Definição:
A palavra alegoria deriva do grego ἀλληγορία, que significa
“falar de outra forma”. Trata-se de um modo de interpretação ou discurso em que
o sentido literal é ultrapassado em favor de um significado oculto ou mais
profundo.
Origem e uso:
Desde a Antiguidade, diferentes povos utilizaram a alegoria como recurso para
preservar o valor de textos antigos, reinterpretando-os de acordo com novas
ideias e contextos culturais. No campo religioso, a alegoria veio a se
constituir em uma ferramenta hermenêutica para a interpretação das Escrituras,
tanto no judaísmo quanto no cristianismo.
Características principais:
- Distinção entre o sentido aparente e o
sentido oculto do texto.
- O significado velado é considerado mais
importante, ou mesmo o verdadeiro, sendo entendido como intenção original
do autor ou de Deus.
- Frequentemente usada para harmonizar
textos sagrados com filosofias contemporâneas, como a filosofia grega.
No Judaísmo:
- Intérpretes da Diáspora, especialmente em
Alexandria, aplicaram a alegoria para mostrar que os livros sagrados
continham a sabedoria da filosofia grega.
- O filósofo judeu Fílon de Alexandria
(século I d.C.) foi o maior representante desse método, com obras como Allegories
of the Sacred Laws.
- Josefo
também reconheceu que Moisés ensinava “sob uma decente alegoria”.
No Cristianismo:
- A interpretação alegórica aparece já na
Era Apostólica, embora menos frequente no Novo Testamento do que em
escritos posteriores, que não foram inseridos no cânon.
- Paulo utiliza explicitamente linguagem
alegórica em Gálatas 4:24-30, ao interpretar Agar e Sara como
representações de duas alianças. Todavia, a alegoria paulina é diferente
do alegorismo filosófico alexandrino, que frequentemente dissolvia a
história em símbolos abstratos. Aqui o apostolo não nega a historicidade
de Agar e Sara, mas interpreta suas histórias como figuras
pactual-redentivas que apontam para a relação entre a antiga e a nova
aliança em Cristo.
- Apressadamente muitos afirmam que “a
Epístola aos Hebreus é rica em elementos alegóricos, de forte influência
alexandrina”, todavia, precisa ser tratada com bastante nuance histórica e
hermenêutica. Muitos intérpretes preferem dizer que Hebreus utiliza uma hermenêutica
tipológica em vez de alegórica. O sistema cultual do Antigo Testamento
aparece como “sombra” e “figura” das realidades celestiais cumpridas em
Cristo: “os quais ministram em figura e sombra das coisas celestes” (Hb
8.5). De modo que, a relação entre antigo e novo não destrói a realidade
histórica do antigo; antes, estabelece uma continuidade redentiva entre
promessa e cumprimento.
- Os Evangelhos apresentam linguagem
simbólica, metafórica e, em certos casos, elementos alegóricos,
especialmente nas parábolas interpretadas por Jesus (Mc 4:13-20; Mt
13:24-30) e nos discursos simbólicos joaninos (Jo 10:1-16; 15:1-8).
Entretanto, tais recursos permanecem profundamente enraizados na tradição
veterotestamentária e na proclamação do Reino de Deus, distinguindo-se do
alegorismo filosófico helenístico.
Nos Pais da Igreja (período pós-apostólico)
Nos Pais da Igreja, especialmente na tradição alexandrina, a
alegoria foi amplamente utilizada como meio de interpretar o Antigo Testamento
em chave cristológica. Orígenes desenvolveu a teoria dos múltiplos sentidos da
Escritura, enquanto Agostinho empregou frequentemente leituras espirituais e
simbólicas. Contudo, a Escola de Antioquia reagiu contra os excessos
alegóricos, enfatizando o sentido histórico-gramatical e distinguindo tipologia
de alegoria especulativa. O diálogo e tensão entre Alexandria e Antioquia
marcaram profundamente a história da exegese cristã e influenciaram tanto a
Idade Média quanto a hermenêutica posterior.
Uso Medieval
Durante a Idade Média, a alegoria tornou-se um dos métodos
predominantes da exegese bíblica, especialmente na tradição monástica e
patrística tardia. Em alguns casos, seu uso levou a interpretações altamente
especulativas e afastadas do sentido histórico-literal do texto. Ainda assim,
muitos intérpretes medievais entendiam a alegoria como um meio legítimo de
revelar a profundidade espiritual e cristológica das Escrituras.
Reforma Protestante
Os excessos alegóricos medievais provocaram reação entre os
reformadores do século XVI, que buscaram recuperar o sentido
histórico-gramatical das Escrituras. João Calvino, em especial, criticou
interpretações alegóricas arbitrárias que obscureciam a intenção original do
texto bíblico. Embora não rejeitasse o uso legítimo de figuras, símbolos e
tipologia cristológica, a hermenêutica reformada passou a enfatizar a exegese
literal-histórica como fundamento seguro da interpretação, em contraste com
muitos excessos do alegorismo medieval.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Referência Bibliográfica (utilizada
como base do artigo)
ANGELADA, Paulo. Introdução à
Hermenêutica Reformada. Recife: Knox Publicações, 2016.
→ Síntese brasileira da hermenêutica reformada clássica.
CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã.
São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
→ Base teológica da hermenêutica reformada (ênfase na clareza do texto e no
controle do sentido pelo contexto).
LUTERO, Martinho. Preleções
sobre Gálatas. São Leopoldo: Sinodal, 2008.
→ Crítica ao alegorismo medieval e defesa do sentido direto da Escritura.
RAMM, Bernard. Interpretação Bíblica
Protestante. São Paulo: Edições Vida Nova.
→ Clássico evangélico; sistematiza o método histórico-gramatical e critica
excessos alegóricos.
YOUNG, Frances M. Biblical
Exegesis and the Formation of Christian Culture. Cambridge: Cambridge
University Press, 1997.
→ Mostra a transição entre alegoria patrística e leitura mais histórica.
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