terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Evangelho Segundo Lucas: Data e Propósito


Data
Normalmente temos dois períodos sugeridos para a data do Evangelho de Lucas que são: (1) 59-63 d.C., e (2) 70s ou 80s, mas a conclusão de Atos mostra-nos que Paulo esteva ainda vivo em prisão domiciliar em Roma, e desde que o Evangelho é uma pesquisa anterior, escrito antes de Atos (cf. Atos 1:1), o Evangelho de Lucas deve ter sido escrito no período mais antecipado, cerca 60 d.C. Entretanto, sugerindo que o Evangelho de Lucas recebeu seu formato final na Grécia e não em Roma, alguns têm sugerido 70 d.C.
            O comentarista Anthony Lee Ash destaca que os defensores destas duas hipóteses quanto à datação partem de um mesmo argumento: a destruição de Jerusalém pelo exercido romano, que ocorreu em 70 d.C.
É interessante notar que argumentos, tanto para a data anterior como para a posterior, são baseados na relação entre o evangelho e a destruição de Jerusalém. Os favoráveis aos anos sessenta afirmam que Lucas com seu interesse especial na profecia não deixaria de implicar claramente a queda de Jerusalém, caso tal acontecimento tivesse ocorrido. Por outro lado, os favoráveis aos anos setenta argumentam com base numa comparação entre o discurso apocalíptico de Lucas (cap. 21) e Marcos 13. Eles indicam que as minúcias descritas por Lucas quanto à queda da cidade mostrariam que o evento já era passado. Desde que os escritores do evangelho nem sempre transmitiam as palavras exatas de Jesus, é possível que as mesmas tivessem sido registradas por Lucas em termos do evento real. Não parece possível, porém, chegar a uma data conclusiva para o evangelho a partir desta linha de pensamento (1980, p. 9-10).
            Por sua vez Nicoll indica as razões que levam alguns comentaristas a pensarem em uma data muito avançada para a data deste evangelho:
A data definitivamente não pode ser fixada. Opiniões variam de 63 d.C. aos primeiros anos do segundo século. Para uma data avançada 90 d.C. é compatível se o escritor é mais jovem e um companheiro de Paulo nos movimentos missionários posteriores dele. Ainda para uma data posterior de 100 ou 105 d.C. seriam requeridos se fosse certo, o qual não é, que o escritor usou as “Antiguidades de Josefo” que foi publicado em 93-94. Dr. Sanday, em seu trabalho, expressa a visão de que Atos foi escrito em 80 d.C., e o Evangelho o precedeu uns cinco anos aproximadamente (1961, p.51).
            O Evangelho segundo Lucas provavelmente foi o último dos chamados Evangelhos Sinóticos a ser escrito. Desde que a narrativa evangélica precede Atos, e que ao final de Atos o apóstolo Paulo ainda esta vivo e que ele foi morto com toda certeza antes de 70, as datas mais conservadoras é de que foi provavelmente escrito entre 60 ou 63 DC, certamente antes da queda de Jerusalém (70 d.C.) e provavelmente enquanto Lucas estava com Paulo em Roma ou durante os dois anos em Cesaréia.
            Na dobradinha Lucas-Atos outros fatores que embasam essas datas mais conservadoras são a incerteza de onde o cristianismo se encaixa entre as religiões do Império Romano, mormente o cristianismo era apenas mais uma seita do judaísmo; Lucas-Atos não menciona a destruição de Jerusalém; e a relação interna das comunidades cristãs expressão ainda os conflitos entre judeus e gentios no mesmo nível que nas epístolas de Paulo.
Propósito
O propósito de Lucas é claramente exposto no prólogo do Evangelho:
Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo, acerca de tudo que Jesus começou, não só a fazer, mas a ensinar, até ao dia em que foi recebido em cima, depois de ter dado mandamentos, pelo Espírito Santo, aos apóstolos que escolhera; aos quais também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias e falando do que respeita ao Reino de Deus. E, estando com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, que (disse ele) de mim ouvistes (1.1-4).
Há várias coisas que podemos destacar com respeito ao propósito dele  para elaborar este  evangelho:
Lucas declara que seu trabalho foi estimulado pelo trabalho de outros (1.1), que ele consultou testemunhas oculares (1.2), e que ele selecionou e organizou estas informações (1.3) sob a orientação do Espírito Sagrado para instruir o Teófilo na confiança histórica da fé (1.4). Este é um trabalho cuidadosamente pesquisado e documentado. 
Sendo ele um gentio, ou seja, não de origem judaica, Lucas deve ter se sentido responsável em escrever seus dois volumes contando a vida de Cristo e tornando-a disponível aos leitores gentios. Isto parece evidente pelo fato de que ele tem o cuidado de traduzir os termos Aramaicos (o hebraico popular) por suas similares gregas; esclarece os costumes judaicos, bem como a geografia palestina de modo que sua narrativa evangélica seja inteligível para os seus leitores originais.  Por fim, em Lucas, transparece um universalismo gentílico, que vai além dos estritos limites judaicos, como veremos mais à frente.
A narrativa lucana é a mais longa e compreensiva dos Evangelhos, para o leitor que não estavam familiarizados com as Escrituras judaicas. Ele apresenta o Salvador como o Filho do Homem (Homem Perfeito)[1] que veio procurar e salva o perdido (19:10). Em Mateus vemos Jesus como Filho de Davi, o Rei de Israel; em Marcos o vemos como o Servo do Senhor, servindo outros; em Lucas o vemos como o Filho do Homem, um homem perfeito dentre os homens, escolhido dos homens, testado dentre os homens, e supremamente qualificado para ser o Salvador e Sumo Sacerdote. Em Mateus vemos agrupamentos de eventos significativos, em Marcos vemos a revelação destes eventos significativos, mas em Lucas vemos mais detalhes destes eventos pelo prisma deste médico-historiador.
Em Lucas a natureza perfeita de Jesus Cristo, tanto como Filho do Homem como Filho de Deus, é demonstrado pelo seguinte:
1. Seu nascimento físico bem como sua genealogia traçada de forma a retornar até Adão (3.38) (Mateus retrocede apenas até Abraão).
2. Seu desenvolvimento mental é acentuado (2.40-52).
3. Sua moral e perfeição espiritual são acentuadas, bem como evidenciadas no seu batismo, pela voz do Pai dos céus e pela unção do Espírito Santo.
Assim, segundo Lucas, em Jesus nós temos Um que é plenamente perfeito — física, mental, e espiritualmente.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Historiologia Protestante
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Referências Bibliográficas
ASH, Anthony Lee. O Evangelho Segundo Lucas. Tradução Neyd V. Siqueira. São Paulo: Editora Vida Cristã, 1980.
BETTENCOURT, Estevão. Para Entender os Evangelhos.  Rio de Janeiro: Agir, 1960.
CARSON D. A., DOUGLAS, J. Moo & MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo:  ed. Vida Nova, 1997.
CASALEGNO, Alberto. Lucas – a caminho com Jesus missionário. São Paulo: Edições Loyola, 2003.
CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado – versículo por versículo, v. II. São Paulo: Millenium, 1987.
________________________. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.3. São Paulo: Candeia, 1995.
GOODSPEED, Edgar J. An Introduction to the New Testament. Chicago, Illinois: University of Chicago Press, 1937.
LEAL, João. Os Evangelhos e a Crítica Moderna. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1945.
MORRIS, Leon L. Lucas – introdução e comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 2008. [Série Cultura Cristã].
TENNEY, Merrill C. O Novo Testamento - sua origem e análise, 2a ed. São Paulo: Vida Nova, 1972.



[1] No pensamento greco-romano a busca pela perfeição humana, mental e fisica, era um objetivo a ser alcançado.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

ATOS: Temas Relevantes


Ainda que classifiquemos o livro de Atos como sendo histórico, não significa que Lucas tinha em mente apenas e tão somente registrar alguns acontecimentos e personagens inseridos no desenvolvimento do cristianismo do primeiro século. Podemos e devemos estudar este livro da mesma forma com que estudamos os evangelhos e as epístolas – procurando nele a revelação e o propósito de Deus para as nossas vidas.
Tanto em Atos como nos evangelhos podemos reconhecer e extrair as ênfases teológicas que estavam inicialmente sendo elaboradas pelos primeiros cristãos. Evidentemente que estas questões embrionárias estão sendo desenvolvidos em meio aos mais diversos acontecimentos e somente muito mais tarde serão sistematizadas no esforço de as entendermos melhor. Vejamos alguns destes aspectos teológicos que emanam das paginas de Atos:
Ação Soberana e Providencial de Deus: Desde o principio Lucas deixa claro para Teófilo de que a história do cristianismo, bem como toda  história humana, esta sendo conduzida em todos os seus mínimos detalhes pela vontade soberana de Deus. Em cada relato histórico é perceptível as continuas ações da Providência divina. Podemos afirmar que o livro de Atos ficaria tranquilamente confortável na companhia dos chamados livros históricos do Primeiro Testamento [AT]. Assim, seja nos momentos de paz e tranquilidade ou nos momentos mais duros e implacáveis aqueles cristãos sempre creram que Deus estava no controle absoluto de todas as coisas. Para Lucas os acontecimentos descritos são realizados de acordo com a vontade de Deus (cf. 2.23; 4.27-29; etc.) e a história da Igreja somente é possível de ser compreendida à luz da direção de Deus (cf. 13.2; 15.28; 16.16; etc.).
A Cristocentricidade da Mensagem: O kerigma ou pregação e a didake ou ensino apostólico e gerações seguintes estava totalmente centrada nos diversos aspectos da obra de Jesus Cristo. A ressurreição, a ascensão, a glorificação e a sua volta, como Senhor e Juiz (cf. 2.32-36; 3.20 e 26; 17.29-31; 26.22-23; etc.) são extratos da declaração de fé da Igreja cristã nos primórdios da sua história. Aqui também encontramos referência aos diversos títulos cristológicos que manifestam sua divindade e sua missão redentora – Senhor (2.36); Salvador (5.31); Servo de Yahweh (3.13,16); Justo (7.52); Santo (3.14) e sobretudo Cristo (Messias) que se torna um sobrenome próprio. Jesus sempre foi e deveria continuar sendo o centro convergente da vida e da pregação da Igreja o que em diversos momentos da história da igreja deixou de ser e creio que hoje esta muito longe de ser a realidade de muitas “igrejas” evangélicas brasileiras.
A Igreja: Ainda que ela não seja o Reino de Deus ela foi constituída para agregar os súditos deste Reino e para manifestar no mundo os valores espirituais do Reino. É nela e através dela que a verdade deve ser vivenciada e proclamada a todas as pessoas e nações, eliminando-se todas as barreiras étnicas. Sendo ela a “nova comunidade”, conforme o relato de Atos, mesmo sofrendo a rejeição por parte da maioria dos judeus, manifesta vivencialmente a mensagem do evangelho (cf. 10.1-11.18). É, portanto o verdadeiro Israel, um povo novo e universal de vínculos espirituais, cuja natureza é essencialmente missionária.
Compreensão Trinitária: Os primeiros cristãos sempre tiveram uma consciência quanto a realidade da Trindade (cf. 4.8-12; 4.24-27; 15.23-29; 22.13-16; 26.12-18 e 28.23-28). Nunca houve qualquer dúvida que tudo que concerne à salvação e à Igreja somente foi possível pela efetiva ação perfeitamente sincrônica do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Pneumatologia: Acompanhando perfeitamente o ensino de Jesus registrado em seu primeiro volume, Lucas realça de forma maravilhosa a ação continua do Espírito Santo na vida da Igreja e nos acontecimentos pessoais dos cristãos primitivos. É a manifestação extraordinária do Espírito, no Pentecostes, que se torna o marco inicial da Igreja e a torna capaz de levar adiante sua tarefa de propagar a mensagem da salvação por meio de Cristo. O Espírito é a possessão e o ponto convergente de todos e cada um dos cristãos, assim como a fonte de alegria e fervor eletrizante que caracterizava aqueles primeiros dias. É o Espírito que capacita e insere cada crente em seu respectivo ministério para melhor desenvolvimento a Igreja. A expansão do cristianismo em tão pouco tempo e de forma tão abrangente somente foi possível pelo poder e obra do Espírito Santo. Assim, do ponto de vista de Lucas, absolutamente nada acontece na vida da Igreja e dos cristãos sem a participação efetiva do Espírito Santo. Alguns comentaristas bíblicos tendem a denominar este livro de “o Evangelho do Espírito Santo”.

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Guedes, Ivan Pereira
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Referências Bibliográficas
BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras, v. 6. São Paulo: Vida Nova, 1989.
BERKHOF, Louis. New Testament Introduction. Eerdmans, 1915, https://archive.org/details/NewTestamentIntroduction Scanned and Edited Mike Randall.
CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 8ª ed., 2006.
ERDMAN, Charles R. Hechos de Los Apóstoles. Ed. TELL, 1974.
RICE, Edwin W. People’s commentary on the Acts giving. Philadelphia: The American Sunday-School Union, 1896.
RYRIE, Charles C. Bíblia de estúdio Ryrie. Chicago (Illinois): Moody Press, 1991.
SMITH, T. C. Comentário Bíblico Broadman, v.10. Rio de Janeiro: JUERP, 1984.
WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo – Atos. São Paulo: Vida, 1996.


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Jesus e os Doze Apóstolos



MARCOS – 3.13-19
MATEUS – 10.1-4
LUCAS – 6.12-16
Simão (Pedro)
Simão (Pedro)
Simão (Pedro)
Tiago (fº Zebedeu)
André
André
João (irmão Tiago)
Tiago (fº Zebedeu)
Tiago
André
João
João
Felipe
Felipe
Felipe
Bartolomeu
Bartolomeu
Bartolomeu
Mateus
Tomé
Mateus
Tomé
Mateus
Tomé
Tiago (fº Alfeu)
Tiago (fº Alfeu)
Tiago (fº Alfeu)
Tadeu
Tadeu (Lebeu)
Simão (Zelote)
Simão (Zelote)
Simão (Zelote)
Judas (fº Tiago)
Judas Iscariotes
Judas Iscariotes
Judas Iscariotes

Um dos momentos mais significativos do Ministério terreno de Jesus é quando Ele resolve chamar para junto dele um seleto grupo de discípulos, que ficaram conhecidos como Apóstolos, e que a partir daquele momento o acompanharam mais de perto e foram ouvintes de Seus ensinos e participantes de seus milagres.
Lendo os registros evangélicos deste momento não encontramos nenhum razão pessoal nos que foram selecionados, que pudessem distingui-los de tantos outros que naquele momento também seguiam a Jesus. Ao contrário, de alguns deles, encontraremos ao longo das narrativas e de Pedro mais acentuada no final, relatos pouco apreciáveis sobre a conduta deles e para piorar no momento derradeiro, quando Jesus esta sendo pregado, junto ao Calvário vamos encontrar apenas o jovem João e algumas das mulheres que acompanharam Jesus durante Seu Ministério. Tudo isso poderia contribuir para desqualificar estes selecionados, mas quando Jesus chamou cada um deles, sabia quem eram, sabia o que fariam, mas assim mesmo os chamou, pois Jesus queria estes homens e não outros.
Nenhum deles decepcionou Jesus, nem mesmo Judas Iscariotes, pois Jesus sendo Deus conhecia a cada um e suas múltiplas limitações. Amou cada um deles e os amou até o fim, amou cada um apesar de suas limitações e debilidades; se Jesus fosse chamar pessoas perfeitas, teria que chamar apenas os anjos, pois nesta terra apenas um Homem não falhou – Jesus!
O chamado deste grupo peculiar de discípulos, antes de nos desanimar, deveria nos animar, pois eles formam um representativo de todos aqueles que continuaram sendo chamados por Jesus, através do Espírito Santo, para aprender com Ele e serem enviados a proclamarem Sua mensagem ao mundo.
Jesus continua a chamar homens e mulheres, apesar do que somos, porque simplesmente nos ama e quer por nosso intermédio comunicar este amor salvador a outras pessoas, que como nós também são pecadoras que erraram e continuam a errar; o Evangelho é a mensagem apropriada para pessoas que sozinhas não conseguem servir a Deus, pois suas naturezas pecaminosas deturpam suas melhores boas intenções.
Enquanto vamos lendo as narrativas evangélicas e tomando contato com este grupo selecionado por Jesus, conhecendo cada um deles, nos sentimos mais normais, pois percebemos que eles são tão humanos e tão gente, como cada um de nós. Anima o nosso coração o fato de que Jesus não chama pessoas perfeitas, pois certamente estaríamos fora, mas chamou e continua a chamar gente como a gente, e que Ele mesmo vai pacientemente preparando para servi-Lo e realizar a Sua vontade e o Seu propósito eterno.
Na medida em que conhecemos um pouco sobre cada um deste seleto grupo dos Doze, temos a oportunidade de vê-los como espelhos que refletem cada um de nós, crentes sim, desejos de fazer a vontade de Jesus sim, mas que como pessoas tropeçaram na pedra da contradição humana que Paulo tantas vezes também tropeçou, de maneira que as coisas boas e certas que sabemos devem ser feitas, não fazemos, mas as coisas ruins e erradas que sabemos não devemos fazer, fazemos. Quando estamos conscientes da nossa indignidade para merecer a misericórdia e o amor de Deus, estamos em melhor posição para experimentar o que ele pode fazer por nós.
Vamos examinar, como introdução, apenas algumas observações sobre os textos evangélicos que registram o momento singular da escolha deste grupo.
Os Doze Apóstolos
Para qualquer leitor do Primeiro Testamento [AT] fica fácil identificar a relação direta que Jesus pretende fazer entre Seu Ministério e a História de Israel. Deus forma a nação israelita a partir dos doze filhos de Jacó (Israel) e agora Ele vai iniciar a formação do Novo Israel a partir deste grupo de Doze Apóstolos. Assim como Israel deveria ser uma bênção a todas as famílias da terra (Gn 22.17-18 e 26.4), a partir deste novo Israel (Igreja) a mensagem salvadora deve ser proclamada a todas as nações e até os confins da terra.
Comparando as Três Listas
Lucas destaca que Jesus utiliza um termo técnico diferente para este grupo – “apóstolos” em lugar de “discípulos”. O objetivo esta na nova função que eles iram desempenhar e não necessariamente em uma promoção; “discípulo” é alguém que aprende fazendo, o nosso “aprendiz”, enquanto que “apóstolo” é alguém comissionado a realizar uma tarefa oficial, o que eles farão em breve.[1]
Primeiro vem o Discipulado e somente então o Apostolado "Jesus nomeou os Doze para estarem com ele e, em seguida, enviou-os com sua autoridade, [em uma missão oficial], para anunciar a Boa Nova. Muitas pessoas querem a autoridade de um Pedro ou João sem primeiro passar pela escola de discipulado. Aqueles doze receberam necessária instrução, treinamento, prática e acima de tudo, o tempo para amadurecer. Devemos estar dispostos a gastar tempo aprendendo com o Mestre, antes de ir para frente a fazer o seu trabalho público" (Barton, p. 81).
Conforme indicado acima, três dos quatro evangelistas fornecem uma lista com os nomes dos doze selecionados. Marcos os dispõe de dois em dois, uma vez que posteriormente Jesus haverá de envia-los de dois em dois (Mc 6.7) e provavelmente fosse esta a formação das duplas.
                De alguns deles nada ficamos sabendo como Bartolomeu, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Zelote, e dos demais temos parcas informações nas narrativas evangélicas, de maneira que muitas informações sobre eles somente será encontrada fora das narrativas bíblicas. O que não é de surpreender, pois os evangelistas querem falar sobre Jesus Cristo e não sobre os seus discípulos, mesmo deste grupo seleto apostólico. Esta é a diferença entre o Evangelho bíblico e o Evangelho atual: no primeiro é Jesus o centro da narrativa e das atenções; no Evangelho atual os pregadores se fazem o centro das atenções. Se autopromovem, dando a si mesmo os títulos e colocando suas imagens em pôsteres e outdoors imensos.
Destacam-se algumas observações e mudanças feitas aos nomes de alguns deles: Simão é alterado para Pedro (a rocha) e Levi altera-se para Mateus (o presente de Deus). Tiago, um dos mais velhos e João, o mais jovem do grupo, recebem a alcunha de “Boanerges” (filhos do trovão), por causa de suas atitudes impulsivas (Mc 9.38-41; 10.35-39; Lc 9.54-55). As mudanças de nomes são comuns nas narrativas bíblicas e implica sempre em mudança de caráter (de vida) e no caso dos “Boanerges” posteriormente um deles, João, será identificado como o Apóstolo amoroso; e que transformação ocorre com Pedro, de acovardado, à beira da fogueira, transforma-se em Pedro o destemido, diante do Sinédrio. O Evangelho de Jesus transforma vidas!
Encontramos também algumas combinações estranhas nesta seleção de Jesus. Um exemplo é Simão, o Zelote, e Mateus, o cobrador de impostos compartilhando refeições juntos e convivendo pacificamente no mesmo grupo. Afinal de contas, os zelotes acreditava que eles eram chamados por Deus para se envolverem em uma guerra santa contra "os poderes das trevas" e/ou “os inimigos de Israel” e na visão deles todos os cobradores de impostos, como Mateus, eram traidores da pátria e da própria religião judaica e deveriam ser mortos. Mas tal é o poder transformador de Cristo, que Ele poderia até mesmo incluir uma tão improvável combinação em seu pequeno grupo de apóstolos. E não poderíamos deixar de destacar Judas Iscariotes que O traiu" (Mc 3.19) que se constitui em uma lembrança, ainda que triste, de que a Igreja de Jesus nunca será perfeita enquanto aqui neste mundo. A Igreja sempre terá seus Judas, mesmo em ministérios. Mas Deus não a abandona e nem a despreza, ao contrário, assim como Jesus amou Judas Iscariotes até o fim, inclusive se utilizando dele, Ele ama e utiliza-se de cada um em Sua Igreja.
Outra característica do trio evangélico é que os quatro primeiros a serem chamados por Jesus são mencionados primeiramente, ainda que em sequência diferente: Mateus e Lucas os mencionam em pares de irmãos; Marcos (como Atos) coloca André por último (Pedro, Tiago, João), seguindo o critério de intimidade no grupo apostólico e Mateus é um nome aramaico; Tadeu aparece em alguns manuscritos como Lebeu (não nos dois mais antigos) e Lucas o chama de “Judas, filho [ou irmão] de Tiago” (Lc 6.16; At 1.13).[2]
Por último podemos ressaltar o fato de que as três listas iniciam sempre com Pedro e conclui sempre com o nome de Judas Iscariotes. O adjetivo Zelote pode se referir a uma pessoa que era zelosa da Lei (como Saulo) ou alguém que foi membro do grupo revolucionário da época; Iscariotes  se refere a uma pessoa que tinha origem do vilarejo  Queriote nas regiões da Galileia.

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas
BARTON, Bruce. Mark - Life Application Commentary, Wheaton, 2000.
BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras, v. 6. São Paulo: Vida Nova, 1989.
BERKHOF, Louis. New Testament Introduction. Eerdmans, 1915, https://archive.org/details/NewTestamentIntroduction Scanned and Edited Mike Randall.
CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 8ª ed., 2006.
TASKER, R. V. G. The gospel according to St. Matthew. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1961.[ Tyndale New Testament Commentaries].





[1] O termo vem do grego (enviado, embaixador, ou mensageiro) comissionado para comunicar uma mensagem especifica. A Septuaginta, versão grega do AT, utiliza o termo para traduzir o hebraico (salah - enviar), que inclui ideia de alguém que está investido de autoridade, pela autoridade que o enviou. Na sua forma substantiva aparece setenta e nove vezes no Novo Testamento (dez nos Evangelhos; vinte e oito em Atos; trinta e oito nas Epístolas, e três no Apocalipse).
[2] “Pode ser que Judas fosse o seu nome verdadeiro; porém, mais tarde, devido ao estigma ligado ao nome Judas Iscariotes, Tadeu (que talvez signifique “de coração bondoso”) tenha sido um nome que substituiu o nome Judas”. (TASKER, 1961, p. 107).

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

ATOS: A Simetria Lucana de Pedro e Paulo


Mesmo uma leitura superficial do livro de Atos proporciona ao leitor destacar dois personagens entre todos os demais – Pedro e Paulo.
Evidentemente que Lucas não tem como objetivo fazer uma biografia de nenhum destes dois apóstolos. Mas dentro de sua elaboração redacional ele achou por bem centralizar sua narrativa ao redor destes dois homens que à maneira e movidos pelo Espírito Santo tornaram-se ícones da expansão do cristianismo na Palestina e adjacências e depois por todo o império Romano e o mundo.
Conforme veremos abaixo a primeira parte do livro de Atos trás a figura de Pedro em destaque e em sua segunda e final parte realça a pessoa de Paulo. E o autor demonstra toda sua capacidade literária, pois consegue utilizar-se destes dois personagens sem menosprezar os demais personagens em sua importância e significado para o desenvolvimento do cristianismo. Pudéramos aprender com Lucas e termos a sensibilidade de realçar o papel dos lideres proeminentes sem menosprezar a importância significativa de cada um daqueles que efetivamente participam da realização deste maravilhoso projeto divino, através da Igreja.

PEDRO
Ações Simétricas
PAULO

1.21-22
Ambos funcionam como testemunhas de Cristo ressuscitado
23:11; 26:16

2.1-40
O Espírito Santo dá início e orienta suas ações
13.1-40
3.12-26
Ambos curam pessoas que são coxos
13.1-40
5.34-39
Ambos são defendidas pelos fariseus do Sinédrio
 23.9
6.1-6
Ambos nomeiam outros líderes orando e impondo as mãos
14.23
6.8-8.4 (Estevão)
A sua perseguição leva a ampliação da missão
14.19-23
6.13-14
(Estevão)
Ambos são acusados de agir contra Moisés (lei)
21.20-21; 25.8
8.9-24
Ambos enfrentam um mágico
13.6-12
8.14-17
Ambos conferem o Espírito através da imposição das mãos
19.1-6
9.36-43
Ambos ressuscitam uma pessoa
20.9-12
10.25-26
Alguns gentios querem adorá-lo
14.13-15
11.1-18
Em Jerusalém ambos saem em defesa dos gentios
21.15-40
12.4-7
Ambos são presos e libertos sobrenaturalmente
21.16-28
12.24
Conclusão: o evangelho continua a se expandir
28.30-31


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Referências Bibliográficas
BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras, v. 6. São Paulo: Vida Nova, 1989.
BERKHOF, Louis. New Testament Introduction. Eerdmans, 1915, https://archive.org/details/NewTestamentIntroduction Scanned and Edited Mike Randall.
CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 8ª ed., 2006.
ERDMAN, Charles R. Hechos de Los Apóstoles. Ed. TELL, 1974.
RICE, Edwin W. People’s commentary on the Acts giving. Philadelphia: The American Sunday-School Union, 1896.
RYRIE, Charles C. Bíblia de estúdio Ryrie. Chicago (Illinois): Moody Press, 1991.
SMITH, T. C. Comentário Bíblico Broadman, v.10. Rio de Janeiro: JUERP, 1984.
WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo – Atos. São Paulo: Vida,1996.