escrituras do Primeiro Testamento e que implicava no derramar do Espírito Santo (Joel 2.28s; Ezequiel 36.26s) que haverá de se cumprir após sua ascensão, no transcorrer da festa do Pentecostes.

Conclusão desta primeira unidade (1.2-8): o evangelista declara que a vinda do Batista inicia o cumprimento das antigas promessas de Salvação (Messiânicas); ele prepara o caminho do Senhor (Messias), onde o povo por meio de seu arrependimento e batismo são preparados para receber a Salvação. O cenário está pronto – então no verso 9 diz Marcos: JESUS CRISTO VEIO!

Vamos Orar! Espírito Santo capacita-nos a compreendermos a tua palavra e que possamos te louvar continuamente por tão grande salvação que nos foi dada graciosamente por meio de Jesus Cristo. Que possamos seguir o modelo de João Batista e sermos também porta-vozes desta preciosa mensagem de arrependimento e perdão efetuada por meio de Cristo. Amém!

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

 

Questões Para Reflexão

1) Que outros livros da Bíblia começam com a palavra começo?

2) O que significa a palavra “Evangelho”?

3) O que é significativo sobre os títulos dados ao assunto deste evangelho?

Cristo:

Filho de Deus:

4) Quais os dois profetas que Marcos cita em relação ao ministério de João Batista?

5) Quem formava o auditório de João Batista e de onde vinham?

6) Quais eram os temas centrais da pregação de João Batista?

7) Por que Marcos se preocupa em descrever a pessoas de João Batista? Qual a relação disso com a sua missão?

8) Qual a diferença fundamental entre o batismo de João Batista e o batismo de Jesus Cristo.


Referências Bibliográficas
Utilizadas neste artigo
ALLEN, Clifton J. (Ed.). Comentário Bíblico Broadman: Novo Testamento. Tradução de Adiei Almeida de Oliveira. 3ª edição. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1986. Vol. 8 [Mateus e Marcos].
BURKITT, William. Expository Notes, with Practical Observations, on the New Testament. Philadelphia: Sobin & Ball, 1844. [Mark].
CRANFIELD, C. E. B. The Gospel According to Saint Mark. Nova Iorque e Londres: Cambridge University Press, 1959. [The Cambridge Greek Testament Commentary].
FARRER, AUSTIN. A Study in St. Mark. New York; Oxford University Press, 1952.
Referências Complementares
EARLE, Ralph, SANNER, A. Elwood e CHILDERS, Charles L. Comentário Bíblico Beacon – Mateus a Lucas. v. 6. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.
SPROUL, R. C. St. Andrew’s Expositional Commentary Mark. Michigan: Reformation Trust Publishing, 2011.
POHL, Adolf. O Evangelho de Marcos Comentário Esperança. Tradução Hans Udo Fuchs. Curitiba, PR: Editora Evangélica Esperança, 1998.
HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Marcos. Tradução Elias Dantas. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003.
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[1] Este material foi preparado para pequenas devocionais matinais as quais estou acrescentando algum material novo e principalmente as notas de rodapé. Deste modo você pode ler somente o corpo do texto ou se aprofundar um pouco mais examinando as notas.

[2] Perícope: do grego "recortar" refere-se a uma seção (parágrafo) de texto delimitado a partir de seu conteúdo. A divisão do texto bíblico em versículos, com raras exceções, não respeita as perícopes do texto hebraico e grego e em alguns casos acaba por descaracterizar o texto e dificultar sua análise hermenêutica.

[3] Uma seção introdutória explicando o que acontece antes da ação principal.

[4] Alguns defendem a opinião de que a primeira perícope de Marcos consiste em 1.1-15.

[5]O primeiro versículo não é meramente um título. Ê uma nota-chave para o livro, como um todo” (ALLEN, 1986, p. 326).

[6] Austin Farrer chama essas palavras iniciais de “uma semente, da qual crescerão as sentenças seguintes” (FARRER, 1952, apud ALLEN, 1986, p. 326).

[7]Aqui é usado sem o artigo definido indicação de que funciona como um título. Arche é usado 4x em Marcos (1.1; 10.6; 13.8 e 13.19 – cf. Gn 1.1; Jo 1.1,2ss; 1Jo 1.1ss). Cranfield cita dez possíveis pontos de vista sobre a relação de 1.1 com o livro como um todo (1959, p. 34-35).

[8] O termo vai sofrendo uma evolução em sua abrangência: Primariamente, como aqui em Marcos, significava especificamente a vida e obra de Jesus Cristo; posteriormente passou a identificar está e as demais literaturas produzidas pelos evangelistas e depois passou a abranger todas as literaturas neotestamentária.

[9]Este evangelho é chamado de Evangelho de Jesus Cristo, porque Cristo, como Deus, é o Autor deste evangelho, e também o principal sujeito e assunto dele. Ainda que São João Batista seja o precursor da mensagem evangélica, mas o próprio Cristo foi o primeiro e principal autor, e da mesma forma o principal assunto dela; pois tudo o que é ensinado no evangelho diz respeito à pessoa e aos escritórios de Cristo, ou aos benefícios recebidos por ele, ou aos meios de usufruir desses benefícios dele”. (BURKITT, 1844).

[10]O nome "Jesus" é a transliteração grega do nome hebraico "Josué". Significa "Jeová é Salvação". Jesus é um nome humano e revela a razão pela qual Jesus veio a este mundo. Jesus veio a este mundo para salvar pecadores perdidos, e seu nome "Jesus" declara sua pessoa e sua missão.

[11] Isso identifica Jesus como o "Messias judeu", ou "o Ungido". O nome "Cristo" declara sua posição. Jesus é retratado como aquele que salvará seu povo de seus inimigos.

[12] Alguns manuscritos não trazem essa declaração, mas em uma ampla maioria ela é parte integrante do texto. E está em perfeita harmonia com toda a narrativa marcana.

[13] Contudo, são singularmente apropriadas dentro da narrativa marcana: os demônios o declaram (3.11; 5.7) e em duas ocasiões o Pai faz a declaração forma da filiação divina dele (1.11 batismo; 9.7 transfiguração).

[14] Era uma prática hermenêutica dos escritores bíblicos moldarem a citação de dois textos bíblicos mantendo a nomenclatura de apenas um deles, demonstrando a qual dos dois colocava sua ênfase teológica. No caso especifico de Marcos ele quer enfatizar as palavras dos profetas Isaías, o mais antigo, e a reforça com o eco destas palavras em Malaquias, que quase trezentos anos depois faz referência à mesma promessa. Pensar que Marcos não se utilizou desta prática e que as palavras de Malaquias foram inseridas posteriormente por copistas é uma pressuposição altamente questionável. A opção pela tradução “no profeta Isaías(NIV), em vez de “nos profetas(FIEL) demonstra o equivoco da primeira e a coerência da segunda tradução.